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O ensino de jornalismo como um encontro e não como um discurso


A formação do jornalista é uma discussão sempre presente no universo profissional e acadêmico, seja nos congressos, nas salas de aula ou nas redações. Dentre as principais questões, revelam-se a defesa da ética, da cidadania e do interesse público como características intrínsecas ao fazer jornalístico, assim como o alerta e a adaptação diante das constantes transformações tecnológicas e dos modelos de gerir e produzir conteúdos. Uma missão árdua para os professores dos cursos de comunicação, especialmente os de jornalismo, que, da mesma forma, necessitam estar preparados para desafios como as mudanças curriculares, os passaralhos, a ausência de investimento nas faculdades, o declínio dos impressos (entre eles, os jornais-laboratórios), entre outros fatores que interferem na profissão.




O atual professor do curso de jornalismo e do Mestrado Profissional em Produção Jornalística e Mercado da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM/SP) Enio Moraes Júnior conhece o universo tanto das faculdades públicas como das privadas. Foi docente na Universidade Federal de Sergipe (UFS) e nas Faculdades Integradas Alcântara Machado (Fiam), além de pesquisador na Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo e na Universidade do Minho, em Braga (Portugal), entre outras.

Nesta entrevista, o autor do livro Formação de Jornalistas: elementos para uma pedagogia de ensino do interesse público (Editora Annablume, 2013) aponta caminhos para o jornalismo pelo olhar do docente preocupado não só com os seus alunos, mas também com o futuro de um dos mais nobres (e atualmente criticados) ofícios da história da humanidade.

Uma ação potencializadora da cidadania

Quais foram as causas que o fizeram despertar para um assunto tão divergente que é a formação em jornalismo?

Enio Moraes Júnior – Quando despertei para a formação de jornalistas como objeto de estudo, não partia de uma divergência, mas de uma certeza. A certeza de que a formação é, sim, um requisito coerente para o exercício da profissão. E nos meus estudos, nas pesquisas de mestrado e doutorado, minha preocupação sempre foi entender qual o melhor caminho para formar jornalistas a serviço daquilo que justifica historicamente a profissão: o compromisso com a democracia, com o cidadão. A mim, interessa profundamente a dimensão política da formação e da atuação desse profissional. O jornalista é um sujeito que tem em suas mãos um poder muito importante, o poder da transformação. Ser jornalista é saber entender e acolher, em cada sociedade e em cada época, aquilo que ela é; aquilo que ela tem, potencialmente, de melhor, e devolver-lhe caminhos para que ela possa transformar-se e ser melhor ainda. A história do jornalismo é a história de uma luta nobre e digna em defesa dos direitos humanos, contra o machismo, o racismo, a homofobia e contra formas de preconceito. Por conta disso, formar jornalistas é um compromisso muito sério e que me chama atenção. O jornalista, assim como o professor, é um potencializador do que de melhor há no outro. Por isso, minha paixão pelo jornalismo, pelo ensino do jornalismo e pela formação de jornalistas.

Poderia explicar de que forma as suas pesquisas discutem questões necessárias e intrínsecas ao jornalismo, como a cidadania e o interesse público?

E.M.J. – Falar da cidadania e do interesse público é falar dos direitos humanos, do respeito ao próximo. O ponto de partida para a discussão dessas questões, em meus estudos, tanto no mestrado como no doutorado, e em projetos que tenho empreendido junto a grupos de pesquisa, tem sido a ideia de que o jornalismo toma, em sua produção diária, bem como na formação dos seus profissionais, um único partido: o do ser humano. Dessa forma, a prática da profissão, assim como o processo formativo desses indivíduos, tem como dimensão essencial a cidadania; o potencial de cada indivíduo para construir um mundo melhor para si e para o outro. E a força motriz, para isso, é o interesse público que permeia a ação do jornalista. Uma filósofa de quem gosto muito, Hannah Arendt, colocava a condição humana como estabelecida pela ação de cada indivíduo como fundamentada não apenas em si mesmo, mas também no outro. Nesse sentido, entendo que a ação de interesse público, por parte do jornalista, seja ao optar por uma determinada pauta ou ao procurar ouvir os diferentes lados de uma mesma questão, como uma ação potencializadora da cidadania. Afinal, a partir do momento em que temos um cidadão melhor informado, temos também um cidadão mais preparado para lutar e assegurar sua cidadania, bem como para replicar esse dever e esse direito na sociedade onde ele vive.

O aprendizado da cidadania

Há um debate constante sobre a docência em jornalismo, com alguns grupos defendendo os acadêmicos e outros os profissionais em sala de aula. Como ambos poderão contribuir para a formação dos futuros jornalistas?

E.M.J. – A minha visão de jornalismo e de formação está sedimentada muito mais em um sentido do que deve ser sempre o jornalismo e menos em uma experiência de “chão de fábrica”. E é excelente que ela não seja a única. Há colegas que trazem exatamente outra abordagem. E quanto mais referências da profissão e da sua construção os alunos receberem no espaço da escola durante a formação, melhores jornalistas eles serão e mais a serviço da democracia eles prestarão. Por isso, penso que os professores, com seus diferentes e até divergentes perfis, devem ser parceiros. É cada vez mais difícil, nas escolas de jornalismo, encontrar um docente com perfil 50% acadêmico e 50% de redação. Eles são raros, mas existem, e são bem-vindos. Entretanto, o mais comum é que, em algum momento da vida, os profissionais optem por um caminho ou por outro. Dessa forma, o que eu entendo ser ideal para as faculdades é que se tenha em seus quadros, os dois perfis profissionais trabalhando de forma integrada. Aliás, vejo a produção laboratorial conduzida por esses dois tipos de professores como riquíssima para o aprendizado do aluno. Penso que já não se pode mais trabalhar em cima do velho paradigma formação teórica versus formação prática. Cada vez mais as coisas têm que estar articuladas, como sugerem, inclusive, as novas Diretrizes para a formação de jornalistas. Nesse sentido, se pensarmos em uma escola que valorize prática e teoria andando juntas, poderemos ter diferentes professores realizando um trabalho muito mais rico para o aluno. Assim, o estudante poderá entender que teoria não é algo que serve a um determinado fim e a prática, a outro. O formando será colocado em uma engrenagem de produção da notícia em que entenderá que as duas coisas caminham juntas, que elas são inseparavelmente uma mesma coisa. E ele só tem a ganhar com isso.

Diversas vezes conversarmos sobre a sua preparação para a docência em jornalismo. Diante da questão anterior, o que o professor precisa privilegiar em sua formação?

E.M.J. – A pergunta que você me faz já tem, em si, a melhor das respostas. O professor, seja em qualquer área, não apenas no jornalismo, precisa privilegiar cada vez mais a sua formação docente. Nunca vi sentido nos relatos sobre professores de jornalismo que, indignados com a produção de alguns de seus alunos, rasgavam laudas ou quebravam máquinas de escrever em sala de aula. Penso que avançamos para um nível de compreensão da educação dentro de algo mais centrado naquilo que é o estudante; naquilo que ele traz para o processo educativo; em algo que o convida a participar do processo educativo, como poderiam dizer Carl Rogers ou John Dewey. Por isso, penso que o professor de jornalismo tem que saber ensinar, precisa fazer cursos de aprimoramento em didática do ensino superior. Mas há outro elemento muito importante: a dimensão política do jornalismo precisa ser, sempre, valorizada na formação do jornalista – como em qualquer forma de educação, como diria Paulo Freire. Em tempos como os de hoje, especialmente no Brasil, onde as questões ligadas à intolerância têm me preocupado bastante. Vivemos em um país onde vez por outra aparecem casos de desrespeito, tanto por parte de líderes religiosos e políticos, como também de cidadãos que ocupam os palanques online. É preciso que o professor de jornalismo não perca de vista a dimensão política da sua profissão. A minha pesquisa de mestrado, que concluí há quase dez anos na USP, com orientação do professor José Coelho Sobrinho, revelou que o aluno de jornalismo, durante a sua formação, aprende cidadania sobretudo com o exemplo dado pelo professor, em sala de aula. Ou seja: cidadania também se aprende na escola, mas não apenas por meio dos conteúdos curriculares, mas, inclusive, por meio da dimensão humana, do contato professor – aluno. Só um bom cidadão consegue ser um bom professor. Isso idealismo? Sim. É, assim, que a educação constrói um bem que só se materializa no futuro, num futuro sempre por vir. Provocar cada cidadão para acreditar e construir um futuro melhor deve ser a busca mais incessante de quem se propõe a ensinar.

Os desafios da profissão e da vida

Seguindo na questão docente, quais são os principais atributos para se ministrar um curso de qualidade em jornalismo?

E.M.J. – Eu aqui vou retomar a resposta anterior e acrescentar que o professor tem que ser congruente. A ideia de congruência vem de Carl Rogers. Ser congruente significa ser coerente. Não tem sentido eu ser professor, falar todo o tempo a respeito de um jornalismo cidadão e de interesse público, de um jornalismo a serviço da democracia, se não tenho um comportamento democrático em sala de aula. Se eu não sou capaz de, com as minhas práticas pedagógicas, educar, dificilmente serei capaz de educar com os conteúdos que ministro. E o aluno percebe isso. Eu gosto muito da forma como a cultura oriental aborda a figura do mestre. Não se trata de alguém que está apenas à frente, na sala de aula, ministrando conteúdos. É algo mais completo, mais complexo, quase uma filosofia de vida, uma forma de ser. Isso fica claro, inclusive, nos filmes sobre artes marciais. Nesse sentido, esse compromisso com a educação é fundamental para qualquer professor. No caso específico do professor do jornalismo, penso que entender a complexidade do mundo contemporâneo, transportando cada acontecimento global para o local, é também fundamental. Afinal de contas, o jornalismo deixou de preocupar-se com a cidade e a repercutir os fatos do mundo já faz tempo… O que nos dizem respeito a crise da economia grega e os conflitos na Síria? O que tem a ver com os estudantes de jornalismo de São Paulo o trabalho escravo que ocorre nos bairros periféricos da cidade? Ponderar sobre esse tipo de questão, pautá-las e reportá-las no noticiário é dever do jornalista. Por conta disso, penso que uma formação política e geopolítica é cada vez mais uma formação que diz respeito ao professor e ao aluno de jornalismo. Mas não reside nessas questões a valorização do jornalismo e do seu ensino. Acho que temos também levar em conta a responsabilidade dos governos e das escolas nesse processo. Embora ache que já estivemos mais distantes disso, ainda não somos a pátria educadora que deveríamos ser. A educação e o professor precisam ser efetivamente respeitados. Essa é base de qualquer governo que se pretenda e que se diga sério. Se é a educação que nos move para o futuro, sem ela não há planos, não há como ter projetos, não há como garantir o que seremos amanhã.

Por fim, o que procura transmitir aos seus alunos?

E.M.J. – Ser professor não é simplesmente estar com os alunos, todos os dias, em sala de aula. É “encontrar-se” com cada um, um “encontro” assim mesmo, entre aspas. Isso é que deveria ser a verdadeira educação. Vinícius de Moraes dizia que, ao longo da vida, a gente não faz amigos, mas a gente os reconhece. Parodiando-o, diria que o professor tem que aprender a reconhecer seu aluno, perceber que com o aluno a gente não está, a gente “se encontra” em um espaço onde há quase que um acordo pressuposto, pré-estabelecido, de boa vontade. E esse acordo, no meu entendimento, pressupõe que o trabalho do professor não é ensinar, mas oferecer ao aluno elementos para que ele seja capaz de aprender e de amadurecer para a vida. No meu caso, procuro transmitir aos meus alunos segurança para enfrentar os desafios da profissão e até mesmo da vida. Há algumas máximas que eu costumo usar em sala de aula. Uma delas, que repito nos primeiros encontros, é que não estou ali para dar respostas, mas para provocar perguntas que eles mesmos terão que responder e para as quais eu procurarei apenas mostrar caminhos. Acho que o professor tem que ser um mobilizador astucioso que se “encontra” com o aluno que está à sua frente e lhe fornece instrumentos para que ele, eventualmente, seja o melhor agente possível em favor dos seres humanos. Nesse sentido, o que eu mais procuro transmitir aos meus alunos é um sentimento de segurança e bem-estar diante de um mundo em que nada está pronto e que tudo está e estará, sempre, por fazer, e que parte desse fazer está nas mãos deles.

***

Luciano Victor Barros Maluly é doutor em Ciências da Comunicação e professor de Jornalismo, ambos na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo

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