Há uma palavra que parece carregar dentro de si o movimento do mundo: virada. A gente vira a página de um livro, vira a esquina de uma rua, vira a noite trabalhando tentando escrever uma crônica, vira o rosto para esconder uma lágrima. Vira o calendário, vira o ano, vira a sorte. Há quem vire as costas para o passado e quem passe a vida inteira tentando virar o jogo. Mas nem toda virada faz barulho. Algumas acontecem no silêncio de uma madrugada, quando a coragem, cansada de esperar, resolve finalmente acordar.
Dona Francisca, por exemplo, nunca imaginou que sua grande virada aconteceria aos sessenta e dois anos. Depois de uma vida inteira lavando roupa para fora, viu-se diante de uma máquina de costura herdada da irmã. As mãos, acostumadas ao sabão e à água fria, aprenderam a conversar com linhas e tecidos. No começo, costurava pequenos consertos. Depois vieram vestidos, uniformes, encomendas. Um dia, pendurou na porta de casa uma placa escrita à mão: Costuras da Chica.
Não ficou rica, mas passou a assinar o próprio destino com a linha da independência. Sua virada não apareceu nos jornais, não mereceu discursos nem fotografias. Coube inteira naquele pequeno letreiro, onde uma mulher que sempre trabalhara para os outros descobriu que ainda podia construir alguma coisa para si.
Já Antônio, motorista de ônibus, experimentou uma virada bem diferente. Durante vinte anos, percorreu as mesmas ruas, enfrentou os mesmos engarrafamentos e ouviu as mesmas reclamações dos passageiros. Conhecia a cidade pelos buracos do asfalto e pelas histórias que entravam pela porta da frente. Até que, numa manhã de segunda-feira, recebeu a notícia de que a empresa encerraria suas atividades.
Aos cinquenta anos, desempregado, Antônio sentiu que o mundo havia feito uma curva sem avisá-lo.
Passou semanas olhando pela janela, vendo os ônibus seguirem seus caminhos enquanto o dele parecia interrompido. Até que a filha, estudante de pedagogia, lhe perguntou por que não terminava os estudos que havia abandonado na juventude.
Antônio resistiu. Disse que estava velho, que não tinha cabeça para aquilo, que os livros pertenciam a outra estação da vida. Mas voltou à escola. Na primeira noite, sentou-se na última carteira, envergonhado. Meses depois, já era o primeiro a levantar a mão. Descobriu que existem viagens que não precisam de volante e estradas que começam dentro de um caderno.
A vida lhe havia tirado uma direção, mas lhe oferecia a possibilidade de encontrar outra.
Também havia Clara, professora de escola pública, dessas que carregam no coração mais alunos do que cabem numa sala de aula. Clara pensou em desistir muitas vezes. Faltavam livros, sobravam dificuldades. Havia dias em que o salário parecia pequeno demais para sustentar os sonhos e grande demais era o cansaço para continuar acreditando. Certa manhã, encontrou sobre sua mesa uma carta de um antigo aluno.
Ele havia ingressado na universidade. Na última linha, escreveu: “Professora, a senhora me ensinou que o lugar onde nascemos não precisa determinar até onde podemos chegar.”
Clara chorou.
Naquele instante, compreendeu que sua virada não consistia em abandonar a sala de aula, mas em reencontrar o sentido de permanecer nela. Porque existem viradas que mudam o caminho. Outras mudam apenas o nosso modo de caminhar. E há aquelas que ultrapassam a vida individual e alcançam as ruas, as praças, as cidades, o país inteiro.
O Brasil também conhece suas viradas.
É um país que, entre avanços e retrocessos, aprendeu que a democracia não é uma estrada reta. É um caminho construído por milhões de passos, por disputas, divergências, conquistas e escolhas. Um caminho que exige vigilância, respeito e a capacidade de reconhecer no outro o mesmo direito de existir, pensar e sonhar.
Em tempos de eleição, a palavra virada ganha uma força especial.
Ela sai das conversas de esquina, atravessa as mesas de bar, invade as redes sociais e chega às casas onde famílias inteiras acompanham, entre expectativas e apreensões, a contagem dos votos. Foi assim que a trajetória de Lula, marcada por derrotas, vitórias, afastamentos e retornos, transformou a ideia de virada em uma imagem recorrente da política brasileira.
No segundo turno de uma eleição, cada voto participa de uma história coletiva. A virada nas urnas, quando acontece, não é apenas uma mudança na posição dos candidatos. É também a demonstração de que, numa democracia, o resultado pertence à vontade expressa pelos eleitores, e não às certezas antecipadas por quem disputa o poder.
Para uns, o resultado representa esperança. Para outros, preocupação ou discordância. E talvez esteja justamente aí uma das maiores responsabilidades democráticas: compreender que a vitória de um candidato não elimina a cidadania de quem escolheu outro. A democracia precisa continuar depois da apuração.
Precisa chegar à mesa de Dona Francisca, ao emprego de Antônio, à escola de Clara. Precisa ser percebida na dignidade do trabalho, no acesso à educação, no alimento que não pode faltar, no direito de falar e de ser ouvido. Porque uma virada política só encontra seu significado mais profundo quando a vida das pessoas também encontra oportunidades de melhorar.
E o povo, esse personagem imenso que raramente cabe inteiro nos discursos, continua fazendo suas próprias viradas. É a mãe que consegue matricular o filho na universidade. O agricultor que vê a chuva chegar depois de uma longa estiagem. O jovem que conquista o primeiro emprego. O aposentado que recupera a tranquilidade de comprar seus remédios. A família que, depois de tantas dificuldades, volta a fazer planos para o futuro.
Nenhuma dessas histórias depende apenas de um homem, de um partido ou de uma eleição. Dependem de trabalho, políticas públicas, oportunidades, escolhas e de uma sociedade que não desista de si mesma. Talvez seja esse o verdadeiro sentido da virada: a possibilidade de que o amanhã não esteja condenado a repetir o ontem. Afinal, a vida não avisa quando vai mudar de direção.
Às vezes, a virada chega como tempestade. Outras vezes, como uma brisa que abre discretamente a janela. Pode nascer de uma perda, de um encontro, de uma decisão ou de um voto. O importante é compreender que virar não significa necessariamente esquecer o caminho percorrido. Significa reconhecer que ainda existe estrada pela frente.
Dona Francisca continua costurando. Antônio continua estudando. Clara continua ensinando. E o Brasil continua escrevendo, entre conflitos e esperanças, as páginas de sua história. Todos, à sua maneira, procuram a mesma coisa: um amanhã que valha a pena.
Porque, no fundo, a maior virada não é simplesmente trocar quem está no poder, mudar de profissão ou começar outra vez.
A maior virada acontece quando aquilo que parecia impossível deixa de ser apenas esperança e começa, finalmente, a se tornar realidade.
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade






















































