Há cenas da política brasileira que parecem escritas por um cronista de humor ácido. O plenário está cheio. Microfones ligados. Câmeras apontadas. Vereadores, Deputados e senadores ocupam seus lugares. Alguém se levanta porque foi convidado pela presidência da casa, abre a Bíblia e faz uma leitura bíblica antes do início da sessão. Por alguns minutos, reina uma espécie de solenidade. Fala-se em Deus. Pede-se sabedoria. Invoca-se a paz. Talvez alguém mencione amor ao próximo.Então a Bíblia é fechada. E começa a sessão.
Cinco minutos depois, aquilo que parecia uma cerimônia religiosa transforma-se em ringue verbal. Parlamentares trocam acusações, levantam a voz, interrompem-se, chamam uns aos outros de mentirosos, fofoqueiros, ladrões, incompetentes, fracos. O adversário deixa de ser um cidadão que pensa diferente e passa a ser tratado como inimigo.
É quando a Bíblia parece permanecer sobre a mesa, enquanto seus ensinamentos são expulsos pela porta. Não há problema algum em um parlamentar professar sua fé. A liberdade religiosa é um dos pilares de uma sociedade democrática. O problema está em transformar a fé em cenário, ritual obrigatório de aparência ou instrumento de manipulação política.
Porque existe uma diferença enorme entre ter fé e usar a fé. A primeira transforma a pessoa. A segunda pode transformar o eleitor em instrumento.
O que deveria ser um momento de reflexão acaba, muitas vezes, funcionando como uma espécie de verniz moral. Lê-se um versículo para depois agir como se ele não tivesse sido lido. É como lavar as mãos antes de sujá-las. E talvez seja justamente essa contradição que mais deveria incomodar.
Não porque a política deva ser silenciosa diante da religião. Pelo contrário. O parlamentar tem todo o direito de acreditar, rezar, citar a Bíblia e buscar nela inspiração para sua vida pública. Mas a Bíblia não deveria servir como salvo-conduto para a grosseria. Nenhum versículo transforma ofensa em argumento. Nenhuma oração santifica uma mentira. Nenhum discurso sobre Deus absolve automaticamente a corrupção. Nenhuma citação bíblica concede ao político o direito de humilhar o adversário.
E certamente nenhuma leitura religiosa deveria ser utilizada para convencer o eleitor de que determinado grupo político possui uma espécie de certificado divino de superioridade moral. O fenômeno é perigoso porque a fé, para milhões de brasileiros, não é apenas uma opinião. É território sagrado. É memória de mãe, conselho de avó, oração antes de dormir, promessa feita em momento de desespero, esperança guardada quando quase tudo parece perdido.
Quem manipula essa fé sabe disso. Sabe que o eleitor religioso pode não enxergar apenas um candidato diante de si. Pode enxergar alguém que se apresenta como defensor de Deus, da família, da moral e dos bons costumes. E, quando a política veste uma fantasia religiosa, qualquer crítica ao político pode ser apresentada como crítica à própria fé.
É aí que a democracia começa a respirar com dificuldade. O adversário político deixa de ser adversário. Torna-se inimigo de Deus. A divergência vira pecado. A oposição vira perseguição. A pergunta vira afronta. A crítica vira heresia.
E o debate democrático, que deveria ser construído com argumentos, passa a ser disputado com dogmas. É uma forma particularmente perigosa de manipulação porque não procura convencer apenas a razão. Procura sequestrar a consciência. O parlamentar diz: "Deus está conosco".
Mas quem autorizou alguém a falar em nome de Deus para ganhar uma disputa política? Deus não participa de bancada. Não assina requerimento. Não pede voto. Não precisa de líder partidário. E, principalmente, não deveria ser transformado em cabo eleitoral.
A cena do plenário revela uma ironia quase perfeita: abre-se a sessão com uma leitura que fala de amor, justiça ou sabedoria e, poucos minutos depois, os mesmos homens e mulheres que ouviram aquelas palavras começam a se comportar como se Deus tivesse deixado o recinto pela porta dos fundos.
Talvez a pergunta mais importante não seja: "Quem leu a Bíblia?" Mas: "Quem conseguiu levar aquela leitura para dentro das próprias atitudes?" Porque ler a Bíblia é fácil. Difícil é praticá-la quando o adversário está diante de nós. É fácil falar em amor ao próximo quando o próximo concorda conosco. Difícil é respeitá-lo quando ele pensa diferente. É fácil defender a paz diante das câmeras.nDifícil é controlar a língua quando o plenário ferve.
É fácil pedir sabedoria a Deus. Difícil é reconhecer que podemos estar errados. É fácil falar de honestidade. Difícil é permitir que a transparência alcance também os próprios interesses.
A política precisa de ética, mas a ética não pode ser terceirizada para a religião.
O Estado democrático não precisa saber qual político reza mais. Precisa saber quem cumpre a lei, respeita as instituições, administra corretamente o dinheiro público e trata o cidadão com dignidade.
O eleitor também precisa desconfiar de quem usa Deus como argumento para escapar da crítica.
Porque uma democracia saudável não precisa de políticos santos. Precisa de políticos responsáveis. Não precisamos eleger apóstolos. Precisamos eleger representantes. E talvez esteja na hora de deixar a Bíblia fazer aquilo que uma Bíblia deveria fazer: provocar consciência, não fabricar votos.
Que ela permaneça aberta sobre a mesa, sim. Mas que suas palavras atravessem a mesa, atravessem o microfone e cheguem até o comportamento de quem ocupa o plenário. Caso contrário, a leitura bíblica corre o risco de se transformar apenas em ritual. Uma espécie de prólogo religioso para uma peça política na qual, cinco minutos depois, entram em cena os gritos, as acusações, os insultos e as velhas guerras de sempre.
Há algo profundamente triste nessa imagem. A Bíblia aberta. A consciência fechada. E a democracia pagando a conta.
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade
























