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quarta-feira, 1 de julho de 2026

CRÔNICA DO DIA: Madrugada no Arraial

O mundo lá fora, com suas preocupações solares e seus relógios impiedosos, parece cessar de existir a partir do momento em que o ponteiro marca três da manhã no arraial da Maria Aragão. O calor diminui, a poeira baixa e até as conversas parecem falar mais baixo.

As luzes dos refletores ganham uma tonalidade mais quente, amarelada, como se o próprio tempo tivesse se cansado de correr e resolvido descansar sobre as telhas de zinco e a terra batida do terreiro. Naquela hora da madrugada, o intervalo sagrado onde o cansaço do corpo, em vez de exigir o repouso do sono, o corpo dói, mas ninguém pensa em ir embora.

O brincante que ainda está de pé naquele estágio de transbordamento não é mais o mesmo homem ou mulher que acordou às cinco da manhã para enfrentar a lida. Ele é puro espírito, pura cadência, pura entrega.

O boi, que nas primeiras horas da apresentação parecia um espetáculo externo, agora habita o interior de cada participante como uma segunda natureza. A armação já não pesa; as penas, que antes causavam um desconforto constante, são sentidas como uma extensão da própria pele. É como se a alma do folguedo houvesse finalmente invadido os corpos vacilantes dos brincantes.

Ninguém mais tropeça, ninguém mais se perde no compasso da matraca. A orquestra, ainda que seus integrantes sintam os lábios dormentes e as mãos calejadas pela fricção infinita, toca com uma precisão que beira o sobrenatural. A música continua como se ninguém estivesse cansado. Parece que quanto mais a noite avança, mais força ela encontra.

Nesta hora, o público que resta: os devotos, os apaixonados, os que se recusam a abandonar o encanto observam em um silêncio reverente. Não há mais aplausos estrondosos, nem os gritos de euforia do início da noite. O que se ouve é uma respiração comum. A fronteira entre o que é o "batalhão" e o que é "plateia" torna-se porosa, quase inexistente.

Em um canto, um velho brincante fecha os olhos e deixa o corpo balançar sozinho, seus pés desenhando círculos no chão como se ele estivesse se comunicando com os antepassados que, naquele momento de lucidez absoluta, parecem caminhar lado a lado com os vivos. Limpa o suor do rosto, fecha os olhos sorri sozinho e continua a dançar. Para ele, o tempo parou não porque o espetáculo acabou, mas porque a vida se revelou em sua forma mais pura: o movimento.

A alma do boi domina tudo. A força de Pai Francisco, a insistência de Catirina, a altivez do caboclo de pena, tudo é destilado em toadas que ganham tempos mais longos, mais profundos, quase meditativos. Não há pressa para terminar. A ideia de que o arraial deve se encerrar parece um absurdo, uma intrusão indesejada de uma realidade que não compreende o que se passa aqui dentro.

Naquele horário já não dava para separar o que era festa, fé ou costume. Tudo parecia a mesma coisa. Cada giro do boi é uma oração, cada batida na matraca é um sinal de que, naquele pedaço do Maranhão, a eternidade não é um conceito teórico, mas um compasso que se repete infinitamente pelas mãos incansáveis dos músicos.

O silêncio das ruas vizinhas, que já dormem em um sono profundo, faz com que o som do arraial pareça ainda mais potente, um farol de resistência cultural que brilha solitário na noite fria. Os brincantes, banhados pelo sereno que começa a baixar, sentem a pele arrepiar, não de frio, mas da vibração intensa das vozes que se juntam no refrão.

É o momento de maior transparência emocional. Sem o sol para julgá-los, sem as rotinas a cumprir no dia seguinte ou, pelo menos, esquecendo-se temporariamente da existência delas, eles se permitem ser o boi. O miolo, protegido pela escuridão do veludo, sente-se mais leve do que nunca. Os vaqueiros, antes tão preocupados com a proteção do boi, agora apenas deixam a música conduzir sua guarda.

Quando a aurora começa a desenhar as primeiras linhas de cor cinza no horizonte, revelando a silhueta das palmeiras e a austeridade dos telhados da cidade, o encanto não se quebra; ele apenas se transforma. É uma melancolia doce, o reconhecimento de que a perfeição é, por natureza, breve. Eles continuam resistindo ao raiar do dia.

Quando o dia finalmente clareia, ninguém sabe ao certo quando o cansaço vai voltar. Durante aquelas horas, ele simplesmente desapareceu. O boi continua rodando, as matracas seguem marcando o compasso e os últimos brincantes permanecem de pé. Quem vive aquela madrugada entende que ela não cabe no relógio. Ela pertence ao coração de quem aprendeu que, enquanto houver uma toada ecoando pelo terreiro, o boi nunca deixa de caminhar.

José Casanova

terça-feira, 30 de junho de 2026

CRÔNICA DO DIA: O Duelo entre a Gramática e a Voz

 

Na praça central de Bacabal, o sol já tinha decretado trégua e a lua começava a subir por trás da torre da Igreja de Santa Teresinha. O povo se aglomerava em um círculo imperfeito, atraído não por milagres, mas por uma briga de palavras que prometia ser mais sangrenta que briga de faca. De um lado, ajustando o nó de uma gravata borboleta que parecia estrangular seu pescoço fino, estava o Professor Aderbal, gramático emérito, autor de três manuais de sintaxe e terror de gerações de alunos do Colégio Nossa Senhora dos Anjos. Do outro, com um chapéu de couro puído e uma viola que parecia extensão de seu braço, estava Chico Timbira, repentista cuja fama corria o Mearim mais rápido que notícia ruim.

O tema do duelo fora sorteado por uma menina da plateia: "A Língua do Povo".

Aderbal tomou a frente, pigarreando como se fosse iniciar uma aula magna. Ergueu o dedo indicador, rígido como uma régua.

Nobre auditório, peço vênia e atenção,

Para expor com clareza a correta dicção.

A língua é um templo, sagrado e formal,

Não se deve macular com gíria de quintal.

Sujeito e predicado em nupcial harmonia,

Seguindo a norma culta, a luz da sabedoria.

Quem fala 'nós vai' comete um pecado mortal,

Pois fere a concordância, o pilar gramatical!

Houve aplausos tímidos, vindos principalmente das professoras aposentadas que ocupavam os bancos da frente. Aderbal sorriu, satisfeito com sua defesa da pureza linguística.

Chico Timbira nem se mexeu. Apenas dedilhou a viola, tirando um acorde menor que soou como um lamento zombeteiro. Olhou para o professor com a paciência de quem ensina o caminho da roça a um doutor perdido.

Seu doutor fala bonito, com a boca cheia de dente,

Mas esquece que a língua é bicho vivo e quente.

O povo não pede licença pra dizer o que sente,

O 'nós vai' chega mais rápido, atropela o presente.

Sua gramática é cerca de arame farpado,

Prende o boi no pasto, deixa o verso amarrado.

Mas minha viola é vento, pulando o cercado,

E a fala do povo corre solta, sem pecado!

A plateia explodiu. Risos, assobios. Um homem gritou:

- Eita, que o violeiro deu um nó na gravata do professor!

Aderbal sentiu o rosto queimar. Aquilo era uma afronta à lógica. A língua não podia ser "bicho solto". Sem regras, haveria o caos. Sem a norma, como diferenciaríamos a barbárie da civilização?

Ele respirou fundo e contra-atacou, buscando refúgio nos clássicos.

Citas o vento, ó bardo de estrada e poeira,

Mas esqueces Camões, a nossa grande bandeira!

A língua de Lusa não é feita de asneira,

Exige estudo, suor e labuta inteira.

Seu verso é improviso, carece de estofo,

É como casa de taipa, de barro e de mofo.

A minha sintaxe é pedra, alicerce robusto,

E teu linguajar chulo me causa só susto!

Chico Timbira riu alto, um som que ecoou na praça.

Camões era caolho, mas enxergava longe,

Não ficava trancado rezando como monge.

Ele viveu no mar, na guerra, na confusão,

A língua dele tinha sal, sangue e paixão.

O senhor quer prender a palavra no dicionário,

Fazer dela museu, coisa de antiquário.

Mas a palavra quer rua, quer feira, quer bar,

Quer ser dita errada pra poder se misturar!

O povo vibrava. Aderbal percebeu que estava perdendo o terreno. Sua lógica cartesiana não tinha poder contra a força telúrica do repente. A gramática era uma ferramenta de exclusão; o repente era uma festa de inclusão.

Misturar é confundir! — gritou Aderbal, perdendo a métrica e a compostura. — É nivelar por baixo! É destruir o patrimônio!

Chico Timbira parou a viola. O silêncio caiu pesado. Ele se aproximou do professor, olhando-o nos olhos.

Doutor, patrimônio é o que o povo guarda no peito,

Não o que tá no livro, mofando no leito.

A língua só morre quando ninguém mais a usa,

E o senhor tá matando ela com esse nó na gravada.

Solta o nó da gravata, deixa o verbo correr,

Que a gramática serve pra gente se entender,

Mas na hora do aperto, do choro e do riso,

A gente fala como o coração pede, sem juízo.

Com um último acorde rasgado, Chico encerrou o duelo. A praça inteira aplaudiu, não apenas o vencedor, mas a verdade que ele cantara. Aderbal ficou ali, parado, sentindo o peso de seus manuais e a leveza insuportável da língua viva que o cercava.

- Seu Chico eu  tenho uma admiração secreta por vocês violeiros. – Admitiu o professor.

-E eu pelos professores, mas não tive oportunidade de estudar. – Respondeu chico.

- Quero te confessar uma coisa. – Afirmou Aderbal.

- Diga meu amigo letrado. -  . Pediu o violeiro.

- Meu avô falava igualzinho o senhor.

Silêncio.

- Então o senhor já conhecia essa língua desde menino.

 Ambos sorriram. Lentamente, Aderbal levou a mão ao pescoço e afrouxou o nó da gravata.



José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista

Membro da Academia Bacabalense de Letras


Academia Mundial de Letras da Humanidade

CRÔNICA DO DIA: Café com Desespero no Bunker Pedagógico

O corredor da escola Nauro Machado em São Luís exalava aquele bafo quente de meio-dia, uma mistura de maresia represada e o cheiro metálico de portões que já sofreram dez camadas de zarcão. Mas, ao cruzar a porta da sala dos professores, o microclima mudava. Ali era o "Bunker". O ar-condicionado, um modelo de janela que roncava como um trator de esteira, mantinha a temperatura em níveis glaciais, criando uma redoma de sobrevivência onde o giz não ousava flutuar.

No centro do bunker, sobre uma mesa que sustentava pilhas de provas grampeadas tortas e diários de classe que pareciam manuscritos do Mar Morto, reinava o objeto de culto absoluto: a garrafa térmica de dois litros.

— Acabou o açúcar ou eu perdi o paladar por causa do estresse? — Perguntou Márcia , professora de Biologia, enquanto despejava um líquido negro e viscoso num copinho plástico que começou a deformar instantaneamente sob o calor da bebida.

— O açúcar acabou na terceira aula, Márcia. O que você está bebendo agora é puro extrato de luto pedagógico e cafeína industrial. — Respondeu Joaquim Kicil, o mestre de Filosofia, que corrigia pilhas de redações com a resignação de quem espera encontrar o sentido da vida em textos sobre "a importância da internet".

Joaquim levantou uma folha, os olhos vermelhos de sono e poeira.

— Escutem essa: "O Filósofo Platão dizia que o homem vive numa caverna, mas hoje em dia a caverna tem Wi-Fi e ar-condicionado, então ninguém quer sair de lá para ver o sol porque o sol queima a retina e estraga o brilho do celular". Alguém me explica? Eu dou o ponto ou eu entro com um pedido de licença-capacitação para estudar a física do absurdo?

Uma risada rouca veio do fundo da sala, onde Adelaide, veterana de Português, lutava contra um grampeador que insistia em cuspir grampos inúteis.

— Joaquim, meu filho, dê o ponto e peça um café novo. Na minha prova de gramática, um abençoado escreveu que o coletivo de 'professor' é 'sofredor'. Eu ia dar errado, mas parei, olhei para o espelho do banheiro, vi minhas olheiras e decidi que a resposta era uma verdade linguística incontestável. Ele ganhou meio ponto pela sinceridade antropológica.

O Bunker era o único lugar onde a hierarquia acadêmica se dissolvia em ironia. Ali, o Doutor em Letras e a recém-formada em Geografia dividiam o mesmo destino: a busca incessante por um feriado que caísse na quinta-feira e a observação clínica do corpo discente.

— Vocês viram o que o Max fez hoje? — Márcia sentou-se, abraçando o copo quente como se fosse um amuleto. — Ele passou a aula inteira olhando para o ventilador de teto e me perguntou se, caso o ventilador caísse e girasse no chão, ele viraria um drone ou um beyblade. Eu estava explicando a mitocôndria, gente. A usina energética da célula!

— O Max é um gênio incompreendido pela BNCC. — Comentou Joaquim, secamente. — Ele está operando em uma frequência quântica onde o conteúdo programático é apenas ruído de fundo.

A porta do Bunker se abriu e um rastro de calor entrou, trazendo o barulho ensurdecedor do recreio: gritos, apitos e o som de uma bola de capotão batendo contra a grade. Entrou Ricardo, o professor de Educação Física, com a camisa suada e o semblante de quem acaba de apartar uma guerra civil por causa de um escanteio não marcado.

— Alguém tem um paracetamol? Ou um rivotril de uso tópico? — Ricardo desabou na cadeira ao lado da garrafa térmica. — Os meninos do nono ano resolveram que o futebol hoje seria no estilo 'Vale Tudo'. Eu tentei intervir e um deles me disse que, segundo as leis da física que o professor de ontem explicou, ele não estava batendo no colega, estava apenas testando a terceira lei de Newton em tecidos moles.

— A culpa é da interdisciplinaridade — Adelaide cantarolou, sem tirar os olhos do grampeador. — A gente ensina o conceito e eles usam para a barbárie. É o ciclo natural da educação básica.

O café, aquele néctar amargo que sustentava o moral da tropa, começou a baixar na garrafa. Era o sinal de que o intervalo estava no fim. A conversa no Bunker sempre seguia o mesmo arco dramático: começava com o desespero de uma prova mal respondida, passava pela indignação contra a burocracia do sistema e terminava numa resignação cômica, onde a única saída era rir do próprio cansaço.

— Sabe o que é o pior? — Márcia olhou para o fundo do copo plástico. — Amanhã tem conselho de classe.

Um silêncio fúnebre caiu sobre a sala. O conselho de classe era o apocalipse, julgamento final, o momento em que se decidia quem seguiria para o paraíso das férias e quem arderia no purgatório da recuperação.

— No conselho, eu vou propor uma nova categoria de avaliação. — Disse Joaquim, levantando-se e ajeitando sua pasta. — Além de 'Aprovado' e 'Reprovado', deveríamos ter o 'Milagre Educacional'. Para aqueles que não abriram o caderno o ano inteiro, mas conseguiram decorar a música do TikTok que ajuda a decorar a tabela periódica.

Adelaide soltou o grampeador, que finalmente funcionou, e sorriu com os dentes manchados de café.

— O milagre, Joaquim, é a gente ainda estar aqui, comemorando que a garrafa de café não estava vazia quando a gente chegou.

O sinal tocou. O roncado do ar-condicionado pareceu diminuir diante do rugido dos alunos voltando para as salas. Os professores, munidos de seus diários e de uma paciência que desafiava a medicina moderna, levantaram-se em uníssono. O Bunker seria fechado temporariamente, mas a resistência continuaria nas trincheiras da sala de aula.

Ao sair, Márcia deu um último olhar para a garrafa térmica de Nauro Machado. Ela sabia que, enquanto houvesse café e alguém para ouvir o absurdo do dia, o esgotamento não venceria. Amanhã haveria  novas formas de explicar que a vida, assim como o café do bunker, é amarga, mas a gente se acostuma com o sabor depois que a primeira aula começa.

José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade







CRÔNICA DO DIA: Damas do Barracão


Quando Dona Dalva acende o fogão do barracão, o ensaio ainda nem começou. A chama azul sob a panela é o primeiro sinal de que o boi está vivo naquela noite. Enquanto os homens discutem o ritmo das matracas ou ajustam os detalhes técnicos da carcaça do boi sob a luz forte dos refletores, existe uma outra geografia que dita a sobrevivência do grupo: a cozinha. Ali, o território pertence às mulheres.

Não são apenas cozinheiras que preparam o feijão com arroz ou o café forte da madrugada; são as arquitetas do bem-estar, as mãos que sustentam o estômago de um batalhão inteiro. Elas são as mães do brinquedo, figuras como Dona Dalva, que circula pelos cantos da cozinha improvisada como se estivesse regendo uma orquestra invisível. Para ela, cada prato servido é uma forma de reza, um investimento na energia que, logo mais, se transformará em dança, em suor e em tradição.

A sede da brincadeira, sem o olhar atento dessas mulheres, seria apenas um amontoado de madeira e zinco. São elas que garantem que as fardas estejam costuradas antes da véspera de São João, que as crianças tenham onde se sentar e que as brigas internas, inevitáveis em qualquer grupo que transpira a intensidade do folguedo, sejam dissipadas com uma palavra firme ou um chá calmante.

- Machado, sai da cozinha homem, vai cuidar da tua careta, infeliz! – Diz Dalva dando bronca num brincante que circulava pela cozinha.

- Me larga, dona Dalva! – Responde Machado saindo da cozinha.

As mulheres conhecem o segredo por trás de cada brincante: sabem quem está com o coração partido, quem está com as contas apertadas após um ano de seca, quem precisa de um conselho antes de entrar na roda. O barracão é um lar em construção permanente porque elas insistem em preencher os vazios com a força da sua organização comunitária.

A rotina de uma dessas damas é uma coreografia de resistência invisível.

Elas chegam horas antes dos ensaios e saem muito depois de o portão ser trancado. Limpam o chão de terra com a mesma dedicação com que se preparam para desfilar, entendendo que um terreiro sagrado exige ordem e reverência.

Durante a festa, enquanto os vaqueiros ostentam o brilho dos seus peitorais e os miolos brilham sob a armação, elas estão lá, controlando o estoque de água, gerenciando as doações da vizinhança, garantindo que o fogão a gás não apague e mediando a entrada de quem quer ajudar. Elas são o sustento verdadeiro do brinquedo, os fios que amarram o boi à realidade da comunidade, impedindo que a fantasia se perca no delírio e que o grupo se fragmente por negligência.

- Meu Deus!– Exclamou Dona Dalva.

- O que foi mulher? – Quis saber Ana Maria.

- Esqueci o sal no Mocotó... – Responde Dalva apreensiva.

Muitas vezes, a necessidade de organização traz um peso silencioso. É preciso dividir o pouco que chega entre tantos, gerenciar os humores dos músicos que vêm cansados do trabalho e garantir que o boi, em sua forma física, esteja sempre digno. Elas são as guardiãs da estética e da ética do grupo.

Uma das jovens dançarinas, ao ver seu figurino rasgar-se no meio de uma apresentação, não chora, ela corre para os bastidores, onde encontra a costureira do grupo, uma daquelas mulheres de mãos firmes que, entre um suspiro e outro, conserta o dano em segundos com a agulha que já parecia ser parte de seu próprio corpo. Esse amparo é muito mais que um ajuste técnico; é o selo de permissão para que o espetáculo prossiga sem interrupções.

Dona Dalva é uma senhora repartindo a comida igualmente mesmo sabendo que ela não será suficiente. Há uma força política e social, quase sempre subestimada, no papel dessas mulheres. Elas são o elo que mantém a conexão do Bumba-meu-boi com as raízes da sobrevivência local. Sem a sua disciplina, sem o seu zelo pelo espaço físico e pela dignidade dos brincantes, a tradição teria dificuldades em sobreviver à velocidade do mundo moderno, que é especialista em dispersar comunidades e encarecer a fé.

Elas não buscam o protagonismo absoluto na arena, não querem o brilho cegante das lantejoulas, mas sabem que, sem a sua retaguarda, o brilho do boi seria efêmero.

Quando, ao final de uma celebração ruidosa e exaustiva, as damas do barracão se reúnem para lavar os últimos pratos e organizar o que ficou espalhado, há um orgulho silencioso em cada movimento. Elas olham para as matracas abandonadas sobre a mesa, para os trajes que repousam no cabide e sabem, no fundo de suas almas, que aquela tradição é, antes de tudo, um projeto de maternidade coletiva. Elas cuidam do folguedo como quem cuida de uma planta rara, impedindo que o vento do esquecimento a arranque daquele lugar.

- Pessoal, tá no ponto, vou apagar o fogo!

José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Crônista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade

CRÔNICA DO DIA: Costa de Mão - O Toque da Resistência



Em Cururupu, onde a brisa do Atlântico se mistura ao perfume da mata densa, existe uma forma de tocar o pandeiro que desafia a lógica e celebra a memória viva de um povo. O "Costa de Mão" não é apenas um sotaque; é um tesouro em perigo, uma joia rítmica que exige dos músicos não apenas perícia, mas uma entrega absoluta ao movimento contramão da história. Ao contrário da técnica tradicional, onde a palma da mão percute a pele do instrumento, aqui o som é extraído pelo impacto seco e peculiar das costas da mão. O resultado é uma sonoridade fantasmagórica, um estalo mais abafado, mais profundo, que parece carregar o lamento de quem insiste em resistir contra o desaparecimento.

Mestre Edmundo, um dos poucos guardiões desse legado, costumava dizer que o Costa de Mão é a percussão dos humildes que não tinham permissão para vibrar alto demais sob o jugo dos tempos passados. Ele dizia que tocar com as costas da mão era, originalmente, a marca de quem, por cansaço ou necessidade, adaptou o pandeiro à dor.

Hoje, porém, essa adaptação é o símbolo da resistência em Cururupu. Observar um grupo tocando é presenciar uma luta silenciosa: enquanto as matracas se proliferam e os novos sotaques dominam os festivais, o Costa de Mão mantém sua cadência solene, teimosa, como um mangue que continua prendendo suas raízes mesmo quando a maré tenta levá-lo.

Edmundo alisava a borda gasta do pandeiro antes de começar o ensaio e fechava os olhos por um segundo. Ao fechar os olhos, Edmundo imaginava os antigos escravizados protegendo as mãos feridas sem abrir mão da festa. Era assim que ele explicava aos mais novos o nascimento daquele toque

A técnica é exigente. As articulações do pulso precisam ser de uma precisão quase mecânica, e a pele das mãos dos tocadores, calejadas por décadas, desenvolveu uma espessura que protege o osso do impacto constante contra o aro de madeira.
Quando eles entram no ritmo, o som que emerge é hipnótico, quase cerimonial. Há um quê de segredo naquelas batidas que parecem convocar as almas de quem, séculos atrás, deu cor a essa tradição na costa maranhense. O público que visita Cururupu, muitas vezes acostumado aos ritmos estrondosos da capital, estranha inicialmente o som contido, quase introspectivo, para logo em seguida ser tragado pela força da repetição.

A resistência cultural, em Cururupu, tem rosto e nome, mas, acima de tudo, tem o som das mãos. A juventude local, cercada pelas ofertas de ritmos digitais e pela pressa do mundo contemporâneo, olha para os velhos tocadores com uma mistura de veneração e desorientação.

Manter vivo o Costa de Mão não é apenas uma questão de preservar uma técnica; é garantir que o solo que sustenta a identidade daquela cidade continue fértil. Se o sotaque se apagar, uma porta para entender quem foram os homens e mulheres que desbravaram aquelas costas se fechará para sempre. Cada batida é, portanto, um aviso enviado ao futuro:

- Nós existimos, nós inventamos o nosso próprio ritmo.

Nos ensaios que precedem a saída do boi, Edmundo é uma sentinela. Ele não tolera que o tempo se perca nem que o ritmo se desvie para a facilidade dos sotaques dominantes. O Costa de Mão é preciso, é austero, é quase devocional. Ele explica aos meninos que ali se reúnem que a música não existe para divertir o turista, mas para manter a linhagem ininterrupta.

A resistência é o ato de continuar tocando quando ninguém mais parece ouvir, e em Cururupu, essa é a oração diária. Há tradições que sobrevivem não porque são numerosas, mas porque alguém se recusa a abandoná-las.

A beleza singular desse toque reside na sua imperfeição aparente. Por ser uma técnica que o corpo humano não domina por completo sem um sacrifício físico, cada giro de mão, cada impacto, traz o registro da luta. Quando o boi gira e as damas de fita acompanham o compasso, o som das costas das mãos sobe pelo ar, misturando-se à maresia e ao grito dos pássaros do fim de tarde.

Naquele momento, não importa se o sotaque está em extinção na escala das grandes arenas. O que importa é que em Cururupu, o Costa de Mão é a verdade, é o batimento cardíaco daquela gente, a prova irrefutável de que, enquanto houver uma mão e um instrumento, o Costa de Mão continuará dizendo o que Cururupu nunca aceitou esquecer.

José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Crônista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade

segunda-feira, 29 de junho de 2026

CRÔNICA DO DIA: Estradas e Toadas


O ônibus, uma carcaça de lata que parecia ter sobrevivido a eras de poeira e descaminhos, era o útero metálico daquela família numerosa e barulhenta. Quando o motor estalava para a partida, muitas vezes auxiliado pelo empurrão coletivo dos mutucas e brincantes, o cheiro de diesel misturava-se ao aroma inconfundível de perfume barato, suor de expectativa e o farelo de biscoito que insistia em cair do banco traseiro.

Ali dentro, não havia Mestre, nem vaqueiro, nem índia; havia um coletivo de corpos exaustos que buscavam o próximo arraial. A estrada serpenteava pelo interior do Maranhão, era o palco onde o bumba-meu-boi se revelava na sua versão mais humana e despojada, longe dos brilhos cênicos e das luzes dos grandes palcos.

As horas de viagem eram sentidas na espinha, especialmente para quem carregava a estrutura do boi desmontada pelas fileiras de poltronas ou sobre o teto, amarrada com cordas de náilon que pareciam prontas para arrebentar ao primeiro solavanco.

O ônibus chacoalhava com uma violência que faria qualquer objeto moderno sucumbir, mas aquele veículo, tal como a tradição que transportava, era feito de teimosia. No fundo, alguém começava a cantar uma toada baixinha, um lamento sobre o "boizinho que correu a estrada", e, em questão de minutos, o que era um silêncio cansado tornava-se um coro potente.

As mãos começavam a bater nas laterais dos bancos, no encosto dos bancois, na lataria da janela, transformando o transporte em um estúdio improvisado onde se testavam versos que seriam apresentados a poucos quilômetros dali.

Imprevistos eram a única certeza da agenda. Havia o pneu que estourava exatamente no trecho de estrada de terra onde o sinal do celular era um mito; havia o motor que superaquecia e obrigava todos a descerem e ficarem esperando ao relento o ferro esfriar enquanto a lua subia e o desespero de perder o horário da apresentação batia no coração do Mestre.

Nessas horas, o improviso virava lei. Reuniam-se ao redor da guarnição, decidiam o que cortar da apresentação, como redobrar o passo caso chegassem atrasados, e sempre, sem exceção, alguém tirava uma comida embrulhada em folha de bananeira para partilhar. A fome, no ônibus itinerante, era combatida com o coletivismo. Ninguém comia nada se não houvesse o suficiente para o companheiro do banco ao lado.

Quando o ônibus atravessava as cidades menores, a recepção era um rito à parte. A chegada de um batalhão, por mais atrasada que fosse, transformava o ânimo do lugarejo. As crianças corriam atrás do gigante de ferro, gritando e aplaudindo como se o ônibus fosse, por si só, uma extensão da magia do boi.

Os brincantes, ao descerem com as pernas dormentes e o corpo pedindo descanso, precisavam de uma injeção de adrenalina quase instantânea. Era o momento em que a cara de cansaço era substituída pelo sorriso de quem sabe que a sua arte é o oxigênio de quem habita aquelas terras distantes. O improviso de trocar de roupa atrás de uma cortina ou no fundo de um armazém de venda era feito com uma naturalidade que beirava a santidade cotidiana.

Havia, no entanto, algo de poético naquelas estradas de terra, sob um céu que se abria como um abismo estrelado. O ônibus, cruzando as sombras das veredas, parecia um espectro transportando a alma do Maranhão. O vaqueiro, cochilando com o chapéu sobre o rosto, sonhava com passos que ainda daria; o cantador, rabiscando um novo verso no verso de um recibo velho, buscava a rima perfeita para o público que os esperava; o miolo, encolhido em um canto, já ensaiava na mente o giro que faria a multidão vibrar.

A viagem itinerante era o filtro que separava os curiosos dos verdadeiros devotos. Quem suportava o sol, a poeira, o atraso e o aperto do ônibus era quem, na verdade, mantinha o boi vivo.

Quando o motor parava finalmente no destino, com um ranger de freios que parecia um suspiro de alívio, a energia no ônibus mudava. A exaustão evaporava no instante em que o primeiro par de matracas era retirado do compartimento de bagagens.

Eles montavam a estrutura com a agilidade de quem faz o trabalho há gerações, e o boi, que há pouco era apenas um amontoado de veludo e madeira escondido nas entranhas do veículo, começava a ganhar forma, a exibir suas fitas e a reclamar o seu território.

O couro voltou a respirar. A primeira matraca estalou na noite. Quem tivesse visto apenas a viagem juraria que aquele povo já não tinha forças. Bastou o boi levantar a cabeça para ninguém mais lembrar do cansaço da estrada.

José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Munidal de Letras da Humanidade

CRÔNICA DO DIA: Herança de Brincante...do Avô ao Neto

O chão do terreiro de terra batida de Viana não era apenas um espaço de ensaio para o velho Saturnino; era o livro onde ele escrevia a história de sua linhagem. À sombra de uma mangueira frondosa, que via o mesmo ritual se repetir há quase cinco décadas, ele segurava as mãos pequenas e trêmulas do neto, Mateus, de apenas sete anos. O menino olhava para o avô com a veneração de quem enxerga um deus vivo, alguém que, com um simples movimento do pulso, conseguia fazer o couro do pandeirão falar. Ali, o conhecimento não era transmitido por apostilas ou manuais, mas pelo contato direto, pela pele, pelo suor e pela cadência que, de tanto ser repetida, passava a morar no sangue.

Não se ensina o Bumba-meu-boi apenas com a técnica do passo. Saturnino sabia que, se Mateus aprendesse a girar, mas não entendesse a reverência, estaria apenas ensaiando uma dança vazia. A cada movimento, o avô corrigia a postura, não com rigidez, mas com a paciência de quem entende que o tempo da tradição é um tempo biológico.

Enquanto o menino tentava imitar o balanceio das matracas, o velho cantava versos antigos, toadas que sua própria voz já não alcançava com a clareza de antigamente, mas que carregavam em si o peso dos antepassados. Era como se, ao cantar, ele estivesse semeando a alma do folguedo diretamente na memória auditiva do neto.

Saturnino demorou alguns segundos olhando o menino. Quando Mateus conseguiu, pela primeira vez, bater o compasso do sotaque com a firmeza que a cadência exigia, um sorriso raro e profundo iluminou o rosto vincado do velho.

Para ele, aquele instante era a única imortalidade concreta que os homens simples poderiam almejar. Ele sabia que suas próprias mãos, um dia, não teriam mais a força necessária para segurar o pandeiro ou a agilidade para adornar o boi, mas a sua voz continuaria através de Mateus, e a sua vontade de ver o boi na arena continuaria cavalgando pelos arraiais do Maranhão.
Para o menino, o aprendizado era uma aventura sagrada. Ele percebia que o "vovô Saturnino" não era apenas o homem que lhe pedia para buscar água ou que contava histórias dos tempos em que o rio enchia e o campo virava mar; ele era a alma da festa, uma figura de respeito que transformava a rotina da comunidade em um espetáculo de dignidade.

À medida que os meses passavam e o ensaio ganhava corpo, Mateus começou a entender o que significava ser um "brincante". O orgulho que ele via nos olhos dos outros brincantes quando o avô era mencionado fazia-o compreender que eles pertenciam a uma dinastia que não ostentava ouro, mas carregava a riqueza imaterial da própria identidade.

Havia algo de belo e doloroso nessa entrega. Saturnino observava o neto vestir sua primeira miniatura de gibão, uma peça costurada com retalhos de mantos que o próprio boi já usara em anos anteriores e, naquele reflexo, viu sua juventude retornar.

- Nunca bata a matraca com raiva do mundo, Mateus. - Dizia ele, corrigindo o peso das mãos do menino. - Bata com a gratidão de quem está vivo e tem o direito de cantar a sua própria história.
Aquele era o ensinamento final, a semente que faria o neto caminhar pelos terreiros quando Saturnino já fosse apenas uma lembrança nas toadas de junho.

A ligação entre os dois era o alicerce que sustentava a guarnição. Nos dias em que o ensaio se estendia pela madrugada e o frio da baixada começava a morder a pele, o menino não desanimava, pois tinha o ombro do avô para se apoiar, o olhar que dizia “agora é a nossa vez”.

E, na arena, quando a multidão se abria e o boi desfilava triunfante sob o olhar atento dos santos juninos, Mateus entrava na roda acompanhando Saturnino passo a passo. O velho, curvado e lento; o menino, direito e ágil. Ali, naquele círculo perfeito onde o passado e o futuro se fundiam na cadência do tambor, estava a resposta para décadas de esforço.

Saturnino caminhava devagar. Mateus seguia ao lado. De fora da roda, já era difícil distinguir onde terminava um e começava o outro.

José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Crônista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade

domingo, 28 de junho de 2026

CRÔNICA DO DIA: Bordando Estrelas


No silêncio que se segue ao cansaço dos ensaios, quando o terreiro finalmente se esvazia e apenas o cheiro da lenha queimada paira no ar, as bordadeiras assumem o comando. Enquanto o mundo exterior vê o boi reluzente sob os refletores de um arraial lotado, o verdadeiro nascimento dessa criatura ocorre no avesso da agulha, num cantinho abafado da casa de Dona Zefa, onde a luz de um foco solitário ilumina o que é pouco menos que um milagre têxtil.

Suas mãos, marcadas pelos sulcos da idade e pela aspereza de quem lavou tanta roupa e moldou tanto barro na vida, possuem uma delicadeza que desafia a lógica. Entre os dedos calejados, o canutilho parece dançar, encontrando seu lugar preciso no veludo pesado que serve de pele para o boi.

Não se trata de apenas costurar. O ato de bordar um boi é um exercício de cartografia espiritual. Dona Zefa não seguia desenhos impressos ou moldes de papel industrializado; ela seguia o mapa guardado em sua própria memória, um acervo de décadas de tradição que fluía de seu pensamento direto para a ponta do dedo que tensionava o fio de nylon.

O boi precisa de estrelas, luas, santos e corações bordados, mas, acima de tudo, ele precisa de histórias. Cada miçanga que ela fixava era um voto, uma tentativa de ancorar no tecido a proteção que o grupo tanto precisava para enfrentar a maratona dos festivais. Se o ponto ficasse frouxo, a história desmancharia; se o ponto fosse forte demais, o veludo rasgaria. É um equilíbrio feito na ponta de agulha.

Ao lado dela, a neta Paolla, uma jovem que ainda aprendia a lidar com o ritmo frenético daquelas mãos experientes, observava o processo como quem assiste a um feitiço. O esforço é colossal: horas a fio sentada na mesma posição, costurando detalhes que, para a plateia que olha de longe, podem passar despercebidos. Mas Dona Zefa sabia a verdade: o boi é visto de perto.

- Menina, nunca puxe o nylon de uma vez. O veludo guarda mágoa. – Alertou dona Zefa .

- Vó, veludo não tem sentimentos! – Respondeu Paolla quase a sorrir.

- Você que pensa minha neta. Boi tem ciência...

- Hum, Armaria Vó, lá vem a senhora essas histórias de outro mundo! – Retrucou Paolla. – E esse santo a senhora vai aplicar no peitoral dos vaqueiros?

- Fica aqui– Respondeu dona Zefa indicando um local de destaque no couro do boi. – Ano passado foi ele que segurou nosso couro.

Dona Zefa cortou o fio com os dentes. Conferiu o brilho contra a luz. Virou o tecido e voltou ao trabalho.

A qualidade do bordado é a assinatura da honra do grupo. Um conjunto desleixado denotaria uma orquestra sem alma, uma matraca sem eco. O brilho excessivo, o efeito cegante que tanto buscavam não era ostentação, era a tentativa de imitar o firmamento, de trazer para o chão de terra o brilho do que está acima de nós, inacessível.

Os materiais, latão, canutilho, lantejoula e contas pareciam ter vida própria.

À medida que as mãos o costuram, o peso da fantasia aumenta, mudando a própria textura do veludo. Transformar um pedaço de tecido inerte em um tesouro que será carregado aos ombros sob o calor causticante requer uma compreensão técnica profunda.

Elas sabem, por experiência, onde o brilho precisa nascer para que o boi acenda quando encontra a luz. É uma engenharia do óbvio escondida na paciência do invisível.

Enquanto as agulhas passavam por dentro e por fora, Dona Zefa murmurava preces pelos que já se foram pedindo que a costura resistisse não apenas ao transporte, mas também à vibração dos tambores que, dali a poucos dias, sacudiriam o boi até a exaustão.

Ali, naquele atelier improvisado, o tempo flui ao ritmo da respiração. Não há a pressa do batuque, nem o nervosismo da arena. Há a calma de quem compreende que a riqueza não se compra em armazéns, mas se constrói com tempo e devoção.

Quando o sol começa a raiar e o tecido finalmente revela a imagem bordada: um santo, uma flor de lótus, um rosto de caboclo, São João, a sensação é de dever cumprido. Aquelas mãos, que durante o dia suportaram o peso da lide urbana ou o desdém dos patrões, tornam-se, à noite, mãos de artistas que sustentam a própria identidade do Maranhão no fio de uma agulha.

Elas não recebem aplausos da multidão. O boi entra e o povo delira com o miolo, com o som das matracas e com o brilho da criatura, sem nunca perceber que aquele sucesso tremendo depende milimetricamente do nó que Dona Zefa deu às quatro da manhã, enquanto o mundo, do lado de fora, tenta apenas apagar as luzes.

O seu orgulho é silencioso, íntimo, uma estrela tecida que ela vê brilhar intensamente quando o boi passa pela primeira vez sob a luz dos refletores. Ela sabe que ali, entre canutilhos e miçangas, ficou preso um pedaço da própria vida. Cada vez que o boi atravessa o terreiro iluminado, é aquele pedaço que volta a respirar.

José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Crônista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade

CRÔNICA DO DIA: Promessa e Fé



O aroma do incenso, denso e doce, disputava espaço com o cheiro da pólvora dos buscapés que explodiam à distância e com o perfume da erva-doce que emanava das pequenas garrafas de mel de engenho. No altar improvisado, montado no canto mais reservado do galpão, a imagem de São João Batista, com seu olhar severo e ao mesmo tempo protetor, era o foco de uma devoção que não conhecia meio-termo.

Velas de sete dias ardiam sem parar, suas chamas dançando conforme o vento que entrava pelas frestas, enquanto os brincantes, um a um, aproximavam-se em silêncio. Ali, atrás dos bastidores do espetáculo, a hierarquia era suspensa. O dono do boi, o miolo, o vaqueiro campeador e a mais jovem das índias tornavam-se iguais perante aquele altar, todos buscando no santo a mesma moeda de troca: a proteção para o couro, o fôlego para o peito e a benção para que o cortejo saísse e voltasse sob o manto da paz.

O sincretismo ali não era uma teoria acadêmica; era a própria carne da sobrevivência. As orações misturavam o terço católico com invocações que pareciam vir de eras mais antigas, pedidos de licença aos encantados das matas e das águas para que o boi pudesse reinar em terra alheia.

Mestre Benedito, com seu chapéu posto sobre o peito, ajoelhou-se diretamente no cimento frio. Ele não pedia bênçãos para o brilho do espetáculo, mas para a segurança de seus brincantes.

- Que o boi não seja esquecido, que a matraca não falhe e que a inveja de quem não brinca não cruze o caminho de quem trabalha. - . Sussurrava, enquanto aspergia um pouco de água benta sobre a carcaça do boi pousada como um animal adormecido ao lado do altar.

É impossível separar o Bumba-meu-boi dessa camada espiritual. Muitos veriam apenas a festa, a dança e a indumentária, mas para quem vive dentro do barracão, cada fita amarrada, cada miçanga costurada e cada ensaio de madrugada é, em essência, uma promessa cumprida.

São promessas de cura, de gratidão pela vida de um filho que escapou de uma enfermidade, ou pelo emprego que surgiu quando o prato parecia vazio. O boi é um veículo de ex-voto. Ao dançar, o brincante está pagando o que prometeu ao santo, e a religiosidade é o combustível que permite que o corpo suporte a exaustão que, por vias puramente biológicas, já teria levado todos ao desfalecimento.

Lá fora, a voz do folguedo já se fazia ouvir na rua, a orquestra aquecendo os instrumentos e o público clamando pela saída da atração. Mas ali dentro, o tempo corria em outra zona. Era o momento em que a fé era conferida. O óleo bento era passado nas mãos dos tocadores de matraca, como se untassem as armas de uma guerra santa onde não se mata ninguém, mas se celebra a própria existência contra o olvido.

Parecia que nenhuma proteção lhes parecia mais importante do que aquela. Eles acreditavam e essa crença era o que lhes dava uma postura inabalável que, enquanto São João estivesse no comando, nenhuma intempérie, seja ela a chuva forte que ameaçava o veludo ou o desânimo que rondava os ombros dos mais jovens, teria poder para encerrar o cortejo.

Uma das bordadeiras mais antigas trouxe um escapulário e o prendeu com um alfinete de segurança na parte interna da saia do boi, no lugar onde o miolo apoiaria a testa durante o giro final.

- Para que o peso não pese. - Ela disse, e aquela frase simples continha toda a teologia daquele povo.

O excesso de realismo do mundo, que muitas vezes desmorona sobre os ombros de quem trabalha duro, tornava-se leve quando transformado em fé. Eles sabiam que a proteção transcendia a madeira e o tecido; era uma união de almas que, protegidas pelo orago junino, sentiam-se invencíveis na hora de enfrentar a arena.

Antes da ordem final para a saída, houve um instante de silêncio absoluto. Todos se deram as mãos em uma corrente que circulava o recinto, tocando a estrutura do boi. Não havia mais diferenças entre o miolo suado e a índia enfeitada.

Havia apenas uma unidade, um organismo pronto para ser lançado nas ruas. O sinal de cruz foi feito com a mão que, instantes depois, empunharia a matraca com força de trovão.

- Que o boi caminhe nos trilhos da benção. - Ecoou o coro baixinho, uma reza despojada que soava como um trovão abafado pelas paredes de zinco.

Quando as portas se abriram e a luz do arraial invadiu o barracão, o rosto de cada um ali estava mudado. Não carregavam apenas a alegria da festa, mas a serenidade de quem já tinha entregado a responsabilidade daquela noite a alguém maior.

Eles entraram no mundo das luzes e dos aplausos não como exibicionistas, mas como peregrinos. E o boi, ornado pela fé e abençoado pelo fogo de São João, começou então a sua caminhada, com a certeza absoluta de que, sob a guarda dos santos juninos, ele não seria apenas um motivo de admiração, mas uma oração que, movida a couro, madeira e devoção, se espalharia por toda a cidade feito luz que não se apaga, vencendo a noite e renovando, mais uma vez, o pacto de vida que o Maranhão renova todos os anos com o divino.

José Casanova
Professsor, Jornalista, Escritor e Cronista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras de Bacabal

sábado, 27 de junho de 2026

CRÔNICA DO DIA: O Rufar de Guimarães


Em Guimarães, o pulsar da terra não vem do choque ritmado das matracas nem do brilho polido dos metais. Ele nasce de um trovão contido, um som de gravidade profunda que parece vir diretamente do solo revolvido pelo arado e da umidade das matas que circundam a região. É o rufar das grandes zabumbas. Quando o sotaque de zabumba se apresenta, o ouvinte não é apenas convidado a dançar; ele é solicitado a sentir a vibração das raízes rurais, aquela força primordial que sustenta o Maranhão. O som da zabumba é, acima de tudo, o som do coração de um homem sem artifícios, uma lembrança constante de que antes da cidade, antes do asfalto, havia apenas o homem, o couro e o tambor.

O brincante que carrega a zabumba em Guimarães não apenas a sustenta; ele a domina com o corpo inteiro. É uma arte de elegância rústica. O instrumento, grande e imponente, exige uma postura altiva. Enquanto o couro é esticado pelos aros, o músico entra em uma conexão imediata com o ritmo que dita o balanço dos vaqueiros.

Diferente da rapidez febril de outros sotaques, a zabumba de Guimarães impõe um andamento cadenciado, um "chão", como dizem os antigos, que exige que o dançarino coloque o pé no solo com convicção. Não há espaço para frivolidades coreográficas; cada passo deve ser sólido, reafirmando o pertencimento àquela terra que, por séculos, foi nutrida pela enxada e pela fé.

Há uma beleza crua na forma como as grandes zabumbas se entrelaçam com os tambores mais agudos, criando uma polifonia de frequências que parece narrar a própria história do campo. É um ritmo que fala da colheita, da espera pela chuva, da lida com o gado que se dispersa nos grandes pastos da região.

Nos arraiais de Guimarães, o som das zabumbas não apenas acompanha o boi; ele o fundamenta. Ele confere ao boi uma dignidade terrena. Quando a zabumba ruge, o boi não parece um objeto decorado, mas uma criatura viva que emerge das entranhas da mata, trazendo consigo o aroma da terra molhada e a sabedoria dos que vivem à margem das grandes metrópoles.
Os tocadores de zabumba em Guimarães são figuras quase míticas, homens de ombros largos que parecem ter absorvido a própria resistência do instrumento. Para eles, não há diferenciação entre o trabalho do dia e o toque da noite.

A força usada durante o trabalho da roça é a mesma que em algumas horas depois, se converte em compasso, marcando o tempo da toada com precisão cirúrgica. A elegância rústica desses músicos está na ausência de floreios desnecessários. Eles tocam com a sobriedade de quem sabe que o que é essencial não precisa de exageros para ser eterno. Naquele rufar constante, há um convite para que o público também se reencontre com suas origens simples, com a pureza do trato com os elementos.

Ao observar a dança que se forma ao redor das zabumbas em Guimarães, percebe-se um tipo diferente de transe. Não é o delírio elétrico, mas uma entrega contemplativa. Os casais de dançarinos, com seus trajes que equilibram a sobriedade rural com a beleza das fitas coloridas, giram em volta da orquestra de tambores como se estivessem orbitando um sol particular.

Há um respeito silencioso no ar; quando a zabumba sobe o tom, a roda se abre, os ombros se inclinam e o peito estufa em sinal de reverência. É o encontro do povo com o seu passado sem intermediários.

À medida que a madrugada avança nas praças guimaranence, o rufar das zabumbas torna-se o único som capaz de vencer o silêncio da noite rural. Ele ecoa pelos campos, alcança as copas das palmeiras e faz estremecer a alma dos que, do lado de fora, param para escutar a força daquela marcação.

É uma música que, apesar de antiga, permanece jovem pela força com que é executada por cada nova geração. Em Guimarães, a zabumba garante que ninguém se esqueça de onde veio. Enquanto aquele som profundo continuar a ditar a cadência da vida, a raiz rural do Maranhão permanecerá como uma árvore forte, cujos galhos podem até se curvar sob as intempéries do tempo, mas cujas raízes, alimentadas pelo rufar constante das zabumbas, encontrarão sempre o caminho de volta para a luz, para a terra e para a celebração da existência que, no final das contas, é o boi, a alma e a própria vida a pulsar em uníssono sob o céu de junho.

José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Crônista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade