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quarta-feira, 11 de março de 2026

CRÔNICA DO DIA: O Batismo de Giz no Leda Tajra


O cheiro inconfundível de extrato de tomate industrial e desinfetante de eucalipto formava a atmosfera pesada do corredor. Aquele odor, impregnado nas paredes descascadas da Escola Leda Tajra, em Bacabal, era o primeiro aviso sensorial de que a academia havia ficado para trás. Não havia teses de mestrado flutuando naquele ar denso e úmido, apenas poeira, ecos de gritos estridentes e a vibração quase imperceptível de trezentos adolescentes confinados em blocos de concreto sob o sol implacável do Maranhão.

Arthur caminhava por esse corredor segurando uma pasta catálogo contra o peito como se fosse um escudo heráldico. Dentro dela, repousava sua obra-prima: doze páginas impressas a laser de um plano de aula milimetricamente arquitetado. Ali, nas páginas em fonte Arial tamanho doze, espacejamento um e meio, não havia espaço para o fracasso. Era um documento perfeito. Havia rubricas de avaliação formativa, propostas de metodologias ativas, um roteiro para sala de aula invertida e citações indiretas a teóricos europeus que, muito provavelmente, jamais haviam pisado em uma sala com quarenta alunos e um ventilador de teto que ameaçava decapitar os mais altos.

Recém-formado, com o diploma ainda exalando o cheiro da tinta da impressora da reitoria, ele acreditava piamente que o mundo poderia ser salvo pelo socioconstrutivismo. Vestia uma camisa social azul-clara, impecavelmente passada, e calçava sapatos de couro que já começavam a apertar seus pés inchados pelo calor.

Dona Cida, a coordenadora pedagógica, o acompanhava a passos lentos e arrastados. Ela era a encapsulação física do esgotamento ocupacional. Seus olhos carregavam a opacidade de quem já havia confiscado mais de mil estilingues e apartado trezentas brigas por causa de figurinhas. Ela não caminhava; ela patrulhava.

― É aqui, professor. ― anunciou Cida, parando diante de uma porta de madeira crivada de marcas de sapato. O barulho que vinha lá de dentro lembrava um estádio de futebol durante uma cobrança de pênalti decisiva. ― Turma oitocentos e dois. Eles são... enérgicos. Não dê as costas para o fundo da sala quando for apagar o quadro. Sobreviva até o sinal.

Ela lhe entregou uma caixa de giz branco, ressecada e meio amassada. Não houve discurso motivacional, nem votos de sucesso profissional. Dona Cida apenas virou as costas e sumiu pelo corredor, retornando ao seu santuário climatizado, onde a máquina de café soluçava gotas negras e amargas de cafeína.

Arthur respirou fundo. Repassou mentalmente o primeiro passo do seu plano estratégico: quebrar a hierarquia espacial da sala de aula. Ele não seria um professor ditador no alto de um palanque pedagógico. Ele seria um mediador do conhecimento, um facilitador. Com a mão ligeiramente trêmula, girou a maçaneta e empurrou a porta.

O impacto de sua entrada foi imediato, mas não pelo respeito à sua figura. Foi o choque do novo. Quarenta pares de olhos se voltaram para ele simultaneamente. Bolinhas de papel molhadas com saliva interromperam suas trajetórias balísticas no meio do ar. Um garoto que estava de pé em cima de uma carteira simulando um solo de guitarra com uma vassoura congelou a pose. O silêncio que se abateu sobre o ambiente não era de subordinação, era investigativo. Eles estavam avaliando a presa. Cheiravam o frescor da teoria pura em sua camisa engomada.

― Bom dia, pessoal! ― Começou Arthur, depositando sua pasta sobre a mesa do professor com uma reverência quase sagrada. Ele sorriu. O seu melhor e mais acolhedor sorriso pedagógico. ― Meu nome é Arthur. Sou o novo professor de vocês. E hoje, nós não vamos ter uma aula.

O silêncio ficou ainda mais denso. Uma mosca solitária zumbia erraticamente perto da lousa apagada pela metade.

― Como assim, não vai ter aula? ― Questionou uma voz esganiçada vinda da terceira fileira. Era um garoto de óculos de armação grossa, com o uniforme rabiscado de caneta azul, formando padrões que lembravam tatuagens tribais.

― Nós vamos ter uma vivência. ― Declarou Arthur, abrindo os braços para enfatizar a grandiosidade do conceito. ― Quero que esqueçam essa organização opressora de enfileiramento militar. Por favor, levantem-se. Vamos colocar as carteiras em um grande círculo. Vamos nos olhar nos olhos para construir o conhecimento de forma horizontal, onde todos têm voz.

Os alunos permaneceram imóveis. Alguns piscaram lentamente. Outros olharam para os lados, buscando confirmar se haviam escutado a mesma insanidade.

O garoto do fundo, que minutos antes tocava guitarra com a vassoura, desceu da carteira com uma calma surpreendente. Ele tinha a expressão de um veterano de guerra de quatorze anos de idade. Caminhou lentamente até a frente, arrastando os pés com chinelos de dedo escondidos sob as meias do fardamento escolar.

― Professor... ― Disse o garoto, franzindo a testa. ― O nome do senhor é Arthur, né?

― Sim, Arthur. E o seu? ― Respondeu o professor, já mentalizando a rubrica de engajamento discente sendo preenchida com sucesso.

― Darlan Caldas. Olha só, professor Arthur... o negócio é o seguinte. ― Darlan coçou a nuca, assumindo o tom de um negociador sindical diante de uma proposta patronal irrealista. ― Para fazer esse círculo aí, a gente vai ter que arrastar essas cadeiras. O pé de ferro da carteira do Maicon tá quebrado. Se arrastar, despenca tudo. Além disso, a Tábata e a Jéssica não se falam desde outubro do ano passado porque a Jéssica curtiu a foto do ex da Tábata. Se elas ficarem de frente uma para a outra no círculo, vai ter sangue no meio da cenela. Sangue e cabelo.

Arthur piscou, tentando processar a complexidade geopolítica do oitavo ano.

― Mas a roda de conversa é essencial para o protagonismo de vocês... ― Tentou argumentar, sentindo a primeira rachadura em seu projeto europeu.

― Eu entendo, professor. Protagonismo. Muito bom. ― Concordou Darlan, balançando a cabeça com uma condescendência que um adolescente jamais deveria ser capaz de expressar para um adulto diplomado. ― Mas a pergunta que não quer calar, a questão central da nossa vivência hoje é: se a gente arrastar as cadeiras e fizer o tal do círculo sem ninguém morrer, o senhor libera a gente dez minutos mais cedo para o recreio?

Um murmúrio de aprovação espalhou-se pela sala. Darlan não era apenas um aluno; era o porta-voz, o diplomata do caos, o primeiro-ministro do desespero letivo.

― Liberar mais cedo? ― Arthur recuou meio passo, instintivamente tocando sua pasta catálogo. ― Nossa aula tem cinquenta minutos, Darlan. Cada minuto é precioso para o letramento crítico de vocês.

Um gemido coletivo de frustração ecoou. A negociação havia falhado. O interesse no círculo horizontal de conhecimento evaporou imediatamente. Os alunos voltaram a se esparramar em suas carteiras. Aquele professor não aceitava suborno temporal; logo, era inútil.

Determinado a não se deixar abater nos primeiros seis minutos da sua carreira, Arthur decidiu pular a etapa do arranjo espacial e investir na dinâmica de tempestade de ideias. Caminhou até a lousa verde, pegou o bastão de giz de calcário e, com uma caligrafia arredondada e caprichada, escreveu a palavra-chave no centro: CIDADANIA.

Virou-se para a turma, com o peito estufado, sentindo o pó branco impregnar as pontas de seus dedos.

― O que vem à mente de vocês quando leem esta palavra? Não existem respostas erradas, pessoal. Tudo é válido no processo de construção semântica.

As mãos não se levantaram. Os olhares estavam perdidos. Dois alunos na fileira da janela faziam uma complexa troca comercial envolvendo um pacote de biscoitos recheados moídos e uma caneta esferográfica de quatro cores.

Finalmente, um menino franzino, sentado bem na frente da mesa do professor, ergueu a mão timidamente. Ele tinha o olhar distante de quem habitava dimensões paralelas durante o horário comercial e só descia à Terra por acidente. Seu nome, Arthur descobriria depois no diário de classe do Leda Tajra, era Maicon. O filósofo do nada.

― Sim? Diga, meu jovem. ― Encorajou Arthur, sorrindo e estendendo a mão espalmada para o garoto, como manda o manual da escuta ativa.

― Professor... ― Maicon olhou fixamente para o giz na mão de Arthur. ― Se o sol engolir a Terra amanhã de tarde, as notas do boletim ainda vão contar para a recuperação final?

Arthur congelou. Procurou desesperadamente em sua memória, revirando gavetas mentais das aulas de didática, psicologia da educação, fundamentos de sociologia. Nenhum autor, em nenhum simpósio internacional, o alertou sobre o niilismo cósmico do aluno brasileiro do ensino fundamental.

― Maicon, isso é... bem... isso é astrofísica. E um tanto catastrofista. Nossa matéria hoje foca nas relações sociais. O que aconteceria com os direitos civis se o mundo acabasse? ― Arthur tentou, num esforço colossal, amarrar o absurdo à sua aba de currículo.

― E tem gente que faz prova na recuperação sendo que o mundo nem acabou ainda, professor. ― Resmungou uma garota do fundo, pintando as unhas com corretivo líquido branco de forma metódica.

Aquela sala de aula não precisava de metodologias ativas. Aquela sala de aula operava em um estado de sobrevivência cínica, onde o conteúdo pragmático não importava, e o tempo era a única moeda real. O professor não era visto como um portador da luz do saber, mas como um guarda de trânsito em uma estrada engarrafada e infinita, de quem eles queriam apenas descobrir o percurso mais curto para escapar dali.

Nos quarenta minutos seguintes, Arthur experimentou todas as fases do luto profissional. A princípio, a negação: tentou distribuir post-its coloridos para a tempestade de ideias. Em menos de três minutos, os post-its amarelos haviam sido colados nas costas de colegas distraídos com mensagens impublicáveis numa crônica, metodicamente transformando a ferramenta pedagógica em instrumento de bullying socioconstrutivista.

Depois, veio a raiva disfarçada de autoridade. Tentou aumentar o volume da voz para competir com o ventilador de teto, que parecia estar moendo pedras em seu interior metálico. O suor já não era discreto. Minava de sua testa, escorria pelo pescoço, ensopava as axilas da camisa azul outrora impecável. Ele andava de um lado para o outro, discursando fervorosamente sobre direitos e deveres, enquanto Darlan, com um relógio digital gigantesco no pulso, balbuciava a contagem regressiva com os lábios, olhando para ele.

Por fim, a barganha.

Dez minutos antes do sinal, Arthur sentou-se na beirada de sua mesa. A camisa estava manchada de pó de giz verde, misturado ao suor, resultando numa pasta cinzenta espalhada por seus cotovelos e barriga. O plano de aula, esquecido dentro da pasta catálogo, agora parecia um antigo pergaminho de uma religião morta que já não fazia sentido naquele local profano.

― Certo... ― A voz de Arthur saiu mais baixa, sem o timbre aveludado da falsa segurança acadêmica. Era a voz de um homem derrotado pela termodinâmica e pela antropologia adolescente. ― Se vocês ficarem em absoluto silêncio durante três minutos cronometrados... sem respirar tão alto, sem balançar os pés de ferro das carteiras, e guardarem esse corretivo... eu lidero a saída pro recreio cinco minutos antes.

Darlan sorriu um sorriso tão afiado de malícia que pareceu rasgar o horizonte. Ele ergueu a mão direita, fazendo um sinal universal de pacificação para a turma. Num milagre imediato, incomparável com qualquer metodologia ativa que Paulo Freire ou Piaget pudessem documentar, a turma oitocentos e dois mergulhou no mais profundo, respeitoso e absoluto silêncio. Um silêncio comprado, comercial, puro e simples.

Quando a sirene rasgou o ar, soando como o último trompete do apocalipse na velha escola, os quarenta alunos se ergueram simultaneamente e desapareceram pela porta em um fluxo contínuo e violento, deixando para trás um rastro de carteiras fora do lugar, farelos enigmáticos de salgadinho e um Arthur esgotado, segurando um pedaço de giz que já estava pela metade.

Arthur caminhou até o pátio interno e procurou a sala dos professores. Abriu a porta do refúgio, e uma nuvem de ar condicionado bateu em seu rosto como um afago divino, misturada ao aroma inegavelmente anestésico do café requentado em garrafões de plástico.

O ambiente interno operava como um hospital de campanha. Ao redor de uma longa mesa oval com forro de plástico imitando renda, espalhavam-se mestres de expressões variadas. Alguns corrigiam provas com a velocidade de caixas de supermercado; outros olhavam fixamente para o nada, travando diálogos invisíveis; e alguns simplesmente riam. Um riso baixo e cínico, o riso funcional de quem desenvolveu uma defesa coletiva contra o absurdo.

No canto da sala de professores, o veterano Professor Ribamar, mestre da disciplina de Geografia e de sobrevivência, segurava sua caneca térmica. Ribamar tinha os cabelos brancos penteados para trás e vestia uma camisa de botão envelhecida pelo tempo, mas limpa de giz. Ele sabia onde não encostar. Ele olhou para Arthur dos pés à cabeça. Reparou na sujeira esbranquiçada no terno improvisado, reparou nos olhos arregalados de choque adrenalínico.

― Deixa eu adivinhar... ― A voz de Ribamar soava grossa, raspando como lixa. ― Oitocentos e dois. E você tentou fazer dinâmica de roda.

Dois outros professores que corrigiam pilhas de folhas de almaço começaram a rir baixinho. Mas não era um riso cruel. Era o riso de acolhimento. A risada da fraternidade dos lascados, a identificação imediata do caos do magistério.

Arthur caminhou lentamente até a mesa, encostou a pasta catálogo perfeita e inútil perto do garrafão de café, e deixou os braços pesarem junto ao corpo.

― Eu só queria mudar o paradigma espacial, professor Ribamar ― murmurou Arthur, servindo-se do líquido escuro e fumegante num copinho plástico que derretia levemente com o calor.

― Rapaz, paradigma espacial aqui a gente muda quando chove e o teto da sala pinga em cima da mesa do aluno. Aí a gente afasta a carteira para não molhar o diário. Fora isso, de frente para a lousa e encostado na parede para não tomar bolinhada por trás ― Ribamar deu um gole largo em sua caneca. ― Você acha que eles se importam com a sua teoria, menino? O instinto humano, em seu estado mais primata e selvagem dentro de um prédio escolar, quer apenas duas coisas: energia processada em formato de lanche de graça, e a diminuição do tempo dentro da instituição disciplinar. O resto é ilusão do MEC.

O conselho professoral na mesa soltou mais alguns murmúrios de concordância. Uma senhora com óculos encostados na ponta do nariz e que ensinava História levantou os olhos de sua pilha de provas.

― Não se preocupe, meu filho. O seu primeiro milagre não é ensinar tudo. O seu primeiro milagre é o aluno Maicon não ter te perguntado se você já fez contato com alienígenas durante a chamada. Porque comigo, ele perguntou ontem. É um batismo. A gente entra achando que é o jardineiro semeando flores, e descobre que é o guarda do zoológico de portas abertas.

As risadas ecoaram pela sala abafada, ruidosas, genuínas, desprovidas de qualquer intenção heroica. Eram apenas trabalhadores em uma linha de montagem emocional desgastante, encontrando alívio cômico nas frestas de suas próprias tragédias cotidianas. Arthur bebeu o café amargo, que desceu queimando o estômago e finalmente acordando seu senso de realidade. Olhou para as palmas de suas próprias mãos, cravejadas nas ranhuras digitais pelo pó calcário, a marca registrada da classe. A prova material de que ele agora não era mais um acadêmico utópico; era um de operação tática.

Passou o olhar ao redor, observando os rostos cansados, os diários amontoados, canetas mordidas pela ansiedade. E enquanto bebia as últimas gotas, sua visão focou na parede de azulejos pálidos atrás da garrafa de café, preenchida de fita adesiva amarelada e comunicados antigos. Apenas um item recebia reverência unânime ali, limpo e bem posicionado no centro visual de todos os presentes, sem a poeira que acometia todo o resto do colégio.

Era a folha solta de papel couché brilhante ostentando a grelha de dias e semanas. Cada olhar exausto que se erguia de uma correção penosa de provas fatalmente ancorava, por pura instabilidade mental, naquele quadrante cheio de quadradinhos pretos e raros e preciosos retalhos vermelhos. Lentamente, como quem decifra um mapa do tesouro capaz de interromper o sufocamento crônico do ruído dos ventiladores e do pó esmagador das lousas, Arthur flagrou a si mesmo memorizando as datas destacadas, entendendo o porquê de os olhares dos veteranos estarem fixos lá, buscando oxigênio nos números da matemática temporal. Ali repousava a verdadeira âncora de sanidade do educador brasileiro contemporâneo.

Por José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Conista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade



terça-feira, 10 de março de 2026

CRÔNICA DO DIA: O Som que Escapa em Chapadinha

O mercado municipal de Chapadinha é um organismo vivo, pulsante e barulhento, onde o cheiro do coentro fresco se mistura ao lodo das bancas de peixe e ao aroma adocicado da batata-doce assada. Para a maioria, é o lugar das compras de sábado; para mim, Samuel, é um campo de provas de resistência mental. Caminhar por esses corredores estreitos exige de mim um cálculo de engenharia emocional que ninguém ao redor suspeita existir.

Eu tenho trinta e quatro anos e a Síndrome de Tourette.

Antes mesmo de cruzar o portal de entrada do mercado, sinto a pressão subir pela base do crânio. É como uma coceira na alma, um acúmulo de eletricidade estática que precisa ser descarregado. Meus ombros dão um solavanco para cima, um movimento brusco e involuntário que faz a sacola de lona em meu braço balançar.

— Tudo bem aí, Samuel? — Perguntou o seu Zé, que vende farinha de puba logo na entrada.

Eu sorri, ou tentei, mas meu rosto foi sequestrado por uma careta rápida, um piscar de olhos sucessivo e um estalo com a língua que ecoou contra o paladar.

— Tudo certo, seu Zé. Só o calor! — Respondi, forçando a voz a soar o mais neutra possível.

Mentira. O calor de Chapadinha, embora impiedoso, era o menor dos meus problemas. O problema era o "tique", essa entidade autônoma que habita meu sistema nervoso e que decide, sem me consultar, que agora é a hora de emitir um som gutural, um “humm-humm” seco, seguido de um movimento de pescoço que parece tentar alinhar uma vértebra invisível.

Avancei pelo corredor das verduras. Chapadinha é uma cidade onde todo mundo se conhece, o que é uma faca de dois gumes. Por um lado, muitos já sabem quem sou; por outro, a familiaridade não impede o desconforto alheio. O mercado estava lotado. O som das facas batendo no cepo de madeira do açougue, os gritos dos feirantes anunciando o preço do maxixe e o rádio de pilha sintonizado em uma rádio local criavam uma poluição sonora que agia como combustível para o meu Tourette.

De repente, a tensão acumulada rompeu a represa.

— BIP! — O som escapou da minha garganta, agudo e súbito, como um alarme de carro disparado por acidente.

Uma senhora que escolhia tomates dois metros à frente deu um pulo de susto, derrubando um fruto maduro no chão. Ela se virou com uma expressão de pânico que rapidamente se transformou em indignação.

— Mas que falta de educação é essa, rapaz? Tá querendo assustar os outros? — Ela bradou, limpando as mãos no avental.

Eu senti o suor frio escorrer. O Tourette não é apenas o movimento; é o pós-movimento, o peso do olhar de quem nos rotula como loucos, drogados ou simplesmente mal-educados.

— Desculpe, senhora. É um tique. Eu não consigo controlar. — Expliquei, mas enquanto falava, meu braço direito disparou para o lado, um movimento semicircular que quase atingiu uma pilha de laranjas.

A roda de curiosos formou-se em segundos. É o "efeito espetáculo" das feiras do interior. As pessoas param de negociar o preço do feijão para analisar a "anormalidade" alheia. Ouvi risinhos abafados de dois rapazes perto da banca de temperos.

— Tá possuído, é? — Um deles comentou, alto o suficiente para eu ouvir.

A raiva borbulhou, mas aprendi cedo que a raiva só alimenta o ciclo de tiques. O estresse é o melhor amigo da síndrome. Quanto mais eu tentava suprimir os movimentos para parecer "normal", mais eles ganhavam força, como uma mola sendo comprimida ao limite.

— Não estou possuído. — Respondi, olhando diretamente para o rapaz. — Tenho uma condição neurológica chamada Síndrome de Tourette. Meu cérebro envia sinais errados para os meus músculos. É como um soluço, só que no corpo todo e na voz. Se o senhor tivesse uma perna quebrada, eu não riria do seu gesso. Por que ri do meu cérebro?

O rapaz desviou o olhar, subitamente interessado nos molhos de pimenta malagueta. A senhora dos tomates, percebendo a seriedade da minha voz, suavizou a expressão, embora ainda mantivesse uma distância de segurança.

A Lei Brasileira de Inclusão, a LBI, diz textualmente que a deficiência é o resultado da interação entre impedimentos de natureza física ou mental e as barreiras que a sociedade impõe. Naquele momento, no coração de Chapadinha, a deficiência não era o meu tique; era a barreira da ignorância daquelas pessoas.

Continuei minhas compras. Eu precisava de carne de sol e queijo coalho. No açougue, o barulho era ainda maior. O som do motor da serra de fita me causava uma vibração interna insuportável. Meus tiques vocais tornaram-se mais frequentes, uma sequência de estalos de língua e assobios curtos.

O açougueiro, um homem robusto chamado Raimundo, me atendeu com a naturalidade de quem entende que o mundo é feito de muitas formas. Ele não me encarava, não desviava o olhar com pena, nem fazia perguntas idiotas. Ele simplesmente pesava a carne.

— O de sempre, Samuel? — Perguntou ele, a lâmina deslizando com precisão.

— O de sempre, Raimundo. Obrigado por... você sabe.

— Sei de nada, rapaz. Carne é carne, cliente é cliente. Cada um com seu balanço.

Agradeci mentalmente por Raimundo. Em ambientes como o mercado, pessoas como ele são ilhas de sanidade. No entanto, ao sair do açougue, o Tourette me pregou uma peça mais pesada. Um tique motor complexo me fez inclinar o corpo e tocar o chão com a ponta dos dedos, repetidamente, três vezes. Para quem olhava de fora, parecia um ritual obsessivo, ou talvez um surto psicótico.

Um segurança do mercado aproximou-se com o rádio na mão, a postura tensa.

— Algum problema aqui, senhor? Está passando mal ou está fazendo graça?

Respirei fundo, tentando ignorar a vontade de emitir outro som agudo.

— Sou uma pessoa com deficiência, amigo. Está aqui meu laudo médico na carteira, se o senhor quiser ver. Estou apenas fazendo minhas compras e lidando com os sintomas do meu transtorno. O senhor está preparado para dar assistência ou está aqui para me constranger?

O segurança recuou um passo, a mão saindo do rádio. Ele murmurou um pedido de desculpas genérico e se afastou. A verdade é que a Síndrome de Tourette é um dos diagnósticos mais incompreendidos pela cultura popular, frequentemente reduzida a "falar palavrões", a coprolalia, que afeta apenas uma minoria dos pacientes. Para nós, a maioria, o Tourette é essa luta física contra o próprio corpo, esse cansaço muscular após um dia de movimentos involuntários, e o desgaste social de ter que se explicar em cada esquina de Chapadinha.

Saindo do mercado, as sacolas pesadas ajudaram a ancorar meus braços. O peso físico, por vezes, oferece um alívio proprioceptivo que acalma os tiques motores. Caminhei em direção à Praça do Viva, onde o vento soprava com mais liberdade.

Muitos pensam que a solução para pessoas como eu é o isolamento. "Fique em casa, Samuel, assim você não passa vergonha", dizia um tio meu há anos. Mas o isolamento é a morte da cidadania. O mercado de Chapadinha é meu por direito, tanto quanto de qualquer outra pessoa. O som que escapa da minha garganta é a prova de que a vida não é silenciosa, nem simétrica, nem previsível.

Sentei-me em um banco para descansar antes da caminhada final até casa. Meu pescoço doía. O esforço para suprimir os tiques diante do segurança e na banca de verduras tinha um preço físico: uma tensão na cervical que parecia um nó cego.

Olhei para a movimentação da cidade. Carros, motos, pessoas gritando, buzinas. Tudo ali era atípico se analisado de perto. Chapadinha é uma colcha de retalhos de ruídos e movimentos. Por que, então, o meu som e o meu movimento eram os únicos que precisavam de explicação?

A inclusão real não acontece quando o mundo fica em silêncio para não me incomodar. Ela acontece quando eu posso fazer o meu barulho, ter o meu espasmo, e a senhora dos tomates continua escolhendo seus frutos sem me tratar como uma aberração. A inclusão é o reconhecimento da nossa humanidade em meio ao caos produtivo do cotidiano.

Levantei-me, as sacolas de lona batendo contra minhas coxas. O trajeto de volta seria longo, e eu sabia que ainda emitiria muitos assobios e faria muitas caretas antes de chegar ao meu portão. Mas eu não baixaria a cabeça.

O Tourette é uma parte de quem sou, mas não define a extensão da minha coragem. Enquanto caminhava, emitindo um tique vocal rítmico que lembrava o canto de um pássaro assustado, percebi que o meu som, embora fugisse ao meu controle, era também um grito de presença. Eu estava ali. Eu ocupava o espaço. E Chapadinha teria que aprender a ouvir a música estranha e sincopada que o meu cérebro insistia em reger.

A luta por dignidade e pelo fim do capacitismo nos mercados, nas praças e nas repartições públicas não é uma luta silenciosa. No meu caso, ela tem estalos, assobios e movimentos bruscos. E é justamente através dessa coreografia involuntária que eu afirmo a minha existência e exijo o meu lugar à mesa ou, no caso, à bancada de farinha do seu Zé. O julgamento dos outros é um ruído de fundo que, com o tempo, aprendi a ignorar, concentrando-me na única sinfonia que realmente importa: a de caminhar com a cabeça erguida, sendo exatamente quem sou.

Por José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da  Humanidade



segunda-feira, 9 de março de 2026

CRÔNICADO DIA: O Eco dos Azuleijos



Tomás veio de Santos, onde o horizonte é cortado por guindastes e o mar tem cheiro de óleo diesel e sal grosso. Lá, a poesia é concreta, feita de areia dura e prédios que arranham o céu com geometria pragmática. Mas ali, no Centro Histórico de São Luís, a arquitetura não abrigava apenas pessoas; abrigava uma sintaxe antiga que ele desconhecia. O calor úmido da ilha não o fazia suar água, mas sim adjetivos.

Ele caminhava pela Rua do Giz, arrastando a mão pelas fachadas dos casarões coloniais. A cerâmica fria sob seus dedos não era lisa. Os azulejos, trazidos de uma Europa distante séculos atrás, possuíam relevos, pequenas imperfeições que, para um leitor atento, pareciam braile. Tomás buscava uma inspiração virgem, uma frase que nunca tivesse sido dita sobre aquela cidade magnética, mas São Luís era uma câmara de ecos.

Parou diante de um sobrado revestido por azulejos azuis e amarelos, com padrões florais que se repetiam numa métrica obsessiva: A-B-A-B, A-B-A-B. Era um soneto visual. Ele abriu seu caderno de anotações, a caneta pairando sobre a folha branca, ansiosa para capturar a "essência" do lugar. Escreveu: "A luz reflete na parede..."

Antes que pudesse terminar a oração, teve a sensação física de que alguém soprava em seu ouvido. Não era vento. Era uma correção. A frase em sua mente mudou, involuntariamente, para "O lume reverbera na faiança..."

Tomás sacudiu a cabeça, atordoado. Riscou a linha. Tentou de novo, buscando sua voz moderna, santista, direta. "O sol bate forte."

O sussurro voltou, emanando das juntas de argamassa podre entre os azulejos: "O astro fustiga a pedra..."

Ele recuou um passo, tropeçando no calçamento irregular de paralelepípedos. A cidade não lhe permitia escrever. A "Atenas Brasileira" não era apenas um apelido ufanista; era uma maldição. O ar estava tão saturado de literatura, tão denso de versos declamados por fantasmas de séculos passados, que não havia espaço para o novo. Cada esquina já havia sido descrita por Aluísio Azevedo; cada palmeira já pertencera a Gonçalves Dias; cada ironia já fora gasta por Odorico Mendes.

Sentou-se no meio-fio, derrotado pela própria erudição do reboco. O que é a inspiração, afinal? Tomás sempre acreditara que o escritor era um deus criador, tirando mundos do nada. Mas ali, cercado por aquelas paredes que funcionavam como espelhos acústicos do tempo, a verdade era mais humilde: o escritor não cria, ele apenas escuta. E o problema de escutar em São Luís é que as vozes são muitas e falam um português que não existe mais na boca do povo, mas que persiste na alma da pedra.

Um gato magro passou por ele, roçando em sua perna, e miou. Até o miado parecia ter uma cadência alexandrina.

Tomás olhou novamente para os azulejos. Percebeu que o padrão não era apenas decorativo. Era uma grade. A repetição dos desenhos impunha um ritmo, uma rima visual que condicionava o pensamento. Quem vive cercado por rimas visuais não consegue pensar em prosa livre. A cidade te obrigava a rimar, a buscar a consoante perfeita, a cair na armadilha da forma.

— Está ouvindo eles? — Perguntou uma voz rouca.

Tomás levantou os olhos. Um homem velho, vendendo picolés de frutas que Tomás não sabia nomear, parara o carrinho ao seu lado.

— Ouvindo quem?

— As palavras... — Disse o velho, chupando um picolé roxo que tingia sua língua. — Essas paredes aqui, moço, elas não seguram só o teto. Elas seguram a conversa de quem já morreu. O azulejo é feito de barro cozido, e o barro tem memória. Quando esquenta com esse sol de meio-dia, a memória vaza.

Tomás sorriu, um sorriso amarelo como os detalhes da fachada à frente.

— Eu estou tentando escrever, mas parece que estou apenas psicografando. Tudo o que penso já foi escrito melhor por alguém que morou nesta casa há duzentos anos.

— E por que o senhor quer ser o primeiro? — O velho empurrou o carrinho, fazendo as rodas de metal gritarem contra a pedra. — Ninguém inventa a água, moço. A gente só bebe dela. O eco não é defeito do som. É a prova de que a parede existe.

O vendedor se afastou, deixando Tomás com a frase flutuando no ar quente. "O eco é a prova de que a parede existe."

A angústia da influência, aquele medo paralisante de não ser original, começou a se dissolver. Ele olhou para o caderno riscado. A autoria não era um ato solitário de invenção, mas um coro. Se as paredes sussurravam verbos arcaicos, o papel dele não era silenciá-los, mas convida-los para dançar com suas gírias de Santos. A literatura não nascia no vácuo; ela nascia no ricochete.

Levantou-se e tocou o azulejo novamente. Estava quente, quase febril. Desta vez, não tentou impor sua voz sobre a pedra. Fechou os olhos e deixou que o vocabulário da cidade invadisse sua mente: arruinado, solene, maresia, azinhavre. Palavras pesadas, úmidas.

Abriu o caderno e escreveu, sem brigar com a história:

"Os verbos esquecidos dormem na cerâmica, esperando que o calor da tarde os faça evaporar. Eu não escrevo; eu suo a história dos outros."

Não era um poema épico. Não era um romance revolucionário. Mas era verdadeiro. Tomás percebeu que a originalidade em São Luís não estava em ignorar o passado, mas em saber harmonizar o próprio grito com o sussurro constante daquelas fachadas. A inspiração não vinha de dentro, como uma fonte mágica; ela vinha de fora, batendo, refletindo, voltando. Ele era apenas mais uma superfície onde o som da cidade batia antes de seguir viagem.

Guardou a caneta no bolso, sentindo-se mais leve. O peso da tradição, que antes parecia esmagá-lo, agora o sustentava. O eco dos azulejos não era uma prisão, era uma base. E sobre essa base, feita de barro cozido e verbos antigos, ele finalmente poderia começar a construir, tijolo por tijolo, palavra por palavra, a sua própria ruína ou o seu próprio palácio.

Por José Casanova
Professor,Jornalista, Escritor e Cronista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de  Letras da Humanidade

domingo, 8 de março de 2026

CRÔNICA DO DIA: Ritmos da Ilha e Mentes Inquietas



Quando os primeiros raios de sol de São Luís atravessaram a janela do quarto no bairro da Cohama, atingindo o rosto de Mateus Ribeiro, sua mente já estava em rotação máxima há pelo menos duas horas. Ele não acordara com o sol; ele simplesmente nunca havia desligado o motor. Enquanto a cidade despertava sob o manto de umidade característica da Ilha do Amor, Mateus tentava, pela quarta vez consecutiva, organizar os livros de Antropologia na estante, apenas para ser sequestrado pela visão de uma pequena rachadura no gesso do teto que, jura ele, tinha o formato exato do contorno da costa maranhense.

— Concentra, Mateus. O trabalho de campo não vai se escrever sozinho. — Murmurou para as paredes, embora soubesse que sua voz era apenas um ruído a mais na orquestra de pensamentos que aceleravam em seu lobo frontal.

Mateus era um estudante de Ciências Sociais da UFMA, um jovem de vinte e dois anos cujos olhos castanhos brilhavam com uma curiosidade elétrica, típica de quem possui o Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH). Para ele, a capital maranhense não era apenas um cenário geográfico; era um estímulo sensorial ininterrupto. O problema não era a falta de atenção, como muitos professores insistiam em anotar em seus boletins desde a infância na rede pública. O problema era o excesso dela. Ele prestava atenção em tudo: no ritmo do bumba-meu-boi que ecoava de ensaios distantes, no padrão das ondas do mar na Ponta d'Areia, na temperatura exata do café que esquecera sobre a mesa e, principalmente, na tese complexa sobre as matrizes africanas que precisava entregar em dois dias.

Ele pegou sua mochila, enchendo-a de canetas de quatro cores diferentes, três cadernos (um para a faculdade, um para desenhos e outro para ideias aleatórias que surgiam como flashes de magnésio) e saiu de casa. O trajeto até o Centro Histórico, onde planejava observar a dinâmica dos casarões para seu trabalho, era um desafio de navegação mental.

No terminal de integração da Cohama, o caos era uma sinfonia. Mateus sentia cada empurrão, ouvia cada conversa paralela e, por um momento, ficou paralisado diante de um cartaz de um show de reggae que seria no final de semana. Reggae. Jamaica. Radiolas. Frequências baixas. Como o som viaja na água? Em questão de segundos, ele já não estava mais no terminal; sua mente navegava por artigos científicos sobre acústica que lera três meses atrás em um surto de interesse por engenharia de som.

— Ei, rapaz! Vai subir ou vai ficar aí namorando o poste? — o motorista do ônibus gritou, despertando-o do transe.

Mateus subiu apressado, sentindo o rosto queimar. Sentou-se perto da janela e pegou o caderno. Tentou escrever sobre o trabalho de antropologia, mas o ritmo do motor do ônibus, um tantan-tantan metálico e persistente, o lembrou da batida do tambor de crioula. Ele começou a desenhar o padrão rítmico nas margens do papel. Suas mãos não paravam: uma perna balançava freneticamente, enquanto os dedos da mão esquerda batiam no banco à sua frente.

— Você está bem, mano? — Perguntou um outro jovem sentado ao lado, estranhando a agitação.

— Sim, sim. Só estou... — Mateus buscou a palavra. — Processando. Tem muita coisa acontecendo aqui dentro hoje.

O rapaz deu de ombros e voltou para o celular. Mateus sentiu aquela pontada familiar de isolamento. As pessoas achavam que ele era impaciente ou ansioso, mas a verdade é que ele estava apenas tentando não se afogar em si mesmo. Para um jovem neurodivergente em São Luís, a cidade oferece o melhor e o pior dos mundos: a efervescência cultural que alimenta a criatividade e o caos urbano que estraçalha a organização executiva.

Ao descer na Praia Grande, a arquitetura colonial o abraçou. Os azulejos portugueses, com seus padrões geométricos repetitivos, eram um oásis para seu hiperfoco. Ele podia passar horas analisando a simetria de um único casarão na Rua do Giz. E foi exatamente o que aconteceu.

Ele se sentou no meio da escadaria, ignorando os turistas e os vendedores de artesanato. O sol batia nos azulejos azuis e brancos, criando reflexos que dançavam diante de seus olhos. De repente, a tese de antropologia que parecia um fardo pesado de manhã começou a se conectar. Ele não via apenas pedras e cal; ele via a história das mãos que assentaram aqueles blocos, via a resistência negra infiltrada nas frestas do barro, sentia a pulsação do porto que outrora fora o coração da província.

Suas canetas coloridas começaram a voar pelo papel. O que seria um texto acadêmico rígido transformou-se em um mapa mental vibrante. Ele desenhava fluxos de poder, setas que ligavam a música de hoje ao sofrimento de séculos atrás, rimas que explicavam conceitos de sociologia urbana. O hiperfoco, aquele estado de graça doloroso e magnífico, o havia capturado. Durante três horas, Mateus não sentiu sede, não percebeu o calor sufocante e nem ouviu as notificações insistentes em seu celular.

A mente inquietante, que o fazia perder as chaves de casa e esquecer o nome das pessoas dois segundos após as apresentações, agora era um laser de alta precisão. Naquele momento, o TDAH não era um déficit; era uma superpotência de síntese criativa.

Porém, como toda maré em São Luís, o refluxo era inevitável.

Quando o sol começou a baixar, tingindo o Rio Anil de laranja e carmim, Mateus sentiu o cansaço mental desabar sobre seus ombros como um manto de chumbo. A adrenalina do hiperfoco evaporara, deixando-o com uma dor de cabeça latente e uma desorientação espacial momentânea. Ele olhou para o caderno. Tinha trinta páginas de anotações brilhantes, mas o resumo que o professor exigia para aquela tarde ainda não estava formatado.

Ele se levantou, sentindo as pernas dormentes. Precisava comer, precisava de silêncio, mas São Luís àquela hora se preparava para a noite. O som de uma radiola de reggae começou a brotar de um bar próximo, as vibrações graves fazendo o chão tremer levemente.

Mateus caminhou até uma lanchonete e pediu um suco de acerola. Enquanto esperava, tirou da mochila um pequeno objeto de metal, um fidget spinner desgastado que ele usava para canalizar a energia cinética. Girar o objeto o ajudava a fixar o pensamento no presente, a não deixar a mente voar de volta para as frestas dos azulejos ou para as batidas do tambor.

— Você é o Mateus, lá da UFMA, né? — Uma moça de óculos e cabelos cacheados sentou-se na mesa ao lado. — Te vi lá na escadaria. Você parecia estar em outra dimensão, escrevendo sem parar.

— É... — Ele sorriu sem jeito, escondendo o brinquedo de metal sob a palma da mão. — Às vezes eu entro nessas "outras dimensões". É o meu jeito de funcionar.

— Eu vi um pouco do que você estava rascunhando. Aquela conexão entre a urbanização da Ilha e os toques de terreiro... aquilo é genial. Você devia mandar para o congresso de estudantes.

Mateus sentiu um alívio genuíno. O reconhecimento de que sua mente inquieta produzia valor, e não apenas confusão, era o melhor remédio que ele poderia receber.

— O problema é organizar tudo isso antes do prazo. — Admitiu ele. — Minha cabeça é como essa cidade em dia de festa de São Pedro: muita cor, muita gente falando ao mesmo tempo, muita alegria, mas um trânsito impossível de organizar.

A moça riu, uma risada leve que parecia harmonizar com o vento da orla.

— Mas olha, Mateus, a beleza da gente aqui na Ilha é justamente essa mistura. Se a gente fosse todo mundo arrumadinho e silencioso, São Luís seria apenas um museu de pedra morta. A gente precisa dessa sua agitação para manter as coisas vivas.

Ele terminou o suco, sentindo a energia retornar devagar. Ele sabia que a noite seria longa, que teria que lutar contra a procrastinação para transcrever aqueles rascunhos fascinantes para o computador, e que provavelmente perderia o ônibus de volta por se distrair com a lua refletida no mar. Mas ali, sob o céu da capital que acolhia poetas e loucos com a mesma generosidade, Mateus aceitou que sua mente era, de fato, um ritmo próprio.

Ele não precisava ser o metrônomo perfeito que o sistema acadêmico esperava; ele poderia ser o improviso sincopado de um solo de saxofone no Reviver. A dificuldade de concentração permaneceria lá, o esquecimento das coisas triviais continuaria a persegui-lo, mas a capacidade de ver beleza onde os outros viam apenas azulejos velhos era o seu lugar no mundo.

Mateus guardou seus cadernos, fechando o zíper da mochila com um senso de propósito renovado. Ele atravessou a rua, esquivando-se do trânsito intenso da volta para casa, mas desta vez não se sentia sobrecarregado. Ele apenas sorriu. Enquanto as luzes dos postes se acendiam uma a uma, pontilhando a orla de São Luís como estrelas terrestres, ele percebeu que a sua pressa interna não era um erro de fabricação. Era apenas a sua maneira de acompanhar a rotação acelerada de um planeta que ele, em seus melhores dias, conseguia entender como ninguém mais.

A luta por espaço, por direitos e por compreensão educacional ainda seria uma constante em sua vida acadêmica. Ele ainda teria que explicar muitas vezes por que não conseguia ficar parado ou por que precisava de fones de ouvido para ler um texto simples na biblioteca. Contudo, naquela tarde, o mar de São Luís lhe ensinara que é possível ser imenso e turbulento ao mesmo tempo, e que a verdadeira inclusão começa quando paramos de tentar acalmar a tempestade e aprendemos, enfim, a navegar nela.

A agitação não cessaria ao chegar em casa, nem as letras parariam de flutuar diante de seus olhos pregando peças de atenção. Ele sabia que o roteiro da sua vida seria escrito em saltos, em hiperfocos e em recomeços. E ao olhar uma última vez para os casarões antes de entrar no ônibus, Mateus compreendeu que seu direito à neurodivergência era, antes de tudo, o direito de ser essa mente inquieta que faz a Ilha pulsar em ritmos que só ele era capaz de traduzir em cores e rimas.

Esta crônica é dedicado ao escritor Matheus Soares da Academia  Bacabalense de Letras 

Por José Casanova
Professor,Jornalista, Escritor e Cronista
Membro da Academia Bacbalense de letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade













sábado, 7 de março de 2026

CRÔNICA DO DIA : O Corretor de Destinos


A sala era um campo de batalha, embora ninguém de fora pudesse perceber. Não havia cheiro de pólvora nem drones sobrevoando, mas o ar estava saturado com o odor metálico de tinta fresca e o perfume seco de papel velho. Bento estava de pé, a camisa empapada de suor nas costas, empunhando uma caneta vermelha como se fosse uma adaga. Diante dele, sobre a mesa de madeira maciça, jazia o manuscrito de setecentas páginas intitulado "A Epopeia do Sertão Maranhense". O autor, um jovem promissor de Caxias, o enviara com a esperança de que Bento, o lendário editor conhecido apenas como "O Exterminador", lhe desse a bênção final.

Bento não dava bênçãos; ele dava extrema-unção.

Ele olhou para a página 43. O parágrafo descrevia o nascer do sol no Rio Itapecuru. Eram vinte linhas. Vinte linhas para dizer que o sol nasceu. O adjetivo "rubro" aparecia três vezes. "Majestoso", duas. Bento sentiu uma pontada na têmpora. Aquilo não era literatura; era vaidade. O escritor não estava descrevendo o rio; estava descrevendo a si mesmo descrevendo o rio, admirando o próprio reflexo na superfície das palavras.

Era a própria personificação de Narciso.

Com um movimento brusco, Bento riscou o parágrafo inteiro. O som da caneta rasgando o papel foi audível no silêncio da sala. Riiiip. Um corte. Uma amputação necessária.

O texto sangrou em vermelho.

A revisão não é um ato de correção gramatical; é uma luta corporal. Bento sentia o peso físico daquelas palavras inúteis. Elas ocupavam espaço, consumiam oxigênio, pesavam na mochila do leitor. Cada advérbio desnecessário era uma pedra que o narrador obrigava o público a carregar morro acima. Sua função era aliviar a carga, mesmo que para isso tivesse que quebrar os dedos do autor que se agarravam às suas preciosas criações.

Virou a página. Um diálogo.

"— Maria, por obséquio, poderias tu, em tua infinita bondade, passar-me o sal que repousa sobre a toalha de linho bordada por tua avó?"

Bento soltou um gemido. Ninguém falava assim. Nem em 1800, nem hoje, nem nunca. A verossimilhança fora sacrificada no altar do rebuscamento. Ele riscou tudo e escreveu na margem, com letras garrafais e trêmulas de raiva contida: "— Me passa o sal, Maria."

A luta física se intensificou. Seus ombros doíam. A tensão de segurar o caos, de impedir que a entropia da linguagem tomasse conta da obra, exigia uma postura de gladiador. Ele caminhava ao redor da mesa, gesticulando para o vazio, discutindo com o autor ausente.

— Você não entende, garoto? — Murmurou Bento, batendo o dedo na mesa. — O leitor não tem tempo para o seu umbigo. Ele quer a história. Ele quer o sangue, o suor, o medo. Você está dando a ele um catálogo de sinônimos!

Arrancou a página 150. Amassou-a e jogou no canto da sala, onde já havia uma pilha de bolas de papel, cadáveres de cenas inteiras que não sobreviveram ao critério da necessidade. Naquela cena, o protagonista passava três páginas pensando sobre a morte de um besouro. O besouro não tinha função na trama. Era apenas um pretexto para o autor mostrar que lera Kafka. Fora. O Exterminador não tinha piedade de referências gratuitas.

A noite avançava lá fora, os grilos de Bacabal cantando em um ritmo que parecia zombar da prolixidade humana. Bento serviu-se de mais uma xícara de café frio. Suas mãos tremiam, manchadas de tinta vermelha. Parecia sangue seco. Talvez fosse. O sangue das ideias que ele matara para que a história pudesse viver.

Voltou ao manuscrito. Página 400. O clímax. Aqui, o autor finalmente acertara o tom. A descrição da seca, da fome, da morte do gado. Era crua. Era real. Bento sentiu um arrepio. Ali estava. A pepita de ouro no meio da lama. Mas, logo em seguida, o autor estragava tudo com uma reflexão filosófica de cinco páginas sobre a transitoriedade da existência.

— Não! — Gritou Bento, riscando furiosamente. — Deixe o leitor sentir! Não explique o que ele deve sentir! Confie na sua cena!

O corte foi profundo. Cinco páginas inteiras marcadas com um grande "X". O que sobrava era o silêncio após a tragédia. E naquele silêncio, a dor do personagem gritava com uma força que nenhuma explicação poderia igualar. O vazio, percebeu Bento, era a ferramenta mais poderosa do escritor. Era no espaço em branco entre um ponto final e a próxima maiúscula que a imaginação do leitor trabalhava.

Ao final da madrugada, o manuscrito de setecentas páginas fora reduzido a trezentas. A mesa estava coberta de retalhos. O chão, um cemitério de parágrafos. Bento sentou-se, exausto. O corpo doía como se tivesse carregado sacos de cimento. Mas, ao passar a mão pelas páginas restantes, sentiu a pulsação da obra. Agora, ela respirava. O coração da história batia forte, sem a gordura que o sufocava.

Ele pegou a caneta vermelha, agora quase sem tinta, e escreveu na capa do manuscrito sobrevivente: "Agora sim. Agora é um livro."

Levantou-se e foi até a janela. O sol começava a pintar o céu de Bacabal com cores que dispensavam adjetivos. Bento sabia que o autor, ao receber o texto mutilado, choraria. Ficaria furioso. Chamaria Bento de carniceiro, de insensível, de inimigo da arte. Mas, daqui a alguns anos, quando relesse a obra publicada, entenderia. Ou talvez não. Pouco importava. O Exterminador não trabalhava para o aplauso do autor; trabalhava para a sobrevivência do texto.

Olhou para as próprias mãos. A tinta vermelha impregnada nas digitais era a prova do crime e da salvação. A revisão era um ato de amor violento. Era preciso ferir para curar. Era preciso matar o que era apenas bonito para salvar o que era verdadeiro. E ali, naquela sala silenciosa onde o único som era o da própria respiração, Bento soube que a batalha fora vencida. O que restava sobre a mesa não era mais um amontoado de palavras; era algo sólido, denso, perigoso. Era literatura.

Por José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista
Membro da Academia Bcabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade

quinta-feira, 5 de março de 2026

CRÔNICA DO DIA: Vinte e Quatro Horas de Fortaleza: O Amor sem Pausas



O despertador de Teresa Cristina não precisa de som. Às quatro e meia da manhã, o silêncio do bairro de Messejana, em Fortaleza, é quebrado pelo primeiro espasmo de Tiago no quarto ao lado. Teresa desperta instantaneamente, como se um fio invisível ligasse seu sistema nervoso ao do filho de dez anos. Tiago nasceu com paralisia cerebral e um diagnóstico severo de autismo, uma combinação que faz de cada segundo da vida de sua mãe um exercício de vigília absoluta.

Ela se levanta antes que o sol invada as frestas da janela. A primeira tarefa das suas vinte e quatro horas é a higiene de Tiago. O manejo exige força física e uma delicadeza infinita. Teresa, uma mulher miúda cujas mãos carregam calos de anos levantando um corpo que não lhe oferece sustentação, realiza a troca de fraldas e o banho com a precisão de um ritual sagrado.

— Bom dia, meu príncipe. O sol já vai aparecer. — Sussurra ela, embora Tiago responda apenas com um olhar vago e um leve estalo de língua. Para ela, aquele estalo é um bom-dia completo.

Às seis horas, começa a alquimia da cozinha. A dieta de Tiago é restrita, pastosa, calculada para evitar engasgos e crises alérgicas. Entre bater o liquidificador e conferir as dosagens das medicações anticonvulsivas, Teresa engole uma xícara de café frio, em pé, olhando para o relógio de parede. O tempo para uma mãe cuidadora em Fortaleza não corre; ele fustiga.

O deslocamento para a primeira terapia, no centro da cidade, é um capítulo aparte de resistência urbana. O ônibus de integração é um território de batalhas. Teresa precisa manobrar a cadeira de rodas pesada, lidar com as rampas hidráulicas que frequentemente quebram e, o que é pior, com os suspiros de impaciência dos outros passageiros que veem no embarque de Tiago um atraso para seus próprios destinos.

— Mais rápido, dona, tem gente com pressa! — Grita um homem no fundo do coletivo.

Teresa não olha para trás. Ela aprendeu a ensurdecer para o desrespeito. Sua energia é finita e ela não a desperdiçará com quem não consegue enxergar a montanha que ela sobe todos os dias carregando o filho no asfalto quente da capital cearense.

A manhã é uma sucessão de salas de espera: fisioterapia, fonoaudiologia, terapia ocupacional. Enquanto Tiago está dentro dos consultórios, Teresa não descansa. Ela usa o Wi-Fi da clínica para pesquisar recursos judiciais, responder mensagens no grupo das "Mães de Luta" e tentar organizar a papelada do Benefício de Prestação Continuada (BPC), que o governo insiste em burocratizar. Sua mente é um escritório jurídico e uma clínica médica funcionando em paralelo.

Ao meio-dia, o calor de Fortaleza atinge o ápice. O asfalto parece exalar fogo. Teresa busca uma sombra perto do Hospital Infantil para dar o almoço a Tiago. Ela usa uma seringa para hidratá-lo, gota a gota, com a paciência de quem sabe que o tempo do filho é diferente do tempo do mundo. As pessoas passam, olham, algumas com pena, outras com um estranhamento que beira a repulsa. Teresa Cristina é invisível para a metrópole, mas ela é o universo inteiro para o menino que agora sorri levemente ao sentir o vento batendo no rosto.

A tarde reserva o atendimento escolar. Teresa luta para que o Atendimento Educacional Especializado (AEE) seja cumprido. Ela senta-se no corredor da escola municipal, pronta para intervir caso Tiago tenha uma crise sensorial ou precise de aspiração. Ela é a mediadora, a sombra protetora, o suporte que o Estado muitas vezes falha em prover.

— Você não se cansa, Teresa? — Perguntou uma vez uma vizinha, admirada com a rotina.

— Eu não tenho o direito de me cansar. — Respondeu ela na época. Mas, na intimidade de suas vinte e quatro horas, o cansaço é seu companheiro mais fiel. É uma exaustão que dói nos ossos, mas que é silenciada pelo amor sem pausas.

O anoitecer em Fortaleza traz o retorno para casa. O ritual matinal se inverte: jantar, banho, medicações da noite, troca de fraldas. Quando Tiago finalmente adormece, por volta das dez da noite, o dia de Teresa ainda não terminou. Ela precisa lavar as roupas especiais, esterilizar os equipamentos e, finalmente, tomar seu primeiro banho demorado, onde o choro reprimido durante o dia pode, enfim, misturar-se à água do chuveiro.

Ela deita-se por volta da meia-noite, sentindo cada músculo do corpo pulsar de fadiga. Mas o sono de uma mãe típica é leve como uma pluma. Qualquer ruído no monitor eletrônico, qualquer alteração na respiração de Tiago, e ela estará de pé no segundo seguinte.

Essa rotina de vinte e quatro horas não é um feriado, não tem final de semana e não tem férias. É uma dedicação total que retira da mulher o direito ao lazer, ao autocuidado e, muitas vezes, à saúde mental. A invisibilidade das mães cuidadoras em Fortaleza é uma chaga social que ninguém quer curar. Elas são os pilares que seguram as vidas que a sociedade prefere não ver.

Ao fechar os olhos, Teresa pensa no dia de amanhã. Será quase idêntico ao de hoje. A mesma luta no ônibus, a mesma paciência na seringa de comida, o mesmo amor incondicional que a mantém íntegra no meio da tempestade.

Teresa Cristina adormece com o toque suave da mão de Tiago, que em um movimento reflexo durante o sono, buscou a mão da mãe no lençol. Esse pequeno gesto, essa conexão elétrica e pura, é o que recarrega suas baterias para as próximas vinte e quatro horas. O amor sem pausas de Teresa não é um sacrifício romântico; é o ato político mais forte que existe: a afirmação de que toda vida, por mais complexas que sejam suas condições, merece ser vivida com ternura, cuidado e um respeito que não dorme, nunca.

Por José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade





quarta-feira, 4 de março de 2026

CRôNICA DO DIA : A Brevidade das Horas em Alto Alegre


Em Alto Alegre do Maranhão, o tempo não se mede em horas, mas em sombras. Quando o sol atinge o pico, não é meio-dia; é a hora em que a enxada para. O poeta, recém-chegado da capital com a bagagem cheia de livros e a cabeça lotada de metáforas barrocas, sentou-se num toco de madeira observando o movimento da roça. Diante dele, a vastidão da terra batida exigia uma descrição, e sua mão, viciada em floreios, começou a traçar no caderno: "A terra vermelha, sedenta e ancestral, estendia-se como um tapete sangrento sob o pálido manto do céu equatorial..."

Ele parou. Releu. A frase parecia uma mentira.

Olhou para Seu Inácio, um homem cuja pele tinha a textura de couro curtido e que estava ali perto, amolando um facão com uma pedra lisa. O movimento era rítmico, preciso. Chissss, chissss. Não havia desperdício de energia. O poeta sentiu vergonha de seus adjetivos. Chamar a terra de "ancestral" era uma redundância que a própria terra ignorava; ela simplesmente era. Chamar o céu de "manto equatorial" era enfeitar o que servia apenas para cobrir e queimar.

— O senhor acha que chove hoje? — Perguntou o poeta, tentando quebrar o silêncio denso que se formava entre a literatura e a realidade.

Seu Inácio parou o facão no ar, testou o fio com a polegar calejada e olhou para cima.

— Chove.

A resposta veio seca, um substantivo e um verbo implícito na certeza do tom. Não houve "talvez", nem "quem sabe", nem descrições sobre a umidade relativa do ar ou a cor das nuvens. A vida rural, percebeu o poeta, não tinha paciência para advérbios de dúvida. A sobrevivência em Alto Alegre dependia da precisão. Se a chuva vem, planta-se. Se não vem, espera-se. O rodeio linguístico era um luxo urbano, uma extravagância de quem tem tempo garantido e supermercado na esquina.

O poeta riscou a frase anterior no caderno. Tentou de novo, buscando mimetizar a economia do homem ao seu lado.

"A terra é vermelha. O céu queima."

Melhor. Mas ainda sentia que sobrava algo. "Vermelha" e "queima" eram óbvios para quem estava ali. A redundância era o pecado capital daquele lugar. Na cidade, o excesso de palavras servia para preencher o vazio existencial dos elevadores e das reuniões corporativas. Ali, o vazio não existia; tudo estava cheio de propósito. A galinha ciscava para comer. O vento soprava para espalhar semente. A palavra, portanto, só deveria existir se tivesse a função de uma ferramenta: cortar, plantar, colher, curar.

Ele observou uma mulher passando com uma trouxa de roupa na cabeça, equilibrando o peso com uma dignidade vertical invejável. Quis escrever que ela caminhava "com a elegância de uma rainha destronada", mas se conteve. A mulher caminhava para lavar roupa. Ponto. A poesia não estava na comparação que ele forçava sobre a cena, mas na ação bruta e necessária dela. Adjetivar o caminhar daquela mulher era desrespeitar o peso que ela carregava. O adjetivo, pensou ele com um travo amargo na boca, é muitas vezes a maquiagem da covardia de encarar o substantivo nu.

A tarde avançava e a luz mudava, tornando as sombras mais longas e nítidas. O poeta percebeu que a brevidade das horas no campo era uma ilusão. O dia parecia curto porque não havia tédio, apenas ciclo. O texto que tentava nascer ali precisava obedecer a essa mesma lei física. Cada palavra tinha que pagar seu aluguel na página. Se uma vírgula não sustentasse o sentido da oração, deveria ser capinada como erva daninha que rouba nutrientes do feijão.

— A escrita do senhor rende? — Perguntou Seu Inácio, guardando a pedra de amolar no bolso da calça frouxa.

— Rende muito mato, Seu Inácio. Estou tentando limpar — Respondeu o poeta, aceitando a metáfora agrícola.

— Mato alto esconde cobra. — Sentenciou o velho, levantando-se. — Melhor deixar o terreiro limpo.

Aquela frase ecoou na mente do escritor como um mandamento estético definitivo. "Mato alto esconde cobra". O excesso de palavras escondia o sentido, camuflava a intenção, permitia que a mentira se alinhasse nas entrelinhas. O texto limpo, o "terreiro batido" da página, era perigoso porque revelava tudo. Não havia onde se esconder num texto sem adjetivos. A verdade ficava exposta, nua sob o sol a pino.

Voltou ao caderno. As páginas, antes promessas de romances épicos e descrições caudalosas, agora pareciam pedir silêncio. Ele começou a cortar. Riscou "magnífico", eliminou "estrondoso", assassinou "indelével". A cada corte, sentia um alívio físico, como se tirasse pedras da mochila. O que restava era pouco, quase nada aos olhos de um leitor apressado, mas tinha o peso específico do chumbo.

A noite caiu sobre Alto Alegre sem o protocolo gradual dos crepúsculos românticos; a fachada da escola Rosimeire Torres Nunes simplesmente escureceu, e os grilos assumiram o turno do som. O poeta fechou o caderno, agora contendo apenas três frases que sobreviveram ao massacre da tarde. Eram frases curtas, diretas, duras como a madeira do toco onde sentara. A simplicidade, concluiu, não era pobreza; era a máxima sofisticação da urgência.

Caminhou de volta para a casa, guiado apenas pelo cheiro de café e pela luz amarela de uma lamparina na janela. Seus passos na terra seca faziam um som abafado, sem eco. Ele entendeu que, para escrever sobre aquele lugar, ou sobre qualquer verdade humana, precisaria se tornar um exterminador de excessos. A partir de agora, cada palavra sua teria que ter a solidez da enxada de Seu Inácio: feita de ferro e madeira, sem brilho, mas capaz de abrir a terra e garantir o sustento. O vazio da página em branco, que antes o assustava, agora parecia um campo arado, esperando apenas a semente certa, e nada mais.

Por José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade