Em Cururupu, onde a brisa do Atlântico se mistura ao perfume da mata densa, existe uma forma de tocar o pandeiro que desafia a lógica e celebra a memória viva de um povo. O "Costa de Mão" não é apenas um sotaque; é um tesouro em perigo, uma joia rítmica que exige dos músicos não apenas perícia, mas uma entrega absoluta ao movimento contramão da história. Ao contrário da técnica tradicional, onde a palma da mão percute a pele do instrumento, aqui o som é extraído pelo impacto seco e peculiar das costas da mão. O resultado é uma sonoridade fantasmagórica, um estalo mais abafado, mais profundo, que parece carregar o lamento de quem insiste em resistir contra o desaparecimento.
Mestre Edmundo, um dos poucos guardiões desse legado, costumava dizer que o Costa de Mão é a percussão dos humildes que não tinham permissão para vibrar alto demais sob o jugo dos tempos passados. Ele dizia que tocar com as costas da mão era, originalmente, a marca de quem, por cansaço ou necessidade, adaptou o pandeiro à dor.
Hoje, porém, essa adaptação é o símbolo da resistência em Cururupu. Observar um grupo tocando é presenciar uma luta silenciosa: enquanto as matracas se proliferam e os novos sotaques dominam os festivais, o Costa de Mão mantém sua cadência solene, teimosa, como um mangue que continua prendendo suas raízes mesmo quando a maré tenta levá-lo.
Edmundo alisava a borda gasta do pandeiro antes de começar o ensaio e fechava os olhos por um segundo. Ao fechar os olhos, Edmundo imaginava os antigos escravizados protegendo as mãos feridas sem abrir mão da festa. Era assim que ele explicava aos mais novos o nascimento daquele toque
A técnica é exigente. As articulações do pulso precisam ser de uma precisão quase mecânica, e a pele das mãos dos tocadores, calejadas por décadas, desenvolveu uma espessura que protege o osso do impacto constante contra o aro de madeira.
Quando eles entram no ritmo, o som que emerge é hipnótico, quase cerimonial. Há um quê de segredo naquelas batidas que parecem convocar as almas de quem, séculos atrás, deu cor a essa tradição na costa maranhense. O público que visita Cururupu, muitas vezes acostumado aos ritmos estrondosos da capital, estranha inicialmente o som contido, quase introspectivo, para logo em seguida ser tragado pela força da repetição.
A resistência cultural, em Cururupu, tem rosto e nome, mas, acima de tudo, tem o som das mãos. A juventude local, cercada pelas ofertas de ritmos digitais e pela pressa do mundo contemporâneo, olha para os velhos tocadores com uma mistura de veneração e desorientação.
Manter vivo o Costa de Mão não é apenas uma questão de preservar uma técnica; é garantir que o solo que sustenta a identidade daquela cidade continue fértil. Se o sotaque se apagar, uma porta para entender quem foram os homens e mulheres que desbravaram aquelas costas se fechará para sempre. Cada batida é, portanto, um aviso enviado ao futuro:
- Nós existimos, nós inventamos o nosso próprio ritmo.
Nos ensaios que precedem a saída do boi, Edmundo é uma sentinela. Ele não tolera que o tempo se perca nem que o ritmo se desvie para a facilidade dos sotaques dominantes. O Costa de Mão é preciso, é austero, é quase devocional. Ele explica aos meninos que ali se reúnem que a música não existe para divertir o turista, mas para manter a linhagem ininterrupta.
A resistência é o ato de continuar tocando quando ninguém mais parece ouvir, e em Cururupu, essa é a oração diária. Há tradições que sobrevivem não porque são numerosas, mas porque alguém se recusa a abandoná-las.
A beleza singular desse toque reside na sua imperfeição aparente. Por ser uma técnica que o corpo humano não domina por completo sem um sacrifício físico, cada giro de mão, cada impacto, traz o registro da luta. Quando o boi gira e as damas de fita acompanham o compasso, o som das costas das mãos sobe pelo ar, misturando-se à maresia e ao grito dos pássaros do fim de tarde.
Naquele momento, não importa se o sotaque está em extinção na escala das grandes arenas. O que importa é que em Cururupu, o Costa de Mão é a verdade, é o batimento cardíaco daquela gente, a prova irrefutável de que, enquanto houver uma mão e um instrumento, o Costa de Mão continuará dizendo o que Cururupu nunca aceitou esquecer.
José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Crônista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade












































