segunda-feira, 20 de julho de 2026
Defensoria Pública reúne povos tradicionais, quilombolas e movimento negro para fortalecer políticas de igualdade racial em Bacabal
quinta-feira, 9 de julho de 2026
CRÔNICA DO DIA: Marrom - A Cor da Resistência
O
carro ainda nem havia parado completamente quando os flashes começaram a
pipocar como fogos de artifício em noite de São João. Os pés calçados numa sandália
que ajudara a criar com seus próprios
pitacos de estilista. Sua beleza negra dominava o ambiente.. Ela acena para fãs
que a esperavam na entrada do hotel. Era Alcione, a marrom.
O saguão do hotel fervilhava de executivos, artistas e jornalistas. As
portas de vidro se abriram e Alcione surgiu envolta num vestido negro salpicado
de cristais que pareciam pequenas estrelas presas ao tecido. Era impossível não
olhar. Não porque fosse extravagante, mas porque carregava aquela rara
elegância de quem sabe exatamente quem é.
Foi então que uma voz
atravessou o salão:
— Ih... chegou o navio
negreiro!
As conversas morreram pela
metade. Um garçom congelou com a bandeja nas mãos. A recepcionista fingiu
procurar alguma coisa no computador para esconder o constrangimento.
Alcione parou. Respirou. Olhou
diretamente para o homem.
Sem elevar a voz, respondeu
com a contundência de quem já havia enfrentado preconceitos demais para
desperdiçar palavras.
— Meu papel higiênico é
branco... e eu limpo o meu cu com ele.- Falou Alcione sem perder a elegância.
O silêncio seguinte foi maior
que qualquer aplauso.
O homem baixou os olhos. Não
havia resposta possível para quem acabara de descobrir que a dignidade pode
falar mais alto que o preconceito. Tão rápido quanto apareceu, o homem
desapareceu nos corredores do hotel.
Alcione nunca respondeu ao
racismo apenas por si. Cada resposta sua parecia carregar séculos de vozes que
foram obrigadas a silenciar. Ela sabia que o preconceito não nasce da
inteligência. Nasce justamente da ausência dela. Costumava dizer que racismo é
falta de cultura e que, num país formado por tantas misturas como o Brasil,
ninguém deveria imaginar-se superior ao outro pela cor da pele.
Dizem que a chamaram de Marrom
por causa da cor da pele. Talvez fosse apenas um apelido. Mas os apelidos
também têm destino. O dela cresceu junto com sua voz. Deixou de morar na superfície
da pele para habitar o coração do povo. "Marrom" passou a ter cheiro
de tambor, gosto de samba, sotaque maranhense e força de ancestralidade. Era a
prova de que uma cor pode ser transformada em bandeira quando quem a carrega
decide não esconder a própria história, mas iluminá-la.
Desde então, quando alguém
anuncia "A Marrom chegou", ninguém pensa em pigmento. Pensa numa das
maiores vozes Negras da música brasileira.
As primeiras
notas de Não Deixe o Samba Morrer mal haviam saído dos
instrumentos quando o teatro deixou de ser plateia. Transformou-se em um enorme
coral. Centenas de vozes cantavam juntas, algumas afinadas, outras nem tanto,
mas todas carregadas da mesma emoção. Alcione sorriu e afastou o microfone da
boca. Não precisava cantar. O público fazia isso por ela.
Ela apontou para os músicos e brincou:
— Vocês estão ouvindo? Acho que daqui a pouco vou
ter que pedir emprego nesse coral!
A banda caiu na gargalhada. O cavaquinista
respondeu com um floreio bem-humorado, e o percussionista fez o tambor
"retrucar", arrancando novos aplausos.
Alcione levou a mão ao peito e contemplou a
multidão por alguns segundos.
— Voltar ao Maranhão é diferente... Não é fazer
um show. É voltar para casa. É reencontrar o cheiro da minha terra, o batuque
que embalou minha infância e esse povo que sempre me ensinou que o samba também
nasce onde o tambor fala mais alto.
A plateia respondeu em coro:
— Marrom! Marrom! Marrom!
Ela riu, daquele riso largo que parecia contagiar
até os refletores do palco.
— Vocês não prestam... Cada vez que volto, saio
daqui mais maranhense do que cheguei.
Sem avisar a banda, improvisou alguns versos
sobre São Luís, o mar, os azulejos antigos, os tambores e o povo que transforma
saudade em festa. Os músicos se entreolharam por um instante e, como quem já
conhecia aquele velho costume da cantora, acompanharam a improvisação sem
perder o compasso.
Ao terminar, o teatro inteiro levantou-se. Não
era apenas uma salva de palmas. Era o Maranhão abraçando uma de suas filhas
mais ilustres. Naquele instante, não existiam camarins, luzes ou distância
entre palco e plateia. Existia apenas uma mulher cantando para a terra que
nunca deixou de morar dentro dela.
Alcione precisou de uma pausa
para trocar o figurino. O calor do Maranhão parecia pequeno diante do calor
humano que vinha da plateia.
Ela voltou ao palco usando um
vestido vermelho coberto de paetês. Caminhou em direção aos músicos. O salto
encontrou um cabo esquecido. Por um segundo, a Marrom caiu. O teatro inteiro
levou a mão ao peito. Os músicos interromperam a introdução.
Um segurança correu. Ela levantou
antes mesmo que alguém pudesse ajudá-la. Pegou o microfone e sorriu:
— Quem nasceu no Maranhão aprende
cedo que cair não é problema. Problema é não levantar.
O teatro explode em aplausos.
Para encerrar o show Alcione canta uma toada de bumba meu boi considerada um
hino da cultura maranhense, mesmo não sendo São João centenas de matracas
surgem nas mãos da plateia. Ela agradece o carinho do público e sai do palco.
Nos bastidores. Uma menina negra aproxima-se. A menina perguntou, quase
num sussurro:
— Dona Alcione... um dia eu
posso cantar igual à senhora?
A Marrom sorriu daquele jeito
que só quem conhece o peso da própria história consegue sorrir.
— Melhor.
A menina arregalou os olhos.
— Melhor?
— O Brasil já tem uma Alcione.
O que ele ainda está esperando é conhecer você.
Talvez seja por isso que Alcione nunca tenha sido apenas uma cantora.
Há vozes que interpretam
canções. A dela interpreta um povo.
Sempre que houver alguém
tentando diminuir uma pessoa pela cor da pele, haverá uma nota de samba
esperando para responder.
E quando essa nota subir aos
céus, vestida de lantejoulas, de turbantes invisíveis e da dignidade herdada
dos ancestrais, o preconceito descobrirá aquilo que a cultura brasileira já sabe
há décadas:
Alcione não ocupa um palco.
Ela ocupa um lugar na memória do Brasil.
Porque existem artistas que
fazem sucesso. E existe Alcione.
A mulher que transformou a
própria voz em quilombo, o samba em resistência e cada aplauso em uma pequena
derrota do racismo. Quando ela canta Não Deixe o Samba Morrer,
não é apenas o samba que continua vivo. É também a esperança de um país que
ainda precisa aprender que nenhuma cor diminui um ser humano, mas toda forma de
preconceito diminui quem a pratica. Afinal, a pele nunca foi medida de
grandeza. A verdadeira grandeza sempre esteve na alma. E a de Alcione, como sua
voz, nasceu sem caber em qualquer fronteira.
José
Casanova
Professor,
Jornalista, Escritor e Cronista
Membro
da Academia Bacabalense de Letras
Academia
Mundial de Letras da Humanidade
sexta-feira, 3 de julho de 2026
CRÔNICA DO DIA: Célia Sampaio – A Voz da Liberdade
O apresentador demorou alguns segundos antes de dizer seu nome. Não foi
esquecimento. Certos títulos precisam de silêncio para serem acreditados. As
luzes do palco começam a piscar. As cores da bandeira da Etiópia davam ao evento um om rastafári.
— Com vocês... a Voz da
Liberdade, a Dama do Reggae!
Os aplausos vieram antes mesmo
que Célia Sampaio aparecesse. Ela entrou devagar, sem o gesto espalhafatoso de
quem precisa convencer alguém de sua importância. Sabia que o palco não faz uma
cantora. Apenas ilumina a caminhada que ela já percorreu.
Quem olhava daquela plateia
talvez enxergasse apenas o vestido estampado com tecidos africanos, os brincos
grandes balançando ao ritmo da música e a mulher negra e segura diante do microfone.
Quase ninguém imaginava quantas ruas do Bairro da Liberdade ainda caminhavam
com ela.
Antes de subir o palco, uma
jovem cantora conseguira com ajuda de um amigo, vencer o bloqueio da segurança
e chegar perto de Célia.
— Dona Célia... posso fazer uma pergunta?
Ela sorri.
— Pode.
— Como é que a gente vira uma
dama do reggae?
Célia ri, um riso baixo.
— Primeiro, esquece essa
história de dama. Aprende a sobreviver.
A menina fica sem entender.
— Sobreviver?
— É. Cantar quando dizem que
reggae não é música de mulher. Continuar quando dizem que mulher negra só serve
para cantar num cantinho da festa. Trabalhar o dia inteiro e ainda encontrar
voz para subir num palco à noite. Depois disso, o povo inventa os títulos.
— Eu moro na Liberdade e
também quero ser cantora. – Disse a jovem e depois de uma pausa curta concluiu.
— Eu me inspirei em você...
— Célia, chegou a hora, vamos!
– Chamou um produtor.
Agora no palco de frente para
a plateia não conseguia esquecer o que dissera aquela jovem cantora. Lembrou da
infância na Liberdade, onde ela aprendeu cedo que algumas pessoas nascem
precisando provar o próprio valor três vezes. Uma por serem pobres. Outra por
serem negras. Outra por serem mulheres.
Não cumprimentou o público,
começou logo com uma canção que levou a plateia ao delírio cultural. Lembrou do
tempo passado quando no hospital, segurava mãos marcadas pela dor. À noite,
segurava o microfone. Em um lugar ajudava a cuidar dos corpos. No outro,
tentava aliviar feridas que não apareciam nos exames. As dores da alma da nação
regueira.
Sempre tivera as mãos
habilidosas para trabalhar a arte. Enquanto alinhavava um vestido inspirado nas
estampas africanas, Célia dizia que roupa também fala. Durante muito tempo
disseram ao povo negro que escondesse sua história. Ela preferia vesti-la.
O show transcorreu na maior normalidade. Uma música, Um refrão faz a Jamaica brasileira reagir com alegria.
Na Jamaica Brasileira
Radiodifusão
Radiola regueira
Pedra de salão
Na Jamaica Brasileira
Radiodifusão
Radiola regueira
Natty-Natty Nayfson
Eric Donaldson
Itamaraty, Estrela do Som
Reggae, Jimmy London
Tribo de Jah
O Reggae Raiz
Deixa rolar
Essa pedra, São Luís!”
Uma senhora cantava. Um Casal dançava agarradinho. Uma criança acompanhava o ritmo.
Após o show. Um homem se aproximou dizendo ser
repórter:
— Célia, você canta reggae
desde quando?
Ela responde:
— Desde antes de saber que era
reggae.
Ele ri.
Ela continua:
— Minha mãe já cantava
esperança dentro de casa quando a esperança ainda não tinha melodia.
— Por que continuar cantando
reggae depois de tantos anos?
— Porque ainda existe meninas
na plateia precisando descobrir que pode chagar até aqui. Reggae não é só
música. Para muita gente, ele foi a primeira voz dizendo que a nossa cor, a
nossa história e o nosso lugar neste mundo merecem respeito. Toda vez que eu
canto, a menina que saiu da Liberdade sobe ao palco comigo. E eu nunca quis deixa-la
para trás.
Outras pessoas chegavam para
cumprimentá-la. Não era apenas respeito
pela cantora. Era gratidão por alguém que transformou o reggae em endereço,
profissão, identidade e memória. O título de Dama do Reggae não parecia uma
homenagem. Parecia apenas a maneira mais curta de dizer quem Célia Sampaio
havia se tornado para gerações inteiras de maranhenses.
Quando deixou o palco, Célia
ainda procurou a menina entre a multidão. Não a encontrou. Sorriu. Talvez fosse
esse o destino das grandes referências: um dia deixam de reconhecer quem ajudam
a levantar. Mas continuam sendo o primeiro acorde na história de alguém.
José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Universidade
quinta-feira, 2 de julho de 2026
CRÔNICA DO DIA: A Morte do Boi Curupira
quarta-feira, 1 de julho de 2026
CRÔNICA DO DIA: Madrugada no Arraial
terça-feira, 30 de junho de 2026
CRÔNICA DO DIA: O Duelo entre a Gramática e a Voz
Na praça central de Bacabal, o sol já tinha decretado trégua e a lua
começava a subir por trás da torre da Igreja de Santa Teresinha. O povo se
aglomerava em um círculo imperfeito, atraído não por milagres, mas por uma
briga de palavras que prometia ser mais sangrenta que briga de faca. De um
lado, ajustando o nó de uma gravata borboleta que parecia estrangular seu
pescoço fino, estava o Professor Aderbal, gramático emérito, autor de três
manuais de sintaxe e terror de gerações de alunos do Colégio Nossa Senhora dos
Anjos. Do outro, com um chapéu de couro puído e uma viola que parecia extensão
de seu braço, estava Chico Timbira, repentista cuja fama corria o Mearim mais
rápido que notícia ruim.
O tema do duelo fora sorteado por uma menina da plateia: "A Língua
do Povo".
Aderbal tomou a frente, pigarreando como se fosse iniciar uma aula
magna. Ergueu o dedo indicador, rígido como uma régua.
— Nobre
auditório, peço vênia e atenção,
Para expor com clareza a correta dicção.
A língua é um templo, sagrado e formal,
Não se deve macular com gíria de quintal.
Sujeito e predicado em nupcial harmonia,
Seguindo a norma culta, a luz da sabedoria.
Quem fala 'nós vai' comete um pecado mortal,
Pois fere a concordância, o pilar gramatical!
Houve aplausos tímidos, vindos principalmente das professoras
aposentadas que ocupavam os bancos da frente. Aderbal sorriu, satisfeito com
sua defesa da pureza linguística.
Chico Timbira nem se mexeu. Apenas dedilhou a viola, tirando um acorde
menor que soou como um lamento zombeteiro. Olhou para o professor com a
paciência de quem ensina o caminho da roça a um doutor perdido.
— Seu
doutor fala bonito, com a boca cheia de dente,
Mas esquece que a língua é bicho vivo e quente.
O povo não pede licença pra dizer o que sente,
O 'nós vai' chega mais rápido, atropela o presente.
Sua gramática é cerca de arame farpado,
Prende o boi no pasto, deixa o verso amarrado.
Mas minha viola é vento, pulando o cercado,
E a fala do povo corre solta, sem pecado!
A plateia explodiu. Risos, assobios. Um homem gritou:
- Eita, que o violeiro deu um nó na gravata do professor!
Aderbal sentiu o rosto queimar. Aquilo era uma afronta à lógica. A
língua não podia ser "bicho solto". Sem regras, haveria o caos. Sem a
norma, como diferenciaríamos a barbárie da civilização?
Ele respirou fundo e contra-atacou, buscando refúgio nos clássicos.
— Citas o
vento, ó bardo de estrada e poeira,
Mas esqueces Camões, a nossa grande bandeira!
A língua de Lusa não é feita de asneira,
Exige estudo, suor e labuta inteira.
Seu verso é improviso, carece de estofo,
É como casa de taipa, de barro e de mofo.
A minha sintaxe é pedra, alicerce robusto,
E teu linguajar chulo me causa só susto!
Chico Timbira riu alto, um som que ecoou na praça.
— Camões
era caolho, mas enxergava longe,
Não ficava trancado rezando como monge.
Ele viveu no mar, na guerra, na confusão,
A língua dele tinha sal, sangue e paixão.
O senhor quer prender a palavra no dicionário,
Fazer dela museu, coisa de antiquário.
Mas a palavra quer rua, quer feira, quer bar,
Quer ser dita errada pra poder se misturar!
O povo vibrava. Aderbal percebeu que estava perdendo o terreno. Sua
lógica cartesiana não tinha poder contra a força telúrica do repente. A
gramática era uma ferramenta de exclusão; o repente era uma festa de inclusão.
— Misturar
é confundir! — gritou Aderbal, perdendo a métrica e a compostura. — É
nivelar por baixo! É destruir o patrimônio!
Chico Timbira parou a viola. O silêncio caiu pesado. Ele se aproximou do
professor, olhando-o nos olhos.
— Doutor,
patrimônio é o que o povo guarda no peito,
Não o que tá no livro, mofando no leito.
A língua só morre quando ninguém mais a usa,
E o senhor tá matando ela com esse nó na gravada.
Solta o nó da gravata, deixa o verbo correr,
Que a gramática serve pra gente se entender,
Mas na hora do aperto, do choro e do riso,
A gente fala como o coração pede, sem juízo.
Com um último acorde rasgado, Chico encerrou o duelo. A praça inteira
aplaudiu, não apenas o vencedor, mas a verdade que ele cantara. Aderbal ficou
ali, parado, sentindo o peso de seus manuais e a leveza insuportável da língua
viva que o cercava.
- Seu Chico eu tenho uma
admiração secreta por vocês violeiros. – Admitiu o professor.
-E eu pelos professores, mas não tive oportunidade de estudar. –
Respondeu chico.
- Quero te confessar uma coisa. – Afirmou Aderbal.
- Diga meu amigo letrado. - .
Pediu o violeiro.
- Meu avô falava igualzinho o senhor.
Silêncio.
- Então o senhor
já conhecia essa língua desde menino.
Ambos sorriram. Lentamente, Aderbal
levou a mão ao pescoço e afrouxou o nó da gravata.
José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade
CRÔNICA DO DIA: Café com Desespero no Bunker Pedagógico
CRÔNICA DO DIA: Damas do Barracão
CRÔNICA DO DIA: Costa de Mão - O Toque da Resistência
segunda-feira, 29 de junho de 2026
CRÔNICA DO DIA: Estradas e Toadas



























