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terça-feira, 30 de junho de 2026

CRÔNICA DO DIA: Costa de Mão - O Toque da Resistência



Em Cururupu, onde a brisa do Atlântico se mistura ao perfume da mata densa, existe uma forma de tocar o pandeiro que desafia a lógica e celebra a memória viva de um povo. O "Costa de Mão" não é apenas um sotaque; é um tesouro em perigo, uma joia rítmica que exige dos músicos não apenas perícia, mas uma entrega absoluta ao movimento contramão da história. Ao contrário da técnica tradicional, onde a palma da mão percute a pele do instrumento, aqui o som é extraído pelo impacto seco e peculiar das costas da mão. O resultado é uma sonoridade fantasmagórica, um estalo mais abafado, mais profundo, que parece carregar o lamento de quem insiste em resistir contra o desaparecimento.

Mestre Edmundo, um dos poucos guardiões desse legado, costumava dizer que o Costa de Mão é a percussão dos humildes que não tinham permissão para vibrar alto demais sob o jugo dos tempos passados. Ele dizia que tocar com as costas da mão era, originalmente, a marca de quem, por cansaço ou necessidade, adaptou o pandeiro à dor.

Hoje, porém, essa adaptação é o símbolo da resistência em Cururupu. Observar um grupo tocando é presenciar uma luta silenciosa: enquanto as matracas se proliferam e os novos sotaques dominam os festivais, o Costa de Mão mantém sua cadência solene, teimosa, como um mangue que continua prendendo suas raízes mesmo quando a maré tenta levá-lo.

Edmundo alisava a borda gasta do pandeiro antes de começar o ensaio e fechava os olhos por um segundo. Ao fechar os olhos, Edmundo imaginava os antigos escravizados protegendo as mãos feridas sem abrir mão da festa. Era assim que ele explicava aos mais novos o nascimento daquele toque

A técnica é exigente. As articulações do pulso precisam ser de uma precisão quase mecânica, e a pele das mãos dos tocadores, calejadas por décadas, desenvolveu uma espessura que protege o osso do impacto constante contra o aro de madeira.
Quando eles entram no ritmo, o som que emerge é hipnótico, quase cerimonial. Há um quê de segredo naquelas batidas que parecem convocar as almas de quem, séculos atrás, deu cor a essa tradição na costa maranhense. O público que visita Cururupu, muitas vezes acostumado aos ritmos estrondosos da capital, estranha inicialmente o som contido, quase introspectivo, para logo em seguida ser tragado pela força da repetição.

A resistência cultural, em Cururupu, tem rosto e nome, mas, acima de tudo, tem o som das mãos. A juventude local, cercada pelas ofertas de ritmos digitais e pela pressa do mundo contemporâneo, olha para os velhos tocadores com uma mistura de veneração e desorientação.

Manter vivo o Costa de Mão não é apenas uma questão de preservar uma técnica; é garantir que o solo que sustenta a identidade daquela cidade continue fértil. Se o sotaque se apagar, uma porta para entender quem foram os homens e mulheres que desbravaram aquelas costas se fechará para sempre. Cada batida é, portanto, um aviso enviado ao futuro:

- Nós existimos, nós inventamos o nosso próprio ritmo.

Nos ensaios que precedem a saída do boi, Edmundo é uma sentinela. Ele não tolera que o tempo se perca nem que o ritmo se desvie para a facilidade dos sotaques dominantes. O Costa de Mão é preciso, é austero, é quase devocional. Ele explica aos meninos que ali se reúnem que a música não existe para divertir o turista, mas para manter a linhagem ininterrupta.

A resistência é o ato de continuar tocando quando ninguém mais parece ouvir, e em Cururupu, essa é a oração diária. Há tradições que sobrevivem não porque são numerosas, mas porque alguém se recusa a abandoná-las.

A beleza singular desse toque reside na sua imperfeição aparente. Por ser uma técnica que o corpo humano não domina por completo sem um sacrifício físico, cada giro de mão, cada impacto, traz o registro da luta. Quando o boi gira e as damas de fita acompanham o compasso, o som das costas das mãos sobe pelo ar, misturando-se à maresia e ao grito dos pássaros do fim de tarde.

Naquele momento, não importa se o sotaque está em extinção na escala das grandes arenas. O que importa é que em Cururupu, o Costa de Mão é a verdade, é o batimento cardíaco daquela gente, a prova irrefutável de que, enquanto houver uma mão e um instrumento, o Costa de Mão continuará dizendo o que Cururupu nunca aceitou esquecer.

José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Crônista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade

segunda-feira, 29 de junho de 2026

CRÔNICA DO DIA: Estradas e Toadas


O ônibus, uma carcaça de lata que parecia ter sobrevivido a eras de poeira e descaminhos, era o útero metálico daquela família numerosa e barulhenta. Quando o motor estalava para a partida, muitas vezes auxiliado pelo empurrão coletivo dos mutucas e brincantes, o cheiro de diesel misturava-se ao aroma inconfundível de perfume barato, suor de expectativa e o farelo de biscoito que insistia em cair do banco traseiro.

Ali dentro, não havia Mestre, nem vaqueiro, nem índia; havia um coletivo de corpos exaustos que buscavam o próximo arraial. A estrada serpenteava pelo interior do Maranhão, era o palco onde o bumba-meu-boi se revelava na sua versão mais humana e despojada, longe dos brilhos cênicos e das luzes dos grandes palcos.

As horas de viagem eram sentidas na espinha, especialmente para quem carregava a estrutura do boi desmontada pelas fileiras de poltronas ou sobre o teto, amarrada com cordas de náilon que pareciam prontas para arrebentar ao primeiro solavanco.

O ônibus chacoalhava com uma violência que faria qualquer objeto moderno sucumbir, mas aquele veículo, tal como a tradição que transportava, era feito de teimosia. No fundo, alguém começava a cantar uma toada baixinha, um lamento sobre o "boizinho que correu a estrada", e, em questão de minutos, o que era um silêncio cansado tornava-se um coro potente.

As mãos começavam a bater nas laterais dos bancos, no encosto dos bancois, na lataria da janela, transformando o transporte em um estúdio improvisado onde se testavam versos que seriam apresentados a poucos quilômetros dali.

Imprevistos eram a única certeza da agenda. Havia o pneu que estourava exatamente no trecho de estrada de terra onde o sinal do celular era um mito; havia o motor que superaquecia e obrigava todos a descerem e ficarem esperando ao relento o ferro esfriar enquanto a lua subia e o desespero de perder o horário da apresentação batia no coração do Mestre.

Nessas horas, o improviso virava lei. Reuniam-se ao redor da guarnição, decidiam o que cortar da apresentação, como redobrar o passo caso chegassem atrasados, e sempre, sem exceção, alguém tirava uma comida embrulhada em folha de bananeira para partilhar. A fome, no ônibus itinerante, era combatida com o coletivismo. Ninguém comia nada se não houvesse o suficiente para o companheiro do banco ao lado.

Quando o ônibus atravessava as cidades menores, a recepção era um rito à parte. A chegada de um batalhão, por mais atrasada que fosse, transformava o ânimo do lugarejo. As crianças corriam atrás do gigante de ferro, gritando e aplaudindo como se o ônibus fosse, por si só, uma extensão da magia do boi.

Os brincantes, ao descerem com as pernas dormentes e o corpo pedindo descanso, precisavam de uma injeção de adrenalina quase instantânea. Era o momento em que a cara de cansaço era substituída pelo sorriso de quem sabe que a sua arte é o oxigênio de quem habita aquelas terras distantes. O improviso de trocar de roupa atrás de uma cortina ou no fundo de um armazém de venda era feito com uma naturalidade que beirava a santidade cotidiana.

Havia, no entanto, algo de poético naquelas estradas de terra, sob um céu que se abria como um abismo estrelado. O ônibus, cruzando as sombras das veredas, parecia um espectro transportando a alma do Maranhão. O vaqueiro, cochilando com o chapéu sobre o rosto, sonhava com passos que ainda daria; o cantador, rabiscando um novo verso no verso de um recibo velho, buscava a rima perfeita para o público que os esperava; o miolo, encolhido em um canto, já ensaiava na mente o giro que faria a multidão vibrar.

A viagem itinerante era o filtro que separava os curiosos dos verdadeiros devotos. Quem suportava o sol, a poeira, o atraso e o aperto do ônibus era quem, na verdade, mantinha o boi vivo.

Quando o motor parava finalmente no destino, com um ranger de freios que parecia um suspiro de alívio, a energia no ônibus mudava. A exaustão evaporava no instante em que o primeiro par de matracas era retirado do compartimento de bagagens.

Eles montavam a estrutura com a agilidade de quem faz o trabalho há gerações, e o boi, que há pouco era apenas um amontoado de veludo e madeira escondido nas entranhas do veículo, começava a ganhar forma, a exibir suas fitas e a reclamar o seu território.

O couro voltou a respirar. A primeira matraca estalou na noite. Quem tivesse visto apenas a viagem juraria que aquele povo já não tinha forças. Bastou o boi levantar a cabeça para ninguém mais lembrar do cansaço da estrada.

José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Munidal de Letras da Humanidade

CRÔNICA DO DIA: Herança de Brincante...do Avô ao Neto

O chão do terreiro de terra batida de Viana não era apenas um espaço de ensaio para o velho Saturnino; era o livro onde ele escrevia a história de sua linhagem. À sombra de uma mangueira frondosa, que via o mesmo ritual se repetir há quase cinco décadas, ele segurava as mãos pequenas e trêmulas do neto, Mateus, de apenas sete anos. O menino olhava para o avô com a veneração de quem enxerga um deus vivo, alguém que, com um simples movimento do pulso, conseguia fazer o couro do pandeirão falar. Ali, o conhecimento não era transmitido por apostilas ou manuais, mas pelo contato direto, pela pele, pelo suor e pela cadência que, de tanto ser repetida, passava a morar no sangue.

Não se ensina o Bumba-meu-boi apenas com a técnica do passo. Saturnino sabia que, se Mateus aprendesse a girar, mas não entendesse a reverência, estaria apenas ensaiando uma dança vazia. A cada movimento, o avô corrigia a postura, não com rigidez, mas com a paciência de quem entende que o tempo da tradição é um tempo biológico.

Enquanto o menino tentava imitar o balanceio das matracas, o velho cantava versos antigos, toadas que sua própria voz já não alcançava com a clareza de antigamente, mas que carregavam em si o peso dos antepassados. Era como se, ao cantar, ele estivesse semeando a alma do folguedo diretamente na memória auditiva do neto.

Saturnino demorou alguns segundos olhando o menino. Quando Mateus conseguiu, pela primeira vez, bater o compasso do sotaque com a firmeza que a cadência exigia, um sorriso raro e profundo iluminou o rosto vincado do velho.

Para ele, aquele instante era a única imortalidade concreta que os homens simples poderiam almejar. Ele sabia que suas próprias mãos, um dia, não teriam mais a força necessária para segurar o pandeiro ou a agilidade para adornar o boi, mas a sua voz continuaria através de Mateus, e a sua vontade de ver o boi na arena continuaria cavalgando pelos arraiais do Maranhão.
Para o menino, o aprendizado era uma aventura sagrada. Ele percebia que o "vovô Saturnino" não era apenas o homem que lhe pedia para buscar água ou que contava histórias dos tempos em que o rio enchia e o campo virava mar; ele era a alma da festa, uma figura de respeito que transformava a rotina da comunidade em um espetáculo de dignidade.

À medida que os meses passavam e o ensaio ganhava corpo, Mateus começou a entender o que significava ser um "brincante". O orgulho que ele via nos olhos dos outros brincantes quando o avô era mencionado fazia-o compreender que eles pertenciam a uma dinastia que não ostentava ouro, mas carregava a riqueza imaterial da própria identidade.

Havia algo de belo e doloroso nessa entrega. Saturnino observava o neto vestir sua primeira miniatura de gibão, uma peça costurada com retalhos de mantos que o próprio boi já usara em anos anteriores e, naquele reflexo, viu sua juventude retornar.

- Nunca bata a matraca com raiva do mundo, Mateus. - Dizia ele, corrigindo o peso das mãos do menino. - Bata com a gratidão de quem está vivo e tem o direito de cantar a sua própria história.
Aquele era o ensinamento final, a semente que faria o neto caminhar pelos terreiros quando Saturnino já fosse apenas uma lembrança nas toadas de junho.

A ligação entre os dois era o alicerce que sustentava a guarnição. Nos dias em que o ensaio se estendia pela madrugada e o frio da baixada começava a morder a pele, o menino não desanimava, pois tinha o ombro do avô para se apoiar, o olhar que dizia “agora é a nossa vez”.

E, na arena, quando a multidão se abria e o boi desfilava triunfante sob o olhar atento dos santos juninos, Mateus entrava na roda acompanhando Saturnino passo a passo. O velho, curvado e lento; o menino, direito e ágil. Ali, naquele círculo perfeito onde o passado e o futuro se fundiam na cadência do tambor, estava a resposta para décadas de esforço.

Saturnino caminhava devagar. Mateus seguia ao lado. De fora da roda, já era difícil distinguir onde terminava um e começava o outro.

José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Crônista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade

domingo, 28 de junho de 2026

CRÔNICA DO DIA: Bordando Estrelas


No silêncio que se segue ao cansaço dos ensaios, quando o terreiro finalmente se esvazia e apenas o cheiro da lenha queimada paira no ar, as bordadeiras assumem o comando. Enquanto o mundo exterior vê o boi reluzente sob os refletores de um arraial lotado, o verdadeiro nascimento dessa criatura ocorre no avesso da agulha, num cantinho abafado da casa de Dona Zefa, onde a luz de um foco solitário ilumina o que é pouco menos que um milagre têxtil.

Suas mãos, marcadas pelos sulcos da idade e pela aspereza de quem lavou tanta roupa e moldou tanto barro na vida, possuem uma delicadeza que desafia a lógica. Entre os dedos calejados, o canutilho parece dançar, encontrando seu lugar preciso no veludo pesado que serve de pele para o boi.

Não se trata de apenas costurar. O ato de bordar um boi é um exercício de cartografia espiritual. Dona Zefa não seguia desenhos impressos ou moldes de papel industrializado; ela seguia o mapa guardado em sua própria memória, um acervo de décadas de tradição que fluía de seu pensamento direto para a ponta do dedo que tensionava o fio de nylon.

O boi precisa de estrelas, luas, santos e corações bordados, mas, acima de tudo, ele precisa de histórias. Cada miçanga que ela fixava era um voto, uma tentativa de ancorar no tecido a proteção que o grupo tanto precisava para enfrentar a maratona dos festivais. Se o ponto ficasse frouxo, a história desmancharia; se o ponto fosse forte demais, o veludo rasgaria. É um equilíbrio feito na ponta de agulha.

Ao lado dela, a neta Paolla, uma jovem que ainda aprendia a lidar com o ritmo frenético daquelas mãos experientes, observava o processo como quem assiste a um feitiço. O esforço é colossal: horas a fio sentada na mesma posição, costurando detalhes que, para a plateia que olha de longe, podem passar despercebidos. Mas Dona Zefa sabia a verdade: o boi é visto de perto.

- Menina, nunca puxe o nylon de uma vez. O veludo guarda mágoa. – Alertou dona Zefa .

- Vó, veludo não tem sentimentos! – Respondeu Paolla quase a sorrir.

- Você que pensa minha neta. Boi tem ciência...

- Hum, Armaria Vó, lá vem a senhora essas histórias de outro mundo! – Retrucou Paolla. – E esse santo a senhora vai aplicar no peitoral dos vaqueiros?

- Fica aqui– Respondeu dona Zefa indicando um local de destaque no couro do boi. – Ano passado foi ele que segurou nosso couro.

Dona Zefa cortou o fio com os dentes. Conferiu o brilho contra a luz. Virou o tecido e voltou ao trabalho.

A qualidade do bordado é a assinatura da honra do grupo. Um conjunto desleixado denotaria uma orquestra sem alma, uma matraca sem eco. O brilho excessivo, o efeito cegante que tanto buscavam não era ostentação, era a tentativa de imitar o firmamento, de trazer para o chão de terra o brilho do que está acima de nós, inacessível.

Os materiais, latão, canutilho, lantejoula e contas pareciam ter vida própria.

À medida que as mãos o costuram, o peso da fantasia aumenta, mudando a própria textura do veludo. Transformar um pedaço de tecido inerte em um tesouro que será carregado aos ombros sob o calor causticante requer uma compreensão técnica profunda.

Elas sabem, por experiência, onde o brilho precisa nascer para que o boi acenda quando encontra a luz. É uma engenharia do óbvio escondida na paciência do invisível.

Enquanto as agulhas passavam por dentro e por fora, Dona Zefa murmurava preces pelos que já se foram pedindo que a costura resistisse não apenas ao transporte, mas também à vibração dos tambores que, dali a poucos dias, sacudiriam o boi até a exaustão.

Ali, naquele atelier improvisado, o tempo flui ao ritmo da respiração. Não há a pressa do batuque, nem o nervosismo da arena. Há a calma de quem compreende que a riqueza não se compra em armazéns, mas se constrói com tempo e devoção.

Quando o sol começa a raiar e o tecido finalmente revela a imagem bordada: um santo, uma flor de lótus, um rosto de caboclo, São João, a sensação é de dever cumprido. Aquelas mãos, que durante o dia suportaram o peso da lide urbana ou o desdém dos patrões, tornam-se, à noite, mãos de artistas que sustentam a própria identidade do Maranhão no fio de uma agulha.

Elas não recebem aplausos da multidão. O boi entra e o povo delira com o miolo, com o som das matracas e com o brilho da criatura, sem nunca perceber que aquele sucesso tremendo depende milimetricamente do nó que Dona Zefa deu às quatro da manhã, enquanto o mundo, do lado de fora, tenta apenas apagar as luzes.

O seu orgulho é silencioso, íntimo, uma estrela tecida que ela vê brilhar intensamente quando o boi passa pela primeira vez sob a luz dos refletores. Ela sabe que ali, entre canutilhos e miçangas, ficou preso um pedaço da própria vida. Cada vez que o boi atravessa o terreiro iluminado, é aquele pedaço que volta a respirar.

José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Crônista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade

CRÔNICA DO DIA: Promessa e Fé



O aroma do incenso, denso e doce, disputava espaço com o cheiro da pólvora dos buscapés que explodiam à distância e com o perfume da erva-doce que emanava das pequenas garrafas de mel de engenho. No altar improvisado, montado no canto mais reservado do galpão, a imagem de São João Batista, com seu olhar severo e ao mesmo tempo protetor, era o foco de uma devoção que não conhecia meio-termo.

Velas de sete dias ardiam sem parar, suas chamas dançando conforme o vento que entrava pelas frestas, enquanto os brincantes, um a um, aproximavam-se em silêncio. Ali, atrás dos bastidores do espetáculo, a hierarquia era suspensa. O dono do boi, o miolo, o vaqueiro campeador e a mais jovem das índias tornavam-se iguais perante aquele altar, todos buscando no santo a mesma moeda de troca: a proteção para o couro, o fôlego para o peito e a benção para que o cortejo saísse e voltasse sob o manto da paz.

O sincretismo ali não era uma teoria acadêmica; era a própria carne da sobrevivência. As orações misturavam o terço católico com invocações que pareciam vir de eras mais antigas, pedidos de licença aos encantados das matas e das águas para que o boi pudesse reinar em terra alheia.

Mestre Benedito, com seu chapéu posto sobre o peito, ajoelhou-se diretamente no cimento frio. Ele não pedia bênçãos para o brilho do espetáculo, mas para a segurança de seus brincantes.

- Que o boi não seja esquecido, que a matraca não falhe e que a inveja de quem não brinca não cruze o caminho de quem trabalha. - . Sussurrava, enquanto aspergia um pouco de água benta sobre a carcaça do boi pousada como um animal adormecido ao lado do altar.

É impossível separar o Bumba-meu-boi dessa camada espiritual. Muitos veriam apenas a festa, a dança e a indumentária, mas para quem vive dentro do barracão, cada fita amarrada, cada miçanga costurada e cada ensaio de madrugada é, em essência, uma promessa cumprida.

São promessas de cura, de gratidão pela vida de um filho que escapou de uma enfermidade, ou pelo emprego que surgiu quando o prato parecia vazio. O boi é um veículo de ex-voto. Ao dançar, o brincante está pagando o que prometeu ao santo, e a religiosidade é o combustível que permite que o corpo suporte a exaustão que, por vias puramente biológicas, já teria levado todos ao desfalecimento.

Lá fora, a voz do folguedo já se fazia ouvir na rua, a orquestra aquecendo os instrumentos e o público clamando pela saída da atração. Mas ali dentro, o tempo corria em outra zona. Era o momento em que a fé era conferida. O óleo bento era passado nas mãos dos tocadores de matraca, como se untassem as armas de uma guerra santa onde não se mata ninguém, mas se celebra a própria existência contra o olvido.

Parecia que nenhuma proteção lhes parecia mais importante do que aquela. Eles acreditavam e essa crença era o que lhes dava uma postura inabalável que, enquanto São João estivesse no comando, nenhuma intempérie, seja ela a chuva forte que ameaçava o veludo ou o desânimo que rondava os ombros dos mais jovens, teria poder para encerrar o cortejo.

Uma das bordadeiras mais antigas trouxe um escapulário e o prendeu com um alfinete de segurança na parte interna da saia do boi, no lugar onde o miolo apoiaria a testa durante o giro final.

- Para que o peso não pese. - Ela disse, e aquela frase simples continha toda a teologia daquele povo.

O excesso de realismo do mundo, que muitas vezes desmorona sobre os ombros de quem trabalha duro, tornava-se leve quando transformado em fé. Eles sabiam que a proteção transcendia a madeira e o tecido; era uma união de almas que, protegidas pelo orago junino, sentiam-se invencíveis na hora de enfrentar a arena.

Antes da ordem final para a saída, houve um instante de silêncio absoluto. Todos se deram as mãos em uma corrente que circulava o recinto, tocando a estrutura do boi. Não havia mais diferenças entre o miolo suado e a índia enfeitada.

Havia apenas uma unidade, um organismo pronto para ser lançado nas ruas. O sinal de cruz foi feito com a mão que, instantes depois, empunharia a matraca com força de trovão.

- Que o boi caminhe nos trilhos da benção. - Ecoou o coro baixinho, uma reza despojada que soava como um trovão abafado pelas paredes de zinco.

Quando as portas se abriram e a luz do arraial invadiu o barracão, o rosto de cada um ali estava mudado. Não carregavam apenas a alegria da festa, mas a serenidade de quem já tinha entregado a responsabilidade daquela noite a alguém maior.

Eles entraram no mundo das luzes e dos aplausos não como exibicionistas, mas como peregrinos. E o boi, ornado pela fé e abençoado pelo fogo de São João, começou então a sua caminhada, com a certeza absoluta de que, sob a guarda dos santos juninos, ele não seria apenas um motivo de admiração, mas uma oração que, movida a couro, madeira e devoção, se espalharia por toda a cidade feito luz que não se apaga, vencendo a noite e renovando, mais uma vez, o pacto de vida que o Maranhão renova todos os anos com o divino.

José Casanova
Professsor, Jornalista, Escritor e Cronista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras de Bacabal

sábado, 27 de junho de 2026

CRÔNICA DO DIA: O Rufar de Guimarães


Em Guimarães, o pulsar da terra não vem do choque ritmado das matracas nem do brilho polido dos metais. Ele nasce de um trovão contido, um som de gravidade profunda que parece vir diretamente do solo revolvido pelo arado e da umidade das matas que circundam a região. É o rufar das grandes zabumbas. Quando o sotaque de zabumba se apresenta, o ouvinte não é apenas convidado a dançar; ele é solicitado a sentir a vibração das raízes rurais, aquela força primordial que sustenta o Maranhão. O som da zabumba é, acima de tudo, o som do coração de um homem sem artifícios, uma lembrança constante de que antes da cidade, antes do asfalto, havia apenas o homem, o couro e o tambor.

O brincante que carrega a zabumba em Guimarães não apenas a sustenta; ele a domina com o corpo inteiro. É uma arte de elegância rústica. O instrumento, grande e imponente, exige uma postura altiva. Enquanto o couro é esticado pelos aros, o músico entra em uma conexão imediata com o ritmo que dita o balanço dos vaqueiros.

Diferente da rapidez febril de outros sotaques, a zabumba de Guimarães impõe um andamento cadenciado, um "chão", como dizem os antigos, que exige que o dançarino coloque o pé no solo com convicção. Não há espaço para frivolidades coreográficas; cada passo deve ser sólido, reafirmando o pertencimento àquela terra que, por séculos, foi nutrida pela enxada e pela fé.

Há uma beleza crua na forma como as grandes zabumbas se entrelaçam com os tambores mais agudos, criando uma polifonia de frequências que parece narrar a própria história do campo. É um ritmo que fala da colheita, da espera pela chuva, da lida com o gado que se dispersa nos grandes pastos da região.

Nos arraiais de Guimarães, o som das zabumbas não apenas acompanha o boi; ele o fundamenta. Ele confere ao boi uma dignidade terrena. Quando a zabumba ruge, o boi não parece um objeto decorado, mas uma criatura viva que emerge das entranhas da mata, trazendo consigo o aroma da terra molhada e a sabedoria dos que vivem à margem das grandes metrópoles.
Os tocadores de zabumba em Guimarães são figuras quase míticas, homens de ombros largos que parecem ter absorvido a própria resistência do instrumento. Para eles, não há diferenciação entre o trabalho do dia e o toque da noite.

A força usada durante o trabalho da roça é a mesma que em algumas horas depois, se converte em compasso, marcando o tempo da toada com precisão cirúrgica. A elegância rústica desses músicos está na ausência de floreios desnecessários. Eles tocam com a sobriedade de quem sabe que o que é essencial não precisa de exageros para ser eterno. Naquele rufar constante, há um convite para que o público também se reencontre com suas origens simples, com a pureza do trato com os elementos.

Ao observar a dança que se forma ao redor das zabumbas em Guimarães, percebe-se um tipo diferente de transe. Não é o delírio elétrico, mas uma entrega contemplativa. Os casais de dançarinos, com seus trajes que equilibram a sobriedade rural com a beleza das fitas coloridas, giram em volta da orquestra de tambores como se estivessem orbitando um sol particular.

Há um respeito silencioso no ar; quando a zabumba sobe o tom, a roda se abre, os ombros se inclinam e o peito estufa em sinal de reverência. É o encontro do povo com o seu passado sem intermediários.

À medida que a madrugada avança nas praças guimaranence, o rufar das zabumbas torna-se o único som capaz de vencer o silêncio da noite rural. Ele ecoa pelos campos, alcança as copas das palmeiras e faz estremecer a alma dos que, do lado de fora, param para escutar a força daquela marcação.

É uma música que, apesar de antiga, permanece jovem pela força com que é executada por cada nova geração. Em Guimarães, a zabumba garante que ninguém se esqueça de onde veio. Enquanto aquele som profundo continuar a ditar a cadência da vida, a raiz rural do Maranhão permanecerá como uma árvore forte, cujos galhos podem até se curvar sob as intempéries do tempo, mas cujas raízes, alimentadas pelo rufar constante das zabumbas, encontrarão sempre o caminho de volta para a luz, para a terra e para a celebração da existência que, no final das contas, é o boi, a alma e a própria vida a pulsar em uníssono sob o céu de junho.

José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Crônista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade

CRÔNICA DO DIA: Chão de Bacabal


Quando o sol se põe no horizonte de Bacabal, o cenário urbano parece perder sua rigidez, cedendo lugar a uma espécie de espera vibrante que só o mês de junho é capaz de criar. A cidade, conhecida como um entroncamento de destinos, transforma-se. As ruas que durante o dia veem o passar incessante de caminhões e a poeira das estradas, à noite, tornam-se veias por onde o sangue da tradição começa a circular com mais vigor. Não é apenas a luz que muda; é a própria atmosfera que se torna densa, impregnada com o cheiro do carvão vegetal, da macaxeira sendo cozida e, sobretudo, com a expectativa de quem sabe que, a cada esquina, um couro pode começar a pulsar.

Em Bacabal, o Bumba-meu-boi não chega de mansinho; ele irrompe nas entranhas da paisagem. O terreiro é, muitas vezes, o quintal de uma casa humilde do bairro Pantanal cujos muros foram derrubados para dar espaço à roda, ou um terreno baldio na Vila São João que, sob o olhar atento dos velhos brincantes, é limpo, varrido e preparado como se fosse o altar de uma catedral.

A areia, espalhada para que os pés dos dançarinos não levantem tanta poeira quanto a argila seca, cria um contraste cênico sob as lâmpadas de mercúrio que piscam com um zumbido constante. Ali, a transformação é física: o boi chega e a geografia da cidade desaparece. As casas ao redor tornam-se apenas arquibancadas naturais, onde os moradores se equilibram em janelas e muros para não perder nem o giro mais simples de uma índia.

O ânimo em Bacabal tem uma peculiaridade que deriva de sua própria localização no mapa interiorano. É um otimismo que se nutre do encontro. Ali, o boi é um acontecimento que reúne povoados vizinhos, pessoas que viajam horas em cima de carrocerias para sentir o tremor da matraca.

Quando o batuque começa, o som parece ricochetear nas fachadas das lojas fechadas, criando um eco que viaja até as margens do rio Mearim. É como se a própria cidade estivesse sendo rebatizada pelo rito; o asfalto, antes quente e monótono, torna-se cenário de uma procissão pagã onde cada passo marca a posse do território pela cultura.

É fascinante observar como a paisagem interiorana se submete ao boi. O boi de Bacabal possui um sotaque que parece carregar o peso dos trilhos e a longevidade dos campos. Não tem pressa. Ele respeita o tempo da conversa, o tempo do cafezinho servido nas canecas esmaltadas durante a pausa da orquestra, o tempo da contação de histórias sobre bois antigos que, dizem os mais velhos, faziam o chão tremer ainda mais do que os atuais.

A transformação não é apenas cênica; ela é anímica. Homens que passaram a quinzena inteira curvados sobre as plantações ou cuidando do gado, ao vestirem o gibão ou pegarem o seu pandeirão, erguem a cabeça como se estivessem reivindicando a cidadania do mundo.

Durante a noite, o ápice da brincadeira em Bacabal é quase cinematográfico. Quando o grupo se desloca da casa do Mestre em direção ao centro do bairro, a procissão parece não ter fim. As crianças correm entre as pernas dos adultos, os cachorros latem em sinal de estranhamento e euforia, e as luzes das varandas se acendem como se fossem pirilampos gigantes saudando a passagem do cortejo.

O boi, imponente com seus olhos de vidro reluzindo sob a luz artificial, lidera essa cavalaria de sons e cores. É nesse momento que a paisagem de Bacabal atinge a sua plenitude. Ela deixa de ser apenas um lugar de passagem, um ponto de parada estratégica no mapa, e assume o seu papel de guardiã da memória.

O ar úmido da noite de junho, que desce dos cupins de terra espalhados pelos campos próximos, mistura-se ao suor dos brincantes, criando um perfume único, inconfundível. É o cheiro de um povo que, mesmo diante da lida mais árdua, sabe transformar a poeira das estradas em pó de estrelas.

Ao ver o brilho das miçangas refletido no olhar de um menino que pela primeira vez vê o boi subir a rua principal, compreende-se que Bacabal não está apenas sediando uma brincadeira; ela está perpetuando um pacto com o futuro. Enquanto o boi atravessar aquelas ruas, enquanto a matraca ecoar entre os prédios de concreto, a paisagem estará viva, consciente de sua própria magia, pronta para ser lembrada como o lugar onde, uma vez por ano, o boi ensina a cidade inteira a caminhar com o ritmo da alma, sem fronteiras e sem pressa de chegar ao fim, pois o fim, ali, é apenas a promessa do próximo ensaio.

José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade

sexta-feira, 26 de junho de 2026

CRÔNICA DO DIA: Mutuca -: O Apoio que Ninguém Vê


Eles não usam veludo bordado, nem chapéus de fitas, nem máscaras que assustam ou encantam. As roupas dos mutucas são o que houver à mão: camisetas desgastadas, shorts velhos, calçados firmes para cruzar o terreno irregular. Nos batalhões mais organizados, vestem camisetas da brincadeira, únicas marcas que os distinguem da multidão. O nome, derivado da mosca insistente que zune e pica, é um título de coragem. No universo hierárquico do Bumba-meu-boi, se o boi é o coração e os tocadores o peito, os mutucas são os pulmões, os guardiões silenciosos que garantem que o oxigênio, a água, o espaço e o apoio físico nunca falte quando o espetáculo ameaça o sufocamento.

Enquanto a multidão se perde na euforia da toada e os brincantes perdem o sentido do tempo sob o peso das fantasias, os mutucas estão em perpétuo movimento. Eles são as sombras do terreiro. É comum ver um mutuca, com um galão de água de vinte litros nos ombros ou pilhas de canecas plásticas, atravessando a barreira humana como se conhecesse o fluxo da maré.

Eles sabem exatamente a quem a sede está consumindo antes mesmo do brincante pedir. Um olhar de canto de olho de uma índia, um gesto mudo de um tocador de matraca, e o mutuca já está lá, oferecendo o frescor necessário para que a máscara não se torne um túmulo.

O trabalho de um mutuca não termina na hidratação. Eles são os pacificadores de primeira linha. Quando o movimento do boi se torna perigoso na multidão, quando o empurra-empurra dos curiosos ameaça desmantelar uma ala inteira, é o mutuca que abre o corredor.

Com braços fortes e uma voz que se impõe sem precisar gritar, eles gerenciam o espaço, mantendo a "corda" que protege a integridade do grupo. Existe uma técnica quase invisível em como eles se colocam entre o público e o brincante: um ombro posicionado de lado, uma mão gentil mas firme no braço de quem se esqueceu dos limites. É uma coreografia própria, um passo de balé bruto que exige sensibilidade e uma ausência total de vaidade.

Havia algo de visceral em ver Beto, um mutuca veterano da região da Ilha, observando a movimentação. Ele conhecia cada viga do barracão e cada ponto cego do terreiro. Para ele, o sucesso da festa não se media pela qualidade da toada, mas pelo fato de nenhum brincante ter caído por desidratação ou ter se ferido no aperto.

Certa vez, ao ver um jovem caboclo de pena quase desfalecendo por baixo da carga de adereços após um giro violento, Beto não hesitou. Ele não chamou ninguém; ele mesmo se colocou por trás do rapaz, servindo de calço humano para que ele respirasse por dez segundos, enquanto com a outra mão segurava uma caneca de água que o caboclo tomou sem tirar a máscara. O rapaz voltou à dança como se nada tivesse acontecido, e Beto recolheu o copo vazio, sumindo novamente na penumbra das barracas de comida.

Beto embora tivesse a postura, não era um super-herói sem capa. Quantas vezes sentia-se cansado, chegando a perder a paciência por um instante, chego a esquecer de beber água porque está servindo demais.

Eles não figuram nas fotografias quando o boi parece triunfal em sua chegada ao arraial. Ninguém escreve toadas sobre a agilidade dos mutucas em reparar uma fita que se soltou ou em recolher os instrumentos caso uma chuva rápida de junho tente estragar a pele dos pandeirões.

São os heróis anônimos porque a sua invisibilidade é o sinal de que seu trabalho está perfeito. Quando o público não percebe que alguém está cuidando dos detalhes, significa que a magia está protegida. O mutuca não quer o foco; ele quer a continuidade.

Ao final da jornada, quando a última matraca para e o boi é devolvido ao barracão, os mutucas são sempre os últimos a deixar o terreiro. Eles recolhem o que sobrou, limpam os copos espalhados, conferem se ninguém ficou para trás. Estão sempre com os pés mais pesados, a garganta tão seca quanto a dos cantadores e as costas reclamando o descanso merecido. Mas, ao verem o "seu" boi guardado e em segurança, há um brilho específico nos olhos que não vem da fantasia, mas da dignidade de quem sabe o quanto custa manter de pé um sonho tão grande em um mundo que tenta, a cada passo, empurrar a tradição para o esquecimento.

As Mutucas não aparecem no brilho, mas são os que garantem que o brilho nunca se apague. Enquanto as luzes do arraial se apagam, um mutuca ainda cruza o terreiro vazio. Não procura aplausos. Apenas confere, pela última vez, se o boi ficou bem guardado. Só então vai embora...

José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade

CRÔNICA DO DIA: Cantadores da Ópera Maranhense



O ar no barracão está carregado de um pó fino, misto de terra seca e partículas de veludo, que parece entrar nos pulmões e assentar na garganta de quem ousa desafiar o silêncio. No centro do batalhão, sentados em bancos de madeira desgastada ou de pé, com os rostos voltados para cima, estão os cantadores. Eles não se entregam à dança; o seu movimento é interno, uma contração constante do diafragma, uma disciplina ferrenha das cordas vocais que já não reconhecem a própria fadiga. Mestre Olhinho e Mestre Zé de Ribamar, com décadas de estrada, tem os lábios naturalmente entreabertos e a pele do pescoço marcada pelas artérias que saltam a cada frase entoada com força.

As mãos dos cantadores contam histórias de trabalho bruto. São dedos calejados pelo manejo das ferramentas, pelas horas sob o sol causticante, mas, quando repousam sobre o corpo do pandeiro ou quando ajustam a empunhadura do microfone, transformam-se em seda.

O calo não atrapalha; ele serve como uma espécie de couro natural, uma proteção para quem precisa extrair som, música, lamento e denúncia de um instrumento que já viu muitas luas. Entre uma toada e outra, eles mal bebem água. Um gole rápido, quase furtivo, para não interromper o fôlego acumulado. O tempo da festa não permite pausas longas; a multidão que cerca o tablado espera o fluxo ininterrupto, pois, para eles, a música é a única barreira contra a dureza da realidade.

Mestre Olhinho, sentado numa cadeira improvisada segura seu pandeiro de couro de cobra . Na terceira toada a voz falha. Ele tosse discretamente, vira o rosto, toma um gole d'água e volta antes que alguém perceba

A garganta seca torna-se, então, uma metáfora da própria vida do cantador. É um esforço que beira o sacrifício. Quando o sol começa a baixar e a madrugada se instala, a voz de um cantador muda de textura; ela fica rouca, mais grave, impregnada com o cansaço do tempo e com a própria umidade do sereno. Esse timbre rouco, longe de ser um defeito, é o que a comunidade mais valoriza. É a "voz de boi", a voz que cheira a fogueira e história.

É o som do homem que não arredou o pé, que cantou por todos aqueles que perderam seus entes queridos, que louvou as colheitas que vieram e chorou as que fracassaram.

Eles conhecem centenas de versos. São improvisadores natos, capazes de ler o ânimo do povo na arena e adaptar a estrofe para incluir um nome, uma saudação, uma pequena vingança poética ou uma homenagem. O cantador é o cronista da comunidade. Se algo aconteceu na semana, se um amor nasceu ou uma promessa foi feita, o cantador saberá transformar isso em verso antes que o sol nasça.

De repente, açguém na plateia faz um pedido inusitado:

- Ei canta ‘È tchun é tchan”!!!

O velho Guerreiro Valente sente que a resistência física é apenas a fachada; o que os mantém de pé é a necessidade vital de dizer quem são. Sem o cantador, a toada se perde no vento e o boi torna-se apenas uma peça de madeira inanimada.

O velho sorri de lado. Sem interromper a toada, encaixa o pedido dentro do próprio verso. O povo ri. O boi também sabe brincar com o tempo.

Há um momento, lá pelas três da manhã, em que o ambiente se torna quase espectral. O brilho dos figurinos parece mais opaco, os movimentos dos dançarinos ficam mais lentos, mas o cantador continua. Ele encara o batalhão, espreme os olhos para focar em algum rosto conhecido na multidão e solta o refrão com uma potência que desafia a lógica.

Ele sabe que a energia do grupo depende de sua própria resiliência. Se ele parar, a matraca perde o sentido e o caboclo perde o passo. Ele tosse. A garganta trava. O povo espera. Ele respira. Recomeça. O barracão inteiro responde nem perceber quando o mestre sem entender o motivo esquece um verso antigo, o coração acelera, mas o espetáculo continua.

Ao final, quando as primeiras luzes da manhã tocam o zinco do barracão, o cantador está fisicamente esvaziado, quase oco. O corpo é um conjunto de músculos em espasmo e a voz, agora quase um sussurro arrastado, busca o ar que falta. Mas, ao observar o batalhão ainda vibrante, alimentado por sua própria tenacidade, ele sente um contentamento silencioso.

Ele não precisa de aplausos estrondosos, tampouco de nome estampado em cartaz. O seu pagamento está no ar que vibra e na consciência de que, por mais uma noite, a tradição não morreu em sua garganta. Ele levanta, sacode a poeira das calças, recolhe o instrumento com aquela reverência de quem protege um filho e caminha para casa, andando um pouco mais devagar, sabendo que, na noite seguinte, a voz voltará a pedir passagem, e que, enquanto houver um boi, o cantador jamais precisará encontrar o silêncio.

José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista
Membro da Academia Bcabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade







quinta-feira, 25 de junho de 2026

CRÔNICA DO DIA: O Pandeiro de Viana


Na Baixada Maranhense, o tempo não se mede pelo relógio da cidade grande, mas pela cadência lenta das águas que sobem e descem conforme as estações. Em Viana, o Bumba-meu-boi não chega como um estrondo de matracas, mas como uma brisa que traz consigo um segredo antigo. O sotaque da Baixada é um bálsamo, um lamento suave que se entranha nos ouvidos e descansa a alma fatigada pela lida do campo. Enquanto na Ilha o som é de urgência, em Viana o som é de memória; o pandeiro, geralmente feito de couro de animal é o protagonista soberano, um instrumento que não apenas marca o ritmo, mas conta os dias de uma vida inteira de sol e terra.

Mestre Totó tinha o pandeiro como extensão do próprio braço. O aro de madeira, gasto por anos de atrito, guardava a voz de centenas de toadas que nasceram nas margens dos campos alagados. Diferente de outros sotaques, onde a percussão é um chicote, na Baixada o pandeiro é um convite ao afeto.

Totó dizia que pandeiro não se aprende olhando.

- Tem que gastar couro! - Repetia. E gastou. Passou a vida inteira batendo naquele mesmo aro de madeira até a mão criar um jeito próprio de conversar com o instrumento.

O polegar de Totó corria pela pele do instrumento com uma leveza que parecia carícia, criando um som aveludado que flutuava sobre o terreiro de terra batida. Aquele ritmo não exigia que o corpo saltasse em frenesi; ele pedia que o corpo se movesse com o balanço de quem caminha pelas veredas, um gingado manso, porém, inabalavelmente constante.

Mas nem sempre foi fácil manter o boi de pé.

Todo ano aparecia alguém dizendo que aquele sotaque era calmo demais, que o povo queria coisa mais animada, mais alta, mais cheia de efeito. Outros diziam que bastava trocar o couro por material industrial, colocar caixas de som maiores e acelerar o ritmo. Totó escutava tudo calado. Depois respondia do jeito dele:

- Se eu mudar o pandeiro, deixo de tocar o boi da Baixada para tocar o boi dos outros.

Era uma teimosia que custava caro. Faltava dinheiro, faltavam brincantes, alguns rapazes preferiam ir embora atrás de trabalho. Havia noites em que ele olhava a roda e percebia mais cabelos brancos do que jovens segurando pandeiro. Aquilo doía mais do que qualquer dificuldade.

As toadas de Viana carregam o peso do lamente do trabalhador. Não são raras as letras que falam do boi que se perdeu nas veredas, da saudade que a seca deixa no pasto ou do amor que se cultiva nas pausas da colheita. É um canto que preserva a oralidade dos homens que não tiveram papel onde escrever sua história, mas que a guardaram intacta nas entrelinhas de cada verso que o pandeiro embala.

Quando o grupo começa a cantar, a melodia sobe como uma fumaça de candeeiro, unindo a voz do solista ao coro num abraço que inclui todos os presentes: o velho que se lembra da mocidade, a mãe que carrega seu filho ao colo, o jovem que ainda descobre o peso da tradição.

Ali, o boi dança de uma forma que parece flutuar. A indumentária é rica em veludo, mas os adornos são discretos, preferindo o brilho contido das miçangas a uma explosão de penas e fitas exageradas. Tudo em Viana é feito para não assustar o horizonte.

O brincante, ao dançar, não busca o delírio da arena; ele busca a comunhão com o saber do seu povo. Há nos olhos de um brincante da Baixada uma serenidade que só quem vive da terra consegue compreender. Eles sabem que o boi é o ciclo; se o rio enche, o boi brinca; se a chuva falha, o boi reza. A festa nunca é um fim em si mesma, mas uma resposta ao que a vida entrega.

Ao cair da noite, sob o céu vasto da baixada, o som dos pandeiros ganha uma harmonia que parece confundir-se com o canto dos grilos e o coaxar dos sapos que pontuam a vida nos campos alagados. É uma música que, apesar de simples na estrutura, possui uma profundidade tectônica.

Cada batida no pandeiro é um segundo que se agrega à história daquele lugar. O Mestre, num intervalo entre uma toada e outra, ergue os olhos para os homens e mulheres que formam a roda: ali não há a hierarquia do palco, há a igualdade da oração. Todos conhecem o verso seguinte, todos sabem quando é a hora de baixar a voz para que o lamento ganhe vez.

Senti a magia daquele sotaque é entender que a força nem sempre é o que faz mais barulho. A Baixada Maranhense ensinou que o boi, para ser sagrado, precisa ter a elegância do campo e a ternura do pandeiro. É na suavidade daquelas mãos que, durante a semana, domam o arado e agora domam a pele do instrumento, que reside a verdadeira resistência cultural.

Quando o último pandeiro se cala e o sereno da noite começa a baixar sobre o capim, o eco daquela toada permanece por dias nos ouvidos da comunidade, Totó passava a mão sobre a pele gasta do pandeiro como quem agradece a um velho companheiro. Depois sorria, mas não escondia a preocupação.

- O difícil não é tocar. Difícil é deixar alguém querendo tocar quando eu não estiver mais aqui.

É um som que não te deixa esquecer de onde você vem e para onde, no final de todos os ciclos, você sempre há de retornar: para o chão fértil, para o ritmo calmo da existência e para a sabedoria contida no couro do pandeiro que, com tanta paciência, aprendeu a narrar a vida como se ela fosse, por fim, a mais bela de todas as toadas.

Talvez seja esse o verdadeiro som da Baixada. Não é só o couro respondendo ao toque da mão. É um povo inteiro tentando fazer com que a última batida nunca seja, de fato, a última.

José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Crônista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade