Professor, Jornalista, Escritor e Crônista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade
Um blog de Zezinho Casanova
Vereadoras Nathália Duda e Regilda Santos conduzem Sessão Solene
Comunidade do Brejinho valoriza a saúde
A música erudita e a música popular brasileira encontraram-se em perfeita harmonia na noite desta quinta-feira (11), durante a realização do João Mohana In Concert 2026, evento promovido pela Academia Bacabalense de Letras (ABL) dentro da programação da II Semana Cultural João Mohana.
Realizado no auditório da Escola de Música Almir Garcez Assaí, o concerto reuniu um público seleto formado por amantes da música,da literatura, da cultura e admiradores da trajetória do padre, escritor e intelectual maranhense João Mohana. A apresentação teve como protagonista o instrumentista Leonardo Bezerra de Castro, o Leo 7 Cordas, que conduziu a plateia por uma experiência musical marcada pela sensibilidade, técnica e emoção.
Para o músico, a apresentação representou um momento especial em sua trajetória artística."Ontem vivi um dos momentos mais marcantes da minha trajetória na Escola de Música de Bacabal. Tive a honra de realizar um recital de música erudita em homenagem ao saudoso Padre João Mohana, um homem de fé, ciência e profunda ligação com a arte e a cultura da nossa terra", afirmou Leonardo.
O recital foi cuidadosamente concebido em dois atos que dialogaram diretamente com o legado cultural e espiritual deixado por João Mohana. Na primeira parte, a plateia foi conduzida pelas sonoridades da música sacra do compositor alemão Johann Sebastian Bach, em uma atmosfera de contemplação e profunda conexão espiritual.
Já no segundo ato, o concerto celebrou as raízes brasileiras. Empunhando o violão de sete cordas, Leo 7 Cordas apresentou clássicos da Música Popular Brasileira (MPB), destacando a riqueza melódica, o balanço e a identidade cultural presentes no repertório nacional. A mudança de linguagem musical demonstrou a versatilidade do artista e a capacidade da música de transitar entre o erudito e o popular sem perder sua força emocional.A apresentação encantou o público presente, que também teve a oportunidade de conhecer mais sobre a importância de João Mohana para a cultura brasileira. Médico, sacerdote, escritor, músico e pensador humanista, Mohana deixou uma obra marcada pela valorização da dignidade humana, da espiritualidade e da cultura.
Para a Academia Bacabalense de Letras e para o músico Leonardo Bezerra, prestar essa homenagem em Bacabal possui um significado especial. Foi nesta cidade que João Mohana nasceu e viveu os primeiros anos de sua infância, estabelecendo os vínculos afetivos com a terra que o acompanhariam por toda a vida.A primeira edição do João Mohana In Concert reafirmou o poder transformador da música, capaz de unir o céu e a terra, o clássico e o popular, a memória e a emoção. Mais do que um concerto, o evento tornou-se um tributo à vida e à obra de um dos mais importantes intelectuais maranhenses.
A expectativa dos organizadores é que o João Mohana In Concert se consolide como parte permanente da programação cultural de Bacabal, mantendo viva a memória de um homem que acreditava na arte como instrumento de formação humana, cura, afeto e encontro entre as pessoas.
Foi assim com Ejoão Martins Ferreira.
Mas poucos o conheciam por esse nome. Para a maioria, ele era Johnny Rock Blues. Um nome que parecia música, liberdade e estrada ao mesmo tempo. Um nome que cabia perfeitamente naquele homem que transformava tudo o que tocava em arte.
Dizem que alguns artistas aprendem a criar. Johnny não. Johnny nasceu criando.Ainda menino, quando outras crianças rabiscavam o chão com gravetos, ele já desenhava mundos inteiros. Seus traços possuíam a delicadeza dos que enxergam o invisível. O papel era pequeno demais para a imaginação que carregava. Havia algo mais a ser conquistado.
Vieram então as tintas. Deram cores a sua vida.
E as telas. Onde projetava os seus sonhos.
E os primeiros olhares de admiração.
Certa vez foi convidado para expor seus trabalhos em uma feira de artesanato. Levou suas obras sem grandes pretensões, como quem leva filhos para conhecer o mundo. Ao final do evento, todas as telas haviam sido vendidas.Todas.
Talvez naquele dia ele tenha compreendido que sua arte não lhe pertencia mais. Pertencia ao mundo. E para um artista admitir sua grandeza ´r comprender que não era uma pessoa comum.
Mas Johnny era daqueles espíritos inquietos que não se acomodam em um único horizonte.
Se a pintura lhe servia como linguagem, a escultura tornou-se oração.
A madeira ganhou alma.O isopor ganhou movimento.
A argila ganhou respiração. Era como se soprasse nas suas esculturas o fóligo da vida.
Das barrancas do Mearim surgia o barro que suas mãos transformavam em santos, anjos, pescadores, mães, crianças, pecadores e sonhadores. Não se sabia ao certo onde terminava a matéria e começava o artista.
Em alguns momentos, parecia que a argila se confundia com o próprio corpo de Johnny.
Era como se ele também tivesse sido moldado pelas águas e pela terra de Bacabal.Mas limitar Johnny Rock Blues às artes plásticas seria uma injustiça.
Ele era desenhista.
Pintor.
Escultor.
Artista plástico.
Cronista.
Poeta.
Músico.
Compositor.
Cantor.
Ator de cinema.
Um verdadeiro artesão de sensibilidades.
Enquanto muitos escolhem uma única estrada, Johnny caminhava por várias ao mesmo tempo, sem jamais perder o rumo da beleza.
Havia nele algo dos antigos alquimistas.
Transformava barro em emoção.
Palavras em memória.
Notas musicais em sentimento.
Silêncios em poesia.
Por isso sua partida deixou um vazio difícil de explicar.
Algumas pessoas morrem e deixam saudade. Outras deixam obras.
Johnny deixou universos.Suas esculturas continuam falando.
Seus textos continuam respirando.
Suas canções continuam ecoando.
Sua arte continua caminhando pelas ruas da cidade onde nasceu. Inspirando as anáforas dos poetas distraídos no fim de tarde sob o Mearim.
Talvez os gregos antigos o chamassem de semideus. Virtudes e talento para isso tinha de sobra.
Não por possuir poderes sobrenaturais, mas porque parecia conversar com a própria criação.
Hoje, quando alguém observa uma de suas obras, escuta uma de suas músicas ou encontra um de seus escritos, percebe que Johnny Rock Blues nunca partiu completamente.
Artistas assim não desaparecem. Transformam-se em permanência.
Viram rio.
Viram memória.
Encantam-se no Mearim
Viram lenda.
E Bacabal, que tantas vezes serviu de inspiração para suas mãos mágicas, guarda agora a honra de ter sido o berço de um dos seus mais extraordinários criadores.
Johnny Rock Blues foi um homem.
Mas sua arte continua sendo infinita.
José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Crônista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade
Em meio às cores, formas e expressões artísticas que tomaram conta da Praça Santa Terezinha nos dias 30 e 31 de maio, durante o 7º Encontro de Artesãos do Maranhão, a literatura encontrou um espaço de destaque por meio da participação da Academia Bacabalense de Letras (ABL).
A instituição montou um estande dedicado à divulgação da produção literária local, reunindo obras de autores integrantes da entidade e uma exposição de poemas que despertou a curiosidade dos visitantes. O espaço transformou-se em um ponto de encontro entre escritores e leitores, atraindo especialmente o público jovem, que demonstrou interesse pelas obras expostas, folheando livros, adquirindo exemplares e buscando informações sobre os acadêmicos e suas trajetórias literárias.
A presença da Academia reforçou a importância da literatura dentro de um evento tradicionalmente voltado ao artesanato, ampliando o diálogo entre diferentes linguagens culturais e valorizando a produção intelectual do município.
Representando a ABL, participaram os escritores José Casanova, Liduína Tavares, Maria Raimunda, Francinalva Muniz, Preenrique Coe Soares e Mateus Ribeiro, que interagiram com o público, apresentaram suas publicações e compartilharam experiências sobre o universo da escrita e da produção literária.
O 7º Encontro de Artesãos do Maranhão reuniu centenas de estandes e barracas, expondo a criatividade, o talento e a diversidade cultural de artesãos vindos de diferentes regiões do estado. Peças em fibra, madeira, tecido, cerâmica, bordados e outras manifestações artísticas revelaram a riqueza do patrimônio cultural maranhense e a força da economia criativa.
Mais do que uma vitrine para a comercialização de produtos, a feira consolidou-se como um espaço de intercâmbio cultural, fortalecendo a cadeia produtiva da cultura, da arte e do conhecimento. A participação da Academia Bacabalense de Letras evidenciou que a literatura também ocupa papel fundamental nesse processo, aproximando autores e leitores e incentivando o hábito da leitura entre as novas gerações.
Ao final do evento, ficou a certeza de que iniciativas que unem artesanato, literatura e demais manifestações artísticas contribuem para o fortalecimento da identidade cultural maranhense, promovendo encontros, descobertas e o reconhecimento dos talentos que fazem da cultura um dos maiores patrimônios do estado.
"O poder eleitoral dos idosos no Brasil contemporâneo.
Há uma transformação silenciosa em curso no Brasil. Não se anuncia com estridência, não ocupa manchetes diárias, não se converte em espetáculo. Mas avança com a consistência das marés, com a força inevitável da demografia, com a densidade histórica de quem acumulou décadas de experiência.
O país envelheceu. E, mais importante, o eleitorado envelheceu.
A pesquisa que revela esse cenário foi produzida pela Nexus Pesquisa e Inteligência de Dados, com base em dados oficiais do Tribunal Superior Eleitoral. Trata-se de um levantamento rigorosamente quantitativo, estruturado a partir da base do cadastro eleitoral brasileiro, com coleta realizada em 1º de março de 2026.
A própria metodologia registra que os dados de 2026 são parciais, pois o cadastro segue aberto até 6 de maio. Não há aqui opinião, nem intenção de voto, nem projeção subjetiva. Há leitura direta da realidade empírica. Há demografia convertida em política.
Em 2010, o Brasil tinha 135,8 milhões de eleitores. Em 2026, chega a 156,2 milhões. Um crescimento de cerca de 15%. Mas o dado decisivo não está aí. O dado decisivo está no salto do eleitorado com 60 anos ou mais. Eram 20,8 milhões em 2010. São 36,2 milhões em 2026. Um crescimento de 74%. Uma expansão quase cinco vezes maior que a do conjunto do eleitorado.
Não se trata de um detalhe estatístico. Trata-se de uma mutação estrutural.
Os idosos deixaram de ser margem. Tornaram-se centro.
Em 2010, representavam 15,3% do eleitorado. Em 2014, 17,0%. Em 2018, 18,8%. Em 2022, 21,0%. Em 2026, alcançam 23,2%. Quase um em cada quatro eleitores brasileiros é idoso. Um quarto do país eleitoral carrega o tempo no corpo, na memória, na linguagem, na forma de perceber o mundo.
Ignorar isso é mais do que um erro. É uma cegueira política.
Mas há algo ainda mais sutil. Não existe um único eleitor idoso. Existem dois mundos dentro dessa mesma categoria. De um lado, 19,7 milhões de pessoas entre 60 e 69 anos, cujo voto é obrigatório. De outro, 16,5 milhões com 70 anos ou mais, cujo voto é facultativo. Isso significa que 45,5% dos idosos já estão fora da obrigação formal de comparecer às urnas.
Dois universos. Duas psicologias. Dois ritmos de participação.
E ainda assim, um mesmo peso simbólico e político.
A estatística revela um paradoxo que exige leitura refinada. Em 2022, a abstenção média do eleitorado brasileiro foi de 20,9%. Entre os idosos, a média foi de 34,5%. Mas essa média esconde um abismo interno. Entre 60 e 69 anos, a abstenção foi de apenas 14,3%. Entre 70 anos ou mais, chegou a 58,9%.
O mesmo grupo social abriga, simultaneamente, a disciplina cívica e o afastamento eleitoral.
O comparecimento reforça essa clivagem. Em 2022, 79,1% do eleitorado geral compareceu às urnas. Entre 60 e 69 anos, o índice foi de 85,7%. Um patamar superior à média nacional em toda a série histórica. Em 2014, 84,2%. Em 2018, 83,8%. Em 2022, 85,7%.
Há, nesse segmento, uma ética do voto. Um compromisso que não se dissolve. Um gesto repetido não por hábito mecânico, mas por compreensão do valor da escolha.
Já entre os eleitores com 70 anos ou mais, o comparecimento foi de 41,1%. Em 2014, 36,4%. Em 2018, 37,3%. Em 2022, 41,1%. Cresce, lentamente. Mas permanece baixo.
O Brasil carrega, portanto, uma reserva eleitoral gigantesca. Não no sentido ideológico. No sentido da presença possível. Milhões de idosos que podem votar, mas que nem sempre votam. Que podem decidir eleições, mas que dependem de estímulos concretos para transformar intenção em gesto.
Em números absolutos, a força é incontornável. Em 2022, 21,6 milhões de idosos compareceram às urnas no primeiro turno. Em 2014, eram 15,3 milhões. Em 2018, 17,7 milhões. Um crescimento de mais de 6 milhões de votos em oito anos.
Entre 60 e 69 anos, o número saltou de 11,3 milhões para 15,4 milhões. Entre os com mais de 70 anos, de 3,9 milhões para 6,1 milhões. Mesmo com menor comparecimento proporcional, o crescimento demográfico amplia o peso absoluto.
Ao mesmo tempo, 11,3 milhões de idosos deixaram de votar em 2022. Desses, 2,6 milhões estavam entre 60 e 69 anos. E 8,8 milhões tinham mais de 70 anos.
Há, nesse silêncio eleitoral, uma energia latente.
Uma potência que não se realiz automaticamente.
Uma ausência que pode se transformar em presença.
Geograficamente, o envelhecimento também redesenha o mapa político. Rio Grande do Sul lidera com 29% de eleitores idosos. Rio de Janeiro aparece com 28%. Minas Gerais, 26%. São Paulo, 25%. Paraná, Espírito Santo e Santa Catarina, todos com 24%.
No outro extremo, Amapá, Amazonas e Roraima têm 15%. Acre, 16%. Pará, 17%.
O país envelhece de forma desigual.
O Sul e o Sudeste concentram não apenas mais idosos, mas também o crescimento mais acelerado. Rio Grande do Sul avançou 11,2 pontos percentuais desde 2010. Espírito Santo, 10,2. Minas Gerais, 9,8. Rio de Janeiro, 9,5. São Paulo, 9,1. Santa Catarina, 9,1.
Nos estados mais populosos, esse fenômeno ganha densidade política. Cerca de 16 milhões de idosos estão concentrados nos três maiores colégios eleitorais do país. Ali, onde eleições se decidem por margens estreitas, o voto idoso deixa de ser apenas relevante. Torna-se decisivo.
E, no entanto, há uma incompreensão persistente no debate público contemporâneo.
Uma incompreensão quase arrogante.
Desprezar o Facebook como “rede de velhos” é um erro estratégico. Um erro analítico. Um erro sociológico.
Os idosos estão mais presentes nas redes sociais do que os jovens quando se observa o tempo de permanência diante das telas. Não apenas estão. Permanecem mais tempo. Leem mais. Interagem mais. Compartilham mais. Têm mais disponibilidade temporal para habitar esse espaço.
Enquanto a juventude fragmenta sua atenção em múltiplas plataformas, em estímulos rápidos, em linguagens breves, os idosos ocupam o tempo digital com outra cadência. Com outra respiração. Com outro ritmo cognitivo.
Desprezar textos longos é repetir o mesmo equívoco.
Os idosos leem.
Leem com atenção.
Leem com memória.
Leem com comparação histórica.
Leem não apenas para consumir, mas para compreender.
Há, nesse comportamento, uma dimensão antropológica. O tempo vivido produz outra relação com a palavra. A leitura deixa de ser apenas informação. Torna-se interpretação da experiência, reconstrução da memória, elaboração do vivido.
Do ponto de vista psicológico, o envelhecimento reorganiza a percepção. Não elimina a capacidade crítica. Em muitos casos, a aprofunda. Há mais prudência, mais cautela, mais resistência a simplificações.
Politicamente, isso se traduz em uma relação mais exigente com narrativas. O idoso não responde apenas a slogans. Ele responde a coerência. A trajetória. A consistência.
Sociologicamente, estamos diante de um grupo que acumula capital simbólico. Experiência. Memória. Vivência institucional. Capacidade de comparação entre ciclos históricos.
Esse capital pesa.
E pesa cada vez mais.
O erro das campanhas está em subestimar essa densidade. Em tratar o idoso como previsível. Como homogêneo. Como passivo.
Nada disso se sustenta diante dos dados.
O eleitor idoso é múltiplo.
É contraditório.
É exigente.
É decisivo.
Há, nesse conjunto, presença contínua no tempo.
O jovem entra e sai do sistema eleitoral. O idoso permanece.
Ele acumula eleições.
Acumula escolhas.
Acumula decepções e aprendizados.
E transforma tudo isso em voto.
Em eleições decididas por menos de 2 milhões de votos, um contingente de 36,2 milhões de eleitores, com 21,6 milhões de votantes efetivos, não pode ser tratado como detalhe.
É eixo.
É estrutura.
É fundamento.
O Brasil de 2026 será atravessado por essa realidade.
Os idosos não são apenas uma categoria etária.
São uma força política em expansão.
São uma chave interpretativa.
Ignorá-los é abdicar de entender o país.
Subestimá-los é abrir mão de disputar o futuro.
E há algo mais.
Há uma dimensão ética.
Valorizar o voto dos idosos é reconhecer o tempo como elemento político. É reconhecer que a democracia também é construída por quem permanece, por quem insiste, por quem continua.
O voto idoso carrega o tempo.
E o tempo, quando entra na urna, pesa.
Pesa na escolha.
Pesa na decisão.
Pesa no destino coletivo.
O Brasil mudou.
Os números mostram.
A metodologia confirma.
A realidade impõe.
E o tempo, agora, vota."
Paulo Baía *
* Sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ
Imagem: uma 'tchurma de respeito' - a vanguarda da nossa MPB - os 'oitentões' Paulinho da Viola, Chico, Caetano e Gil
Na Rua Grande, em Bacabal, as
palavras circulavam mais rápido que moto em dia de feira. Passavam de boca em
boca, de mesa em mesa, de grupo de WhatsApp em grupo de WhatsApp, como se
fossem inocentes passarinhos sem dono. Mas palavra nunca é só palavra. Palavra
é mala antiga: às vezes a gente carrega sem saber o que tem dentro.
Foi
isso que descobriu Leomar numa terça-feira abafada, enquanto tomava café no Bar
do Garrincha, perto do Mercado Central.
Tudo
começou quando seu Leomar, homem de riso quanto a própria estatura
e camisa sempre aberta no peito, reclamou do calor e do movimento fraco
do comércio:
—
Rapaz, a coisa tá preta…
Ninguém
estranhou. A frase caiu na mesa como cai farelo de pão: comum, quase invisível.
Mas
Cristina Miranda estranhou.
Professora
de História recém-chegada de São Luís, ela tinha o hábito perigoso de pensar
antes de rir. Mexeu lentamente o café e perguntou:
—
Preta por quê?
O
silêncio apareceu tão rápido que parecia funcionário público batendo ponto.
Seu
Leomar coçou a cabeça.
—
Ué… modo de dizer.
—
Todo mundo diz. — Respondeu ela. — Mas já reparou que quase tudo que associam
ao preto é ruim?
Jonas,
que também estava no bar levantou os olhos azuis do celular. Nunca tinha
pensado naquilo. Na verdade, nunca tinha pensado em metade das frases que
repetia desde menino, como quem herda um móvel velho sem perguntar de onde
veio.
Lembrou imediatamente da mãe dizendo:
“Esse serviço ficou serviço de preto.”
Do tio reclamando:
“Não sou tuas negas.”
Da vizinha chamando
a menina bonita de:
“Mulata da cor do pecado.”
E até do
cabeleireiro anunciando:
“Vamos dar jeito nesse cabelo ruim.”
Ruim
pra quem?, pensou Leomar. Afinal de contas era branco, mas seu cabelo...não
era dos melhores.
A
conversa cresceu na mesa como chuva engrossando no inverno.
—
E “mercado negro”? — Perguntou Cristina. — Já percebeu como o negro quase
sempre aparece ligado ao ilegal, ao perigoso, ao errado?
—
Mas ninguém fala por mal. — Tentou argumentar Garrincha, enxugando copos atrás
do balcão.
—
Eu sei. — Respondeu ela. — Só que ausência de intenção não apaga o peso da
história.
O
ventilador do bar girava lento, empurrando um ar quente que cheirava a café,
fritura e memória antiga. Quantas vezes Garricha pensou em colocar uma
climatizador de ar no bar e desistiu por causa do preço. Foi então que Dona Ana,
que até aquele momento apenas ouvia, resolveu entrar na conversa.
Mulher
negra de turbante amarelo e voz baixa, ela parecia carregar continentes dentro
dos olhos.
—
Vocês sabem qual é o problema? — Perguntou. — O Brasil esqueceu que muita coisa
bonita daqui nasceu da África, mas continua lembrando da África apenas quando
quer associar algo ao negativo.
O
silêncio foi a única resposta. As palavras de dona Ana tinham força de uma
navalha a cortar consciências.
—
O tambor do bumba meu boi… veio de mãos negras. A comida temperada no dendê…
veio de mãos negras. O samba, o tambor de crioula, a capoeira, o jeito da gente
rir alto mesmo na dificuldade… tudo atravessou o oceano nos corpos de pessoas
escravizadas.
Ela
fez uma pausa curta. Todos os olhares do bar de Garrincha se voltaram para Dona
Ana.
—
Mas aí pegaram a palavra “negro” e transformaram em sinônimo de sujeira, erro e
perigo.
Leomar
sentiu algo estranho no peito. Como se alguém tivesse aberto uma janela dentro
dele.
Dona
Ana continuou:
—
Na África existiam reis quando muita gente aqui ainda morava em aldeia de
madeira na Europa. Existiam universidades em Tombuctu, bibliotecas gigantescas,
astronomia, filosofia, comércio. Existiam tecidos coloridos como festa de São
João e impérios ricos como canções de ouro.
O
bar parecia mais silencioso que a igreja Santa Terezinha em sexta-feira santa.
—
Só que a escravidão não roubou apenas corpos! — Disse ela. — Roubou também as
narrativas. E até hoje tem palavra carregando correntes invisíveis.
Jonas
tomou mais um gole de café engolindo a
seco as lembranças da infância. Das piadas na escola. Dos apelidos que
colocavam nos coleguinhas negros. Das meninas alisando o cabelo para “ficar
bonito”. Dos colegas dizendo que alguém tinha “alma branca” quando fazia algo
considerado elegante.
Agora
tudo aquilo parecia poeira colonial grudada na língua.
—
Quando alguém chama um cabelo crespo de “ruim”. — Continuou Dona Ana. — Está
dizendo sem perceber que a estética africana vale menos. Quando fala
“denegrir”, coloca o escuro como sinônimo de manchar. Parece pequeno… mas
criança escuta isso crescendo.
Seu
Leomar suspirou fundo.
—
Então quer dizer que a gente passou a vida repetindo coisa errada?
Cristina
sorriu de leve.
—
Quer dizer que sempre dá tempo de aprender diferente.
Do
lado de fora, o céu começava a escurecer sobre Bacabal. Um grupo ensaiava
tambor ao longe. Tum… tum… tum… O som atravessava a rua como um coração antigo
lembrando que ainda estava vivo.
O
Tambor parecia conversar com alguma aldeia escondida no outro lado do
Atlântico. Dona Ana ouviu o tambor e abriu um sorriso bonito.
—
Tá vendo? A África nunca foi embora daqui. Mora no ritmo, na comida, na fé, no
corpo, na linguagem… e até no jeito brasileiro de sobreviver sorrindo.
Jonas
sem entrar na conversa ficou olhando a rua.
Pensou
que talvez maturidade fosse isso: abrir espaço dentro da própria cabeça para
revisitar palavras antigas como quem reforma uma casa herdada. Tirar o mofo.
Abrir as janelas. Deixar entrar luz.
Porque
palavra não é vento.
Palavra
é semente.
E dependendo do que a gente planta na
fala, o mundo floresce… ou continua repetindo sombras que vieram de um passado
que já deveria ter perdido a voz.
José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Junho chegou em Bacabal como
chegam certas visitas antigas: sem pedir licença, espalhando música pelos
cantos da cidade e acordando até parede adormecida. Bastava o primeiro toque da
zabumba ecoar na Rua do Cajueiro que o povo já sabia: o Boi Curupira estava “levantando o couro” outra
vez.
E
no centro daquela engrenagem encantada existia Augusto Pituca, homem magro,
pele queimada de sol, vendedor de mingau na rodoviária, dono de uma sabedoria
feita mais de silêncio do que de palavras difíceis. Não sabia citar poeta, mas
conhecia o som do tambor pelo peso do vento. Não entendia de filosofia, mas
sabia quando São João estava “andando pela cidade”, como dizia.
Pituca
era o miolo do boi. Quase um “santo popular de couro e suor”, um homem simples
carregando um universo inteiro nas costas
Não
virou miolo por talento. Virou por promessa.
Anos
antes, Dandara sua filha mais nova tinha
adoecido. Febre alta, dessas que fazem mãe rezar baixinho e pai desaprender a
dormir. Sem dinheiro, sem esperança e sem entender as receitas dos médicos, Pituca
entrou sozinho na Igreja de São João Batista no bairro Trizidela numa madrugada
de chuva fina. Acendeu uma vela torta e prometeu:
“Se minha menina escapar dessa, eu carrego
um boi nas costas enquanto minhas pernas aguentarem.”
Pituca
na simplicidade de sua fé não sabia, mas naquele momento assumira o maior
compromisso de sua vida.
A
menina sarou.
E
promessa feita pra santo junino não evapora. Fica rondando igual fumaça de
fogueira.
Desde
de então, Pituca entrava no couro do boi todos os anos como quem veste uma
segunda pele. Não era fantasia. Era sacerdócio de pano, suor e fé. As pessoas
percebiam que balbuciava algumas palavras que ninguém sabia o que era, fazia
parte do ritual de sua entrada no boi. Conversar com o boi.Tocar o chão três
vezes fazendo o sinal da cruz, ritual herdado do avô que também fora miolo no
passado.
O
povo dizia que ele mudava quando entrava no miolo.
A
costureira da brincadeira, Dona Gracinha jurava ter visto os pés dele deixarem
marcas viradas ao contrário na lama depois e um ensaio.
—
Isso é o Curupira protegendo o boi. — Cochichava
ela, fazendo o sinal da cruz.
Já
Zé Telim, percussionista do grupo e mentiroso profissional nas horas vagas,
espalhava pela cidade:
—
Uma vez Pituca dançou tanto que o boi amanheceu fumando!
Ninguém
acreditava totalmente. Mas também ninguém duvidava.
Porque
em terreiro junino, verdade e invenção dormem na mesma rede.
Nos
ensaios, Pituca era observado de perto por Raíssa, índia guerreira, moça afiada
que dançava como se o chão tivesse música própria.
—
Tu precisa aprender a sorrir dentro desse boi, Pituca. — Ela dizia.
—
Mas ninguém tá vendo meu rosto. – Respondeu Pituca.
—
São João vê. – Insistiu Raíssa.
Deste
de então, Pituca passava o ensaio inteiro tentando sorrir escondido dentro da
armação, feito menino aprendendo segredo novo.
Havia
também Maestro Chagas, homem responsável pela orquestra, dono de um bigode tão
grande que parecia reger sozinho os metais. Tinha vindo da paraíba e se
apaixonou pela cultura maranhense.
Chagas
levava a brincadeira como ciência.
—
Atenção! Trombone não é pra soprar feito quem assusta galinha! Isso aqui é
emoção sonora!
Mas
bastava Pituca entrar no terreiro para toda disciplina desafinar.
Certa
noite, durante apresentação no bairro da Trizidela, uma criança correu no meio
da roda atrás do boi. Pituca, num reflexo quase sobrenatural, ergueu a estrutura
inteira e girou por cima do menino sem derrubar uma pena.
O
povo enlouqueceu.
Uma
senhora gritou:
—
Esse homem tem mola nos ossos!
Na
semana seguinte, surgiu o boato de que Pituca tinha aprendido a dançar com
entidades encantadas no fundo do Rio Mearim.
O
mais engraçado era que ele próprio começava a acreditar.
Nas
madrugadas depois das apresentações, sentado na calçada com os pés mergulhados
numa bacia d’água, Pituca conversava com o boi como quem conversa com um velho
amigo.
—
Hoje nós quase caiu, né parceiro?
O
boi, imóvel num canto da sala, parecia escutar.
A
esposa dele, Dona Neuma, já estava acostumada com o comportamento esquecido do
marido.
—
Homem, tu tá conversando com madeira. – Perguntou só pra confirmar.
—
Madeira nada. Depois de tanto São João, isso aqui já criou alma.
E
talvez tivesse criado mesmo.
Porque
havia momentos em que o Boi Curupira parecia conduzir Pituca, e não o
contrário.
Na
grande apresentação da noite de São Pedro, a orquestra explodiu em metais
dourados. As índias rodopiavam feito labaredas coloridas. O amo cantava versos
improvisados enquanto o povo se apertava nas ruas de Bacabal como se quisesse
caber dentro da própria festa.
Então
aconteceu.
No
auge da toada, faltou energia.
A
cidade mergulhou num breu morno.
Por
dois segundos, só existiu silêncio.
Depois
alguém começou a bater matraca.
Outro
respondeu no pandeirão.
Uma
zabumba acordou no escuro.
E
Pituca continuou dançando.
Sem luz.
Sem palco.
Sem enxergar quase nada.
O
couro do boi riscava a noite como um vagalume gigante.
As
pessoas acenderam lanternas de celular. As crianças correram atrás do brilho
improvisado. As estrelas pareciam mais baixas. E o povo inteiro começou a
cantar junto, transformando a escuridão numa espécie de milagre coletivo.
Mais
tarde, já perto do amanhecer, Neuma encontrou Pituca sentado sozinho atrás do
arraial, ainda vestido de miolo.
—
O que foi?
Ele
demorou a responder.
—
Às vezes eu acho que quando eu tô dentro do boi… eu desapareço.
—
E vira o quê?
Pituca
olhou o céu clareando sobre Bacabal, enquanto os últimos fogos ainda morriam
longe.
— Viro encantado dançando... desses que São João solta
pelo mundo só no mês de junho.
José
Casanova
Professor,
Jornalista, Escritor e Cronista
Membro
da Academia Bacabalense de Letras
Academia
Mundial de Letras da Humanidade
O cartório de Alto Alegre do Maranhão não é um templo de justiça; é um depósito de poeira e silêncio, onde a vida humana é reduzida a carimbos e assinaturas ilegíveis. Elias, escrivão de terceira classe há vinte anos, passava seus dias transcrevendo escrituras de compra e venda de terras que ele nunca veria, pertencentes a pessoas que ele nunca conheceria. A burocracia, pensava ele enquanto ajustava os óculos no nariz suado, é a arte de tornar o mundo chato o suficiente para ser catalogado.
Naquela
tarde de terça-feira modorrenta, chegou às suas mãos um processo de inventário
antigo. O falecido, um certo Coronel Firmino (nome comum naquelas bandas,
carregado de autoridade e bigode), deixara uma fazenda de nome curioso:
"Sítio das Almas Perdidas".
Elias abriu
a pasta de papel pardo, sentindo o cheiro acre de mofo que se desprendia das
folhas amareladas. Começou a ler a descrição do imóvel, esperando a habitual
litania de medidas em braças, marcos de pedra e confrontações com vizinhos
litigiosos.
"Item 1: Uma gleba de terras de cultura e campos, situada à margem
esquerda do Igarapé do Inferno..."
Até aí, tudo
normal. Nomes geográficos nessa região tendiam ao dramático. Mas, à medida que
avançava na leitura, a linguagem técnica do agrimensor começava a falhar, dando
lugar a algo que Elias não encontrava nos manuais de Direito Imobiliário.
"...limitando-se ao norte com a cerca de arame farpado que divide a
esperança da resignação..."
Elias parou.
Limpou as lentes dos óculos na camisa. Leu de novo. "Cerca de arame
farpado que divide a esperança da resignação". Aquilo não era uma
confrontação física. Era metafísica. O agrimensor devia estar bêbado ou poeta, duas condições frequentemente indistinguíveis em Alto Alegre.
Continuou,
agora com o coração acelerado.
"...seguindo por um valado natural até encontrar o pé de tamboril
onde, em 1942, jurou-se amor eterno que durou apenas um inverno..."
O escrivão
sentiu um arrepio. Aquele documento não estava descrevendo uma propriedade;
estava mapeando uma memória. A posse da terra não se dava por metros quadrados,
mas por quilos de sentimento. O inventário listava bens que nenhum herdeiro
poderia reclamar em juízo: o eco de um riso antigo na varanda, a sombra fresca
de uma mangueira que viu três gerações nascerem e morrerem, o silêncio pesado
das tardes de domingo.
Elias olhou
ao redor. O cartório continuava o mesmo: as estantes de metal cinza, o
ventilador de teto girando preguiçosamente, o som monótono do carimbo do colega
na mesa ao lado. Pá. Pá. Pá. O ritmo da burocracia. Mas ali, naquelas
páginas, pulsava uma vida secreta.
"Item 4: Um açude de águas paradas, profundo como o arrependimento,
capaz de saciar a sede do gado, mas não a da alma..."
Ele pegou
sua caneta Bic azul. Sua função era transcrever aquilo para o livro oficial,
torná-lo público, legal, irrevogável. Mas como transcrever "profundo como
o arrependimento" sem cometer uma infração administrativa? O sistema do
Tribunal de Justiça não tinha campo para metáforas. O formulário pedia
"Área Total" e "Benfeitorias". Onde ele encaixaria a
"tristeza do poente"?
Elias
percebeu que estava diante de um dilema moral. Se ele alterasse o texto para o
padrão jurídico ("açude com capacidade de X litros"), estaria
cometendo um crime de falsidade ideológica contra a poesia. Estaria matando a
verdade daquela terra para salvar a sua legalidade. Mas se mantivesse o
original, o processo seria anulado por "inépcia da descrição".
Olhou para a
janela. O sol de Alto Alegre dourava a poeira da rua. Um menino passava
correndo atrás de uma pipa. A vida lá fora era feita dessas imprecisões
poéticas, dessas belezas que não cabem em formulários. A burocracia era apenas
uma tentativa desesperada de enquadrar o caos divino em linhas retas.
Tomou uma
decisão.
Puxou o
livro de registros, pesado e solene. Molhou a ponta da caneta na boca, um
hábito antigo. Começou a escrever.
"Certifico e dou fé que, revendo os autos do inventário dos bens
deixados por Firmino..."
Sua mão
tremeu.
"...consta um imóvel rural denominado Sítio das Almas Perdidas,
cujas divisas são a saudade ao norte, o esquecimento ao sul, a paixão a leste e
o silêncio a oeste."
Parou. Olhou
para o que escrevera. Era loucura. Ele seria demitido. O juiz corregedor
rasgaria a folha. Mas, naquele momento, Elias sentiu-se mais dono daquelas
terras do que qualquer herdeiro. Ele havia transformado a posse em poesia.
Havia dado à terra sua verdadeira dimensão: a humana.
Fechou o
livro com um estrondo que fez o colega ao lado pular.
— O que foi,
Elias? Matou uma barata? — Perguntou o outro.
— Não.
Salvei uma alma. — Respondeu Elias, levantando-se.
Pegou o
paletó no encosto da cadeira. O expediente ainda não tinha acabado, mas para
ele, o dia estava feito. Tinha cometido seu ato de rebeldia silenciosa. A
burocracia podia ter as chaves do arquivo, mas a poesia tinha acabado de
arrombar a porta. Saiu para a rua, sentindo que Alto Alegre, com suas cercas de
arame e seus pés de tamboril, agora lhe pertencia de uma forma que nenhum
registro de imóveis jamais conseguiria capturar.
O auditório da Escola Católica Padre Pio foi palco, nesta sexta-feira, do II Encontro dos Conselheiros Municipais de Educação da Regional ...