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sábado, 21 de fevereiro de 2026

CRÔNICA DO DIA: O Elevador da Paulista


O edifício de fachadas espelhadas na Avenida Paulista era uma colmeia de ambições, onde o tempo era medido em bips de catracas eletrônicas e o valor de um homem era frequentemente julgado pela marca do relógio ou pela firmeza do nó da gravata. Rodrigo, um executivo de investimentos cujo celular parecia uma extensão orgânica de sua palma, entrou no elevador social com a pressa de quem carrega o mercado financeiro nas costas. Logo atrás dele, entrou Marta, uma mulher de meia-idade vestindo o uniforme azul-claro de uma empresa de serviços de limpeza, segurando um balde com produtos organizados e um olhar cansado que buscava o chão.

O silêncio no cubículo de aço escovado era a norma social de São Paulo: olhos fixos no painel de andares, respiração contida, o distanciamento profilático entre quem manda e quem serve. Rodrigo conferiu o cronômetro no pulso; tinha sete minutos para chegar ao trigésimo andar para uma conferência via vídeo com investidores de Brasília. Marta, por sua vez, só pensava em terminar o turno para pegar o trem de volta para Itaquera, onde seu filho mais novo a esperava

Marta, não costumava usar o elevador social, mas o elevador de serviço entrara em manutenção, tinha autorização para usar o elevador principal do arranha-céu , mas devia permanecer em silêncio. Era raro ver uma mulher da sua cor entrar pela porta da frente no ededício.

Entre o vigésimo segundo e o vigésimo terceiro andar, o mundo estacou. Um solavanco seco, seguido pelo som metálico de freios de emergência sendo acionados, fez as luzes oscilarem e o painel digital apagar. O silêncio que se seguiu foi absoluto, pesado como o vácuo.

— Mas o que é isso? — Exclamou Rodrigo, apertando freneticamente o botão de interfone. — Alô? Tem alguém ouvindo? O elevador travou!

Marta permaneceu imóvel por um instante, o balde ainda firme em sua mão. Ela já passara por aquilo antes em prédios mais velhos, mas o pânico na voz do executivo a fez suspirar.

— Calma, moço. Se o senhor gritar, o ar acaba mais rápido. Eles devem estar reiniciando o sistema. — Disse ela, com uma voz surpreendentemente calma, colocando o balde no chão e sentando-se no canto oposto.

— Calma? Eu tenho uma reunião que vale milhões! — Rodrigo andava de um lado para o outro no espaço de dois metros quadrados. — Isso é um absurdo. Um prédio dessa categoria...

Dez minutos se passaram. O calor começou a subir. Rodrigo, agora sem o paletó e com o colarinho desabotoado, tentava sinal de celular em todas as direções, sem sucesso. A arrogância inicial dava lugar a uma ansiedade palpável, as mãos a tremer levemente. Ele olhou para Marta, que estava com os olhos fechados, murmurando algo que parecia uma prece ou apenas uma canção baixa.

— Como a senhora consegue ficar tão tranquila? — Perguntou ele, a voz agora menos ríspida, quase suplicante por uma conexão humana.

— Moço, eu já perdi muita coisa na vida para me desesperar por meia hora de elevador parado. — Respondeu Marta, abrindo os olhos e oferecendo um sorriso triste. — O desespero a gente guarda para quando o prato está vazio ou quando um filho não volta para casa. O resto é só contratempo.

Rodrigo sentou-se no chão, a poucos centímetros dela, o terno de grife agora em contato direto com o piso de granito que Marta limpara horas antes.

— Entendo. O meu filho... bem, eu quase não o vejo. Saio antes de ele acordar e volto quando ele já dormiu. Trabalho para dar o melhor para ele, mas sinto que estou dando apenas coisas, sabe?

Marta assentiu devagar.

— Eu também trabalho muito. Meu filho mais velho se perdeu nesse mundão de São Paulo faz dez anos. Nunca mais tive notícia. Hoje eu limpo esses escritórios e fico olhando as fotos nas mesas das pessoas, imaginando se algum daqueles moços bonitos não poderia ser ele, se tivesse tido uma chance diferente.

O coração de Rodrigo acelerou, mas não pela claustrofobia. Ele lembrou-se de um movimento que vira na Praça da Sé na semana anterior; um grupo de mães segurando fotos. Lembrou-se do que ouvira sobre o Deputado Valadares, que estava denunciando a negligência com os desaparecidos.

— A senhora faz parte daquelas mães de praça?

— Sou uma delas. Helena é minha amiga de luta. A gente se ajuda como pode. Em São Paulo, moço, ou a gente se segura na mão de alguém ou a correnteza leva.

Rodrigo, o homem que vivia de números e projeções, sentiu um peso no peito. Ele sempre vira mulheres como Marta como parte da mobília dos edifícios, elementos invisíveis que garantiam a funcionalidade do seu sucesso. Ali, no silêncio do elevador travado, a invisibilidade se dissipou. Ele viu as mãos de Marta, mãos que limpavam a sujeira dos outros para financiar a busca por um pedaço de sua própria alma.

— Me perdoe. — Disse ele, baixando a cabeça. — Por tudo. Pelo jeito que entrei aqui, pelo jeito que eu vivo... ignorando tudo que não seja o meu próprio umbigo.

— Não peça perdão a mim, moço. Peça tempo para o seu filho. A gente acha que o dinheiro compra segurança, mas a única coisa que segura a gente no mundo é o amor que a gente deixa nas pessoas.

Inspirado por aquela conversa e pelo ambiente confinado que igualava o executivo à faxineira, Rodrigo compartilhou algo que nunca dissera a ninguém: o medo constante de falhar, a pressão de manter uma fachada de sucesso em Brasília e São Paulo, e o vazio que sentia ao chegar em sua cobertura luxuosa e encontrar apenas o silêncio. Eles conversaram sobre perdas, sobre a fé que move as montanhas de concreto daquela avenida e sobre como o destino gosta de pregar peças para nos lembrar da nossa fragilidade.

Quando as luzes finalmente piscaram e o elevador soltou um suspiro hidráulico, voltando a descer lentamente para o térreo por segurança, a atmosfera entre os dois havia mudado. As portas se abriram para o saguão frenético. Seguranças e técnicos correram em direção a eles, pedindo desculpas mil por "problemas técnicos na rede elétrica".

Rodrigo levantou-se e ajudou Marta a pegar seu balde. Antes de saírem, ele tirou um cartão pessoal do bolso e entregou a ela.

— Marta, eu trabalho com dados e contatos influentes em Brasília. Eu não posso prometer milagres, mas vou usar tudo o que tenho para ajudar o seu grupo de busca. O Deputado Valadares é meu conhecido de longa data. Se ele quer falar as verdades que ninguém quer ouvir, eu vou dar a ele os nomes dos filhos de vocês para que ele grite para quem quiser ouvir.

Marta olhou para o cartão e depois para os olhos de Rodrigo. Não viu mais o executivo apressado, mas um homem que acabara de ser resgatado de um tipo diferente de prisão.

— Obrigada, moço. De coração. Sabe, a gente entrou aqui estranho, mas acho que o elevador parou só para a gente se enxergar.

Rodrigo não subiu para a reunião. Ele caminhou para fora do prédio, sentindo o ar da Avenida Paulista entrar nos pulmões com uma densidade nova. Ele cancelou os compromissos do dia e ligou para casa, perguntando se o filho gostaria de tomar um sorvete no final da tarde. Enquanto caminhava, ele percebeu que a solidariedade não era um conceito abstrato de caridade, mas uma necessidade de sobrevivência emocional na selva urbana.

O caos de São Paulo continuava ao redor dele, as buzinas, a pressa, a competição desenfreada. Mas agora, Rodrigo carregava consigo um pouco da calma e da resiliência de Marta. Ele entendeu que cada pessoa que cruzava seu caminho, fosse a rainha de bateria que vira na TV, o velho no interior do Maranhão, a mulher da lavanderia ou a mulher que limpava seu escritório eram um fio necessário na tapeçaria de sua própria vida. O acaso não os prendera naquele elevador; o destino os libertara para uma conexão que o asfalto jamais conseguiria apagar. E enquanto as janelas dos prédios refletiam as luzes da tarde, ele soube que a verdadeira evolução humana não se media pelos andares que se subia, mas pela coragem de descer ao nível do coração do outro.

Por José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Crônista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade
Direitos Autorais Reservados

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

CRÔNICA DO DIA: O Mercado de Verbos de São Luís



O Mercado Central de São Luís não é um lugar; é um texto polifônico escrito em tempo real, sem pausa para respirar. Osmar Gomes, cronista por teimosia e desespero de prazo, estava encurralado entre uma banca de camarão seco e outra de farinha d'água, tentando encontrar um verbo que não estivesse melado de suor ou impregnado de cheiro de peixe. O editor esperava 800 palavras até o meio-dia. Eram dez e meia. O sol castigava as telhas de amianto, transformando o galpão numa estufa de vozes e odores.

Ele abriu o bloco de notas no celular, os dedos escorregando na tela engordurada pela umidade do ar.

"A cidade acorda..."

Apagou. Clichê. A cidade nunca dormia, apenas mudava de turno. E "acorda" era um verbo preguiçoso para aquele pandemônio.

Ao seu redor, o vocabulário era físico, gritado, arremessado.

— Olha o caranguejo! Tá vivo, freguesa! A corda tá nova!

— Tiquira pura! Mata a tristeza e o verme!

— Juçara grossa! Sangue de boi não chega nem perto!

Osmar tentou blindar os ouvidos, mas a sintaxe do mercado era invasiva. Ela não pedia licença; ela entrava pelos poros. A literatura, pensou ele, é uma atividade aristocrática que exige silêncio, café e uma janela com vista para o nada. Aqui, a janela dava para o tudo. Escrever no meio daquele caos era tentar fazer crochê num ringue de boxe.

Um homem passou esbarrando em seu ombro, carregando um cesto de vime cheio de mangas que pareciam corações pulsantes.

— Sai do meio, escritor! A fruta não espera!

Osmar gomes cambaleou, quase derrubando o celular dentro de um saco de goma. "A fruta não espera". A frase ficou quicando em sua mente. A urgência da vida real atropelava a calmaria da gramática. Todo cronista é um parasita dessa urgência, tentando congelar o movimento perpétuo em parágrafos estáticos. Mas como congelar o cheiro de coentro que invadia suas narinas com a violência de um soco?

Ele respirou fundo, absorvendo a mistura de maresia, podridão e vida. Decidiu que não lutaria contra o mercado; ele o usaria como tinta.

"O mercado não pede, ele intima. O verbo aqui é imperativo. Compre. Coma. Leve. A farinha é amarela como o sol que lá fora derrete o asfalto, e aqui dentro, derrete a paciência..."

Não. Ainda muito "bonitinho". O mercado não era bonito. Era brutal e honesto. Ele apagou "derrete a paciência" e escreveu "cozinha a alma em banho-maria". Melhor. Mais culinário.

— Vai levar o quê, patrão? — A voz veio de baixo. Uma senhora sentada num banquinho, descascando macaxeira com uma faca que brilhava perigosamente.

— Estou levando palavras, minha senhora. — Respondeu Osmar, num impulso de sinceridade.

Ela parou a faca, olhou para ele com olhos que já tinham visto muita enchente e muita seca, e soltou uma gargalhada rouca.

— Palavra não enche barriga, meu filho. Mas se temperar bem, engana a fome.

Aquela mulher acabara de lhe entregar a crônica pronta. "Palavra não enche barriga, mas se temperar bem, engana a fome." Era a definição perfeita da literatura. Um consolo. Um tempero para a realidade crua e indigesta.

Para aquela mulher, ele era apenas mais um na multidão, ela não sabia que estava diante de um Juiz de Direito e que estava sem saber lhe ajudando a escrever direito tudo o que uma crônica tem direito.

Osmar Gomes, agora anonimamente agia como presidente da Academia Ludovicense de Letras, começou a digitar freneticamente. Seus polegares voavam sobre o teclado virtual. Ele descreveu a senhora da macaxeira como uma guardiã de segredos subterrâneos. Descreveu o vendedor de ervas, que prometia cura para espinhela caída e dor de amor com a mesma garrafada escura. Descreveu o som das facas batendo nas tábuas de carne, um ritmo sincopado que marcava o tempo melhor que qualquer relógio.
A pressão do prazo desapareceu. O barulho ao redor, antes inimigo, virou trilha sonora. O grito do peixeiro virou vírgula. O choro de uma criança virou ponto e vírgula. A confusão de pernas e cestos virou a complexidade de uma oração subordinada que se desenrolava sem fim.

Ele suava. O suor pingava na tela, distorcendo as letras. A escrita é um ato físico, lembrou-se do "Exterminador" das palavras. Não é apenas mente; é corpo. É resistência. Escrever ali, espremido entre a sobrevivência alheia, era provar que a palavra ainda tinha lugar no mundo, mesmo que fosse um lugar apertado e barulhento.

"A literatura no mercado não é lida; é gritada. Ela tem preço, tem peso, tem cheiro. Ela apodrece se não for consumida hoje."

Faltavam dez minutos para o meio-dia. Ele releu o texto. Estava sujo, manchado, caótico. Estava vivo. Era pura literatura.Não tinha a elegância asséptica das crônicas de gabinete, mas tinha a pulsação da Rua da Estrela. Tinha o gosto do camarão seco e a aspereza da farinha.

Enviou o email. "Crônica enviada com sucesso". A mensagem na tela pareceu ridícula diante da grandiosidade daquele teatro humano.

Osmar guardou o celular no bolso. Sentiu uma fome voraz, aquela fome que só vem depois que a alma se esvazia no papel. Olhou para a senhora da macaxeira.

— Me vê dois quilos, por favor.

Ela sorriu, sem parar de descascar.

— Viu só? Palavra engana, mas a macaxeira sustenta.

Ele pagou, pegou a sacola pesada e saiu para o sol de meio-dia. A crônica estava feita, mas a verdadeira história continuava ali dentro, sendo escrita e reescrita a cada grito, a cada facada, a cada troca de moedas sujas. Tinha uma relação de afeto com aquele mercado, mas agora era apenas um turista naquele idioma de sobrevivência. Mas, por alguns minutos, conseguira conjugar os verbos certos. E isso, para um escritor, era o suficiente para justificar o dia. A resistência da palavra não estava em durar para sempre em livros de capa dura, mas em conseguir ser ouvida, nem que fosse por um segundo, no meio do rugido ensurdecedor da vida real.

p.s: Esta crônica é uma homenagem ao escritor e Cronista Osmar Gomes.

Por José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista
Membro da Academia Bacabalense de Letras


Academia Mundial de Letras da Humanidade




quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

CRÔNICA DO DIA: As Sombras de Bacabal


O sol em Bacabal não pede licença; ele se impõe sobre as telhas de barro e as copas das árvores com uma autoridade que silencia até os vira-latas nas horas de pino. Na Praça Santa Teresinha, o tempo parece ter uma consistência diferente, algo entre o mel e o asfalto quente, esticando os minutos até que eles percam a pressa. Foi sob a sombra generosa de um frondoso pé de jambo que Benedito, um homem cujo rosto era um mapa de rugas desenhado pelo sol maranhense, viu-se sentado ao lado de um forasteiro que trazia o cansaço das grandes metrópoles marcado nas olheiras.

O forasteiro, um homem de terno cinza amassado e sapatos cobertos pela poeira fina da região, buscava um alento no mormaço. Benedito, com seu chapéu de palha e as mãos calejadas apoiadas em um cabo de guarda-chuva que servia de bengala, observava o movimento lento das bicicletas. A simplicidade de Bacabal tem essa força: ela desarma quem chega protegido por camadas de importância.

— O calor daqui não é brincadeira, não é, meu senhor? — Comentou o forasteiro, tentando abanar-se com uma pasta de couro.

— O calor é justo, moço. — Respondeu Benedito, sem desviar o olhar do horizonte. — Ele não faz distinção de quem é da terra ou de quem vem de fora. Só exige que a gente aprenda a esperar. Aqui, quem tem pressa, briga com o próprio suor e perde.

O homem do terno, que se apresentou apenas como Dr. Arnaldo, um advogado enviado para resolver questões de terras que se arrastavam por décadas em Brasília, soltou um riso seco.

— Eu passo a vida correndo de um tribunal para outro, de um aeroporto para o próximo. Às vezes esqueço como é ficar parado apenas... olhando.

— Pois olhe. — Disse Benedito, apontando com o queixo para o casarão antigo do outro lado da praça, onde hoje funciona um Ponto de Cultur construído às duras penas pelo Mestre Pinta, cujas janelas de madeira estavam fechadas há anos. — Aquela casa ali guarda mais segredo que gabinete de ministro. Meu avô dizia que o que a gente esconde da luz, o tempo cuida de apodrecer no escuro.

A conversa, que começara como um trivial comentário sobre o clima, mergulhou em águas mais profundas, como é de costume nas calçadas do interior. Benedito começou a contar histórias que não estavam nos livros oficiais da cidade. Falou de amores proibidos que mudaram a posse de fazendas, de coronéis que mandavam no vento, mas que tremiam diante de uma promessa não cumprida, e de crianças que, como em tantas outras partes do país, sumiam nos vãos da história sem deixar rastros, como no Quilombo São Sebastião do Pretos.

— O senhor mencionou crianças desaparecidas... — Arnaldo interessou-se, lembrando-se vagamente de um dossiê que vira em São Paulo sobre redes de adoção ilegal que operavam no Norte e Nordeste décadas atrás.

— Pois é, moço. Tem coisa que o povo finge que esquece para poder continuar vivendo. Mas a sombra de Bacabal é comprida. Lá naqueles anos setenta, muita gente vinha aqui "buscar" o que não lhe pertencia. Levavam os pequenos com o pretexto de dar estudo na capital, mas o destino deles virava um mistério que nem a reza mais braba das benzedeiras conseguia rastrear.

Benedito fez uma pausa, os olhos nublados por uma lembrança pessoal que parecia doer fisicamente. Ele tirou do bolso um canivete e começou a descascar uma laranja, oferecendo um pedaço ao advogado.

— Eu tive um irmão. O mais novo. Minha mãe, coitada, acreditou num homem que falava bonito, vestia terno igual ao seu. Ele disse que o menino ia ser doutor em São Luís. Nunca mais vimos a cor dos olhos dele. Até hoje, quando ouço o rádio falar de gente sumida ou daqueles pais que buscam os filhos lá no sul, eu sinto que a minha ferida ainda está aberta, mesmo sendo de tanto tempo.

Arnaldo sentiu o nó na garganta. Ele, que vivia de tecnicismos jurídicos e de "verdades narrativas" em Brasília, confrontava-se ali com a verdade nua de um homem simples. Lembrou-se do Deputado Valadares, que agora ocupava as manchetes por não conseguir mentir, e percebeu a ironia: no interior, a verdade é dita com a mesma naturalidade com que se comenta a colheita do arroz, enquanto no poder, ela é tratada como um surto de loucura.

— Sabe, Sr. Benedito. — Disse Arnaldo, guardando a pasta de couro no banco. — Eu vim aqui para despejar uma família de uma área que um cliente meu reclama como sua. Mas, ouvindo o senhor, percebo que os documentos que eu carrego não dizem nada sobre a vida que foi plantada naquela terra.

— Terra é igual a gente, moço. Ela tem memória. O papel aceita qualquer risco de caneta, mas o chão só reconhece quem derramou o próprio óleo nele. Aquela família que o senhor quer tirar... eles estão lá há três gerações. Se o senhor tirar eles, está arrancando as raízes e deixando a árvore morrer.

O encontro, que parecia fortuito, revelava as conexões invisíveis que o destino tecia entre Bacabal e o resto do mundo. A dor de Benedito pelo irmão perdido ecoava a busca daquela mãe que percorria as ruas de São Paulo com panfletos na bolsa. O cinismo de Arnaldo, forjado nos corredores de Brasília, era quebrado pela sabedoria de quem via a vida através das estações e das sombras projetadas na praça de Santa Terezinha.

— O senhor me deu muito o que pensar. — Admitiu o advogado, levantando-se e limpando o pó das calças. — Talvez eu precise rever alguns conceitos sobre o que é "justiça".

— Justiça, moço, é quando ninguém precisa chorar escondido atrás da porta. — Concluiu Benedito, levantando-se com a ajuda de sua bengala improvisada. — Se o senhor for voltar para a capital federal, leve com o senhor o cheiro desta terra. Ela ajuda a lembrar quem nós somos quando o asfalto tenta nos fazer esquecer.

Enquanto se afastava, Arnaldo olhou para trás e viu o velho Benedito caminhar devagar em direção à Trizidela, perdendo-se entre as sombras das árvores e os primeiros postes que se acendiam com a chegada do crepúsculo. Ele sentiu que, naquela conversa de banco de praça, descobrira mais sobre a alma brasileira do que em todos os anos de prática jurídica. A sombra de Bacabal não era apenas escuridão; era o abrigo onde a verdade, por mais dolorosa ou antiga que fosse, ainda encontrava espaço para ser sussurrada.

Ele caminhou em direção ao hotel São Francisco, o passo agora menos apressado, percebendo que as vidas de pessoas tão distantes; a rainha que samba descalça, a mãe que busca o filho, o político que perdeu o filtro e o velho que ainda guarda a dor de um irmão levado, estavam todas amarradas por uma trama que começava ali, naquela poeira maranhense. O acaso, definitivamente, não existia. Havia apenas uma longa jornada de retornos e revelações. E enquanto o sol finalmente se punha, deixando o céu em tons de laranja e púrpura, Arnaldo soube que, ao entrar no próximo elevador envidraçado de uma grande metrópole, ele levaria consigo o peso e a luz das verdades que só o silêncio do interior tem coragem de revelar.

Por José Casanova
professor, Jornalista,  Escritor e Cronista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

CRÔNICA DO DIA: Rastros na Multidão


A cidade de São Paulo não dorme, mas para Helena, ela também nunca acorda de um pesadelo que já dura quatro mil e duzentos dias. Quando ela desembarca na Estação da Luz, considerada como patrimônio histórico por refletir o momento em que foi construida, mostrando o poder do café no crecimento da cidade. O fluxo humano parece um rio caudaloso de rostos anônimos, cada um mergulhado em sua própria urgência, seus fones de ouvido e suas pequenas tragédias cotidianas. Para quem observa de fora, Helena é apenas mais uma mulher simples na multidão, carregando uma bolsa de plástico desgastada e um olhar que parece focar em algo além do horizonte visível. Mas, dentro daquela bolsa, protegidos por um envelope pardo, estão os rastros de sua existência: centenas de panfletos com a foto de um menino de dez anos, olhos amendoados e um sorriso levemente desalinhado que o tempo se recusa a envelhecer.

Mateus desapareceu numa tarde de terça-feira, a caminho da padaria, em um bairro da periferia onde todos se conheciam, mas ninguém viu nada. Desde então, o mapa de São Paulo transformou-se, para Helena, em um território de buscas incessantes. Ela conhece cada praça, cada albergue, cada vulto que se abriga sob os viadutos do centro. Aprendera a amar pessoas em situação de rua com Padre Julio Lacellotti. Ela não enxerga a arquitetura imponente dos prédios da Avenida Paulista; ela enxerga os vãos, os cantos escuros, as frestas onde o destino gosta de esconder o que nos tira.

— Licença, o senhor viu este menino? — Ela pergunta a um guarda civil, estendendo o papel já um pouco úmido pela garoa fina que começa a cair.

— Minha senhora, essa foto é antiga, não é? O rosto já deve ter mudado muito — responde o homem, com uma gentileza mecânica, aquela que se usa para tratar quem a esperança já tornou um pouco estranho aos olhos do mundo.

— Eu sei que mudou. Eu mudei, a cidade mudou. Mas o olhar... o olhar é o mesmo. Eu reconheceria entre um milhão de pessoas.

Essa certeza é o combustível que a mantém de pé enquanto suas pernas latejam após horas de caminhada. Helena aprendeu que a dor do desaparecimento é diferente da dor do luto. O luto tem um ponto final, uma lápide, uma despedida que permite o início de uma cura, por mais lenta que seja. O desaparecimento é uma ferida aberta que nunca sangra por completo, mas que nunca cicatriza. É viver em uma suspensão eterna, onde cada toque de telefone é um sobressalto e cada sirene de ambulância é um golpe no peito.

Naquela tarde, como faz em toda primeira quinta-feira do mês, Helena se dirigiu a um pequeno centro comunitário perto da Praça da Sé. Lá, ela não estava sozinha. O grupo era formado por outras dez mulheres e dois homens, todos carregando pastas semelhantes, todos unidos por um fio invisível de agonia e resiliência. Eles se chamam de "Buscadores".

— Alguma novidade no IML desta semana, Dona Nair? — Perguntou Helena, sentando-se ao lado de uma senhora cujo filho desapareceu há quinze anos.

— Nada, Helena. Só os mesmos rostos de sempre que ninguém reclama. Dói ver que tem tanta gente que vira apenas um número num sistema. — Suspirou Nair, apertando a mão da amiga. — Mas ontem recebi uma ligação de uma moça em Fortaleza. Disse que viu um rapaz parecido com o meu Júnior perto da rodoviária. Pode não ser nada, mas já pedi para uma sobrinha que mora lá ir verificar.

Esse é o ecossistema da busca. Uma rede de solidariedade que atravessa estados, conectando a angústia de São Paulo com a esperança de Fortaleza, São Luís, Bacabal ou Brasília. Eles trocam informações, compartilham contatos de investigadores que realmente se importam e, acima de tudo, validam a existência uns dos outros. Em um mundo que prefere desviar o olhar do sofrimento que não tem solução imediata, esse grupo é o único lugar onde Helena não se sente uma assombração.

— Às vezes eu acho que estou ficando louco. — Confessou um pai novo no grupo, cujas lágrimas ainda eram recentes e ardidas. — Eu vejo meu filho em cada mochila escolar que passa pela rua. Eu corro atrás de ônibus, grito o nome dele e, quando percebo, é só um estranho me olhando com medo.

Helena colocou a mão no ombro dele.

— No começo é assim mesmo. Depois, você para de correr atrás de ônibus e passa a observar os detalhes. Você aprende a ler os sinais da cidade. A esperança não é uma loucura, é um ofício. É o que nos separa do abismo.

Ela contou a eles sobre o que ouvira no rádio de um táxi naquele dia. Um político em Brasília , um tal de Valadares, estava causando um rebuliço ao falar verdades incômodas sobre como os fundos de segurança pública eram desviados. Houve um momento de silêncio na sala. Para eles, a política não era sobre partidos, mas sobre recursos para DNA, sobre bancos de dados integrados, sobre o direito humano básico de saber onde está o seu próprio sangue.

— Se aquele homem está mesmo falando a verdade. — Disse Nair — Quem sabe ele não fala sobre as nossas crianças? Quem sabe ele não diz, em rede nacional, que existem milhares de famílias vivendo como fantasmas porque o Estado é cego? Quem sabe ela não diga que em 2025 no Brasil teve cerca de 232 casos de desaparecimento de pessoas por dia e que 28% por cento das ocorrencias envolvem criaças e adolesnetes! 

A reunião terminou com um abraço coletivo. Não havia promessas de final feliz, apenas a promessa de que, na próxima quinta-feira, todos estariam ali novamente. Helena saiu para a noite paulistana, onde o neon dos letreiros tentava ofuscar as estrelas. Ela caminhou em direção ao metrô, mas parou diante de um grande mural de fotos de pessoas desaparecidas colado em uma parede de concreto. Ela tirou um tubo de cola da bolsa e afixou o panfleto de Mateus em um espaço vazio, exatamente ao lado da foto de uma menina que fora levada em uma festa de Carnaval.

Enquanto alisava o papel, Helena pensou na rainha de bateria que vira na televisão dias antes, sambando descalça no asfalto quente. Ela sentiu uma conexão estranha com aquela mulher. Ambas eram guerreiras à sua maneira, lutando para manter a dignidade enquanto o chão lhes faltava. Ambas transformavam a dor em movimento. A rainha dançava para não cair; Helena caminhava para não morrer por dentro.

A cidade continuava a rugir ao seu redor. Carros de luxo passavam por poças de água, sujando os sapatos de quem dormia nas calçadas. Políticos em Brasília continuavam suas tramas de poder e verdade. Mas ali, naquele pequeno quadrado de papel colado no concreto frio de São Paulo, o rosto de Mateus permanecia vivo. Helena sabia que o acaso poderia ter levado seu filho, mas o acaso também poderia trazê-lo de volta, ou ao menos trazer uma resposta.

Ela subiu as escadarias da estação sentindo o peso da bolsa, agora um pouco mais leve pela distribuição dos panfletos. Cada papel entregue era uma semente de memória plantada no esquecimento urbano. Ao entrar no vagão lotado, ela não se sentou. Permaneceu de pé, observando os reflexos no vidro escuro do túnel. Ela não via seu próprio rosto cansado; via apenas os caminhos que ainda precisava percorrer. São Paulo era grande, o Brasil era vasto, mas o coração de uma mãe era um bússola que nunca perdia o norte.

Enquanto o trem acelerava, Helena fechou os olhos e, por um instante, o cheiro de ozônio do metrô foi substituído pelo cheiro de talco de bebê e de terra molhada de um quintal antigo. Ela respirou fundo, guardando aquele rastro de lembrança como um tesouro sagrado. O amanhã traria novas ruas, novas praças e as mesmas perguntas, mas ela estaria lá. Porque enquanto houvesse um rastro na multidão, haveria uma razão para continuar caminhando, cruzando destinos e tecendo, com fios de dor e de fé, a tapeçaria invisível de uma busca que não conhece o cansaço.

Por José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Crônista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras  da Humanidade 




terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

CRÔNICA DO DIA: O Político que Falava a Verdade


O Palácio do Planalto, com suas linhas de concreto que parecem flutuar sobre o espelho d'água, sempre foi o cenário de uma coreografia milimétrica. Em Brasília, a verdade costuma ser uma convidada indesejada, alguém que se mantém trancada em gavetas de carvalho ou escondida sob o verniz de discursos cuidadosamente redigidos por marqueteiros de fôlego. O Deputado Federal Dr. Waldir Valadares era um mestre nessa arte. Com décadas de vida pública, ele sabia exatamente como dizer nada utilizando o máximo de palavras possível. Seu sorriso era treinado, suas pausas eram estratégicas e sua capacidade de omitir fatos era considerada quase uma virtude teologal entre seus pares na Câmara.

Tudo mudou em uma terça-feira de céu absurdamente azul, após um incidente banal durante o café da manhã. Waldir engasgara com um pedaço de mamão e, após alguns segundos de pânico e uma manobra de Heimlich executada às pressas por seu motorista, algo parecia ter se desconectado em seu córtex pré-frontal. Ou talvez, como ele mesmo passaria a suspeitar, algo tivesse finalmente se conectado.

O primeiro sinal do desastre iminente ocorreu na abertura da Comissão de Constituição e Justiça. O relator de um projeto polêmico que beneficiava grandes empreiteiras terminou sua leitura e, voltando-se para Valadares, perguntou:

— E qual a posição do nobre deputado sobre este aditivo ao projeto?

Waldir sentiu a resposta padrão se formando no fundo da garganta — algo sobre "análise técnica detalhada" e "bem-estar social". Mas o que saiu de sua boca foi um jato de honestidade pura:

— Olha, relator, para ser sincero, eu não li uma linha sequer desse lixo. O que eu sei é que o dono da construtora pagou metade da reforma da minha casa de campo e, por isso, eu deveria votar a favor, mas esse projeto é tão mal escrito que dá vergonha até de ser corrupto com ele.

O silêncio que se seguiu não foi apenas a ausência de som; foi um vácuo físico. Os taquígrafos pararam de digitar. Os colegas de bancada olharam para Waldir como se ele tivesse acabado de se transformar em um alienígena verde. O relator, gago, tentou contornar:

— O deputado certamente está usando de uma ironia refinada para criticar a burocracia...

— Ironia nada, rapaz — Retrucou Waldir, agora com um prazer quase infantil. — Você também não leu. Você recebeu o texto pronto do lobista ontem à noite no jantar. Aliás, aquele risoto de lagosta que você postou estava com uma cara ótima, embora todos saibamos que você odeia frutos do mar e só comeu para parecer sofisticado.

O terremoto começou ali. Em menos de uma hora, os corredores do Congresso fervilhavam. O "Incidente Valadares" foi tratado inicialmente como um surto psicótico ou um AVC súbito. Seus assessores correram para a enfermaria, mas Waldir se recusava a ser examinado. Ele se sentia leve. A carga de décadas carregando segredos e mentiras sociais havia desaparecido, substituída por uma urgência quase biológica de clareza.

À tarde, no Grande Expediente, ele subiu à tribuna. O plenário estava lotado, atraído pelo cheiro de sangue e escândalo.

— Senhoras e senhores. — Começou Waldir, sem olhar para o papel. — Eu pretendia ler um manifesto sobre a importância da educação básica. Mas vamos falar a verdade? Ninguém aqui se importa com a educação se ela não render um palanque para a próxima eleição ou um desvio de verba nas obras da escola técnica. Inclusive, aquele deputado ali na terceira fila, que está me olhando com cara de horror, passou a manhã tentando negociar um cargo para a amante no Ministério da Infraestrutura. Ela não tem currículo para limpar o chão do ministério, mas ele insiste que é uma "técnica qualificada".

— Ordem! Questão de ordem! — Gritou o visado, vermelho como uma pimenta.

— A única ordem que você entende é a ordem de despejo que vai receber se sua esposa descobrir onde você gasta os fundos de gabinete .— Devolveu Waldir, sorrindo.

O caos se instalou. O presidente da Câmara martelava o malhete com tanta força que parecia querer quebrar o mármore da mesa. Waldir foi retirado da tribuna por seguranças, mas não parou. Nos corredores, cercado por jornalistas ávidos por um título de primeira página, ele continuou sua metralhadora de fatos.

— Deputado, o senhor está renunciando? — Perguntou uma repórter da TV ÁGAPE.

— Minha filha, eu adoraria renunciar e ir morar em uma praia em Fortaleza, mas eu ganho muito bem para fazer quase nada e tenho um ego maior que o Estádio Mané Garrincha. Eu só resolvi falar a verdade porque mentir cansa a musculatura da face, e minha dermatologista disse que o botox não está mais segurando as rugas de preocupação com a Polícia Federal.

A repercussão foi imediata. Nas redes sociais, Waldir Valadares tornou-se um fenômeno. O povo, cansado da linguagem empolada e das promessas vazias, dividia-se entre o riso e a perplexidade. Alguns o chamavam de profeta; outros, de louco. No mercado financeiro, as ações de empresas citadas por ele despencaram em questão de minutos. O governo entrou em modo de contenção de danos, tentando internar o deputado à força em uma clínica psiquiátrica de luxo sob o diagnóstico de "Síndrome da Veracidade Compulsiva".

À noite, em seu gabinete, Valadares recebeu a visita de um dos caciques de seu partido, um homem cujos cabelos brancos e voz mansa escondiam uma das mentes mais perigosas da política nacional.

— Waldir, meu caro. — disse o cacique, fechando a porta com cuidado. — Brincadeira divertida. O país parou. Agora, vamos soltar uma nota dizendo que foi uma reação adversa a um novo remédio para dormir e que você pede desculpas pelo "delírio".

Waldir olhou para o velho amigo e sentiu uma pontada de pena.

— Sabe o que é, presidente? Eu olhei para você agora e só consegui pensar em como esse seu implante capilar ficou ridículo. Parece grama de campo de golfe. E aquela conta que você tem nas Ilhas Cayman? O número é bem fácil de decorar, comecei a anotar hoje de manhã.

O cacique empalideceu. O suor brotou em sua testa, revelando a linha artificial do cabelo.

— Você não faria isso. Acabaria com a sua carreira também.

— Que carreira, homem? Eu sou um político que fala a verdade. Minha carreira acabou no momento em que o mamão entalou na minha glote. Agora eu sou apenas um homem livre observando o incêndio. E quer saber? As chamas são lindas.

Brasília nunca mais seria a mesma nas semanas seguintes. Waldir tornou-se um "homem-bomba" ambulante nos jantares de gala e nas sessões solenes. Ele apontava conflitos de interesse em contratos de licitação como quem aponta o sabor de um sorvete. Mas havia algo mais profundo acontecendo. O riso inicial deu lugar a um desconforto coletivo. A verdade dói, não apenas em quem a ouve, mas no tecido de uma sociedade construída sobre pequenos acordos de silêncio.

Ele percebeu que a honestidade radical em um ambiente saturado de simulação é a maior das rebeldias. Não havia estratégia em seu comportamento, apenas a impossibilidade de operar o filtro que separa o pensamento da fala. No entanto, em meio ao terremoto político que causava, Waldir começou a notar pequenas conexões humanas que antes lhe escapavam. Ao falar a verdade sobre suas próprias fraquezas e medos, ele começou a atrair confessionários espontâneos. Garçons do Congresso lhe contavam segredos não para chantagear, mas para se sentirem vistos. Ele percebeu que, por trás da máscara do poder, havia uma fragilidade monumental movida pela necessidade básica de ser aceito.

Em seus momentos de solidão, olhando as luzes de Brasília da janela de seu apartamento funcional, ele pensava em como a vida era um emaranhado de causas e efeitos. Talvez o seu surto de verdade fosse o contraponto necessário para o drama de alguém em outro canto do Brasil. Talvez sua fala desastrada pudesse, por caminhos tortuosos, ajudar a encontrar algo que estava perdido — seja um filho em São Paulo ou a dignidade de uma rainha no Carnaval.

O fenômeno Valadares serviu para mostrar que a realidade é muito mais estranha que a ficção. Em uma cidade projetada para o futuro, o ato mais revolucionário que um homem pôde praticar foi o de resgatar a mais antiga e simples das virtudes humanas. No final das contas, Waldir descobriu que a verdade não liberta apenas quem a conhece; ela obriga todos ao redor a lidarem com o próprio reflexo no espelho, mesmo que o reflexo mostre olheiras profundas ou um implante capilar mal-sucedido. E enquanto Brasília tentava desesperadamente construir uma nova mentira para abafar suas revelações, o deputado sentava-se na varanda, respirando o ar seco do planalto e esperando pelo próximo pensamento que, inevitavelmente, ganharia o mundo sem filtros, sem pudores e sem volta.

Como diria Neruda: “ A verdade é que não há verdade”. Será verdade?

Por José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Crônista
Menbro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade

 




segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

CRÔNICA DO DIA: O Salto Quebrado da Rainha

 

O Sambódromo da Marquês de Sapucaí, no Rio de Janeiro, era um organismo pulsante, uma massa de luzes, cores e um som que não se ouvia apenas com os ouvidos, mas com o peito. Para Sheila Raquel, aquela noite representava o ápice de uma jornada que começara muito longe daquelas arquibancadas lotadas, nas ruas planas e quentes de Bacabal. Ela não era apenas uma mulher sambando; ela era o símbolo de uma comunidade, a Rainha de Bateria que carregava nos ombros a responsabilidade de nota dez no quesito evolução e harmonia. Sua fantasia, uma estrutura imponente de penas de faisão em tons de degradê entre o azul-royal e o turquesa, custara meses de economia e cada gota de seu suor nos ensaios técnicos.

O coração batia na cadência do surdo de marcação. Enquanto a escola se posicionava na concentração, Sheila sentia a adrenalina percorrer suas veias. Ela ajustou a coroa, incrustada com cristais que refletiam os refletores potentes, e sorriu para os fotógrafos. O Carnaval tem essa magia: ele transforma pessoas comuns em divindades temporárias. Naquele momento, ela não era a vendedora de cosméticos que lutava para pagar o aluguel; ela era a soberana absoluta dos ritmistas.

— Tudo pronto, rainha? — Perguntou Mestre Jorge, o comandante da bateria, com o apito já entre os dentes.

— O coração está saindo pela boca, Jorge, mas a gente vai fazer história — respondeu ela, ajeitando as tiras da sandália que subiam por suas pernas torneadas.

— Confia na sua luz. Quando a gente entrar, o chão vai tremer.

O sinal verde brilhou. O grito de guerra do puxador de samba rasgou o ar e a bateria explodiu. Sheila deu o primeiro passo, uma explosão de graça e vigor. Cada movimento de seus quadris parecia ditar o ritmo da percussão. Ela entrou na avenida como uma força da natureza, distribuindo sorrisos e beijos, os braços abertos para abraçar a multidão. A Marquês de Sapucaí gritava seu nome. Ela sentia que nada no mundo poderia pará-la. Brasília, São Luís, Fortaleza, São Luia Gonzaga... parecia que o Brasil inteiro estava ali, concentrado naquela passarela de asfalto.

Foi no meio do Setor B, exatamente onde as câmeras de televisão captavam cada detalhe, que o destino, sempre irônico, decidiu intervir. Ela executou um giro rápido, um movimento que ensaiara mil vezes, mas ao apoiar o peso no pé esquerdo, ouviu um estalo seco. O som, para ela, foi mais alto que o repique da bateria. O salto de quinze centímetros da sua sandália de gala, feito de um acrílico reforçado que deveria ser indestrutível, sucumbiu.

Em um milésimo de segundo, o mundo de Sheila inclinou-se. O equilíbrio sumiu. A dor no tornozelo foi uma agulhada ardente, mas não se comparava ao pânico que gelou sua espinha. Uma rainha de bateria não pode cair. Se ela caísse, a harmonia da escola seria prejudicada. O "buraco" na frente da bateria seria imperdoável para os jurados. 

— Ai, meu Deus — Murmurou ela, entre dentes, mantendo o sorriso congelado para as câmeras enquanto sentia o pé esquerdo ceder.

— Shirley, o que houve? —Perguntou um dos diretores de harmonia que caminhava ao lado, percebendo a hesitação súbita.

— O salto. Quebrou. Jorge, não para! Continua! — Ela comandou, embora o suor que agora escorria por seu rosto não fosse mais apenas de calor, mas de puro desespero.

Ela tinha duas escolhas: sair da avenida e chorar a derrota de um ano inteiro, ou encontrar uma forma de continuar o show. O asfalto estava fervendo, e sem o salto, sua perna esquerda estava agora vários centímetros abaixo da direita, destruindo sua postura e sua cadência. O público começou a notar. Um murmúrio de preocupação percorreu a frisa. Shirley respirou fundo, fechou os olhos por um breve segundo e tomou a decisão que definiria sua vida dali em diante.

Em um gesto coreografado, como se fizesse parte da apresentação, ela se abaixou e desamarrou rapidamente as tiras da sandália esquerda. Com um movimento firme, arrancou também a sandália direita. Ali, no centro da passarela, a rainha, leteralmente, desceu do salto. O contato direto do pé descalço com o asfalto quente foi um choque térmico, mas ela não recuou. Ela jogou os calçados caríssimos para o lado, em direção aos assistentes, e ergueu o queixo.

A bateria, percebendo a garra da sua líder, dobrou a intensidade. Os ritmistas começaram a gritar em incentivo. Sheila recomeçou o samba, mas agora era diferente. Havia uma força primitiva em seus pés descalços tocando o chão. Ela não era mais uma boneca de luxo em cima de plataformas; era uma mulher negra, real, de carne, osso e resiliência. O samba tornou-se mais rasteiro, mais ancestral, um toque de pés que parecia conversar diretamente com a terra, ignorando o calor do asfalto negro.

— Isso mesmo, rainha! No chão! No chão! — Gritava Mestre Jorge, visivelmente emocionado com a cena.

Ela sentia pequenas bolhas começarem a se formar sob a planta dos pés, mas a dor fora anestesiada pelo rugido da arquibancada. A Marquês de Sapucaí, que antes a admirava pela beleza, agora a reverenciava pela coragem. Milhares de pessoas se levantaram e começaram a aplaudir. Ela cruzou o restante da avenida com uma energia renovada, cada pisada no asfalto sendo um manifesto de que nenhum acidente material é capaz de apagar o brilho de quem carrega a verdade na alma.

Ao cruzar a linha final, na dispersão, Sheila colapsou nos braços das baianas que a esperavam. Suas pernas tremiam violentamente e seus pés estavam escoriados, mas seu rosto brilhava com uma satisfação que nenhum troféu poderia proporcionar. Ela sabia que aquele salto quebrado não fora um azar, mas uma oportunidade de provar a si mesma que sua realeza não dependia de acessórios. 

— Você foi gigante, Shirley. — Disse uma das baianas, entregando-lhe um copo de água e um par de chinelos velhos. — O povo nunca vai esquecer essa sua garra.

— Eu só não queria deixar a escola na mão. — Respondeu ela, com a voz embargada. — O destino quis me derrubar, mas ele esqueceu que eu aprendi a andar em chão de terra da rua Paulo Rmos lá em Bacabal. O asfalto do Rio de Janeiro é só mais um caminho.

Enquanto era carregada para o posto médico, Sheila Raquel pensava na ironia dos eventos. Se o salto não tivesse quebrado, ela teria sido apenas mais uma rainha bonita na história da escola. Agora, ela era a rainha que venceu o asfalto. Aquele imprevisto, aquele pequeno caos mecânico no meio da festa mais planejada do país, foi o que permitiu sua transformação. Naquela noite, a resiliência foi o seu adereço mais brilhante. Ela entendeu, com uma clareza que só as situações desesperadoras trazem, que a vida muitas vezes nos tira o sustento dos pés apenas para nos ensinar a voar. E enquanto o gelo era colocado em seus pés feridos, no silêncio relativo do posto médico, ela teve a estranha sensação de que as voltas do destino ainda trariam surpresas em outros cenários, talvez sob as luzes mais frias e calculistas de uma capital onde as verdades costumam ser tão raras quanto um salto inquebrável.

 

José Casanova

Professor, Jornalista, Crônista e Escritor

Membro da Academia Bacabalense de Letras

Academia Mundia de Letras da Humanidade 

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

ABL participa de Diálogo com a Corregedora-Geral do Ministério Público em Bacabal

 

A Academia Bacabalense de Letras (ABL) participou, nesta segunda-feira (09), do Diálogo com a Corregedora-Geral do Ministério Público, Fátia Travassos,  realizado no Salão do Júri da Comarca de Bacabal. Representando a instituição, o presidente da ABL, José Casanova, integrou o encontro que reuniu autoridades do Judiciário, Executivo e representantes da sociedade civil organizada.

O evento contou com a presença de secretários municipais, prefeitos, juízes, promotores de Justiça, conselheiros tutelares e lideranças comunitárias, consolidando-se como um espaço de diálogo democrático e fortalecimento institucional.

A Corregedora-Geral do Ministério Público do Maranhão, Fátima Travassos, conduziu o encontro com competência e desenvoltura. O diálogo teve como objetivo dar transparência aos trabalhos correicionais desenvolvidos nas Promotorias de Justiça de Bacabal, Lago Açu e Olho d’Água das Cunhãs, cidades  representadas   pelos prefeitos professora Ceci e Vaval Gomes, além de promover uma escuta qualificada das autoridades, instituições e segmentos sociais.

O prefeito de Bacabal, Roberto Costa, fez-se representar pela advogada Máxima Regina. Também se pronunciaram a Delegada da Mulher de Bacabal e a Comandante do 15º Batalhão da Polícia Militar, Tenente-Coronel Leila, que destacaram a importância do momento para o fortalecimento da rede de proteção e da atuação integrada das instituições.

Promotores e magistrados, entre eles Dr. Elder, Dra. Michelle e Dr. Paulo destacarm  o trabalhos desenvolvida pela corregedoria .  Membros do Conselho Tutelar de  Bacabal, elogiaram o trabalho desenvolvido pela promotora Dra. Michelle, ressaltando o compromisso com a justiça e a defesa dos direitos da população.

Durante o evento, o presidente da ABL, José Casanova, fez uso da palavra para destacar os 25 anos da Academia Bacabalense de Letras, que serão celebrados no próximo dia 24 de março, e enfatizou a necessidade da construção de uma sede própria para a instituição. Segundo ele, a ABL tem desempenhado papel fundamental na promoção da cultura, da literatura e da cidadania no município.

O Diálogo com a Corregedora-Geral do Ministério Público reforçou o compromisso do Ministério Público com a transparência, a democracia e a aproximação com a sociedade, fortalecendo a atuação conjunta das instituições na promoção da justiça e dos direitos fundamentais.









domingo, 8 de fevereiro de 2026

ABL prestigia posse de Osmar Gomes na Academia Ludovicense de Letras

 

A Academia Bacabalense de Letras (ABL) marcou presença na Sessão Pública de posse do cronista, escritor e magistrado Osmar Gomes como membro Presidente da Academia Ludovicense de Letras, realizada nesta quinta-feira (5), no Fórum Desembargador Sarney Costa, em São Luís. O evento reuniu representantes de Academias de Letras de diversas regiões do Maranhão, além de advogados, juristas e convidados ligados ao meio cultural e acadêmico.

A cerimônia teve um tom leve e descontraído, fugindo ao protocolo excessivamente formal que costuma marcar solenidades acadêmicas. Poucos convidados fizeram uso da palavra, o que contribuiu para uma sessão dinâmica e envolvente. Um dos momentos mais marcantes foi a apresentação da Companhia Teatral Beto Bittencourt, que encenou, com atores e bonecos, uma divertida performance sobre a trajetória de Osmar Gomes, desde sua juventude até a conquista do cargo de juiz, arrancando risos e aplausos da plateia.

O empossado, reconhecido por sua atuação como cronista e escritor, agradeceu a presença dos convidados e conduziu a sessão com desenvoltura e elegância, destacando a importância da literatura e da cultura como instrumentos de humanização do Direito e da sociedade.

O presidente da Federação das Academias de Letras do Maranhão (FALMA), escritor César Brito, também se pronunciou, ressaltando a relevância do momento para a cultura maranhense e o fortalecimento das instituições literárias no estado. Crianças e adolescentes da Academia Maranhense de Letras Infantojuvenil emocionaram o público com a recitação de poemas, reafirmando o papel da literatura na formação das novas gerações.

Bacabal esteve representada pelo escritor José Casanova, presidente da Academia Bacabalense de Letras, pelo presidente da OAB Bacabal, Dr. Gilberto Júnior Lacerda, pelo advogado Dr. Jefferson Santos e pelo vereador João Alberto de Sousa, que prestigiaram a solenidade e reforçaram os laços culturais entre Bacabal e a capital maranhense.

A posse de Osmar Gomes foi celebrada como um grande momento da cultura ludovicense, reunindo literatura, teatro, juventude e tradição acadêmica em uma noite que reafirmou a vitalidade das letras maranhenses e o diálogo entre o mundo jurídico e a produção literária.