O
carro ainda nem havia parado completamente quando os flashes começaram a
pipocar como fogos de artifício em noite de São João. Os pés calçados numa sandália
que ajudara a criar com seus próprios
pitacos de estilista. Sua beleza negra dominava o ambiente.. Ela acena para fãs
que a esperavam na entrada do hotel. Era Alcione, a marrom.
O saguão do hotel fervilhava de executivos, artistas e jornalistas. As
portas de vidro se abriram e Alcione surgiu envolta num vestido negro salpicado
de cristais que pareciam pequenas estrelas presas ao tecido. Era impossível não
olhar. Não porque fosse extravagante, mas porque carregava aquela rara
elegância de quem sabe exatamente quem é.
Foi então que uma voz
atravessou o salão:
— Ih... chegou o navio
negreiro!
As conversas morreram pela
metade. Um garçom congelou com a bandeja nas mãos. A recepcionista fingiu
procurar alguma coisa no computador para esconder o constrangimento.
Alcione parou. Respirou. Olhou
diretamente para o homem.
Sem elevar a voz, respondeu
com a contundência de quem já havia enfrentado preconceitos demais para
desperdiçar palavras.
— Meu papel higiênico é
branco... e eu limpo o meu cu com ele.- Falou Alcione sem perder a elegância.
O silêncio seguinte foi maior
que qualquer aplauso.
O homem baixou os olhos. Não
havia resposta possível para quem acabara de descobrir que a dignidade pode
falar mais alto que o preconceito. Tão rápido quanto apareceu, o homem
desapareceu nos corredores do hotel.
Alcione nunca respondeu ao
racismo apenas por si. Cada resposta sua parecia carregar séculos de vozes que
foram obrigadas a silenciar. Ela sabia que o preconceito não nasce da
inteligência. Nasce justamente da ausência dela. Costumava dizer que racismo é
falta de cultura e que, num país formado por tantas misturas como o Brasil,
ninguém deveria imaginar-se superior ao outro pela cor da pele.
Dizem que a chamaram de Marrom
por causa da cor da pele. Talvez fosse apenas um apelido. Mas os apelidos
também têm destino. O dela cresceu junto com sua voz. Deixou de morar na superfície
da pele para habitar o coração do povo. "Marrom" passou a ter cheiro
de tambor, gosto de samba, sotaque maranhense e força de ancestralidade. Era a
prova de que uma cor pode ser transformada em bandeira quando quem a carrega
decide não esconder a própria história, mas iluminá-la.
Desde então, quando alguém
anuncia "A Marrom chegou", ninguém pensa em pigmento. Pensa numa das
maiores vozes Negras da música brasileira.
As primeiras
notas de Não Deixe o Samba Morrer mal haviam saído dos
instrumentos quando o teatro deixou de ser plateia. Transformou-se em um enorme
coral. Centenas de vozes cantavam juntas, algumas afinadas, outras nem tanto,
mas todas carregadas da mesma emoção. Alcione sorriu e afastou o microfone da
boca. Não precisava cantar. O público fazia isso por ela.
Ela apontou para os músicos e brincou:
— Vocês estão ouvindo? Acho que daqui a pouco vou
ter que pedir emprego nesse coral!
A banda caiu na gargalhada. O cavaquinista
respondeu com um floreio bem-humorado, e o percussionista fez o tambor
"retrucar", arrancando novos aplausos.
Alcione levou a mão ao peito e contemplou a
multidão por alguns segundos.
— Voltar ao Maranhão é diferente... Não é fazer
um show. É voltar para casa. É reencontrar o cheiro da minha terra, o batuque
que embalou minha infância e esse povo que sempre me ensinou que o samba também
nasce onde o tambor fala mais alto.
A plateia respondeu em coro:
— Marrom! Marrom! Marrom!
Ela riu, daquele riso largo que parecia contagiar
até os refletores do palco.
— Vocês não prestam... Cada vez que volto, saio
daqui mais maranhense do que cheguei.
Sem avisar a banda, improvisou alguns versos
sobre São Luís, o mar, os azulejos antigos, os tambores e o povo que transforma
saudade em festa. Os músicos se entreolharam por um instante e, como quem já
conhecia aquele velho costume da cantora, acompanharam a improvisação sem
perder o compasso.
Ao terminar, o teatro inteiro levantou-se. Não
era apenas uma salva de palmas. Era o Maranhão abraçando uma de suas filhas
mais ilustres. Naquele instante, não existiam camarins, luzes ou distância
entre palco e plateia. Existia apenas uma mulher cantando para a terra que
nunca deixou de morar dentro dela.
Alcione precisou de uma pausa
para trocar o figurino. O calor do Maranhão parecia pequeno diante do calor
humano que vinha da plateia.
Ela voltou ao palco usando um
vestido vermelho coberto de paetês. Caminhou em direção aos músicos. O salto
encontrou um cabo esquecido. Por um segundo, a Marrom caiu. O teatro inteiro
levou a mão ao peito. Os músicos interromperam a introdução.
Um segurança correu. Ela levantou
antes mesmo que alguém pudesse ajudá-la. Pegou o microfone e sorriu:
— Quem nasceu no Maranhão aprende
cedo que cair não é problema. Problema é não levantar.
O teatro explode em aplausos.
Para encerrar o show Alcione canta uma toada de bumba meu boi considerada um
hino da cultura maranhense, mesmo não sendo São João centenas de matracas
surgem nas mãos da plateia. Ela agradece o carinho do público e sai do palco.
Nos bastidores. Uma menina negra aproxima-se. A menina perguntou, quase
num sussurro:
— Dona Alcione... um dia eu
posso cantar igual à senhora?
A Marrom sorriu daquele jeito
que só quem conhece o peso da própria história consegue sorrir.
— Melhor.
A menina arregalou os olhos.
— Melhor?
— O Brasil já tem uma Alcione.
O que ele ainda está esperando é conhecer você.
Talvez seja por isso que Alcione nunca tenha sido apenas uma cantora.
Há vozes que interpretam
canções. A dela interpreta um povo.
Sempre que houver alguém
tentando diminuir uma pessoa pela cor da pele, haverá uma nota de samba
esperando para responder.
E quando essa nota subir aos
céus, vestida de lantejoulas, de turbantes invisíveis e da dignidade herdada
dos ancestrais, o preconceito descobrirá aquilo que a cultura brasileira já sabe
há décadas:
Alcione não ocupa um palco.
Ela ocupa um lugar na memória do Brasil.
Porque existem artistas que
fazem sucesso. E existe Alcione.
A mulher que transformou a
própria voz em quilombo, o samba em resistência e cada aplauso em uma pequena
derrota do racismo. Quando ela canta Não Deixe o Samba Morrer,
não é apenas o samba que continua vivo. É também a esperança de um país que
ainda precisa aprender que nenhuma cor diminui um ser humano, mas toda forma de
preconceito diminui quem a pratica. Afinal, a pele nunca foi medida de
grandeza. A verdadeira grandeza sempre esteve na alma. E a de Alcione, como sua
voz, nasceu sem caber em qualquer fronteira.
José
Casanova
Professor,
Jornalista, Escritor e Cronista
Membro
da Academia Bacabalense de Letras
Academia
Mundial de Letras da Humanidade































