O salão de beleza de dona Eunice, em Pindaré-Mirim, não
tinha o nome pomposo de um spa ou as luzes de LED dos grandes centros. Era um cômodo
simples, conectado à sala de sua casa, onde o perfume de creme de pentear se
misturava ao cheiro constante de café torrado na hora. No fundo, um rádio a
pilha tocava hinos da harpa cristã em volume baixo, uma trilha sonora que
parecia embalar não apenas o corte das tesouras, mas também as confidências que
cruzavam o ambiente.
Eunice limpava a tesoura com um lenço de algodão, olhando
pelo espelho uma cliente habitual, Marlene, que esperava o tempo da tintura
agir.
Marlene tinha o olhar carregado de quem carregava problemas
de adultério e dívidas que não cessavam.
O salão, para Eunice, nunca fora apenas sobre cabelo. Era
um confessionário de aço e plástico. Ela acreditava firmemente que a beleza de
uma mulher não terminava na raiz dos fios; começava exatamente onde a angústia
encontrava uma escuta atenta.
— Você está muito quieta hoje, Marlene. A própria Bíblia
diz que há tempo para tudo, e se o seu coração está pesado, é porque ele está
cheio demais de coisas que não lhe pertencem .— Disse Eunice, com a autoridade
de quem, durante anos, havia trilhado os caminhos da fé para curar as próprias rachaduras
na alma.
Marlene soltou um suspiro longo, que parecia arrastar
consigo toda a exaustão da semana.
— É o desgaste,
Eunice. Parece que, quanto mais eu oro, mais as muralhas aparecem. Meu marido
não me escuta, as contas não fecham e a sensação é de que Deus está em
silêncio.
Eunice
sorriu, um sorriso amplo e acolhedor, enquanto aplicava um pouco de reparador
de pontas nos cabelos de Marlene. Ela sabia bem o que era o silêncio de Deus.
Viver a fé evangélica em uma cidade como Pindaré-Mirim, onde as dificuldades da
vida são tão palpáveis quanto o calor do meio-dia, exigia mais do que palavras
bonitas; exigia prática. A fé não estava no púlpito da igreja aos domingos;
estava ali, naquele salão, no ato de ouvir sem julgar a história de queda e
ascensão de cada vizinha.
— Deus não está em silêncio, Marlene. Ele está na paciência.
Às vezes, a nossa maior luta é aprender a esperar a resposta no tempo que não é
o nosso. — Eunice começou a pentear os fios com delicadeza. — O erro é achar
que a fé tem que resolver o mundo num passe de mágica. A fé te dá a força para aguentar
o soco e ainda assim manter a cabeça erguida.
O sino preso
à porta anunciou outra cliente. Era Neide, conhecida na vila pelo temperamento
afiado. Sentou-se sem cumprimentar ninguém e jogou a bolsa sobre a cadeira.
— Só aparar as pontas. E, por favor, sem
sermão hoje. Já basta o pastor no domingo.
O salão silenciou por um instante. Marlene
abaixou os olhos. O rádio continuava a tocar um hino baixinho, quase como se
não quisesse interferir.
Neide olhou para o aparelho e bufou.
— Esse povo vive dizendo que Deus resolve
tudo. Resolve o quê? Meu marido morreu de câncer, meu filho foi embora e nunca
mais deu notícia. Eu orei até perder a voz. Se Deus escutou, resolveu ficar
calado.
As palavras ficaram suspensas no ar, mais
cortantes que qualquer tesoura.
Eunice não respondeu imediatamente. Enrolou a
capa no pescoço da cliente, borrifou um pouco de água sobre os cabelos e
começou a penteá-los devagar.
— Sabe por que eu nunca desligo esse rádio?
Não é porque minha vida seja bonita. É porque, nos dias em que eu também acho
que Deus está longe, alguém canta por mim.
Neide permaneceu em silêncio.
— A fé não impede que a gente enterre quem
ama. Também não paga boletos nem devolve filhos perdidos. Mas impede que a dor
enterre a gente primeiro.
A cliente desviou o olhar para o espelho,
seus olhos marejaram.
— Faz tempo que ninguém me escuta sem querer
me convencer de alguma coisa.
Eunice sorriu discretamente.
— Então hoje não vamos discutir Deus. Hoje
vamos cuidar desse cabelo. Amanhã, se Ele quiser, a conversa continua.
O rádio seguiu tocando, e, naquela tarde, ninguém mais sentiu necessidade de dizer mais nada. O
silêncio já fazia o trabalho que as palavras não conseguiam fazer.
Enquanto a tesoura movia-se com precisão, cortando pontas
duplas, a conversa fluía para outros tópicos: a escola dos filhos, a situação
da rua, as dificuldades da vizinhança. O salão era um refúgio da solidão que
muitas daquelas mulheres evangélicas enfrentavam em suas casas. Ali, elas eram
donas de si, tratadas com o carinho que a rotina do serviço doméstico ou do
trabalho braçal muitas vezes roubava. Eunice era a pastora daquelas vidas sem necessariamente
precisar de um título oficial. Ela exercia o ministério da escuta.
Uma moça mais jovem, recém-chegada à vila, entrou para
fazer a sobrancelha. Estava visivelmente nervosa, segurando uma pequena bíblia
de bolso com força. Ela observou Eunice conversando com Marlene e sentiu-se
confortável para se abrir sobre suas dúvidas quanto a uma decisão que precisava
tomar sobre um emprego em outra cidade. Eunice, sem interromper o trabalho, a
intercalar frases sobre o dever do cristão com conselhos práticos sobre como
gerir o próprio dinheiro e cuidar de sua independência.
Para Eunice, ser evangélica era exatamente isso: transformar
o Evangelho em um manual de conduta prática para a vida. Não era sobre proibições
ou sobre o medo do inferno, mas sobre a construção de uma dignidade que
começava na forma como a mulher se via no espelho. Se a mulher se sentisse
amada por Deus, ela trataria a si mesma com mais respeito, exigiria mais do
marido, investiria mais na educação dos filhos e não se deixaria abater pelas
circunstâncias da vila.
Ao final da
tarde, a última cliente despediu-se com um abraço demorado. O rádio ainda
deixava escapar um louvor antigo, misturando-se ao canto dos bem-te-vis que
anunciavam o fim do dia. Eunice fechou a janela, recolheu as xícaras de café
esquecidas sobre a bancada e passou a vassoura lentamente pelo piso.
Pequenos montes de cabelos formavam desenhos
irregulares no chão: fios grisalhos, cacheados, lisos, tingidos, negros como a
noite ou dourados pelo sol. Cada mecha parecia guardar um pedaço da história de
quem havia passado por ali naquela tarde.
Ela juntou tudo na pá, caminhou até a porta
e, antes de apagar a luz, desligou o rádio. O silêncio entrou devagar no salão.
Eunice voltou os olhos para o monte de cabelos que ainda esperava para ser
levado ao lixo.
Ali ficavam apenas fios. As dores, quase
sempre, iam embora penteadas. Ela fechou a porta sem pressa. Do lado de dentro
permanecia o cheiro de café recém-passado e de creme de pentear. Do lado de
fora, a noite caía sobre Pindaré-Mirim. Amanhã outras mulheres chegariam
trazendo novas aflições, e ela sabia que nem sempre teria respostas. Ainda
assim, haveria uma cadeira vazia, uma tesoura afiada, um ouvido atento e uma
esperança insistindo em nascer entre um corte de cabelo e outro.
José Casanova
























