O apresentador demorou alguns segundos antes de dizer seu nome. Não foi
esquecimento. Certos títulos precisam de silêncio para serem acreditados. As
luzes do palco começam a piscar. As cores da bandeira da Etiópia davam ao evento um om rastafári.
— Com vocês... a Voz da
Liberdade, a Dama do Reggae!
Os aplausos vieram antes mesmo
que Célia Sampaio aparecesse. Ela entrou devagar, sem o gesto espalhafatoso de
quem precisa convencer alguém de sua importância. Sabia que o palco não faz uma
cantora. Apenas ilumina a caminhada que ela já percorreu.
Quem olhava daquela plateia
talvez enxergasse apenas o vestido estampado com tecidos africanos, os brincos
grandes balançando ao ritmo da música e a mulher negra e segura diante do microfone.
Quase ninguém imaginava quantas ruas do Bairro da Liberdade ainda caminhavam
com ela.
Antes de subir o palco, uma
jovem cantora conseguira com ajuda de um amigo, vencer o bloqueio da segurança
e chegar perto de Célia.
— Dona Célia... posso fazer uma pergunta?
Ela sorri.
— Pode.
— Como é que a gente vira uma
dama do reggae?
Célia ri, um riso baixo.
— Primeiro, esquece essa
história de dama. Aprende a sobreviver.
A menina fica sem entender.
— Sobreviver?
— É. Cantar quando dizem que
reggae não é música de mulher. Continuar quando dizem que mulher negra só serve
para cantar num cantinho da festa. Trabalhar o dia inteiro e ainda encontrar
voz para subir num palco à noite. Depois disso, o povo inventa os títulos.
— Eu moro na Liberdade e
também quero ser cantora. – Disse a jovem e depois de uma pausa curta concluiu.
— Eu me inspirei em você...
— Célia, chegou a hora, vamos!
– Chamou um produtor.
Agora no palco de frente para
a plateia não conseguia esquecer o que dissera aquela jovem cantora. Lembrou da
infância na Liberdade, onde ela aprendeu cedo que algumas pessoas nascem
precisando provar o próprio valor três vezes. Uma por serem pobres. Outra por
serem negras. Outra por serem mulheres.
Não cumprimentou o público,
começou logo com uma canção que levou a plateia ao delírio cultural. Lembrou do
tempo passado quando no hospital, segurava mãos marcadas pela dor. À noite,
segurava o microfone. Em um lugar ajudava a cuidar dos corpos. No outro,
tentava aliviar feridas que não apareciam nos exames. As dores da alma da nação
regueira.
Sempre tivera as mãos
habilidosas para trabalhar a arte. Enquanto alinhavava um vestido inspirado nas
estampas africanas, Célia dizia que roupa também fala. Durante muito tempo
disseram ao povo negro que escondesse sua história. Ela preferia vesti-la.
O show transcorreu na maior normalidade. Uma música, Um refrão faz a Jamaica brasileira reagir com alegria.
Na Jamaica Brasileira
Radiodifusão
Radiola regueira
Pedra de salão
Na Jamaica Brasileira
Radiodifusão
Radiola regueira
Natty-Natty Nayfson
Eric Donaldson
Itamaraty, Estrela do Som
Reggae, Jimmy London
Tribo de Jah
O Reggae Raiz
Deixa rolar
Essa pedra, São Luís!”
Uma senhora cantava. Um Casal dançava agarradinho. Uma criança acompanhava o ritmo.
Após o show. Um homem se aproximou dizendo ser
repórter:
— Célia, você canta reggae
desde quando?
Ela responde:
— Desde antes de saber que era
reggae.
Ele ri.
Ela continua:
— Minha mãe já cantava
esperança dentro de casa quando a esperança ainda não tinha melodia.
— Por que continuar cantando
reggae depois de tantos anos?
— Porque ainda existe meninas
na plateia precisando descobrir que pode chagar até aqui. Reggae não é só
música. Para muita gente, ele foi a primeira voz dizendo que a nossa cor, a
nossa história e o nosso lugar neste mundo merecem respeito. Toda vez que eu
canto, a menina que saiu da Liberdade sobe ao palco comigo. E eu nunca quis deixa-la
para trás.
Outras pessoas chegavam para
cumprimentá-la. Não era apenas respeito
pela cantora. Era gratidão por alguém que transformou o reggae em endereço,
profissão, identidade e memória. O título de Dama do Reggae não parecia uma
homenagem. Parecia apenas a maneira mais curta de dizer quem Célia Sampaio
havia se tornado para gerações inteiras de maranhenses.
Quando deixou o palco, Célia
ainda procurou a menina entre a multidão. Não a encontrou. Sorriu. Talvez fosse
esse o destino das grandes referências: um dia deixam de reconhecer quem ajudam
a levantar. Mas continuam sendo o primeiro acorde na história de alguém.
José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Universidade































