O asfalto mudo de Brasília, com suas curvas largas
e monumentais, não parece ter o mesmo hálito que o chão de terra batida de
Bacabal, no interior do Maranhão. No entanto, o vento que sopra entre os eixos
da capital federal carrega a mesma poeira invisível de mistério que envolve as
palmeiras de babaçu. Quando caminhamos pelas ruas de São Luís, os azulejos
antigos das fachadas parecem nos observar, guardando histórias de séculos que
se entrelaçam aos passos apressados de quem hoje busca apenas o próximo ônibus.
Muitas
vezes, acreditamos piamente que o curso de nossas vidas é fruto exclusivo de
escolhas conscientes, de planos traçados em agendas de couro ou em aplicativos
de celular. Mas há uma força silenciosa, uma engenharia invisível que opera nos
bastidores, rearranjando encontros e desencontros com uma precisão que beira o
assustador. Alguns chamam de coincidência; outros, mais prevenidos, preferem
chamar de destino.
A verdade é que nada é isolado. Um atraso de cinco
minutos na saída para o trabalho em São Paulo, aquele semáforo que demora a
abrir na Avenida Paulista, pode ser o responsável por evitar um desastre ou por
colocar você diante da pessoa que mudará o rumo da sua carreira. É curioso
notar como as cidades, por mais distantes que sejam, se conectam por fios
tênues de causalidades humanas.
Fortaleza,
com seu cheiro de maresia e o sol que nunca descansa, abriga vidas que, sem
saber, dependem de um evento ocorrido em uma repartição pública de Brasília ou
de uma conversa de mesa de bar no Maranhão. O cotidiano é uma teia. Cada gesto,
por menor que seja, um olhar trocado na balsa para Alcântara, um pedido de desculpas
em um restaurante lotado é uma peça de dominó que, ao cair, reverbera em locais
que jamais visitaremos.
Observemos o senhor que vende tapioca na orla. Para
ele, o dia é apenas mais uma jornada de trabalho sob o sol. Mas, para a jovem
que parou ali por estar com fome após uma entrevista de emprego frustrada,
aquele breve diálogo sobre o tempo pode ser o alento necessário para que ela
não desista e decida caminhar mais dois quarteirões, onde verá um anúncio de
vaga que será o início de sua ascensão profissional. O acaso, se é que ele
existe, é um mestre disfarçado de trivialidade. Ele não se apresenta com
trombetas ou luzes neon; ele prefere o anonimato das pequenas coisas, o salto
que se quebra no momento errado, o guarda-chuva esquecido que obriga alguém a
se abrigar sob o mesmo toldo que um desconhecido.
A vida não é uma linha reta, mas um emaranhado de
curvas que se cruzam e se afastam conforme uma geometria própria. Muitas vezes,
olhamos para trás e tentamos encontrar uma lógica em nossas trajetórias.
"Se eu não tivesse pego aquele voo...", pensamos. Ou "se eu não
tivesse aceitado aquele convite...". O exercício de imaginar o que poderia
ter sido é fascinante, mas ignora o fato de que as peças já estão em movimento.
Não somos
apenas os jogadores; somos também as peças de um tabuleiro vasto demais para a
nossa compreensão imediata. O destino se manifesta na capacidade de transformar
o improvável em rotina e o extraordinário em uma terça-feira comum em qualquer
uma dessas metrópoles brasileiras.
Em Bacabal, o silêncio da noite é diferente do
silêncio de Brasília. No Maranhão, o silêncio é preenchido pelo som dos grilos
e pelo murmúrio das conversas nas calçadas, onde o tempo parece passar mais
devagar, permitindo que as conexões humanas sejam saboreadas com a calma de um
café passado na hora. Em São Paulo, o silêncio é uma raridade, um luxo
conquistado em fones de ouvido no meio do metrô, onde milhões de destinos se
esbarram sem se ver, como átomos em uma reação química prestes a explodir.
No entanto, em ambos os lugares, a mesma regra se
aplica: a vida está constantemente conspirando para que as histórias se
completem. Um drama que começa no coração do cerrado pode encontrar seu
desfecho nas praias do Ceará, impulsionado por uma série de eventos que, vistos
individualmente, parecem não ter sentido, mas que, no conjunto, formam um
mosaico perfeito.
É preciso ter bom senso para enxergar essas tramas.
Não se trata de misticismo barato, mas de uma observação atenta da realidade.
Quem nunca sentiu aquele frio na espinha ao perceber que estava no lugar certo,
na hora exata, para testemunhar algo que parecia destinado apenas aos seus
olhos? Ou aquela sensação de que um estranho cruzou seu caminho apenas para lhe
entregar uma palavra que era exatamente o que você precisava ouvir?
Essas
situações são os lembretes de que a autonomia que tanto pregamos é, em parte,
uma ilusão necessária para mantermos a sanidade. No fundo, somos todos
personagens de uma crônica maior, escrita por uma mão que não conhecemos, mas
cujos parágrafos sentimos na pele a cada reviravolta.
Interessante é pensar nas figuras que compõem esse
cenário. Imagine uma mulher que caminha com a confiança de quem domina o mundo,
os passos marcados pelo ritmo de uma música que só ela ouve, sendo subitamente
interrompida por um imprevisto mecânico de sua própria vestimenta. O que parece
ser um desastre de percurso, um embaraço público sob os holofotes, pode ser, na
verdade, o ponto de inflexão necessário para que ela revele sua verdadeira
força. O brilho excessivo muitas vezes cego, e é no momento da falha, da
vulnerabilidade, que o destino abre uma fresta para que a essência humana
apareça sem filtros. A resiliência não nasce do sucesso contínuo, mas da
capacidade de lidar com o salto que falha justamente quando todos estão
olhando.
As cidades mencionadas : Bacabal, São Luís, Fortaleza,
São Paulo, Brasília são mais que meros
pontos num mapa nesta crônica; elas são organismos vivos que respiram e reagem
às nossas passagens. Elas guardam os segredos de crianças que desapareceram em
meio ao caos urbano e o silêncio ensurdecedor de políticos que, por um golpe do
destino ou uma estranha condição da alma, perderam a capacidade de camuflar a
verdade com mentiras convenientes. Cada uma dessas histórias, por mais
disparatadas que pareçam, está conectada por esse princípio fundamental: o
cotidiano é grávido de significados que raramente paramos para decifrar.
Ao observarmos a vida com esse olhar mais aguçado,
passamos a respeitar os imprevistos. O trânsito parado, a chuva súbita que
estraga o penteado, o erro de digitação que envia um Pix para o destinatário
errado. Em vez de irritação, surge uma curiosidade quase infantil: o que essa
nova rota quer me mostrar? Para onde esse desvio está me levando? A sabedoria
reside em entender que, enquanto tentamos controlar as marés, o mar já decidiu
como nos levar à praia. Às vezes, ele nos joga na areia com violência; outras
vezes, nos conduz suavemente em uma espuma morna. De qualquer forma, chegamos
exatamente onde deveríamos estar, mesmo que não seja onde havíamos planejado.
O tecido da realidade é feito de fibras resistentes
e outras extremamente frágeis. O drama humano é essa constante tentativa de
remendar onde rasgou e de celebrar onde a trama é firme. O destino não é um
destino final, mas o próprio caminho, cheio de conexões que só fazem sentido
quando paramos de lutar contra a correnteza e começamos a observar a beleza do
fluxo.
Essa percepção nos torna mais humanos e,
paradoxalmente, mais humildes. Ao aceitar que não somos os únicos autores de
nossa biografia, passamos a olhar para o outro com mais complacência. Afinal,
aquele desconhecido que nos irrita com sua lentidão pode ser apenas o
instrumento que nos impede de chegar a um perigo logo adiante. Ou aquela pessoa
que nos pede uma informação pode ser o início de um capítulo que ainda não
ousamos imaginar. A vida é esse jogo de espelhos e ecos, onde cada som emitido
em Bacabal pode retornar como uma melodia em São Paulo, e cada lágrima derramada
em Brasília pode encontrar consolo numa manhã ensolarada em Fortaleza.
Estamos todos mergulhados nessa sopa de
causalidades. E é justamente quando os ornamentos do dia a dia falham, quando
os artifícios da nossa imagem pública são postos à prova pela crueza de um
pequeno acidente ou de um grande dilema, que percebemos a engrenagem girando.
Um sapato que falha, uma voz que não mente, um rastro que some, tudo faz parte
de um mesmo enredo. A partir daqui, cada passo será uma descoberta de como o
inesperado tem a chave de todas as portas que julgávamos trancadas. E, ao
aceitarmos que cada tropeço pode ser o início de uma nova dança, estamos
prontos para enfrentar qualquer avenida sob as luzes da cidade.
José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Crônista
Membro da A cademia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade










