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segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Academia Bacabalense de Letras leva produção literária de Bacabal à 19ª FeliS, em São Luís

 

A literatura produzida em Bacabal ganhou espaço e visibilidade na 19ª Feira do Livro de São Luís (FeliS), realizada de 18 a 27 de setembro, na Praça Maria Aragão, no Centro da capital maranhense. A Academia Bacabalense de Letras (ABL) participa do evento divulgando e comercializando obras de autores do município no estande da Federação das Academias de Letras do Maranhão (FALMA), presidida pelo escritor César Brito.

A participação representa uma importante vitrine para a produção literária bacabalense, aproximando escritores e leitores e levando ao público da feira diferentes gêneros, que vão da poesia à crônica, do romance à literatura infantil.

Entre as obras apresentadas está a “Coletânea da ABL – Centenário de Bacabal”, de autoria coletiva, publicação que reúne vozes da Academia e contribui para preservar parte da memória histórica, cultural e literária do município.

A escritora Maria Raimunda participa com os livros de poesia “Vivências” e “Reminiscências”, obras marcadas pela sensibilidade poética e pelo registro das experiências humanas por meio dos versos.

Também integra a representação literária de Bacabal a escritora Aline Freitas, que apresenta ao público títulos como “Ladeiras do Eterno Alvorecer”, “Vida Crônica”, no gênero crônica, e “A Música”, romance que integra sua produção literária.

A escritora Francinalva Muniz está representada por obras e participações em diferentes projetos literários, entre eles “Verve Lasciva: Poesia Erótica”, “Tudo é Poesia” e “Por Alguns Minutos, Eles”. Integrante da Academia Bacabalense de Letras, Francinalva vem ampliando sua produção e participação em antologias e projetos editoriais.

A literatura voltada ao público infantil também ganhou espaço com a escritora Jeane Miranda, que levou à feira o livro “Casas de Todo Jeito”, obra que aborda, de forma lúdica e sensível, diferentes concepções de lar, convivência, acolhimento e pertencimento.

BACABAL EM UMA GRANDE VITRINE LITERÁRIA

A presença da Academia Bacabalense de Letras na FeliS insere a produção cultural do município em um ambiente que reúne escritores, editoras, academias, livreiros, pesquisadores, professores, estudantes e leitores de diferentes lugares.

Mais do que comercializar livros, a participação possibilita apresentar ao público a diversidade da produção literária de Bacabal e reafirmar a importância das academias de letras como instituições de preservação da memória, estímulo à leitura e valorização de novos e consagrados escritores.

O espaço da FALMA funciona justamente como ponto de convergência dessas diferentes produções literárias espalhadas pelo Maranhão, aproximando academias e autores de várias regiões do estado.

Presidida pelo escritor César Brito, a Federação das Academias de Letras do Maranhão tem participação ativa na programação da feira, promovendo a integração entre instituições literárias e oferecendo espaço para divulgação de autores maranhenses.

PATRONO DA FEIRA TEM LAÇOS COM A HISTÓRIA LITERÁRIA DO MARANHÃO

Com o tema “O livro na palma, alimento da alma”, a 19ª FeliS presta homenagem a importantes nomes da literatura maranhense.

O patrono desta edição é Humberto de Campos (1886-1934), escritor, jornalista e político maranhense que alcançou projeção nacional e integrou a Academia Brasileira de Letras.

A feira também homenageia Antônio Lobo, figura de destaque na fundação da Academia Maranhense de Letras, e Mata Roma, reconhecido por sua contribuição à literatura, à crítica e à reflexão intelectual sobre o Maranhão.

Um dos momentos especiais no espaço da FALMA foi a visita de Patrícia Campos, neta de Humberto de Campos. Na oportunidade, ela conversou com escritores maranhenses sobre a trajetória e o legado literário do avô, aproximando a história de um dos grandes nomes das letras brasileiras dos autores que atualmente ajudam a manter viva a produção literária no Maranhão.

FEIRA REÚNE GRANDES NOMES DA LITERATURA

A programação da 19ª Feira do Livro de São Luís reúne literatura, cultura, educação, memória e formação de leitores.

Com entrada gratuita, o evento oferece palestras, debates, seminários, oficinas, contações de histórias, apresentações culturais, lançamentos, rodas de conversa e comercialização de livros, atendendo crianças, jovens, estudantes, professores, escritores, pesquisadores e o público em geral.

Entre os convidados desta edição estão nomes reconhecidos nacional e internacionalmente, como Jeferson Tenório, Socorro Acioli, Cristóvão Tezza, Raphael Montes, Eliane Potiguara, Auritha Tabajara, Antônio Carlos Secchin, Geraldo Carneiro, Jorge Caldeira, Salgado Maranhão, Mary Del Priore e José Eduardo Agualusa.

A estrutura da FeliS conta com 40 estandes de livreiros, 11 sebos literários, 81 lançamentos de livros, 17 escritores nacionais e um convidado internacional, além da participação de instituições culturais, editoras, academias, coletivos e diferentes agentes ligados à cadeia produtiva do livro.

Durante dez dias, a Praça Maria Aragão transforma-se em uma verdadeira Cidade do Livro, colocando escritores e leitores frente a frente e fazendo da literatura um espaço de encontro, conhecimento e valorização da identidade cultural maranhense.

“BACABAL BRILHA NA FEIRA”

Para o presidente da Academia Bacabalense de Letras, José Casanova, a participação na FeliS representa um importante passo na divulgação dos escritores e da produção cultural do município.

“Bacabal brilha na Feira do Livro de São Luís”, afirmou o presidente, ao destacar a diversidade e a qualidade das obras apresentadas pela Academia.

José Casanova também agradeceu à Federação das Academias de Letras do Maranhão (FALMA), especialmente ao presidente César Brito, pelo espaço disponibilizado aos escritores bacabalenses.

Segundo o presidente da ABL, iniciativas dessa natureza ampliam as oportunidades para que autores do interior maranhense sejam conhecidos por novos públicos e mostram que a produção literária de qualidade não está restrita aos grandes centros.

A participação da Academia Bacabalense de Letras na 19ª FeliS, portanto, ultrapassa a exposição de livros. É também a presença simbólica de uma cidade que escreve, produz memória e transforma suas experiências em literatura.

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

CRÔNICA DO DIA: A Despedida de Junho



O fim não vem com um estrondo, como as matracas que iniciaram o ciclo, mas com o recolhimento minucioso de cada fita, de cada pena, de cada miçanga. O silêncio que se instala no barracão depois da última apresentação é denso, como se ainda sustentasse a vibração das toadas nas paredes de zinco. Há uma melancolia própria desse momento, um vazio que aperta o peito: a sensação de que o mundo, tão colorido e vibrante durante aquelas semanas, está sendo guardado em caixas de papelão e baús de madeira, como se a própria vida se despisse, por algum tempo, de seu brilho. Dona Zefa observa as bordadeiras dobrarem os veludos com o cuidado de quem embrulha relíquias e, por um instante, a tristeza da despedida paira sobre o terreiro.

As mãos, agora sem a pressão da agulha ou a urgência do tambor, parecem perdidas, como se não soubessem que outro ritmo seguir senão o do boi. O barracão, antes preenchido por risos, gritos de comando, discussões sobre o compasso e o cheiro da comida de festa, devolve agora o som dos passos de quem caminha devagar para a saída. É quando os brincantes voltam a ser pessoas comuns: o vaqueiro retoma a lida bruta do campo; a índia regressa à rotina dos estudos e do trabalho; o miolo retorna ao anonimato dos dias sem fantasia. Ainda assim, o orgulho que permanece em seus olhos é maior que a tristeza do fim. Eles sabem que não apenas cumpriram um calendário. Deram continuidade a um rito de resistência, memória e pertencimento.

Guardar o boi é quase uma liturgia. A estrutura de madeira é desmontada peça por peça, e não há quem toque na armação sem sentir gratidão pelo que ali foi vivido. O boi precisa ser desarmado para que cada brincante possa retomar a própria história. Há reverência no modo como limpam os pandeirões, passam cera nas matracas e organizam os figurinos, protegendo-os das traças e da umidade. Tudo precisa repousar. Quando o próximo ciclo despontar no horizonte — quando maio trouxer novamente o calor e as primeiras brisas secas — cada peça deverá estar pronta para devolver corpo ao sonho.

Na penumbra do galpão, Mestre Benedito permanece sozinho por alguns instantes. Percorre com os olhos o terreiro vazio, onde ainda resta um pouco da poeira levantada pelas últimas danças. É ali, na quietude, que reafirma o pacto. Não se trata de uma despedida definitiva. Algo que nasce da necessidade de expressão e da vontade de pertencer não conhece verdadeiramente o fim. A melancolia talvez seja apenas o preço de se ter vivido algo tão intenso. Mestre Benedito respira o ar ainda carregado de vestígios de incenso, poeira e madeira e sente, com uma certeza que independe de calendário, que alguma coisa foi plantada em cada um dos batalhões.

Uma das jovens índias deixa sobre a mesa uma pequena fita colorida, oferenda silenciosa ao santo que os protegeu em cada estrada percorrida. É também uma promessa para o ano seguinte. Ninguém precisa dizer nada. O pacto está feito. O barracão pode voltar a ser um espaço de silêncio, o terreiro pode voltar a ser apenas terra, mas, nas conversas à porta de casa e nos suspiros de quem recorda o brilho da arena, a história continua. Eles deixam para trás as fantasias, mas levam consigo a alma do boi, guardada nos recantos mais profundos da memória.

Quando Mestre Benedito finalmente apaga a luz do barracão e tranca o portão enferrujado, não está apenas encerrando uma temporada. Está protegendo um tesouro. Lá fora, a escuridão já tomou as ruas, mas, no caminho de casa, ele sente que a luz criada durante aquelas noites ainda permanece acesa por dentro. Junho se despede, e a energia entregue à festa permanece na memória de cada brincante, incorporada àquilo que são.

Enquanto caminha pelas ruas silenciosas da cidade, já devolvida ao ritmo dos dias comuns, Mestre Benedito sabe que o tambor pode ter parado. A promessa, não. Ela continua batendo no peito de quem dançou, bordou, tocou, cantou e carregou o boi. E bastará que o tempo complete sua volta para que as caixas sejam abertas, os veludos respirem outra vez e a primeira matraca rompa o silêncio.

Junho termina.

O boi, não.

José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista
membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade

terça-feira, 15 de setembro de 2026

CRÔNICA DO DIA: O Acaso não Existe

O asfalto mudo de Brasília, com suas curvas largas e monumentais, não parece ter o mesmo hálito que o chão de terra batida de Bacabal, no interior do Maranhão. No entanto, o vento que sopra entre os eixos da capital federal carrega a mesma poeira invisível de mistério que envolve as palmeiras de babaçu. Quando caminhamos pelas ruas de São Luís, os azulejos antigos das fachadas parecem nos observar, guardando histórias de séculos que se entrelaçam aos passos apressados de quem hoje busca apenas o próximo ônibus.

            Muitas vezes, acreditamos piamente que o curso de nossas vidas é fruto exclusivo de escolhas conscientes, de planos traçados em agendas de couro ou em aplicativos de celular. Mas há uma força silenciosa, uma engenharia invisível que opera nos bastidores, rearranjando encontros e desencontros com uma precisão que beira o assustador. Alguns chamam de coincidência; outros, mais prevenidos, preferem chamar de destino.

A verdade é que nada é isolado. Um atraso de cinco minutos na saída para o trabalho em São Paulo, aquele semáforo que demora a abrir na Avenida Paulista, pode ser o responsável por evitar um desastre ou por colocar você diante da pessoa que mudará o rumo da sua carreira. É curioso notar como as cidades, por mais distantes que sejam, se conectam por fios tênues de causalidades humanas.

 Fortaleza, com seu cheiro de maresia e o sol que nunca descansa, abriga vidas que, sem saber, dependem de um evento ocorrido em uma repartição pública de Brasília ou de uma conversa de mesa de bar no Maranhão. O cotidiano é uma teia. Cada gesto, por menor que seja, um olhar trocado na balsa para Alcântara, um pedido de desculpas em um restaurante lotado é uma peça de dominó que, ao cair, reverbera em locais que jamais visitaremos.

Observemos o senhor que vende tapioca na orla. Para ele, o dia é apenas mais uma jornada de trabalho sob o sol. Mas, para a jovem que parou ali por estar com fome após uma entrevista de emprego frustrada, aquele breve diálogo sobre o tempo pode ser o alento necessário para que ela não desista e decida caminhar mais dois quarteirões, onde verá um anúncio de vaga que será o início de sua ascensão profissional. O acaso, se é que ele existe, é um mestre disfarçado de trivialidade. Ele não se apresenta com trombetas ou luzes neon; ele prefere o anonimato das pequenas coisas, o salto que se quebra no momento errado, o guarda-chuva esquecido que obriga alguém a se abrigar sob o mesmo toldo que um desconhecido.

A vida não é uma linha reta, mas um emaranhado de curvas que se cruzam e se afastam conforme uma geometria própria. Muitas vezes, olhamos para trás e tentamos encontrar uma lógica em nossas trajetórias. "Se eu não tivesse pego aquele voo...", pensamos. Ou "se eu não tivesse aceitado aquele convite...". O exercício de imaginar o que poderia ter sido é fascinante, mas ignora o fato de que as peças já estão em movimento.

 Não somos apenas os jogadores; somos também as peças de um tabuleiro vasto demais para a nossa compreensão imediata. O destino se manifesta na capacidade de transformar o improvável em rotina e o extraordinário em uma terça-feira comum em qualquer uma dessas metrópoles brasileiras.

Em Bacabal, o silêncio da noite é diferente do silêncio de Brasília. No Maranhão, o silêncio é preenchido pelo som dos grilos e pelo murmúrio das conversas nas calçadas, onde o tempo parece passar mais devagar, permitindo que as conexões humanas sejam saboreadas com a calma de um café passado na hora. Em São Paulo, o silêncio é uma raridade, um luxo conquistado em fones de ouvido no meio do metrô, onde milhões de destinos se esbarram sem se ver, como átomos em uma reação química prestes a explodir.

No entanto, em ambos os lugares, a mesma regra se aplica: a vida está constantemente conspirando para que as histórias se completem. Um drama que começa no coração do cerrado pode encontrar seu desfecho nas praias do Ceará, impulsionado por uma série de eventos que, vistos individualmente, parecem não ter sentido, mas que, no conjunto, formam um mosaico perfeito.

É preciso ter bom senso para enxergar essas tramas. Não se trata de misticismo barato, mas de uma observação atenta da realidade. Quem nunca sentiu aquele frio na espinha ao perceber que estava no lugar certo, na hora exata, para testemunhar algo que parecia destinado apenas aos seus olhos? Ou aquela sensação de que um estranho cruzou seu caminho apenas para lhe entregar uma palavra que era exatamente o que você precisava ouvir?

 Essas situações são os lembretes de que a autonomia que tanto pregamos é, em parte, uma ilusão necessária para mantermos a sanidade. No fundo, somos todos personagens de uma crônica maior, escrita por uma mão que não conhecemos, mas cujos parágrafos sentimos na pele a cada reviravolta.

Interessante é pensar nas figuras que compõem esse cenário. Imagine uma mulher que caminha com a confiança de quem domina o mundo, os passos marcados pelo ritmo de uma música que só ela ouve, sendo subitamente interrompida por um imprevisto mecânico de sua própria vestimenta. O que parece ser um desastre de percurso, um embaraço público sob os holofotes, pode ser, na verdade, o ponto de inflexão necessário para que ela revele sua verdadeira força. O brilho excessivo muitas vezes cego, e é no momento da falha, da vulnerabilidade, que o destino abre uma fresta para que a essência humana apareça sem filtros. A resiliência não nasce do sucesso contínuo, mas da capacidade de lidar com o salto que falha justamente quando todos estão olhando.

As cidades mencionadas : Bacabal, São Luís, Fortaleza, São Paulo, Brasília  são mais que meros pontos num mapa nesta crônica; elas são organismos vivos que respiram e reagem às nossas passagens. Elas guardam os segredos de crianças que desapareceram em meio ao caos urbano e o silêncio ensurdecedor de políticos que, por um golpe do destino ou uma estranha condição da alma, perderam a capacidade de camuflar a verdade com mentiras convenientes. Cada uma dessas histórias, por mais disparatadas que pareçam, está conectada por esse princípio fundamental: o cotidiano é grávido de significados que raramente paramos para decifrar.

Ao observarmos a vida com esse olhar mais aguçado, passamos a respeitar os imprevistos. O trânsito parado, a chuva súbita que estraga o penteado, o erro de digitação que envia um Pix para o destinatário errado. Em vez de irritação, surge uma curiosidade quase infantil: o que essa nova rota quer me mostrar? Para onde esse desvio está me levando? A sabedoria reside em entender que, enquanto tentamos controlar as marés, o mar já decidiu como nos levar à praia. Às vezes, ele nos joga na areia com violência; outras vezes, nos conduz suavemente em uma espuma morna. De qualquer forma, chegamos exatamente onde deveríamos estar, mesmo que não seja onde havíamos planejado.

O tecido da realidade é feito de fibras resistentes e outras extremamente frágeis. O drama humano é essa constante tentativa de remendar onde rasgou e de celebrar onde a trama é firme. O destino não é um destino final, mas o próprio caminho, cheio de conexões que só fazem sentido quando paramos de lutar contra a correnteza e começamos a observar a beleza do fluxo.

Essa percepção nos torna mais humanos e, paradoxalmente, mais humildes. Ao aceitar que não somos os únicos autores de nossa biografia, passamos a olhar para o outro com mais complacência. Afinal, aquele desconhecido que nos irrita com sua lentidão pode ser apenas o instrumento que nos impede de chegar a um perigo logo adiante. Ou aquela pessoa que nos pede uma informação pode ser o início de um capítulo que ainda não ousamos imaginar. A vida é esse jogo de espelhos e ecos, onde cada som emitido em Bacabal pode retornar como uma melodia em São Paulo, e cada lágrima derramada em Brasília pode encontrar consolo numa manhã ensolarada em Fortaleza.

Estamos todos mergulhados nessa sopa de causalidades. E é justamente quando os ornamentos do dia a dia falham, quando os artifícios da nossa imagem pública são postos à prova pela crueza de um pequeno acidente ou de um grande dilema, que percebemos a engrenagem girando. Um sapato que falha, uma voz que não mente, um rastro que some, tudo faz parte de um mesmo enredo. A partir daqui, cada passo será uma descoberta de como o inesperado tem a chave de todas as portas que julgávamos trancadas. E, ao aceitarmos que cada tropeço pode ser o início de uma nova dança, estamos prontos para enfrentar qualquer avenida sob as luzes da cidade.

 

José Casanova

Professor, Jornalista, Escritor e Crônista

Membro da A cademia Bacabalense de Letras

Academia Mundial de Letras da Humanidade

sábado, 12 de setembro de 2026

CRÔNICA DO DIA: Indepedência ou Master!!!!

Dizem que, às margens do Ipiranga, Dom Pedro puxou a espada e resolveu o problema com uma frase que cabia inteira num quadro de escola: “Independência ou Morte!”. A História gosta dessas cenas arrumadinhas. Um cavalo bonito, o príncipe no centro, meia dúzia de homens levantando chapéu e pronto: nasceu um país. Na vida real provavelmente havia poeira, cansaço, roupa suada, cavalo menos fotogênico e gente sem entender direito o tamanho daquilo.

Mais de duzentos anos depois, o Brasil continua discutindo sua independência. Só mudou o cenário. Não tem riacho do Ipiranga. Tem Brasília. Não tem espada. Tem celular apreendido. E, em vez de “Independência ou Morte”, talvez o grito mais apropriado para estes tempos fosse outro:

Independência ou Master!

O Banco Master era pequeno quando comparado ao tamanho do sistema financeiro brasileiro. O próprio Banco Central informou que o conglomerado representava 0,57% dos ativos do Sistema Financeiro Nacional quando decretou sua liquidação, em novembro de 2025, apontando grave crise de liquidez, comprometimento econômico-financeiro e graves violações às normas do setor. Pequeno no tamanho. Enorme na sombra que deixou.

No primeiro semestre de 2026, o Fundo Garantidor de Créditos já havia desembolsado R$ 40,2 bilhões para 722 mil clientes ligados ao conglomerado Master. É dinheiro demais para tratar o episódio como uma simples história de um banco que fez negócios ruins.

E aí entra Daniel Vorcaro.

Vorcaro talvez venha a ser lembrado menos como banqueiro e mais como uma espécie de personagem que descobriu que, em Brasília, uma boa agenda de contatos pode valer quase tanto quanto um bom balanço. Seu celular virou uma espécie de mapa informal da República.

Ali aparecem políticos, ministros, empresários, advogados, intermediários, viagens, reuniões, mensagens, favores discutidos, contratos e aproximações que atravessam direita, esquerda e centro com uma desenvoltura que faria qualquer ideólogo ficar constrangido.

O Master conseguiu uma façanha tipicamente brasileira: unir adversários.

Não necessariamente no crime é importante dizer isso. Mas na fotografia desconfortável das relações de poder.

Alexandre de Moraes, por exemplo, passou a ocupar o centro de uma crise dentro do próprio Supremo depois da divulgação de mensagens e informações sobre sua relação com Vorcaro. Reportagens apontaram pelo menos seis encontros entre os dois, sendo que os primeiros teriam sido articulados pelo ex-ministro Fábio Faria. Também veio à tona o contrato milionário do Banco Master com o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro. O escritório sustenta que os serviços foram efetivamente prestados, e Moraes afirma que jamais julgou causa envolvendo o banco.

É exatamente aí que começa o problema brasileiro. Nem tudo que é legal parece normal.

E nem tudo que parece estranho é crime. Só que instituições públicas não vivem apenas da legalidade. Vivem também de confiança.

Dias Toffoli conhece bem esse desconforto. Foi o primeiro relator do caso Master no Supremo e deixou a condução do processo em fevereiro. Questionamentos surgiram em torno de negócios envolvendo empresa de sua família e fundos relacionados ao universo do Master. Toffoli afirmou que não conhecia os gestores do fundo e negou amizade ou recebimento de dinheiro de Vorcaro. Depois de sua saída, o processo foi para André Mendonça.

E então a novela ganhou outro capítulo.

Mendonça abriu documentos, manteve outros sob sigilo, entrou em choque com colegas de Supremo e com a Polícia Federal e chegou a determinar o afastamento de Andrei Rodrigues da direção-geral da PF, decisão que acabou entrando no centro de outra batalha institucional. Mendonça sustentou que determinados sigilos eram necessários para preservar investigações; outros ministros passaram a cobrar acesso mais amplo ao conteúdo apreendido.

Andrei Rodrigues, por sua vez, teve o nome citado em mensagens relacionadas ao caso e foi tragado pela guerra entre gabinetes. Até aqui, a simples menção de seu nome em mensagens de terceiros não demonstra, por si só, participação irregular. E essa diferença precisa ser lembrada, principalmente quando o noticiário corre mais rápido que os processos.

Mas a história não termina no Supremo. Longe disso.

Ciro Nogueira aparece num dos capítulos politicamente mais delicados. A Polícia Federal passou a investigar uma proposta apresentada pelo senador que ampliaria a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos. Segundo a investigação, o texto teria sido produzido pelo próprio Banco Master e encaminhado a Ciro, que o apresentou. Mensagens atribuídas a Vorcaro demonstram entusiasmo com a iniciativa. Ciro nega ter praticado conduta inadequada relacionada ao banco.

Antônio Rueda, presidente do União Brasil, também entrou no enredo. Documentos enviados pela Receita à CPI apontaram pagamentos do Master a escritórios ligados a ele. Rueda afirmou ter prestado serviços advocatícios legítimos ao banco. Seu nome também aparece ao lado de Ciro em episódios envolvendo deslocamentos de helicóptero ligados a Vorcaro.

Ibaneis Rocha aparece por outra porta.

O BRB, banco controlado pelo governo do Distrito Federal, tentou comprar parte relevante do Master. Vorcaro declarou à Polícia Federal ter conversado mais de uma vez com Ibaneis sobre a operação. Isso não significa, automaticamente, que o governador tenha cometido irregularidade. Significa, porém, que a discussão sobre o Master deixou de ser apenas bancária há muito tempo. Virou política de Estado, negócio público e problema institucional.

Fábio Faria, ex-ministro de Jair Bolsonaro, surge como personagem de bastidor, apontado em mensagens como articulador dos primeiros contatos entre Vorcaro e Alexandre de Moraes. De novo: apresentar duas pessoas não é crime. Mas, quando as duas pessoas são um banqueiro que depois protagonizaria um escândalo financeiro e um ministro do Supremo, aquilo que parecia apenas networking passa a ser examinado com uma lupa bem maior.

O bolsonarismo, claro não passou ileso.

Flávio Bolsonaro entrou formalmente no radar de uma investigação relacionada ao financiamento do filme Dark Horse, sobre seu pai, Jair Bolsonaro. A apuração conduzida no contexto do caso Master investiga suspeitas envolvendo a origem e a circulação desses recursos. Flávio nega irregularidade e afirma estar tranquilo com a abertura das informações.

Perceba a beleza quase perversa da coisa. Tem ministro indicado por governo de esquerda. Tem ministro indicado por Bolsonaro. Tem dirigente do Centrão. Tem bolsonarista. Tem empresário. Tem governador. Tem ex-ministro. Tem chefe da Polícia Federal. Tem senador. Se alguém ainda estiver procurando uma ideologia para o escândalo, talvez esteja procurando no lugar errado.

O idioma mais falado nesses ambientes nem sempre é esquerda ou direita.Às vezes é acesso. Acesso ao gabinete. Acesso ao telefone. Acesso ao jantar. Acesso ao jatinho. Acesso a quem decide.

E talvez seja justamente aí que nossa velha Independência de 1822 encontre a Independência de 2026. Dom Pedro queria romper a dependência de Portugal. O brasileiro de hoje precisa perguntar se o Estado consegue romper sua dependência das relações pessoais que rondam o poder. Porque independência institucional não significa ministro sem amigos, senador sem empresário conhecido ou governador proibido de conversar com banqueiro. Isso seria infantilidade.

Independência é outra coisa. É conseguir dizer “não” ao amigo quando o interesse público exige. É investigar aliado e adversário com a mesma disposição. É não transformar telefone pessoal em atalho para instituição pública. É não confundir advocacia com influência, influência com amizade, amizade com favor e favor com política de Estado.

Principalmente: independência é fazer tudo isso sem escolher previamente quem será culpado e quem será inocentado. O Brasil já sofreu demais com investigações que começaram pela conclusão.

O caso Master precisa terminar em provas, processos, defesa e julgamento,  não em torcida organizada. Talvez essa seja a parte mais incômoda. Vorcaro pode acabar sendo apenas o personagem que abriu uma janela. E o que apareceu pela janela é maior do que ele.

Apareceu um Brasil em que poder político, sistema financeiro, advocacia, Judiciário e relações privadas circulam muitas vezes pelos mesmos salões. Gente que discursa como inimJiga durante o dia pode acabar dividindo os mesmos interlocutores à noite.

Enquanto isso, do lado de fora desse mundo, existe o brasileiro comum. Esse não pega jatinho. Pega fila. Não manda mensagem para ministro. Manda protocolo. Não conhece presidente de partido. Conhece o gerente do banco, quando consegue falar com ele. Se a aplicação quebra, ele descobre o significado de FGC. Se o salário não chega ao fim do mês, ninguém marca jantar em Brasília para resolver.

É por isso que o caso Master interessa tanto. Não é apenas sobre Daniel Vorcaro. Nem sobre Alexandre de Moraes, Dias Toffoli, André Mendonça, Andrei Rodrigues, Flávio Bolsonaro, Ciro Nogueira, Antônio Rueda, Ibaneis Rocha ou Fábio Faria isoladamente.

É sobre a distância entre quem precisa bater na porta do Estado e quem aparentemente já tem o número do celular.

Em 1822, a pergunta era se continuaríamos dependentes de Portugal. Em 2026, a pergunta ficou mais complicada:

De quem a República precisa declarar independência?

Do dinheiro?

Dos amigos?

Dos partidos?

Dos banqueiros?

Dos próprios ministros?

Do Trump?

Talvez de todos, quando necessário. Porque uma República que só consegue ser independente de seus adversários não é independente. É apenas partidária. E uma Justiça que pesa a mão conforme o nome do investigado deixa de carregar uma balança para carregar uma bandeira.

Por isso, diante de tanta mensagem, contrato, reunião, investigação, helicóptero, gabinete e bilhão circulando por aí, talvez o Brasil esteja novamente diante do seu Ipiranga. Só falta decidir qual será o grito.

Independência ou Master? Ou Indepedência ou morte!

Eu ainda fico com a primeira. Mas independência de verdade. Inclusive dos nossos amigos.

CRÔNICA DO DIA: Defeito de Caráter

Há dias em que a repartição pública parece parada no tempo. E há dias em que o tempo para só para assistir ao absurdo passar pela porta. Na Prefeitura de Babaçulandia, numa manhã dessas, entrou uma mulher branca com uma pasta debaixo do braço e uma certeza na cabeça: alguém ali precisava receber o currículo dela. O problema é que não havia ninguém no setor.

Japi, segurança do prédio, explicou com educação:

— Minha senhora, o pessoal do setor não está agora. Se a senhora quiser, pode deixar comigo que eu entrego.

Era uma solução simples. Civilizada. Quase moderna. Mas a mulher olhou para Japi como quem recebe uma proposta indecente:

— Com você?

Japi olhou para o uniforme. Depois olhou para ela.

— Comigo. – Confirmou Japi

— Mas você é segurança.

— Até onde eu sei.

Ela apertou a pasta sobre o peito

— Não tem ninguém para receber?

— Agora, não.

— Nenhuma mulher?

— Não.

— Nenhum funcionário?

Japi respirou.

— Eu sou funcionário.

Foi aí que a conversa, que até então caminhava normalmente, tropeçou na Idade Média.  A mulher fez cara de quem estava sendo obrigada a resolver um mistério administrativo de alta complexidade. Então perguntou:

— Não tem ninguém branco para me atender?

Pronto. Chegamos. A humanidade inventou satélites, transplantes, inteligência artificial e até air fryer. Mas ainda tem gente travada na atualização básica do século XIX. Japi ficou olhando para ela.

— Desculpe? Não ouvi direito.

— Branco. Não tem ninguém branco aqui pra mim atender? — Insistiu a mulher.

Talvez ela acreditasse que a Prefeitura funcionasse por tonalidade.

Guichê 1: documentos.

Guichê 2: tributos.

Guichê 3: brancos atendendo brancos.

Japi respondeu:

— Minha senhora, se a senhora não quiser deixar comigo, pode voltar depois.

Era a chance perfeita de ir embora. Mas há pessoas que, diante da oportunidade de se calar, entendem como convocação para discurso. Ela disparou:

— Eu não vou deixar meus documentos com negro!

O corredor ficou quieto. Silêncio de repartição pública geralmente significa café. Naquele momento significava vergonha alheia.

Japi continuou:

— A senhora está sendo racista.

Ela respondeu com uma das frases preferidas de todo racista flagrado em pleno expediente:

— Eu não sou racista!

É interessante. Ninguém se declara racista. O racista pode insultar, humilhar, discriminar, comparar uma pessoa negra a um animal e ainda assim considerar “racista” uma palavra muito forte. Ela perdeu o último pedaço de vergonha que ainda carregava.

— Negro! Macaco! – Exclamou a mulher.

O silêncio agora era absoluto. Ela ainda acrescentou outro insulto, tentando diminuir o homem que estava diante dela.

— E viado também!

Japi ficou imóvel. Não porque não tivesse resposta. Tinha dezenas. Algumas poderiam custar-lhe o emprego. Outras poderiam custar-lhe a liberdade. Escolheu a mais difícil.

— A senhora terminou? – Perguntou Japi.

Ela pareceu surpresa.

— O quê?

— Terminou?

— Terminei o quê?

— De mostrar quem a senhora é.

A mulher abriu a boca, mas não respondeu. Japi apontou para a saída:.

— Pode ir. – Disse Japi indicando a porta de saída.

— Você está me expulsando?

— Não. Estou apenas lembrando onde fica a porta.

Ela virou-se furiosa. Antes de sair, ainda gritou:

— Vou reclamar de você!

Japi respondeu:

— Reclame.

Ela ergueu a pasta.

— Você vai perder esse emprego!

— Talvez.

Ele fez uma pequena pausa.

— Mas minha cor eu não perco!

Ele acabara de ser vítima de dois crimes: Racismo e homofobia. Leve dois, pague a dignidade. Japi segurou-se. Quem nunca sofreu esse tipo de agressão talvez pergunte: “Por que ele não respondeu?” Porque, curiosamente, numa situação dessas, a vítima precisa pensar em tudo. No emprego. Na família. Nas testemunhas. Na câmera. Na Justiça. Na própria reação.

O agressor, não. O agressor simplesmente fala. A mulher ainda ameaçou: “ Vou reclamar de você!” Essa parte quase merecia aplauso. Depois de entrar num prédio público, ofender um trabalhador por causa da cor da pele e transformar o corredor numa exposição gratuita de preconceito, ela decidiu que a vítima era o problema.

Ela foi embora. Currículo debaixo do braço. Educação aparentemente esquecida em casa. A denúncia foi feita. O fato chegou ao conhecimento de quem deveria tomar providências. E então entrou em cena uma personagem muito conhecida da vida brasileira: a senhora Burocracia. Aquela que anda devagar. Principalmente quando o problema aconteceu com os outros. Com os mais humildes.

Disseram que iam verificar. Analisar. Apurar. Conversar. Avaliar e outros verbos de primeira conulgação. Talvez até constituir uma comissão para decidir se seria necessário decidir alguma coisa. Enquanto isso, Japi voltou ao trabalho. Porque essa é outra especialidade brasileira. A vítima sofre na terça e bate ponto na quarta.

Dias depois, alguém apareceu com um papel na mão.

— Japi, lembra daquela mulher?

— Qual?

— A do currículo.

Ele riu.

— Infelizmente.

O funcionário explicou:

— O currículo dela acabou chegando ao setor.

Japi arregalou os olhos.

— Como?

— Encontraram depois e encaminharam.

— E aí?

— Analisaram.

— E?

— Chamaram para entrevista.

Japi encostou no balcão.

— Rapaz, esse mundo gosta de piada.

Na mesma manhã, eis que a mulher reapareceu. A pasta. O salto. A cara. Mas a coragem estava uns três números menor. Ela se aproximou. Japi estava no mesmo lugar. Ela olhou para ele. Ele olhou para ela. Silêncio. Dessa vez não perguntou se havia alguém branco disponível. Uma funcionária saiu de uma sala.

— Senhora, pode entrar. É para a vaga da recepção.

A mulher sorriu. Vaga de emprego tem esse efeito democrático. Faz até arrogância esperar ser chamada. Antes de entrar, perguntou:

— E se eu for contratada, quem vai me orientar?

A funcionária respondeu naturalmente:

— Japi.

A mulher congelou.

— Ele?

— Ele. – Confirmo a recepcionista.

— O segurança? O porteiro?

— O funcionário. Ele conhece praticamente tudo aqui.

Japi levantou-se. Olhou para ela. E disse:

— Se precisar, posso ajudar.

Ela não respondeu. Talvez naquele momento tenha descoberto que a vida possui um setor de protocolo próprio. E não adianta reclamar no balcão. Há currículos que contam cursos. Há currículos que contam experiências. Há currículos cheios de certificados. Mas existe uma informação que nenhuma folha de papel consegue esconder por muito tempo: como a pessoa trata quem ela acredita não poder fazer nada por ela.

A mulher foi à Prefeitura tentar entregar um currículo. No fim, quem entregou alguma coisa foi ela. Entregou preconceito. Arrogância. Ignorância. E uma bela demonstração de caráter. Quanto à vaga, não sei dizer se conseguiu. Mas, naquela manhã, uma entrevista já tinha acontecido no corredor. E nela, sem banca examinadora, sem prova escrita e sem direito a recurso, alguém havia sido reprovado.

Não era Japi.

 

José Casanova

Professor, Jornalista, Escritor e Cronista

Membro da Academia Bacabalense de Letras

Academia Mundial de Letras da Humanidade