Na Escola Municipal Poeta Samuel Barreto, em Pedreiras, reunião de pais nunca foi exatamente uma reunião. Era mais parecido com sessão da Câmara, programa de auditório e julgamento de tribunal, tudo ao mesmo tempo. Naquela terça-feira, às seis da tarde, a diretora, dona Marinalva, já estava na porta da sala dos professores segurando uma pasta azul, três folhas de frequência e a pouca paciência que ainda lhe restava.
A
pauta da reunião era simples de explicar e difícil de resolver: havia alunos do
6º e do 7º ano que ainda apresentavam sérias dificuldades de leitura e escrita.
Dona Marinalva pediu silêncio.
—
Boa noite a todos. Chamamos os senhores responsáveis porque precisamos
conversar sobre a aprendizagem dos nossos alunos.
Do
fundo da sala, seu Raimundo, pai de Wescleyson, levantou a mão.
—
Diretora, antes de começar, tem café?
—
Tem ali na mesa. – Respondeu a diretora.
—
Então pode continuar.
A
professora de Português, dona Cláudia, começou a apresentar os dados.
—
Temos estudantes no 6º ano que ainda não conseguem ler pequenos textos com
fluência. Outros têm dificuldade para escrever frases completas.
A
mãe de Juninho, dona Socorro, arregalou os olhos:
—
Mas como assim não sabe ler? Meu menino passa o dia no celular!
A
professora respirou fundo.
—
Justamente, dona Socorro. Ele lê mensagens?
—
Não. Ele manda áudio.
A
coordenadora pedagógica, professora Lúcia, tentou não rir.
— E
quando recebe mensagem escrita?
—
Manda áudio perguntando o que foi que a pessoa escreveu.
Nesse
momento, algumas mães começaram a cochichar. Seu João não conseguiu segurar uma
gaitada. Seu Raimundo resolveu
participar novamente.
— No
meu tempo era diferente. A gente aprendia na base da cartilha, da tabuada e do
medo. – Afirmo Raimundo.
—
Medo de quê? — Perguntou a professora.
— Da
professora com a Palmatória.
Dona
Cláudia ajeitou os óculos.
—
Hoje a educação trabalha com outros princípios.
—
Pois esses princípios tão muito tranquilos .— Respondeu seu Raimundo. — Porque
o Wescleyson não tem medo nem de mim!
Foi
então que entrou dona Creuza, avó de uma aluna do 7º ano. A sala inteira se
virou. Dona Creuza tinha aproximadamente sessenta e muitos anos, embora
afirmasse ter cinquenta e dois desde 2010. Chegou com uma calça tão apertada
que parecia ter sido pintada, uma blusa cheia de brilho, salto alto e um
perfume que entrou na sala uns três segundos antes dela. Atrás vinha dona
Neide, outra avó, usando óculos escuros, apesar de já ser noite. A coordenadora
perguntou:
—
Dona Neide, está tudo bem com seus olhos?
—
Tá, minha filha. É estilo.
As
duas sentaram na primeira fila. Uma mãe comentou baixinho:
—
Rapaz, as avós estão mais periguetes que
as netas.
Dona
Creuza ouviu.
—
Minha filha, envelhecer é obrigatório. Se acabar, não.
Dona
Neide completou:
— Eu
vim pra reunião, não pro velório.
A
diretora bateu a caneta na mesa.
—
Gente, vamos voltar à pauta.
A
professora Cláudia mostrou uma atividade feita pelos alunos.
—
Pedi que eles escrevessem uma pequena redação sobre a família.
Dona
Socorro ficou animada.
—
Juninho falou de mim?
A
professora consultou a folha.
—
Falou.
— O
que ele escreveu? – Quis saber dona Socorro.
A
professora hesitou.
—
“Minha mãe é uma pessoa muito legal.”
Dona
Socorro sorriu.
— Tá
vendo?
— Só
que ele escreveu “minha mãe é uma peçoa muito legau”. – Respondeu a professora
escrevendo a frase no quadro branco.
O
sorriso desapareceu.
— Aí
já é culpa da escola. Foi o suficiente. Começou o temporal.
— A
escola tem que ensinar! — Falou a mãe do Allafy.
—
Professor hoje não quer mais Trabalhar! — Exclamou a vó de Débora.
— No
nosso tempo a gente aprendia! – Afirmou o pai de João Pedro.
—
Meu filho tira nota boa no TikTok! – Disse a mãe de kairon.
— O
meu sabe mexer em celular melhor do que eu!
— Gabou-se a vó de Pedro Henrique.
A
professora Cláudia levantou a voz.
—
Pais, nós estamos ensinando! Mas a educação precisa continuar em casa.
Seu
Raimundo cruzou os braços:
—
Professora, eu trabalho o dia inteiro.
— Eu
também. — Respondeu dona Socorro.
Dona
Creuza levantou a mão.
— Eu
posso ajudar minha neta.
A
professora sorriu.
—
Ótimo, dona Creuza. A senhora costuma ler com ela?
—
Leio.
—
Que tipo de texto?
—
Comentário de Facebook.
A
coordenadora colocou a mão na testa. Dona Creuza continuou:
— E
vou lhe dizer uma coisa: tem comentário que precisa de três professores de
Português e um advogado pra entender.
A
sala caiu na gargalhada. Depois de alguns minutos, a diretora conseguiu
reorganizar a reunião.
—
Vamos procurar soluções. A escola está propondo um projeto de reforço de
leitura e escrita.
A
professora Lúcia apresentou as ideias:
—
Teremos oficinas de leitura, produção de texto, jogos de palavras, biblioteca
itinerante e acompanhamento individual dos alunos com mais dificuldade.
Dona
Neide levantou a mão.
—
Pode botar competição?
—
Como assim?
—
Quem ler mais ganha prêmio.
Seu
Raimundo gostou.
—
Boa! – Exclamou seu Raimundo.
A
professora perguntou:
—
Que tipo de prêmio?
Dona
Neide pensou.
— Um
celular.
—
Dona Neide, estamos tentando justamente diminuir o tempo de tela.
—
Então dê um celular sem internet.
Dona
Creuza deu outra ideia:
—
Podia fazer um grupo de leitura com os pais também.
A
diretora ficou surpresa.
—
Excelente ideia!
—
Mas tem que ser de manhã.
—
Por quê?
—
Porque de noite eu tenho meus compromissos.
Ninguém
perguntou quais eram. A professora Cláudia aproveitou o momento de boa vontade
coletiva.
—
Podemos criar também o “Quinze Minutos de Leitura em Família”. Todos os dias,
pais, mães, avós ou responsáveis leem com as crianças por quinze minutos.
Seu
Raimundo arregalou os olhos.
—
Todo dia?
—
Todo dia.
—
Nem academia exige tanto compromisso.
Dona
Socorro reclamou:
— Lá
em casa só tem Bíblia, conta de energia e manual da geladeira.
—
Pode começar pela Bíblia. — Sugeriu a professora.
— A
conta de energia também é boa. — Disse seu Raimundo. — Quando vem alta, a
pessoa lê umas dez vezes tentando acreditar.
A
reunião começou, finalmente, a produzir alguma coisa. Ficou decidido que a escola
faria reforço duas vezes por semana, os professores enviariam atividades
simples para casa e as famílias participariam de momentos de leitura. Quando
todos já estavam mais calmos, a diretora resolveu encerrar.
—
Antes de irmos embora, quero agradecer a presença de todos. Sei que houve
discussões, mas saímos daqui com propostas importantes.
Nesse
instante, um menino apareceu na porta. Era Juninho.
—
Mãe, bora?
Dona
Socorro estranhou.
—
Menino, como tu sabia que eu tava aqui?
Juninho
mostrou o celular.
— A
escola mandou mensagem.
Dona
Socorro olhou para a tela.
— E
tu leu?
—
Não. Pedi pra inteligência artificial ler pra mim.
A
sala ficou em silêncio. A professora Cláudia fechou os olhos. A diretora sentou
novamente. Seu Raimundo pegou outro copo de café. Dona Creuza ajeitou o cabelo
e perguntou:
—
Essa inteligência artificial dá aula particular?
A
coordenadora respirou fundo.
—
Gente… acho que vamos precisar marcar outra reunião.
Seu
Raimundo levantou-se imediatamente.
—
Tem café?
—
Vai ter. – Respondeu diretora
—
Então eu venho.
E
foi assim que terminou a reunião de pais da Escola Poeta Samuel Barreto:
ninguém saiu sabendo exatamente de quem era a culpa, mas todos saíram sabendo
que, na semana seguinte, começaria o projeto de leitura. E dona Creuza saiu com
uma missão especial.
Na
porta, ela pegou emprestado um livro infantil da biblioteca.
A
professora sorriu.
—
Vai ler com sua neta?
—
Vou.
—
Que ótimo!
Dona
Creuza colocou os óculos escuros, mesmo sendo quase oito da noite.
—
Mas primeiro vou ler sozinha.
—
Por quê?
Ela
olhou para a professora e respondeu:
—
Porque se a menina perguntar o significado de alguma palavra e eu não souber,
perco minha autoridade.
E
saiu pelo corredor desfilando com o livro debaixo do braço, provando que,
naquela escola, quem precisava aprender a ler melhor talvez não fossem apenas
os alunos. Na parede em um quadro grande, a foto de Poeta Samuel Barreto piscou o olho esquerdo e sorriu se
divertindo com a situação.
José
Casanova



















