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quarta-feira, 24 de junho de 2026

CRÔNICA DO DIA: Vaqueiros Campeadores



Não há vaqueiro no mundo, por mais experiente que seja nas lidas do campo aberto, que não sinta o peso do peito ao se aproximar da armação do boi no momento de entrada na arena. O boi não é apenas um adereço de veludo e madeira; é o epicentro de uma fé comunitária que se materializou em miçangas e fitas. E é ali, na guarda de honra, onde o vaqueiro campeador assume seu posto, que a festa deixa de ser entretenimento e se converte em responsabilidade. Eles são os vigias, os escudos vivos entre a reverência do sagrado e a agitação frenética das multidões que se aglomeram nos arraiais da capital ou nas praças das cidades do interior.

Sebastião era um desses homens que pareciam ter nascido com o chapéu de couro já encrostado na testa. Suas mãos, calejadas por décadas lidando com o gado de verdade, possuíam uma delicadeza peculiar ao tocar a armação adornada. Ele sabia que o boi, sob o peso dos seus miolos e a pressão da encenação, era um animal vulnerável.

Naquela noite a multidão ameaçava romper o cordão, os vaqueiros precisaram sair de seus espaços para fazer um cordão de isolamento para que o boi pudesse se apresentar. O Tablado era pequeno para apresentar o campear dos vaqueiros.

O trabalho de Sebastião, ao lado dos outros vaqueiros, era abrir o caminho, suavizar a barreira humana e garantir que o boi pudesse girar, investir e reviver a sua lenda sem ser esmagado pela curiosidade desmedida ou pela falta de jeito de quem assiste.

O movimento dos vaqueiros é uma coreografia de autoridade. Eles não correm e não se apressam; eles marcham. Cada passo é medido, o floreio do punho garantindo que o espaço ao redor da brincadeira permaneça respeitosamente preservado. Eles mantêm os ombros erguidos, uma postura de soldado que protege um tesouro real.

De repente o boi perde a postura, era o miolo passando mal. Sebastião foi o primeiro a perceber

-- O que está acontecendo parceiro? – Perguntou Sebastião ao miolo .

- Tô ruim... – Murmurou o miolo do boi quase a desmaiar.
Os vaqueiros retiram o boi e o Miolo ofegante é socorrido pelos brincantes. A brincadeira não pode falar, índias e outros personagens continuam a dançar. José, o Miolo reserva assume a função e a carcaça de talo de buriti ganha vida novamente.

Quando a música de sotaque de orquestra atinge seu momento de maior brilho, o vaqueiro campeador ergue o seu maracá, não como arma, mas como um cetro que demarca o território do mistério Aquela marcação de limite é o que permite ao miolo do boi perder-se no transe. Se o vaqueiro falha, o boi se perde; se o vaqueiro vacila, o sagrado se desmancha.

Há, contudo, uma intimidade silenciosa nesse cuidado. Muitas vezes, no calor do cortejo, Sebastião precisava sussurrar instruções para dentro da abertura da saia do boi, garantindo que o miolo soubesse se deveria virar à esquerda ou se manter firme diante de um obstáculo na multidão. Não eram palavras de comando, mas de sintonia.

O vaqueiro campeador escuta o boi. Ele entende, pela inclinação da carcaça, o cansaço do homem lá dentro, e compensa isso sustentando, por breves segundos, o peso da estrutura nas próprias mãos, um apoio invisível que a plateia nunca percebe, mas que mantém o folguedo de pé.

Nos dias de cortejo pelas ruas estreitas do centro histórico de São Luís, a missão dos vaqueiros testava o limite da resistência. Sob o sol de fim de tarde que insistia em queimar a pele, eles formavam uma linha de defesa inflexível. O brilho dos canutilhos em seus chapéus e coletes funcionava como um aviso visual: ali passa algo que pertence ao povo, mas que exige deferência.

Eles protegiam o boi da poeira excessiva, dos empurrões desajeitados, e até mesmo do excesso de euforia de quem queria tocar o veludo sagrado a qualquer custo. O cuidado com o boi era um exercício contínuo de diplomacia e firmeza.

Quando o boi, em dado momento da toada, arremetia contra o público, parte integrante do ritual de susto e risada, o vaqueiro estava lá para puxar a rédea simbólica, controlando a fera imaginária antes que a brincadeira virasse acidente. É um balé complexo, onde o vaqueiro precisa ser ao mesmo tempo a rédea que segura e o incentivador que faz o boi avançar.

Eles são a fé que não deixa o boi cair. Sem os vaqueiros, o boi seria apenas uma peça de museu, despida de movimento e sem os guardiões que legitimam sua presença nas ruas.

A última toada desceu sobre o terreiro como uma ave procurando pouso. Aos poucos, a multidão começou a se dispersar, levando consigo fragmentos da festa: um refrão assobiado, o brilho de uma lantejoula, a lembrança de um susto arrancado pelo boi. Sebastião permaneceu onde estava por alguns instantes, observando a armação ser conduzida para os bastidores.

O veludo ainda respirava o calor da dança. As fitas balançavam preguiçosamente na brisa da noite, como se relutassem em aceitar que o espetáculo havia terminado.

Ao redor, as luzes se apagavam uma a uma. Mas os vaqueiros continuavam ali, silenciosos, formando o último cordão de proteção. Não guardavam apenas um boi. Guardavam as histórias dos antigos, as promessas feitas em tempos difíceis, as alegrias que resistiam ano após ano.

Quando finalmente virou as costas para o terreiro, Sebastião percebeu que suas pegadas se misturavam às de seus companheiros na terra úmida. Amanhã o vento as apagaria sem deixar vestígio. Ainda assim, ele sorriu. Havia marcas que o chão não conservava, mas que permaneciam vivas no coração de um povo. E eram justamente essas que os vaqueiros passavam a vida inteira protegendo.

José Casanova
Professor,joranalista, escritor e cronista
Membro da Academia Bcabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade

terça-feira, 23 de junho de 2026

CRÔNICA DO DIA: Dança de Guerreiras

Não há nada mais silenciosamente poderoso do que o som do primeiro passo de uma índia no chão do terreiro. Quando as dezenas de jovens do batalhão se alinham, o ar parece se condensar sob o peso de uma expectativa que atravessa gerações. Elas passam meses ensaiando o movimento do calcanhar, o balanço dos quadris, a elegância do pulsar das mãos que carregam pequenas cestas ou arcos simbólicos. É uma coreografia que não busca a perfeição mecânica, mas a conexão espiritual; cada giro de corpo é uma reverência aos antepassados que caminharam por aquelas mesmas terras, muito antes dos asfaltos e das luzes de néon da cidade.

Janaína, aos dezenove anos, conhecia a coreografia pelo avesso de sua própria alma. Para ela, o treinamento não era um compromisso de agenda; era um tempo de purificação. Enquanto durante o dia lidava com os desafios de um trabalho de telemarketing ou as aulas da universidade, à medida que a noite se aproximava e o horário do ensaio se tornava real, ela sentia uma transformação em seu caminhar.

No terreiro, as outras meninas a olhavam como um guia. Elas formavam um bloco único, um mosaico de rostos, tons de pele e histórias, todas unidas pela mesma missão: serem as guardiãs da beleza e da força feminina na arena.

O segredo do passo das índias está na terra. Elas não dançam sobre o chão; elas dançam com ele. Quando a matraca ou o sotaque de orquestra dita o ritmo, a índia precisa fincar o pé com tal precisão que a poeira suba na altura exata da canela, criando uma aura dourada ao redor de suas pernas adornadas com fitas e miçangas.

É um exercício de resistência muscular disfarçado de leveza poética. Janaína sentia o ácido lático queimar suas coxas após horas de repetição, mas, quando ela olhava para as mais novas, via nelas o mesmo brilho de quem se sabe parte de algo infinito.

— O olhar não pode baixar, pequena. — Ela sussurrava para uma das meninas mais jovens, corrigindo a inclinação de sua cabeça durante o ensaio. — A gente não tá só dançando. A gente tá contando a história de quem foi índia, de quem foi cabocla, de quem foi mulher que teve que ser guerreira pra manter a gente aqui hoje. Se você baixa a cabeça, a história se perde.

— Tenho medo de errar a coreografia amiga. — Respondeu a amiga apreensiva.

— A coreografia somos nós, não temos como errar querida, está gravada na nossa mente. – Disse Janaina na ponta dos pés.

— Ontem tinha uma índia dos contrário falando de nós nas redes sociais. — Informou a colega brincante.

— Esquece isso, não valem a bolha que a gente cria nos pés de tanto ensaiar. O boi está lindo.

A beleza da dança das índias no Bumba-meu-boi no maranhão reside nessa dualidade fascinante: a delicadeza dos ornamentos, as penas coladas, as contas coloridas, o brilho das lantejoulas fundida à rigidez de uma postura que desafia o cansaço. Elas são a ponte entre o passado mítico, o boi sagrado e a plateia que assiste.

O público, muitas vezes seduzido pela grandiosidade do boi ou pelo humor escrachado do Cazumbá, encontra nas índias uma espécie de calmaria vibrante. Quando elas giram, o mundo lá fora parece menos urgente, menos caótico. Não sabe da exaustão física extrema que toma conta dos brincantes.

Nos bastidores, antes de entrarem na arena, o ritual de vestir-se é uma oração coletiva. Elas se ajudam a prender as penas, penteiam umas o cabelo das outras com um cuidado quase maternal, partilham batons e conselhos sobre como sustentar o fôlego por mais dez minutos de toque.

A cada pena fixada e a cada miçanga conferida, cresce o sentimento de que não estão apenas se arrumando para uma festa, mas se paramentando para o exercício da própria identidade. Sob o olhar dos ancestrais, cujas imagens parecem observar de perto o brilho daquelas fitas, cada uma delas se coloca como uma extensão de quem já passou pelo terreiro e, ainda assim, continua dançando.


Quando a orquestra ou o grupo de matracas atinge o clímax e elas entram em cena, não entram como convidadas; entram como donas daquele espaço. O deslizar dos pés segue uma geometria que parece riscar o chão com o desenho da continuidade.

Elas sabem onde pisar porque sentem, na vibração da terra, os passos de suas avós. Se o Bumba-meu-boi é o corpo da tradição, as índias são o movimento desse corpo, o fluido que permite que a engrenagem rode sem engasgos.

No final da noite, quando as luzes dos arraiais começam a enfraquecer e o suor já secou sobre a pele, Janaína sente que o real brilho daquela jornada não estava na lantejoula que reluzia para a plateia. O brilho estava no suor compartilhado, na dor superada, no olhar de cumplicidade trocado entre as guerreiras no meio do giro.

Ali, na arena, sob o céu imenso e indiferente de São Luís, elas brilhavam não para serem vistas, mas para serem sentidas. Eram a prova viva de que a tradição não é um objeto guardado em museu, mas um corpo vivo, que respira, que dança e que encontra na firmeza do passo de uma jovem, a garantia de que as vozes de seus antepassados continuarão ecoando, cada vez mais forte, em cada novo junho que insiste em chegar.

Janaína retira o cocar diante do espelho, vê  refletida a própria felicidade, observa as marcas vermelhas deixadas pelas penas e percebe que aquelas marcas são o preço e a prova de pertencimento.

José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Crônista
Membro da Academia Bcabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade

p.s.: fotos deinternet não conseguir identificar os nomes das indiase dois bois

segunda-feira, 22 de junho de 2026

São João de Bacabal reúne cultura, tradição e fortalece economia local


 A Avenida João Alberto transformou-se em um grande arraial a céu aberto entre os dias 18 e 21 de junho, durante a realização do São João da Nova Bacabal. O evento reuniu milhares de pessoas em quatro noites de intensa programação cultural, valorizando as tradições juninas maranhenses e movimentando a economia local.

O público acompanhou apresentações de grupos folclóricos e culturais que levaram ao palco toda a riqueza das manifestações populares do Maranhão. Entre as atrações estiveram o Boi Barrica, o Boi de Xixá, além das quadrilhas juninas Os Garapas e Os Penetras, que arrancaram aplausos e encantaram os presentes com suas coreografias, figurinos e performances.

Além do espetáculo cultural, o São João também representou uma importante oportunidade de geração de renda para artesãos, comerciantes e vendedores ambulantes. Barracas espalhadas pelo espaço ofereceram comidas e bebidas típicas da temporada junina, atraindo moradores e visitantes que aproveitaram o clima festivo para prestigiar a culinária regional.

Os artesãos também encontraram no evento uma vitrine para expor e comercializar seus produtos, fortalecendo a economia criativa e valorizando o trabalho manual produzido no município e na região.

Entretanto, um dos momentos mais marcantes da programação foi a apresentação do consagrado Mestre Olhinho, do Boi de Santa Fé. Com sua irreverência e carisma, ele conduziu um verdadeiro batalhão de cazumbás, personagens emblemáticos do bumba meu boi maranhense, que despertaram o fascínio do público. Com máscaras coloridas, movimentos imprevisíveis e forte presença cênica, os cazumbás percorreram o arraial interagindo com crianças e adultos, transportando os espectadores para o universo mágico das lendas e tradições populares.

A participação de Mestre Olhinho foi apontada por muitos como um dos grandes destaques do São João deste ano, reafirmando a importância da preservação das manifestações culturais que compõem a identidade do povo maranhense.

O prefeito Roberto Costa acompanhou de perto toda a programação do São João da Nova Bacabal. Durante os quatro dias de festa, o gestor municipal visitou os espaços do evento, conversou com brincantes, artesãos, comerciantes e com a população que compareceu ao arraial, reforçando o compromisso da administração municipal com o fortalecimento da cultura e o incentivo às atividades econômicas ligadas às festividades populares.

Com uma programação diversificada, segurança, organização e grande participação popular, o São João da Nova Bacabal consolidou-se como um dos principais eventos culturais do município, celebrando a tradição junina, fortalecendo a economia local e promovendo momentos de alegria e integração para a comunidade.












domingo, 21 de junho de 2026

CRÔNICA DO DIA: Matracas que Choram


Não existe música que se compare ao sotaque de matraca da Ilha de São Luís. Não se trata de uma melodia que se convida para ouvir, mas de uma força telúrica que se impõe sobre o peito. Quando as centenas de pares de madeira roxa começam a se encontrar, num choque seco, preciso, brutal, o ar se torna denso, físico. É um som que não entra apenas pelos ouvidos; ele caminha pelos poros, sobe pela coluna e encontra o ritmo cardíaco, forçando o sangue a correr na mesma cadência dos batalhões.

Para os moradores da Ilha, o som da matraca é o batimento do próprio coração da terra, o eco que nos une àqueles que, séculos atrás, descobriram que, na falta de metais ou materiais luxuosos, a madeira das matas e o couro dos tambores bastariam para entoar o lamento e a exaltação de um povo inteiro.

No centro da roda, Mestre Nonato no auge dos seus 59 anos, observava os seus com o rigor de um general. À sua volta, nada menos que duzentos brincantes, dispostos em fileiras perfeitas. Eles não eram apenas vizinhos; eram engrenagens de um relógio ancestral.

- Tio, me ajuda a tocar ? – Pediu uma criança de 12 anos com um par de matracas na mão.

Nonato interrompeu a missão e ensinou a criança o ritmo das matracas. O menino erra o compasso.

- Assim filho! – Exemplifica Nonato como um maestro que rege uma orquestra.

O menino retribui com um sorriso baixadeiro. Em poucos segundos o jovem brincante entrava no ritmo e se perdia na multidão.

Neste instante Nonato percebeu que seu primo Raimundo fazia caretas de dor, tentando esconder as bolhas nas mãos. Achou melhor levar Raimundo até as Mutucas para ajudá-lo.

Um copo de mingau ajudou a aliviar a fome antes de começar a cantoria.

Quando a voz do puxador de toadas rasgou o silêncio com o primeiro verso, a resposta não veio em notas musicais, mas no golpe coletivo e ensurdecedor das madeiras. Tá-tá. Tá-tá. Tá-tá. É um som que chora e celebra no mesmo instante, uma ferida aberta que se fecha na palma da mão de quem bate.

A força das matracas é medida pela resiliência. Depois de uma hora de toque ininterrupto, as mãos começam a formigar, o suor corre pelo cabo de madeira tornando a empunhadura escorregadia, e o esforço nos ombros se torna uma queimação persistente. Mas ninguém para.

O sotaque da Ilha exige esse sacrifício porque é, na base, uma memória de resistência. Cada pancada na madeira é um lembrete de que a tradição se mantém não pelo luxo, mas pela repetição exaustiva e sagrada de um gesto que não se permite esquecer. É o choro das matracas que entoa a epopeia de quem não nasceu em berço de ouro, mas que, na arena do Bumba-meu-boi, assume a majestade de reis e rainhas do próprio destino.

As vozes que completam o ritmo são milhares, uma massa sonora que se projeta para além dos telhados e das ruas de asfalto. Quando o batalhão canta em uníssono, o som da matraca serve como o pulsar que impede que a multidão se disperse.

O ritmo frenético cria um vácuo, um centro de gravidade para onde convergem todos os olhares, medos e alegrias daquela gente. É hipnótico. É impossível estar diante de um sotaque de matraca e permanecer indiferente; o corpo convida-se a balançar, a render-se ao compasso que não deixa espaço para o silêncio.

Muitos jovens que crescem nos bairros periféricos de São Luís têm a sua primeira lembrança de mundo ligada a esse som. Antes de aprenderem as primeiras letras na escola, aprendem a bater a matraca na cadência do mestre. É uma escola de vida, onde se aprende que o indivíduo é nada sem o batalhão, e o batalhão é nada sem o ritmo compartilhado.

A matraca ensina a disciplina que a vida nega. Ensina que, para o som sair perfeito, não basta bater forte; é preciso bater junto. No erro de um, desafina-se o todo. Nesse compromisso absoluto com o coletivo, a comunidade se fortalece, criando um laço indissolúvel que garante que, enquanto o som das matracas pairar sobre a Ilha, ninguém estará verdadeiramente sozinho.

À medida que a noite avançava, o som se intensificava em um crescendo épico. O suor de centenas de pessoas levantava do terreiro sob a forma de uma bruma fina que refletia os lampiões de luz fraca. As mãos dos brincantes, calejadas e firmes, pareciam prolongamentos naturais daqueles pedaços de madeira roxa.

Eram mãos que construíam casas, que pescavam nos mangues, que limpavam escritórios e que, durante as noites de junho, transformavam-se em instrumentos de percussão capazes de invocar os ancestrais. O choro da matraca era, na verdade, uma risada de felicidade; era a celebração da própria existência, o grito coletivo de quem sabe que, ao bater daquela forma, está reafirmando sua identidade diante de um mundo que, lá fora, tanto faz questão de ignorar.

Quando o toque final finalmente estalou no ar, um silêncio absoluto e pesado desabou sobre o terreiro. Foi um instante de suspensão, como se a própria Ilha prendesse a respiração em reverência ao que havia acabado de acontecer. Os brincantes, ofegantes, olhavam uns para os outros com a certeza de quem acabara de cumprir um dever sagrado.

Não eram apenas pessoas que haviam passado horas batendo madeira; eram testemunhas da força de um povo que, através de um instrumento tão simples quanto potente, conseguia desafiar o tempo e reafirmar, noite após noite, que o eco de sua história jamais seria silenciado enquanto houvesse alguém disposto a levantar as mãos e fazer a Ilha inteira vibrar sob o pulsar de suas matracas.

José Casanova
Professor, Jornalista, Escrittor e Crônista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade



sábado, 20 de junho de 2026

CRÔNICA DO DIA: O Brilho da Orquestra



Sob as luzes incandescentes do arraial, aquilo não parecia ser apenas uma banda de música; era uma cavalaria de sons, um exército de refinamento que descia sobre a terra batida com a precisão de um ponteiro de relógio. Quando o sotaque de orquestra finalmente soltava as primeiras notas, havia uma mudança imediata na atmosfera. O ar, antes denso pela poeira e pelo suor das figuras folclóricas, parecia ganhar um novo fôlego, tornando-se límpido e cintilante como o latão polido. O som dos metais: saxofones, trombones, clarinetes e trompetes , não apenas ocupava o espaço; ele o esculpia, transformando o terreiro em uma sala de concertos a céu aberto, sob a imensidão estrelada de junho.

Os vaqueiros Campeadores, na frente de toda a estrutura, eram a própria definição de elegância rústica. Com seus chapéus de couro adornados com fitas reluzentes e espelhos recortados que capturavam as luzes do palco, eles não caminhavam; eles desfilavam com uma autoridade que parecia vir do tempo das grandes fazendas coloniais.

Suas roupas, um misto de couro cru e veludo, brilhavam com o suor da dedicação. Entre eles, o vaqueiro campeador erguia o busto, o peito estufado, mantendo uma postura de orgulho que servia de farol para todos os seus companheiros de guarnição. Não era apenas uma exibição de roupas; era a ostentação de uma linhagem, uma herança que eles orgulhosamente entregavam ao público como quem oferece um presente de valor inestimável.

Ao lado deles, os músicos da orquestra faziam o tempo parar. Cada um deles, com seus instrumentos cuidadosamente limpos e brilhando sob o reflexo dos refletores, ditava uma cadência que exigia total rendição da plateia. Não havia o estalo abrupto das matracas aqui, nem o transe caótico do Cazubá; havia harmonia, melodia e uma construção sonora que subia como uma escada para o céu.

O som dos sopros, aveludado e expansivo, envolvia o boi em uma redoma de majestade. Era uma sonoridade que parecia vir de fontes distantes, mesclando o erudito ao popular numa simbiose tão perfeita que, por momentos, o chão de terra esquecia sua própria natureza e parecia mármore sob os passos dos brincantes.

Um dos trombonistas, Inácio, um homem de mãos firmes e cabelos já grisalhos, fechou os olhos ao soltar uma nota longa e profunda que parecia rasgar a noite. Ele sentia, na vibração do instrumento contra seus lábios, o mesmo poder que os tocadores de tambor sentiam na pele do couro.

Era um tipo diferente de transe: menos visceral e mais espiritual, um transporte que permitia ao brincante flutuar sobre o cansaço. Para aqueles músicos, o dever era manter o equilíbrio, garantir que o brilho dos metais refletisse a luz do São João para cada esquina do arraial, levando a melodia a quem estivesse cansado demais para continuar.
A elegância dos vaqueiros campeadores em cena era contrastada pela força descomunal com que pisavam o solo. A cada passo, o tilintar das esporas nos calcanhares fazia o compasso com os metais, criando uma percussão secundária que quase ninguém notava, mas que era o alicerce de toda a musicalidade. Eles eram a fronteira entre a delicadeza da orquestra e a rusticidade do boi. Se a música era o vestido de seda da festa, o vaqueiro era o punho de ferro que a protegia.

Nas barracas de comida ao redor, o burburinho cessava quando os metais de ouro e prata começavam seu chamado. Mestra Janete Valéria regia o odor frito do arroz de cuxá e das tortas de camarão parecia ganhar um novo sabor quando acompanhado por uma melodia tão bem alinhavada. As crianças, paradas na primeira fila, acompanhavam o movimento dos dedos dos instrumentistas como se estivessem vendo mágica acontecer, enquanto os casais de dançarinos ajustavam o passo, ganhando a sutileza que só aquele sotaque podia proporcionar.

À medida que a noite avançava, o brilho dos metais parecia aumentar, como se os instrumentos absorvessem a luz daquelas milhares de pessoas e a devolvessem em forma de som puro. Era um ciclo de energia ininterrupto. Quando o ápice da toada se aproximava, o regente, ou o mestre que ali assumia a batuta, dava um sinal sutil. Os trompetes elevavam-se, o agudo cortando a noite, e o conjunto todo respondia como uma só voz, um coro de metais que anunciava a glória do boi de orquestra.

Naquele momento, todo o esforço de ensaios, todo o investimento nas indumentárias dos brincantes, toda a dedicação para manter os instrumentos impecáveis, ganhava o seu sentido final.

No bolso da calça, Inácio sente o celular vibrar, ele interrompe a própria apresentação e atende uma chamada de vídeo de sua filha cecília, no leito do hospital exibia a cabeça sem cabelos, efeito de uma quimioterapia. Inácio sorrir quase em descompasso[C1] mostrando o restante da orquestra.

Eles não estavam apenas tocando uma música; estavam mantendo viva a própria dignidade de sua cultura, provando a si mesmos e ao mundo que o Maranhão sabia revestir sua alma de couro e veludo com o mais refinado dos metais, tornando a noite de junho um testemunho eterno de brilho e cadência, onde a elegância e a força se encontravam sob o olhar atento da lua, transformando cada compasso em uma promessa de que a tradição, quando bem cuidada, reluz com a própria luz da eternidade.

José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e cronista
Membro da Academia Bcabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade

quarta-feira, 17 de junho de 2026

CRÔNICA DO DIA: A Vida do Miolo

Augusto não via o mundo como as outras pessoas. O mundo, para ele, era uma sequência de frestas horizontais, uma visão recortada de pés, pernas e poeira, filtrada através do pequeno vão cuidadosamente posicionado na saia bordada do boi. Sob a carcaça de madeira e veludo, o ar é um recurso escasso, reciclado incessantemente por um pulmão que arfa sob a pressão de dezoito quilos de estrutura decorada. O suor não é apenas um incômodo; é uma chuva constante e quente que escorre pelas têmporas, arde nos olhos e apaga a visão periférica, exigindo que ele navegue pelo terreiro não pelo que vê, mas pelo que sente vibrar sob a sola de seus pés.

Ser o miolo do boi é uma forma de anacorese absoluta. Dentro daquela cúpula, ele se torna invisível para que a divindade possa ser vista. O boi precisa ser magnífico, ágil, altivo; o homem, por outro lado, precisa ser inexistente. Enquanto o público aplaude a beleza dos bordados e a destreza dos movimentos do animal que gira e investe, Augusto trava uma luta silenciosa contra a gravidade e o desmaio. Ele é a engrenagem que, para funcionar, deve estar escondida na sombra da máquina.

A escuridão interna da armação é densa, temperada pelo cheiro forte do veludo impregnado de suor de anos e pelo perfume das flores que as mulheres costumam pendurar nos chifres do boi. Em noites de apresentação, o boi é o centro do universo, o destino de todos os olhares. Augusto ouve os gritos, os elogios a "quão real" o boi parece, e o riso de quem se assusta quando ele, num movimento súbito e seco, avança em direção à multidão. Cada um desses estímulos chega até ele como algo distante, abafado pelas camadas de tecido que o separam da realidade. Ele não responde por si; ele responde pela carcaça.

Havia um momento específico, quando as matracas entravam em um ritmo quase hipnótico e o pandeirão do Mestre ditava uma cadência mais rápida, em que a exaustão física atingia um platô de quase delírio. Augusto sabia exatamente como usar esse limite.

Era ali que o boi ganhava vida, que ele parava de ser um boneco manejado e passava a possuir uma vontade própria. Ele sentia o peso da estrutura flutuar sobre seus ombros, como se a armação tivesse se fundido ao seu esqueleto. O boi não era mais um adereço; era uma extensão do seu próprio corpo, uma armadura de fé que o protegia, ou talvez o aprisionasse na celebração coletiva.

As dores nas costas eram parte do pacto. Eram como cicatrizes de honra que ele carregava em silêncio. Muitas vezes, ao retirar a armação após horas de apresentação, ele sentia o mundo girar e a gravidade parecer subitamente muito mais cruel, como se seu corpo tivesse esquecido o peso da própria carne sem o suporte protetor do veludo.

No entanto, o que ele sentia ao sair de dentro do breu daquela carcaça não era alívio puramente físico, mas uma melancolia estranha, a sensação de ser pequeno demais para o mundo vasto que o esperava lá fora.

O miolo é, em essência, aquele que sacrifica a própria voz para que a toada do boi possa ser ouvida. Ele não canta, não declama, não faz as caretas do Cazumbá. Ele apenas é. Ele é o centro gravitacional de uma ópera de rua que se sustenta apenas pela força de sua resistência.

Quando ele se ajoelha diante da multidão, a estrutura range sob o esforço, e Augusto sabe que, do lado de fora, aquele gesto é lido como uma demonstração de humildade ou um aviso de ataque. Mal sabem eles que, ali dentro, trata-se de um homem buscando um ângulo seguro para equilibrar o peso, tentando desesperadamente não tombar e acabar com a magia que ele mesmo sustenta.

Nesta noite, o calor estava particularmente insuportável. As luzes das fogueiras do lado de fora lançavam labaredas que desenhavam silhuetas de monstros nas paredes de zinco, e o som dos tambores de sopapo parecia ressoar dentro de seu crânio, ressoando nos ossos como um chamado ancestral.

Ele deu um giro circular, a saia do boi levantando poeira e obrigando o público a recuar. O brilho dos canutilhos sob os olhos de quem admirava era cego, mas o brilho real, o único que importava, era o que ele sentia ao sentir a batida da matraca vibrar não apenas em seus ouvidos, mas no coração da estrutura que ele carregava.

Quando finalmente o cortejo parou e as matracas silenciaram, o silêncio do lado de dentro da armação era um alívio puro. Augusto fechou os olhos por um segundo, o suor escorrendo em rios pelo peito desnudado. Ele ouviu os aplausos e o som das palmas que não eram para ele, mas para a divindade que ele vestia.

E, no fundo da escuridão, com a testa encostada na madeira bruta da estrutura que o mantinha de pé, Augusto esboçou um sorriso. Ninguém veria, ninguém saberia, mas ele sabia. O Boi Curupira era lindo, e ele, o homem escondido, tinha feito tudo isso acontecer, carregando o peso da tradição em suas costas como se fosse pluma, enquanto o coração batia um só ritmo com a alma daquele boi que, enquanto ele estivesse ali, nunca morreria.

JOSÉ CASANOVA
Professor, Jornalista, Escritor e Crônista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade

PROJETO DA CASA DO IDOSO E DEBATES SOBRE INFRAESTRUTURA MARCAM SESSÃO DA CÂMARA DE BACABAL


A Câmara Municipal de Bacabal realizou, na tarde desta quarta-feira (17), mais uma Sessão Ordinária marcada pela apresentação de projetos, indicações e debates sobre demandas da população. Os trabalhos foram conduzidos pela presidente da Casa, vereadora Natália Duda (MDB).

A sessão teve início com a abertura oficial dos trabalhos pela presidente do Legislativo. Em seguida, o vereador Paulo Brandão (PP) realizou a tradicional leitura bíblica. Dando prosseguimento à pauta, a vereadora Patrícia Teles (MDB) fez a leitura da ata da sessão anterior, enquanto o vereador Alberto Sobrinho(PSB) realizou a leitura da Ordem do Dia.

Um dos destaques da sessão foi a apresentação do Projeto de Lei de autoria da vereadora Vanusa das Jade's (MDB), que propõe a criação da Casa do Idoso no município de Bacabal. A matéria foi encaminhada às comissões permanentes da Câmara para análise técnica e jurídica, devendo retornar ao plenário para apreciação e votação dos parlamentares.

A vereadora também apresentou indicação solicitando ao Poder Executivo uma intervenção no Mercado Central de Bacabal, visando melhorias na estrutura e nas condições de funcionamento do espaço. Outra indicação de sua autoria solicita a realização de um mutirão para emissão da Carteira de Identidade, buscando ampliar o acesso da população ao documento.

Durante a sessão, o vereador Jário Lira (PSB) apresentou requerimentos relacionados à realização de concurso público municipal, melhorias no abastecimento de água e reforço da iluminação pública em diversos pontos da cidade.

Os parlamentares também aprovaram uma indicação convidando o superintendente do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), João Marcelo, para comparecer à Câmara Municipal e prestar esclarecimentos sobre o andamento das obras da ponte sobre o Rio Mearim, uma das intervenções mais aguardadas pela nopopulação da região.

Na tribuna, fizeram uso da palavra os vereadores Ivonete Paiva (PSB), Romarinho (União Brasil), Paulo Brandão (PP), Feitosa (União Brasil) e Alberto Sobrinho (PSB). Durante seus pronunciamentos, os parlamentares abordaram temas de interesse público e promoveram o tradicional debate político que marca as sessões legislativas, discutindo ações administrativas, demandas comunitárias e propostas para o desenvolvimento do município.

A sessão reafirmou o papel do Legislativo Municipal como espaço democrático de discussão e encaminhamento de propostas voltadas para a melhoria da qualidade de vida da população bacabalense.









 

terça-feira, 16 de junho de 2026

CRÔNICA DO DIA: Os Mistérios do Cazumbá


 
Zeca não tinha nome quando vestia a cara de madeira, a máscara de careta que projetava um sorriso torto, dentes caninos exagerados e olhos semicerrados em uma ironia infinita. Atrás daquele artefato esculpido, que cheirava a tinta velha e suor curtido, ele não era o zagueiro que a vizinhança conhecia por ser sério, nem o operário que lidava com máquinas pesadas a semana toda. Ao colocar a máscara, o ar ao seu redor mudava de densidade. O Cazumbá não é um homem, é uma entidade que habita a fronteira tênue onde o medo dos vivos encontra o escárnio dos mortos.

A estrutura do corpo era envolta em retalhos de pano colorido, retalhos que pareciam um mosaico de memórias esquecidas, e ao redor da cintura, centenas de chocalhos de latão que, ao caminhar, emitiam um ronco metálico, como se ele estivesse arrastando fantasmas presos por correntes de metal. Zeca começou a movimentar-se à margem da roda principal, mantendo-se sempre nas sombras, perto de onde o fogo das tochas já estava diminuindo. O segredo do Cazumba, ele confidenciou uma vez a um novato que tremia de medo de usar a máscara, é que você não deve dançar para o público; você deve dançar para fazer o público se sentir observado por algo que eles não conseguem compreender.

Ele avançou sobre um grupo de crianças que, por um instante, hesitaram entre a curiosidade e o susto. Zeca não correu; ele deslizou com um gingado trôpego, propositalmente desconcertante. Deu um giro, fazendo os chocalhos da cintura responderem com um estrondo sincopado, e inclinou a máscara para frente. Por trás das frestas, ele observava o mundo. O olho humano é uma janela, mas a máscara do Cazumbá é um espelho. As pessoas, ao verem aquela carranca grotesca, projetavam nela seus próprios demônios e fantasias. O riso ácido que saía de Zeca, um riso rouco, abafado pela madeira, não era uma piada, era uma provocação.

— O que tu faz lá dentro, Zeca? — Alguém perguntou certa vez, entre risos, em uma noite de trégua nos ensaios. — Tu enlouquece ou tu descansa?

— Eu me desconstruo.  — Ele respondeu, com a seriedade de quem conhece um mistério intransponível. — Quando eu visto essa cara que ri de tudo, eu percebo que o mundo todo é uma careta. O Cazumba é o único que tem a coragem de mostrar a verdade: que a gente vive num circo e que a morte está logo ali, dando risada junto com a gente.

O Cazumbá é o anarquista da brincadeira. Enquanto os caboclos de pena mantêm a elegância e os vaqueiros   campeadores ostentam o orgulho, o Cazumbá faz o papel do caos organizado. Ele invade a roda, atrapalha o passo dos outros, faz caretas para as damas de fita e, com seus chocalhos, pontua o compasso das matracas com uma desordem proposital. Zeca amava esse papel. A liberdade de não precisar ser bonito, nem correto, nem digno. Ele podia ser o feio, o assustador, o engraçado, tudo ao mesmo tempo. Era uma liberação absoluta das amarras que a sociedade impunha sobre o corpo dos homens.

Certa noite, em uma encruzilhada de terra batida perto de Rosário, Zeca sentiu o transe pela primeira vez. A máscara não parecia mais uma peça de madeira presa por amarras de pano; parecia sua própria estrutura óssea. Ele andava e o chão respondia. A risada metálica que escapava de sua garganta soava como se viesse debaixo da terra. O medo que emanava do público era um combustível puro. Ele percebeu, então, por que o Cazumbá era a figura que menos se explicava. Não havia explicação. Havia apenas presença.

Ele se aproximou de uma idosa que o observava com um misto de reza e temor. Zeca não a assustou. Ele parou, ajoelhou-se dramaticamente, fazendo os chocalhos tilintarem em um ritmo lento, quase um lamento, e inclinou a máscara para baixo, num gesto de reverência que a plateia achou ter sido uma brincadeira, mas que, para ela, foi uma bênção. Zeca, por trás do sorriso entalhado, sentiu uma lágrima correr pelo contorno da máscara, mas ninguém nunca saberia. O Cazumbá não chora, o Cazumbá é a própria careta da vida que insiste em rir mesmo quando o mundo desaba.

Ao final da noite, quando ele finalmente retirou o artefato, o rosto de Zeca estava marcado pelas sombras da madeira. Ele sentia o peso do mundo real voltando a se instalar sobre seus ombros. A máscara, pousada no chão, parecia sorrir para ele, como se dissesse que, na próxima noite, ele voltaria a ser ela. O mistério não era como ele aguentava o peso dos chocalhos ou o calor daquele tecido fechado. O mistério era como ele conseguia voltar a ser um homem comum depois de ter sido, por algumas horas, o riso sagrado e o medo proibido daquela tradição centenária. Zeca limpou o suor da máscara com o carinho de quem guarda o seu próprio segredo mais profundo, sabendo que, enquanto houvesse um boi e um tambor, ele sempre teria um lugar para rir de tudo o que os outros apenas temiam.

José Casanova
professor , jornalist ,escritor e cronista
membro da Academia Bcabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade

segunda-feira, 15 de junho de 2026

CRÕNICA DO DIA: O Voo do Caboclo de pena


A estrutura do corpo humano parece pequena demais para comportar a vastidão do mundo quando se veste a indumentária de um Caboclo de Pena. Para Raimundo, a preparação não começava com o trajar, mas com um jejum de corpo e intenção que durava a tarde inteira. Dentro do quartinho apertado nos fundos da sede do Boi de Maracanã, o cheiro de ervas e o calor abafado do entardecer maranhense pareciam comprimir o tempo. Ele permanecia de pé, imóvel, enquanto os ajudantes começavam o ritual, que não admitia pressa nem erros: cada pena, cada miçanga, cada fita precisava ocupar o lugar exato que a tradição, imutável por gerações, ditava.

O peso da armação de madeira, revestida por milhares de penas de ganso e de outras aves, era colossal. Quando o chapéu cônico, adornado com fitas que desciam como uma cascata, foi colocado sobre sua cabeça, Raimundo sentiu a mudança. A postura mudou automaticamente. A coluna, habituada a carregar sacos de cimento nos dias de semana, endireitou-se com uma dignidade que emanava não dos músculos, mas da linhagem que ele agora representava. Ele não era mais o Raimundo silente da oficina mecânica; ele era uma entidade, um guardião da floresta transmutado no asfalto quente dos arraiais de São Luís.

— Firme, compadre .— Disse o velho mestre, ajustando o cinto de miçangas em sua cintura. — O caboclo não dança para o público. O caboclo dança para ser reconhecido pelos encantados. Se você tropeçar, eles param de olhar. Se você elevar o pé e bater com a força da verdade, eles te guiam.

Raimundo respirou fundo, o ar entrando filtrado pelas penas que cercavam seu rosto. O ritual de vestimenta era um exercício de despersonalização.

“Sua indumentária é rica, feita 100% de forma artesanal, e pode chegar a pesar entre 15 e 30 kg. Ela é composta por um grande cocar, gola, saiote e adereços para braços e pernas, todos ornamentados com penas (geralmente de ema tingidas)”

À medida que as camadas de penas eram fixadas, a individualidade de Raimundo ia sendo soterrada, dando lugar a uma presença maior. Ele sentia-se como se estivesse vestindo a própria história dos povos que habitaram aquelas terras antes mesmo da cidade ser desenhada. Era uma armadura, sim, mas não para a guerra de homens, era uma armadura para a exaustão da alma, uma estrutura capaz de sustentar o transe.

Quando finalmente cruzou o limiar do barracão para o terreiro, o impacto cultural foi imediato. O batuque do sotaque da matraca, com seus tambores de sopapo ribombando contra as paredes de zinco, fez o chão vibrar. Raimundo não entrou andando; ele entrou em saltos curtos, rítmicos, chicoteando o ar com as mãos, cada movimento uma saudação aos quatro cantos do mundo. O peso das penas, que antes parecia um fardo, agora era o elo que o ancorava ao solo enquanto sua mente, instigada pelos ritmos frenéticos, começava a descolar da realidade.

A dança do caboclo de pena é uma coreografia de resistência. O suor começou a escorrer por baixo da máscara social, ardendo nos olhos da razão, mas Raimundo não tinha permissão para limpar o rosto. O ritual exige que o brincante suporte o calor, a umidade e a dor, transformando esses elementos em combustível. Ele girava, desenhando círculos invisíveis no ar, suas penas tremulando como se estivessem vivas, reagindo a um vento que apenas ele parecia sentir. A cada volta, era como se ele estivesse removendo as camadas densas da vida urbana daquela praça, filtrando a energia bruta que emanava do público e devolvendo-a, transformada em rito, para o ambiente.

Nos arraiais da capital, onde a luz artificial dos palcos por vezes tentava domesticar a tradição, o Caboclo de Pena vinha para lembrar o porquê de tudo aquilo existir. Raimundo saltava com uma leveza que contradizia a massa da sua indumentária. O tambor, presente na memória ancestral, parecia ecoar dentro de seu peito. Ele via o público ao redor, as pessoas paradas, o queixo caído, espectadoras de um voo que acontecia ali mesmo, entre as barracas de comida típica e o burburinho de São Luís.

O peso da tradição, que ele carregava nas costas sob a forma de penas costuradas à mão, não era um peso morto. Era um lastro de memória. Cada brilho de lantejoula no gibão, cada fita de cetim que chicoteava ao sabor do giro, carregava o nome dos antigos, dos antepassados que iniciaram aquela brincadeira quando o mundo era apenas mato e água de igarapé. Raimundo dançava por eles. Ele dançava pela dor da semana, pela esperança do filho que estudava e seria o primeiro da família a ter um diploma de curso superior, pelo orgulho de carregar o nome de sua guarnição.

O ritmo acelerou. Os pandeirões começaram a virar, o som subiu de tom, e Raimundo sentiu que, se desse um passo maior que a terra, ele seria capaz de subir como os pássaros que emprestaram suas penas para aquele momento. A frenesia atingiu o auge; seus pés tocavam o solo e, antes que o calcanhar descansasse, o corpo já reagia para o próximo salto. Ele era um borrão de cores vibrantes sob as luzes frias da cidade.

Quando o toque final cessou, o silêncio que se abateu sobre o terreiro foi ensurdecedor. Raimundo parou de repente, ainda tremendo com a energia que percorria seus nervos. O suor escorria em rios pelo peito, o peito arfava em busca de um oxigênio que as penas pareciam filtrar com dificuldade. Ele estava exausto, fisicamente drenado, mas espiritualmente completo. Ao olhar para os lados, viu apenas os rostos maravilhados dos que assistiam. Para o espectador, a dança tinha acabado. Para Raimundo, a preparação para o próximo voo já começava ali, no peso silencioso das penas que, uma a uma, ele precisaria desamarrar, devolvendo ao traje o descanso que sua própria alma, ainda vibrante, ainda lutava para encontrar.

JOSÉ CASANOVA
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista
Membro da Academia Bacablaene de Letras
Academia Mundial de letras da Humanidade