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sexta-feira, 13 de março de 2026

CRÔNICA DO DIA: Letras Dançantes nas Ruínas

 

O vento que soprava do canal de São Marcos trazia consigo o cheiro de salitre e o eco de séculos de história, mas para a pequena Beatriz, de nove anos, as ruínas de Alcântara não eram apenas pedras mortas. Elas eram labirintos vivos onde ela se sentia segura. Ali, entre as colunas de pedra de cantaria e os portais que emolduravam o céu azul do Maranhão, as coisas faziam sentido. As pedras não mudavam de lugar. Elas não zombavam dela. Elas simplesmente existiam, sólidas e silenciosas.

Diferente das letras.
Sentada em um degrau de pedra desgastada perto da Igreja de Matriz de São Matias, Bia segurava o livro de Língua Portuguesa. Ela olhava para a página com uma mistura de pavor e desafio. Para qualquer colega de sua turma na escola municipal, aquelas eram frases simples sobre a história da cidade. Para Bia, porém, era um baile desgovernado.

— O "b" virou "d" de novo. — Sussurrou ela, apertando os olhos como se pudesse forçar os caracteres a se fixarem no papel.

As letras não ficavam paradas. Elas deslizavam, trocavam de par, giravam sobre o próprio eixo e se escondiam umas atrás das outras. O "p" se fantasiava de "q", e as palavras, que deveriam ser pontes para o conhecimento, tornavam-se armadilhas. Ler uma única linha exigia dela o esforço hercúleo de um maratonista, uma concentração tão exaustiva que, após dez minutos, sua cabeça latejava e a náusea subia pela garganta.

Na escola, o silêncio de Alcântara era substituído pelo ruído cortante do julgamento.

— Vamos lá, Beatriz. É uma palavra de três sílabas. Até o primeiro ano já leu isso. — Dizia o professor, batendo a ponta do lápis na mesa em um ritmo que parecia um martelo batendo em sua têmpora.

Bia sentia o rosto ferver. Ela olhava para a palavra "Palácio". Mas seus olhos viam "Qalaçio", depois "Balácio", e então as letras simplesmente se embaralhavam em um borrão cinzento.

— É... P... Pa... — Ela gaguejava, o coração batendo na base da língua.

— Preguiça! — Gritou um colega do fundo da sala, provocando uma onda de risinhos abafados. — A Bia é inteligente pra ver desenho, mas pra ler é uma lerdeza só.

O professor não corrigiu o colega. Ele apenas suspirou, aquele suspiro longo e carregado de uma paciência falsa que dói mais que uma palmada.

— Tente se esforçar mais, Beatriz. Se você não ler, nunca vai entender a história da sua cidade.

Daquele dia em diante, as ruínas se tornaram o refúgio de sua inteligência incompreendida. Bia fechou o livro com força e olhou para o casarão à sua frente. Suas paredes preservavam os azulejos que haviam resistido ao tempo. Ela se levantou e caminhou até a parede. Com a ponta dos dedos, ela traçou o relevo dos desenhos nos azulejos.

Bia tinha o que os médicos e psicopedagogos chamariam mais tarde de dislexia, mas em Alcântara, naquele momento, ela era apenas a "menina que não sabe ler direito". O que ninguém percebia, contudo, era que Bia lia o mundo de uma forma que ninguém mais conseguia.

Ela identificava a idade de uma ruína pela textura do reboco de óleo de baleia. Ela percebia mudanças sutis na direção do vento que indicavam chuva antes mesmo das nuvens aparecerem sobre a baía. Ela conseguia montar quebra-cabeças complexos de cabeça para baixo e projetar, no chão de terra, mecanismos de polias que facilitariam o transporte de baldes de água. Sua inteligência era tridimensional, visual e profunda. Ela era uma engenheira nata em um mundo que só dava valor a quem decifrava códigos planos no papel.

Sua mãe, Dona Rosa, trabalhava produzindo o famoso Doce de Espécie. Uma tarde, Bia estava na cozinha observando a mãe lutar para medir os ingredientes de uma encomenda grande que precisava de proporções exatas para não desandar.

— Ai, Bia, minha cabeça tá uma confusão com esses números !— Reclamou Dona Rosa, olhando para uma caderneta borrada com anotações de quilos e gramas.

Bia aproximou-se. Ela não olhou para o caderno. Ela olhou para a pilha de coco, para o saco de farinha e para o tacho. Em sua mente, os ingredientes ganharam formas de esferas e cubos coloridos que se encaixavam perfeitamente.

— Mãe, não precisa de cinco medidas. Se a senhora tirar dois dedos desse pote e colocar o dobro daquele ali pequeno de manteiga, vai dar certinho o peso que o moço pediu.

— Como tu sabe, menina?

— Eu vejo o tamanho que eles ocupam no pote, mãe. É como se eu estivesse montando uma parede de pedra. Se colocar essa massa aqui, sobra esse buraquinho ali.

Dona Rosa seguiu o conselho da filha por puro cansaço. O doce saiu perfeito, na medida exata. Naquele momento, a mãe percebeu que a filha não era "atrasada". Ela apenas processava a realidade com outra lógica.

Porém, a barreira do sistema educacional continuava operando sob a lógica da exclusão. Aos olhos da escola, o valor de Bia era medido exclusivamente pela fluência de sua leitura em voz alta.

Certo dia, a escola organizou uma excursão pelas ruínas para uma prova prática de história. O professor levava um guia impresso e exigia que cada aluno lesse um parágrafo diante dos monumentos. Quando chegou a vez de Bia, diante das colunas do Pelourinho, ela travou. O papel em sua mão parecia vibrar. As letras "Pelourinho" pareciam formigas correndo para fora da folha.

— Eu não consigo ...— Disse ela, com os olhos lacrimejando.

O grupo de alunos começou a cochichar. O professor ia começar o sermão costumeiro sobre "falta de dedicação", quando Bia apontou para a base da coluna.

— Mas eu sei o que aconteceu aqui! — Disse ela, a voz subitamente firme. — Eu não consigo ler o que o senhor escreveu no papel, mas eu olhei para as marcas na pedra. Vejam aqui embaixo. Essa marca de ferro não é de enfeite. Foi onde o portal cedeu no grande terremoto de mil setecentos e pouco, e se o senhor olhar a direção desse desgaste, dá para ver que eles tentaram consertar usando pedra de outro lugar, porque o brilho é diferente. E as conchas presas no cimento aqui em cima mostram que essa parte foi feita pela família que morava na rua de baixo, porque o reboco deles é igualzinho ao do casarão que ainda tem telhado.

O silêncio que se seguiu não foi o de zombaria. Foi o silêncio do espanto. O professor baixou o guia. Ele olhou para a base da coluna e depois para a menina que, teoricamente, "não aprendia nada". Ele percebeu que Beatriz havia absorvido toda a história de Alcântara através da observação, da síntese visual e da compreensão espacial, enquanto os outros alunos apenas decoravam parágrafos que esqueceriam na semana seguinte.

Naquela tarde, o professor compreendeu que precisava mudar sua pedagogia. Ele lembrou-se de Paulo Freire, de que o ensinar exige o reconhecimento de que a educação é uma forma de intervenção no mundo. Beatriz já intervinha no mundo; ele é que não sabia ler os sinais que ela emitia.

Ao retornar para casa, Bia sentou-se novamente nas ruínas. Ela abriu o livro, mas desta vez não sentiu o peso da derrota. Ela sabia que precisava aprender a domar aquelas letras dançantes, e sabia que, com o apoio certo, com o Atendimento Educacional Especializado que o professor prometera articular com a direção, ela conseguiria. A dislexia não era um teto, era apenas um tipo diferente de terreno.

Ela olhou para o horizonte de Alcântara, onde o sol se deitava sobre as águas. As letras no livro ainda pareciam querer bailar, mas agora Bia sabia um segredo: o mundo era um livro muito maior. E naquele livro de pedras, ventos e histórias gravadas no azulejo, ela era a melhor leitora de todas.

A verdadeira inclusão começou ali, entre os pilares de uma civilização antiga. Não se tratava apenas de ensinar a menina a ler o papel, mas de ensinar a cidade a le
r a menina. Pois a inteligência, assim como as ruínas de Alcântara, tem muitas camadas, e as mais profundas e resistentes nem sempre estão na superfície que os olhos apressados conseguem ver.

Por José Casanova

Professor, Jornalista, Escritor e Cronista

Membro da Academia Bacabalense de Letras

Academia Mundial de Letras da Humanidade

 

 

quinta-feira, 12 de março de 2026

CRÔNICA DO DIA: A Semântica da Bacaba



Na feira central do mercado da rodoviária de Bacabal, o vento já tinha levantado poeira suficiente para embaçar as vistas, mas Dona Mocinha enxergava com a clareza de quem lê o mundo não por letras, mas por cheiros. Diante dela, em bacias de alumínio amassado, repousava o objeto de sua devoção e sustento: a bacaba. Escura, pequena, quase mineral em sua dureza aparente, a fruta desafiava qualquer descrição simplista. Para um forasteiro, era apenas um coquinho. Para Dona Mocinha, era um tratado de identidade.

Eu me aproximei balcão improvisado de madeira, com meu caderno de anotações em punho, buscando capturar a "essência regional" para uma crônica que a editora no Sul me cobrava. A palavra "regional" sempre me soou pequena, uma gaveta onde se guarda o que não cabe na sala de estar da literatura canonizada. Mas ali, sob o teto de zinco quente da feira, o conceito de centro e periferia parecia se reinverter.

— Bom dia, Dona Mocinha. Como está a venda da... "fruta"? — Perguntei, tropeçando na generalização.

Ela me olhou com a condescendência de quem sabe que a ignorância urbana é uma doença incurável.

— Isso aqui não é fruta, menino. Isso é vinho de terra. — Ela pegou um punhado de bacabas e as deixou cair de volta na bacia. O som foi seco, percussivo. Tluc, tluc, tluc. — Fruta é o que se come e joga o caroço fora. A bacaba a gente bebe, a gente passa no cabelo, a gente acende a lamparina com o azeite. A bacaba é a mãe que não reclama.

Anotei a frase: "A bacaba é a mãe que não reclama."

Parecia poesia, mas era semântica. A definição de Dona Mocinha não estava no dicionário Aurélio. No dicionário, "bacaba" seria descrita como "fruto da bacabeira (Oenocarpus bacaba), palmeira da Amazônia...". Frio. Botânico. Morto. A definição da feirante carregava a carga histórica de gerações que sobreviveram graças àquele óleo denso e nutritivo. A palavra "bacaba", na boca dela, tinha um peso específico maior do que na minha caneta.

— O senhor escreve? — Perguntou ela, apontando com o queixo para o meu caderno.

— Tento. Estou escrevendo sobre a cidade. Sobre o que faz Bacabal ser Bacabal.

— Então para de escrever e toma. — Ela me estendeu um copo americano cheio de um líquido pardo, morno, com uma nata bege boiando na superfície. — Não se escreve sobre o que não se tem na barriga.

Bebi. O gosto era terroso, oleoso, uma mistura de castanha com chocolate amargo e madeira molhada. Não era doce, não era salgado. Era um sabor antigo. Enquanto o líquido descia, grosso, senti que estava ingerindo não apenas calorias, mas uma sintaxe. Aquele gosto explicava o ritmo lento da fala local, a paciência necessária para esperar o fruto amolecer na água morna, a força necessária para quebrar a casca.

A linguagem é moldada pelo que a boca consome. Quem come hambúrguer pensa em inglês rápido, prático, descartável. Quem bebe bacaba pensa em ciclos, em colheita, em preparo demorado. O pensamento discursivo de Bacabal nascia daquela palmeira. As frases ali eram como a bacaba: duras por fora, exigindo trabalho para revelar a polpa, e deixando um residual oleoso na memória.

— O povo diz que a bacaba tá acabando. — Comentou um homem ao meu lado, um caboclo com mãos que pareciam raízes. — As palmeiras tão caindo pra dar lugar pro boi. E quando a bacaba acabar, Bacabal vai ser só "bal". Um som oco. Aliás em Bacabal não tem mais bacaba...

A frase me atingiu como uma pedrada. "Vai ser só 'bal'". A extinção da planta não era apenas um desastre ecológico; era uma catástrofe linguística. Se o objeto desaparece, o substantivo perde o lastro. Vira uma palavra fantasma, assombrando os dicionários sem ter correspondência no mundo real. A identidade de uma região não está nos seus monumentos de concreto, mas naquilo que brota do chão e entra na boca do povo.

Olhei para o copo vazio. O resíduo marrom desenhava mapas nas paredes de vidro. A crônica que eu pretendia escrever, algo folclórico, pitoresco, morreu ali mesmo. Não se pode tratar a bacaba como um adorno regional. Ela é o sujeito da oração. Sem ela, o predicado da cidade desmorona.

A literatura regionalista muitas vezes cai no erro de tentar traduzir o intraduzível, de explicar o sabor da bacaba para quem só conhece uva. Mas a verdadeira função do escritor ali não era traduzir, era testemunhar. Era registrar que aquela palavra, "bacaba", carregava em suas três sílabas abertas o peso de uma civilização que resistia ao avanço do pasto e do esquecimento.

— A senhora acha que a palavra morre antes da planta? —Perguntei, arriscando uma filosofia de feira.

Dona Mocinha riu, mostrando dentes fortes que quebraram muitos caroços.

— A palavra só morre quando a gente esquece o gosto, meu filho. Enquanto tiver uma velha fazendo o vinho e um menino bebendo e ficando com o bigode sujo, a palavra tá viva. O perigo não é o boi. O perigo é o refrigerante.

Ela tinha razão. A ameaça à identidade não vinha apenas da destruição física, mas da substituição simbólica. O refrigerante era a sintaxe globalizada, doce, fácil, gaseificada, que não exigia mastigação nem espera. A bacaba era a resistência do sabor difícil, do preparo manual.

Saí da barraca com o gosto da terra na boca e a certeza de que meu texto precisaria mudar. Eu não podia mais usar adjetivos leves. Precisava encontrar palavras com casca dura, palavras que precisassem ser deixadas de molho para soltar o sentido. A semântica da bacaba exigia um novo tipo de escrita: uma escrita nutritiva, oleosa, que manchasse o papel e sustentasse o leitor por longas horas de fome.

Caminhei pelas ruas de Bacabal sentindo o peso do sol e o peso da história que aquela fruta carregava. A cidade, com seu nome derivado da palmeira, era um monumento vivo àquele caroço pequeno. E eu, com minhas pretensões literárias, era apenas um forasteiro tentando beber de uma fonte que, se eu não fosse cuidadoso, ajudaria a secar com minhas descrições superficiais. Decidi, então, que minha crônica não explicaria o gosto. Ela apenas diria: "Venha e beba. Antes que o boi coma a palmeira e a palavra vire apenas um som."









Poeta Otávio Pinho é eleito para a Academia Bacabalense de Letras


A literatura bacabalense ganhou um novo imortal. Em sessão realizada nesta quinta-feira (12), a Academia Bacabalense de Letras (ABL) elegeu o poeta Otávio Pinho como seu mais novo membro. O escritor foi escolhido após apresentar a obra Eu Comigo Mesmo, livro que recebeu avaliação positiva da comissão responsável pela análise literária da instituição.

De acordo com o parecer da comissão, o livro se destaca pela profundidade poética e pela originalidade estética. A obra foi descrita como uma verdadeira “ópera existencial”, em que o eu lírico se desdobra em reflexões íntimas e conflitos interiores, transformando a introspecção em um espetáculo lírico. Nos versos, o poeta constrói um diálogo consigo mesmo, explorando sentimentos, memórias e inquietações humanas.

A análise crítica também ressalta o caráter introspectivo e iniciático da obra. Segundo os avaliadores, o livro apresenta uma jornada de autoconhecimento em que o sujeito poético percorre caminhos simbólicos que vão do silêncio à palavra, da inquietação à reconciliação interior. Trata-se de uma poesia que investiga a própria condição humana e transforma a experiência individual em expressão universal.

Outro aspecto destacado pela comissão foi a forte relação entre poesia e musicalidade presente nos versos. Em Eu Comigo Mesmo, a escrita de Otávio Pinho se aproxima da linguagem da música, criando ritmo e harmonia na composição dos poemas. Para os avaliadores, o autor atua numa espécie de fronteira criativa entre poesia e música, transformando os versos em uma “partitura sensível” da experiência humana.

A obra também apresenta o que os críticos chamaram de “sertão interior da poesia”, metáfora que simboliza um território íntimo e profundo, onde o poeta enfrenta suas próprias inquietações. Nesse percurso, escrever surge como um ofício quase sagrado, marcado pela introspecção, pela sensibilidade e pela busca de sentido.

No aspecto formal, o livro privilegia o verso livre, opção estética que permite maior liberdade de expressão e aproxima o autor da tradição da poesia moderna brasileira, evocando influências de nomes como Carlos Drummond de Andrade, Ferreira Gullar e Manoel de Barros.

Para a Academia Bacabalense de Letras, a obra representa também um gesto de memória e permanência. Ao registrar reflexões e experiências pessoais, o livro se projeta além do instante, assumindo o papel da poesia como testemunho do tempo e da existência.

A posse de Otávio Pinho está marcada para o próximo dia 24 de março, quando o poeta ocupará a cadeira número 25 da Academia Bacabalense de Letras. O patrono da cadeira é o cantor, compositor, percussionista e escritor maranhense José Ribamar Viana, conhecido artisticamente como Papete.

A eleição reforça o compromisso da instituição em valorizar a produção literária local e reconhecer autores que contribuem para o fortalecimento da cultura e da identidade literária de Bacabal e do Maranhão.

quarta-feira, 11 de março de 2026

CRÔNICA DO DIA: O Batismo de Giz no Leda Tajra


O cheiro inconfundível de extrato de tomate industrial e desinfetante de eucalipto formava a atmosfera pesada do corredor. Aquele odor, impregnado nas paredes descascadas da Escola Leda Tajra, em Bacabal, era o primeiro aviso sensorial de que a academia havia ficado para trás. Não havia teses de mestrado flutuando naquele ar denso e úmido, apenas poeira, ecos de gritos estridentes e a vibração quase imperceptível de trezentos adolescentes confinados em blocos de concreto sob o sol implacável do Maranhão.

Arthur caminhava por esse corredor segurando uma pasta catálogo contra o peito como se fosse um escudo heráldico. Dentro dela, repousava sua obra-prima: doze páginas impressas a laser de um plano de aula milimetricamente arquitetado. Ali, nas páginas em fonte Arial tamanho doze, espacejamento um e meio, não havia espaço para o fracasso. Era um documento perfeito. Havia rubricas de avaliação formativa, propostas de metodologias ativas, um roteiro para sala de aula invertida e citações indiretas a teóricos europeus que, muito provavelmente, jamais haviam pisado em uma sala com quarenta alunos e um ventilador de teto que ameaçava decapitar os mais altos.

Recém-formado, com o diploma ainda exalando o cheiro da tinta da impressora da reitoria, ele acreditava piamente que o mundo poderia ser salvo pelo socioconstrutivismo. Vestia uma camisa social azul-clara, impecavelmente passada, e calçava sapatos de couro que já começavam a apertar seus pés inchados pelo calor.

Dona Cida, a coordenadora pedagógica, o acompanhava a passos lentos e arrastados. Ela era a encapsulação física do esgotamento ocupacional. Seus olhos carregavam a opacidade de quem já havia confiscado mais de mil estilingues e apartado trezentas brigas por causa de figurinhas. Ela não caminhava; ela patrulhava.

― É aqui, professor. ― anunciou Cida, parando diante de uma porta de madeira crivada de marcas de sapato. O barulho que vinha lá de dentro lembrava um estádio de futebol durante uma cobrança de pênalti decisiva. ― Turma oitocentos e dois. Eles são... enérgicos. Não dê as costas para o fundo da sala quando for apagar o quadro. Sobreviva até o sinal.

Ela lhe entregou uma caixa de giz branco, ressecada e meio amassada. Não houve discurso motivacional, nem votos de sucesso profissional. Dona Cida apenas virou as costas e sumiu pelo corredor, retornando ao seu santuário climatizado, onde a máquina de café soluçava gotas negras e amargas de cafeína.

Arthur respirou fundo. Repassou mentalmente o primeiro passo do seu plano estratégico: quebrar a hierarquia espacial da sala de aula. Ele não seria um professor ditador no alto de um palanque pedagógico. Ele seria um mediador do conhecimento, um facilitador. Com a mão ligeiramente trêmula, girou a maçaneta e empurrou a porta.

O impacto de sua entrada foi imediato, mas não pelo respeito à sua figura. Foi o choque do novo. Quarenta pares de olhos se voltaram para ele simultaneamente. Bolinhas de papel molhadas com saliva interromperam suas trajetórias balísticas no meio do ar. Um garoto que estava de pé em cima de uma carteira simulando um solo de guitarra com uma vassoura congelou a pose. O silêncio que se abateu sobre o ambiente não era de subordinação, era investigativo. Eles estavam avaliando a presa. Cheiravam o frescor da teoria pura em sua camisa engomada.

― Bom dia, pessoal! ― Começou Arthur, depositando sua pasta sobre a mesa do professor com uma reverência quase sagrada. Ele sorriu. O seu melhor e mais acolhedor sorriso pedagógico. ― Meu nome é Arthur. Sou o novo professor de vocês. E hoje, nós não vamos ter uma aula.

O silêncio ficou ainda mais denso. Uma mosca solitária zumbia erraticamente perto da lousa apagada pela metade.

― Como assim, não vai ter aula? ― Questionou uma voz esganiçada vinda da terceira fileira. Era um garoto de óculos de armação grossa, com o uniforme rabiscado de caneta azul, formando padrões que lembravam tatuagens tribais.

― Nós vamos ter uma vivência. ― Declarou Arthur, abrindo os braços para enfatizar a grandiosidade do conceito. ― Quero que esqueçam essa organização opressora de enfileiramento militar. Por favor, levantem-se. Vamos colocar as carteiras em um grande círculo. Vamos nos olhar nos olhos para construir o conhecimento de forma horizontal, onde todos têm voz.

Os alunos permaneceram imóveis. Alguns piscaram lentamente. Outros olharam para os lados, buscando confirmar se haviam escutado a mesma insanidade.

O garoto do fundo, que minutos antes tocava guitarra com a vassoura, desceu da carteira com uma calma surpreendente. Ele tinha a expressão de um veterano de guerra de quatorze anos de idade. Caminhou lentamente até a frente, arrastando os pés com chinelos de dedo escondidos sob as meias do fardamento escolar.

― Professor... ― Disse o garoto, franzindo a testa. ― O nome do senhor é Arthur, né?

― Sim, Arthur. E o seu? ― Respondeu o professor, já mentalizando a rubrica de engajamento discente sendo preenchida com sucesso.

― Darlan Caldas. Olha só, professor Arthur... o negócio é o seguinte. ― Darlan coçou a nuca, assumindo o tom de um negociador sindical diante de uma proposta patronal irrealista. ― Para fazer esse círculo aí, a gente vai ter que arrastar essas cadeiras. O pé de ferro da carteira do Maicon tá quebrado. Se arrastar, despenca tudo. Além disso, a Tábata e a Jéssica não se falam desde outubro do ano passado porque a Jéssica curtiu a foto do ex da Tábata. Se elas ficarem de frente uma para a outra no círculo, vai ter sangue no meio da cenela. Sangue e cabelo.

Arthur piscou, tentando processar a complexidade geopolítica do oitavo ano.

― Mas a roda de conversa é essencial para o protagonismo de vocês... ― Tentou argumentar, sentindo a primeira rachadura em seu projeto europeu.

― Eu entendo, professor. Protagonismo. Muito bom. ― Concordou Darlan, balançando a cabeça com uma condescendência que um adolescente jamais deveria ser capaz de expressar para um adulto diplomado. ― Mas a pergunta que não quer calar, a questão central da nossa vivência hoje é: se a gente arrastar as cadeiras e fizer o tal do círculo sem ninguém morrer, o senhor libera a gente dez minutos mais cedo para o recreio?

Um murmúrio de aprovação espalhou-se pela sala. Darlan não era apenas um aluno; era o porta-voz, o diplomata do caos, o primeiro-ministro do desespero letivo.

― Liberar mais cedo? ― Arthur recuou meio passo, instintivamente tocando sua pasta catálogo. ― Nossa aula tem cinquenta minutos, Darlan. Cada minuto é precioso para o letramento crítico de vocês.

Um gemido coletivo de frustração ecoou. A negociação havia falhado. O interesse no círculo horizontal de conhecimento evaporou imediatamente. Os alunos voltaram a se esparramar em suas carteiras. Aquele professor não aceitava suborno temporal; logo, era inútil.

Determinado a não se deixar abater nos primeiros seis minutos da sua carreira, Arthur decidiu pular a etapa do arranjo espacial e investir na dinâmica de tempestade de ideias. Caminhou até a lousa verde, pegou o bastão de giz de calcário e, com uma caligrafia arredondada e caprichada, escreveu a palavra-chave no centro: CIDADANIA.

Virou-se para a turma, com o peito estufado, sentindo o pó branco impregnar as pontas de seus dedos.

― O que vem à mente de vocês quando leem esta palavra? Não existem respostas erradas, pessoal. Tudo é válido no processo de construção semântica.

As mãos não se levantaram. Os olhares estavam perdidos. Dois alunos na fileira da janela faziam uma complexa troca comercial envolvendo um pacote de biscoitos recheados moídos e uma caneta esferográfica de quatro cores.

Finalmente, um menino franzino, sentado bem na frente da mesa do professor, ergueu a mão timidamente. Ele tinha o olhar distante de quem habitava dimensões paralelas durante o horário comercial e só descia à Terra por acidente. Seu nome, Arthur descobriria depois no diário de classe do Leda Tajra, era Maicon. O filósofo do nada.

― Sim? Diga, meu jovem. ― Encorajou Arthur, sorrindo e estendendo a mão espalmada para o garoto, como manda o manual da escuta ativa.

― Professor... ― Maicon olhou fixamente para o giz na mão de Arthur. ― Se o sol engolir a Terra amanhã de tarde, as notas do boletim ainda vão contar para a recuperação final?

Arthur congelou. Procurou desesperadamente em sua memória, revirando gavetas mentais das aulas de didática, psicologia da educação, fundamentos de sociologia. Nenhum autor, em nenhum simpósio internacional, o alertou sobre o niilismo cósmico do aluno brasileiro do ensino fundamental.

― Maicon, isso é... bem... isso é astrofísica. E um tanto catastrofista. Nossa matéria hoje foca nas relações sociais. O que aconteceria com os direitos civis se o mundo acabasse? ― Arthur tentou, num esforço colossal, amarrar o absurdo à sua aba de currículo.

― E tem gente que faz prova na recuperação sendo que o mundo nem acabou ainda, professor. ― Resmungou uma garota do fundo, pintando as unhas com corretivo líquido branco de forma metódica.

Aquela sala de aula não precisava de metodologias ativas. Aquela sala de aula operava em um estado de sobrevivência cínica, onde o conteúdo pragmático não importava, e o tempo era a única moeda real. O professor não era visto como um portador da luz do saber, mas como um guarda de trânsito em uma estrada engarrafada e infinita, de quem eles queriam apenas descobrir o percurso mais curto para escapar dali.

Nos quarenta minutos seguintes, Arthur experimentou todas as fases do luto profissional. A princípio, a negação: tentou distribuir post-its coloridos para a tempestade de ideias. Em menos de três minutos, os post-its amarelos haviam sido colados nas costas de colegas distraídos com mensagens impublicáveis numa crônica, metodicamente transformando a ferramenta pedagógica em instrumento de bullying socioconstrutivista.

Depois, veio a raiva disfarçada de autoridade. Tentou aumentar o volume da voz para competir com o ventilador de teto, que parecia estar moendo pedras em seu interior metálico. O suor já não era discreto. Minava de sua testa, escorria pelo pescoço, ensopava as axilas da camisa azul outrora impecável. Ele andava de um lado para o outro, discursando fervorosamente sobre direitos e deveres, enquanto Darlan, com um relógio digital gigantesco no pulso, balbuciava a contagem regressiva com os lábios, olhando para ele.

Por fim, a barganha.

Dez minutos antes do sinal, Arthur sentou-se na beirada de sua mesa. A camisa estava manchada de pó de giz verde, misturado ao suor, resultando numa pasta cinzenta espalhada por seus cotovelos e barriga. O plano de aula, esquecido dentro da pasta catálogo, agora parecia um antigo pergaminho de uma religião morta que já não fazia sentido naquele local profano.

― Certo... ― A voz de Arthur saiu mais baixa, sem o timbre aveludado da falsa segurança acadêmica. Era a voz de um homem derrotado pela termodinâmica e pela antropologia adolescente. ― Se vocês ficarem em absoluto silêncio durante três minutos cronometrados... sem respirar tão alto, sem balançar os pés de ferro das carteiras, e guardarem esse corretivo... eu lidero a saída pro recreio cinco minutos antes.

Darlan sorriu um sorriso tão afiado de malícia que pareceu rasgar o horizonte. Ele ergueu a mão direita, fazendo um sinal universal de pacificação para a turma. Num milagre imediato, incomparável com qualquer metodologia ativa que Paulo Freire ou Piaget pudessem documentar, a turma oitocentos e dois mergulhou no mais profundo, respeitoso e absoluto silêncio. Um silêncio comprado, comercial, puro e simples.

Quando a sirene rasgou o ar, soando como o último trompete do apocalipse na velha escola, os quarenta alunos se ergueram simultaneamente e desapareceram pela porta em um fluxo contínuo e violento, deixando para trás um rastro de carteiras fora do lugar, farelos enigmáticos de salgadinho e um Arthur esgotado, segurando um pedaço de giz que já estava pela metade.

Arthur caminhou até o pátio interno e procurou a sala dos professores. Abriu a porta do refúgio, e uma nuvem de ar condicionado bateu em seu rosto como um afago divino, misturada ao aroma inegavelmente anestésico do café requentado em garrafões de plástico.

O ambiente interno operava como um hospital de campanha. Ao redor de uma longa mesa oval com forro de plástico imitando renda, espalhavam-se mestres de expressões variadas. Alguns corrigiam provas com a velocidade de caixas de supermercado; outros olhavam fixamente para o nada, travando diálogos invisíveis; e alguns simplesmente riam. Um riso baixo e cínico, o riso funcional de quem desenvolveu uma defesa coletiva contra o absurdo.

No canto da sala de professores, o veterano Professor Ribamar, mestre da disciplina de Geografia e de sobrevivência, segurava sua caneca térmica. Ribamar tinha os cabelos brancos penteados para trás e vestia uma camisa de botão envelhecida pelo tempo, mas limpa de giz. Ele sabia onde não encostar. Ele olhou para Arthur dos pés à cabeça. Reparou na sujeira esbranquiçada no terno improvisado, reparou nos olhos arregalados de choque adrenalínico.

― Deixa eu adivinhar... ― A voz de Ribamar soava grossa, raspando como lixa. ― Oitocentos e dois. E você tentou fazer dinâmica de roda.

Dois outros professores que corrigiam pilhas de folhas de almaço começaram a rir baixinho. Mas não era um riso cruel. Era o riso de acolhimento. A risada da fraternidade dos lascados, a identificação imediata do caos do magistério.

Arthur caminhou lentamente até a mesa, encostou a pasta catálogo perfeita e inútil perto do garrafão de café, e deixou os braços pesarem junto ao corpo.

― Eu só queria mudar o paradigma espacial, professor Ribamar ― murmurou Arthur, servindo-se do líquido escuro e fumegante num copinho plástico que derretia levemente com o calor.

― Rapaz, paradigma espacial aqui a gente muda quando chove e o teto da sala pinga em cima da mesa do aluno. Aí a gente afasta a carteira para não molhar o diário. Fora isso, de frente para a lousa e encostado na parede para não tomar bolinhada por trás ― Ribamar deu um gole largo em sua caneca. ― Você acha que eles se importam com a sua teoria, menino? O instinto humano, em seu estado mais primata e selvagem dentro de um prédio escolar, quer apenas duas coisas: energia processada em formato de lanche de graça, e a diminuição do tempo dentro da instituição disciplinar. O resto é ilusão do MEC.

O conselho professoral na mesa soltou mais alguns murmúrios de concordância. Uma senhora com óculos encostados na ponta do nariz e que ensinava História levantou os olhos de sua pilha de provas.

― Não se preocupe, meu filho. O seu primeiro milagre não é ensinar tudo. O seu primeiro milagre é o aluno Maicon não ter te perguntado se você já fez contato com alienígenas durante a chamada. Porque comigo, ele perguntou ontem. É um batismo. A gente entra achando que é o jardineiro semeando flores, e descobre que é o guarda do zoológico de portas abertas.

As risadas ecoaram pela sala abafada, ruidosas, genuínas, desprovidas de qualquer intenção heroica. Eram apenas trabalhadores em uma linha de montagem emocional desgastante, encontrando alívio cômico nas frestas de suas próprias tragédias cotidianas. Arthur bebeu o café amargo, que desceu queimando o estômago e finalmente acordando seu senso de realidade. Olhou para as palmas de suas próprias mãos, cravejadas nas ranhuras digitais pelo pó calcário, a marca registrada da classe. A prova material de que ele agora não era mais um acadêmico utópico; era um de operação tática.

Passou o olhar ao redor, observando os rostos cansados, os diários amontoados, canetas mordidas pela ansiedade. E enquanto bebia as últimas gotas, sua visão focou na parede de azulejos pálidos atrás da garrafa de café, preenchida de fita adesiva amarelada e comunicados antigos. Apenas um item recebia reverência unânime ali, limpo e bem posicionado no centro visual de todos os presentes, sem a poeira que acometia todo o resto do colégio.

Era a folha solta de papel couché brilhante ostentando a grelha de dias e semanas. Cada olhar exausto que se erguia de uma correção penosa de provas fatalmente ancorava, por pura instabilidade mental, naquele quadrante cheio de quadradinhos pretos e raros e preciosos retalhos vermelhos. Lentamente, como quem decifra um mapa do tesouro capaz de interromper o sufocamento crônico do ruído dos ventiladores e do pó esmagador das lousas, Arthur flagrou a si mesmo memorizando as datas destacadas, entendendo o porquê de os olhares dos veteranos estarem fixos lá, buscando oxigênio nos números da matemática temporal. Ali repousava a verdadeira âncora de sanidade do educador brasileiro contemporâneo.

Por José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Conista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade



terça-feira, 10 de março de 2026

CRÔNICA DO DIA: O Som que Escapa em Chapadinha

O mercado municipal de Chapadinha é um organismo vivo, pulsante e barulhento, onde o cheiro do coentro fresco se mistura ao lodo das bancas de peixe e ao aroma adocicado da batata-doce assada. Para a maioria, é o lugar das compras de sábado; para mim, Samuel, é um campo de provas de resistência mental. Caminhar por esses corredores estreitos exige de mim um cálculo de engenharia emocional que ninguém ao redor suspeita existir.

Eu tenho trinta e quatro anos e a Síndrome de Tourette.

Antes mesmo de cruzar o portal de entrada do mercado, sinto a pressão subir pela base do crânio. É como uma coceira na alma, um acúmulo de eletricidade estática que precisa ser descarregado. Meus ombros dão um solavanco para cima, um movimento brusco e involuntário que faz a sacola de lona em meu braço balançar.

— Tudo bem aí, Samuel? — Perguntou o seu Zé, que vende farinha de puba logo na entrada.

Eu sorri, ou tentei, mas meu rosto foi sequestrado por uma careta rápida, um piscar de olhos sucessivo e um estalo com a língua que ecoou contra o paladar.

— Tudo certo, seu Zé. Só o calor! — Respondi, forçando a voz a soar o mais neutra possível.

Mentira. O calor de Chapadinha, embora impiedoso, era o menor dos meus problemas. O problema era o "tique", essa entidade autônoma que habita meu sistema nervoso e que decide, sem me consultar, que agora é a hora de emitir um som gutural, um “humm-humm” seco, seguido de um movimento de pescoço que parece tentar alinhar uma vértebra invisível.

Avancei pelo corredor das verduras. Chapadinha é uma cidade onde todo mundo se conhece, o que é uma faca de dois gumes. Por um lado, muitos já sabem quem sou; por outro, a familiaridade não impede o desconforto alheio. O mercado estava lotado. O som das facas batendo no cepo de madeira do açougue, os gritos dos feirantes anunciando o preço do maxixe e o rádio de pilha sintonizado em uma rádio local criavam uma poluição sonora que agia como combustível para o meu Tourette.

De repente, a tensão acumulada rompeu a represa.

— BIP! — O som escapou da minha garganta, agudo e súbito, como um alarme de carro disparado por acidente.

Uma senhora que escolhia tomates dois metros à frente deu um pulo de susto, derrubando um fruto maduro no chão. Ela se virou com uma expressão de pânico que rapidamente se transformou em indignação.

— Mas que falta de educação é essa, rapaz? Tá querendo assustar os outros? — Ela bradou, limpando as mãos no avental.

Eu senti o suor frio escorrer. O Tourette não é apenas o movimento; é o pós-movimento, o peso do olhar de quem nos rotula como loucos, drogados ou simplesmente mal-educados.

— Desculpe, senhora. É um tique. Eu não consigo controlar. — Expliquei, mas enquanto falava, meu braço direito disparou para o lado, um movimento semicircular que quase atingiu uma pilha de laranjas.

A roda de curiosos formou-se em segundos. É o "efeito espetáculo" das feiras do interior. As pessoas param de negociar o preço do feijão para analisar a "anormalidade" alheia. Ouvi risinhos abafados de dois rapazes perto da banca de temperos.

— Tá possuído, é? — Um deles comentou, alto o suficiente para eu ouvir.

A raiva borbulhou, mas aprendi cedo que a raiva só alimenta o ciclo de tiques. O estresse é o melhor amigo da síndrome. Quanto mais eu tentava suprimir os movimentos para parecer "normal", mais eles ganhavam força, como uma mola sendo comprimida ao limite.

— Não estou possuído. — Respondi, olhando diretamente para o rapaz. — Tenho uma condição neurológica chamada Síndrome de Tourette. Meu cérebro envia sinais errados para os meus músculos. É como um soluço, só que no corpo todo e na voz. Se o senhor tivesse uma perna quebrada, eu não riria do seu gesso. Por que ri do meu cérebro?

O rapaz desviou o olhar, subitamente interessado nos molhos de pimenta malagueta. A senhora dos tomates, percebendo a seriedade da minha voz, suavizou a expressão, embora ainda mantivesse uma distância de segurança.

A Lei Brasileira de Inclusão, a LBI, diz textualmente que a deficiência é o resultado da interação entre impedimentos de natureza física ou mental e as barreiras que a sociedade impõe. Naquele momento, no coração de Chapadinha, a deficiência não era o meu tique; era a barreira da ignorância daquelas pessoas.

Continuei minhas compras. Eu precisava de carne de sol e queijo coalho. No açougue, o barulho era ainda maior. O som do motor da serra de fita me causava uma vibração interna insuportável. Meus tiques vocais tornaram-se mais frequentes, uma sequência de estalos de língua e assobios curtos.

O açougueiro, um homem robusto chamado Raimundo, me atendeu com a naturalidade de quem entende que o mundo é feito de muitas formas. Ele não me encarava, não desviava o olhar com pena, nem fazia perguntas idiotas. Ele simplesmente pesava a carne.

— O de sempre, Samuel? — Perguntou ele, a lâmina deslizando com precisão.

— O de sempre, Raimundo. Obrigado por... você sabe.

— Sei de nada, rapaz. Carne é carne, cliente é cliente. Cada um com seu balanço.

Agradeci mentalmente por Raimundo. Em ambientes como o mercado, pessoas como ele são ilhas de sanidade. No entanto, ao sair do açougue, o Tourette me pregou uma peça mais pesada. Um tique motor complexo me fez inclinar o corpo e tocar o chão com a ponta dos dedos, repetidamente, três vezes. Para quem olhava de fora, parecia um ritual obsessivo, ou talvez um surto psicótico.

Um segurança do mercado aproximou-se com o rádio na mão, a postura tensa.

— Algum problema aqui, senhor? Está passando mal ou está fazendo graça?

Respirei fundo, tentando ignorar a vontade de emitir outro som agudo.

— Sou uma pessoa com deficiência, amigo. Está aqui meu laudo médico na carteira, se o senhor quiser ver. Estou apenas fazendo minhas compras e lidando com os sintomas do meu transtorno. O senhor está preparado para dar assistência ou está aqui para me constranger?

O segurança recuou um passo, a mão saindo do rádio. Ele murmurou um pedido de desculpas genérico e se afastou. A verdade é que a Síndrome de Tourette é um dos diagnósticos mais incompreendidos pela cultura popular, frequentemente reduzida a "falar palavrões", a coprolalia, que afeta apenas uma minoria dos pacientes. Para nós, a maioria, o Tourette é essa luta física contra o próprio corpo, esse cansaço muscular após um dia de movimentos involuntários, e o desgaste social de ter que se explicar em cada esquina de Chapadinha.

Saindo do mercado, as sacolas pesadas ajudaram a ancorar meus braços. O peso físico, por vezes, oferece um alívio proprioceptivo que acalma os tiques motores. Caminhei em direção à Praça do Viva, onde o vento soprava com mais liberdade.

Muitos pensam que a solução para pessoas como eu é o isolamento. "Fique em casa, Samuel, assim você não passa vergonha", dizia um tio meu há anos. Mas o isolamento é a morte da cidadania. O mercado de Chapadinha é meu por direito, tanto quanto de qualquer outra pessoa. O som que escapa da minha garganta é a prova de que a vida não é silenciosa, nem simétrica, nem previsível.

Sentei-me em um banco para descansar antes da caminhada final até casa. Meu pescoço doía. O esforço para suprimir os tiques diante do segurança e na banca de verduras tinha um preço físico: uma tensão na cervical que parecia um nó cego.

Olhei para a movimentação da cidade. Carros, motos, pessoas gritando, buzinas. Tudo ali era atípico se analisado de perto. Chapadinha é uma colcha de retalhos de ruídos e movimentos. Por que, então, o meu som e o meu movimento eram os únicos que precisavam de explicação?

A inclusão real não acontece quando o mundo fica em silêncio para não me incomodar. Ela acontece quando eu posso fazer o meu barulho, ter o meu espasmo, e a senhora dos tomates continua escolhendo seus frutos sem me tratar como uma aberração. A inclusão é o reconhecimento da nossa humanidade em meio ao caos produtivo do cotidiano.

Levantei-me, as sacolas de lona batendo contra minhas coxas. O trajeto de volta seria longo, e eu sabia que ainda emitiria muitos assobios e faria muitas caretas antes de chegar ao meu portão. Mas eu não baixaria a cabeça.

O Tourette é uma parte de quem sou, mas não define a extensão da minha coragem. Enquanto caminhava, emitindo um tique vocal rítmico que lembrava o canto de um pássaro assustado, percebi que o meu som, embora fugisse ao meu controle, era também um grito de presença. Eu estava ali. Eu ocupava o espaço. E Chapadinha teria que aprender a ouvir a música estranha e sincopada que o meu cérebro insistia em reger.

A luta por dignidade e pelo fim do capacitismo nos mercados, nas praças e nas repartições públicas não é uma luta silenciosa. No meu caso, ela tem estalos, assobios e movimentos bruscos. E é justamente através dessa coreografia involuntária que eu afirmo a minha existência e exijo o meu lugar à mesa ou, no caso, à bancada de farinha do seu Zé. O julgamento dos outros é um ruído de fundo que, com o tempo, aprendi a ignorar, concentrando-me na única sinfonia que realmente importa: a de caminhar com a cabeça erguida, sendo exatamente quem sou.

Por José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da  Humanidade



segunda-feira, 9 de março de 2026

CRÔNICADO DIA: O Eco dos Azuleijos



Tomás veio de Santos, onde o horizonte é cortado por guindastes e o mar tem cheiro de óleo diesel e sal grosso. Lá, a poesia é concreta, feita de areia dura e prédios que arranham o céu com geometria pragmática. Mas ali, no Centro Histórico de São Luís, a arquitetura não abrigava apenas pessoas; abrigava uma sintaxe antiga que ele desconhecia. O calor úmido da ilha não o fazia suar água, mas sim adjetivos.

Ele caminhava pela Rua do Giz, arrastando a mão pelas fachadas dos casarões coloniais. A cerâmica fria sob seus dedos não era lisa. Os azulejos, trazidos de uma Europa distante séculos atrás, possuíam relevos, pequenas imperfeições que, para um leitor atento, pareciam braile. Tomás buscava uma inspiração virgem, uma frase que nunca tivesse sido dita sobre aquela cidade magnética, mas São Luís era uma câmara de ecos.

Parou diante de um sobrado revestido por azulejos azuis e amarelos, com padrões florais que se repetiam numa métrica obsessiva: A-B-A-B, A-B-A-B. Era um soneto visual. Ele abriu seu caderno de anotações, a caneta pairando sobre a folha branca, ansiosa para capturar a "essência" do lugar. Escreveu: "A luz reflete na parede..."

Antes que pudesse terminar a oração, teve a sensação física de que alguém soprava em seu ouvido. Não era vento. Era uma correção. A frase em sua mente mudou, involuntariamente, para "O lume reverbera na faiança..."

Tomás sacudiu a cabeça, atordoado. Riscou a linha. Tentou de novo, buscando sua voz moderna, santista, direta. "O sol bate forte."

O sussurro voltou, emanando das juntas de argamassa podre entre os azulejos: "O astro fustiga a pedra..."

Ele recuou um passo, tropeçando no calçamento irregular de paralelepípedos. A cidade não lhe permitia escrever. A "Atenas Brasileira" não era apenas um apelido ufanista; era uma maldição. O ar estava tão saturado de literatura, tão denso de versos declamados por fantasmas de séculos passados, que não havia espaço para o novo. Cada esquina já havia sido descrita por Aluísio Azevedo; cada palmeira já pertencera a Gonçalves Dias; cada ironia já fora gasta por Odorico Mendes.

Sentou-se no meio-fio, derrotado pela própria erudição do reboco. O que é a inspiração, afinal? Tomás sempre acreditara que o escritor era um deus criador, tirando mundos do nada. Mas ali, cercado por aquelas paredes que funcionavam como espelhos acústicos do tempo, a verdade era mais humilde: o escritor não cria, ele apenas escuta. E o problema de escutar em São Luís é que as vozes são muitas e falam um português que não existe mais na boca do povo, mas que persiste na alma da pedra.

Um gato magro passou por ele, roçando em sua perna, e miou. Até o miado parecia ter uma cadência alexandrina.

Tomás olhou novamente para os azulejos. Percebeu que o padrão não era apenas decorativo. Era uma grade. A repetição dos desenhos impunha um ritmo, uma rima visual que condicionava o pensamento. Quem vive cercado por rimas visuais não consegue pensar em prosa livre. A cidade te obrigava a rimar, a buscar a consoante perfeita, a cair na armadilha da forma.

— Está ouvindo eles? — Perguntou uma voz rouca.

Tomás levantou os olhos. Um homem velho, vendendo picolés de frutas que Tomás não sabia nomear, parara o carrinho ao seu lado.

— Ouvindo quem?

— As palavras... — Disse o velho, chupando um picolé roxo que tingia sua língua. — Essas paredes aqui, moço, elas não seguram só o teto. Elas seguram a conversa de quem já morreu. O azulejo é feito de barro cozido, e o barro tem memória. Quando esquenta com esse sol de meio-dia, a memória vaza.

Tomás sorriu, um sorriso amarelo como os detalhes da fachada à frente.

— Eu estou tentando escrever, mas parece que estou apenas psicografando. Tudo o que penso já foi escrito melhor por alguém que morou nesta casa há duzentos anos.

— E por que o senhor quer ser o primeiro? — O velho empurrou o carrinho, fazendo as rodas de metal gritarem contra a pedra. — Ninguém inventa a água, moço. A gente só bebe dela. O eco não é defeito do som. É a prova de que a parede existe.

O vendedor se afastou, deixando Tomás com a frase flutuando no ar quente. "O eco é a prova de que a parede existe."

A angústia da influência, aquele medo paralisante de não ser original, começou a se dissolver. Ele olhou para o caderno riscado. A autoria não era um ato solitário de invenção, mas um coro. Se as paredes sussurravam verbos arcaicos, o papel dele não era silenciá-los, mas convida-los para dançar com suas gírias de Santos. A literatura não nascia no vácuo; ela nascia no ricochete.

Levantou-se e tocou o azulejo novamente. Estava quente, quase febril. Desta vez, não tentou impor sua voz sobre a pedra. Fechou os olhos e deixou que o vocabulário da cidade invadisse sua mente: arruinado, solene, maresia, azinhavre. Palavras pesadas, úmidas.

Abriu o caderno e escreveu, sem brigar com a história:

"Os verbos esquecidos dormem na cerâmica, esperando que o calor da tarde os faça evaporar. Eu não escrevo; eu suo a história dos outros."

Não era um poema épico. Não era um romance revolucionário. Mas era verdadeiro. Tomás percebeu que a originalidade em São Luís não estava em ignorar o passado, mas em saber harmonizar o próprio grito com o sussurro constante daquelas fachadas. A inspiração não vinha de dentro, como uma fonte mágica; ela vinha de fora, batendo, refletindo, voltando. Ele era apenas mais uma superfície onde o som da cidade batia antes de seguir viagem.

Guardou a caneta no bolso, sentindo-se mais leve. O peso da tradição, que antes parecia esmagá-lo, agora o sustentava. O eco dos azulejos não era uma prisão, era uma base. E sobre essa base, feita de barro cozido e verbos antigos, ele finalmente poderia começar a construir, tijolo por tijolo, palavra por palavra, a sua própria ruína ou o seu próprio palácio.

Por José Casanova
Professor,Jornalista, Escritor e Cronista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de  Letras da Humanidade

domingo, 8 de março de 2026

CRÔNICA DO DIA: Ritmos da Ilha e Mentes Inquietas



Quando os primeiros raios de sol de São Luís atravessaram a janela do quarto no bairro da Cohama, atingindo o rosto de Mateus Ribeiro, sua mente já estava em rotação máxima há pelo menos duas horas. Ele não acordara com o sol; ele simplesmente nunca havia desligado o motor. Enquanto a cidade despertava sob o manto de umidade característica da Ilha do Amor, Mateus tentava, pela quarta vez consecutiva, organizar os livros de Antropologia na estante, apenas para ser sequestrado pela visão de uma pequena rachadura no gesso do teto que, jura ele, tinha o formato exato do contorno da costa maranhense.

— Concentra, Mateus. O trabalho de campo não vai se escrever sozinho. — Murmurou para as paredes, embora soubesse que sua voz era apenas um ruído a mais na orquestra de pensamentos que aceleravam em seu lobo frontal.

Mateus era um estudante de Ciências Sociais da UFMA, um jovem de vinte e dois anos cujos olhos castanhos brilhavam com uma curiosidade elétrica, típica de quem possui o Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH). Para ele, a capital maranhense não era apenas um cenário geográfico; era um estímulo sensorial ininterrupto. O problema não era a falta de atenção, como muitos professores insistiam em anotar em seus boletins desde a infância na rede pública. O problema era o excesso dela. Ele prestava atenção em tudo: no ritmo do bumba-meu-boi que ecoava de ensaios distantes, no padrão das ondas do mar na Ponta d'Areia, na temperatura exata do café que esquecera sobre a mesa e, principalmente, na tese complexa sobre as matrizes africanas que precisava entregar em dois dias.

Ele pegou sua mochila, enchendo-a de canetas de quatro cores diferentes, três cadernos (um para a faculdade, um para desenhos e outro para ideias aleatórias que surgiam como flashes de magnésio) e saiu de casa. O trajeto até o Centro Histórico, onde planejava observar a dinâmica dos casarões para seu trabalho, era um desafio de navegação mental.

No terminal de integração da Cohama, o caos era uma sinfonia. Mateus sentia cada empurrão, ouvia cada conversa paralela e, por um momento, ficou paralisado diante de um cartaz de um show de reggae que seria no final de semana. Reggae. Jamaica. Radiolas. Frequências baixas. Como o som viaja na água? Em questão de segundos, ele já não estava mais no terminal; sua mente navegava por artigos científicos sobre acústica que lera três meses atrás em um surto de interesse por engenharia de som.

— Ei, rapaz! Vai subir ou vai ficar aí namorando o poste? — o motorista do ônibus gritou, despertando-o do transe.

Mateus subiu apressado, sentindo o rosto queimar. Sentou-se perto da janela e pegou o caderno. Tentou escrever sobre o trabalho de antropologia, mas o ritmo do motor do ônibus, um tantan-tantan metálico e persistente, o lembrou da batida do tambor de crioula. Ele começou a desenhar o padrão rítmico nas margens do papel. Suas mãos não paravam: uma perna balançava freneticamente, enquanto os dedos da mão esquerda batiam no banco à sua frente.

— Você está bem, mano? — Perguntou um outro jovem sentado ao lado, estranhando a agitação.

— Sim, sim. Só estou... — Mateus buscou a palavra. — Processando. Tem muita coisa acontecendo aqui dentro hoje.

O rapaz deu de ombros e voltou para o celular. Mateus sentiu aquela pontada familiar de isolamento. As pessoas achavam que ele era impaciente ou ansioso, mas a verdade é que ele estava apenas tentando não se afogar em si mesmo. Para um jovem neurodivergente em São Luís, a cidade oferece o melhor e o pior dos mundos: a efervescência cultural que alimenta a criatividade e o caos urbano que estraçalha a organização executiva.

Ao descer na Praia Grande, a arquitetura colonial o abraçou. Os azulejos portugueses, com seus padrões geométricos repetitivos, eram um oásis para seu hiperfoco. Ele podia passar horas analisando a simetria de um único casarão na Rua do Giz. E foi exatamente o que aconteceu.

Ele se sentou no meio da escadaria, ignorando os turistas e os vendedores de artesanato. O sol batia nos azulejos azuis e brancos, criando reflexos que dançavam diante de seus olhos. De repente, a tese de antropologia que parecia um fardo pesado de manhã começou a se conectar. Ele não via apenas pedras e cal; ele via a história das mãos que assentaram aqueles blocos, via a resistência negra infiltrada nas frestas do barro, sentia a pulsação do porto que outrora fora o coração da província.

Suas canetas coloridas começaram a voar pelo papel. O que seria um texto acadêmico rígido transformou-se em um mapa mental vibrante. Ele desenhava fluxos de poder, setas que ligavam a música de hoje ao sofrimento de séculos atrás, rimas que explicavam conceitos de sociologia urbana. O hiperfoco, aquele estado de graça doloroso e magnífico, o havia capturado. Durante três horas, Mateus não sentiu sede, não percebeu o calor sufocante e nem ouviu as notificações insistentes em seu celular.

A mente inquietante, que o fazia perder as chaves de casa e esquecer o nome das pessoas dois segundos após as apresentações, agora era um laser de alta precisão. Naquele momento, o TDAH não era um déficit; era uma superpotência de síntese criativa.

Porém, como toda maré em São Luís, o refluxo era inevitável.

Quando o sol começou a baixar, tingindo o Rio Anil de laranja e carmim, Mateus sentiu o cansaço mental desabar sobre seus ombros como um manto de chumbo. A adrenalina do hiperfoco evaporara, deixando-o com uma dor de cabeça latente e uma desorientação espacial momentânea. Ele olhou para o caderno. Tinha trinta páginas de anotações brilhantes, mas o resumo que o professor exigia para aquela tarde ainda não estava formatado.

Ele se levantou, sentindo as pernas dormentes. Precisava comer, precisava de silêncio, mas São Luís àquela hora se preparava para a noite. O som de uma radiola de reggae começou a brotar de um bar próximo, as vibrações graves fazendo o chão tremer levemente.

Mateus caminhou até uma lanchonete e pediu um suco de acerola. Enquanto esperava, tirou da mochila um pequeno objeto de metal, um fidget spinner desgastado que ele usava para canalizar a energia cinética. Girar o objeto o ajudava a fixar o pensamento no presente, a não deixar a mente voar de volta para as frestas dos azulejos ou para as batidas do tambor.

— Você é o Mateus, lá da UFMA, né? — Uma moça de óculos e cabelos cacheados sentou-se na mesa ao lado. — Te vi lá na escadaria. Você parecia estar em outra dimensão, escrevendo sem parar.

— É... — Ele sorriu sem jeito, escondendo o brinquedo de metal sob a palma da mão. — Às vezes eu entro nessas "outras dimensões". É o meu jeito de funcionar.

— Eu vi um pouco do que você estava rascunhando. Aquela conexão entre a urbanização da Ilha e os toques de terreiro... aquilo é genial. Você devia mandar para o congresso de estudantes.

Mateus sentiu um alívio genuíno. O reconhecimento de que sua mente inquieta produzia valor, e não apenas confusão, era o melhor remédio que ele poderia receber.

— O problema é organizar tudo isso antes do prazo. — Admitiu ele. — Minha cabeça é como essa cidade em dia de festa de São Pedro: muita cor, muita gente falando ao mesmo tempo, muita alegria, mas um trânsito impossível de organizar.

A moça riu, uma risada leve que parecia harmonizar com o vento da orla.

— Mas olha, Mateus, a beleza da gente aqui na Ilha é justamente essa mistura. Se a gente fosse todo mundo arrumadinho e silencioso, São Luís seria apenas um museu de pedra morta. A gente precisa dessa sua agitação para manter as coisas vivas.

Ele terminou o suco, sentindo a energia retornar devagar. Ele sabia que a noite seria longa, que teria que lutar contra a procrastinação para transcrever aqueles rascunhos fascinantes para o computador, e que provavelmente perderia o ônibus de volta por se distrair com a lua refletida no mar. Mas ali, sob o céu da capital que acolhia poetas e loucos com a mesma generosidade, Mateus aceitou que sua mente era, de fato, um ritmo próprio.

Ele não precisava ser o metrônomo perfeito que o sistema acadêmico esperava; ele poderia ser o improviso sincopado de um solo de saxofone no Reviver. A dificuldade de concentração permaneceria lá, o esquecimento das coisas triviais continuaria a persegui-lo, mas a capacidade de ver beleza onde os outros viam apenas azulejos velhos era o seu lugar no mundo.

Mateus guardou seus cadernos, fechando o zíper da mochila com um senso de propósito renovado. Ele atravessou a rua, esquivando-se do trânsito intenso da volta para casa, mas desta vez não se sentia sobrecarregado. Ele apenas sorriu. Enquanto as luzes dos postes se acendiam uma a uma, pontilhando a orla de São Luís como estrelas terrestres, ele percebeu que a sua pressa interna não era um erro de fabricação. Era apenas a sua maneira de acompanhar a rotação acelerada de um planeta que ele, em seus melhores dias, conseguia entender como ninguém mais.

A luta por espaço, por direitos e por compreensão educacional ainda seria uma constante em sua vida acadêmica. Ele ainda teria que explicar muitas vezes por que não conseguia ficar parado ou por que precisava de fones de ouvido para ler um texto simples na biblioteca. Contudo, naquela tarde, o mar de São Luís lhe ensinara que é possível ser imenso e turbulento ao mesmo tempo, e que a verdadeira inclusão começa quando paramos de tentar acalmar a tempestade e aprendemos, enfim, a navegar nela.

A agitação não cessaria ao chegar em casa, nem as letras parariam de flutuar diante de seus olhos pregando peças de atenção. Ele sabia que o roteiro da sua vida seria escrito em saltos, em hiperfocos e em recomeços. E ao olhar uma última vez para os casarões antes de entrar no ônibus, Mateus compreendeu que seu direito à neurodivergência era, antes de tudo, o direito de ser essa mente inquieta que faz a Ilha pulsar em ritmos que só ele era capaz de traduzir em cores e rimas.

Esta crônica é dedicado ao escritor Matheus Soares da Academia  Bacabalense de Letras 

Por José Casanova
Professor,Jornalista, Escritor e Cronista
Membro da Academia Bacbalense de letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade