A UNEGRO APOIA O BLOG DIÁRIO DO MEARIM

PONHA AQUI A PROPAGANDA DE SUA EMPRESA

Roberto Costa é eleito presidente da FAMEM para o biênio 2025/2026

FAMEN coloca Bacabal e Roberto Costa em evidência

Flamengo pode ter mudança diante do Bangu em São Luís

Técnico Cléber do Santos pode apostar em trio de ataque nesta noite no Castelão.

Sessão Solene na Câmara Municipal de Bacabal Celebra o Dia Internacional da Mulher

Vereadoras Nathália Duda e Regilda Santos conduzem Sessão Solene

quinta-feira, 30 de julho de 2026

Roberto Costa entrega Capela da Esperança, primeiro espaço público e gratuito para velórios de Bacabal

A Prefeitura de Bacabal entregou, na terça-feira (28), a Capela Mortuária Municipal da Esperança, o primeiro espaço público e totalmente gratuito do município destinado à realização de velórios e ao acolhimento das famílias durante a despedida de seus entes queridos. A obra representa um importante avanço na política de assistência social da gestão municipal, oferecendo um ambiente digno, seguro, acessível e humanizado para a população.

Localizada no Bairro da Esperança, a capela foi projetada para atender famílias de todas as religiões e condições sociais, garantindo um espaço apropriado para a vivência do luto com respeito, conforto e acolhimento.

A cerimônia de inauguração foi marcada por um ato ecumênico que reuniu representantes da Igreja Católica, igrejas evangélicas e religiões de matriz africana, simbolizando o caráter inclusivo do novo equipamento público. Durante o momento de oração e bênção, lideranças religiosas destacaram a importância da iniciativa para toda a comunidade.

Representando as religiões de matriz africana, Flaviane Freire ressaltou o impacto social da obra para famílias que, muitas vezes, enfrentam dificuldades financeiras para realizar uma despedida digna.

“Vou falar olhando para o nosso povo de terreiro, que muitas vezes não tem um local adequado nem condições de arcar com as despesas de uma despedida. Esse espaço representa acolhimento para todos. Quando o prefeito tem essa iniciativa e abraça toda a população, sem distinção, isso é muito importante para nós”, afirmou.

O vice-presidente da Igreja Evangélica Assembleia de Deus de Bacabal, pastor Antônio Valbert, destacou que a estrutura oferece dignidade às famílias em um dos momentos mais delicados da vida.

“Um ambiente como este, com essa estrutura, é muito importante para as famílias que passam pela dor da perda de um ente querido. É louvável a iniciativa do poder público em garantir esse acolhimento, oferecendo um espaço digno e preparado para esse momento.”

Já o diretor da Capela, padre Lauro Henrique, enfatizou o caráter inédito do equipamento no município.

“O prefeito Roberto Costa presenteia a cidade de Bacabal com um espaço que nunca existiu em nosso município. Agora teremos um ambiente acolhedor, sereno e digno para velar nossos entes queridos, independentemente da condição social ou do credo religioso. É mais uma demonstração da sensibilidade da gestão municipal com as pessoas.”

O bispo da Diocese de Bacabal, Dom Armando Martín Gutiérrez, também destacou a relevância humana da iniciativa.

“Saber que haverá um lugar onde a família poderá se reunir para prestar a última homenagem à pessoa querida, manifestar sua dor, alimentar a esperança e encontrar consolo é um gesto de profunda humanidade. Sou grato ao prefeito Roberto Costa, à gestão municipal e a Deus por esta iniciativa, que certamente levará conforto a muitas famílias.”

A Capela Mortuária Municipal da Esperança foi construída exclusivamente para a realização de velórios e conta com quatro salas de velório, recepção, área de circulação, sala administrativa, copa equipada e banheiros adaptados para pessoas com deficiência, assegurando acessibilidade, conforto, higiene e melhores condições de atendimento.

Durante a entrega, o prefeito Roberto Costa destacou que a obra atende a uma demanda histórica da população bacabalense e reforça o compromisso da administração municipal com políticas públicas voltadas ao cuidado com as pessoas.

“Hoje entregamos um equipamento público que tem uma importância social, humana e espiritual muito grande para nossa cidade. A Capela Mortuária da Esperança foi construída para oferecer conforto às famílias no momento mais difícil, que é a despedida de um ente querido. Este será um espaço de todos, independentemente da religião ou da condição financeira. Um ambiente preparado para acolher a população quando ela mais precisar”, afirmou.

Com a inauguração da Capela Mortuária Municipal da Esperança, Bacabal passa a contar, pela primeira vez, com um espaço público e gratuito dedicado exclusivamente aos velórios, consolidando um importante investimento da gestão municipal na promoção da dignidade, da inclusão e do acolhimento às famílias em um dos momentos mais sensíveis da vida.

quarta-feira, 29 de julho de 2026

Bacabal se destaca como referência em Educação Especial


A Prefeitura de Bacabal deu início, na terça-feira (28), à segunda edição do Simpósio de Educação Especial, considerado um dos maiores eventos voltados à Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva do Maranhão. Realizado no Espaço Catedral de Santa Teresinha, o encontro reúne mediadores escolares, professores do Atendimento Educacional Especializado (AEE), intérpretes de Libras, revisores Braille e demais profissionais da rede municipal de ensino em uma extensa programação de formação continuada, troca de experiências e aperfeiçoamento das práticas pedagógicas inclusivas.

Com o tema "Inclusão que Transforma a Aprendizagem", a solenidade de abertura contou com a presença de centenas de profissionais da educação, gestores, familiares de estudantes e convidados. A programação foi marcada por apresentações culturais do grupo de dança da APAE de Bacabal e do Projeto Movemente, além da palestra magna ministrada pelo psicólogo, palestrante e criador de conteúdo Wallace de Lira, referência nas áreas de Autismo, Psicologia e Saúde Mental.
Durante sua palestra, Wallace de Lira elogiou o compromisso da gestão municipal com a educação inclusiva e destacou a importância da formação permanente dos profissionais da educação.

"Estou vendo um público muito grande aqui, e isso mostra a importância que Bacabal tem dado à educação inclusiva. O prefeito, a Secretaria de Educação e todos os envolvidos estão de parabéns por promoverem iniciativas que fortalecem a inclusão", afirmou.
A participação das famílias também marcou o primeiro dia do simpósio. Representando as mães atípicas, Uerly Sousa ressaltou que a qualificação dos profissionais reflete diretamente na segurança e no desenvolvimento dos estudantes público-alvo da Educação Especial.

"Fui convidada para participar deste momento pela representatividade das famílias atípicas 

e fico muito feliz. Sempre defendemos a importância da capacitação dos profissionais. É muito importante para o professor e também para nós, mães, saber que quem acompanha nossos filhos é um profissional preparado, qualificado e capacitado para atender às necessidades de cada criança", destacou.
Para o coordenador da Educação Especial do município, Renato Silva, o evento consolida Bacabal como referência estadual na formação dos profissionais que atuam na educação inclusiva.
"Este segundo simpósio representa um grande marco para o nosso município. Hoje realizamos o maior evento de Educação Especial do Maranhão. É a Prefeitura investindo na formação dos profissionais e assegurando não apenas uma educação especial de qualidade, mas uma educação verdadeiramente inclusiva, equitativa e acessível para todos os estudantes da nossa rede", enfatizou.

Durante a abertura, o prefeito Roberto Costa destacou os investimentos realizados pela administração municipal para fortalecer a Educação Especial. Segundo ele, a rede de ensino passou por uma significativa ampliação da estrutura de atendimento, com aumento do número de profissionais de apoio, expansão das salas de recursos multifuncionais e fortalecimento do Atendimento Educacional Especializado.
"Nossa gestão trabalha para garantir direitos e promover inclusão para toda a população. Na educação, temos feito investimentos históricos para assegurar que nossas crianças recebam o suporte necessário ao seu desenvolvimento. Hoje, Bacabal conta com cerca de 650 profissionais atuando na Educação Especial, sendo aproximadamente 600 mediadores escolares acompanhando os estudantes em sala de aula. Também ampliamos significativamente as salas de recursos multifuncionais: recebemos o município com apenas nove e, ainda este ano, chegaremos a quase 60 espaços especializados. Esse é um compromisso com uma educação que respeita as diferenças e garante oportunidades para todos", afirmou o prefeito.

O II Simpósio de Educação Especial prossegue até o dia 31 de julho com uma programação diversificada, composta por palestras, oficinas, rodas de conversa e atividades voltadas ao fortalecimento das políticas públicas de inclusão escolar. A iniciativa reafirma o compromisso da gestão municipal em investir na formação dos profissionais da educação e consolidar Bacabal como referência maranhense na promoção de uma escola cada vez mais inclusiva, acessível e comprometida com a aprendizagem de todos. 

CRÔNICA DO DIA: Luz no Caminho




A casa em Pindaré-Mirim parecia ter encolhido nas últimas semanas. O silêncio, antes um companheiro confortável de tardes chuvosas, tornara-se um peso insuportável desde que a notícia do acidente de Gabriel atravessou a porta da frente. O caçula, a alegria ruidosa da família, o jovem que preenchia os cômodos com o som dos teclados e o entusiasmo pelos projetos da faculdade em São Luís, agora era apenas uma ausência que reverberava em cada cadeira vazia e em cada livro deixado sobre a escrivaninha.

Elisa circulava pela sala como um espectro. As estantes de madeira escura, carregadas de obras de Allan Kardec, guardavam reflexões que ela tantas vezes leu com a leveza de quem estuda um teorema.

Agora, aquelas páginas eram a única âncora que a impedia de afundar em um desespero sem fundo. O luto não era apenas uma dor; era uma erosão de sua fé. Ela sentia-se traída pelo destino, lançada em uma noite escura onde a promessa da continuidade da vida parecia um consolo distante, insuficiente para calar o grito que travava em sua garganta.

Naquela terça-feira, o convite para o dia de assistência no centro espírita local veio como uma ordem silenciosa. Elisa não queria ir. O conforto dos outros soava, muitas vezes, como uma profanação do tamanho de seu sofrimento. Mas, ao cruzar o portão do centro, sob o calor úmido que subia do Pindaré, ela encontrou algo que não estava nos livros. Ela encontrou o servir.

Havia uma fila de pessoas na varanda lateral.

Pessoas com histórias de perdas que, sob a lente exterior, pareceriam menores, mas que ali, naquele chão de cimento batido, ganhavam a mesma dignidade da sua. Elisa foi designada para a distribuição de cestas e o atendimento de sopa para as famílias da periferia da cidade. Ao servir o primeiro prato, ela viu nos olhos de uma senhora idosa, que mal conseguia sustentar as pernas, um espelho de sua própria fragilidade.

Naquele momento, o dogma não importava. A teoria da reencarnação, a visão da morte como uma mudança de domicílio, tudo aquilo parecia se tornar carne através do movimento de suas mãos. Ela percebeu que a sua dor era um círculo fechado, um abismo de egoísmo que a impedia de ver a vastidão

do sofrimento alheio. Gabriel não estava em um lugar distante. Se a vida era contínua, se o espírito era imortal, então o amor que ela nutria pelo filho não podia ser um sentimento confinado ao passado.

O consolo não viria da espera passiva por um sinal mediúnico, mas da transformação de seu afeto em movimento, em cuidado pelo outro.

Ela começou a visitar, semanalmente, o hospital da Santa Inês. Levava livros, mas, acima de tudo, levava o ouvido atento.

Na terceira visita, uma voluntária a conduziu até a ala da clínica médica.

— Hoje tem um senhor que quase não recebe visitas. — Disse, em voz baixa. — Talvez uma conversa lhe faça bem.

Elisa entrou devagar. O quarto era simples. O ventilador antigo girava no teto com um ruído constante, espalhando o cheiro de álcool e medicamento. Sobre a cama, um homem de cabelos completamente brancos olhava pela janela entreaberta, como quem esperava alguma coisa que não sabia nomear.

— Boa tarde. Posso entrar?

Ele voltou o rosto lentamente e esboçou um sorriso discreto.

— Se veio conversar, já entrou na hora certa.

Ela puxou uma cadeira e sentou-se.

— Meu nome é Elisa.

— Joaquim.

Por alguns instantes, permaneceram em silêncio. Elisa percebeu que, pela primeira vez desde a morte de Gabriel, não sentia necessidade de preencher aquele vazio com palavras prontas.

— Trouxe um livro, se o senhor gostar de ouvir uma leitura.

Joaquim balançou a cabeça.

— Hoje eu prefiro ouvir alguém falando da vida.

A resposta a desarmou. Ela respirou fundo.

— Faz pouco tempo que perdi meu filho.

O homem permaneceu calado. Depois de alguns segundos, respondeu com a serenidade de quem conhecia o peso das ausências.

— Eu perdi minha esposa há oito anos. Achei que nunca mais aprenderia a respirar sem ela.

Os olhos de Elisa se encheram de lágrimas.

— E aprendeu?

Joaquim sorriu de novo, dessa vez com mais luz.

— Não. Aprendi a respirar com a saudade. É diferente.

A frase permaneceu suspensa entre os dois.

Quando Elisa segurou sua mão para se despedir, percebeu que não era apenas ela quem oferecia consolo. Também o recebia. Ao deixar o quarto, o corredor parecia o mesmo, mas alguma coisa havia mudado dentro dela. A dor compartilhada não diminuía o amor por Gabriel; apenas o transformava em uma ponte capaz de alcançar outras vidas.

 Ela aprendeu que a caridade não era um gesto de superioridade, mas uma troca secreta de forças. Ao segurar a mão de um paciente acamado, Elisa sentia uma presença sutil, uma serenidade que não era sua, mas que a envolvia com a suavidade que um dia, muito antes de Gabriel partir, ela costumava encontrar em suas conversas de fim de tarde. O luto, sob a perspectiva da doutrina que ela tanto amava, deixava de ser o fim de uma trilha para se tornar o redirecionamento de um caminho.

A morte, compreendeu ela ao ver a cura precária de uma criança na ala infantil, não é um muro, mas uma névoa que altera a forma como vemos as cores ao redor. Se Gabriel era um espírito em contínua jornada, a forma mais pura de manter o laço não era através do apego ao que fora, mas através da continuidade do bem que eles, juntos, sempre projetaram ser. Elisa voltou para a casa em Pindaré-Mirim ao final do dia. O silêncio ainda estava lá, mas o peso era outro. Ao abrir a janela e permitir que o ar da noite entrasse, ela acendeu uma vela sobre a mesa e sentou-se. Não que uma vela representasse alguma coisa para ela, mas era uma prática que cresceu vendo sua vó fazer now momentos de saudades de  entes queridos já falecidos.

Não houve visões, nem fenômenos estrondosos.

Apenas uma presença, um sopro de lucidez, e a convicção profunda de que o consolo não é a ausência de dor, mas a capacidade de carregar a saudade sem se deixar consumir por ela. A caridade havia operado nela uma pequena cirurgia de alma.

O propósito estava ali, no prato de sopa servido, na mão estendida, na paciência com o tempo de Deus que não alinhava com o relógio humano. Ela fechou os olhos, respirou fundo e entendeu que a luz que ela buscava em sua angústia já brilhava através dela, na medida exata em que ela se permitia ser, no mundo, um instrumento de acolhimento para todos aqueles que, como ela, percorriam o caminho incerto da existência em busca de uma esperança que não fincasse raízes apenas no chão, mas que soubesse, com paciência, entender o céu.

 José Casanova

 

terça-feira, 28 de julho de 2026

CRÔNICA DO DIA:Herança de Ouro Preto

O sol em Viana não apenas ilumina; ele pesa. Pesa sobre os ombros de Maria das Dores enquanto ela caminha pela trilha de terra batida que corta o quilombo de Ouro Preto. O chão, seco pela estiagem severa, ainda guarda a memória da umidade dos igarapés que, em outros anos, garantiam a fartura.

Ela parou por um instante, a mão calejada repousando sobre o tronco de uma gameleira centenária. Aquela árvore não era apenas madeira e folhagem; era o marco geográfico dos seus avós, o pilar de sustentação de uma história que, para muitos fora daquelas fronteiras, simplesmente não existia.

Do outro lado da cerca de arame farpado, que cortava a paisagem como uma cicatriz, o contraste era brutal. De um lado, a diversidade da mata nativa, o plantio de subsistência de mandioca e o aroma do fumo de rolo; do outro, a monocultura de soja que se estendia como um mar verde e homogêneo, desprovido de pássaros, de alma.

Os tratores da fazenda vizinha roncavam ao longe, um som de metal que parecia devorar o silêncio da mata.

Maria das Dores não temia o barulho, embora soubesse que ele anunciava a cobiça. Em sua casa, uma estrutura erguida com taipa e a força da união familiar, ela mantinha as ferramentas de sua resistência: o livro de atas da associação, o terço de contas de madeira e o facão que, na palma de sua mão, era mais um instrumento de cuidado do que de ameaça.

Naquela tarde, as mulheres da comunidade se reuniram debaixo da gameleira. Não havia pauta formal, apenas a urgência. O projeto de expansão da nova fazenda previa a drenagem de um canal que alimentava as hortas comunitárias. Se a água fosse desviada, o quilombo sucumbiria à sede.

— Eles dizem que a terra é produtiva porque está cheia de soja. — Disse Zefa, a mais jovem das lavradoras, com os olhos fixos na linha do horizonte. — Eles não entendem que a nossa semente é o que garante que a gente tome café da manhã amanhã.

Maria das Dores levantou-se lentamente e passou o olhar por cada uma das ali presentes. Mulheres que, geração após geração, tinham enfrentado o chicote, o coronelismo e, agora, uma ameaça sem rosto, com CNPJ em vez de nome.

— Ouro Preto não é extensão de hectares. — Começou Maria, a voz firme. — É a nossa pele, o lugar onde a gente enterra a placenta dos nossos filhos. Não vamos deixar transformarem isso em pasto.

Na semana seguinte, o avanço das máquinas foi interrompido não por tribunais ou burocratas de São Luís, mas por quarenta mulheres quilombolas sentadas calmamente sobre a terra que o trator deveria revirar. Zefa estava entre elas, na primeira fila, segurando um cartaz pintado com o barro vermelho da região. Não carregavam armas, apenas panelas onde cozinhavam o feijoal que sustentava a comunidade. Quando o encarregado da empresa chegou, encontrou uma muralha de dignidade.

Maria das Dores não se levantou da cadeira de palha que trouxera para o meio da estrada:

— Pode chamar quem quiser. — Disse ela, enquanto o sol da tarde tingia seu rosto de um tom de cobre intenso. — A lei dos homens pode dizer que essa terra tem registro em nome de banco. Mas a lei da terra diz que a gente está aqui desde antes desse mundo ser medido em metros quadrados.

O impasse durou horas. De um lado, o metal da máquina; do outro, a ancestralidade encarnada naquelas mulheres. A liderança de Maria, forjada no respeito mútuo, impunha um respeito que o dinheiro não conseguia comprar. Ela não pregava o ódio, mas a permanência — do modo de vida, da tradição, do segredo das ervas que só cresciam ali.

Ao final daquele dia, os tratores recuaram. O silêncio retornou a Ouro Preto. As mulheres voltaram para casa em procissão, cantando hinos que atravessavam séculos.

Maria das Dores sentou-se na varanda de sua casa de taipa e observou o pôr do sol sobre o mar de soja que se aproximava de sua cerca. Sabia que a luta seria longa. Mas não sentia medo. Em suas mãos, o terço de madeira se aquecia. Olhou para elas — marcadas pela lida, ainda ágeis para plantar a semente que alimentava sua ética.

O futuro de Ouro Preto não era algo que ela esperava chegar. Era algo que ela construía a cada aurora, palmo a palmo, contra o assoreamento da ganância. Ouro Preto não era apenas uma comunidade de resistência. Era a prova de que, mesmo cercada, ainda há chão que ninguém consegue medir.

 José Casanova 

Professor, Jornalista, Escritor e Cronista 

Membro da Academia Bacabalense de Letras 

Academia Mundial de Letras da Humanidade 

 

 

 

CRÔNICA DO DIA: Entre Grades e Afetos

 

O cheiro na galeria feminina é uma mistura constante de cloro, suor e uma umidade subterrânea que parece corroer as paredes de concreto bruto. Em São Luís, quando o verão bate com força, o ar dentro da unidade prisional feminina de Pedrinhas torna-se denso como uma manta pesada. Beatriz estava  sentada no beliche superior, o espaço mais disputado pela ventilação que vinha de uma grade estreita, alta demais para oferecer qualquer visão da ilha que não fosse o recorte de um céu cinzento.

Ela ajustou o lençol, tentando esconder uma mancha de umidade que insistia em brotar na parede. A cada sete dias, o tempo dilatava. Beatriz contava os segundos, não pela liberdade que viria a longo prazo, mas pelo instante em que o portão de ferro rangia, sinalizando a visita da manhã. A dignidade, ali dentro, não se mede pelo que se tem, já que quase tudo é confiscado na revista de entrada, mas pela capacidade de reconhecer a própria voz em meio ao barulho dos guardas e aos gritos abafados de outras alas.

— Bia, o café hoje veio ralo de novo. — Disse Valéria, a companheira de cela que passava os dias fazendo crochê com barbantes desfiados de uniformes velhos. — Mas tem um pedaço de pão que sobrou. Quer?

Beatriz balançou a cabeça negativamente. A náusea matinal era sua companheira fiel. Ela ajeitou o elástico do cabelo, sentindo os fios rebeldes e secos pela água salobra do banho. O preconceito lá fora, das pessoas que viam o crime como uma mancha irreversível, era sentido ali dentro como uma constante reafirmação de que elas haviam perdido o direito ao nome próprio.

 Eram números de matrícula em arquivos mofados.

O momento mais difícil chegava com a entrega das cartas. A escrita era o único fio condutor entre seu mundo entre paredes e a infância que,  teimosamente, ela tentava preservar na mente dos filhos. Escrever para eles exigia um esforço exaustivo de tradução: como explicar a ausência sem usar a palavra "prisão"? Como falar de amor sem mencionar o cheiro do ferro?

Beatriz pegou o papel ofício amassado. A tinta da caneta esferográfica azul parecia brilhar no ambiente fosco. “Querido Léo, a mamãe está estudando muito aqui. Em breve, a gente vai se ver, e eu quero que você me conte tudo sobre aquele

desenho de dinossauro que você fez.” Ela parou por um instante, a mão tremendo quase imperceptivelmente. A lágrima que ameaçava cair foi contida com um piscar rápido. Chorar na frente das outras seria ceder terreno; ali, a fraqueza era uma moeda de troca perigosa.

Na hora do pátio, o sol de São Luís batia forte no pátio cimentado. O contraste entre o céu azul aberto e as grades que cortavam a visão era uma ferida visual. Beatriz caminhava em círculos, tentando manter a coluna ereta. A dignidade, ela descobriu, era uma postura física. Encurtar os ombros era aceitar a derrota.

— Eles perguntaram por você na escola? — Perguntou Valéria, caminhando ao seu lado.

Beatriz olhou para os próprios pés calçados com chinelos encardidos.

— A minha sogra diz que eu mudei de cidade para trabalhar. Não aguento a ideia deles acharem que eu os abandonei. — Confessou Beatriz, a voz mal saindo da garganta. — O abandono é uma marca. A prisão é só um erro. Se eles me enxergarem como uma mulher que falhou, mas que ainda é mãe, isso é tudo o que me mantém sã.

 A contagem de presas, o jantar servido às quatro da tarde sob o olhar indiferente dos agentes, as revistas vexatórias que pareciam buscar apenas quebrar a última camada de privacidade que restava. Beatriz observava as mulheres ao redor. Algumas haviam se entregado,  deixado o cabelo cair, o olhar vidrado. Outras, como ela, forjavam pequenas resistências. Dividiam o sabonete, repartiam a notícia da família, criavam uma rede de afeto que tornava a sobrevivência algo minimamente suportável.

Naquele dia, a visita aconteceu. O calor aumentou a intensidade dos corpos aglutinados no parlatório.

Quando viu a sogra entrar segurando a mão de Léo, Beatriz sentiu seu coração acelerar. A criança parecia crescida, sua camisa azul estava levemente suja de terra, sinal de que ele ainda corria e brincava. O vidro que as separava parecia uma barreira intransponível, um espelho sujo que distorcia a realidade do carinho.

— Oi, mamãe! — Gritou o menino, encostando a mão pequena no vidro.

Beatriz não pôde abraçá-lo. Encostou a palma da mão no mesmo lugar.

— Oi, meu amor. Você está lindo. A vovó disse que você está aprendendo a ler?

Enquanto conversavam sobre dinossauros e a escola, Beatriz percebeu o olhar da sogra, um misto de julgamento e pena, a sentença que ela carrega diariamente. Ali, diante da inocência do filho, Beatriz teve a clareza definitiva: o sistema podia confinar seu corpo, podia privá-la da luz solar direta, podia tentar apagar sua identidade com um número de matrícula, mas não tinha autorização para apagar o vínculo materno.

Aquela conexão era seu território inalienável. A criança ao lado de fora era a prova de que ela continuava sendo uma mulher, uma mãe, alguém que ainda se importava com as minúcias da vida cotidiana, independentemente da cor da parede ou da rigidez do portão que a separava da liberdade.

Quando a campainha soou indicando o fim da visita, ela não se esgotou. Observou o menino sair, segurando a mão da avó, e guardou a imagem daquele movimento com a precisão de quem armazena água no deserto. Ao voltar para a cela, o som metálico das chaves e a batida das grades não soaram como uma sentença de fim, mas como o compasso de uma espera. Beatriz sentou-se novamente no beliche. Pegou o pedaço de pão que, poucas horas antes, ela se recusara a comer. Desta vez, aceitou. Precisava de força.

Amanhã seria um novo dia, e ela teria novas palavras para escrever para o Léo, mantendo, entre as grades e o concreto, a dignidade de quem ainda tem um lugar reservado no mundo lá fora. Cada dia ali era um degrau a menos para a sua reconstrução, um exercício de sobrevivência que exigia uma mente intacta e um coração teimoso o suficiente para não deixar que a ferrugem do sistema ganhasse a batalha final contra sua humanidade.

José Casanova 

Professor, Jornalista, Escritor e Cronista 

Membro da Academia Bacabalense de Letras

Academia Mundial de Letras da Humanidade 

segunda-feira, 27 de julho de 2026

CRÔNICA DO DIA: O Despertar de Lúcia

Prezado leitor esta é uma crônica de ficção, qualquer semelhança com pessoas e lugares , terá sido mera coincidência. O ventilador de teto girava em uma cadência lenta  inútil, apenas empurrando o ar quente de Babaçú para baixo. Lúcia encarava as pás de madeira escura com os olhos secos e abertos. Era a única parte de seu corpo que obedecia aos seus comandos. O diagnóstico de tetraplegia caíra sobre sua vida seis meses antes, após um acidente numa estrada estreita que cortava a região do Mearim.

 Desde então, o quarto de paredes descascadas tornou-se o mundo inteiro, e o teto, o seu único horizonte. O calor maranhense era implacável. Sem poder mover as mãos para enxugar o suor que escorria pela testa e ardia nos olhos, Lúcia dependia inteiramente dos outros. A dependência era pior do que a dor fantasma que às vezes percorria suas pernas inertes.

A porta rangeu e Fátima entrou no quarto, carregando uma bacia de alumínio com água morna e uma toalha.

— Bom dia, Lúcia. Vamos fazer a higiene.

Lúcia não respondeu de imediato. Apenas piscou, demoradamente, sinalizando que a ouvira.

— Abre a janela, Fátima .— Disse Lúcia. Sua voz soava rouca pelo desuso.

— O sol está muito forte. Vai queimar seu rosto, minha irmã.

— Abre a janela. Eu quero sentir o sol queimar. Eu quero sentir alguma coisa.

Fátima obedeceu em silêncio. A luz invadiu o ambiente, revelando a poeira que dançava no ar. A claridade feriu os olhos de Lúcia, mas ela não os fechou. A vida lá fora pulsava. Carros passavam, vendedores ambulantes gritavam seus produtos na rua de paralelepípedos, crianças corriam soltas. Lúcia estava presa dentro do próprio esqueleto.

O banho de gato começou. Fátima virava o corpo da irmã de um lado para o outro, um manequim de carne e osso. O ressentimento inicial de Lúcia já havia dado lugar a uma apatia sombria, até aquele  momento. Enquanto a toalha úmida percorria seu braço direito, ela sentiu um repuxo agudo, elétrico, na ponta do dedo indicador.

Foi imperceptível para Fátima. Mas para Lúcia, foi um estrondo tátil. Ela fechou os olhos, concentrando toda a energia que restava no seu sistema nervoso naquele milímetro de carne e terminação nervosa. O dedo não se moveu visivelmente, mas a sensação de controle, por uma fração de segundo, estava lá.  nervo não estava morto. Estava apenas dormindo.

— Fátima . — Lúcia chamou, a voz de repente mais firme. — Liga para a clínica. Eu vou começar a fisioterapia amanhã.

— Lúcia, o doutor disse que as chances de voltar a mexer...

— Eu não perguntei as chances. Eu disse para ligar para a clínica.

O processo de reabilitação não teve nada de heroico ou poético. Foi bruto, doloroso e sujo. O centro de fisioterapia público de Babaçú funcionava em um prédio com infiltrações, ventiladores barulhentos e macas de couro sintético rasgado. Três vezes por semana, o maqueiro colocava Lúcia na van do município, uma viagem que sacolejava seus ossos e testava sua sanidade.

O fisioterapeuta, Roberto, era um homem prático. Não oferecia falsas esperanças.

— Vai doer, Lúcia. E muito provavelmente, o progresso será mínimo no começo.

— Faça o seu trabalho, Roberto. — Ela devolvia, os dentes cerrados.

Os meses se acumularam. O esforço para mover um braço exigia o mesmo fôlego de uma corrida. Lúcia gritava de dor quando os músculos atrofiados eram esticados. Ela suava, chorava na maca e, em algumas noites, desejava que o acidente tivesse sido fatal. Mas, na manhã seguinte, exigia ser colocada na van novamente.

A primeira grande vitória veio no oitavo mês. Lúcia conseguiu fechar a mão direita em torno de uma bola de borracha. A segunda vitória, um ano depois, foi sustentar o tronco sentada na borda da cama. Seu sistema nervoso aprendia, lentamente, a recrutar caminhos preservados e recuperar funções que pareciam perdidas. Os exames de acompanhamento revelaram que a lesão medular não era completa, como se acreditara nos primeiros dias após o acidente. Algumas vias nervosas haviam permanecido preservadas, tornando possível uma recuperação parcial mediante um longo processo de reabilitação.

Dois anos após o acidente, Lúcia já não era tetraplégica. O diagnóstico mudara, mas as sequelas eram permanentes. Seus movimentos nos membros inferiores eram severamente limitados e a coordenação motora exigia concentração brutal. Ela passou a usar uma cadeira de rodas adaptada. A euforia da recuperação médica logo esbarrou em um problema muito maior. Lúcia havia vencido as limitações do seu corpo, mas esbarrou nas limitações da cidade.

Em uma terça-feira, Lúcia decidiu que iria ao banco no centro de Babaçú, resolver  questões do BPC por conta própria. Fátima tentou impedi-la, oferecendo-se para ir com uma procuração, mas Lúcia foi categórica ao negar. Ela queria a rua. O trajeto, que para uma pessoa sem deficiência levaria dez minutos, durou quase uma hora. As calçadas da cidade eram um campo minado de buracos, desníveis repentinos, raízes de árvores arrebentando o cimento e degraus irregulares construídos por moradores para impedir que a água da chuva entrasse nas casas.

 Lúcia se viu forçada a transitar pelo asfalto, disputando o espaço com caminhonetes e motos que buzinavam furiosamente. Ao chegar na agência bancária, exausta, os braços latejando de tanto girar as rodas, o choque final.

Uma escadaria de seis degraus de granito separava a rua das portas de vidro do banco. Nenhuma rampa. Nenhum acesso lateral. Nada. Lúcia parou a cadeira na calçada, encarando os degraus. O calor do meio-dia fervia o asfalto. Pessoas subiam e desciam por ela, desviando o olhar, fingindo que a mulher paralisada ali era invisível. Um homem engravatado, saindo da agência, parou no último degrau e olhou para baixo.

— Você precisa de ajuda, minha senhora? Quer que eu chame alguém lá dentro?

— Eu quero entrar. Onde fica a rampa? — A voz de Lúcia era firme, embora a respiração estivesse curta pelo esforço.

— Rapaz, acho que não tem rampa aqui não. Esse prédio é antigo. É melhor a senhora voltar para casa e mandar um parente. A rua não é lugar pra quem tem suas condições. O sol está castigando.

Lúcia travou os freios da cadeira de rodas. Ela encarou o homem de terno, memorizando suas feições, seu tom condescendente e a estrutura de pedra atrás dele. A raiva que subiu pelo seu estômago não era a mesma raiva que tinha do acidente. Era uma fúria lúcida. Estratégica. Política.

— O meu lugar. — Disse Lúcia, projetando a voz para que outras pessoas na calçada ouvissem. — É onde eu quiser estar. A falta de capacidade não é das minhas pernas. É dessa cidade.

O homem deu de ombros, resmungou algo sobre falta de educação e seguiu seu caminho. Lúcia não voltou para casa. Ela foi direto para a praça central. Havia entendido que reconquistar os movimentos do corpo de nada servia se o mundo a mantivesse engaiolada. A tetraplegia havia roubado seus movimentos;  sociedade estava roubando sua cidadania. E ela não permitiria.

Na semana seguinte, a sala de espera do centro de fisioterapia virou um quartel general. Lúcia não falava mais sobre exercícios ou dores musculares. Falava sobre Leis de Acessibilidade. Falava sobre a Constituição

— Quantos de vocês já deixaram de ir a uma consulta médica porque não conseguiram subir no posto de saúde? — Perguntou ela, virando a cadeira no meio da sala.

Marcos, um jovem cego de nascença, levantou a mão hesitante. Tereza, que usava muletas devido à poliomielite, assentiu silenciosamente. Outros pacientes, mães com filhos com paralisia cerebral, idosos com andadores, pararam para escutar.

— Nós ficamos aqui dentro brigando com o nosso corpo para conseguir dar um passo. E quando a gente dá esse passo, a cidade coloca um muro na nossa frente. Vamos cobrar a quem construiu o muro.

Lúcia organizou, inicialmente, um pequeno número de pacientes insatisfeitos. Eles fizeram um levantamento rudimentar. Anotaram quais farmácias, supermercados e repartições públicas não tinham acesso. O cenário era devastador, mas a indignação coletiva era combustível.

O primeiro alvo da recém-formada Associação de Pessoas com Deficiência de Bacabal não foi aleatório. Lúcia escolheu a Câmara Municipal de Vereadores. O prédio histórico, imponente, com uma arquitetura colonial mal preservada, possuía uma longa escadaria na entrada principal. Era o símbolo do poder legislativo, o lugar onde as leis da cidade eram criadas por pessoas que nunca precisaram usar uma cadeira de rodas.

O movimento foi marcado para uma quarta-feira, dia de sessão plenária. Lúcia chegou cedo, acompanhada de vinte pessoas. Havia cadeirantes, cegos, surdos, pessoas com muletas e familiares. Eles não levaram faixas ou megafones. A instrução de Lúcia havia sido clara: a presença física deles, exatamente onde não deveriam conseguir estar, seria a própria mensagem. Eles estacionaram cadeiras ao redor da base da escadaria. Marcos posicionou-se no primeiro degrau com sua bengala branca. As mães sentaram-se no concreto quente com seus filhos.

 O acesso estava bloqueado. Quem quisesse entrar ou sair da Câmara teria que passar por cima deles. Por volta das dez da manhã, os vereadores começaram a chegar para a sessão. Os carros oficiais encostavam, e os políticos saíam, confusos com a barreira humana. Um dos vereadores, conhecido na cidade pelo temperamento explosivo, caminhou em direção a Lúcia, que estava bem no centro.

— O que está acontecendo aqui? Isso é espaço público, precisam liberar a entrada. Temos uma sessão importante hoje para votar o orçamento.

Lúcia o encarou. Os músculos do seu pescoço estavam rijos, mas sua mente estava calma.

— Nós sabemos que é um espaço público, vereador. Por isso viemos assistir à sessão.

— Então subam e entrem no plenário. Ninguém está impedindo.

— O senhor está vendo alguma rampa? — Lúcia apontou para os degraus de concreto. — Se nós não pudermos entrar, ninguém vai. Não haverá sessão até que os senhores escutem as demandas daqueles que a cidade escolheu tornar invisíveis.

O constrangimento se espalhou entre os assessores e políticos presentes. A polícia municipal foi acionada, mas hesitou. Não havia violência, apenas vinte pessoas com diversas deficiências sentadas ali, exigindo o básico da dignidade estipulada em lei municipal há mais de dez anos, mas que nunca havia sido cumprida.

O presidente da Câmara interveio. Tentou contornar a situação, oferecendo que alguns maqueiros do hospital levassem Lúcia e mais dois cadeirantes nos braços até o segundo andar.

A resposta dela foi incisiva.

— Eu passei anos sendo carregada, vereador. Minha autonomia me custou sangue. Eu não vim aqui para ser erguida como uma mercadoria disfuncional. Eu exijo rampa, exijo adaptação, exijo que respeitem o nosso direito de ir e vir por conta própria.

Diante do impasse e com a imprensa local começando a registrar a cena, a sessão plenária daquele dia foi cancelada. O bloqueio durou até o fim da tarde, sob o sol escaldante de Bacabal. Lúcia não arredou o pé. As costas doíam, as pernas tremiam com espasmos nervosos devido à postura prolongada na cadeira, mas ela não abaixou a cabeça.

Ao anoitecer, um acordo verbal com a mesa diretora foi forçado publicamente. Um compromisso formal para discutir o projeto estrutural da Câmara e revisar a aplicação das normas de acessibilidade nas vias principais da cidade nos próximos trinta Dias. Não era a vitória final, apenas o início da guerra Mas o muro havia sido rachado. Lúcia voltou para casa exausta. A rua já estava escura. Fátima abriu a porta, preocupada, e correu para ajudá-la a passar pela soleira.

— A cidade inteira está comentando o que você fez na Câmara de Vereadores, Lúcia. Você arrumou um problema grave.

— Eu não arrumei um problema, Fátima. Eu mostrei o problema que já estava lá.

Fátima a ajudou a fazer a transferência da cadeira para a cama. O quarto, antes um túmulo silencioso onde Lúcia aguardava os dias passarem, agora parecia pequeno para o tamanho da mulher que o ocupava. Ela não era mais a paciente passiva que encarava o ventilador de teto esperando a morte ou um milagre. Sobre a mesa de cabeceira, uma cópia da lei municipal de obras públicas estava marcada com caneta vermelha. Listas com nomes de dezenas de pacientes que aderiram à causa se acumulavam. A tetraplegia havia paralisado seu corpo brutalmente, e cada centímetro recuperado naquelas macas rasgadas da clínica servia a um propósito agora irrenunciável.

 Lúcia sabia que os degraus de granito seriam apenas a primeira obstrução a ser derrubada em Babaçú. O ativismo transformou-se no sangue novo que preencheu suas veias, oxigenando lugares onde a medicina declarou que não haveria mais vida. Ela alcançou a caneta vermelha na mesa e preparou-se para redigir o ofício da próxima reunião, perfeitamente ciente de que não precisava mover o mundo inteiro de uma vez; bastava ter a força suficiente para trancar a entrada até que as portas, sem exceção de formato ou inclinação, fossem, por justiça e de direito, abertas a todos.

José Casanova

sexta-feira, 24 de julho de 2026

Intervalo Mudo marca estreia literária de estudantes da UFMA e celebra a poesia contemporânea em Bacabal


Na Universidade Federal do Maranhão (UFMA) de Bacabal , na noite desta quinta-feira (23), realizou-se a noite de autógrafos do livro Intervalo Mudo, obra assinada pelas acadêmicas de Letras Mayane Miranda, Rayssa de Jesus e Wylmara Thais. O evento reuniu estudantes, professores, e apreciadores da literatura que parciparam do IX Congresso Internacional de Letras para celebrar o lançamento de uma publicação que nasce da experimentação poética e da criação coletiva.

Organizado pelo professor Ricardo Nonato, o livro é resultado do projeto de extensão Experiências Criativas, desenvolvido no curso de Letras da UFMA Bacabal. A publicação reúne poemas produzidos ao longo de um processo de vivência, pesquisa e experimentação em poesia contemporânea, incentivando as autoras a explorarem novas linguagens, sensibilidades e formas de expressão artística.
A obra conta com prefácio do poeta e crítico literário Antônio Ailton, que destaca a força estética dos textos e a capacidade das jovens escritoras de transformar experiências, silêncios e afetos em linguagem poética. O prefácio apresenta Intervalo Mudo como uma obra que dialoga com as inquietações da poesia contemporânea e evidencia o surgimento de novas vozes na literatura maranhense.

Durante a noite de lançamento, o público participou da sessão de autógrafos e de um momento de reflexão sobre a produção literária contemporânea. A programação também incluiu um debate conduzido pelos professores Ricardo Nonato com a participação das autoras.


Mais do que o lançamento de um livro, Intervalo Mudo representa a consolidação de um projeto extensionista que aproxima ensino, pesquisa e criação artística, estimulando estudantes a desenvolverem sua identidade literária e a compartilharem suas produções com a comunidade.

A publicação reafirma o compromisso da UFMA Bacabal com o incentivo à produção cultural e literária, fortalecendo a universidade como espaço de formação de novos escritores e 
de valorização da poesia produzida no Maranhão.



Livro sobre Linguística e Literatura é lançado durante o IX CONIL na UFMA de Bacabal


A comunidade acadêmica ganhou uma importante contribuição para os estudos da linguagem com o lançamento do livro Textos, Discursos e Literatura: Diálogos Contemporâneos no Campo das Letras, realizado na quinta-feira (23), durante a programação do IX CONIL – Congresso Internacional de Letras, no Campus da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), em Bacabal.

Organizada pelos professores Alex de Castro da Costa, Paulo da Silva Lima e Rubenil da Silva Oliveira, a obra reúne pesquisadores dedicados à investigação dos fenômenos linguísticos, discursivos e literários, apresentando um conjunto de reflexões que dialogam com diferentes perspectivas teóricas e metodológicas.

O lançamento ocorreu em um dos mais importantes eventos acadêmicos da área de Letras, reforçando o compromisso da UFMA com a produção e a difusão do conhecimento científico. A publicação surge em um contexto marcado por profundas transformações nas formas de comunicação, na produção do conhecimento e na circulação dos discursos, cenário que torna ainda mais relevante a compreensão da linguagem e da literatura como instrumentos de análise da sociedade contemporânea.

Ao estabelecer um diálogo entre os campos da Linguística e da Literatura, a coletânea reafirma o caráter interdisciplinar da área de Letras e evidencia como os textos e os discursos constituem espaços privilegiados para a produção de sentidos, a construção de subjetividades e a compreensão das dinâmicas sociais, culturais e históricas.

Os capítulos que compõem a obra abordam diferentes objetos de estudo e demonstram a diversidade das pesquisas desenvolvidas por seus autores, contribuindo para ampliar o debate acadêmico sobre linguagem, ensino, leitura, escrita, literatura e práticas discursivas. Dessa forma, o livro oferece ao leitor uma visão plural das questões que permeiam os estudos linguísticos e literários na atualidade.

Destinada a pesquisadores, professores, estudantes de graduação e pós-graduação, bem como a todos os interessados pelos estudos da linguagem e da literatura, a publicação representa uma importante contribuição para o fortalecimento da pesquisa científica e para o aprofundamento das discussões que marcam o campo das Letras na contemporaneidade.

Mais do que reunir diferentes perspectivas de investigação, Textos, Discursos e Literatura: Diálogos Contemporâneos no Campo das Letras reafirma a importância da produção acadêmica como espaço de reflexão crítica, diálogo científico e construção do conhecimento, consolidando-se como uma obra de referência para pesquisadores e estudiosos das Ciências da Linguagem.

segunda-feira, 20 de julho de 2026

Defensoria Pública reúne povos tradicionais, quilombolas e movimento negro para fortalecer políticas de igualdade racial em Bacabal


    BACABAL (MA Por José Casanova) – Representantes dos povos tradicionais de matriz africana, comunidades quilombolas e movimentos sociais negros de Bacabal co e região como UNEGRO  ( União de Negras e Negros pela Igualdade) e GNPR ( Grupo Negro Palmares Renascendo) participaram, neste sábado (18), de uma importante reunião promovida pela Defensoria Pública do Estado do Maranhão (DPE/MA), no auditório da Escola de Música Almir Garcez Assaí. O encontro teve como objetivo apresentar iniciativas institucionais voltadas à proteção, promoção e ao fortalecimento dos direitos dessas comunidades, além de ouvir suas principais demandas e encaminhar soluções para violações de direitos.

    A realização da reunião atendeu a uma determinação do Excelentíssimo Senhor Defensor Público da II Defensoria de Direitos Humanos e Coordenador do Centro Estratégico de Promoção da Igualdade Étnico-Racial e Liberdade Religiosa, Dr. Fábio Carvalho. A iniciativa contou com a parceria da Prefeitura de Bacabal e da Associação dos Umbandistas de Bacabal.

    Os trabalhos foram coordenados pela assessora técnica do Centro Estratégico de Promoção da Igualdade Étnico-Racial e Liberdade Religiosa, Josilene Brandão da Costa (Jô Brandão), que conduziu a programação e apresentou as ações desenvolvidas pelo órgão em defesa da liberdade religiosa e da promoção da igualdade racial.

    A abertura foi marcada por uma saudação aos ancestrais dos povos de terreiro, em um momento de profundo respeito às tradições, à espiritualidade e à memória das comunidades de matriz africana. Em seguida, Jô Brandão realizou uma apresentação institucional sobre o Centro Estratégico de Promoção da Igualdade Étnico-Racial e Liberdade Religiosa, destacando sua atuação no enfrentamento ao racismo, na defesa da liberdade religiosa e na garantia dos direitos das populações historicamente vulnerabilizadas.

    Durante a programação, foram debatidos os mecanismos de proteção aos direitos dos povos tradicionais de matriz africana, das comunidades quilombolas e da população negra, enfatizando os instrumentos jurídicos e institucionais disponíveis para o combate às violações de direitos.

    Um dos momentos mais significativos da reunião foi a escuta das comunidades. Lideranças religiosas, representantes quilombolas e integrantes dos movimentos sociais relataram diversos casos de racismo religioso registrados em Bacabal e municípios da região. Segundo os participantes, muitas denúncias apresentadas às autoridades não tiveram desdobramentos efetivos, gerando um sentimento de impunidade e desconfiança quanto aos mecanismos de proteção existentes.

    Outro tema que gerou preocupação entre os participantes foi a cobrança de taxas e licenças para a realização de festejos e celebrações religiosas de matriz africana. Líderes de terreiros denunciaram que continuam sendo obrigados a arcar com esses custos para promover eventos tradicionais, situação que, segundo eles, representa mais um obstáculo ao pleno exercício da liberdade religiosa.

    Durante o encontro, a equipe da Defensoria Pública esclareceu dúvidas dos participantes, prestou orientações jurídicas e realizou diversos encaminhamentos. Entre as propostas apresentadas está a realização de uma oficina voltada à elaboração de protocolos e procedimentos para o registro adequado de denúncias de racismo religioso, buscando fortalecer a produção de provas e ampliar a efetividade das medidas legais cabíveis.

    A presença da Defensoria Pública em Bacabal também incluiu a participação da equipe no 8º Encontro de Tambores de Bacabal, realizado na noite da sexta-feira (17), na Praça da Bíblia. O evento reuniu grupos culturais e religiosos em uma celebração das tradições afro-brasileiras, fortalecendo o diálogo entre as instituições públicas e as comunidades de matriz africana.

    Ao reunir representantes de diferentes segmentos da população negra, povos tradicionais e comunidades quilombolas, a iniciativa reafirmou o compromisso da Defensoria Pública do Estado do Maranhão com a promoção da igualdade étnico-racial, a defesa da liberdade religiosa e o fortalecimento dos direitos humanos, consolidando um espaço permanente de escuta, diálogo e construção de políticas públicas voltadas às necessidades dessas comunidades.