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segunda-feira, 17 de agosto de 2026

CRÔNICA DO DIA: Letras Tardias

 

O papel na mesa de madeira rústica, sob a luz amarela da lâmpada de teto, parecia uma extensão desconhecida do mundo. Dona Sebastiana, aos setenta anos, observava o vazio do caderno universitário como quem encara uma floresta virgem. Em Viana, a vida sempre lhe exigiu muito das mãos ; a enxada, a lavagem de roupas no rio, o preparo da farinha ,  mas nunca havia exigido a marcação linear da mente sobre a pele de celulose.

Seus dedos, tortos por décadas de lida e pela artrite que insistia em reclamar cada vez que o tempo mudava, seguravam o lápis como se fosse uma  ferramenta de precisão proibida.

Ela não queria ler por necessidade documental. O filho mais velho, que vivia em outra cidade, enviara um tablet meses atrás, mas para ela, aquele vidro negro não tinha alma. Ela queria ler porque o silêncio de suas tardes estava ficando preenchido apenas por sombras, e ela sentia que havia palavras presas na garganta que ainda não haviam se transformado em rabiscos.

— O "A" não é difícil, dona Sebastiana.  — Disse Marina, a neta de dez anos que, pacientemente, exercia o papel de tutora. — É só subir, descer e fazer a ponte no meio.

Sebastiana concentrou-se. A subida foi vacilante, a descida quase se perdeu nas fibras do papel.

Quando finalmente conectou os pontos e o desenho se formou, ela soltou um suspiro involuntário, como se tivesse desatado um nó que carregava desde a infância. Naquele instante, as letras não eram apenas fonemas; eram os nomes de tudo o que ela tinha vivido sem nunca ter nomeado. A erva que curava o estômago, o nome da rua onde nasceu, a saudade do marido falecido que ela antes apenas sentia, mas nunca pôde registrar.

As expectativas da vila eram rudes para com as mulheres de sua idade. O papel da anciã em Viana era o da colher de pau, da reza forte e do silêncio reverente sobre o que passou. Ninguém esperava que uma mulher de setenta anos buscasse o alfabeto. "Para que se estressar com isso agora?", alguns vizinhos perguntavam, os olhos velados por um preconceito que tratava a velhice como uma antessala da inutilidade.

Numa manhã de calor espesso, Sebastiana estudava sentada na varanda, o caderno apoiado sobre uma pequena mesa de madeira. A ponta do lápis avançava devagar, desenhando mais uma vez as letras do alfabeto, quando uma vizinha diminuiu o passo diante do portão.

— Agora? Depois de velha? Isso não enche panela. Papagaio velho não aprende a falar!

Sebastiana ergueu os olhos por um instante. Não havia irritação nem vergonha em seu rosto. Apenas voltou ao caderno, como quem já aprendera que certas palavras merecem o silêncio como resposta.

Com mão trêmula, traçou novamente a letra M. A primeira haste saiu torta; a segunda encontrou equilíbrio. Depois vieram o ã e o e. Quando terminou, contemplou demoradamente a pequena palavra escrita diante de si: mãe.

Naquele instante, compreendeu que algumas panelas alimentam o corpo, mas certas palavras alimentam a alma. Depois de  muitos anos, sentiu que a fome que carregava desde menina começava, enfim, a ser saciada.

Ela ouvia, mas não escutava. Aos setenta anos, ela havia aprendido o valor do desapego ao julgamento dos outros. Seus olhos, embora cansados, viam com uma nitidez que a juventude desperdiçava.

Naquela semana, a evolução foi lenta. Cada letra nova era uma conquista sobre o tempo. A cada sessão de estudo, Sebastiana sentia que o mundo, antes fechado em sua própria experiência limitada, começava a se abrir em novas frestas. Ela lia as placas de trânsito ao ir à feira, decifrava os rótulos dos remédios, e a sensação de autonomia era como uma segunda juventude, porém muito mais lúcida.

Não era a pressa das vontades, mas a calma da compreensão.

Certa tarde, Mariana lia um livro de contos regionais para ela. Sebastiana parou a neta em um parágrafo específico.

— Repete essa linha de novo, menina. — Pediu Sebastiana.

A menina leu. E Sebastiana percebeu que as palavras que ela via no livro tinham uma conexão ancestral com o que a vida lhe contara. Ela entendeu, com uma clareza que só o envelhecimento permite, que a sabedoria não está em acumular anos, mas em conseguir descrever a própria jornada. Ela começou a exercitar a escrita de curtas frases. "A vida é um rio que corre para o mar". "A farinha é doce na paz". Ela não estava mais escrevendo apenas letras; estava reescrevendo a si mesma.

A idade tornara-se, para ela, não uma limitação, mas um filtro de urgência. O que ela não aprendera na infância por carência de escola, ela se dava de presente como quem colhe um fruto tardio e, por ser tardio, muito mais saboroso. A resistência ao tempo tornou-se o seu maior ato de rebeldia. Ela, que sempre fora mulher de terra e sol, agora era também mulher de luz e pena.

Quando o sol de Viana se punha no horizonte, tingindo o céu de um violeta profundo, ela se sentava na varanda com seu caderno. Os vizinhos passavam e, em vez de verem apenas uma velha sentada na rede, viam uma mulher que se negava a ser esquecida pela história. Ela olhou para o próprio nome escrito na capa do caderno com letras grandes, um pouco irregulares, mas inegavelmente suas  e sentiu um orgulho que não lhe cabia no peito.

Ao fechar o caderno, percebeu que o lápis já não era o mesmo. Restava apenas um pequeno toco de madeira, arredondado pelos dedos e gasto por tantas tentativas, erros e descobertas. Sorriu ao segurá-lo entre as mãos. Pensou que também a vida lhe havia aparado as arestas, consumido parte da força e deixado marcas que o tempo não apagaria. Ainda assim, era justamente aquele pequeno pedaço de lápis que escrevera as palavras mais importantes de sua existência. Compreendeu, então, que algumas coisas diminuem apenas por fora. Por dentro, tornam-se maiores. Assim eram o lápis e ela: quanto mais o tempo os consumia, mais significado eram capazes de produzir.

 Aos setenta anos, a vida deixara de ser uma sucessão de dias iguais para se tornar um livro. E ela, agora estava escrevendo o final de sua própria história, compreendendo que, enquanto houvesse o interesse em aprender, o tempo nunca seria um obstáculo, mas apenas o cenário necessário para que a sabedoria encontrasse seu lugar de fala, de escrita e de existência plena.

José Casanova 
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista 
Membro da Academia Bacabalense de Letras 
Academia Mundial de Letras da Humanidade 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Mais de 1.500 bacabalenses passam por avaliação para cirurgias de catarata e pterígio

 

A Prefeitura de Bacabal realizou, no sábado (15), na Paróquia de Sant’Ana e São Joaquim, uma grande ação de saúde oftalmológica voltada à população do município. A etapa de triagem do Programa Amor no Olhar reuniu mais de 1.500 pessoas que passaram por avaliação médica para diagnóstico e encaminhamento para cirurgias de catarata e pterígio.

Desde as primeiras horas da manhã, moradores de diferentes bairros e povoados compareceram ao local em busca de atendimento. A estrutura montada pela Prefeitura contou com recepção, lanche, atendimento médico e acolhimento aos pacientes e acompanhantes, proporcionando mais conforto durante o processo de avaliação.

O mutirão amplia o acesso da população aos serviços especializados de saúde e atende uma demanda que afeta principalmente pessoas idosas. A catarata e o pterígio podem comprometer a capacidade visual e interferir diretamente na autonomia e na qualidade de vida dos pacientes.

Para o prefeito Roberto Costa, a iniciativa representa mais do que a realização de procedimentos médicos. Segundo ele, recuperar a visão também significa devolver autonomia e dignidade a pessoas que convivem há anos com dificuldades para enxergar.

“A gente sabe o quanto essa doença da catarata e do pterígio prejudica a nossa população, principalmente uma parcela mais idosa da nossa cidade. São mães de família, pais de família, avós. Nós temos casos de pessoas que não enxergavam mais em função do nível da catarata. Avós que nunca olharam o neto em função da doença e que, através desses mutirões, a gente conseguiu resgatar não só a esperança, mas a dignidade de cada pessoa da nossa cidade”, destacou o prefeito.

Entre os pacientes atendidos estava Raimundo Pereira da Silva. Para ele, a oferta do serviço pela rede pública representa uma oportunidade para pessoas que não teriam condições financeiras de custear consultas e cirurgias particulares.

“É muito bom, muito bom, né?! Muitas pessoas que não teriam condições de pagar uma consulta de vista ou fazer uma cirurgia. Eu tenho um salário, mas é comprometido por tanta despesa. Então, isso foi bem-vindo, ajudando a gente que não tem condição”, relatou.

A paciente Maria do Socorro Santos também destacou a organização e o acolhimento oferecidos durante a ação.

“Vixe Maria! Que nem o Roberto Costa não tem. Teve lanche, tem tudo aqui pra nós. Atendimento aqui, tudo maravilhoso”, afirmou.

Acesso pelas Unidades Básicas de Saúde

Um dos pontos destacados pela Prefeitura é a forma de acesso ao programa. As inscrições foram realizadas diretamente nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs) mais próximas das residências dos pacientes, permitindo organizar a demanda e facilitar o atendimento da população.

Após a inscrição, os pacientes passam pelas etapas de avaliação e triagem médica. Aqueles que apresentam indicação para cirurgia são encaminhados para o procedimento, conforme os critérios clínicos definidos pelas equipes responsáveis.

De acordo com Roberto Costa, a cirurgia de catarata continua entre as principais demandas oftalmológicas do município, especialmente pelo custo elevado do procedimento na rede particular.

“Nós fazemos diversos mutirões de outras cirurgias, de consultas com especialistas, mas a grande demanda que nós temos na cidade ainda é a cirurgia de catarata, principalmente pelo custo elevado dela na rede privada. Uma cirurgia dessa custa R$ 7 mil, R$ 8 mil, R$ 9 mil, R$ 10 mil, e claro que a grande maioria da população, mesmo sofrendo dessa situação, não tem condições”, explicou.

Cirurgias serão realizadas em agosto

Com a conclusão da triagem e a identificação dos pacientes com indicação cirúrgica, a próxima etapa do Programa Amor no Olhar será a realização dos procedimentos.

As cirurgias de catarata e pterígio estão programadas para os dias 21, 22 e 23 de agosto, dando continuidade ao mutirão que busca ampliar o acesso da população bacabalense à assistência oftalmológica especializada.

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

CRÔNICA DO DIA: Cânticos entre Tesouras

O salão de beleza de dona Eunice, em Pindaré-Mirim, não tinha o nome pomposo de um spa ou as luzes de LED dos grandes centros. Era um cômodo simples, conectado à sala de sua casa, onde o perfume de creme de pentear se misturava ao cheiro constante de café torrado na hora. No fundo, um rádio a pilha tocava hinos da harpa cristã em volume baixo, uma trilha sonora que parecia embalar não apenas o corte das tesouras, mas também as confidências que cruzavam o ambiente.

Eunice limpava a tesoura com um lenço de algodão, olhando pelo espelho uma cliente habitual, Marlene, que esperava o tempo da tintura agir.

Marlene tinha o olhar carregado de quem carregava problemas de adultério e dívidas que não cessavam.

O salão, para Eunice, nunca fora apenas sobre cabelo. Era um confessionário de aço e plástico. Ela acreditava firmemente que a beleza de uma mulher não terminava na raiz dos fios; começava exatamente onde a angústia encontrava uma escuta atenta.

— Você está muito quieta hoje, Marlene. A própria Bíblia diz que há tempo para tudo, e se o seu coração está pesado, é porque ele está cheio demais de coisas que não lhe pertencem .— Disse Eunice, com a autoridade de quem, durante anos, havia trilhado os caminhos da fé para curar as próprias rachaduras na alma.

Marlene soltou um suspiro longo, que parecia arrastar consigo toda a exaustão da semana.

 — É o desgaste, Eunice. Parece que, quanto mais eu oro, mais as muralhas aparecem. Meu marido não me escuta, as contas não fecham e a sensação é de que Deus está em silêncio.

               Eunice sorriu, um sorriso amplo e acolhedor, enquanto aplicava um pouco de reparador de pontas nos cabelos de Marlene. Ela sabia bem o que era o silêncio de Deus. Viver a fé evangélica em uma cidade como Pindaré-Mirim, onde as dificuldades da vida são tão palpáveis quanto o calor do meio-dia, exigia mais do que palavras bonitas; exigia prática. A fé não estava no púlpito da igreja aos domingos; estava ali, naquele salão, no ato de ouvir sem julgar a história de queda e ascensão de cada vizinha.

— Deus não está em silêncio, Marlene. Ele está na paciência. Às vezes, a nossa maior luta é aprender a esperar a resposta no tempo que não é o nosso. — Eunice começou a pentear os fios com delicadeza. — O erro é achar que a fé tem que resolver o mundo num passe de mágica. A fé te dá a força para aguentar o soco e ainda assim manter a cabeça erguida.

O sino preso à porta anunciou outra cliente. Era Neide, conhecida na vila pelo temperamento afiado. Sentou-se sem cumprimentar ninguém e jogou a bolsa sobre a cadeira.

— Só aparar as pontas. E, por favor, sem sermão hoje. Já basta o pastor no domingo.

O salão silenciou por um instante. Marlene abaixou os olhos. O rádio continuava a tocar um hino baixinho, quase como se não quisesse interferir.

Neide olhou para o aparelho e bufou.

— Esse povo vive dizendo que Deus resolve tudo. Resolve o quê? Meu marido morreu de câncer, meu filho foi embora e nunca mais deu notícia. Eu orei até perder a voz. Se Deus escutou, resolveu ficar calado.

As palavras ficaram suspensas no ar, mais cortantes que qualquer tesoura.

Eunice não respondeu imediatamente. Enrolou a capa no pescoço da cliente, borrifou um pouco de água sobre os cabelos e começou a penteá-los devagar.

— Sabe por que eu nunca desligo esse rádio? Não é porque minha vida seja bonita. É porque, nos dias em que eu também acho que Deus está longe, alguém canta por mim.

Neide permaneceu em silêncio.

— A fé não impede que a gente enterre quem ama. Também não paga boletos nem devolve filhos perdidos. Mas impede que a dor enterre a gente  primeiro.

A cliente desviou o olhar para o espelho, seus olhos marejaram.

— Faz tempo que ninguém me escuta sem querer me convencer de alguma coisa.

Eunice sorriu discretamente.

— Então hoje não vamos discutir Deus. Hoje vamos cuidar desse cabelo. Amanhã, se Ele quiser, a conversa continua.

O rádio seguiu tocando, e,  naquela tarde, ninguém mais  sentiu necessidade de dizer mais nada. O silêncio já fazia o trabalho que as palavras não conseguiam fazer.

Enquanto a tesoura movia-se com precisão, cortando pontas duplas, a conversa fluía para outros tópicos: a escola dos filhos, a situação da rua, as dificuldades da vizinhança. O salão era um refúgio da solidão que muitas daquelas mulheres evangélicas enfrentavam em suas casas. Ali, elas eram donas de si, tratadas com o carinho que a rotina do serviço doméstico ou do trabalho braçal muitas vezes roubava. Eunice era a pastora daquelas vidas sem necessariamente precisar de um título oficial. Ela exercia o ministério da escuta.

Uma moça mais jovem, recém-chegada à vila, entrou para fazer a sobrancelha. Estava visivelmente nervosa, segurando uma pequena bíblia de bolso com força. Ela observou Eunice conversando com Marlene e sentiu-se confortável para se abrir sobre suas dúvidas quanto a uma decisão que precisava tomar sobre um emprego em outra cidade. Eunice, sem interromper o trabalho, a intercalar frases sobre o dever do cristão com conselhos práticos sobre como gerir o próprio dinheiro e cuidar de sua independência.

Para Eunice, ser evangélica era exatamente isso: transformar o Evangelho em um manual de conduta prática para a vida. Não era sobre proibições ou sobre o medo do inferno, mas sobre a construção de uma dignidade que começava na forma como a mulher se via no espelho. Se a mulher se sentisse amada por Deus, ela trataria a si mesma com mais respeito, exigiria mais do marido, investiria mais na educação dos filhos e não se deixaria abater pelas circunstâncias da vila.

Ao final da tarde, a última cliente despediu-se com um abraço demorado. O rádio ainda deixava escapar um louvor antigo, misturando-se ao canto dos bem-te-vis que anunciavam o fim do dia. Eunice fechou a janela, recolheu as xícaras de café esquecidas sobre a bancada e passou a vassoura lentamente pelo piso.

Pequenos montes de cabelos formavam desenhos irregulares no chão: fios grisalhos, cacheados, lisos, tingidos, negros como a noite ou dourados pelo sol. Cada mecha parecia guardar um pedaço da história de quem havia passado por ali naquela tarde.

Ela juntou tudo na pá, caminhou até a porta e, antes de apagar a luz, desligou o rádio. O silêncio entrou devagar no salão. Eunice voltou os olhos para o monte de cabelos que ainda esperava para ser levado ao lixo.

Ali ficavam apenas fios. As dores, quase sempre, iam embora penteadas. Ela fechou a porta sem pressa. Do lado de dentro permanecia o cheiro de café recém-passado e de creme de pentear. Do lado de fora, a noite caía sobre Pindaré-Mirim. Amanhã outras mulheres chegariam trazendo novas aflições, e ela sabia que nem sempre teria respostas. Ainda assim, haveria uma cadeira vazia, uma tesoura afiada, um ouvido atento e uma esperança insistindo em nascer entre um corte de cabelo e outro.

José Casanova 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CRÔNICA DO DIA:O Jaleco e o Coração


O corredor do setor de oncologia do hospital em Fortaleza tinha um cheiro peculiar, uma mistura de antissépticos cítricos e o odor metálico e seco da esperança que se esgota. Dra. Clara ajustou o jaleco, prendendo o estetoscópio ao redor do pescoço com um gesto mecânico. Havia uma linha tênue, quase  invisível, entre o profissionalismo que a ciência exigia e o abismo emocional que cada prontuário carregava. Ela fechou os olhos por um segundo, respirando fundo, processando o protocolo que estava prestes a entregar para a paciente do leito 402: um estágio avançado, uma metástase que rastejava pelo corpo com a crueldade que só o câncer conhecia.

Entrar naquele quarto era entrar em um território onde as palavras de ordem não eram "cura" ou "dose", mas "acolhimento". Dona Vilma, uma professora aposentada que ainda guardava o hábito de corrigir a gramática dos enfermeiros, aguardava com o olhar fixo na janela por onde se via o sol estalando nos coqueiros da orla.

— Doutora. — Disse ela, com a voz embargada pela secura dos quimioterápicos.  — Eu não quero saber quanto tempo me resta. Quero saber se vou conseguir ir ao aniversário da minha neta no próximo sábado.

Clara sentou-se na cadeira de plástico, ignorando a postura ereta que a medicina a ensinara a manter para impor autoridade. Ela não era autoridade ali; era uma testemunha.

— Nós vamos ajustar a medicação de suporte para controlar a dor e o edema, Dona Vilma. Não vou mentir: o esforço é grande. Mas se o seu desejo é estar lá, nós faremos desse seu desejo o nosso objetivo clínico para esta semana.

Ciência e empatia não eram polos opostos no consultório de Clara; eram, na verdade, as duas pernas sobre as quais caminhava sua prática. Havia quem dissesse que se envolver demais era um erro fatal para o médico, um desgaste que levava ao esgotamento. Clara, contudo, achava o oposto: era a frieza que exauria. O custo de ser humano não era nada comparado ao custo de se tornar um autômato de jaleco branco, ignorando as cicatrizes na alma de quem enfrentava o fim.

O dia seguiu num fluxo de decisões técnicas: protocolos de infusão, ajustes de morfina, pedidos de exames. Em cada etapa, ela era confrontada com a finitude. Fortaleza, lá fora, seguia seu passo frenético, mas ali, dentro daquelas quatro paredes, o tempo tinha uma régua diferente. Ela viu mulheres que, diante da sentença de morte, redescobriram artes, perdões e vozes que haviam calado por décadas.

Certa manhã, ao entrar em um dos quartos, Clara encontrou sobre a mesa de cabeceira uma folha de papel coberta por pinceladas de aquarela. Era um desenho simples: um jardim, uma casa de janelas azuis e duas crianças correndo de mãos dadas. Ao lado, repousava um pincel ainda úmido.

Foi a senhora quem pintou? — Perguntou Clara, aproximando-se.

A paciente sorriu com um brilho sereno nos olhos.

Voltei a pintar depois de quarenta anos. Achei que nunca mais teria tempo. Engraçado... precisei descobrir que o tempo era curto para lembrar do que eu amava fazer.

Clara permaneceu alguns instantes olhando o desenho. Não havia ali qualquer técnica extraordinária. Havia vida. Havia memória transformada em cor.

Antes de deixar o quarto, a paciente acrescentou, quase num sussurro:

Se eu não conseguir terminar este quadro, minha filha termina por mim. O importante é que ele já começou.

Clara saiu em silêncio, levando consigo a certeza de que existiam curas que não apareciam nos exames nem cabiam nos prontuários. Viu famílias se despedaçarem e outras se unirem com uma força que nenhuma tomografia era capaz de captar.

Já ao fim da tarde, Clara encontrou um momento de paz na copa do setor. O cansaço físico era uma torrente, mas sua mente estava voltada para uma paciente jovem, cujo diagnóstico chegara na semana anterior. O dilema era constante: quanto da dor do outro ela devia carregar para casa? Havia um limite para a humanização quando os recursos da ciência se mostravam insuficientes?

Ela lembrou-se das palavras de uma preceptora, anos atrás: "A medicina cura às vezes, alivia frequentemente e consola sempre". Consolar, percebeu ela, não era dar respostas, mas simplesmente estar presente quando as respostas já não existiam mais. Não era sobre prolongar a vida por um mês a qualquer preço, mas sobre dar qualidade ao sopro que restava.

Ao sair do hospital, o sol de Fortaleza já descia, pintando o céu em tons de brasas. Clara caminhou até o estacionamento sentindo o peso do jaleco, que parecia mais pesado do que quando chegara pela manhã. Era o peso das histórias que ela abrigava, das lágrimas que secou e das mãos que segurou nos instantes finais. Ela percebeu que sua profissão não era apenas sobre deter a morte; era sobre garantir que, durante o tempo que houvesse, a dignidade fosse a norma.

Ela entrou no carro e, por um momento, permaneceu parada, olhando para a estrutura do hospital que se espelhava no vidro.

Ela acomodou a bolsa no banco do passageiro, colocou a chave na ignição e girou-a apenas o suficiente para acender o painel. O motor, porém, permaneceu em silêncio. Seus olhos pousaram sobre uma folha de papel presa sob o para-sol.

Era um desenho antigo, já um pouco amassado nas bordas pelo tempo.  Uma casa de telhado vermelho, um sol enorme ocupando quase metade da folha e, ao lado de uma mulher de jaleco branco, uma criança de mãos dadas com ela. No canto, escrito com letras irregulares, havia apenas:

"Para a doutora Clara."

Ela retirou o papel com cuidado, como quem toca uma lembrança que ainda respira. Observou o desenho durante alguns segundos. Um sorriso discreto lhe atravessou o rosto. Não havia fotografias, notícias ou qualquer outra lembrança que explicasse o destino daquela criança. Apenas aquele pedaço de papel que o tempo insistira em preservar.

Clara passou delicadamente os dedos sobre a dobra da folha, respirou fundo e tornou a guardá-la no mesmo lugar. Só então ligou o carro. Enquanto o motor despertava, ela compreendeu que alguns pacientes deixavam o hospital levando parte do tratamento. Outros, sem perceber, deixavam com ela pequenos fragmentos de humanidade que nenhuma faculdade ensinava a acolher e que nenhum jaleco conseguia esconder.

A ciência era a ferramenta, o bisturi, o fármaco, a tecnologia de ponta; mas o coração era o único instrumento capaz de traduzir aquela técnica em conforto. Amanhã haveria outros leitos, outros nomes, outros diagnósticos. Mas, por hoje, ela fizera o seu melhor, não apenas como oncologista que monitorava células malignas, mas como alguém que entendia que, no delicado limiar entre o jaleco e o coração, a medicina atingia seu ápice não quando derrotava a morte, mas quando conseguia, finalmente, olhar nos olhos de quem partia e validar a beleza do que foi vivido.

José Casanova 

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

CRÔNICA DO DIA : O Falso Cristianismo na Política Brasileira

     

Há cenas da política brasileira que parecem escritas por um cronista de humor ácido. O plenário está cheio. Microfones ligados. Câmeras apontadas. Vereadores, Deputados e senadores ocupam seus lugares. Alguém se levanta porque foi convidado pela presidência da casa, abre a Bíblia e faz uma leitura bíblica antes do início da sessão. Por alguns minutos, reina uma espécie de solenidade. Fala-se em Deus. Pede-se sabedoria. Invoca-se a paz. Talvez alguém mencione amor ao próximo.Então a Bíblia é fechada. E começa a sessão.

    Cinco minutos depois, aquilo que parecia uma cerimônia religiosa transforma-se em ringue verbal. Parlamentares trocam acusações, levantam a voz, interrompem-se, chamam uns aos outros de mentirosos, fofoqueiros, ladrões, incompetentes, fracos. O adversário deixa de ser um cidadão que pensa diferente e passa a ser tratado como inimigo.

    É quando a Bíblia parece permanecer sobre a mesa, enquanto seus ensinamentos são expulsos pela porta. Não há problema algum em um parlamentar professar sua fé. A liberdade religiosa é um dos pilares de uma sociedade democrática. O problema está em transformar a fé em cenário, ritual obrigatório de aparência ou instrumento de manipulação política.

    Porque existe uma diferença enorme entre ter fé e usar a fé. A primeira transforma a pessoa. A segunda pode transformar o eleitor em instrumento.

    O que deveria ser um momento de reflexão acaba, muitas vezes, funcionando como uma espécie de verniz moral. Lê-se um versículo para depois agir como se ele não tivesse sido lido. É como lavar as mãos antes de sujá-las. E talvez seja justamente essa contradição que mais deveria incomodar.

    Não porque a política deva ser silenciosa diante da religião. Pelo contrário. O parlamentar tem todo o direito de acreditar, rezar, citar a Bíblia e buscar nela inspiração para sua vida pública. Mas a Bíblia não deveria servir como salvo-conduto para a grosseria. Nenhum versículo transforma ofensa em argumento. Nenhuma oração santifica uma mentira. Nenhum discurso sobre Deus absolve automaticamente a corrupção. Nenhuma citação bíblica concede ao político o direito de humilhar o adversário.

    E certamente nenhuma leitura religiosa deveria ser utilizada para convencer o eleitor de que determinado grupo político possui uma espécie de certificado divino de superioridade moral. O fenômeno é perigoso porque a fé, para milhões de brasileiros, não é apenas uma opinião. É território sagrado. É memória de mãe, conselho de avó, oração antes de dormir, promessa feita em momento de desespero, esperança guardada quando quase tudo parece perdido.

    Quem manipula essa fé sabe disso. Sabe que o eleitor religioso pode não enxergar apenas um candidato diante de si. Pode enxergar alguém que se apresenta como defensor de Deus, da família, da moral e dos bons costumes. E, quando a política veste uma fantasia religiosa, qualquer crítica ao político pode ser apresentada como crítica à própria fé.

    É aí que a democracia começa a respirar com dificuldade. O adversário político deixa de ser adversário. Torna-se inimigo de Deus. A divergência vira pecado. A oposição vira perseguição. A pergunta vira afronta. A crítica vira heresia.

    E o debate democrático, que deveria ser construído com argumentos, passa a ser disputado com dogmas. É uma forma particularmente perigosa de manipulação porque não procura convencer apenas a razão. Procura sequestrar a consciência. O parlamentar diz: "Deus está conosco". 

    Mas quem autorizou alguém a falar em nome de Deus para ganhar uma disputa política? Deus não participa de bancada. Não assina requerimento. Não pede voto. Não precisa de líder partidário. E, principalmente, não deveria ser transformado em cabo eleitoral.

    A cena do plenário revela uma ironia quase perfeita: abre-se a sessão com uma leitura que fala de amor, justiça ou sabedoria e, poucos minutos depois, os mesmos homens e mulheres que ouviram aquelas palavras começam a se comportar como se Deus tivesse deixado o recinto pela porta dos fundos.

    Talvez a pergunta mais importante não seja: "Quem leu a Bíblia?" Mas: "Quem conseguiu levar aquela leitura para dentro das próprias atitudes?" Porque ler a Bíblia é fácil. Difícil é praticá-la quando o adversário está diante de nós. É fácil falar em amor ao próximo quando o próximo concorda conosco. Difícil é respeitá-lo quando ele pensa diferente. É fácil defender a paz diante das câmeras.nDifícil é controlar a língua quando o plenário ferve.

    É fácil pedir sabedoria a Deus. Difícil é reconhecer que podemos estar errados. É fácil falar de honestidade. Difícil é permitir que a transparência alcance também os próprios interesses.

    A política precisa de ética, mas a ética não pode ser terceirizada para a religião.

    O Estado democrático não precisa saber qual político reza mais. Precisa saber quem cumpre a lei, respeita as instituições, administra corretamente o dinheiro público e trata o cidadão com dignidade.

    O eleitor também precisa desconfiar de quem usa Deus como argumento para escapar da crítica.

    Porque uma democracia saudável não precisa de políticos santos. Precisa de políticos responsáveis. Não precisamos eleger apóstolos. Precisamos eleger representantes. E talvez esteja na hora de deixar a Bíblia fazer aquilo que uma Bíblia deveria fazer: provocar consciência, não fabricar votos.

    Que ela permaneça aberta sobre a mesa, sim.  Mas que suas palavras atravessem a mesa, atravessem o microfone e cheguem até o comportamento de quem ocupa o plenário. Caso contrário, a leitura bíblica corre o risco de se transformar apenas em ritual. Uma espécie de prólogo religioso para uma peça política na qual, cinco minutos depois, entram em cena os gritos, as acusações, os insultos e as velhas guerras de sempre.

    Há algo profundamente triste nessa imagem. A Bíblia aberta. A consciência fechada. E a democracia pagando a conta.

José Casanova 
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista 
Membro da Academia Bacabalense de Letras 
Academia Mundial de Letras da Humanidade 

Sessão da Câmara de Bacabal aprova mudança de nomes de escolas e tem bate-boca entre vereadores


 A sessão da Câmara Municipal foi marcada por debates, manifestações dos vereadores e um momento de tensão entre os parlamentares Romarinho( UNIÃO ) e Cândido de Madureira (UNIÃO). A reunião também teve como um dos principais destaques a apreciação de um projeto de autoria do Poder Executivo que propõe mudanças nos nomes de diversas escolas do município.

Os trabalhos foram iniciados com a abertura da sessão pela presidente da Casa, seguida da leitura bíblica, realizada pelo vereador Feitosa. Na sequência, Reginaldo do Posto fez a leitura da ata da sessão anterior. Após a leitura da ordem do dia, os vereadores passaram às discussões das matérias em pauta.

Fizeram uso da palavra os vereadores Cândido de Madureira, Bertulino, Fernando da Luciana, Jairo Lira, Romário Alves, Professor Amaninho, Serafim Reis, Padeiro e Sobrinho Veloso.

Entre as matérias que chamaram atenção esteve o projeto encaminhado pelo Poder Executivo que modifica a denominação de várias unidades escolares que atualmente levam nomes de pessoas vivas. A proposta provocou discussões no plenário e se tornou um dos assuntos de maior repercussão da sessão.

Discussão entre vereadores

O momento mais tenso ocorreu durante a manifestação do vereador Romarinho, que levou ao plenário um problema de natureza pessoal envolvendo o vereador Cândido de Madureira. Durante sua fala, Romarinho adotou tom considerado agressivo e fez acusações contra o colega, utilizando, entre outras expressões, o termo "fofoqueiro".

Cândido de Madureira teve direito de resposta e contestou as declarações. O vereador afirmou que Romarinho terá de provar na Justiça as acusações feitas contra ele.

Apesar do confronto verbal, Cândido encerrou sua manifestação em tom conciliador. Depois de rebater as acusações, pediu perdão ao colega caso o tenha ofendido em alguma ocasião e declarou que ama Romarinho, numa demonstração de que, apesar das divergências políticas e pessoais, o diálogo ainda pode prevalecer.

O episódio acabou se tornando um dos principais assuntos da sessão, expondo as contradições próprias do ambiente parlamentar, onde opiniões divergentes, interesses políticos e relações pessoais frequentemente se encontram no mesmo espaço.

Entre debates, cobranças, divergências e momentos de tensão, a sessão mostrou também uma das características mais marcantes da vida parlamentar: a convivência entre o conflito e o diálogo. Afinal, a democracia permite a divergência, mas exige que ela encontre caminhos para retornar ao campo do respeito e das instituições.











quarta-feira, 12 de agosto de 2026

CRÔNICA DO DIA: Giz e Esperança

Em 1988, o calor da sala de aula no Colégio Lêda Tajra em Bacabal era mais do que uma condição do tempo. Era um personagem invisível, instalado entre as carteiras, que parecia desafiar cada tentativa de transformar palavras em aprendizado. Marta observava seus trinta alunos, rostos jovens que oscilavam entre a apatia do cansaço e a energia inquieta de quem não via sentido no que estava escrito no quadro negro. O ventilador, pendurado por um único parafuso que insistia em desafiar a gravidade, girava num ritmo que mais parecia uma contagem regressiva para o colapso.

Ela segurou o giz, um toco branco e quebradiço que sujava seus dedos com um pó fino. Escreveu o nome de Clarice Lispector. O traço saiu trêmulo, não pela falta de habilidade, mas pela dúvida que a acompanhava todos os dias: como convencer jovens que mal tinham acesso a uma biblioteca pública de que a literatura não era um privilégio de elite, mas algo urgente e vital?

— Professora, pra que a gente vai ler isso? — Graciano um dos rapazes, sentado no fundo, comentou sem sequer levantar a cabeça da mesa cheia de sulcos de caneta. — Isso não enche barriga.

Marta sentiu o peso das palavras, um reconhecimento amargo da realidade que cercava aquela escola. Ela poderia ter respondido com os manuais de pedagogia que estudou na faculdade, falando sobre a importância da formação crítica e do repertório cultural. Mas, naquele momento, as teorias pareciam tão distantes quanto as prateleiras luxuosas das livrarias que ela, em seus dias de miséria docente, apenas olhava através dos vidros nos shoppings.

— Encher a barriga é o primeiro passo. — Respondeu ela, virando-se para a turma com uma voz que forçou a ser calma, apesar do aperto no peito. — Mas o que a gente lê aqui é o que vai impedir que o mundo nos convença de que a barriga, ou a falta dela, é a única coisa que a gente tem. Se vocês não souberem nomear o que sentem, alguém vai escolher os nomes por vocês. E, acreditem, eles não vão ser gentis.

Ela não tinha livros suficientes. A biblioteca da escola era um cômodo trancado, com prateleiras ocupadas por manuais didáticos desatualizados e três volumes empoeirados de literatura clássica. O que ela tinha eram impressões feitas em um papel reciclado, gasto, que ela pagava com seu próprio salário. Marta distribuía aquele material como se fossem joias, observando, com o coração na mão, as reações.

A vocação da mulher na educação pública em Bacabal, ela descobria diariamente, era uma forma de malabarismo ético. Ela era, ao mesmo tempo, educadora, assistente social, mediadora de conflitos e, frequentemente, o único adulto na vida daqueles jovens que acreditava que a capacidade intelectual deles não era condicionada pelo CEP onde moravam. Havia momentos em que a exaustão a dominava, quando ela chegava em casa e o cheiro de giz impregnado nos poros parecia o símbolo de uma derrota pessoal. Mas, então, ela lembrava de Lucilene, uma aluna do fundo da fila, que começara a trazer seus próprios escritos em um caderno de folhas amareladas.

Naquela tarde, enquanto a chuva começava a bater no telhado, criando um ruído que obrigava todos a falarem mais alto, Lucilene se aproximou. Ela entregou um papel dobrado, um poema que falava sobre a seca e sobre a vontade de ir embora, mas que terminava com uma imagem surpreendente sobre as sementes que, mesmo ignoradas, teimavam em brotar no concreto.

Ao ler aquelas linhas, Marta sentiu uma onda de força. Era por isso. Não era para seguir o currículo engessado pelo Estado, nem para cumprir as horas de uma grade que ignorava a realidade daquelas crianças. Era para ser o canal desse broto. Ali, naquele momento, o giz e o suor, a falta de verbas e o descaso institucional, tudo se fundia. Ela percebia que o seu papel ia muito além de ensinar os tempos verbais; era a construção de uma trincheira de humanidade.

Marta guardou o poema na bolsa, ao lado do giz quebrado. O barulho do zinco pela chuva ficava mais forte, mas ela não se incomodava mais com o calor ou com o improviso daquela escola. Ela olhou para Lucilene, que a observava com uma expectativa silenciosa, e percebeu que, enquanto houvesse um pedaço de giz em sua mão e uma mente disposta a registrar suas próprias dores, a literatura em Bacabal nunca seria um artigo de luxo. Ela seria, como sempre fora, a ferramenta mais poderosa de sobrevivência. Marta  pegou o apagador e limpou o quadro negro. Amanhã, ela escreveria novos nomes, novas ideias, novos caminhos, sabendo que, embora o sistema insistisse em negligenciar aquelas paredes, a esperança ali dentro estava apenas começando a aprender como se ler.

José Casanova 

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

CRÔNICA DO DIA: Dia do Estudante

 

Wladimir desconfiava de certas palavras.  Democracia era uma delas. Parecia uma palavra grande demais para caber na boca de um estudante que ainda precisava pedir autorização para sair da sala. Havia também cidadania, igualdade, oportunidade, futuro. Palavras bonitas, algumas com cheiro de discurso de formatura, mas que ganhavam outro peso quando atravessavam o portão da escola e encontravam a vida como ela era. Na semana do Dia do Estudante, a diretora pediu que cada turma apresentasse uma sugestão para a comemoração.

A maioria sugeriu música. Alguns pediram campeonato. Um grupo queria liberar o uniforme. Wladimir levantou a mão.

— E se a gente fizer uma assembleia?

A sala ficou em silêncio. Não porque a ideia fosse ruim. Talvez porque assembleia fosse uma palavra que assustasse mais do que prova surpresa. Vinícius, sentado na última carteira, levantou os olhos do celular.

— Assembleia para quê?

— Para os estudantes dizerem o que pensam.

Vinícius riu.

— E desde quando estudante pensa?

Alguns riram,  a turma toda. Wladimir não.

— Desde antes de você aprender a rir.

A gargalhada morreu pela metade. A professora tentou esconder o sorriso. Foi assim que começou. Não com uma bandeira. Não com um discurso. Começou com uma provocação.

Wladimir  tinha dezoito anos e uma coleção de inquietações que não cabia na mochila. Morava longe da escola Padre João Mohana, dividia o quarto com dois irmãos e aprendera cedo que alguns sonhos precisam fazer hora extra para sobreviver.

Queria cursar Direito, mas não lhe agradava a ideia de usar terno . Gostava da ideia de conhecer as leis que tantas vezes pareciam escritas para pessoas que nunca haviam conhecido sua rua Naquela época, ele ainda acreditava que bastava estudar muito. Depois descobriria que estudar muito ajuda. Mas nem sempre basta. Foi Jéssica quem lhe ensinou isso.

Ela era uma das melhores alunas da turma. Lia rápido, escrevia melhor ainda e tinha uma mania de guardar palavras difíceis num caderno como quem colecionava pequenas ferramentas para o futuro.

Um dia, porém, apareceu na escola com os olhos vermelhos.

— Vou sair.

Wladimir  pensou que ela estivesse brincando.

— Sair da escola? — Quis saber Wladimir.

— Minha mãe precisa que eu trabalhe.

Naquela noite, Jéssica chegou em casa e encontrou a mãe sentada à mesa, separando algumas moedas ao lado de uma conta de energia vencida. Havia outras contas dobradas debaixo de um copo, como se esconder o papel pudesse esconder também a dívida. A televisão estava ligada, mas ninguém prestava atenção.

Jéssica deixou a mochila no canto e ficou alguns segundos olhando para o uniforme pendurado atrás da porta. A camisa branca ainda guardava uma pequena mancha de tinta da aula de Português. Passou a mão sobre o tecido.

— Mãe...

A mulher levantou os olhos.

— O que foi?

Jéssica hesitou.

— Acho que vou procurar trabalho.

A mãe não respondeu imediatamente. Continuou separando as moedas, empurrando umas para perto das outras como quem tentava fazer o pouco parecer suficiente.

— E a escola?

Jéssica olhou novamente para o uniforme.

— A escola pode esperar.

A mãe parou de contar.

— O problema é que a vida também não espera.

Jéssica baixou os olhos, o uniforme pareceu pesar mais do que a mochila.

Não houve discurso. Nenhuma frase bonita seria capaz de pagar uma conta.

Wladimir  ficou sabendo do Pé-de-Meia naquela tarde. Pesquisou, perguntou, levou informações para Jéssica e descobriu que uma política pública pode parecer abstrata até chegar ao quarto de uma estudante que está prestes a abandonar os livros para ajudar a pagar as despesas de casa.

Jéssica continuou estudando. Não porque o dinheiro tivesse resolvido sua vida. Mas porque, por alguns instantes, o futuro deixou de parecer tão caro.

Na semana seguinte, Wladimir  levou outro assunto para a reunião do grupo que pretendia formar o Grêmio Estudantil. Cotas universitárias. Vinícius quase caiu da cadeira.

— Lá vem essa história de privilégio.

— Privilégio para quem?

— Para quem entra pelas cotas. — Afirmou Vinícius.

Wladimir olhou para ele.

— Você sabe como funciona?

Vinícius hesitou e respondeu:

— Mais ou menos.

— Então vamos discutir depois que você souber.

Foi uma frase simples. Mas a escola descobriu que discutir com informação dá mais trabalho do que discutir com preconceito.

Vieram gráficos. Vieram histórias. Vieram perguntas. Vieram também brigas.

Um estudante dizia que todos deveriam competir em condições iguais. Esses não compreendiam ainda que os ancestrais dos jovens negros e pardos , não receberam nenhuma indenização por terem construído o Brasil com o trabalho escravo, que a alforria os jogou nas ruas e pendurados nos morros sem acesso à educação e moradia.Cota é reparação.

Uma menina respondeu:

— O problema é que nem todos começam do mesmo lugar.

Outro perguntou:

— Então igualdade não serve?

Wladimir  respondeu:

— Serve. Mas, às vezes, tratar desigualmente quem vive em desigualdade é justamente o caminho para produzir igualdade.

A sala ficou quieta. Vinícius não concordou. Mas, pela primeira vez, não teve uma resposta pronta. E talvez fosse exatamente aí que começasse a educação. Não quando alguém aprende a repetir uma resposta. Mas quando descobre que precisa fazer outra pergunta.

A eleição do Grêmio foi marcada para uma sexta-feira. Houve duas chapas.

Uma queria organizar festas, torneios e eventos. A outra, liderada por Wladimir, queria discutir também biblioteca, inclusão, permanência escolar, racismo, transporte, saúde mental, acesso à universidade e participação dos estudantes nas decisões da escola.

Um colega disse:

— Vocês estão transformando o Grêmio em política.

Wladimir respondeu:

— O Grêmio sempre foi política. Só não perceberam porque confundiram política com partido.

A eleição foi apertada. Wladimir venceu por poucos votos. Na segunda-feira, descobriu a parte menos romântica da democracia. As pessoas cobravam. Uma turma queria ar-condicionado. Outra queria mais livros. Os estudantes do turno da noite reclamavam da iluminação na saída. Uma aluna cadeirante apontou dificuldades de acessibilidade. Uma menina denunciou que era interrompida pelos colegas sempre que tentava falar Um grupo queria discutir racismo. Outro queria discutir violência contra as mulheres. Wladimir anotava tudo. A folha foi ficando cheia. Percebeu, então, que representar pessoas era carregar problemas que não eram apenas seus. Naquela noite, chegou em casa cansado.

A mãe perguntou:

— E aí, presidente?

Wladimir largou a mochila.

— Não sei se quero mais ser presidente.

Ela sorriu.

— Por quê?

— Porque todo mundo quer alguma coisa.

— Isso é ruim?

Wladimir pensou antes de responder:

— Não. Só é pesado.

A mãe colocou o café na mesa.

— Então você está aprendendo.

Ele olhou para ela.

— Aprendendo o quê?

— A saber como se sente o filho de dona Lundu. Que liderança não é mandar nos outros. É aguentar o peso de ouvir.

Wladimir não respondeu. Guardou aquela frase. Algumas mães ensinam sem abrir livro.

O Dia do Estudante chegou. A escola estava cheia. No pátio, havia música, cartazes, apresentações e uma faixa enorme produzida pelo Grêmio:

“NENHUM FUTURO É JUSTO QUANDO OPORTUNIDADE É PRIVILÉGIO.”

A diretora chamou Wladimir para falar. Ele subiu ao pequeno palco. Olhou para os colegas. Não tinha discurso pronto. Tinha apenas algumas folhas amassadas.

Começou:

— Ser estudante é uma coisa estranha.

Alguns riram.

— A gente é cobrado como adulto e, muitas vezes, tratado como criança. Dizem que somos o futuro, mas nem sempre perguntam o que precisamos no presente.

O pátio silenciou.

— Falam de educação de qualidade como se qualidade fosse apenas ter uma boa nota. Mas educação de qualidade também é ter professor valorizado, escola estruturada, biblioteca funcionando, acessibilidade, alimentação, permanência e condições para aprender.

Jéssica estava na primeira Wladimir continuou:

— Falam em igualdade. Mas igualdade de oportunidade não significa fingir que todos começam do mesmo lugar. Significa criar condições para que aqueles que historicamente ficaram para trás também possam chegar.

Vinícius levantou os olhos.Wladimir o viu.

— As cotas não são o fim da discussão. São parte de uma tentativa de corrigir desigualdades que não nasceram ontem. O Pé-de-Meia também não resolve todos os problemas. Mas ajudar um jovem a permanecer estudando pode significar impedir que uma necessidade de hoje mate um sonho de amanhã.

Uma professora enxugou discretamente os olhos. Wladimir respirou.

— E existe uma coisa que ninguém pode nos dar de presente: a democracia.

Dessa vez, ninguém se mexeu.

— Democracia precisa ser praticada. Na escola, no Grêmio, na assembleia, na sala de aula, na rua. Ela começa quando aprendemos a discordar sem transformar o outro em inimigo. Quando conseguimos ouvir uma ideia que não é nossa. Quando entendemos que o direito de falar também inclui o direito de ouvir.

Vinícius levantou-se. Alguns acharam que ele fosse interromper. Ele apenas bateu palmas. Depois vieram os outros. Wladimir desceu do palco sem saber se havia feito um bom discurso. Talvez tivesse falado demais. Talvez tivesse esquecido alguma coisa. Mas percebeu uma coisa. Ninguém havia saído dali pensando exatamente igual. E isso, de certa maneira, era uma vitória.

No final da tarde, ele encontrou Vinícius sentado sozinho na arquibancada da quadra.

— Ainda acha que cotas são privilégio?

Vinícius demorou a responder.

— Ainda tenho dúvidas.

Wladimir sorriu.

— Então estamos avançando.

— Como assim?

— Antes você tinha certeza.

Vinícius soltou uma gargalhada e falou:

— Você é insuportável.

— Um insuportável Presidente do Grêmio. — Falou Wladimir.

— Exatamente.

Riram juntos e depois os dois ficaram em silêncio.

No pátio, Jéssica ajudava a recolher os cartazes. A faixa da democracia começava a se soltar de uma parede. Uma ponta caiu sobre o chão e ficou ali, dobrada, cobrindo parcialmente a palavra futuro.

Wladimir se abaixou. Pegou a faixa Alisou o papel e depois tornou a prendê-la.

Talvez fosse isso que os estudantes precisassem aprender. Que algumas coisas não permanecem no lugar sozinhas. Democracia precisa ser presa novamente quando o vento arranca. Direitos precisam ser defendidos quando alguém tenta apagá-los. Oportunidades precisam ser ampliadas quando a desigualdade fecha as portas. E educação precisa ser muito mais que uma passagem para o mercado de trabalho. Precisa ser passagem para a dignidade.

Wladimir colocou a última fita adesiva na parede. Deu dois passos para trás.

Leu novamente:

NENHUM FUTURO É JUSTO QUANDO OPORTUNIDADE É PRIVILÉGIO.

Pensou na Jéssica. Pensou em Vinícius. Pensou nele mesmo. E compreendeu que talvez o Dia do Estudante não devesse ser apenas uma data para lembrar que existem estudantes. Deveria servir para lembrar que existem sonhos esperando condições para crescer. Porque estudante não é apenas aquele que senta numa carteira, copia uma lição e responde à chamada. Estudante é aquele que aprende a ler o mundo depois de aprender a ler as palavras. E, quando aprende de verdade, começa a perceber uma coisa perigosa: o mundo não é uma coisa pronta.

Pode ser questionado. Pode ser transformado. Pode ser reescrito. Às vezes, a primeira palavra dessa reescrita é apenas o nome de um estudante.

José Casanova 
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista 
Membro da Academia Bacabalense de Letras 
Academia Mundial de Letras da Humanidade