A UNEGRO APOIA O BLOG DIÁRIO DO MEARIM

PONHA AQUI A PROPAGANDA DE SUA EMPRESA

Roberto Costa é eleito presidente da FAMEM para o biênio 2025/2026

FAMEN coloca Bacabal e Roberto Costa em evidência

Flamengo pode ter mudança diante do Bangu em São Luís

Técnico Cléber do Santos pode apostar em trio de ataque nesta noite no Castelão.

Sessão Solene na Câmara Municipal de Bacabal Celebra o Dia Internacional da Mulher

Vereadoras Nathália Duda e Regilda Santos conduzem Sessão Solene

terça-feira, 31 de março de 2026

CRÔNICA DO DIA: A Rebelião dos Personagens Silenciosos




Em Alto Alegre, a noite cai como um pano de veludo pesado, abafando os sons do mundo visível para dar voz ao invisível. Juvenal, escritor de província e criador de destinos fictícios, estava sentado à sua mesa de madeira bruta, única herança de um avô que nunca lera um livro. Diante dele, uma pilha de papéis amarelados pelo tempo e pela umidade parecia respirar. Juvenal não estava louco, ou pelo menos era o que repetia para si mesmo enquanto observava o fenômeno: a tinta de sua caneta tinteiro, que deveria estar seca há dias no capítulo cinco, parecia fresca, úmida, como se acabasse de ser tocada.

Ele aproximou a lamparina. O cheiro de querosene misturou-se ao odor adocicado de papel velho.

Na página 42, ele havia escrito: "Maria das Dores, mulher de poucas palavras e muitos silêncios, aceitou o destino de solidão imposto pela seca." Era uma frase segura, literária, com a dose certa de fatalismo nordestino que os críticos do sul adoravam.

Mas a frase não estava mais lá.

No lugar dela, com uma letra que imitava a sua, mas com uma inclinação mais agressiva, estava escrito: "Maria das Dores pegou o facão e decidiu que a solidão não era destino, era escolha. E que a seca ia ter que esperar, porque ela tinha contas a acertar."

Juvenal recuou, derrubando a cadeira. O barulho ecoou na casa vazia, assustando uma lagartixa que corria pela parede caiada.

— Quem está aí? — Perguntou ele, sentindo-se ridículo.

Ninguém respondeu. Apenas o vento nas palhas da cobertura.

Ele pegou a folha com as mãos trêmulas. A tinta estava realmente fresca. Maria das Dores, a personagem que ele construíra com tanto cuidado para ser uma vítima passiva do drama rural, estava reescrevendo sua própria história. Era uma rebelião silenciosa, operada nas entrelinhas, nos espaços em branco que ele, autor negligente, deixara sem vigilância.

Folheou o restante do manuscrito. O coronel Firmino, que deveria morrer de ataque cardíaco no capítulo dez, agora aparecia negociando terras com uma astúcia que Juvenal jamais imaginara para ele. O padre, que seria um alcoólatra em crise de fé, estava organizando uma quermesse para arrecadar fundos para uma escola.

Os personagens estavam roubando a narrativa.

Juvenal sentiu uma mistura de pânico e fascínio. A autoridade do autor, aquela onipotência divina que lhe permitia matar, casar e destruir mundos com uma frase, estava sendo usurpada. Ele não era mais o deus daquela história; era apenas o escrivão, o datilógrafo de vontades alheias que ganharam corpo no papel.

Pegou a caneta. Precisava retomar o controle. Riscou a frase de Maria das Dores. Escreveu por cima, com força, rasgando o papel: "Maria chorou. Chorou até secar."

Satisfeito, foi até a cozinha beber água. A água do pote de barro estava fresca. Quando voltou, o coração quase parou.

A frase que ele acabara de escrever estava riscada. E logo abaixo, em letras garrafais: "Maria não chora mais. Maria afia."

Ele soltou a caneta. Era inútil. Eles eram mais fortes. Eles viviam dentro da história, respiravam o ar fictício de Alto Alegre, sofriam o calor que ele apenas descrevia. Eles tinham a urgência da existência, enquanto ele tinha apenas a vaidade da criação.

Sentou-se no chão, encostado na parede fria.

O que é um personagem, afinal? É um fantasma que o autor invoca? Ou é uma semente que, uma vez plantada no solo fértil da imaginação, cresce segundo suas próprias leis botânicas, ignorando a cerca que o jardineiro construiu? Juvenal percebeu que seu erro fora subestimar a vida que ele mesmo semeara. Ele criara aquelas pessoas, dera-lhes nomes, passados, traumas. E agora, como filhos ingratos, elas exigiam o direito de escolher o próprio futuro.

Olhou para a mesa. O manuscrito parecia vibrar.

Se ele quisesse terminar o livro, teria que negociar. Não podia mais ditar. Teria que ouvir. A autoridade absoluta do escritor é uma ilusão totalitária. A verdadeira literatura é uma democracia caótica onde o autor tem apenas o voto de Minerva, e mesmo assim, corre o risco de ser deposto por um golpe de estado protagonizado por seus próprios adjetivos.

Levantou-se, resignado. Pegou a cadeira caída e sentou-se novamente à frente do papel.

— O que você quer fazer com o facão, Maria? — Perguntou ele em voz alta para a sala vazia.

Esperou.

A caneta em sua mão começou a se mover, guiada por uma força que não vinha de seu cérebro, mas talvez de algum lugar mais profundo, de uma memória ancestral que ele compartilhava com aquela mulher imaginária.

"Cortar o caminho," escreveu a mão, trêmula mas decidida. "Cortar a cerca. Ir embora."

Juvenal sorriu, um sorriso triste de pai que vê o filho sair de casa. Era um final melhor do que o que ele planejara. A solidão passiva era clichê; a fuga ativa era revolução.

Ele continuou a escrever, agora apenas seguindo o fluxo, deixando que Maria, Firmino e o padre ditassem o ritmo. A noite em Alto Alegre avançava, e o escritor, destronado de seu posto de criador supremo, descobriu a liberdade paradoxal de ser apenas uma testemunha. A história não era dele. Nunca fora. Ele era apenas o meio, o canal, a estrada de terra batida por onde aqueles destinos passavam, levantando poeira e seguindo em frente, para longe de sua caneta e para dentro da vida que ele, ironicamente, lhes dera mas não podia controlar.

Por José Casanova
Professor, Jornalista e Escritor e Cronista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academmia Mundial de Letras da Humanidade

segunda-feira, 30 de março de 2026

II Encontro da Academia Vianense de Letras Juvenil celebra diálogo entre linguagens e gerações

A palavra encontrou a imagem, e juntas desenharam um sábado de intensa efervescência cultural na cidade de Viana. Foi nesse cenário que a Academia Vianense de Letras Juvenil realizou, no último sábado (28), o II Encontro da instituição, reunindo escritores, estudantes e amantes da literatura em torno do tema “Relações entre imagem e texto”.

O evento aconteceu na sede da Academia Vianense de Letras e teve início com uma acolhida calorosa aos participantes, criando um ambiente propício ao diálogo e à troca de saberes. A programação foi aberta com a palestra do professor Joaquim Gomes, que conduziu reflexões sobre as múltiplas formas de interação entre linguagem visual e escrita, despertando o olhar crítico do público presente.

Ao longo do dia, a agenda se desdobrou em uma rica variedade de atividades. Oficinas temáticas e bate-papos literários conduziram os participantes por trilhas que iam desde a leitura crítica da poesia até análises das letras da música popular brasileira, revelando como versos cantados também carregam densidade estética e social.

Um dos pontos altos do encontro foi a participação ativa dos jovens, que transformaram o espaço em um verdadeiro laboratório criativo. Entre críticas literárias e performances autorais, eles deram voz a novas perspectivas, mostrando que a literatura segue pulsando nas mãos das novas gerações.

O evento também contou com a presença do presidente da FALMA, o escritor César Brito, reforçando a importância da integração entre as academias literárias do estado. Para ele, iniciativas como essa fortalecem o movimento cultural e ampliam os horizontes da produção literária no Maranhão.

Em tom de reconhecimento, o poetas Toninho Rabelos destacou a relevância do encontro: “Parabéns ao nosso presidente, em nome de quem estendo aos demais. Encontro muito produtivo, uma excelente oportunidade de troca de experiência e crescimento de todos”, afirmou.

Entre palavras que ganhavam forma e imagens que contavam histórias, o II Encontro da Academia Vianense de Letras Juvenil consolidou-se como um espaço de encontro entre linguagens, gerações e ideias, um verdadeiro mosaico cultural onde cada participante ajudou a compor uma narrativa coletiva marcada pelo aprendizado e pela inspiração.











domingo, 29 de março de 2026

FALMA e ABL prestigiam posse de novos acadêmicos em Chapadinha



Na noite desta sexta-feira (27), a cidade de Chapadinha viveu um daqueles momentos em que a palavra ganha traje de gala e a cultura se senta à mesa principal. A Câmara Municipal sediou a  Sessão Solene de Posse dos novos acadêmicos da Academia de Letras, Artes e Ciências de Chapadinha, reunindo autoridades, escritores e representantes de importantes instituições literárias do estado.

Entre os convidados de destaque, marcaram presença a Federação das Academias de Letras do Maranhão e a Academia Bacabalense de Letras, represetadas por César Brito e José Casanova seus respectivos presidentes, reforçando os laços que costuram o tecido cultural maranhense com linhas de cooperação, incentivo e valorização da produção intelectual.

A solenidade teve início às 20h, sob clima de entusiasmo e reverência. Foi conduzida com desenvoltura pelo presidente da casa, o escritor Telmo José Mendes, que imprimiu ao ato solene um ritmo seguro e elegante, como quem rege uma orquestra onde cada palavra encontra seu tempo exato. Cada novo acadêmico foi chamado a ocupar sua cadeira, símbolo não apenas de pertencimento, mas de compromisso com a literatura, as artes e as ciências. Em discursos marcados por emoção e responsabilidade, os empossados destacaram o papel transformador da cultura e o desafio de manter viva a chama do conhecimento em tempos de dispersão digital.

Representando a FALMA,o Presidente César Brito ressaltou a importância da interiorização das academias de letras, ampliando o acesso à cultura e promovendo o intercâmbio entre diferentes regiões do Maranhão. Já o presidente  da ABL de Bacabal José Casanova levou à cerimônia não apenas sua presença institucional, mas também o espírito de uma academia que tem se destacado pela atuação ativa na promoção de eventos literários e formação de novos leitores.

A Sessão Solene foi marcada ainda por momentos simbólicos, como a entrega de diplomas, medalhas, pereline e a saudação oficial aos novos imortais, que agora passam a integrar o seleto quadro da academia chapadinhense. O público presente acompanhou atentamente cada etapa da cerimônia, numa demonstração de respeito e valorização da cultura local.

Mais do que uma formalidade, a posse representou um pacto coletivo com a palavra, essa entidade invisível que, quando bem cultivada, é capaz de atravessar gerações e transformar realidades.

Ao final da noite, ficou a sensação de que Chapadinha não apenas recebeu novos acadêmicos, mas também reafirmou seu lugar no mapa cultural do Maranhão, onde letras, artes e saberes continuam encontrando abrigo e eco.