O papel na mesa de madeira rústica, sob a luz amarela da
lâmpada de teto, parecia uma extensão desconhecida do mundo. Dona Sebastiana,
aos setenta anos, observava o vazio do caderno universitário como quem encara
uma floresta virgem. Em Viana, a vida sempre lhe exigiu muito das mãos ; a
enxada, a lavagem de roupas no rio, o preparo da farinha , mas nunca havia exigido a marcação linear da
mente sobre a pele de celulose.
Seus dedos, tortos por décadas de lida e pela artrite que
insistia em reclamar cada vez que o tempo mudava, seguravam o lápis como se
fosse uma ferramenta de precisão
proibida.
Ela não queria ler por necessidade documental. O filho mais
velho, que vivia em outra cidade, enviara um tablet meses atrás, mas para ela,
aquele vidro negro não tinha alma. Ela queria ler porque o silêncio de suas
tardes estava ficando preenchido apenas por sombras, e ela sentia que havia
palavras presas na garganta que ainda não haviam se transformado em rabiscos.
— O "A" não é difícil, dona Sebastiana. — Disse Marina, a neta de dez anos que,
pacientemente, exercia o papel de tutora. — É só subir, descer e fazer a ponte
no meio.
Sebastiana concentrou-se. A subida foi vacilante, a descida
quase se perdeu nas fibras do papel.
Quando finalmente conectou os pontos e o desenho se formou,
ela soltou um suspiro involuntário, como se tivesse desatado um nó que
carregava desde a infância. Naquele instante, as letras não eram apenas
fonemas; eram os nomes de tudo o que ela tinha vivido sem nunca ter nomeado. A
erva que curava o estômago, o nome da rua onde nasceu, a saudade do marido
falecido que ela antes apenas sentia, mas nunca pôde registrar.
As expectativas da vila eram rudes para com as mulheres de
sua idade. O papel da anciã em Viana era o da colher de pau, da reza forte e do
silêncio reverente sobre o que passou. Ninguém esperava que uma mulher de
setenta anos buscasse o alfabeto. "Para que se estressar com isso
agora?", alguns vizinhos perguntavam, os olhos velados por um preconceito
que tratava a velhice como uma antessala da inutilidade.
Numa manhã
de calor espesso, Sebastiana estudava sentada na varanda, o caderno apoiado
sobre uma pequena mesa de madeira. A ponta do lápis avançava devagar,
desenhando mais uma vez as letras do alfabeto, quando uma vizinha diminuiu o
passo diante do portão.
— Agora? Depois de velha? Isso não enche
panela. Papagaio velho não aprende a falar!
Sebastiana ergueu os olhos por um instante.
Não havia irritação nem vergonha em seu rosto. Apenas voltou ao caderno, como
quem já aprendera que certas palavras merecem o silêncio como resposta.
Com mão trêmula, traçou novamente a letra M. A primeira haste saiu
torta; a segunda encontrou equilíbrio. Depois vieram o ã e o e. Quando terminou,
contemplou demoradamente a pequena palavra escrita diante de si: mãe.
Naquele instante, compreendeu que algumas
panelas alimentam o corpo, mas certas palavras alimentam a alma. Depois de muitos anos, sentiu que a fome que carregava
desde menina começava, enfim, a ser saciada.
Ela ouvia, mas não escutava. Aos setenta anos, ela havia
aprendido o valor do desapego ao julgamento dos outros. Seus olhos, embora
cansados, viam com uma nitidez que a juventude desperdiçava.
Naquela semana, a evolução foi lenta. Cada letra nova era
uma conquista sobre o tempo. A cada sessão de estudo, Sebastiana sentia que o
mundo, antes fechado em sua própria experiência limitada, começava a se abrir
em novas frestas. Ela lia as placas de trânsito ao ir à feira, decifrava os
rótulos dos remédios, e a sensação de autonomia era como uma segunda juventude,
porém muito mais lúcida.
Não era a pressa das vontades, mas a calma da compreensão.
Certa tarde, Mariana lia um livro de contos regionais para
ela. Sebastiana parou a neta em um parágrafo específico.
— Repete essa linha de novo, menina. — Pediu Sebastiana.
A menina leu. E Sebastiana percebeu que as palavras que ela
via no livro tinham uma conexão ancestral com o que a vida lhe contara. Ela entendeu,
com uma clareza que só o envelhecimento permite, que a sabedoria não está em
acumular anos, mas em conseguir descrever a própria jornada. Ela começou a
exercitar a escrita de curtas frases. "A vida é um rio que corre para o mar".
"A farinha é doce na paz". Ela não estava mais escrevendo apenas
letras; estava reescrevendo a si mesma.
A idade tornara-se, para ela, não uma limitação, mas um
filtro de urgência. O que ela não aprendera na infância por carência de escola,
ela se dava de presente como quem colhe um fruto tardio e, por ser tardio,
muito mais saboroso. A resistência ao tempo tornou-se o seu maior ato de
rebeldia. Ela, que sempre fora mulher de terra e sol, agora era também mulher
de luz e pena.
Quando o sol de Viana se punha no horizonte, tingindo o céu
de um violeta profundo, ela se sentava na varanda com seu caderno. Os vizinhos passavam
e, em vez de verem apenas uma velha sentada na rede, viam uma mulher que se
negava a ser esquecida pela história. Ela olhou para o próprio nome escrito na
capa do caderno com letras grandes, um pouco irregulares, mas inegavelmente suas e sentiu um orgulho que não lhe cabia no peito.
Ao
fechar o caderno, percebeu que o lápis já não era o mesmo. Restava apenas um
pequeno toco de madeira, arredondado pelos dedos e gasto por tantas tentativas,
erros e descobertas. Sorriu ao segurá-lo entre as mãos. Pensou que também a
vida lhe havia aparado as arestas, consumido parte da força e deixado marcas
que o tempo não apagaria. Ainda assim, era justamente aquele pequeno pedaço de
lápis que escrevera as palavras mais importantes de sua existência.
Compreendeu, então, que algumas coisas diminuem apenas por fora. Por dentro,
tornam-se maiores. Assim eram o lápis e ela: quanto mais o tempo os consumia,
mais significado eram capazes de produzir.
Aos setenta anos, a
vida deixara de ser uma sucessão de dias iguais para se tornar um livro. E ela,
agora estava escrevendo o final de sua própria história, compreendendo que,
enquanto houvesse o interesse em aprender, o tempo nunca seria um obstáculo,
mas apenas o cenário necessário para que a sabedoria encontrasse seu lugar de
fala, de escrita e de existência plena.
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade





























