quinta-feira, 17 de setembro de 2026
CRÔNICA DO DIA: A Despedida de Junho
terça-feira, 15 de setembro de 2026
CRÔNICA DO DIA: O Acaso não Existe
O asfalto mudo de Brasília, com suas curvas largas
e monumentais, não parece ter o mesmo hálito que o chão de terra batida de
Bacabal, no interior do Maranhão. No entanto, o vento que sopra entre os eixos
da capital federal carrega a mesma poeira invisível de mistério que envolve as
palmeiras de babaçu. Quando caminhamos pelas ruas de São Luís, os azulejos
antigos das fachadas parecem nos observar, guardando histórias de séculos que
se entrelaçam aos passos apressados de quem hoje busca apenas o próximo ônibus.
Muitas
vezes, acreditamos piamente que o curso de nossas vidas é fruto exclusivo de
escolhas conscientes, de planos traçados em agendas de couro ou em aplicativos
de celular. Mas há uma força silenciosa, uma engenharia invisível que opera nos
bastidores, rearranjando encontros e desencontros com uma precisão que beira o
assustador. Alguns chamam de coincidência; outros, mais prevenidos, preferem
chamar de destino.
A verdade é que nada é isolado. Um atraso de cinco
minutos na saída para o trabalho em São Paulo, aquele semáforo que demora a
abrir na Avenida Paulista, pode ser o responsável por evitar um desastre ou por
colocar você diante da pessoa que mudará o rumo da sua carreira. É curioso
notar como as cidades, por mais distantes que sejam, se conectam por fios
tênues de causalidades humanas.
Fortaleza,
com seu cheiro de maresia e o sol que nunca descansa, abriga vidas que, sem
saber, dependem de um evento ocorrido em uma repartição pública de Brasília ou
de uma conversa de mesa de bar no Maranhão. O cotidiano é uma teia. Cada gesto,
por menor que seja, um olhar trocado na balsa para Alcântara, um pedido de desculpas
em um restaurante lotado é uma peça de dominó que, ao cair, reverbera em locais
que jamais visitaremos.
Observemos o senhor que vende tapioca na orla. Para
ele, o dia é apenas mais uma jornada de trabalho sob o sol. Mas, para a jovem
que parou ali por estar com fome após uma entrevista de emprego frustrada,
aquele breve diálogo sobre o tempo pode ser o alento necessário para que ela
não desista e decida caminhar mais dois quarteirões, onde verá um anúncio de
vaga que será o início de sua ascensão profissional. O acaso, se é que ele
existe, é um mestre disfarçado de trivialidade. Ele não se apresenta com
trombetas ou luzes neon; ele prefere o anonimato das pequenas coisas, o salto
que se quebra no momento errado, o guarda-chuva esquecido que obriga alguém a
se abrigar sob o mesmo toldo que um desconhecido.
A vida não é uma linha reta, mas um emaranhado de
curvas que se cruzam e se afastam conforme uma geometria própria. Muitas vezes,
olhamos para trás e tentamos encontrar uma lógica em nossas trajetórias.
"Se eu não tivesse pego aquele voo...", pensamos. Ou "se eu não
tivesse aceitado aquele convite...". O exercício de imaginar o que poderia
ter sido é fascinante, mas ignora o fato de que as peças já estão em movimento.
Não somos
apenas os jogadores; somos também as peças de um tabuleiro vasto demais para a
nossa compreensão imediata. O destino se manifesta na capacidade de transformar
o improvável em rotina e o extraordinário em uma terça-feira comum em qualquer
uma dessas metrópoles brasileiras.
Em Bacabal, o silêncio da noite é diferente do
silêncio de Brasília. No Maranhão, o silêncio é preenchido pelo som dos grilos
e pelo murmúrio das conversas nas calçadas, onde o tempo parece passar mais
devagar, permitindo que as conexões humanas sejam saboreadas com a calma de um
café passado na hora. Em São Paulo, o silêncio é uma raridade, um luxo
conquistado em fones de ouvido no meio do metrô, onde milhões de destinos se
esbarram sem se ver, como átomos em uma reação química prestes a explodir.
No entanto, em ambos os lugares, a mesma regra se
aplica: a vida está constantemente conspirando para que as histórias se
completem. Um drama que começa no coração do cerrado pode encontrar seu
desfecho nas praias do Ceará, impulsionado por uma série de eventos que, vistos
individualmente, parecem não ter sentido, mas que, no conjunto, formam um
mosaico perfeito.
É preciso ter bom senso para enxergar essas tramas.
Não se trata de misticismo barato, mas de uma observação atenta da realidade.
Quem nunca sentiu aquele frio na espinha ao perceber que estava no lugar certo,
na hora exata, para testemunhar algo que parecia destinado apenas aos seus
olhos? Ou aquela sensação de que um estranho cruzou seu caminho apenas para lhe
entregar uma palavra que era exatamente o que você precisava ouvir?
Essas
situações são os lembretes de que a autonomia que tanto pregamos é, em parte,
uma ilusão necessária para mantermos a sanidade. No fundo, somos todos
personagens de uma crônica maior, escrita por uma mão que não conhecemos, mas
cujos parágrafos sentimos na pele a cada reviravolta.
Interessante é pensar nas figuras que compõem esse
cenário. Imagine uma mulher que caminha com a confiança de quem domina o mundo,
os passos marcados pelo ritmo de uma música que só ela ouve, sendo subitamente
interrompida por um imprevisto mecânico de sua própria vestimenta. O que parece
ser um desastre de percurso, um embaraço público sob os holofotes, pode ser, na
verdade, o ponto de inflexão necessário para que ela revele sua verdadeira
força. O brilho excessivo muitas vezes cego, e é no momento da falha, da
vulnerabilidade, que o destino abre uma fresta para que a essência humana
apareça sem filtros. A resiliência não nasce do sucesso contínuo, mas da
capacidade de lidar com o salto que falha justamente quando todos estão
olhando.
As cidades mencionadas : Bacabal, São Luís, Fortaleza,
São Paulo, Brasília são mais que meros
pontos num mapa nesta crônica; elas são organismos vivos que respiram e reagem
às nossas passagens. Elas guardam os segredos de crianças que desapareceram em
meio ao caos urbano e o silêncio ensurdecedor de políticos que, por um golpe do
destino ou uma estranha condição da alma, perderam a capacidade de camuflar a
verdade com mentiras convenientes. Cada uma dessas histórias, por mais
disparatadas que pareçam, está conectada por esse princípio fundamental: o
cotidiano é grávido de significados que raramente paramos para decifrar.
Ao observarmos a vida com esse olhar mais aguçado,
passamos a respeitar os imprevistos. O trânsito parado, a chuva súbita que
estraga o penteado, o erro de digitação que envia um Pix para o destinatário
errado. Em vez de irritação, surge uma curiosidade quase infantil: o que essa
nova rota quer me mostrar? Para onde esse desvio está me levando? A sabedoria
reside em entender que, enquanto tentamos controlar as marés, o mar já decidiu
como nos levar à praia. Às vezes, ele nos joga na areia com violência; outras
vezes, nos conduz suavemente em uma espuma morna. De qualquer forma, chegamos
exatamente onde deveríamos estar, mesmo que não seja onde havíamos planejado.
O tecido da realidade é feito de fibras resistentes
e outras extremamente frágeis. O drama humano é essa constante tentativa de
remendar onde rasgou e de celebrar onde a trama é firme. O destino não é um
destino final, mas o próprio caminho, cheio de conexões que só fazem sentido
quando paramos de lutar contra a correnteza e começamos a observar a beleza do
fluxo.
Essa percepção nos torna mais humanos e,
paradoxalmente, mais humildes. Ao aceitar que não somos os únicos autores de
nossa biografia, passamos a olhar para o outro com mais complacência. Afinal,
aquele desconhecido que nos irrita com sua lentidão pode ser apenas o
instrumento que nos impede de chegar a um perigo logo adiante. Ou aquela pessoa
que nos pede uma informação pode ser o início de um capítulo que ainda não
ousamos imaginar. A vida é esse jogo de espelhos e ecos, onde cada som emitido
em Bacabal pode retornar como uma melodia em São Paulo, e cada lágrima derramada
em Brasília pode encontrar consolo numa manhã ensolarada em Fortaleza.
Estamos todos mergulhados nessa sopa de
causalidades. E é justamente quando os ornamentos do dia a dia falham, quando
os artifícios da nossa imagem pública são postos à prova pela crueza de um
pequeno acidente ou de um grande dilema, que percebemos a engrenagem girando.
Um sapato que falha, uma voz que não mente, um rastro que some, tudo faz parte
de um mesmo enredo. A partir daqui, cada passo será uma descoberta de como o
inesperado tem a chave de todas as portas que julgávamos trancadas. E, ao
aceitarmos que cada tropeço pode ser o início de uma nova dança, estamos
prontos para enfrentar qualquer avenida sob as luzes da cidade.
José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Crônista
Membro da A cademia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade
sábado, 12 de setembro de 2026
CRÔNICA DO DIA: Indepedência ou Master!!!!
Dizem que, às margens do
Ipiranga, Dom Pedro puxou a espada e resolveu o problema com uma frase que
cabia inteira num quadro de escola: “Independência ou Morte!”. A História gosta
dessas cenas arrumadinhas. Um cavalo bonito, o príncipe no centro, meia dúzia
de homens levantando chapéu e pronto: nasceu um país. Na vida real
provavelmente havia poeira, cansaço, roupa suada, cavalo menos fotogênico e
gente sem entender direito o tamanho daquilo.
Mais de duzentos anos depois, o
Brasil continua discutindo sua independência. Só mudou o cenário. Não tem
riacho do Ipiranga. Tem Brasília. Não tem espada. Tem celular apreendido. E, em
vez de “Independência ou Morte”, talvez o grito mais apropriado para estes
tempos fosse outro:
Independência ou Master!
O Banco Master era pequeno quando
comparado ao tamanho do sistema financeiro brasileiro. O próprio Banco Central
informou que o conglomerado representava 0,57% dos ativos do Sistema Financeiro
Nacional quando decretou sua liquidação, em novembro de 2025, apontando grave
crise de liquidez, comprometimento econômico-financeiro e graves violações às
normas do setor. Pequeno no tamanho. Enorme na sombra que deixou.
No primeiro semestre de 2026, o
Fundo Garantidor de Créditos já havia desembolsado R$ 40,2 bilhões para 722 mil
clientes ligados ao conglomerado Master. É dinheiro demais para tratar o
episódio como uma simples história de um banco que fez negócios ruins.
E aí entra Daniel Vorcaro.
Vorcaro talvez venha a ser
lembrado menos como banqueiro e mais como uma espécie de personagem que
descobriu que, em Brasília, uma boa agenda de contatos pode valer quase tanto
quanto um bom balanço. Seu celular virou uma espécie de mapa informal da
República.
Ali aparecem políticos,
ministros, empresários, advogados, intermediários, viagens, reuniões,
mensagens, favores discutidos, contratos e aproximações que atravessam direita,
esquerda e centro com uma desenvoltura que faria qualquer ideólogo ficar
constrangido.
O Master conseguiu uma façanha
tipicamente brasileira: unir adversários.
Não necessariamente no crime é
importante dizer isso. Mas na fotografia desconfortável das relações de poder.
Alexandre de Moraes, por exemplo,
passou a ocupar o centro de uma crise dentro do próprio Supremo depois da
divulgação de mensagens e informações sobre sua relação com Vorcaro.
Reportagens apontaram pelo menos seis encontros entre os dois, sendo que os
primeiros teriam sido articulados pelo ex-ministro Fábio Faria. Também veio à
tona o contrato milionário do Banco Master com o escritório de advocacia de
Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro. O escritório sustenta que os
serviços foram efetivamente prestados, e Moraes afirma que jamais julgou causa
envolvendo o banco.
É exatamente aí que começa o
problema brasileiro. Nem tudo que é legal parece normal.
E nem tudo que parece estranho é
crime. Só que instituições públicas não vivem apenas da legalidade. Vivem
também de confiança.
Dias Toffoli conhece bem esse
desconforto. Foi o primeiro relator do caso Master no Supremo e deixou a
condução do processo em fevereiro. Questionamentos surgiram em torno de
negócios envolvendo empresa de sua família e fundos relacionados ao universo do
Master. Toffoli afirmou que não conhecia os gestores do fundo e negou amizade
ou recebimento de dinheiro de Vorcaro. Depois de sua saída, o processo foi para
André Mendonça.
E então a novela ganhou outro
capítulo.
Mendonça abriu documentos,
manteve outros sob sigilo, entrou em choque com colegas de Supremo e com a
Polícia Federal e chegou a determinar o afastamento de Andrei Rodrigues da
direção-geral da PF, decisão que acabou entrando no centro de outra batalha
institucional. Mendonça sustentou que determinados sigilos eram necessários
para preservar investigações; outros ministros passaram a cobrar acesso mais
amplo ao conteúdo apreendido.
Andrei Rodrigues, por sua vez,
teve o nome citado em mensagens relacionadas ao caso e foi tragado pela guerra
entre gabinetes. Até aqui, a simples menção de seu nome em mensagens de
terceiros não demonstra, por si só, participação irregular. E essa diferença
precisa ser lembrada, principalmente quando o noticiário corre mais rápido que
os processos.
Mas a história não termina no
Supremo. Longe disso.
Ciro Nogueira aparece num dos
capítulos politicamente mais delicados. A Polícia Federal passou a investigar
uma proposta apresentada pelo senador que ampliaria a cobertura do Fundo
Garantidor de Créditos. Segundo a investigação, o texto teria sido produzido
pelo próprio Banco Master e encaminhado a Ciro, que o apresentou. Mensagens
atribuídas a Vorcaro demonstram entusiasmo com a iniciativa. Ciro nega ter
praticado conduta inadequada relacionada ao banco.
Antônio Rueda, presidente do
União Brasil, também entrou no enredo. Documentos enviados pela Receita à CPI
apontaram pagamentos do Master a escritórios ligados a ele. Rueda afirmou ter
prestado serviços advocatícios legítimos ao banco. Seu nome também aparece ao
lado de Ciro em episódios envolvendo deslocamentos de helicóptero ligados a
Vorcaro.
Ibaneis Rocha aparece por outra
porta.
O BRB, banco controlado pelo
governo do Distrito Federal, tentou comprar parte relevante do Master. Vorcaro
declarou à Polícia Federal ter conversado mais de uma vez com Ibaneis sobre a
operação. Isso não significa, automaticamente, que o governador tenha cometido
irregularidade. Significa, porém, que a discussão sobre o Master deixou de ser
apenas bancária há muito tempo. Virou política de Estado, negócio público e problema
institucional.
Fábio Faria, ex-ministro de Jair
Bolsonaro, surge como personagem de bastidor, apontado em mensagens como
articulador dos primeiros contatos entre Vorcaro e Alexandre de Moraes. De
novo: apresentar duas pessoas não é crime. Mas, quando as duas pessoas são um
banqueiro que depois protagonizaria um escândalo financeiro e um ministro do
Supremo, aquilo que parecia apenas networking passa a ser examinado com uma
lupa bem maior.
O bolsonarismo, claro não passou
ileso.
Flávio Bolsonaro entrou formalmente
no radar de uma investigação relacionada ao financiamento do filme Dark
Horse, sobre seu pai, Jair Bolsonaro. A apuração conduzida no contexto do
caso Master investiga suspeitas envolvendo a origem e a circulação desses
recursos. Flávio nega irregularidade e afirma estar tranquilo com a abertura
das informações.
Perceba a beleza quase perversa
da coisa. Tem ministro indicado por governo de esquerda. Tem ministro indicado
por Bolsonaro. Tem dirigente do Centrão. Tem bolsonarista. Tem empresário. Tem
governador. Tem ex-ministro. Tem chefe da Polícia Federal. Tem senador. Se
alguém ainda estiver procurando uma ideologia para o escândalo, talvez esteja
procurando no lugar errado.
O idioma mais falado nesses
ambientes nem sempre é esquerda ou direita.Às vezes é acesso. Acesso ao
gabinete. Acesso ao telefone. Acesso ao jantar. Acesso ao jatinho. Acesso a
quem decide.
E talvez seja justamente aí que
nossa velha Independência de 1822 encontre a Independência de 2026. Dom Pedro
queria romper a dependência de Portugal. O brasileiro de hoje precisa perguntar
se o Estado consegue romper sua dependência das relações pessoais que rondam o
poder. Porque independência institucional não significa ministro sem amigos,
senador sem empresário conhecido ou governador proibido de conversar com
banqueiro. Isso seria infantilidade.
Independência é outra coisa. É
conseguir dizer “não” ao amigo quando o interesse público exige. É investigar
aliado e adversário com a mesma disposição. É não transformar telefone pessoal
em atalho para instituição pública. É não confundir advocacia com influência,
influência com amizade, amizade com favor e favor com política de Estado.
Principalmente: independência é
fazer tudo isso sem escolher previamente quem será culpado e quem será
inocentado. O Brasil já sofreu demais com investigações que começaram pela
conclusão.
O caso Master precisa terminar em
provas, processos, defesa e julgamento, não em torcida organizada. Talvez essa seja a
parte mais incômoda. Vorcaro pode acabar sendo apenas o personagem que abriu
uma janela. E o que apareceu pela janela é maior do que ele.
Apareceu um Brasil em que poder
político, sistema financeiro, advocacia, Judiciário e relações privadas
circulam muitas vezes pelos mesmos salões. Gente que discursa como inimJiga
durante o dia pode acabar dividindo os mesmos interlocutores à noite.
Enquanto isso, do lado de fora
desse mundo, existe o brasileiro comum. Esse não pega jatinho. Pega fila. Não
manda mensagem para ministro. Manda protocolo. Não conhece presidente de
partido. Conhece o gerente do banco, quando consegue falar com ele. Se a
aplicação quebra, ele descobre o significado de FGC. Se o salário não chega ao
fim do mês, ninguém marca jantar em Brasília para resolver.
É por isso que o caso Master
interessa tanto. Não é apenas sobre Daniel Vorcaro. Nem sobre Alexandre de
Moraes, Dias Toffoli, André Mendonça, Andrei Rodrigues, Flávio Bolsonaro, Ciro
Nogueira, Antônio Rueda, Ibaneis Rocha ou Fábio Faria isoladamente.
É sobre a distância entre quem
precisa bater na porta do Estado e quem aparentemente já tem o número do
celular.
Em 1822, a pergunta era se
continuaríamos dependentes de Portugal. Em 2026, a pergunta ficou mais
complicada:
De quem a República precisa
declarar independência?
Do dinheiro?
Dos amigos?
Dos partidos?
Dos banqueiros?
Dos próprios ministros?
Do Trump?
Talvez de todos, quando
necessário. Porque uma República que só consegue ser independente de seus
adversários não é independente. É apenas partidária. E uma Justiça que pesa a
mão conforme o nome do investigado deixa de carregar uma balança para carregar
uma bandeira.
Por isso, diante de tanta
mensagem, contrato, reunião, investigação, helicóptero, gabinete e bilhão
circulando por aí, talvez o Brasil esteja novamente diante do seu Ipiranga. Só
falta decidir qual será o grito.
Independência ou Master? Ou Indepedência
ou morte!
Eu ainda fico com a primeira. Mas
independência de verdade. Inclusive dos nossos amigos.
CRÔNICA DO DIA: Defeito de Caráter
Há dias em que a repartição pública parece
parada no tempo. E há dias em que o tempo para só para assistir ao absurdo
passar pela porta. Na Prefeitura de Babaçulandia, numa manhã dessas, entrou uma
mulher branca com uma pasta debaixo do braço e uma certeza na cabeça: alguém
ali precisava receber o currículo dela. O problema é que não havia ninguém no
setor.
Japi, segurança do prédio, explicou com
educação:
— Minha senhora, o pessoal do setor não
está agora. Se a senhora quiser, pode deixar comigo que eu entrego.
Era uma solução simples. Civilizada. Quase
moderna. Mas a mulher olhou para Japi como quem recebe uma proposta indecente:
— Com você?
Japi olhou para o uniforme. Depois olhou
para ela.
— Comigo. – Confirmou Japi
— Mas você é segurança.
— Até onde eu sei.
Ela apertou a pasta sobre o peito
— Não tem ninguém para receber?
— Agora, não.
— Nenhuma mulher?
— Não.
— Nenhum funcionário?
Japi respirou.
— Eu sou funcionário.
Foi aí que a conversa, que até então
caminhava normalmente, tropeçou na Idade Média. A mulher fez cara de quem estava sendo
obrigada a resolver um mistério administrativo de alta complexidade. Então
perguntou:
— Não tem ninguém branco para me atender?
Pronto. Chegamos. A humanidade inventou
satélites, transplantes, inteligência artificial e até air fryer. Mas ainda tem
gente travada na atualização básica do século XIX. Japi ficou olhando para ela.
— Desculpe? Não ouvi direito.
— Branco. Não tem ninguém branco aqui pra
mim atender? — Insistiu a mulher.
Talvez ela acreditasse que a Prefeitura
funcionasse por tonalidade.
Guichê 1: documentos.
Guichê 2: tributos.
Guichê 3: brancos atendendo brancos.
Japi respondeu:
— Minha senhora, se a senhora não quiser
deixar comigo, pode voltar depois.
Era a chance perfeita de ir embora. Mas há
pessoas que, diante da oportunidade de se calar, entendem como convocação para
discurso. Ela disparou:
— Eu não vou deixar meus documentos com
negro!
O corredor ficou quieto. Silêncio de repartição pública geralmente significa café. Naquele momento significava vergonha alheia.
Japi continuou:
— A senhora está sendo racista.
Ela respondeu com uma das frases
preferidas de todo racista flagrado em pleno expediente:
— Eu não sou racista!
É interessante. Ninguém se declara
racista. O racista pode insultar, humilhar, discriminar, comparar uma pessoa
negra a um animal e ainda assim considerar “racista” uma palavra muito forte.
Ela perdeu o último pedaço de vergonha que ainda carregava.
— Negro! Macaco! – Exclamou a mulher.
O silêncio agora era absoluto. Ela ainda
acrescentou outro insulto, tentando diminuir o homem que estava diante dela.
— E viado também!
Japi ficou imóvel. Não porque não tivesse
resposta. Tinha dezenas. Algumas poderiam custar-lhe o emprego. Outras poderiam
custar-lhe a liberdade. Escolheu a mais difícil.
— A senhora terminou? – Perguntou Japi.
Ela pareceu surpresa.
— O quê?
— Terminou?
— Terminei o quê?
— De mostrar quem a senhora é.
A mulher abriu a boca, mas não respondeu.
Japi apontou para a saída:.
— Pode ir. – Disse Japi indicando a porta
de saída.
— Você está me expulsando?
— Não. Estou apenas lembrando onde fica a
porta.
Ela virou-se furiosa. Antes de sair, ainda
gritou:
— Vou reclamar de você!
Japi respondeu:
— Reclame.
Ela ergueu a pasta.
— Você vai perder esse emprego!
— Talvez.
Ele fez uma pequena pausa.
— Mas minha cor eu não perco!
Ele acabara de ser vítima de dois crimes: Racismo
e homofobia. Leve dois, pague a dignidade. Japi segurou-se. Quem nunca sofreu
esse tipo de agressão talvez pergunte: “Por que ele não respondeu?” Porque,
curiosamente, numa situação dessas, a vítima precisa pensar em tudo. No
emprego. Na família. Nas testemunhas. Na câmera. Na Justiça. Na própria reação.
O agressor, não. O agressor simplesmente
fala. A mulher ainda ameaçou: “ Vou reclamar de você!” Essa parte quase merecia
aplauso. Depois de entrar num prédio público, ofender um trabalhador por causa
da cor da pele e transformar o corredor numa exposição gratuita de preconceito,
ela decidiu que a vítima era o problema.
Ela foi embora. Currículo debaixo do
braço. Educação aparentemente esquecida em casa. A denúncia foi feita. O fato
chegou ao conhecimento de quem deveria tomar providências. E então entrou em
cena uma personagem muito conhecida da vida brasileira: a senhora Burocracia. Aquela
que anda devagar. Principalmente quando o problema aconteceu com os outros. Com os mais humildes.
Disseram que iam verificar. Analisar. Apurar.
Conversar. Avaliar e outros verbos de primeira conulgação. Talvez até constituir uma comissão para decidir se seria
necessário decidir alguma coisa. Enquanto isso, Japi voltou ao trabalho. Porque
essa é outra especialidade brasileira. A vítima sofre na terça e bate ponto na
quarta.
Dias depois, alguém apareceu com um papel
na mão.
— Japi, lembra daquela mulher?
— Qual?
— A do currículo.
Ele riu.
— Infelizmente.
O funcionário explicou:
— O currículo dela acabou chegando ao
setor.
Japi arregalou os olhos.
— Como?
— Encontraram depois e encaminharam.
— E aí?
— Analisaram.
— E?
— Chamaram para entrevista.
Japi encostou no balcão.
— Rapaz, esse mundo gosta de piada.
Na mesma manhã, eis que a mulher
reapareceu. A pasta. O salto. A cara. Mas a coragem estava uns três números
menor. Ela se aproximou. Japi estava no mesmo lugar. Ela olhou para ele. Ele
olhou para ela. Silêncio. Dessa vez não perguntou se havia alguém
branco disponível. Uma funcionária saiu de uma sala.
— Senhora, pode entrar. É para a vaga da
recepção.
A mulher sorriu. Vaga de emprego tem esse
efeito democrático. Faz até arrogância esperar ser chamada. Antes de entrar,
perguntou:
— E se eu for contratada, quem vai me
orientar?
A funcionária respondeu naturalmente:
— Japi.
A mulher congelou.
— Ele?
— Ele. – Confirmo a recepcionista.
— O segurança? O porteiro?
— O funcionário. Ele conhece praticamente
tudo aqui.
Japi levantou-se. Olhou para ela. E disse:
— Se precisar, posso ajudar.
Ela não respondeu. Talvez naquele momento
tenha descoberto que a vida possui um setor de protocolo próprio. E não adianta
reclamar no balcão. Há currículos que contam cursos. Há currículos que contam
experiências. Há currículos cheios de certificados. Mas existe uma informação
que nenhuma folha de papel consegue esconder por muito tempo: como a pessoa
trata quem ela acredita não poder fazer nada por ela.
A mulher foi à Prefeitura tentar entregar
um currículo. No fim, quem entregou alguma coisa foi ela. Entregou preconceito.
Arrogância. Ignorância. E uma bela demonstração de caráter. Quanto à vaga, não
sei dizer se conseguiu. Mas, naquela manhã, uma entrevista já tinha acontecido
no corredor. E nela, sem banca examinadora, sem prova escrita e sem direito a
recurso, alguém havia sido reprovado.
Não era Japi.
quinta-feira, 10 de setembro de 2026
Sessão da Câmara de Bacabal é marcada por debate político entre vereadores
quarta-feira, 9 de setembro de 2026
CRÔNICA DO DIA: Reunião dos Pais
Na Escola Municipal Poeta Samuel Barreto, em Pedreiras, reunião de pais nunca foi exatamente uma reunião. Era mais parecido com sessão da Câmara, programa de auditório e julgamento de tribunal, tudo ao mesmo tempo. Naquela terça-feira, às seis da tarde, a diretora, dona Marinalva, já estava na porta da sala dos professores segurando uma pasta azul, três folhas de frequência e a pouca paciência que ainda lhe restava.
A
pauta da reunião era simples de explicar e difícil de resolver: havia alunos do
6º e do 7º ano que ainda apresentavam sérias dificuldades de leitura e escrita.
Dona Marinalva pediu silêncio.
—
Boa noite a todos. Chamamos os senhores responsáveis porque precisamos
conversar sobre a aprendizagem dos nossos alunos.
Do
fundo da sala, seu Raimundo, pai de Wescleyson, levantou a mão.
—
Diretora, antes de começar, tem café?
—
Tem ali na mesa. – Respondeu a diretora.
—
Então pode continuar.
A
professora de Português, dona Cláudia, começou a apresentar os dados.
—
Temos estudantes no 6º ano que ainda não conseguem ler pequenos textos com
fluência. Outros têm dificuldade para escrever frases completas.
A
mãe de Juninho, dona Socorro, arregalou os olhos:
—
Mas como assim não sabe ler? Meu menino passa o dia no celular!
A
professora respirou fundo.
—
Justamente, dona Socorro. Ele lê mensagens?
—
Não. Ele manda áudio.
A
coordenadora pedagógica, professora Lúcia, tentou não rir.
— E
quando recebe mensagem escrita?
—
Manda áudio perguntando o que foi que a pessoa escreveu.
Nesse
momento, algumas mães começaram a cochichar. Seu João não conseguiu segurar uma
gaitada. Seu Raimundo resolveu
participar novamente.
— No
meu tempo era diferente. A gente aprendia na base da cartilha, da tabuada e do
medo. – Afirmo Raimundo.
—
Medo de quê? — Perguntou a professora.
— Da
professora com a Palmatória.
Dona
Cláudia ajeitou os óculos.
—
Hoje a educação trabalha com outros princípios.
—
Pois esses princípios tão muito tranquilos .— Respondeu seu Raimundo. — Porque
o Wescleyson não tem medo nem de mim!
Foi
então que entrou dona Creuza, avó de uma aluna do 7º ano. A sala inteira se
virou. Dona Creuza tinha aproximadamente sessenta e muitos anos, embora
afirmasse ter cinquenta e dois desde 2010. Chegou com uma calça tão apertada
que parecia ter sido pintada, uma blusa cheia de brilho, salto alto e um
perfume que entrou na sala uns três segundos antes dela. Atrás vinha dona
Neide, outra avó, usando óculos escuros, apesar de já ser noite. A coordenadora
perguntou:
—
Dona Neide, está tudo bem com seus olhos?
—
Tá, minha filha. É estilo.
As
duas sentaram na primeira fila. Uma mãe comentou baixinho:
—
Rapaz, as avós estão mais periguetes que
as netas.
Dona
Creuza ouviu.
—
Minha filha, envelhecer é obrigatório. Se acabar, não.
Dona
Neide completou:
— Eu
vim pra reunião, não pro velório.
A
diretora bateu a caneta na mesa.
—
Gente, vamos voltar à pauta.
A
professora Cláudia mostrou uma atividade feita pelos alunos.
—
Pedi que eles escrevessem uma pequena redação sobre a família.
Dona
Socorro ficou animada.
—
Juninho falou de mim?
A
professora consultou a folha.
—
Falou.
— O
que ele escreveu? – Quis saber dona Socorro.
A
professora hesitou.
—
“Minha mãe é uma pessoa muito legal.”
Dona
Socorro sorriu.
— Tá
vendo?
— Só
que ele escreveu “minha mãe é uma peçoa muito legau”. – Respondeu a professora
escrevendo a frase no quadro branco.
O
sorriso desapareceu.
— Aí
já é culpa da escola. Foi o suficiente. Começou o temporal.
— A
escola tem que ensinar! — Falou a mãe do Allafy.
—
Professor hoje não quer mais Trabalhar! — Exclamou a vó de Débora.
— No
nosso tempo a gente aprendia! – Afirmou o pai de João Pedro.
—
Meu filho tira nota boa no TikTok! – Disse a mãe de kairon.
— O
meu sabe mexer em celular melhor do que eu!
— Gabou-se a vó de Pedro Henrique.
A
professora Cláudia levantou a voz.
—
Pais, nós estamos ensinando! Mas a educação precisa continuar em casa.
Seu
Raimundo cruzou os braços:
—
Professora, eu trabalho o dia inteiro.
— Eu
também. — Respondeu dona Socorro.
Dona
Creuza levantou a mão.
— Eu
posso ajudar minha neta.
A
professora sorriu.
—
Ótimo, dona Creuza. A senhora costuma ler com ela?
—
Leio.
—
Que tipo de texto?
—
Comentário de Facebook.
A
coordenadora colocou a mão na testa. Dona Creuza continuou:
— E
vou lhe dizer uma coisa: tem comentário que precisa de três professores de
Português e um advogado pra entender.
A
sala caiu na gargalhada. Depois de alguns minutos, a diretora conseguiu
reorganizar a reunião.
—
Vamos procurar soluções. A escola está propondo um projeto de reforço de
leitura e escrita.
A
professora Lúcia apresentou as ideias:
—
Teremos oficinas de leitura, produção de texto, jogos de palavras, biblioteca
itinerante e acompanhamento individual dos alunos com mais dificuldade.
Dona
Neide levantou a mão.
—
Pode botar competição?
—
Como assim?
—
Quem ler mais ganha prêmio.
Seu
Raimundo gostou.
—
Boa! – Exclamou seu Raimundo.
A
professora perguntou:
—
Que tipo de prêmio?
Dona
Neide pensou.
— Um
celular.
—
Dona Neide, estamos tentando justamente diminuir o tempo de tela.
—
Então dê um celular sem internet.
Dona
Creuza deu outra ideia:
—
Podia fazer um grupo de leitura com os pais também.
A
diretora ficou surpresa.
—
Excelente ideia!
—
Mas tem que ser de manhã.
—
Por quê?
—
Porque de noite eu tenho meus compromissos.
Ninguém
perguntou quais eram. A professora Cláudia aproveitou o momento de boa vontade
coletiva.
—
Podemos criar também o “Quinze Minutos de Leitura em Família”. Todos os dias,
pais, mães, avós ou responsáveis leem com as crianças por quinze minutos.
Seu
Raimundo arregalou os olhos.
—
Todo dia?
—
Todo dia.
—
Nem academia exige tanto compromisso.
Dona
Socorro reclamou:
— Lá
em casa só tem Bíblia, conta de energia e manual da geladeira.
—
Pode começar pela Bíblia. — Sugeriu a professora.
— A
conta de energia também é boa. — Disse seu Raimundo. — Quando vem alta, a
pessoa lê umas dez vezes tentando acreditar.
A
reunião começou, finalmente, a produzir alguma coisa. Ficou decidido que a escola
faria reforço duas vezes por semana, os professores enviariam atividades
simples para casa e as famílias participariam de momentos de leitura. Quando
todos já estavam mais calmos, a diretora resolveu encerrar.
—
Antes de irmos embora, quero agradecer a presença de todos. Sei que houve
discussões, mas saímos daqui com propostas importantes.
Nesse
instante, um menino apareceu na porta. Era Juninho.
—
Mãe, bora?
Dona
Socorro estranhou.
—
Menino, como tu sabia que eu tava aqui?
Juninho
mostrou o celular.
— A
escola mandou mensagem.
Dona
Socorro olhou para a tela.
— E
tu leu?
—
Não. Pedi pra inteligência artificial ler pra mim.
A
sala ficou em silêncio. A professora Cláudia fechou os olhos. A diretora sentou
novamente. Seu Raimundo pegou outro copo de café. Dona Creuza ajeitou o cabelo
e perguntou:
—
Essa inteligência artificial dá aula particular?
A
coordenadora respirou fundo.
—
Gente… acho que vamos precisar marcar outra reunião.
Seu
Raimundo levantou-se imediatamente.
—
Tem café?
—
Vai ter. – Respondeu diretora
—
Então eu venho.
E
foi assim que terminou a reunião de pais da Escola Poeta Samuel Barreto:
ninguém saiu sabendo exatamente de quem era a culpa, mas todos saíram sabendo
que, na semana seguinte, começaria o projeto de leitura. E dona Creuza saiu com
uma missão especial.
Na
porta, ela pegou emprestado um livro infantil da biblioteca.
A
professora sorriu.
—
Vai ler com sua neta?
—
Vou.
—
Que ótimo!
Dona
Creuza colocou os óculos escuros, mesmo sendo quase oito da noite.
—
Mas primeiro vou ler sozinha.
—
Por quê?
Ela
olhou para a professora e respondeu:
—
Porque se a menina perguntar o significado de alguma palavra e eu não souber,
perco minha autoridade.
E
saiu pelo corredor desfilando com o livro debaixo do braço, provando que,
naquela escola, quem precisava aprender a ler melhor talvez não fossem apenas
os alunos. Na parede em um quadro grande, a foto de Poeta Samuel Barreto piscou o olho esquerdo e sorriu se
divertindo com a situação.
José
Casanova










