O espelho do banheiro sempre fora o lugar mais silencioso da casa de dona Helena. Durante trinta e dois anos de casamento, ele serviu apenas para tarefas de manutenção: pentear o cabelo, ajustar a postura, conferir se a maquiagem escondia a exaustão. O homem com quem partilhara a vida tratava seu corpo como um móvel da sala, algo que precisava de limpeza e ordem, mas que raramente merecia um olhar que buscasse vida ou desejo.
Agora, aos sessenta anos, com a casa finalmente em silêncio
após a partida do marido e a saída dos filhos, Helena olhava novamente para
aquela superfície, mas, pela primeira vez, não buscava imperfeições para
corrigir.
Ela tocou os ombros, sentindo a textura da pele sob os
dedos, as marcas que o tempo desenhara com a naturalidade de quem percorre um
território vasto.
Havia um estranhamento absoluto ali. A sociedade gostava de narrar o corpo da mulher de
sessenta anos como uma peça de inventário fechada, um território colonizado
pela maternidade e pelo dever doméstico, destituído de urgências. Helena,
porém, descobria uma verdade subversiva: aquele não era o fim do desejo, era,
talvez, o início de sua forma mais autêntica, livre da necessidade de agradar
ao olhar do outro.
Nos primeiros meses de solteirice, ela se vestia com um
certo recato, como se ainda estivesse sob o julgamento de olhos invisíveis.
Numa tarde de sábado, Helena
voltou da cidade com um vestido de cetim cor de vinho, o primeiro que comprava
pensando apenas em si. Vestiu-o diante do espelho do quarto e permaneceu alguns
instantes em silêncio. A mulher refletida devolveu-lhe um sorriso tímido, quase
adolescente. Era bonita. Sempre fora.
Mas, logo depois, um antigo
desconforto atravessou-lhe o peito. Como um eco distante, ouviu a voz do marido
dizendo que aquela roupa era chamativa demais, imprópria para uma mulher da sua
idade. Sem perceber, levou as mãos ao tecido, despiu o vestido lentamente,
dobrou-o com extremo cuidado e o guardou no fundo do guarda-roupa.
Durante uma semana inteira,
evitou abrir aquela porta.
Na sexta-feira seguinte, ao
preparar-se para a aula de dança, parou novamente diante do armário. Retirou o
vestido, vestiu-o pela segunda vez e encarou o espelho com mais calma. A antiga
voz ainda existia, mas já não tinha a mesma autoridade.
Dessa vez, abriu a porta de casa sem voltar
atrás.
Mas, lentamente, o desabrochar foi inevitável. Ela começou
a comprar tecidos que nunca ousara vestir; sedas leves, cores que antes
considerava chamativas demais. Ao deslizar um vestido de cetim pelo corpo uma
noite de sexta-feira, sentiu um arrepio que não vinha do vento ou da
temperatura fria. Era a consciência de sua própria pele.
O prazer, ela descobriu, não precisava mais do teatro
constante da performance ou da validação de terceiros. Era um movimento íntimo,
um diálogo entre si mesma e o que sentia. Passou a frequentar uma aula de dança
de salão na periferia de São Luís, um lugar onde a idade era apenas um número
na ficha de inscrição e o ritmo era o que mandava.
Na primeira noite em que saiu de
casa para a aula de dança, Helena atravessava a calçada com passos ainda
cautelosos quando uma vizinha, apoiada no portão, a observou de cima a baixo.
— Nessa idade ainda dançando?
A pergunta ficou suspensa no ar
por apenas um instante. Helena voltou o rosto, sorriu com delicadeza e desejou
boa noite. Depois continuou caminhando.
A cada passo, a música que ainda nem começara
parecia fazer menos barulho do que aquela antiga necessidade de viver segundo
as expectativas dos outros.
Ali, ao ser conduzida por mãos que não buscavam autoridade,
sentiu o corpo despertar. Cada passo era uma reocupação de território. O toque
na cintura, o girar, a respiração sincronizada com a do parceiro de dança , tudo
isso ressoava dentro dela como uma melodia há muito esquecida, mas nunca desaprendida.
Não era apenas sobre o sexo, mas sobre o direito fundamental
ao toque que não fosse uma obrigação ou um dever conjugal. Era sobre o autoconhecimento
que levava décadas para florescer. Em suas conversas com as novas amigas de
dança, encontrava relatos semelhantes: mulheres que, após um despertar tardio,
sentiam a vida vibrar no pulso, prontas para reivindicar o seu tempo. Helena
percebeu que a sua pele não era uma barreira, mas um meio de comunicação com o mundo.
A "segunda pele", como ela chamava o tecido dos seus novos vestidos,
era na verdade a proteção de uma liberdade que ela construíra sobre os
escombros de décadas de repressão.
Certa noite, ao voltar da aula, desfez-se das roupas com
uma lentidão deliberada. Observando-se no espelho do quarto, não viu as rugas
ou a flacidez como sinais de declínio, mas como o mapa exato de uma
sobrevivente. Ela tocou o próprio ventre, o quadril, os seios, reconhecendo ali
o templo que ocupara durante anos sem nunca ter sido, de fato, a deusa proprietária.
Por
um instante, seus dedos hesitaram. A mão afastou-se do próprio corpo quase sem
que ela percebesse, como se ainda devesse pedir permissão a alguém que já não
morava naquela casa. Existia uma ponta de melancolia diante daquele reflexo
aprendido durante tantos anos. Então respirou fundo e voltou a tocar a própria
pele, desta vez sem medo, como quem finalmente recupera aquilo que sempre lhe
pertenceu.
Havia uma beleza feroz na maturidade, um desapego do que os outros viam e uma conexão
profunda com o que ela sentia.
Ela deitou-se na cama, esticando as pernas no lençol limpo,
ocupando todo o espaço com uma satisfação que nunca, nem nos seus momentos mais
felizes do passado, havia experimentado. O desejo já não era uma fogueira de
palha que precisava ser alimentada por um companheiro para não morrer; era uma brasa
constante, atenta e sua. Helena fechou os olhos, sorrindo para a escuridão do
quarto, sentindo o pulso do próprio sangue como a revelação de um segredo
tardio. O relógio batia as horas no corredor, mas para ela, o tempo tinha
parado de ser um verdugo.
O prazer era seu
novo norte, a sua descoberta mais secreta e, finalmente, sua propriedade
privada. Ela compreendeu, na calmaria aquela noite, que a maturidade não é um
lugar onde a vida encerra suas demandas, mas o único estágio onde a mulher
possui, enfim, a sabedoria necessária para ser, simultaneamente, o objeto e o sujeito
da sua própria paixão, vivendo a vida não como quem aguarda o final do
capítulo, mas como quem aprendeu, aos sessenta anos, a desfrutar, finalmente,
do prazer de ser exatamente quem sempre foi, escondida sob camadas de
expectativa, esperando a hora certa de aparecer.
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade








































