A UNEGRO APOIA O BLOG DIÁRIO DO MEARIM

PONHA AQUI A PROPAGANDA DE SUA EMPRESA

Roberto Costa é eleito presidente da FAMEM para o biênio 2025/2026

FAMEN coloca Bacabal e Roberto Costa em evidência

Flamengo pode ter mudança diante do Bangu em São Luís

Técnico Cléber do Santos pode apostar em trio de ataque nesta noite no Castelão.

Sessão Solene na Câmara Municipal de Bacabal Celebra o Dia Internacional da Mulher

Vereadoras Nathália Duda e Regilda Santos conduzem Sessão Solene

domingo, 9 de agosto de 2026

CRÔNICA DO DIA: O Axé delas

 

O chão de Matinha respirava calor. Dele subia um vapor espesso, semelhante ao que enchia a cozinha de barro quando a água fervia. Mãe Adília nunca confundiu aquele bafo com cansaço. Ela batia o dendê na gamela com a força de quem, durante décadas, havia batido de frente com o desdém, a ofensa e a intolerância calada que atravessava os olhos de alguns vizinhos toda vez que o som do atabaque começava a ecoar pela vila.

A preparação para a festa dos orixás era um exercício de resistência política, uma coreografia detalhada de tradições que ela carregava no sangue.

Havia flores brancas espalhadas em bacias de barro pelas paredes do terreiro, e o cheiro do banquete sendo preparado ;o xinxim, o abará, a doçura da canjica  ocupavam cada fresta daquela casa como se fosse um escudo invisível. Adília sabia que, para além daquela cerca de madeira, havia murmúrios.

Pessoas que olhavam para o terreiro não como um centro de cura e espiritualidade, mas como um alvo.

— Mãe, eles estão passando de novo. — Sussurrou a pequena Iara, ajudando a organizar as contas de cristal num prato de louça. — Estão olhando feio e com celular na mão, gravando a gente.

Adília não olhou para a rua. Ela continuou seu trabalho, movendo os dedos ágeis sobre os preparados.

— Deixa que gravem, minha filha. Ninguém que vive na sombra consegue suportar o brilho de quem celebra o Axé com a alma limpa. Eles nos chamam de estranhos porque a nossa fé não se curva aos templos que eles construíram para restringir Deus. O nosso terreiro é o chão, a raiz, o vento. Isso dói neles.

Liderar um terreiro em uma cidade pequena como Matinha não era tarefa para mãos vacilantes. Adília era a autoridade máxima, a conselheira, a juíza e a curandeira. Pela manhã, recebia mulheres que buscavam amparo para seus casamentos arruinados ou para a falta de sustento; à tarde, organizava o cuidado com os mais velhos; e, ao cair da noite, tornava-se o canal por onde a energia ancestral manifestava sua sabedoria.

O terreiro começou a ganhar outro ritmo. Seu Benedito entrou carregando um dos atabaques debaixo do braço. Sentou-se num banco de madeira e, com a calma de quem conhecia cada fibra do couro, começou a apertar as cordas do instrumento. Deu dois toques leves. Depois mais três e sorriu satisfeito.

Agora ele acordou.

Perto da cozinha, Dona Celina distribuía folhas de bananeira sobre a mesa enquanto duas jovens terminavam de embrulhar os abarás. O cheiro do dendê misturava-se ao perfume das ervas recém-colhidas. No quintal, um menino observava os mais velhos com curiosidade. Arriscou repetir um dos cantos que ouvia desde pequeno.

Errou a melodia despertando o riso de alguns. Mãe Adília aproximou-se e pousou a mão sobre o ombro do menino.

Não tenha pressa. O tambor ensina primeiro o ouvido. Depois ensina o coração.

O menino abaixou a cabeça, envergonhado sob a benção do sorriso de Mãe Adília.

Quem aprende a escutar os mais velhos nunca canta sozinho.

As mulheres retomaram o preparo da comida. Os atabaques voltaram a ressoar.

As vozes se misturaram ao cheiro das panelas e ao vento que atravessava o quintal. Naquele instante, o terreiro deixava de ser apenas um lugar de culto. Era uma casa onde a memória continuava encontrando quem estivesse disposto a recebê-la.

A intolerância, que chegava em forma de pedras arremessadas contra o telhado na calada da noite ou em olhares julgadores na feira municipal, era sentida, mas já não possuía o poder de paralisá-la.

Perto do final da tarde, a chuva chegou sem aviso, lavando a poeira e purificando o pátio. Quando os primeiros toques dos atabaques começaram, o som parecia crescer de dentro das entranhas da terra.

Adília vestiu seus panos brancos, o turbante ajustado com dignidade régia, e assumiu seu posto à frente dos filhos de santo. Ela era a imagem da resistência pura: uma mulher negra, matriarca e guia, sustentando em seus ombros o peso daquela liturgia que seus antepassados guardaram a sete chaves sob o chicote e a perseguição.

Enquanto cantava a saudação aos orixás, Adília sentia a presença daquelas que vieram antes dela,  as pretas velhas, as Iabás, as guerreiras que não permitiram que a história de seu povo fosse enterrada. Do lado de fora da cerca, o grupo de curiosos e críticos aos poucos se dispersou; o poder daquela celebração, aquele batida firme, aquele canto rítmico que não pedia permissão para ser, era simplesmente grande demais para ser contido pelo preconceito alheio.

Ao final da celebração, quando o último tambor parou de ressoar, o terreiro estava em silêncio. Um silêncio sagrado. Mãe Adília sentou-se na cadeira de encosto alto, sentindo a energia da noite vibrar em sua pele como uma carga elétrica suave.

As últimas velas ainda tremeluziam quando o terreiro começou a esvaziar. Os filhos de santo recolhiam os bancos, apagavam algumas lamparinas e guardavam os atabaques com o mesmo cuidado com que se protege uma herança. Mãe Adília permanecia sentada, respirando o silêncio que sempre vinha depois dos cantos. Ouviu passos do lado de fora da cerca.

Levantou os olhos. Era Dona Conceição, uma vizinha conhecida pelas idas diárias aos cultos da Assembleia de Deus.. Trazia nas mãos um pequeno saco de papel. Parou diante do portão, um pouco acanhada. Estendeu o embrulho.

Trouxe porque sei que vocês usam.

Adília abriu o saco. Dentro havia algumas velas brancas. Olhou para a vizinha.

Por um instante, nenhuma das duas falou. Não havia necessidade. Dona Conceição apenas sorriu de leve, fez um discreto aceno com a cabeça e voltou pelo mesmo caminho, desaparecendo na rua iluminada apenas pelos postes e pela lua.

Mãe Adília segurou uma das velas entre os dedos. Sorriu também. Nem toda ponte era construída com palavras. Algumas nasciam de um gesto pequeno, silencioso e corajoso, capaz de atravessar muros que o preconceito insistia em levantar.

 Ela sabia que amanhã enfrentaria novamente o nariz torcido na rua, os olhares atravessados, a negação  constante de sua cultura. Mas naquela noite, sob a luz das velas, ela tinha certeza: ela era o elo. A intolerância podia tentar cercar o terreiro de Matinha, podia tentar diminuir a força daquela fé com leis ou dogmas, mas não havia poder na terra capaz de estancar o fluxo de uma ancestralidade que, cada vez que Adília batia o tambor, reescrevia sua própria história de grandeza, resistência e, acima de tudo, liberdade. Ela não estava ali apenas para realizar uma festa; estava ali para reafirmar que, onde quer que houvesse uma mulher que soubesse o seu lugar de origem, o sagrado jamais seria vencido por um mundo que ainda não aprendeu a respeitar a natureza divina do outro

José Casanova 

sábado, 8 de agosto de 2026

CRÔNICA DO DIA: O Dinheiro da Mãe


Rose Duarte tinha quarenta e poucos anos, uma idade em que algumas mulheres ainda discutiam viagens, festas, novos amores e planos para o futuro. Ela discutia fraldas geriátricas, horários de medicação, curativos e a quantidade de água que deveria passar pela sonda da mãe.

    Na casa pequena, o relógio parecia ter desistido de marcar as horas.

    A mãe, aos noventa e quatro anos, permanecia acamada. O corpo já não obedecia aos comandos que um dia haviam permitido que ela caminhasse pela casa, cozinhasse, cuidasse dos filhos e reclamasse da conta de luz. Agora, quase imóvel, dependia de outras mãos para tudo.

    Mas havia apenas duas mãos disponíveis. As de Rose. Ela acordava antes de a casa clarear. Conferia a sonda, ajeitava o lençol, verificava as escaras, preparava a alimentação e anotava em um caderno os horários dos medicamentos.

    O caderno tinha páginas cheias de números.

    8h.

    10h.

    12h.

    14h.

    16h.

    18h.

    Às vezes, entre um horário e outro, Rose conseguia tomar café. Quando conseguia.

    As outras mãos pertenciam aos irmãos. Muitas mãos, na verdade.

    Filhos e filhas espalhados pela cidade, cada um com uma justificativa diferente, uma obrigação urgente, um trabalho, uma família, uma conta, uma viagem.

    Todos amavam a mãe. Pelo menos diziam que sim. O problema era que o amor, naquela família, parecia funcionar melhor pelo telefone.

    — Como ela está hoje? — Perguntava uma das irmãs.

    Rose olhava para a mãe.

    — Igual.

    — Ela comeu?

    — Pela sonda.

    — E as escaras?

    Rose respirava fundo.

    — Ainda estão sendo tratadas.

    Do outro lado da ligação, vinha um silêncio curto.

    — Qualquer coisa, me avisa.

    Rose quase respondia que qualquer coisa já tinha acontecido havia meses. Mas engolia a frase. Aprendera que algumas respostas produzem mais briga do que ajuda.

    A única que às vezes perguntava outra coisa era a caçula, Luíza. Não "como ela está", mas "e você, já comeu?". A pergunta nunca vinha acompanhada de solução nenhuma, Luíza morava longe, tinha dois filhos pequenos, mas era diferente das outras. Rose guardava isso sem comentar.

    Até que um dia a briga veio sem ser convidada. Era uma tarde abafada. Rose terminava de trocar o curativo da mãe quando o telefone tocou.

    — Rose, preciso falar com você.

    Ela reconheceu a voz da irmã.

    — Pode falar.

    — Você precisa prestar contas do dinheiro da mamãe.

    Rose ficou imóvel. Olhou para a cama. A mãe permanecia de olhos fechados.

    — Que dinheiro?

    — O dinheiro dela, Rose.

    — Eu compro as coisas dela com o dinheiro dela.

    — É isso que você diz.

    Rose segurou o telefone com mais força.

    — O que você está querendo dizer?

    A irmã demorou alguns segundos.

    — Tem gente comentando que você fica com o dinheiro da mamãe.

    Rose sentiu o rosto esquentar.

    — Gente?

— Você sabe como são as coisas.

    — Não. Eu não sei. Me diga quem está dizendo.

    — Não importa quem disse.

    — Importa para mim.

    A irmã mudou o tom.

    — Rose, ninguém está acusando você de nada. A gente só quer transparência.

    Rose olhou para a cômoda. Em cima dela havia uma pasta. Dentro, recibos de medicamentos, notas de farmácia, pagamentos de consultas, fraldas, produtos para curativos e outras despesas.

    — Transparência? — Repetiu. — Quer saber quanto custa cuidar dela?

    — Não precisa falar assim.

    — Precisa, sim.

    A voz de Rose começou a tremer.

    — Vocês querem saber quanto custa?

    Silêncio.

    — Custa dinheiro. Mas custa também noite de sono. Custa braço doendo. Custa ficar sem sair de casa. Custa cancelar compromisso. Custa não conseguir trabalhar direito. Custa ver uma ferida na pele da própria mãe e não poder sentir a dor no lugar dela.

    A irmã respondeu:

    — Nós também somos filhos.

    Rose fechou os olhos.

    — São.

    — Então não fale como se fosse só você.

    Ela olhou novamente para a mãe.

    — Não sou só eu que sou filha. Sou só eu que estou aqui.

    A ligação terminou pouco depois. Naquela noite, Rose chorou no banheiro para que a mãe não ouvisse. Não chorava apenas pela acusação. Chorava porque, no fundo, aquela frase confirmava uma suspeita antiga: os irmãos haviam começado a enxergar o dinheiro antes de enxergar o trabalho.

    No domingo seguinte, todos se reuniram na casa. Era a primeira vez em meses que a sala ficava cheia. Luíza chegou com uma sacola de frutas e ficou parada na porta da cozinha, sem saber se entrava. Outro irmão apareceu depois. Um terceiro ficou parado perto da porta, como quem havia chegado para uma reunião e não para visitar a própria mãe. Rose estava na cozinha.

    — Vamos conversar — Disse uma das irmãs.

    Rose enxugou as mãos no pano de prato.

    — Sobre o quê?

    — Sobre mamãe.

    — Ela está no quarto.

    — Sobre os cuidados dela.

    Rose soltou um riso sem humor.

    — Agora vocês querem conversar sobre os cuidados?

    — Não começa, Rose.

    — Eu não comecei nada.

    O irmão mais velho interveio:

    — Ninguém veio brigar.

    Rose olhou para ele.

    — Então não falem de dinheiro como se fosse a única coisa que importa.

    A irmã abriu a bolsa e retirou algumas folhas.

    — A gente quer organizar as despesas.

    Rose apontou para a pasta sobre a mesa.

    — Está tudo ali.

    — A gente quer os extratos também.

    Rose permaneceu alguns segundos em silêncio. Depois foi até o quarto da mãe. Voltou com uma caixa de papelão e colocou-a sobre a mesa.

    — Aqui.

    Abriu.

    Havia recibos. Muitos. Alguns amarelados, outros dobrados, todos guardados.

    — Fraldas.

    Pegou um.

    — Medicamentos.

    Outro.

    — Pomadas.

    Outro.

    — Material para curativo. Alimentação.

    Foi espalhando o resto dos papéis sobre a mesa, de uma vez, como quem desiste de contar. A sala ficou silenciosa.

    — Vocês podem conferir tudo. — Disse ela. — Cada centavo.

    Luíza pegou um dos recibos.

    — Eu não sabia que era tanto.

    Rose respondeu:

    — Porque vocês não compravam.

    A frase caiu no meio da sala como um objeto quebrado. Ninguém respondeu. Então veio a pergunta que Rose já esperava.

    — E quanto você recebe para cuidar dela?

    Rose demorou a responder.

    — O que você quer dizer?

    — Você não trabalha mais como antes. Algum dinheiro deve ficar com você.

    Rose ficou olhando para a irmã.

    — Você acha que eu recebo salário?

    — Eu acho que alguma coisa você recebe.

    Rose apontou para o quarto.

    — Eu recebo aquilo ali.

    — O quê?

    — Uma mãe que precisa de mim para tudo.

    A irmã balançou a cabeça.

    — Isso não responde.

    Rose respirou fundo.

    — Então eu vou responder.

    Sentou-se.

    — Eu recebo noites em claro. Recebo medo. Recebo cansaço. Recebo dor nas costas. Recebo a culpa de dormir enquanto ela está acordada. Recebo o desespero quando a ferida piora. Recebo o medo de errar na alimentação. Recebo o telefone tocando de madrugada e penso que aconteceu alguma coisa.

    Fez uma pausa.

    — Dinheiro? O dinheiro da mamãe compra as coisas da mamãe. O resto do que eu gasto aqui é meu.

    O irmão mais velho baixou os olhos. A irmã que fizera a acusação permaneceu calada.

    Foi quando um ruído veio do quarto. Todos olharam. Rose levantou imediatamente. Ninguém mais se moveu. Ela entrou no quarto, ajeitou o travesseiro da mãe, verificou a sonda e segurou sua mão.

    — Estou aqui, mãe.

    A mulher abriu os olhos com dificuldade. Não conseguiu falar. Rose aproximou o rosto.

    — Está tudo bem.

    Do lado de fora, os irmãos permaneciam em silêncio. Talvez naquele instante tenham percebido algo que os recibos não conseguiam explicar. O cuidado não cabia numa nota fiscal. Não tinha preço na farmácia. Não vinha dentro de uma caixa. E não podia ser dividido em parcelas. Rose voltou para a sala. Luíza levantou-se.

    — Desculpa.

    Rose não respondeu imediatamente.

    Olhou para ela.

    — Eu não precisava que vocês me dessem razão.

    — Então o que você precisava?

    Rose pensou.

    — Que vocês viessem.

    A frase desmontou a sala.

    — Não precisava trazer dinheiro. Não precisava trazer presente. Não precisava nem saber trocar um curativo. Mas podiam sentar aqui.

    Ninguém falou. Rose continuou:

    — Podiam ficar uma hora com ela para eu tomar banho sem pressa. Podiam ficar duas horas para eu sair de casa. Podiam perguntar como eu estou sem começar perguntando quanto ela recebe.

    Luíza começou a chorar.

    — Eu tive medo de não saber cuidar.

    Rose respondeu baixinho:

    — Eu também tive.

    Aquela talvez fosse a primeira verdade compartilhada entre as duas em muito tempo. Na semana seguinte, um dos irmãos apareceu numa terça-feira.

    — Rose.

    — Oi.

    — Vim ficar com mamãe.

    Rose estranhou.

    — Hoje?

    — Hoje.

    Ela entregou a ele uma folha com os horários.

    — Aqui estão os remédios.

    Ele pegou o papel.

    — Você vai sair?

    Rose olhou para a própria roupa. Fazia semanas que não saía sem ter hora para voltar.

    — Vou.

    — Para onde?

    Ela pensou um pouco.

    — Ainda não sei.

    E saiu. Caminhou pela rua sem pressa. Não tinha destino. Não precisava. Naquela tarde, depois de muito tempo, Rose Duarte percebeu que cuidar da mãe não deveria significar desaparecer dentro da vida dela.

Jose Casanova 

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

CRÔNICA DO DIA: Irmã Alessandra: a grande

Há pessoas que chegam a uma cidade trazendo apenas uma mala. Outras chegam trazendo uma presença.

Irmã Alessandra chegou a Bacabal vinda de Minas Gerais, membro da Congregação das Servas do Amor Misericordioso, fundada por Madre Esperança. Trouxe consigo o hábito, a fé, algumas lembranças da terra mineira e aquilo que talvez fosse o mais importante: a disposição para servir.

Bacabal, porém, não demorou a descobrir que aquela mulher não tinha vindo apenas para morar entre nós. Tinha vindo para caminhar conosco.

E caminhar, para ela, nunca significou apenas atravessar ruas. Significou entrar nas histórias das pessoas, sentar-se ao lado de quem precisava ser ouvido, estender a mão a quem já não encontrava mãos disponíveis.

Foi assim que Irmã Alessandra foi se tornando parte da cidade Fez amigos. Criou afetos. Conheceu histórias. Aprendeu os caminhos de Bacabal e, sobretudo, aprendeu os caminhos invisíveis que levam até aqueles que quase ninguém procura.

Nas Pastorais Sociais, encontrou uma espécie de altar sem paredes. Ali estavam os pobres, os esquecidos, os que dormiam nas ruas, os que carregavam no corpo as marcas de uma sociedade que muitas vezes passa apressada diante da dor.

E Alessandra parava. Talvez essa tenha sido uma de suas maiores lições Num mundo que corre, ela aprendeu a parar.

Parar diante de alguém.

Parar para escutar.

Parar para oferecer comida, abraço, palavra, cuidado ou simplesmente presença.

Porque há momentos em que a pessoa não precisa de uma explicação para a própria dor. Precisa apenas descobrir que alguém ainda se importa. E ela se importou. Muito.

Por isso, quando chegou a notícia de que Irmã Alessandra partiria para a Mãe África, Bacabal sentiu aquela estranha mistura de orgulho e saudade que acompanha as despedidas verdadeiras.

Mas havia algo de profundamente simbólico naquela partida. Uma mulher negra, freira, discípula de Madre Esperança, atravessando o oceano em direção ao continente de seus ancestrais.

A África que tantas vezes aparece nos livros como passado, origem ou memória tornava-se, para ela, destino. Não iria simplesmente conhecer a África. Iria servir. Talvez exista algo de profundamente bonito nisso.

Uma filha da diáspora retornando ao continente ancestral não para buscar tesouros, mas para oferecer aquilo que aprendeu a carregar: fé, cuidado, esperança e amor.

E há ainda outra ironia na história. Ela vai para um país onde se fala inglês.

A língua que chegou ao continente acompanhada das feridas do colonialismo, da exploração e da opressão. Mas Alessandra chegará levando outra linguagem. A linguagem que não precisa de tradução. O abraço. O cuidado. A solidariedade. A escuta. O pão repartido. A mão estendida. O amor.

Essa linguagem, ninguém coloniza. Talvez seja justamente por isso que sua missão tenha tanta força simbólica. Ela não leva apenas palavras.

Leva uma experiência de vida construída entre pessoas simples, nas ruas de Bacabal, nas pastorais, nas comunidades e junto daqueles que tantas vezes foram tratados como invisíveis

Leva consigo um pouco de Maranhão.

Leva amigos.

Leva histórias.

Leva saudades.

E leva também uma cidade que aprendeu a reconhecer nela uma presença especial.

Irmã Alessandra é dessas pessoas que parecem compreender o Evangelho antes mesmo de pronunciá-lo. Porque há quem fale sobre Jesus. E há quem tente viver como Jesus. Ela escolheu a segunda opção. A opção pelos pobres. Sua fé nunca pareceu interessada apenas em templos. Procurou pessoas.

E talvez esse seja o verdadeiro sentido de uma pastoral social: descobrir que, antes de qualquer estatística, existe um rosto; antes de qualquer problema social, existe uma história; antes de qualquer diagnóstico, existe uma pessoa esperando que alguém não passe indiferente.

Madre Esperança certamente reconheceria nessa caminhada uma de suas discípulas. Porque esperança não é esperar que alguma coisa aconteça. Esperança é caminhar em direção àquilo que ainda precisa acontecer. E Alessandra caminha. Agora, para longe. Mas não para longe da missão. Apenas para outro pedaço do mundo.

Bacabal ficará com a saudade, mas também com a certeza de que algumas pessoas não pertencem inteiramente ao lugar onde vivem. Pertencem à missão que escolheram.

Por isso, não diremos apenas adeus. Diremos: vá.

Vá para a Mãe África.

Vá com a coragem das mulheres que vieram antes de você.

Vá com a fé que trouxe de Minas Gerais.

Vá com as histórias que Bacabal colocou dentro da sua bagagem.

Vá com o rosto daqueles que você ajudou.

Vá com o Evangelho no coração e com as mãos disponíveis para continuar servindo.

E, quando a saudade apertar, lembre-se de que existe uma cidade maranhense que também ficou um pouco africana depois que você passou por aqui. O Maranhão agradece. Bacabal agradece. Seus amigos agradecem.

Aqueles que um dia encontraram abrigo na sua presença talvez nem saibam escrever uma carta de despedida, mas certamente levarão consigo a lembrança de uma mulher que parou quando todos pareciam ter pressa.

E nós pedimos a Deus que abençoe seus novos caminhos. Que Madre Esperança continue sendo luz sobre sua missão. Que a África a receba com braços abertos. E que você continue fazendo aquilo que sempre fez tão bem:levando esperança a quem precisa de amor.

Porque algumas pessoas passam por uma cidade. Outras deixam a cidade melhor depois que passam. Irmã Alessandra é dessas.E é por isso que, para nós, ela será sempre Alessandra: a grande.

Pelo povo de Bacabal
José Casanova

CRÔNICA DO DIA: O Código do Sossego

 

A tela do monitor era a única janela de paz em um escritório que insistia em ser barulhento, brilhante e caótico. Para Thainara, a linguagem de programação não era um conjunto de instruções; era uma partitura, uma estrutura lógica imutável que fazia sentido em um mundo frequentemente desprovido de padrão. Ali, no centro da sala da empresa de logística em Chapadinha, o ar condicionado emitia um zumbido de alta frequência que ela sentia como um aguilhão nos dentes, mas o código fluía organizado, quase geométrico, em tons de azul e cinza escuro.

— Thainara, você vai para o almoço com a gente? O pessoal do comercial está indo naquele restaurante novo.  — Perguntou Ricardo, um dos gerentes de projeto, parando atrás da sua cadeira sem avisar.

Thainara sentiu o sobressalto no peito, uma descarga elétrica que quase a fez derrubar a caneca de chá. O toque físico,  ou a simples proximidade inesperada  era uma invasão de território que desestabilizava todo o seu processamento sensorial.

— Não posso. Tenho a sprint de infraestrutura para finalizar até as duas. E o ruído daquele lugar me impede de processar informações. — Ela respondeu, os olhos ainda fixos no cursor que piscava, pulsando como um batimento cardíaco.

— Sabe, Thainara, você precisa ser mais flexível, mais social. A empresa é um time. Se você se isola assim, as pessoas acham que você é... bom, que não quer fazer parte.  — Ele insistiu, com aquele tom de quem tentava oferecer uma dica de ouro, embora o conselho fosse, para ela, como tentar explicar a cor azul para quem nunca enxergou.

Thainara não respondeu mais. O "código do sossego" que ela buscava não estava no software, mas na necessidade desesperada de que o ambiente externo tivesse uma sintaxe compreensível. Para o restante do escritório, o café com colegas era um momento de relaxamento; para ela, era um campo minado de pistas sociais implícitas, metáforas ambíguas, luzes fluorescentes irritantes e nuances de voz que ela não conseguia decifrar em tempo real. O excesso de dados,  o perfume forte, o tilintar de garfos, o sarcasmo nas entrelinhas das conversas, sobrecarregava seu processamento.

Ela voltou a digitar. Suas mãos moviam-se com uma precisão que nenhum dos colegas que a julgavam "rígida" conseguia imitar. Enquanto eles perdiam horas em reuniões improdutivas onde se falava muito e se decidia quase nada, Thainara  havia mapeado o gargalo do sistema em trinta minutos.

Ela via os padrões do fluxo de dados com uma clareza que, para ela, era a norma, mas que o ambiente corporativo rotulava como excentricidade.

O preconceito não vinha de agressões óbvias, mas da constante tentativa de "consertá-la". Queriam que ela fosse mais sociável, que suportasse o volume das conversas, que fingisse interesse pelas piadas de rodapé. Eram ordens para que ela abandonasse o seu modo de ser, que era, em última análise, o que lhe conferia a excelência técnica.

Em um intervalo, quando todos haviam descido para a reunião semanal no pátio descoberto, Thainara ficou só. Ela fechou os olhos e respirou fundo, tentando apagar a reverberação dos estímulos.

Tirou o celular do bolso. Abriu um aplicativo ainda sem nome. Na tela aparecia a planta baixa do prédio da empresa, dividida por cores. Ela caminhou lentamente pelo corredor. Parou ao lado da impressora. Encostou o telefone na parede.

Esperou alguns segundos. Na tela surgiu um gráfico.82 decibéis. Ela digitou:

"Ruído contínuo. Vibração perceptível. Permanência máxima recomendada: dez minutos."

Seguiu até a copa. As lâmpadas de LED refletiam diretamente no piso branco. Ela fotografou o ambiente e anotou:

"Luminosidade intensa. Reflexo excessivo nas superfícies."

Depois entrou na sala de reuniões. Mesmo vazia, o ar-condicionado produzia um zumbido constante. Ela fechou os olhos por um instante. Registrou mais uma observação.

"Frequência aguda contínua. Pode causar fadiga sensorial prolongada."

Salvou os dados. No canto da tela apareceu um pequeno mapa colorido.

Verde.

Amarelo.

Vermelho.

Os ambientes começavam a ganhar contornos que ninguém mais parecia perceber.. Talvez um dia aquele mapa ajudasse outra pessoa a entrar em um prédio sem precisar travar uma batalha invisível contra sons, luzes e estímulos que o restante do mundo chamava apenas de rotina.

Em seu computador, ela abriu uma pasta oculta: era um projeto pessoal, um aplicativo que ela estava desenvolvendo para mapear acessibilidade sensorial em prédios públicos da região. Não era apenas sobre si mesma; era sobre criar um mundo onde a lógica pudesse coexistir com a diversidade.

Quando a porta se abriu e Ricardo retornou, encontrando-a em silêncio absoluto diante da tela, ele suspirou, balançando a cabeça.

— Bia, sério... é só uma conversa. Não precisa ser tão literal.

Ela virou a cadeira. Sua voz era calma, equilibrada, desprovida de qualquer carga emocional que ele pudesse explorar futuramente contra ela.

— Eu não sou "literal" por escolha, Ricardo. Eu sou precisa. E quando dizemos que a empresa valoriza resultados, mas pune quem não se adequa à norma social, estamos, na verdade, dizendo que o único resultado que importa é o conformismo. Eu não vendo conformismo. Eu resolvo problemas de sistemas.

Ricardo permaneceu imóvel,  desde que entrara na sala, parecia procurar as palavras com o mesmo cuidado que Thainara escolhia cada linha de código.

Passou a mão pela nuca. Desviou os olhos para a janela. Depois voltou a encará-la.

Eu... achei que estava ajudando.

A frase saiu baixa, sem a segurança habitual de quem conduzia reuniões e distribuía tarefas. Thainara sustentou o olhar. Não havia irritação. Nem triunfo. Apenas cansaço.

Eu sei.

Ricardo franziu a testa.

Ela continuou:

É justamente esse o problema. As pessoas acham que ajudam quando tentam transformar alguém na versão delas mesmas. Mas acolher não é corrigir. É entender que nem toda inteligência organiza o mundo do mesmo jeito.

Ricardo permaneceu em silêncio, não procurava uma resposta. Procurava compreender uma pergunta que nunca havia feito.

O silêncio que seguiu foi denso. Ricardo parecia não saber como reagir ao código lógico que ela acabara de apresentar. Thainara sabia que seria vista como a "difícil", a "estranha do setor de TI", a mulher que não entendia o jogo social.

    Mas, enquanto voltava para as linhas de comando, sentindo a estabilidade matemática do software sob seus dedos, ela não se importou. O sossego que a empresa não lhe dava, ela reconstruía ali mesmo, linha por linha, provando para si mesma que a sua forma de ver o mundo, embora desafinada com a coreografia caótica do escritório, era a música mais coerente naquela caixa de concreto. Ela estava ali, em Chapadinha, entre as engrenagens de um sistema que a subestimava, construindo o seu próprio refúgio de funcionalidade e verdade imperturbável frente à expectativa de quem, em sua cegueira social, chamava de defeito o que, na verdade, era a sua mais pura e extraordinária forma de lucidez.

José Casanova 
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista 
Membro da Academia Bacabalense de Letras 
Academia Mundial de Letras da Humanidade 

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Escritor e ambientalista José Carlos Aroucha lança livro "Colapso Ambiental do Planeta Terra" na III FELITA, em São Luís

A literatura e a conscientização ambiental estarão unidas na programação da III FELITA – Feira do Livro Itaqui-Bacanga, com o lançamento do livro Colapso Ambiental do Planeta Terra, do escritor e ambientalista José Carlos Aroucha. O evento acontece no próximo 8 de agosto, às 17h, na Praça da Ressurreição, no bairro Anjo da Guarda, em São Luís (MA), reunindo leitores, educadores, estudantes, pesquisadores e defensores da causa ambiental.

Resultado de uma ampla revisão bibliográfica e da experiência do autor em ações de campo voltadas ao meio ambiente, a obra apresenta uma abordagem didática, técnica e acessível sobre os principais desafios socioambientais enfrentados pela humanidade. O livro convida o leitor a refletir sobre os impactos da degradação ambiental e destaca a urgência da adoção de práticas sustentáveis capazes de evitar o agravamento da crise climática e ecológica.

Ao longo da publicação, José Carlos Aroucha demonstra que o planeta atravessa um processo acelerado de degradação ambiental, marcado pela perda da biodiversidade, pelo uso inadequado dos recursos naturais e pelas mudanças climáticas. Para o autor, os sinais de um possível colapso ambiental já são perceptíveis e exigem respostas imediatas da sociedade, dos governos e das instituições.

Dividida em duas partes, a obra reúne conteúdos voltados ao fortalecimento da educação ambiental e da gestão sustentável, propondo metodologias e práticas que podem ser incorporadas por gestores ambientais, educadores, instituições de ensino, empresas, organizações da sociedade civil e cidadãos comprometidos com a preservação da natureza. A linguagem clara e objetiva permite que o livro alcance públicos diversos, tornando-se uma importante ferramenta de formação e conscientização.

Além de apresentar um diagnóstico sobre os fatores responsáveis pela degradação dos ecossistemas, Colapso Ambiental do Planeta Terra oferece alternativas fundamentadas em práticas sustentáveis, incentivando uma mudança de comportamento em favor da conservação da biodiversidade e da qualidade de vida das presentes e futuras gerações.

Segundo José Carlos Aroucha, a obra reafirma seu compromisso com a defesa do meio ambiente e busca despertar uma consciência coletiva sobre a necessidade de transformar conhecimento em ação. O autor defende que os temas socioambientais precisam estar presentes nas escolas, universidades, empresas e no cotidiano da população, fortalecendo uma cultura de responsabilidade ambiental.

Escritor José Carlos Aroucha

O lançamento durante a III FELITA reforça o papel da feira como espaço de valorização da produção literária maranhense e de promoção de debates sobre temas relevantes para a sociedade. A expectativa é de que o livro desperte o interesse de leitores de diferentes áreas e contribua para ampliar as discussões sobre sustentabilidade, educação ambiental e preservação dos recursos naturais.

Com Colapso Ambiental do Planeta Terra, José Carlos Aroucha entrega ao público uma obra que combina conhecimento técnico, compromisso social e responsabilidade ambiental, transformando a literatura em instrumento de conscientização e mobilização em defesa da vida no planeta.

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

CRÔNICA DO DIA: Chama ACESA

 

Em Junco, o sol não era um simples visitante do céu. Para as artesãs do povoado, era um aliado discreto, incorporado à matéria-prima antes mesmo que o trabalho começasse. Elas passavam as manhãs inteiras colhendo o coco babaçu, um trabalho que exigia um olho treinado para distinguir a flexibilidade que se tornaria trançado ,azeite, sabonete artesanais e biojoias , daquela que apenas serviria para o lixo.

Glenda, aos vinte e quatro anos, carregava um incômodo que ia além da poeira acumulada nos pulmões. Via suas tias e primas venderem peças de uma delicadeza rara por valores irrisórios para atravessadores que, na cidade vizinha, triplicavam o preço ao vender para lojas de decoração.

A economia de  Junco girava na base da sobrevivência, não do sustento. Glenda, com a teimosia típica de quem prefere o risco de criar ao conforto de conformar-se, decidiu que o jogo precisava mudar. Seu escritório era uma varanda de chão de terra, equipada apenas com um caderno de anotações e um celular com a tela trincada, onde ela aprendia, entre vídeos e tutoriais, sobre logística e marketing digital. A ACESA – Associação Comunitária de Educação em Saúde e Agricultura tinha lhe aberto as portas para um novo mundo.

A criação da cooperativa nasceu numa tarde de ventania, sob a sombra de um pé de manga. Reunir as mulheres não foi fácil. Havia o medo do novo, a desconfiança em relação ao "sistema" que sempre prometera mundos e fundos apenas para deixá-las na mão. Glenda não falou de "empreendedorismo" com palavras difíceis; ela falou de margem de lucro, de eliminação do intermediário e de como o trabalho delas, ao cruzar as fronteiras digitais, viraria "ouro" em lugares que elas sequer imaginavam.

— O que a gente faz aqui não é só cesta, é identidade . — Dizia Glenda para Maria, a tecelã mais velha do grupo, cujas mãos moviam-se como se tivessem vontade própria. — Mas a gente precisa parar de dar essa identidade de graça. Se a gente unir as forças, o preço quem dita não é o atravessador. Somos nós.

A transição foi um teste de paciência. Glenda passou semanas ensinando-as a estandardizar os produtos, a fotografar as peças com a luz correta e a utilizar uma conta bancária coletiva. Houve momentos de tensão, quando a primeira encomenda não chegou a tempo ou quando o sinal da internet falhou durante uma venda importante. O ceticismo dos homens do povoado também era uma constante,  comentários sarcásticos sobre "brincadeira de menina" que flutuavam pelos terreiros.

Mas, três meses depois, o primeiro grande pagamento chegou. Quando o valor foi depositado e distribuído de forma justa, as fisionomias das mulheres mudaram. Não era apenas sobre o dinheiro que agora compunha a merenda ou o calçado novo para os filhos; era sobre a percepção de que a palha, que elas sempre consideraram material bruto e comum, carregava um valor que o mundo lá fora estava disposto a pagar.

Na manhã seguinte ao recebimento do primeiro pagamento da venda internacional, Maria acordou mais cedo do que de costume. Caminhou até a pequena feira da cidade vizinha e entrou na única loja que vendia ferramentas para costura e artesanato.

Pediu uma tesoura nova. O vendedor colocou sobre o balcão uma peça de aço reluzente, leve nas mãos e precisa no corte. Maria a segurou por alguns instantes, experimentando o movimento das lâminas. Sorriu discretamente antes de pagar.

Ao voltar para casa, abriu a gaveta onde guardava seus instrumentos de trabalho. Pegou a velha tesoura, de cabo gasto e lâminas marcadas pelo tempo. Quantas fibras de carnaúba, que vinha de longe,  ela havia cortado? Quantas cestas, chapéus e descansos de prato haviam começado entre aquelas duas lâminas já sem brilho?

Ela não a jogou fora. Colocou-a cuidadosamente no fundo da gaveta e acomodou a nova ao lado das linhas e das fibras que usaria no dia seguinte. Não era uma despedida.

Era uma lembrança. Queria conservar, para sempre, a ferramenta com a qual aprendera que a beleza também podia nascer de mãos persistentes e instrumentos gastos.

Glenda montou a página da cooperativa em uma plataforma de nicho. O resultado foi um crescimento lento, mas constante. Ela via a autoestima das artesãs mudar; elas começaram a cuidar mais das cores, a experimentar padrões, a se sentirem parte de um mercado que, anteriormente, parecia um clube fechado do qual elas só viam as sobras. O artesanato, que antes era uma "ajuda" para a renda doméstica imposta pela necessidade, passou a ser visto como uma profissão, motivo de orgulho.

Certa noite, meses após o início, Glenda observou o povoado de longe. Junco continuava humilde, com suas ruas de areia e casas pintadas de cores desbotadas, mas algo parecia vibrar de forma diferente. As conversas nas calçadas não giravam apenas em torno da miséria que faltava, mas dos projetos que cada uma delas agora conseguia vislumbrar. Elas não queriam apenas sobrevivência; queriam a autonomia de suas próprias escolhas

Ela sabia que o caminho ainda era longo. O empreendedorismo em um lugar onde o acesso à estrutura é escasso é uma forma de resistência constante. Havia o problema da logística, o custo do frete, a instabilidade da matéria-prima. Mas, ao ver Maria receber a primeira encomenda para o exterior, uma coleção inteira de descansos de pratos com motivos ancestrais , sabonetes personalizados, massa do mesocarpo de babaçu, viu que estava no caminho certo.

Antes de embalar a encomenda, Maria segurou um dos descansos de prato por alguns instantes. Passou a mão sobre o trançado, conferindo se nenhuma fibra havia escapado do desenho, e colou, com cuidado quase cerimonial, uma pequena etiqueta na parte de trás:

Feito em Junco.

Meses depois, o celular de Glenda vibrou com uma mensagem enviada pela compradora. Era uma fotografia. Sobre uma mesa de madeira clara na Europa, cercada por pratos de porcelana e flores secas, estavam os descansos de prato feitos pelas artesãs do povoado e outros produtos enviados.

Glenda mostrou a imagem a Maria. A artesã aproximou a fotografia dos olhos e passou lentamente os dedos sobre a tela, como se pudesse tocar novamente a palha que havia trançado semanas antes. Não compreendia as palavras escritas na legenda nem o idioma estampado na embalagem ao fundo. Mas reconheceu imediatamente o desenho das fibras e percebeu que suas mãos haviam chegado a um lugar onde seus pés talvez nunca chegassem.

 Glenda compreendeu que havia atingido o objetivo do projeto. O ouro não estava guardado em cofres; estava na capacidade que aquelas mulheres tinham de, com fibras de palha e do coco babaçu e a persistência de quem não aceita o lugar de subalterna, tecer uma rede de independência que transformava a realidade do povoado em um lugar onde o futuro não parecia algo que acontecia apenas aos outros, mas algo que elas mesmas estavam moldando, dia após dia, com suas mãos habilidosas sob o sol generoso do Maranhão. A  chama do progressso tinha nome e continuava... ACESA.

                                                                      José Casanova

 

Roberto Costa avança na recuperação da malha viária de Bacabal com nova etapa de pavimentação

 A Prefeitura de Bacabal segue intensificando os investimentos em infraestrutura urbana com a retomada do programa de recuperação da malha viária do município. Na manhã desta terça-feira (4), o prefeito Roberto Costa vistoriou os serviços de recuperação da camada asfáltica da Rua 28 de Julho, no Centro da cidade, uma das principais vias de circulação e de forte atividade comercial de Bacabal.

A nova etapa dos trabalhos marca a retomada das ações após o período chuvoso e contempla importantes corredores viários do município. Entre as avenidas que já recebem os serviços estão a Magalhães de Almeida e a Maranhão Sobrinho, além de outras frentes de trabalho distribuídas em diferentes regiões da cidade. A programação também prevê a ampliação das intervenções para bairros que necessitam de recuperação da pavimentação.

Durante a vistoria, o prefeito destacou que o programa representa a continuidade de um amplo investimento iniciado ainda no ano passado, quando a gestão executou uma das maiores frentes de asfaltamento da história recente do município.

"No ano passado, para começar, foram quase 70 quilômetros de asfalto que fizemos. E estamos reiniciando, depois das chuvas, um novo programa, em que estamos atendendo as grandes avenidas de Bacabal, como Maranhão Sobrinho, Magalhães de Almeida e aqui a 28 de Julho", afirmou Roberto Costa.

Além da recuperação do pavimento, a Prefeitura pretende ampliar os investimentos em infraestrutura urbana. O planejamento inclui a construção de meio-fio e sarjetas, implantação de iluminação pública em LED e nova sinalização horizontal e vertical, promovendo mais organização do trânsito, segurança para motoristas e pedestres e melhor mobilidade urbana.

Outro projeto anunciado pelo prefeito é a implantação de um novo sistema de circulação viária para Bacabal. A proposta prevê estudos para alteração do sentido de algumas avenidas, transformando vias de mão dupla em mão única, como forma de melhorar a fluidez do tráfego e reduzir congestionamentos.

A recuperação da malha viária também chegará aos bairros. Segundo Roberto Costa, o cronograma de recapeamento será ampliado para localidades como Vila Pedro Brito, Coelho Dias e Parque Santa Clara, beneficiando moradores de diversas regiões do município.

"É bom que se diga: nós teremos também a recuperação através do recapeamento nos bairros da nossa cidade", ressaltou o prefeito.

Roberto Costa também destacou outras obras estratégicas que serão executadas para melhorar a mobilidade urbana, incluindo o asfaltamento das vias localizadas ao lado do Supermercado Mateus e da Escola Batista. Segundo ele, esses trechos funcionarão como importantes alternativas para desafogar o trânsito da Estrada da Bela Vista e facilitar o acesso aos bairros Novo Horizonte e Vila Pedro Brito.

"Faremos o asfaltamento dessas vias para melhorar o fluxo na cidade e facilitar a vida da população", concluiu.

Com a continuidade do programa de recuperação da pavimentação, a Prefeitura de Bacabal busca fortalecer a infraestrutura urbana, ampliar a segurança no trânsito e oferecer melhores condições de mobilidade para motoristas, motociclistas, ciclistas e pedestres em todas as regiões do município.