O corredor do setor de oncologia do hospital em Fortaleza
tinha um cheiro peculiar, uma mistura de antissépticos cítricos e o odor
metálico e seco da esperança que se esgota. Dra. Clara ajustou o jaleco, prendendo
o estetoscópio ao redor do pescoço com um gesto mecânico. Havia uma linha
tênue, quase invisível, entre o
profissionalismo que a ciência exigia e o abismo emocional que cada prontuário carregava.
Ela fechou os olhos por um segundo, respirando fundo, processando o protocolo
que estava prestes a entregar para a paciente do leito 402: um estágio
avançado, uma metástase que rastejava pelo corpo com a crueldade que só o câncer
conhecia.
Entrar naquele quarto era entrar em um território onde as
palavras de ordem não eram "cura" ou "dose", mas
"acolhimento". Dona Vilma, uma professora aposentada que ainda
guardava o hábito de corrigir a gramática dos enfermeiros, aguardava com o
olhar fixo na janela por onde se via o sol estalando nos coqueiros da orla.
— Doutora. — Disse ela, com a voz embargada pela secura dos
quimioterápicos. — Eu não quero saber quanto
tempo me resta. Quero saber se vou conseguir ir ao aniversário da minha neta no
próximo sábado.
Clara sentou-se na cadeira de plástico, ignorando a postura
ereta que a medicina a ensinara a manter para impor autoridade. Ela não era
autoridade ali; era uma testemunha.
— Nós vamos ajustar a medicação de suporte para controlar a
dor e o edema, Dona Vilma. Não vou mentir: o esforço é grande. Mas se o seu
desejo é estar lá, nós faremos desse seu desejo o nosso objetivo clínico para
esta semana.
Ciência e empatia não eram polos opostos no consultório de
Clara; eram, na verdade, as duas pernas sobre as quais caminhava sua prática.
Havia quem dissesse que se envolver demais era um erro fatal para o médico, um
desgaste que levava ao esgotamento. Clara, contudo, achava o oposto: era a frieza
que exauria. O custo de ser humano não era nada comparado ao custo de se tornar
um autômato de jaleco branco, ignorando as cicatrizes na alma de quem
enfrentava o fim.
O dia seguiu num fluxo de decisões técnicas: protocolos de
infusão, ajustes de morfina, pedidos de exames. Em cada etapa, ela era
confrontada com a finitude. Fortaleza, lá fora, seguia seu passo frenético, mas
ali, dentro daquelas quatro paredes, o tempo tinha uma régua diferente. Ela viu
mulheres que, diante da sentença de morte, redescobriram artes, perdões e vozes
que haviam calado por décadas.
Certa manhã, ao entrar em um dos quartos, Clara encontrou
sobre a mesa de cabeceira uma folha de papel coberta por pinceladas de
aquarela. Era um desenho simples: um jardim, uma casa de janelas azuis e duas
crianças correndo de mãos dadas. Ao lado, repousava um pincel ainda úmido.
— Foi a senhora quem pintou? — Perguntou
Clara, aproximando-se.
A paciente sorriu com um brilho sereno nos
olhos.
— Voltei a pintar depois de quarenta anos. Achei que nunca
mais teria tempo. Engraçado... precisei descobrir que o tempo era curto para
lembrar do que eu amava fazer.
Clara permaneceu alguns instantes olhando o
desenho. Não havia ali qualquer técnica extraordinária. Havia vida. Havia
memória transformada em cor.
Antes de deixar o quarto, a paciente
acrescentou, quase num sussurro:
— Se eu não conseguir terminar este quadro, minha filha
termina por mim. O importante é que ele já começou.
Clara saiu em silêncio, levando consigo a
certeza de que existiam curas que não apareciam nos exames nem cabiam nos
prontuários. Viu famílias se despedaçarem e outras se unirem com uma
força que nenhuma tomografia era capaz de captar.
Já ao fim da tarde, Clara encontrou um momento de paz na
copa do setor. O cansaço físico era uma torrente, mas sua mente estava voltada
para uma paciente jovem, cujo diagnóstico chegara na semana anterior. O dilema
era constante: quanto da dor do outro ela devia carregar para casa? Havia um
limite para a humanização quando os recursos da ciência se mostravam
insuficientes?
Ela lembrou-se das palavras de uma preceptora, anos atrás:
"A medicina cura às vezes, alivia frequentemente e consola sempre".
Consolar, percebeu ela, não era dar respostas, mas simplesmente estar presente
quando as respostas já não existiam mais. Não era sobre prolongar a vida por um
mês a qualquer preço, mas sobre dar qualidade ao sopro que restava.
Ao sair do hospital, o sol de Fortaleza já descia, pintando
o céu em tons de brasas. Clara caminhou até o estacionamento sentindo o peso do
jaleco, que parecia mais pesado do que quando chegara pela manhã. Era o peso
das histórias que ela abrigava, das lágrimas que secou e das mãos que segurou
nos instantes finais. Ela percebeu que sua profissão não era apenas sobre deter
a morte; era sobre garantir que, durante o tempo que houvesse, a dignidade fosse
a norma.
Ela entrou no carro e, por um momento, permaneceu parada,
olhando para a estrutura do hospital que se espelhava no vidro.
Ela acomodou
a bolsa no banco do passageiro, colocou a chave na ignição e girou-a apenas o
suficiente para acender o painel. O motor, porém, permaneceu em silêncio. Seus
olhos pousaram sobre uma folha de papel presa sob o para-sol.
Era um desenho antigo, já um pouco amassado
nas bordas pelo tempo. Uma casa de
telhado vermelho, um sol enorme ocupando quase metade da folha e, ao lado de
uma mulher de jaleco branco, uma criança de mãos dadas com ela. No canto,
escrito com letras irregulares, havia apenas:
"Para a doutora
Clara."
Ela retirou o papel com cuidado, como quem
toca uma lembrança que ainda respira. Observou o desenho durante alguns
segundos. Um sorriso discreto lhe atravessou o rosto. Não havia fotografias,
notícias ou qualquer outra lembrança que explicasse o destino daquela criança.
Apenas aquele pedaço de papel que o tempo insistira em preservar.
Clara passou delicadamente os dedos sobre a
dobra da folha, respirou fundo e tornou a guardá-la no mesmo lugar. Só então
ligou o carro. Enquanto o motor despertava, ela compreendeu que alguns
pacientes deixavam o hospital levando parte do tratamento. Outros, sem
perceber, deixavam com ela pequenos fragmentos de humanidade que nenhuma
faculdade ensinava a acolher e que nenhum jaleco conseguia esconder.
A ciência era a ferramenta, o bisturi, o fármaco, a
tecnologia de ponta; mas o coração era o único instrumento capaz de traduzir
aquela técnica em conforto. Amanhã haveria outros leitos, outros nomes, outros diagnósticos.
Mas, por hoje, ela fizera o seu melhor, não apenas como oncologista que
monitorava células malignas, mas como alguém que entendia que, no delicado
limiar entre o jaleco e o coração, a medicina atingia seu ápice não quando
derrotava a morte, mas quando conseguia, finalmente, olhar nos olhos de quem
partia e validar a beleza do que foi vivido.
José Casanova
























