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Vereadoras Nathália Duda e Regilda Santos conduzem Sessão Solene

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Câmara de Bacabal debate diversidade religiosa durante sessão desta quarta-feira

A Câmara Municipal de Bacabal realizou, nesta quarta-feira (26), mais uma sessão ordinária, marcada pela apreciação de projetos, requerimentos e por um amplo debate em torno da diversidade religiosa e cultural. A sessão foi aberta oficialmente pela vereadora Natália Duda(MDB), que convidou o professor Markim para realizar a leitura bíblica. Na sequência, o vereador Reginaldo do Posto fez a leitura da ata da sessão anterior, enquanto o vereador Alberto Sobrinho apresentou a Ordem do Dia, composta por projetos e requerimentos.

Entre as matérias que mais mobilizaram os vereadores e a galeria da Casa esteve o requerimento de autoria da vereadora Patrícia Teles(MDB), que solicita a instalação, em espaço público, de uma estátua alusiva a uma religião de matriz africana, como forma de valorização da diversidade cultural e religiosa.

A proposta provocou um dos debates mais significativos da sessão. Três vereadores votaram contra o requerimento: Cândido de Madureira(UNIÃO), Paulo Brandão(PP) e Ivonete Paiva(PSB). Durante a discussão, o vereador Cândido de Madureira chegou a propor a retirada da matéria da pauta e defendeu que fosse realizada uma consulta pública para que a população pudesse se manifestar sobre a instalação da estátua.

A sugestão abriu espaço para uma discussão mais ampla sobre os critérios utilizados pelo Poder Público na presença de símbolos religiosos em espaços públicos.

A defesa de uma consulta popular, por si só, constitui uma posição política legítima. Entretanto, o debate ganha outra dimensão quando se observa que Bacabal já possui espaços públicos associados a manifestações religiosas, como a Praça da Bíblia, além de imagens de santos católicos instaladas em outros locais públicos, sem que, para isso tenha sido exigida consulta popular semelhante.

Diante disso, uma das questões levantadas  é se os mesmos critérios estão sendo aplicados às diferentes manifestações religiosas.

A discussão pode ser sintetizada na seguinte pergunta: foi aplicado o mesmo critério às diferentes manifestações religiosas ou está sendo criada uma exigência específica para uma manifestação de matriz africana que não foi aplicada anteriormente a manifestações católicas ou evangélicas?

A questão ganha relevância porque o Supremo Tribunal Federal, no julgamento do Tema 1.086, estabeleceu entendimento de que a presença de símbolos religiosos em espaços públicos não viola, por si só, os princípios da laicidade, da impessoalidade e da não discriminação quando estiver relacionada à manifestação da tradição cultural da sociedade brasileira.

Assim, caso a eventual instalação da estátua de Oxum seja fundamentada pelo Município em critérios como valorização da cultura afro-brasileira, patrimônio cultural, diversidade e manifestação histórico-cultural, o precedente do STF poderá integrar a fundamentação jurídica da iniciativa.

Galeria lotada e Hino da Umbanda

A discussão mobilizou a galeria da Câmara, que estava lotada, especialmente por representantes e simpatizantes de religiões de matriz africana. Ao final da aprovação do requerimento, o público presente recebeu a decisão com aplausos de pé.

Em um momento de forte significado simbólico, como forma de agradecimento aos vereadores que apoiaram a proposta, integrantes da comunidade presente entoaram o Hino da Umbanda, transformando a galeria em espaço de manifestação cultural e religiosa.

O episódio marcou a sessão não apenas pelo resultado da votação, mas também pela presença expressiva de representantes de uma tradição religiosa que historicamente reivindica maior reconhecimento e respeito no espaço público.

Debate político fortalece o Legislativo

Após a apreciação do requerimento e a aprovação das demais matérias constantes na Ordem do Dia, os vereadores Patrícia Teles, Luizinho Padeiro(PSDB), Feitosa(UNIÃO), Bertulino(PSDB) e Reginaldo do Post/o (PP) utilizaram a tribuna( para apresentar requerimentos verbais e discutir questões de interesse da população.

O tradicional debate entre os parlamentares reafirmou o papel da Câmara como espaço de discussão, divergência e construção democrática. As manifestações dos vereadores levaram para a tribuna diferentes demandas da população e demonstraram que o plenário permanece como uma das principais arenas para o debate dos assuntos de interesse do município.

A sessão desta quarta-feira, portanto, terminou deixando uma discussão que ultrapassa os limites do requerimento: como uma cidade plural deve representar, nos seus espaços públicos, a diversidade cultural e religiosa de sua população?

Em Bacabal, a resposta a essa pergunta começa a ganhar novos capítulos dentro do próprio plenário da Câmara Municipal.













CRÔNICA DO DIA: Tinta de Sobrevivência

O café na mesa de Clarice já estava frio, uma mancha escura na porcelana, mas o manuscrito diante dela parecia pulsar com uma vida própria.

São Luís, do lado de fora da janela, insistia em ser a mesma de sempre: a chuva atingindo os azulejos, o trânsito barulhento das ruas ,o centro histórico transbordava memória e  cheiro de maresia que, para ela, sempre teve gosto de promessas não cumpridas. Clarice carregava na bolsa um calhamaço de páginas marcadas por anotações à margem, uma coleção de contos que ela chamava, em segredo, de "Tinta de Sobrevivência".

Eram histórias sobre mulheres que ela via cruzando os ladeirões da cidade, mulheres que ninguém notava ;a doméstica que sonhava com uma vida melhor, a estudante que desafiava a lógica corporativa, a vizinha que reconstruía a vida após um episódio de violência doméstica.

Ela passara os últimos dois anos batendo de porta em porta, ou melhor, de e-mail em e-mail, tentando  convencer editores de que aquelas vidas mereciam um livro. A resposta era quase sempre a mesma, polida até a transparência: "seu trabalho tem um estilo interessante, mas não é comercial", ou ainda, "o mercado literário está saturado de ficção regional". Era um eufemismo técnico para dizer que as histórias daquelas pessoas, contadas por ela, não atraíam o brilho necessário ao marketing editorial.

Naquela terça-feira, a reunião no pequeno escritório de uma editora independente no centro era sua última tentativa antes de se render ao auto-suporte, um caminho que a levaria meses de economias. O editor, um homem que parecia viver em um estado constante de tédio intelectual, folheou os papéis como se estivesse descartando contas vencidas.

O editor parou de folhear as páginas por um instante. Voltou algumas folhas, como quem procurava confirmar uma lembrança.

— Li aquele conto da empregada doméstica... a que atravessa a cidade de ônibus imaginando o mar antes de começar mais um dia de trabalho.

Clarice ergueu os olhos.  desde que entrara na sala,  só agora percebeu que ele realmente havia lido o manuscrito.

— Gostei muito.

O silêncio que se seguiu foi breve, mas pesado o suficiente para fazer nascer uma esperança. O editor apoiou as mãos sobre a mesa, respirou fundo e desviou o olhar para a janela.

— Justamente por isso eu sei que ele é bom. Mas... não consigo vender isso.

A frase caiu entre os dois como uma porta sendo fechada sem violência, porém definitivamente. Naquele instante, Clarice compreendeu que o problema nunca fora a qualidade das histórias. O problema era que elas insistiam em iluminar vidas que o mercado preferia manter na penumbra.

— Clarinha. — Recomeçou ele, usando o diminutivo que ela detestava.  —Entendo a sua paixão. Mas você entende que, hoje em dia, o leitor quer escapismo? Ele quer histórias que o transportem para longe do Maranhão. Essas suas personagens são... como posso dizer? São muito pesadas. Muito reais num sentido que cansa. Ninguém quer abrir um livro para encontrar a vizinha.

Clarice sentiu uma pontada na base do pescoço. O que ele chamava de "escapismo", ela via como a necessidade urgente de encarar o real. A literatura não era para fugir do mundo, era para dar ao mundo o contorno do que ele tentava esconder. Ela não queria apenas letras, queria um espelho capaz de mostrar as feridas de São Luís e, ao mesmo tempo, a beleza da poeira que dançava nas frestas das casas de fachada colonial.

— O meu público não é o leitor que quer esquecer o mundo. — Ela rebateu, a voz equilibrada, embora o coração batesse contra as costelas. — É o leitor que precisa ser lembrado de que ele existe. De que as lutas que ele trava todo dia, na fila do banco ou na reconstrução de uma casa, são literatura. Se eu não escrever sobre essas mulheres, o que vai restar delas? Apenas a estatística.

O editor suspirou, fechando a pasta com um gesto de encerramento. Ele não a odiava, e isso era talvez o mais humilhante: ele simplesmente não via valor.

Para ele, a literatura era cosmética; para ela, era a única maneira de não se perder em meio ao silenciamento crônica das vozes femininas que habitavam a periferia dos grandes centros ditos literários.

Ao empurrar a porta da editora, Clarice foi recebida por uma chuva grossa, dessas que transformam as ladeiras de São Luís em espelhos trêmulos. Ficou imóvel por um segundo, como se ainda pudesse voltar e ouvir uma resposta diferente. Não voltou.

Abriu a bolsa, retirou o manuscrito e, num gesto instintivo, apertou o maço de folhas contra o peito, escondendo-o debaixo da blusa. Depois desceu a calçada. A água escorria pelos cabelos, encharcava o vestido, pesava nos sapatos e desmanchava qualquer aparência de elegância. Ela caminhava sem pressa, deixando que a chuva lhe tomasse o corpo inteiro.

Quando alcançou a marquise de uma loja fechada, afastou cuidadosamente o manuscrito do peito. As páginas permaneciam secas. Se fosse preciso escolher, preferia que a chuva levasse dela qualquer coisa, menos aquelas histórias.

 Cada conto ali era um fragmento de identidade que ela havia arrancado do anonimato. A escrita, para Clarice, não era uma busca por fama ou prêmios; era o esforço de manter vivas as trajetórias que a história oficial preferia apagar. Se o mercado não queria a tinta da sobrevivência, que assim fosse. Ela não a escreveria para o mercado, nem para editores entediados, mas para aquelas que, ao abrir um livro, pudessem encontrar, finalmente, a sua própria voz ecoando nas páginas.

Sentada em um banco de madeira úmida pela chuva, ela tirou uma caneta do bolso e começou a escrever, ali mesmo, um novo conto. A descrença do editor tornara-se o prefácio não escrito de sua obra.

Antes de iniciar o novo conto, Clarice abriu cuidadosamente o manuscrito. Passou os dedos pelas primeiras folhas para verificar se a chuva havia vencido o cuidado com que as protegera. As páginas continuavam intactas.

Quando chegou à capa, porém, percebeu uma pequena ironia. A tinta do título escorrera com a umidade. Restava apenas um borrão escuro onde antes se lia o nome da coletânea.

Ela permaneceu alguns segundos olhando aquele vazio. Retirou a caneta do bolso, apoiou o manuscrito sobre os joelhos e escreveu novamente, com letras firmes:

Tinta de Sobrevivência.

Fechou as páginas, respirou o cheiro de papel úmido misturado à maresia e começou o conto seguinte.


José Casanova 
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista 
Membro da Academia Bacabalense de Letras 
Academia Mundial de Letras da Humanidade 

domingo, 23 de agosto de 2026

CRÔNICA DO DIA: Tijolo por Tijolo

O entardecer ainda tingia Fortaleza de dourado quando o fogo rompeu o silêncio. As labaredas ergueram-se rápidas, alaranjadas e impiedosas, engolindo, uma a uma, as paredes da casa de dona Zilda e tudo o que nelas ainda respirava em memória. A estrutura de madeira compensada e telhas de fibrocimento, que ela levara uma vida inteira para erguer, torceu-se e cedeu em menos de uma hora, deixando apenas um amontoado de brasas e o cheiro insuportável de borracha e madeira queimada. Quando o fogo finalmente silenciou, o que sobrou foi o desamparo total: Zilda sentada no chão de terra batida, o rosto pintado de fuligem, segurando apenas um retrato de família que escapara por milagre.

Não houve tempo para luto. A notícia correu a favela com a velocidade das fofocas, mas não veio acompanhada de piedade,  veio com a urgência da ação.

Em menos de vinte minutos, o pátio da comunidade estava cheio de mulheres. Não havia cargos oficiais, nem diretórios, nem planos de governo; havia ali uma rede viva, forjada no convívio diário das filas do posto de saúde e na partilha da mesma carência.

— Levanta, Zilda. Chorar não põe telhado em cima da cabeça ! — Disse Tereza, mulher de braços fortes que, sem pedir licença, tomou o retrato das mãos da amiga e o colocou num lugar seguro.

A reconstrução começou antes mesmo de os bombeiros encerrarem o rescaldo. A solidariedade, naquele recanto de Fortaleza, nunca foi uma teoria abstrata; era uma necessidade mecânica de sobrevivência. Naquela mesma noite, enquanto os homens da vila ainda discutiam como salvar os restos dos móveis, as mulheres já haviam montado uma força-tarefa. Maria, a dona do armazém da esquina, abriu o estoque e liberou tijolos e sacos de cimento que mantinha como reserva. Joana, cuja casa já era pequena demais para seus seis filhos, trouxe metade de sua própria estrutura de madeira para garantir que Zilda tivesse onde se abrigar até a alvenaria subir.

O mutirão seguiu pelos dias seguintes sob um calor que parecia tentar puni-las por ousar desafiar a miséria. Cada tijolo colocado era um exercício de partilha. Elas se revezavam no comando da mistura de argamassa, sob o comando da voz firme de dona Zilda, que, apesar da dor, agora dirigia a obra com a autoridade de quem sabia que sua dignidade estava sendo restaurada tijolo por tijolo. Não era uma construção profissional, mas era a mais sólida das estruturas: cada liga de cimento ali continha o suor emprestado de vizinhas que sacrificavam o pouco tempo de descanso após jornadas duplas de trabalho braçal.

Enquanto empilhavam os blocos, as conversas não eram sobre a tragédia da perda, mas sobre o futuro.

Elas falavam da merenda dos filhos, dos preços da feira, da próxima reunião da associação de moradores. A reconstrução da casa era, na verdade, a reconstrução do tecido social que as mantinha de pé. Ali, em meio ao pó e ao barulho das colheres de pedreiro, elas reafirmavam a premissa de sua existência naquele território: ali, ninguém cai sozinho, porque a queda de uma é o chamado para que todas se ergam.

No fim da tarde do penúltimo dia de trabalho, quando as últimas fiadas de tijolos começavam a ganhar altura, o céu de Fortaleza escureceu de repente. Um vento quente atravessou o terreno, levantando a poeira e espalhando sacos vazios de cimento pelo quintal.

— A chuva vem forte! — Gritou Joana, olhando para o horizonte.

As primeiras gotas caíram pesadas, abrindo pequenas crateras na argamassa ainda fresca. Por um instante, ninguém falou. Bastaria um temporal para desfazer em poucos minutos o esforço de vários dias. Foi Tereza quem reagiu primeiro.

— Não deixem essas paredes caírem!

Sem hesitar, as mulheres correram. Umas seguravam lonas sobre a alvenaria recém-erguida; outras escoravam as paredes com tábuas improvisadas. Maria empilhava tijolos na base dos plásticos para impedir que o vento os arrancasse. Encharcadas, cobertas de barro e cimento, elas formaram uma barreira humana em torno da casa, protegendo cada parede como quem protege alguém da própria família.

Quando a chuva finalmente cessou, a estrutura permanecia de pé. Ninguém comemorou.

Apenas voltaram ao trabalho, como se vencer tempestades também fizesse parte da rotina de quem aprendera a reconstruir a vida muitas vezes.

Quando o último tijolo foi posicionado e o telhado básico foi finalmente fixado, não houve cerimônia.

Zilda entrou no espaço nu, ainda cheirando a cimento fresco. Ela olhou para as paredes feitas com tijolos doados, cimento emprestado e tempo roubado das fadigas diárias. O espaço não era luxuoso, não tinha reboco, mas era o lugar mais seguro do mundo.

Caminhou devagar pelo pequeno cômodo ainda vazio. Em um canto, envolvido por um pano para protegê-lo da poeira da obra, estava o retrato de família que escapara das chamas. Ela o segurou com cuidado, como quem reencontra um pedaço de si que o fogo não conseguira alcançar.

Procurou um prego esquecido entre os restos de madeira, apoiou uma pequena banqueta contra a parede recém-erguida e, com movimentos lentos, pendurou o retrato acima da porta.

Afastou-se alguns passos. As paredes ainda estavam ásperas, sem reboco, e o cheiro do cimento fresco dominava o ambiente. Mas aquele retrato devolvia à casa algo que nenhum mutirão seria capaz de construir: a memória.

Zilda sorriu discretamente. Naquele instante, compreendeu que elas não haviam levantado apenas paredes. Haviam devolvido um endereço às lembranças e um futuro à esperança.

Tereza aproximou-se, limpando o rosto sujo de pó, e entregou a Zilda uma xícara de café quente. Elas se olharam, e não foi preciso agradecer. O agradecimento ali seria uma formalidade inútil, quase uma ofensa àquela aliança. Elas sabiam que, caso o fogo visasse a próxima porta, o resultado seria exatamente o mesmo.

 Naquele momento, sob aquela estrutura que haviam erguido com a força do coletivo, elas compreenderam que a pobreza pode até levar o patrimônio, mas nunca será párea para a solidariedade de mulheres que entendem que, quando a vida as desafia à destruição, a resposta mais potente é sempre a construção  tijolo por tijolo, mão por mão, irmandade fortalecida na certeza de que a moradia, assim como a amizade, é algo que se mantém de pé não apenas pela liga do cimento, mas pelo laço indestrutível de quem decide ser o arrimo alheio quando o mundo inteiro, lá fora, prefere ignorar que ali existe gente tentando sobreviver.

José Casanova 

sábado, 22 de agosto de 2026

CRÔNICA DO DIA: Cercas de Espinho

O carro da expedição de resgate sacolejava por uma estrada de terra que parecia rastro de cobra por um mundo esquecido, onde a vegetação do cerrado dava lugar a cercas de arame farpado que não delimitavam propriedades, mas aprisionavam dignidades. Mariana, assistente social cujas botas já traziam o barro daquela lida há anos, apertou o volante com força. Ao seu lado, o agente da fiscalização conferia o mapa. A denúncia falava de uma fazenda de gado, isolada, onde as leis trabalhistas eram apenas um conceito distante.

Não eram apenas homens que eles buscavam. A inteligência indicava que, no alojamento dos fundos, as mulheres viviam em condições de subserviência total, encarregadas de alimentar uma tropa de trabalhadores que mal poderiam suprir a própria miséria. Ao chegarem ao portão principal, a tensão era palpável. A cerca de espinhos não servia apenas para o gado; servia para manter o medo trancado dentro de um perímetro de silêncio. Um capataz surgiu, a mão pesada sobre a cintura, os olhos semicerrados sob a aba do chapéu de couro, medindo o alcance daquela pequena comitiva estatal.

Mariana não recuou. Ela sabia que a autoridade do seu crachá, naquele momento, era a única barreira entre aqueles trabalhadores e a violência da retaliação. Enquanto os fiscais entravam para conferir os registros das cadernetas de dívidas do conhecido "barracão" onde tudo era tabelado pelo preço do sangue e da fome, ela dirigiu-se ao bloco de alvenaria precária que servia como cozinha e dormitório das mulheres.

O cheiro era uma mistura insuportável de gordura rançosa, suor e desespero. Dez mulheres ali estavam, curvadas sobre tachos imensos ou esfregando roupas com as mãos gretadas.

Num canto da cozinha, uma panela grande permanecia destampada sobre um fogão de barro já frio. Ao lado dela, um calendário de anos anteriores ainda estava preso à parede por um prego enferrujado. As folhas haviam parado em um mês qualquer, como se o tempo também tivesse desistido de seguir adiante naquele lugar. Sobre uma prateleira torta, uma pequena boneca feita de retalhos observava o ambiente com um dos olhos desfeito pela poeira. Ninguém parecia notar aqueles objetos. Mas Mariana compreendeu, naquele instante, que a escravidão não roubava apenas a liberdade. Roubava o direito de contar os dias, de cuidar das pequenas belezas e de deixar a infância existir onde a sobrevivência ocupava todo o espaço.

 Quando viram uma mulher estranha, vestida com dignidade e com um olhar focado em seus rostos, o trabalho não parou por medo, mas um silêncio absoluto tomou o ambiente. Havia tantas formas de escravidão quanto havia ali de mulheres. Eram mães, filhas, irmãs que haviam sido atraídas com a promessa de vida melhor a quilômetros de suas casas, apenas para encontrar um sistema de servidão por dívida do qual ninguém nunca voltava.

 Meu nome é Mariana. — Disse ela, mantendo uma distância segura, mas próxima o suficiente para que não houvesse segredos. — Eu não vim aqui como quem vem pedir algo. Vim para garantir que vocês não precisam mais estar aqui.

Não houve aplausos, nem gritos de alegria. Havia apenas uma desconfiança dolorosa, a couraça de quem foi traída tantas vezes pela palavra de estranhos. Eles começaram a ouvir a retirada de documentos. Quando o capataz tentou intervir, alegando que "aquelas ali" tinham dívidas vultosas a pagar, Mariana sentiu o sangue ferver.

 A dívida era a corrente moderna, o elo de espinho que os mantinha imóveis. Ela lembrou-se do que vira em tantos outros interiores do estado: a lógica de que o patrão torna-se dono do corpo porque provê alimento que ele mesmo subtraiu com juros extorsivos.

O resgate foi silencioso. As sobreviventes, com seus pertences dentro de sacos de fibra, foram levadas para o ônibus estacionado fora da cancela. Mariana acompanhou uma das mulheres, Maria, que mal tinha vinte anos e segurava um bebê cujo choro parecia vir de uma alma muito mais antiga. Maria não chorava. Sua expressão era de uma dureza gélida.

Ao subirem no veículo, quando as rodas finalmente começaram a girar e as cercas de espinho ficaram para trás, a mudança na atmosfera foi quase audível. O ar parecia mais limpo, embora o trauma ainda ali estivesse, um fantasma que não se deixava espantar por uma simples viagem de retorno à cidade.

O bebê chorou por mais alguns minutos, até que o balanço constante do carro venceu o cansaço. Aos poucos, seu corpo relaxou nos braços da mãe, e a respiração ganhou o ritmo tranquilo de quem, pela primeira vez em muito tempo, dormia sem o peso do medo ao redor.

Maria permaneceu imóvel. Com a mão livre, passou os dedos lentamente sobre o anelar da mão esquerda, como quem procurasse a marca de uma aliança que nunca existira. Não encontrou ouro, nem promessa, apenas a pele áspera de quem aprendera cedo demais que algumas correntes não precisam de metal para prender.

Depois voltou o rosto para a janela. Encostou a testa no vidro e acompanhou, em silêncio, as cercas de arame ficando cada vez menores até desaparecerem na poeira da estrada. Não chorou. Havia dores que, depois de atravessarem tantos anos, já não encontravam lágrimas. Apenas respirou fundo, enquanto o filho dormia sereno em seu colo.

Enquanto voltavam para São Luís, a capital, Mariana olhava pelo retrovisor. Ela sabia que a polícia logo seria acionada pelo dono da fazenda para tentar reaver o"capital" levado embora, mas a justiça do resgate já estava feita. O debate sobre a terra e o que ela produzia; se riqueza ou servidão,  era um abismo de desigualdade que o Maranhão carregava como uma cruz.

Ela olhava para Maria, que agora abraçava o filho com menos medo, e refletia sobre o custo daquela liberdade. Muitas delas voltariam para bairros periféricos de suas cidades, para a precariedade do subemprego, mas ao menos ali seriam donas de suas próprias horas.

Mariana sabia que o trabalho social, naquele contexto, não era um fim. Era uma interrupção. O sistema de escravidão moderna se renovava com a mesma rapidez com que a ferrugem consumia os arames das fazendas. A tensão social, o conflito entre o agronegócio que devorava hectares e os seres humanos que ele tratava como insumos, ainda precisaria de muito mais do que visitas de fiscalização.

 O carro cortava a escuridão do sertão, ela não pensou nas estatísticas de sucesso. Pensou no desenho da cerca de espinhos através da janela e na promessa de que, enquanto houvesse alguém disposta a questionar o dono da terra, a corrente, por mais grossa que parecesse, não seria eterna. O resgate de hoje era a pequena, mas fundamental rachadura no muro daquelas vidas, e para Mariana, isso já era mais do que a lei,  era a própria dignidade humana batendo em retirada, sobrevivendo, apesar de tudo.

 José Casanova 

 

 

CRÔNICA DO DIA: O Ventre do Destino

A espera em Chapadinha não se media em meses, mas em batidas do coração contra as paredes de  uma casa que, durante muito tempo, pareceu grande demais para uma mulher só. Sandra observava o quarto que ela mesma pintara de um amarelo suave, quase como se tentasse capturar o brilho do sol maranhense para dentro daquele cômodo. O berço, montado com uma precariedade cuidadosa, era o ponto focal de uma existência que, de repente, ganhava um sentido que nenhum livro de autoajuda poderia descrever.

Ela ouvia os comentários na mercearia, no banco, na fila do mercado. Eram sussurros que tentavam policiar sua vida: por que uma mulher solteira, aos quarenta anos, iria querer "se amarrar" a uma criança que não era de seu sangue? O julgamento social em uma cidade do interior atua como um tribunal de paredes finas, onde a autonomia feminina ainda é vista como uma anomalia que precisa ser explicada ou, no mínimo, carimbada com desconfiança. As pessoas olhavam para a barriga da Sandra ou para a ausência dela  com uma curiosidade invasiva, perguntando-se sobre qual teria sido o "desvio" que a fizera optar pelo caminho da adoção.

Numa manhã de sábado, Sandra esperava sua vez no caixa da mercearia, segurando uma pequena sacola de compras. A senhora à sua frente, conhecida pelas conversas que atravessavam a cidade mais depressa do que o vento, voltou-se para ela com um sorriso delicado demais para ser inocente.

— Ainda dá tempo de casar, minha filha. Depois você pensa nessas coisas de criança...

Sandra recebeu o troco, guardou as moedas na bolsa com a mesma calma de quem já havia escutado aquela sentença muitas vezes. Ergueu os olhos e respondeu sem alterar a voz:

— Talvez. Mas meu filho não podia esperar.

A mulher permaneceu em silêncio. Sandra saiu da mercearia sem olhar para trás. Do lado de fora, o sol de Chapadinha aquecia a calçada. Percebera que algumas respostas não servem para convencer quem pergunta, mas para lembrar a nós mesmos por que escolhemos determinado caminho.

Sandra, no entanto, havia passado da fase de se justificar. A sua gestação não fora de células e tecidos, mas de processos jurídicos, de visitas constantes ao fórum, de entrevistas com psicólogas que examinavam sua casa como se fosse um cenário de teatro. Ela passara madrugadas acordada, não com enjoos ou dores nas costas, mas com o medo paralisante de que a burocracia do Estado fosse um obstáculo maior do que o seu próprio amor. O "ventre do destino" era, na verdade, o fórum da cidade, onde ela aprendera que a maternidade não é um evento biológico, mas uma escolha que você renova a cada amanhecer.

Quando o telefone finalmente tocou,  aquela voz técnica da assistente social informando que havia uma criança disponível,  o tempo em Chapadinha pareceu parar. Não houve o estalo de uma bolsa rompida, mas o estalo de uma vida que, até então, era apenas um desejo, e de repente se tornava um peso real e vibrante em seus braços.

No abrigo, quando lhe entregaram o pequeno, ela sentiu um pânico genuíno misturado a um alívio avassalador. Ele tinha seis meses, olhos que pareciam mapear seu rosto com uma sabedoria ancestral. Ao segurá-lo, o julgamento das pessoas na fila da mercearia evaporou-se como a névoa da manhã. O que era aquele pequeno ser além de uma extensão da sua própria alma? O preconceito, a solidão da vida solteira, a desconfiança da vizinhança, tudo aquilo era barulho externo que não conseguia penetrar naquele silêncio sagrado o primeiro gesto de alimentar quem finalmente chamaria de filho, da primeira troca de fralda, da primeira noite em que ela não dormiu apenas para observar se ele respirava.

Nos dias que se seguiram, a rotina foi uma dança de adaptação. A criança tinha cólicas que faziam Sandra andar pela casa, murmurando canções de ninar que ela nem sabia que conhecia. Eram serenatas improvisadas para afogar o choro. E o julgamento não parou; continuou nas frestas das janelas da vizinha, no olhar de lado na paróquia.

"Como será que vai criar?", perguntavam entre si, como se o amor precisasse de linhagem genética para ser legítimo.

Sandra respondia apenas com a sua perseverança.

Ela levava o filho à praça, enfrentava os olhares com uma postura de rainha. Ela entendia agora que a adoção era um ato de rebeldia: era a recusa em aceitar que a maternidade fosse limitada pelas leis da biologia. O filho que o seu coração gerou não era "adotado" no sentido de ser um favor; era seu por um direito mais antigo e profundo do que qualquer papel assinado por um juiz. O ventre do destino fora largo o suficiente para incluir aquela história, e ela, como uma mãe que reconhece em sua cria a própria continuidade, sabia que estava construindo ali o maior dos patrimônios: uma família feita não pelos laços de sangue que a natureza impõe por acaso, mas por um compromisso diário, incondicional e inviolável.

Naquela noite, depois de embalar o menino e esperar que o choro desse lugar à respiração tranquila do sono, Sandra entrou devagar no quarto. A luz amarelada do abajur já estava apagada. Apenas a claridade dos postes da rua atravessava a janela entreaberta e desenhava, lentamente, a sombra do berço sobre a parede que ela mesma pintara meses antes. Aquele amarelo suave, que durante tanto tempo iluminara apenas a espera, agora acolhia uma presença.

Ela aproximou-se sem fazer ruído. O menino dormia com uma das mãos fechadas sobre a manta, alheio às longas filas, aos papéis assinados, às perguntas indiscretas e aos julgamentos que haviam antecedido aquele encontro.

Em silêncio, apagou a luz do corredor, fechou a porta com delicadeza e permaneceu por um instante olhando para o quarto através da pequena fresta. Depois de muitos anos, aquela casa deixara de parecer grande demais. Finalmente tinha o tamanho exato de uma família.


José Casanova 
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista 
Membro da Academia Bacabalense de Letras 
Academia Mundial de Letras da Humanidade 


quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Prefeito Roberto Costa autoriza construção de cinco creches que vão abrir mais de 1.500 vagas para a Educação Infantil em Bacabal

O que durante anos permaneceu como promessa e expectativa começa a ganhar forma concreta para centenas de famílias de Bacabal. O prefeito Roberto Costa assinou, nesta quinta-feira (20), as ordens de serviço para a construção de cinco novas creches no município. Juntas, as unidades terão capacidade para ofertar mais de 1.500 novas vagas destinadas a crianças de 0 a 5 anos, ampliando a rede municipal de Educação Infantil.

A solenidade que marcou o início das obras foi realizada no Residencial Terra do Sol, um dos bairros mais populosos de Bacabal. No local, a comunidade aguardava há mais de 12 anos pela construção da unidade de Educação Infantil. Além da creche do Terra do Sol, o ato oficializou o início das obras de outras quatro unidades, nos bairros D’Areia, Novo Bacabal e Cohab II, além de uma unidade localizada na região central.

Ao todo, os cinco projetos contemplam 40 salas de aula e estruturas planejadas para oferecer um ambiente adequado ao desenvolvimento e à aprendizagem das crianças. As unidades contarão com fraldário, brinquedoteca, salas de amamentação, pátio coberto, parquinho, biblioteca, refeitório e outros espaços, todos projetados com acessibilidade.

Uma espera de mais de uma década

No Residencial Terra do Sol, o início da obra foi recebido com emoção por moradores que acompanharam durante anos a expectativa pela construção da creche.

“Há muito tempo a gente esperava por essa escola. O prefeito disse que ia fazer e hoje estamos vendo a obra começar. Estou muito feliz porque nossas crianças vão ter onde estudar aqui mesmo no bairro”, destacou Maria da Conceição, representante das mães da comunidade.

A alegria também foi compartilhada pelas crianças que serão atendidas pela nova unidade. “Estou muito feliz porque o prefeito Roberto Costa vai construir uma escola para as crianças do Terra do Sol. Obrigada, prefeito!”, declarou Eloá Isabelle, de 4 anos.

Quando concluídas, as cinco creches deverão contribuir para a redução de aproximadamente 60% do déficit de vagas em creches e pré-escolas de Bacabal. Atualmente, o município conta com 25 escolas de Educação Infantil, que atendem 4.845 alunos.

Projetos resgatados

Durante a solenidade, o prefeito Roberto Costa destacou o trabalho realizado para recuperar projetos que estavam paralisados e viabilizar a retomada dos investimentos destinados à Educação Infantil.

“Depois de 12 anos de obras que foram paralisadas, há um ano e oito meses nós estamos numa luta diária. Em Brasília, fui diversas vezes ao FNDE e ao Ministério da Educação, tentando resgatar esses projetos que não tinham sido executados. E hoje, depois desse longo tempo, nós damos início à construção de cinco creches”, afirmou.

O prefeito ressaltou ainda que a ampliação da oferta de vagas terá impacto direto na vida das famílias, especialmente das mães que precisam conciliar os cuidados com os filhos, o trabalho e outras responsabilidades.

“As mães de família passavam pelos escombros e sonhavam um dia ter essa oportunidade de colocar o seu filho num lugar onde ela pudesse garantir também o café, o almoço e o jantar dessas crianças; que pudesse garantir a formação educacional delas. E hoje esse sonho começa a ser realizado”, destacou Roberto Costa.

Estrutura e prazo

Segundo o gestor municipal, as unidades serão construídas dentro dos padrões previstos nos projetos, classificados como Tipo 2 e Tipo 3. A expectativa é que as obras sejam concluídas em um período entre 10 e 12 meses, de acordo com as características de cada empreendimento.

“As creches terão o Tipo 2 e o Tipo 3, mas, até um ano, nós pretendemos garantir todo o recurso que for necessário para que possam ser entregues dentro da data prevista inicialmente”, explicou o prefeito.

Após a solenidade no Residencial Terra do Sol, Roberto Costa seguiu para o bairro Novo Bacabal, onde acompanhou o início da construção da creche localizada na Avenida Dom Bosco.

Com o início simultâneo das cinco obras, Bacabal avança na ampliação da Educação Infantil e transforma uma espera que atravessou mais de uma década em novas perspectivas para crianças e famílias de diferentes regiões do município. A expectativa é de que, com a conclusão das unidades, mais de 1.500 crianças possam conquistar um lugar na rede municipal de ensino, enquanto suas famílias passam a contar com uma estrutura pública mais próxima e preparada para os primeiros anos da vida escolar.

CRÔNICA DO DIA: Sal e Relevo

O mar em Icapuí, geralmente um espelho de cobalto que sussurrava promessas de abundância, amanheceu estranho. Marinalva sentiu o peso do ar antes mesmo de alcançar a areia. Quando os primeiros raios de sol tocaram a costa, o que ela viu não foi a espuma branca e generosa, mas uma película oleosa, um manto negro e viscoso que avançava lentamente, silenciando as ondas e cobrindo os caranguejos que teimavam em lutar contra a camada de piche. Ela tocou a água com a ponta dos dedos e o óleo, frio e denso, grudou em sua pele como uma sentença de morte. Suas mãos, calejadas por décadas de rede e remo, tremeram pela primeira vez. Não era medo do mar; era o pavor de ver seu sustento se transformar em lama.

Naquele dia, a vila de pescadores emudeceu. O cheiro era forte, acre, um atestado de que o equilíbrio do ecossistema fora violado por uma ganância que não tinha rosto, mas que deixava rastros inequívocos. Marinalva reuniu o grupo na sombra de um galpão de redes. Eram pescadores, mariscadeiras e artesãos, gente que entendia o tempo da maré melhor do que qualquer relógio. Ela olhou para cada rosto,  rostos curtidos pelo sol e pela salinidade  e sentiu a urgência da sobrevivência.

— Isso não é uma fatalidade. — Disse ela, a voz subindo acima do marulho estranhamente abafado.

— Isso é um ataque. Se a gente ficar aqui esperando o mar se lavar sozinho, o próximo a virar defunto na areia somos nós! — Desabafou Genival um pescador da comunidade.

A indignação, contida até ali pelo choque, explodiu em vozes sobrepostas. Eles eram uma gente acostumada a lidar com a natureza, a respeitar a fúria das tempestades e o silêncio da calmaria, mas nunca haviam enfrentado um inimigo que não pudesse ser lido ou previsto. A partir daquela tarde, o protesto tornou-se a nova lida. Marinalva transformou seu barco de pesca, o "Esperança", em um posto de comando improvisado. Se as autoridades não vinham ver a mancha, elas levariam o oceano ferido até elas.

Marinalva apoiou um pedaço de carvão sobre a madeira gasta do casco do Esperança e, com traços firmes, desenhou de memória o contorno da costa, as enseadas, os arrecifes e os pontos onde a maré costumava mudar de direção. Em torno dela, homens e mulheres acompanhavam cada risco em silêncio. Sem elevar a voz, começou a distribuir as tarefas. As marisqueiras separavam baldes, luvas e panos para recolher os resíduos que chegavam à praia. Os pescadores arrastavam sacos de fibra de coco para improvisar barreiras contra o avanço do óleo. Os mais jovens anotavam tudo o que encontravam: peixes mortos, aves cobertas de piche, trechos da areia já enegrecidos. Ninguém perguntou quem estava no comando. O próprio mar, ferido e silencioso, já havia escolhido sua liderança.

 Marinalva tornou-se a porta-voz, uma figura firme sob o sol do Ceará, usando seu lenço de cabeça como identificação e sua retórica como arma. Ela enfrentava representantes de empresas, jornalistas e políticos com a mesma destreza que usava para remendar redes de náilon.

— Vocês não estão vendo apenas uma mancha. — Ela dizia em uma reunião tensa no ginásio municipal. — Vocês estão vendo o fim da nossa memória. Nossos avós tiraram o leite das nossas mães desse mar. Se o peixe morre, a história de Icapuí é apagada. O relevo dessa costa é o nosso mapa; o sal é o nosso tempero. Não vamos trocar a nossa sobrevivência por um silêncio caro.

A pressão surtiu efeitos, ainda que lentos e dolorosos. A visibilidade forçou o início de uma limpeza coordenada e o reconhecimento da tragédia. Mas Marinalva não se deu por satisfeita com o uso de absorventes industriais e detergentes nas pedras. Ela liderou uma marcha que percorreu quilômetros de falésias até  Fortaleza, uma jornada de dor e exigência de justiça. Ela carregava, em um frasco de vidro, uma amostra do óleo negro, uma relíquia tóxica que servia como evidência constante da urgência.

Houve noites, durante o ápice do desastre, em que a desesperança quase a venceu. Quando ela voltava do protesto e olhava para o mar, a mancha ainda brilhava ao luar, um espelho maldito. Contudo, na manhã seguinte, ao ver as rede que ela própria remendou serem preparadas para uma pescaria ainda incerta, percebia que a resiliência era um músculo. Ela não estava apenas limpando o mar; estava preservando a dignidade de quem não sabe viver longe do horizonte.

Ao final do mês, quando os primeiros peixes voltaram a aparecer e o brilho do sol sobre a água começou a perder a viscosidade da morte, Marinalva finalmente respirou. O desastre a tinha mudado. Ela não era mais apenas uma pescadora que buscava o sustento; agora, era a sentinela do litoral. O sal, outrora apenas um elemento da natureza, agora representava o suor da sua luta; o relevo das falésias, a fortaleza que abrigava sua gente. Ela aprendeu que a terra e o mar não são elementos passivos de uma economia, mas seres que, quando feridos, exigem que a comunidade se erga como um único corpo.

Naquela tarde, Marinalva caminhou sozinha pela faixa de areia. Ainda havia manchas escuras escondidas entre as pedras, lembranças teimosas de um mar que demoraria a esquecer a violência sofrida. Mais adiante, um menino ajoelhado moldava um pequeno barco de madeira. Com um graveto, desenhava a vela e empurrava a embarcação para uma poça deixada pela maré. O barquinho balançou por um instante e seguiu adiante, levado por uma onda pequena, mas suficiente.

Marinalva abaixou-se. Colheu um punhado de sal úmido entre os dedos e deixou que os cristais escorressem lentamente pela mão, misturando-se ao vento que vinha do oceano. À sua frente, as ondas voltavam a quebrar com um som que ela conhecia desde menina. Depois de muitas semanas, o mar respirava sem pedir socorro.

Havia cicatrizes que permaneceriam nas pedras, na areia e na memória de quem vivera aqueles dias. Aquela criança disposta a colocar um barco nas águas e um mar capaz de empurrá-lo para frente, mostrava  que Icapuí continuaria encontrando razões para recomeçar.

José Casanova 

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

UEMA Bacabal promove Congresso Internacional sobre Educação, Ciência, Inovação e Desenvolvimento Sustentável

 

A Universidade Estadual do Maranhão (UEMA), Campus Bacabal, realiza, de 24 a 27 de agosto, o I Congresso Internacional INTERSABERES NA ERA DA IA, com o tema central “Convergências entre Educação, Ciência, Inovação e Desenvolvimento Sustentável”. A iniciativa propõe um amplo espaço de diálogo interdisciplinar sobre os desafios e as oportunidades trazidos pela Inteligência Artificial e pelas novas tecnologias para diferentes áreas do conhecimento e para a sociedade.

O congresso foi concebido como uma iniciativa voltada à integração entre ensino, pesquisa e extensão, aproximando a universidade da comunidade e estimulando a construção coletiva de conhecimentos. Ao longo dos quatro dias de programação, participantes terão acesso a palestras nacionais e internacionais, mesas-redondas, grupos de trabalho (GTs), minicursos, oficinas, apresentação de trabalhos científicos, pôsteres e premiação.

A proposta do evento ultrapassa a discussão tecnológica e busca compreender a Inteligência Artificial a partir de uma perspectiva ampla, envolvendo temas relacionados à educação, saúde, direitos humanos, inovação, tecnologia e sustentabilidade. As discussões também estarão articuladas aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e aos princípios da extensão universitária.

Nesse contexto, o congresso pretende criar pontes entre diferentes saberes e experiências, reunindo estudantes, docentes, pesquisadores, profissionais e representantes da comunidade em torno de questões que já fazem parte do cotidiano e que deverão ganhar ainda mais relevância nos próximos anos.

A presença da Inteligência Artificial nos ambientes educacionais, científicos e profissionais impõe novos desafios, mas também abre possibilidades para a produção de conhecimento, a inovação e a busca por soluções sustentáveis. É nesse cenário que o INTERSABERES se apresenta como espaço de reflexão sobre como a tecnologia pode ser utilizada de maneira ética, responsável e socialmente comprometida.

Além das conferências e debates, a programação científica dará espaço à produção acadêmica por meio da apresentação de trabalhos, fortalecendo a pesquisa e permitindo o intercâmbio de experiências entre participantes de diferentes áreas.

A realização do congresso no Campus Bacabal da UEMA também reforça a importância da universidade como espaço de produção científica, formação acadêmica e transformação social, colocando o município no centro de uma discussão que ultrapassa fronteiras regionais e dialoga com desafios contemporâneos de alcance internacional.

O I Congresso Internacional INTERSABERES NA ERA DA IA pretende, assim, transformar o encontro entre diferentes áreas do conhecimento em uma oportunidade para pensar o futuro. Um futuro no qual educação, ciência, inovação, tecnologia e sustentabilidade não sejam caminhos isolados, mas partes de uma mesma construção coletiva.

Para informações sobre submissão de trabalhos, normas, templates e demais orientações, os interessados devem consultar os canais oficiais de divulgação do evento.


segunda-feira, 17 de agosto de 2026

CRÔNICA DO DIA: Letras Tardias

 

O papel na mesa de madeira rústica, sob a luz amarela da lâmpada de teto, parecia uma extensão desconhecida do mundo. Dona Sebastiana, aos setenta anos, observava o vazio do caderno universitário como quem encara uma floresta virgem. Em Viana, a vida sempre lhe exigiu muito das mãos ; a enxada, a lavagem de roupas no rio, o preparo da farinha ,  mas nunca havia exigido a marcação linear da mente sobre a pele de celulose.

Seus dedos, tortos por décadas de lida e pela artrite que insistia em reclamar cada vez que o tempo mudava, seguravam o lápis como se fosse uma  ferramenta de precisão proibida.

Ela não queria ler por necessidade documental. O filho mais velho, que vivia em outra cidade, enviara um tablet meses atrás, mas para ela, aquele vidro negro não tinha alma. Ela queria ler porque o silêncio de suas tardes estava ficando preenchido apenas por sombras, e ela sentia que havia palavras presas na garganta que ainda não haviam se transformado em rabiscos.

— O "A" não é difícil, dona Sebastiana.  — Disse Marina, a neta de dez anos que, pacientemente, exercia o papel de tutora. — É só subir, descer e fazer a ponte no meio.

Sebastiana concentrou-se. A subida foi vacilante, a descida quase se perdeu nas fibras do papel.

Quando finalmente conectou os pontos e o desenho se formou, ela soltou um suspiro involuntário, como se tivesse desatado um nó que carregava desde a infância. Naquele instante, as letras não eram apenas fonemas; eram os nomes de tudo o que ela tinha vivido sem nunca ter nomeado. A erva que curava o estômago, o nome da rua onde nasceu, a saudade do marido falecido que ela antes apenas sentia, mas nunca pôde registrar.

As expectativas da vila eram rudes para com as mulheres de sua idade. O papel da anciã em Viana era o da colher de pau, da reza forte e do silêncio reverente sobre o que passou. Ninguém esperava que uma mulher de setenta anos buscasse o alfabeto. "Para que se estressar com isso agora?", alguns vizinhos perguntavam, os olhos velados por um preconceito que tratava a velhice como uma antessala da inutilidade.

Numa manhã de calor espesso, Sebastiana estudava sentada na varanda, o caderno apoiado sobre uma pequena mesa de madeira. A ponta do lápis avançava devagar, desenhando mais uma vez as letras do alfabeto, quando uma vizinha diminuiu o passo diante do portão.

— Agora? Depois de velha? Isso não enche panela. Papagaio velho não aprende a falar!

Sebastiana ergueu os olhos por um instante. Não havia irritação nem vergonha em seu rosto. Apenas voltou ao caderno, como quem já aprendera que certas palavras merecem o silêncio como resposta.

Com mão trêmula, traçou novamente a letra M. A primeira haste saiu torta; a segunda encontrou equilíbrio. Depois vieram o ã e o e. Quando terminou, contemplou demoradamente a pequena palavra escrita diante de si: mãe.

Naquele instante, compreendeu que algumas panelas alimentam o corpo, mas certas palavras alimentam a alma. Depois de  muitos anos, sentiu que a fome que carregava desde menina começava, enfim, a ser saciada.

Ela ouvia, mas não escutava. Aos setenta anos, ela havia aprendido o valor do desapego ao julgamento dos outros. Seus olhos, embora cansados, viam com uma nitidez que a juventude desperdiçava.

Naquela semana, a evolução foi lenta. Cada letra nova era uma conquista sobre o tempo. A cada sessão de estudo, Sebastiana sentia que o mundo, antes fechado em sua própria experiência limitada, começava a se abrir em novas frestas. Ela lia as placas de trânsito ao ir à feira, decifrava os rótulos dos remédios, e a sensação de autonomia era como uma segunda juventude, porém muito mais lúcida.

Não era a pressa das vontades, mas a calma da compreensão.

Certa tarde, Mariana lia um livro de contos regionais para ela. Sebastiana parou a neta em um parágrafo específico.

— Repete essa linha de novo, menina. — Pediu Sebastiana.

A menina leu. E Sebastiana percebeu que as palavras que ela via no livro tinham uma conexão ancestral com o que a vida lhe contara. Ela entendeu, com uma clareza que só o envelhecimento permite, que a sabedoria não está em acumular anos, mas em conseguir descrever a própria jornada. Ela começou a exercitar a escrita de curtas frases. "A vida é um rio que corre para o mar". "A farinha é doce na paz". Ela não estava mais escrevendo apenas letras; estava reescrevendo a si mesma.

A idade tornara-se, para ela, não uma limitação, mas um filtro de urgência. O que ela não aprendera na infância por carência de escola, ela se dava de presente como quem colhe um fruto tardio e, por ser tardio, muito mais saboroso. A resistência ao tempo tornou-se o seu maior ato de rebeldia. Ela, que sempre fora mulher de terra e sol, agora era também mulher de luz e pena.

Quando o sol de Viana se punha no horizonte, tingindo o céu de um violeta profundo, ela se sentava na varanda com seu caderno. Os vizinhos passavam e, em vez de verem apenas uma velha sentada na rede, viam uma mulher que se negava a ser esquecida pela história. Ela olhou para o próprio nome escrito na capa do caderno com letras grandes, um pouco irregulares, mas inegavelmente suas  e sentiu um orgulho que não lhe cabia no peito.

Ao fechar o caderno, percebeu que o lápis já não era o mesmo. Restava apenas um pequeno toco de madeira, arredondado pelos dedos e gasto por tantas tentativas, erros e descobertas. Sorriu ao segurá-lo entre as mãos. Pensou que também a vida lhe havia aparado as arestas, consumido parte da força e deixado marcas que o tempo não apagaria. Ainda assim, era justamente aquele pequeno pedaço de lápis que escrevera as palavras mais importantes de sua existência. Compreendeu, então, que algumas coisas diminuem apenas por fora. Por dentro, tornam-se maiores. Assim eram o lápis e ela: quanto mais o tempo os consumia, mais significado eram capazes de produzir.

 Aos setenta anos, a vida deixara de ser uma sucessão de dias iguais para se tornar um livro. E ela, agora estava escrevendo o final de sua própria história, compreendendo que, enquanto houvesse o interesse em aprender, o tempo nunca seria um obstáculo, mas apenas o cenário necessário para que a sabedoria encontrasse seu lugar de fala, de escrita e de existência plena.

José Casanova 
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista 
Membro da Academia Bacabalense de Letras 
Academia Mundial de Letras da Humanidade