— Professora, meu filho tem sete anos e ainda não sabe ler. O que eu faço?
A pergunta chegou à escola Rosimeire Torres Nunes em Alto Alegre do Maranhão como tantas outras chegam todos os dias a milhares de escolas do Brasil: carregada de preocupação, culpa e, muitas vezes, de uma esperança silenciosa de que alguém encontre uma resposta rápida para um problema que levou anos para se formar. A professora respirou fundo. Não era apenas aquele menino. Havia outros. Crianças no 6º ano do Ensino Fundamental que ainda tropeçavam nas palavras. Algumas liam muito devagar; outras apenas decifravam sílabas. Havia aquelas que reconheciam algumas letras, mas não conseguiam juntar os sons para formar uma palavra.
E havia casos ainda mais dolorosos: alunos que mal conseguiam escrever o próprio nome. Então surge a pergunta que ninguém deveria fazer apenas ao professor: Como uma criança chega ao 6º ano sem saber ler e escrever?
A escola estava lá. O professor estava lá. Mas será que a família estava? E as políticas públicas? E os sistemas de ensino? E as avaliações? E a sociedade, que tantas vezes se lembra da escola apenas quando os números aparecem nas manchetes? Talvez o primeiro erro seja procurar um único culpado. Alfabetizar uma criança é uma responsabilidade compartilhada.
A escola tem uma responsabilidade pedagógica incontornável: precisa ensinar. A família tem o dever de acompanhar, estimular, conversar, ler, perguntar e participar da vida escolar. O poder público precisa garantir condições de trabalho, formação docente, materiais, acompanhamento e políticas de recomposição das aprendizagens. E a própria sociedade precisa parar de tratar a alfabetização como uma tarefa que termina na porta da escola.
Isso é importante porque revela algo que o professor dos anos finais já sabe há muito tempo: a criança que chega ao 6º ano sem dominar a leitura e a escrita não pode simplesmente ser tratada como se tivesse começado a ter dificuldades naquele ano. Ela traz uma história.
Talvez tenha faltado acompanhamento na Educação Infantil. Talvez tenha passado pelos primeiros anos sem uma intervenção adequada. Talvez tenha faltado diagnóstico. Talvez tenha enfrentado problemas sociais, emocionais ou familiares. Talvez tenha tido muitas faltas. Talvez tenha mudado várias vezes de escola. Talvez tenha tido professores sobrecarregados. Talvez a escola tenha percebido o problema, mas não tenha encontrado recursos para enfrentá-lo.
Talvez tenham acontecido várias dessas coisas ao mesmo tempo.
É justamente por isso que culpar somente o professor é injusto.
Mas culpar somente a família também é.
Há, sim, famílias ausentes. Famílias que não acompanham as tarefas, não participam das reuniões, não perguntam o que o filho aprendeu, não verificam se a criança está lendo ou sequer sabem em que ano escolar ela está. Isso precisa ser dito.
Uma criança precisa de adultos que se interessem por sua aprendizagem.
Não é necessário ter uma biblioteca em casa. Não é necessário ser especialista em pedagogia. Não é necessário saber explicar fonema, grafema ou consciência fonológica. Às vezes, acompanhar começa com perguntas muito simples: "Que história você leu hoje?" "Mostre-me seu caderno." "Vamos ler juntos?" "Como foi sua aula?" "Que palavra nova você aprendeu?"
O problema é que, em muitas casas, a escola virou uma espécie de serviço terceirizado da educação dos filhos. Entrega-se a criança pela manhã e espera-se que a escola devolva, alguns anos depois, um leitor competente.
Mas educação não funciona como lavanderia. Não se entrega uma criança e se busca uma criança alfabetizada. A criança precisa ser acompanhada durante o processo. Você acompanha prendizagem do seu filho?
Entretanto, também precisamos tomar cuidado com o discurso fácil de que "a culpa é dos pais que não acompanham" Há famílias que não acompanham porque não sabem como acompanhar. Há famílias em situação de vulnerabilidade social. Há pais que trabalham o dia inteiro. Há adultos que também não tiveram oportunidades educacionais. Há famílias que desejam ajudar, mas não compreendem as dificuldades pedagógicas da criança. Por isso, a escola precisa aproximar, orientar e acolher, não apenas acusar.
A pergunta não deve ser somente "onde está a família?", mas também:
"Como a escola pode trazer essa família para perto?" E há ainda uma pergunta dirigida ao sistema educacional: "Por que esperamos o 6º ano para perceber que uma criança não consegue ler?"
Essa talvez seja a pergunta mais importante de todas. Se uma criança chega ao final do 2º ano sem estar alfabetizada, o problema precisa ser identificado imediatamente. Não podemos esperar que ela chegue ao 4º, ao 5º ou ao 6º ano para então descobrir que não consegue compreender um pequeno texto.
O próprio Inep estabelece que a avaliação deve produzir subsídios para o diagnóstico e para a recomposição das aprendizagens dos estudantes que não alcançaram o nível adequado de alfabetização.
bIsso significa que não basta avaliar.É preciso avaliar para agir.
E agir significa conhecer exatamente onde está a dificuldade. A criança não lê? Mas por quê? Ela reconhece as letras? Relaciona letras e sons? Consegue ler palavras simples? Consegue ler frases? Compreende aquilo que lê? Consegue escrever palavras? Consegue produzir uma frase? Consegue escrever uma pequena história? Cada resposta aponta para uma intervenção diferente. É aqui que o professor dos anos finais enfrenta um dos maiores desafios de sua carreira.
Imagine receber uma turma de 6º ano planejada para trabalhar gêneros textuais, interpretação, literatura, produção de texto e conteúdos específicos de Língua Portuguesa e descobrir que a maioria dos estudantes ainda não conseguem ler uma frase com autonomia.
O professor precisa ensinar o conteúdo previsto para a série e, ao mesmo tempo, reconstruir aprendizagens que deveriam ter sido consolidadas anos antes.
É como pedir a alguém que construa o segundo andar de uma casa enquanto o primeiro ainda está sem paredes. Não significa abandonar o aluno. Significa reconhecer que ele precisa de uma intervenção diferente.
Nesse ponto, as contribuições de Magda Soares continuam fundamentais. A pesquisadora defendia que alfabetização e letramento precisam caminhar juntos: a criança precisa apropriar-se do sistema de escrita, mas também precisa aprender a utilizar a leitura e a escrita em práticas sociais significativas. Estudos recentes sobre sua obra destacam justamente a importância de um ensino planejado e sistemático da escrita alfabética, articulado às práticas de leitura e produção textual.
Isso nos ajuda a compreender que não basta colocar um livro na mão da criança e dizer: "Leia." Também não basta pedir: "Copie." Copiar não significa necessariamente escrever. Decifrar algumas palavras não significa necessariamente compreender um texto. E saber repetir o alfabeto não significa estar alfabetizado.
A alfabetização precisa ser ensinada de maneira intencional, sistemática e acompanhada. Ao mesmo tempo, a criança precisa encontrar sentido naquilo que aprende. Ela precisa ler histórias, bilhetes, placas, poemas, notícias, quadrinhos. Precisa escrever para alguém. Precisa descobrir que a escrita não existe apenas para preencher páginas de caderno ou responder provas.
A criança precisa perceber que ler é uma forma de entrar no mundo.
E escrever é também uma forma de dizer ao mundo: "Eu estou aqui." Então, o que fazer quando o aluno chega ao 6º ou 7º ano sem saber ler?
Primeiro: não humilhá-lo.
Um adolescente que não sabe ler já carrega um enorme peso. Muitas vezes, esconde o caderno, evita ler em voz alta, finge que esqueceu os óculos, copia a resposta do colega ou simplesmente se cala. Ele não precisa de mais vergonha. Precisa de oportunidade.
Segundo: diagnosticar.
É necessário descobrir o que ele sabe e o que ainda não sabe. O diagnóstico não deve servir para rotular o estudante, mas para orientar o ensino.
Terceiro: elaborar um plano de intervenção.
Se o aluno ainda não domina o sistema de escrita alfabética, é preciso trabalhar essa base, mesmo estando no 6º ou 7º ano. Não há vergonha alguma nisso. Vergonha seria saber que o aluno não lê e continuar ensinando como se ele lesse.
Quarto: garantir atendimento pedagógico especializado e reforço, quando necessário, com acompanhamento sistemático dos avanços.
Quinto: envolver a família.
Não para procurar culpados, mas para construir uma parceria.
Sexto: formar e apoiar o professor.
Não podemos entregar ao docente uma turma com múltiplas defasagens e simplesmente dizer: "Dê seu jeito." O professor precisa de formação, planejamento coletivo, materiais, tempo para acompanhar os estudantes e apoio da gestão escolar. E, sobretudo, precisamos abandonar uma cultura perigosa: a cultura de empurrar o problema para o próximo ano.
A criança não aprende? "Deixa que o próximo professor resolve."
O próximo ano chega.E nada.Depois vem o 6º ano. E alguém finalmente pergunta: "Mas como esse aluno chegou até aqui?" Ele chegou porque todos os anos anteriores passaram. O tempo não alfabetiza ninguém sozinho. É preciso intervenção.
A crise da aprendizagem também não nasceu ontem. A pandemia agravou perdas educacionais, mas seria simplista atribuir toda a situação a ela. O problema envolve desigualdades sociais, condições escolares, formação docente, acompanhamento das aprendizagens, políticas de alfabetização e, em muitos casos, uma relação insuficiente entre escola e família.
Essa pergunta dói. Mas talvez seja justamente a pergunta que precisamos fazer.
Porque quando uma criança com mais de sete anos ainda não lê, temos um problema pedagógico urgente.
Quando uma criança chega ao 6º ano sem saber ler, temos uma emergência educacional. E quando milhares de crianças percorrem anos de escolarização sem adquirir plenamente a leitura e a escrita, temos um problema que ultrapassa os limites da sala de aula. Temos um problema de país. Mas problemas educacionais não se resolvem apenas com discursos. Resolvem-se com diagnóstico precoce, alfabetização planejada, formação de professores, acompanhamento individualizado, recomposição das aprendizagens, participação familiar, políticas públicas consistentes e, principalmente, com a decisão de não desistir de nenhuma criança.
Afinal, talvez a pergunta mais importante não seja: "De quem é a culpa?" Talvez seja: "Quem vai ajudar essa criança a aprender?"
E a resposta deveria ser simples: Todos nós. Porque uma criança que não aprendeu a ler não é uma criança que fracassou. É uma criança que ainda precisa de alguém que a ensine. E o verdadeiro fracasso da educação começa quando nós, adultos, desistimos de ensiná-la.
José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade











































