O mercado municipal de Chapadinha é um organismo vivo, pulsante e barulhento, onde o cheiro do coentro fresco se mistura ao lodo das bancas de peixe e ao aroma adocicado da batata-doce assada. Para a maioria, é o lugar das compras de sábado; para mim, Samuel, é um campo de provas de resistência mental. Caminhar por esses corredores estreitos exige de mim um cálculo de engenharia emocional que ninguém ao redor suspeita existir.
Eu tenho trinta e quatro anos e a Síndrome de Tourette.
Antes mesmo de cruzar o portal de entrada do mercado, sinto a pressão subir pela base do crânio. É como uma coceira na alma, um acúmulo de eletricidade estática que precisa ser descarregado. Meus ombros dão um solavanco para cima, um movimento brusco e involuntário que faz a sacola de lona em meu braço balançar.
— Tudo bem aí, Samuel? — Perguntou o seu Zé, que vende farinha de puba logo na entrada.
Eu sorri, ou tentei, mas meu rosto foi sequestrado por uma careta rápida, um piscar de olhos sucessivo e um estalo com a língua que ecoou contra o paladar.
— Tudo certo, seu Zé. Só o calor! — Respondi, forçando a voz a soar o mais neutra possível.
Mentira. O calor de Chapadinha, embora impiedoso, era o menor dos meus problemas. O problema era o "tique", essa entidade autônoma que habita meu sistema nervoso e que decide, sem me consultar, que agora é a hora de emitir um som gutural, um “humm-humm” seco, seguido de um movimento de pescoço que parece tentar alinhar uma vértebra invisível.
Avancei pelo corredor das verduras. Chapadinha é uma cidade onde todo mundo se conhece, o que é uma faca de dois gumes. Por um lado, muitos já sabem quem sou; por outro, a familiaridade não impede o desconforto alheio. O mercado estava lotado. O som das facas batendo no cepo de madeira do açougue, os gritos dos feirantes anunciando o preço do maxixe e o rádio de pilha sintonizado em uma rádio local criavam uma poluição sonora que agia como combustível para o meu Tourette.
De repente, a tensão acumulada rompeu a represa.
— BIP! — O som escapou da minha garganta, agudo e súbito, como um alarme de carro disparado por acidente.
Uma senhora que escolhia tomates dois metros à frente deu um pulo de susto, derrubando um fruto maduro no chão. Ela se virou com uma expressão de pânico que rapidamente se transformou em indignação.
— Mas que falta de educação é essa, rapaz? Tá querendo assustar os outros? — Ela bradou, limpando as mãos no avental.
Eu senti o suor frio escorrer. O Tourette não é apenas o movimento; é o pós-movimento, o peso do olhar de quem nos rotula como loucos, drogados ou simplesmente mal-educados.
— Desculpe, senhora. É um tique. Eu não consigo controlar. — Expliquei, mas enquanto falava, meu braço direito disparou para o lado, um movimento semicircular que quase atingiu uma pilha de laranjas.
A roda de curiosos formou-se em segundos. É o "efeito espetáculo" das feiras do interior. As pessoas param de negociar o preço do feijão para analisar a "anormalidade" alheia. Ouvi risinhos abafados de dois rapazes perto da banca de temperos.
— Tá possuído, é? — Um deles comentou, alto o suficiente para eu ouvir.
A raiva borbulhou, mas aprendi cedo que a raiva só alimenta o ciclo de tiques. O estresse é o melhor amigo da síndrome. Quanto mais eu tentava suprimir os movimentos para parecer "normal", mais eles ganhavam força, como uma mola sendo comprimida ao limite.
— Não estou possuído. — Respondi, olhando diretamente para o rapaz. — Tenho uma condição neurológica chamada Síndrome de Tourette. Meu cérebro envia sinais errados para os meus músculos. É como um soluço, só que no corpo todo e na voz. Se o senhor tivesse uma perna quebrada, eu não riria do seu gesso. Por que ri do meu cérebro?
O rapaz desviou o olhar, subitamente interessado nos molhos de pimenta malagueta. A senhora dos tomates, percebendo a seriedade da minha voz, suavizou a expressão, embora ainda mantivesse uma distância de segurança.
A Lei Brasileira de Inclusão, a LBI, diz textualmente que a deficiência é o resultado da interação entre impedimentos de natureza física ou mental e as barreiras que a sociedade impõe. Naquele momento, no coração de Chapadinha, a deficiência não era o meu tique; era a barreira da ignorância daquelas pessoas.
Continuei minhas compras. Eu precisava de carne de sol e queijo coalho. No açougue, o barulho era ainda maior. O som do motor da serra de fita me causava uma vibração interna insuportável. Meus tiques vocais tornaram-se mais frequentes, uma sequência de estalos de língua e assobios curtos.
O açougueiro, um homem robusto chamado Raimundo, me atendeu com a naturalidade de quem entende que o mundo é feito de muitas formas. Ele não me encarava, não desviava o olhar com pena, nem fazia perguntas idiotas. Ele simplesmente pesava a carne.
— O de sempre, Samuel? — Perguntou ele, a lâmina deslizando com precisão.
— O de sempre, Raimundo. Obrigado por... você sabe.
— Sei de nada, rapaz. Carne é carne, cliente é cliente. Cada um com seu balanço.
Agradeci mentalmente por Raimundo. Em ambientes como o mercado, pessoas como ele são ilhas de sanidade. No entanto, ao sair do açougue, o Tourette me pregou uma peça mais pesada. Um tique motor complexo me fez inclinar o corpo e tocar o chão com a ponta dos dedos, repetidamente, três vezes. Para quem olhava de fora, parecia um ritual obsessivo, ou talvez um surto psicótico.
Um segurança do mercado aproximou-se com o rádio na mão, a postura tensa.
— Algum problema aqui, senhor? Está passando mal ou está fazendo graça?
Respirei fundo, tentando ignorar a vontade de emitir outro som agudo.
— Sou uma pessoa com deficiência, amigo. Está aqui meu laudo médico na carteira, se o senhor quiser ver. Estou apenas fazendo minhas compras e lidando com os sintomas do meu transtorno. O senhor está preparado para dar assistência ou está aqui para me constranger?
O segurança recuou um passo, a mão saindo do rádio. Ele murmurou um pedido de desculpas genérico e se afastou. A verdade é que a Síndrome de Tourette é um dos diagnósticos mais incompreendidos pela cultura popular, frequentemente reduzida a "falar palavrões", a coprolalia, que afeta apenas uma minoria dos pacientes. Para nós, a maioria, o Tourette é essa luta física contra o próprio corpo, esse cansaço muscular após um dia de movimentos involuntários, e o desgaste social de ter que se explicar em cada esquina de Chapadinha.
Saindo do mercado, as sacolas pesadas ajudaram a ancorar meus braços. O peso físico, por vezes, oferece um alívio proprioceptivo que acalma os tiques motores. Caminhei em direção à Praça do Viva, onde o vento soprava com mais liberdade.
Muitos pensam que a solução para pessoas como eu é o isolamento. "Fique em casa, Samuel, assim você não passa vergonha", dizia um tio meu há anos. Mas o isolamento é a morte da cidadania. O mercado de Chapadinha é meu por direito, tanto quanto de qualquer outra pessoa. O som que escapa da minha garganta é a prova de que a vida não é silenciosa, nem simétrica, nem previsível.
Sentei-me em um banco para descansar antes da caminhada final até casa. Meu pescoço doía. O esforço para suprimir os tiques diante do segurança e na banca de verduras tinha um preço físico: uma tensão na cervical que parecia um nó cego.
Olhei para a movimentação da cidade. Carros, motos, pessoas gritando, buzinas. Tudo ali era atípico se analisado de perto. Chapadinha é uma colcha de retalhos de ruídos e movimentos. Por que, então, o meu som e o meu movimento eram os únicos que precisavam de explicação?
A inclusão real não acontece quando o mundo fica em silêncio para não me incomodar. Ela acontece quando eu posso fazer o meu barulho, ter o meu espasmo, e a senhora dos tomates continua escolhendo seus frutos sem me tratar como uma aberração. A inclusão é o reconhecimento da nossa humanidade em meio ao caos produtivo do cotidiano.
Levantei-me, as sacolas de lona batendo contra minhas coxas. O trajeto de volta seria longo, e eu sabia que ainda emitiria muitos assobios e faria muitas caretas antes de chegar ao meu portão. Mas eu não baixaria a cabeça.
O Tourette é uma parte de quem sou, mas não define a extensão da minha coragem. Enquanto caminhava, emitindo um tique vocal rítmico que lembrava o canto de um pássaro assustado, percebi que o meu som, embora fugisse ao meu controle, era também um grito de presença. Eu estava ali. Eu ocupava o espaço. E Chapadinha teria que aprender a ouvir a música estranha e sincopada que o meu cérebro insistia em reger.
A luta por dignidade e pelo fim do capacitismo nos mercados, nas praças e nas repartições públicas não é uma luta silenciosa. No meu caso, ela tem estalos, assobios e movimentos bruscos. E é justamente através dessa coreografia involuntária que eu afirmo a minha existência e exijo o meu lugar à mesa ou, no caso, à bancada de farinha do seu Zé. O julgamento dos outros é um ruído de fundo que, com o tempo, aprendi a ignorar, concentrando-me na única sinfonia que realmente importa: a de caminhar com a cabeça erguida, sendo exatamente quem sou.
Por José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade
















