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terça-feira, 19 de maio de 2026

CRÔNICA DO DIA: Por que as Formigas não usam Tênis?

 

O pincel estalou contra o quadro branco na Escola Joaquim Nogueira, em Fortaleza, desenhando uma guilhotina estilizada que parecia observar a turma com um apetite aristocrático. O professor de História, um homem que defendia o Iluminismo com a mesma paixão que defendia o seu direito a um café quente na sala dos mestres, estava no auge de sua performance pedagógica. 

― Entendam, pessoal! ― Exclamou ele, gesticulando com tamanha pompa que o pó de giz formava uma pequena névoa ao seu redor. ― O Terceiro Estado não aguentava mais! Era o peso dos impostos, a fome assolando as ruas de Paris, a Maria Antonieta mandando todo mundo comer brioche enquanto o povo clamava por pão. A Queda da Bastilha não foi apenas a invasão de uma prisão; foi a explosão de uma panela de pressão social! 

A turma parecia, milagrosamente, hipnotizada. Até o fundo da sala, geralmente um território sem lei governado por trocas de figurinhas e fofocas sussurradas, mantinha os olhos fixos na lousa. O professor sentiu aquele arrepio sagrado que todo educador experimenta uma vez a cada cometa: a sensação de que o conhecimento estava, de fato, acontecendo. Ele respirou fundo, preparou o clímax sobre a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão e abriu os braços.

Foi nesse exato vácuo de silêncio dramático que uma mão se ergueu na primeira fileira.

Não era uma mão apressada, dessas que buscam tirar uma dúvida urgente sobre a data da prova. Era uma mão lenta, cerimonial, pertencente a Maicon. Na fauna escolar, Maicon era classificado como o "filósofo do nada". Seus processos cognitivos pareciam ocorrer em uma dimensão paralela onde o tempo e a lógica da BNCC não tinham jurisdição.

O professor parou no meio do gesto. O brilho da Revolução Francesa vacilou em seus olhos.

― Sim, Maicon? Alguma dúvida sobre o Diretório? Ou talvez sobre o papel da burguesia na queda da monarquia? ― Perguntou o mestre, tentando manter o fio da meada histórica preso por um fio de esperança.

    Maicon ajeitou os óculos, que escorregavam pelo nariz úmido de suor, e olhou fixamente para um ponto vago na parede, logo acima da cabeça do professor, onde uma formiga solitária percorria o relevo do reboco descascado.

― Professor... ― começou Maicon, com uma voz carregada de uma gravidade existencial que faria Heidegger chorar de inveja. ― Eu tava aqui pensando... Por que as formigas não usam tênis?

O silêncio que se seguiu não foi o silêncio da reflexão histórica. Foi o silêncio do vácuo absoluto, o som de quarenta cérebros sofrendo um curto-circuito simultâneo. O professor de História sentiu Robespierre e Napoleão se revirarem em suas tumbas europeias. 

― Como é, Maicon? ― O professor piscou, o pincel ainda suspenso no ar como uma arma esquecida.

― É que elas andam muito, né? ― Continuou o filósofo do nada, sem se abalar pelo choque coletivo. ― Se a gente andar o que elas andam, proporcionalmente ao tamanho, a gente estoura a sola do pé. E elas sobem parede, passam por cima de farelo de biscoito, atravessam o pátio inteiro no sol de meio-dia de Fortaleza. Se elas usassem um All Starzinho, ou um tênis de mola, elas não iam tropeçar nas imperfeições do chão? Porque se uma formiga tropeça e cai de cara, como é que ela avisa pra coluna que vem atrás pra não fazer um engavetamento?

Davi, o especialista em física quântica da malandragem sentado duas bancadas atrás, franziu a testa, contagiado pelo vírus da aleatoriedade.

― Pior que é mermo, macho ― Interrompeu Davi. ― Se elas tropeçarem carregando uma folha, a folha vira tipo um paraquedas ou esmaga a coitada? É uma questão de resistência dos materiais, professor.

O professor de História sentiu a guilhotina que ele mesmo desenhara cair metaforicamente sobre o seu pescoço. A Bastilha havia caído, mas não para a liberdade; havia caído para o reino do absurdo.

― Pessoal, por favor! ― O professor tentou resgatar os destroços da aula. ― Estamos em 1789! Luís XVI está prestes a perder a cabeça e vocês estão discutindo EPIs para insetos? Maicon, formigas não têm pés como os nossos, elas têm garras e estruturas de adesão. Elas não tropeçam porque têm seis patas, o centro de gravidade é baixo e, pelo amor de tudo o que é pedagógico, elas não têm lojas de calçados no formigueiro!

― Mas e se tivesse, professor? ― Insistiu Maicon, os olhos agora brilhando com a centelha da descoberta inútil. ― Imagina o mercado de trabalho. Um sapateiro de formigas ia ficar rico. Ia ter tênis de corrida, chuteira de trava pra gramado... a Revolução Industrial ia começar na colônia debaixo dessa sala se elas resolvessem calçar alguma coisa.

A turma, que há cinco minutos discutia a fome em Paris, agora estava plenamente engajada em um debate acalorado sobre a numeração de calçados para a classe Insecta. Uma garota no fundo sugeriu que as formigas operárias deveriam usar botas de bico de aço por causa da carga pesada, enquanto outro aluno defendia que isso atrasaria a produção de mel — sendo prontamente corrigido por um colega de que formigas não fazem mel, o que gerou uma nova subdiscussão sobre a utilidade biológica das abelhas no contexto do capitalismo agrário.

O professor de História encostou-se na mesa, sentindo a derrota fluir por suas veias. Ele olhou para o plano de aula, onde a palavra "Iluminismo" brilhava ironicamente. Não havia luz ali. Havia apenas a sombra vasta e imprevisível da mente de um adolescente de catorze anos que, no meio de uma crise política global de dois séculos atrás, decidiu se preocupar com o conforto podológico de uma saúva.

― Sabem de uma coisa? ― Disse o professor, num tom de resignação que beirava o estado de Nirvana. ― Vamos falar de formigas, então. Na Revolução Francesa, o povo era como as formigas. Trabalhavam sem parar, carregavam o peso do clero e da nobreza nas costas e, se um tropeçasse de fome, os outros continuavam marchando sobre ele porque o sistema não parava. A diferença é que o povo não queria tênis. O povo queria a cabeça do rei.

Maicon balançou a cabeça devagar, processando a analogia forçada com uma seriedade assustadora.

― Entendi, professor. O rei era o chinelo que tentava esmagar o formigueiro. Faz sentido.

O sinal da Escola Joaquim Nogueira tocou, libertando o professor de sua tortura filosófica. Enquanto os alunos saíam, Maicon passou pela mesa do mestre, parou por um segundo e disse:

― Mas se elas usassem tênis de luzinha, professor... ia ser bem mais fácil de ver elas no escuro e ninguém ia pisar sem querer. Fica aí a reflexão.

O professor permaneceu sozinho na sala de aula, cercado pelo cheiro de giz e pela poeira do tempo. Ele olhou para a formiga na parede. Ela continuava sua marcha, sem tropeçar, sem All Star e, definitivamente, sem se importar com a queda da monarquia. Ele percebeu que a sala de aula é um ecossistema onde a lógica linear morre para dar lugar a uma biodiversidade de pensamentos desconexos que, de alguma forma bizarra, mantêm a máquina escolar girando.

Lentamente, ele apagou a guilhotina do quadro. Amanhã seria o período napoleônico. Ele já antecipava a pergunta de Maicon sobre se o cavalo branco de Napoleão sofria de insônia ou se o imperador usava o chapéu daquela forma para esconder um roteador de wi-fi. 

As interrupções são, na verdade, os únicos momentos de silêncio real da alma discente, quando a pressão de aprender o que já passou colide com a urgência de entender o que não tem a menor importância. Ele guardou seu material, ciente de que a próxima batalha pedagógica seria travada sob a mesma vigilância silenciosa das paredes descascadas, onde a busca pela verdade histórica estaria sempre a um passo, ou a um tropeço de uma dúvida metafísica sobre o vestuário dos invertebrados.


Por José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista
Membro da Academia Bacabaalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade


segunda-feira, 18 de maio de 2026

CRÔNICA DO DIA: A Máscara de São Luís


O espelho do banheiro da repartição pública, no coração do Centro Histórico de São Luís, devolvia a Marina uma imagem que ela mal reconhecia. O rosto estava perfeitamente composto: um batom discreto, os cabelos cacheados domados por um prendedor elegante e um sorriso ensaiado que ela praticara no reflexo do elevador. Mas, por trás daquela vitrine de funcionalidade, Marina sentia que suas engrenagens internas estavam moendo areia.

Ela tinha trinta e seis anos e um diagnóstico recente de TDAH, acompanhado de uma bagagem pesada de ansiedade generalizada e episódios cíclicos de depressão. Em São Luís, uma cidade que transborda espontaneidade e barulho, a vida de Marina era uma coreografia de contenção.

— Você está ótima, Marina. O relatório está pronto, a reunião foi um sucesso — Sussurrou para si mesma, inspirando o ar úmido que subia do mar e se infiltrava pelas janelas coloniais do casarão onde funcionava seu setor.

O problema não era a competência. O problema era o masking. Para o mundo corporativo e social da Ilha, Marina era a profissional focada, a colega que nunca perdia um prazo. Ninguém via o esforço monumental que ela fazia para não se perder em devaneios durante as falas dos diretores, ou a exaustão física que sentia ao final do dia por ter passado oito horas controlando seus tiques nervosos e forçando um contato visual que lhe parecia invasivo e doloroso.

A máscara social era sua armadura, mas também sua cela.

Ao voltar para sua mesa, o som das conversas paralelas e o clique-clique incessante dos teclados começaram a perfurar sua paciência. A umidade de São Luís parecia pesar dez quilos sobre seus ombros. Marina sentia a ansiedade subindo como a maré da Baía de São Marcos: lenta, inevitável e sufocante.

— Marina, o pessoal vai tomar um sorvete ali na Rua do Giz depois do expediente. Você vem? — Perguntou Ricardo, um colega de trabalho sempre entusiasmado.

— Ah, Ricardo... hoje não vai dar. Tenho muita coisa para organizar em casa. — Mentiu ela, com a precisão de quem já domina a arte da evasão.

A verdade era que o reservatório de energia social de Marina estava abaixo da reserva. Ir ao sorvete significaria mais duas horas de máscara, mais duas horas de risadas calculadas e monitoramento constante da própria postura. Ela precisava do seu "casulo", o apartamento pequeno onde as luzes eram baixas e o silêncio era a única língua permitida.

Ao sair do trabalho, caminhou pelas ruas de paralelepípedos. O pôr do sol dourava os casarões, e o som de um saxofone vindo de uma galeria próxima tentava seduzi-la a ficar. São Luís é uma cidade que exige presença, que convida ao encontro. No entanto, para Marina, cada interação era um gasto de energia que ela não tinha. A depressão não se manifestava nela como uma tristeza profunda e melodramática, mas como uma apatia cinzenta, um descarregamento total da bateria da alma.

"Por que eu não posso simplesmente ser como eles?", pensava ela, observando um grupo de turistas rindo alto perto do Palácio dos Leões. "Por que para mim tudo é um cálculo? Por que o mundo parece ter o volume no máximo e eu não encontro o controle remoto?"

O peso da máscara começou a machucar o rosto invisível de sua mente. Adultos neurodivergentes, especialmente mulheres que passaram décadas sem diagnóstico, frequentemente desenvolvem quadros graves de ansiedade porque passaram a vida tentando se encaixar em moldes que não foram feitos para suas formas. Marina era o resultado dessa pressão interna. Ela era a excelência construída sobre os escombros da própria saúde mental.

Ao chegar em casa, a rotina de descompressão começou. Ela jogou as chaves na tigela, tirou os sapatos e sentou-se no chão da sala, no escuro. O choro veio sem aviso. Não era um choro de dor súbita, mas de alívio por poder, finalmente, soltar os músculos da face. Ali, ninguém exigia que ela fosse "normal". Ali, seus pensamentos podiam saltar de um lado para o outro sem precisar de uma conclusão lógica imediata.

A ansiedade, porém, ainda sussurrava em seu ouvido, enumerando as tarefas de amanhã, prevendo possíveis falhas, revisando conversas de hoje para ver se ela não tinha soado "estranha". A neurodivergência na vida adulta é um jogo de sombras. É lutar contra o preconceito dos outros e contra o próprio autojulgamento, a sombra que insiste em dizer que o cansaço é preguiça e a necessidade de isolamento é falta de afeto.

Marina levantou-se e foi até a janela. Lá fora, São Luís brilhava com as luzes dos postes e o reflexo da lua na água. Ela percebeu que a máscara era um recurso de sobrevivência, mas que não podia ser sua única pele. A inclusão real, que ela tanto lia nos portais de direitos das pessoas com deficiência e neurodivergentes, precisava começar dentro de si mesma.

— Amanhã. — Disse ela para a noite. — Eu vou levar meus fones de ouvido para o trabalho. Vou explicar que o barulho me atrapalha a concentrar.

Pode parecer um gesto pequeno, mas para quem viveu trinta e seis anos fingindo que o mundo não a machucava, admitir uma sensibilidade era um ato de coragem suprema. Era começar a tirar a máscara, peça por peça, e permitir que a Marina real, com seus silêncios, suas inquietações e sua criatividade fragmentada, pudesse respirar o ar úmido da Ilha sem sentir que estava se afogando.

A máscara de São Luís seria guardada na gaveta. Marina sabia que a depressão e a ansiedade não desapareceriam da noite para o dia, mas aceitar que seu cérebro tinha um ritmo diferente era o primeiro passo para que aquelas patologias deixassem de ser sua identidade. Ela era Marina. Ela era neurodivergente. E ela tinha o direito de habitar a cidade sem ter que representar um papel que não fora escrito para ela.

Naquela noite, o sono veio mais fácil. A ansiedade baixou como a maré, deixando na areia de sua mente as conchas de uma nova consciência. Ela não precisava ser normal; ela precisava ser apenas real. E a realidade, tal qual os casarões de sua cidade, podia ter rachaduras e azulejos faltando, mas ainda assim guardava uma beleza e uma dignidade que nenhum disfarce jamais conseguiria igualar.

Ela uma mulher que aprendera a respirar sem o peso de um sorriso forçado. E isso, por si só, já era uma vitória monumental contra o silêncio que o mundo insiste em impor aos que percebem a vida em outras frequências.


José Casanova 

Professor, Jornalista, Escritor e Cronista

Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade


domingo, 17 de maio de 2026

CRÔNICA DO DIA: A Assembleia dos Poetas de Ontem


   A noite em São Luís não é feita apenas de trevas; é tecida por fios invisíveis de maresia e história. Eu estava no sótão do casarão herdado de minha avó, na Rua do Sol, tentando terminar o terceiro capítulo do meu romance cyberpunk ambientado na Baixada Maranhense. A tela do laptop brilhava com uma luz azulada, fria, contrastando com o calor úmido que entrava pela janela ogival.

    Meus dedos voavam sobre o teclado, criando palavras que não existiam: "O neuroribamar conectou-se à rede manguezalica, fazendo o upload de sua consciência para a nuvem de babaçu."

    Sorri. "Neuroribamar". Achava genial. "Manguezalica". Uma fusão perfeita entre ecossistema e fibra ótica.

    De repente, a temperatura no sótão caiu. Não foi uma brisa. Foi um frio seco, de biblioteca antiga. O cheiro de maresia foi substituído por um odor forte de naftalina e rapé.

    Olhei para o canto escuro onde ficava uma estante de jacarandá. Ali, materializando-se a partir da poeira e das sombras, estavam três figuras translúcidas. O primeiro usava uma sobrecasaca puída e tinha olheiras profundas. O segundo, um monóculo e um bigode encerado. O terceiro, mais jovem, tinha o olhar febril dos tísicos românticos.

    — "Neuroribamar"? — A voz do primeiro ecoou como se viesse de dentro de um poço. Era Odorico Mendes. — Que aberração lexicológica é esta, jovem?

    Tentei fechar o laptop, mas minhas mãos estavam congeladas. Reconhecir o visitante de uma foto da Biblioteca Pública Benedito leite.

    — É... é um neologismo, Mestre Odorico. Uma atualização do arquétipo local para a era digital.

    — Neologismo? — O segundo fantasma, Aluísio Azevedo, aproximou-se, flutuando sobre o assoalho. Ele olhou para a tela com desprezo. — Isso não é neologismo. Isso é preguiça. "Manguezalica"? Por que não descrever a complexidade das raízes, o lodo fértil, a sinuosidade dos caranguejos? Você prefere inventar uma palavra oca a sujar as mãos na descrição da realidade?

    — Mas a realidade mudou! — Defendi-me, com a voz trêmula. — Hoje tudo é rápido. O leitor não tem paciência para o naturalismo detalhista.

    O terceiro fantasma, Gonçalves Dias, suspirou. O som foi como o vento nas palmeiras.

    — A paciência não é do leitor, meu filho. É da terra. — Ele apontou para a janela, para a escuridão onde se adivinhava a silhueta das palmeiras. — "Minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá." Simples. Direto. Eterno. Você escreve "nuvem de babaçu". O babaçu não é nuvem. É coco. É quebra. É óleo. É trabalho. Você transformou a substância da vida em um termo técnico sem alma.

    Senti vergonha. Aqueles homens, que ergueram a "Atenas Brasileira" com a força de seus versos e a precisão de sua prosa, estavam ali para julgar minha modernidade. Eles não eram contra o novo; eram contra o vazio.

    — Mas eu quero inovar... — murmurei.

    — Inovar não é mutilar a língua! — Rebateu Odorico, ajustando a gola da sobrecasaca. — Eu traduzi Homero e Virgílio. Tive que dobrar o português para caber no hexâmetro grego. Mas nunca desrespeitei a raiz da palavra. "Neuroribamar"... Isso é um insulto a São José de Ribamar, o padroeiro! É reduzir a fé e a tradição a um chip!

    Aluísio Azevedo sentou-se na beira da minha mesa, atravessando uma pilha de contas pagas.

    — Ainda bem que você pelo menos paga as contas. O problema, rapaz, é que vocês hoje acham que a tecnologia substitui a metáfora. Vocês criam palavras-valise, aglutinam substantivos com prefixos estrangeiros, e acham que fizeram literatura. Literatura é carne e sangue. É o cheiro do mulato, é o barulho do cortiço, é a ambição humana nua e crua. Onde está o sangue no seu "upload"?

    Gonçalves Dias colocou a mão fantasmagórica em meu ombro. Senti um frio que queimava. Tinha o cheiro de saudade.

    — Não estamos aqui para te proibir de escrever sobre o futuro. O Maranhão sempre olhou para além do mar. Mas não esqueça de onde você pisa. Se você quer que seu "neuroribamar" voe, ele precisa ter raízes no chão de São Luís. Ele precisa comer juçara antes de conectar o cabo. Ele precisa ter medo de careta de Cazumbá , antes de ter medo de vírus de computador.

    Os três se entreolharam. Pareciam cansados. A eternidade devia ser exaustiva, especialmente quando se passava o tempo corrigindo a gramática dos vivos.

    — Apague!!! — Ordenou Odorico. — Apague essa "nuvem de babaçu". Escreva que a informação flui como o Rio Anil na maré cheia: barrenta, perigosa e vital. Use o que é nosso. A tecnologia muda, a geografia da alma maranhense, não.

    Com um gesto solene, eles começaram a desvanecer sem dirarem os olhos de mim. O cheiro de naftalina diminuiu, dando lugar novamente à maresia. A temperatura subiu.

    Fiquei sozinho diante da tela. "Neuroribamar". A palavra agora parecia ridícula, um brinquedo de plástico no meio de uma sala de antiguidades valiosas.

    Selecionei o parágrafo. Deletei.

    Respirei fundo, sentindo o ar pesado da noite. Comecei a digitar novamente, mas desta vez, com respeito.

    "O homem, com a mente conectada a cabos que lembravam raízes de mangue, sentiu a informação subir por sua espinha como a maré de setembro. Não era uma nuvem; era um alagado de dados, denso e escuro, onde memórias nadavam como peixes cegos no lodo da história."

    Li em voz alta. Soava melhor. Soava como São Luís. 

    Lá fora, um sabiá cantou, ignorando a hora tardia. Pensei que fosse coisa de Gonçalves . Talvez fosse um sinal de aprovação. Ou talvez, apenas a natureza seguindo seu curso, indiferente às nossas tentativas desajeitadas de aprisioná-la em palavras, fossem elas arcaicas ou neológicas. O importante, aprendi naquela noite, não era inventar o futuro, mas garantir que o passado tivesse lugar nele. A tradição não é uma âncora que prende o barco; é o lastro que impede que ele vire na tempestade da modernidade. E meu barco, agora, navegava mais firme.


José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade

quarta-feira, 13 de maio de 2026

CRÔNICA DO DIA: O 13 de Maio não foi Caridade

 

Em Bacabal, maio sempre chega vestido de duas cores: o verde das margens do Mearim e o preto invisível da memória que o Brasil insiste em esconder debaixo do tapete da História.

Na Praça Santa Terezinha, enquanto os carros passavam cuspindo pressa e fumaça, seu Antônio Preto, “dono” de um boi sotaque de Zambumba, ajeitava lentamente o chapéu de palha. Sentado num banco gasto pelo tempo, parecia conversar com os fantasmas da cidade. Não os fantasmas de lençol branco das histórias de assombração. Eram outros. Fantasmas que carregavam correntes nos tornozelos e cicatrizes nas costas.

Um menino parou diante dele .Ayo com seus 12 anos não era formador de opinião, mas sua curiosidade em saber o porquê das coisas lhe dava ares de ter mais idade.

— Vô, é verdade que a Princesa Isabel libertou os escravos porque era boazinha?

Seu Preto soltou uma risada seca. Dessas que não nascem da alegria, mas do cansaço. O coração bateu forte feito a Zabumba do seu bumba-meu-boi.

— Menino… se bondade acabasse com escravidão, o mundo nunca tinha precisado de revolta.

O vento atravessou a praça como quem queria ouvir melhor. Seu Preto olhou para o rio Mearim com olhos fixos no passado.

— A abolição não foi presente. Foi derrota da elite escravista. – Afirmou  seu Preto com um tom de vitória.

O menino franziu a testa. Ayo queria apenas entender o que dissera a professora de história na escola.

— Derrota? – Questionou Ayo.

— Sim. Os fazendeiros lutaram até o último segundo pra manter nossos parentes  acorrentados. Compravam políticos, financiavam deputados, inventavam leis que pareciam liberdade, mas eram armadilhas com perfume de progresso.

Seu Preto apontou para o céu, como se lesse palavras invisíveis. A história de seus ancestrais estrava escrita e gravada na sua mente, quem contou foi sua vó Venancia do Seco das Mulatas.

— A Lei do Ventre Livre dizia que os filhos dos escravizados nasceriam livres… mas tinham que trabalhar até os vinte e um anos. Liberdade com coleira.

—E a Lei dos Sexagenários?
— Libertava os velhos quando o corpo já estava quebrado pelo trabalho. Era como devolver ao mar um peixe depois que ele já morreu.

O menino ficou em silêncio. Cada palavra que ele dizia surgiam em sua mente como imagens acústicas,

Ao redor, Bacabal seguia viva: mototáxis zunindo como insetos nervosos, vendedores gritando promoções, ônibus sacudindo poeira. A cidade parecia correr sem perceber que pisava sobre séculos mal enterrados. Eram fantasmas, almas penadas sociais que se viam na obrigação de assombrar o futuro.

— Então a princesa não acabou com a escravidão? – Quis entender Ayo curioso,

— Quem acabou foi o medo da elite de perder tudo. A Inglaterra pressionava. Os escravizados fugiam em massa. Quilombos como o São Sebastião dos pretos cresciam por toda parte. O Exército já se recusava a caçar fugitivos. A escravidão não foi desmontada com delicadeza. Ela apodreceu em praça pública.

Seu Raimundo levantou devagar. Seus passos eram devagar devido ao peso da história que carregava nos ombros.

Os olhos dele tinham uma tristeza antiga, dessas que passam de geração em geração como herança invisível. Essa herança agora se materializava em novas arapucas da modernidade.

— Quando veio o 13 de maio de 1888, a princesa assinou a tal da lei áurea, a elite perdeu os escravizados… mas não perdeu as terras, nem o dinheiro, nem o poder político. E sabe o que fizeram com os libertos? Nada. Porque o Brasil não deu escola, não deu terra, não deu trabalho digno. Jogaram o povo negro numa liberdade vazia, como quem solta alguém no meio da tempestade sem abrigo. Libertaram o povo negro da senzala, mas penduraram nossos descendentes nos morros, nas periferias e nas margens invisíveis do país

O menino olhou para as próprias mãos. As palavras do avô ecoavam na cabeça do menino como tambores atravessando o tempo...

— Então o racismo de hoje começou ali?

Seu Raimundo respondeu quase num sussurro:

— O racismo de hoje é a continuação daquela assinatura. Só trocaram as correntes de ferro por outras mais modernas.

A tarde começou a cair sobre o Rio Mearim. O céu parecia uma brasa acesa. Bonito de se ver de onde estava com o neto.

Do outro lado da praça,  professora   Raquel encerrava a aula dizendo aos alunos:

— A abolição foi um ato de humanidade.

Seu preto lhou para o neto sacudindo a cabeça em sinal de desaprovação ap que ouviu.  Respirou fundo. Depois falou baixinho, como quem conversa com o próprio país:

— Humanidade teria sido repartir terra. Construir escolas. Garantir dignidade. O 13 de maio não foi bondade. Foi uma derrota incompleta da escravidão.

O menino perguntou:

— E o Brasil ainda vive essa derrota? – Indagou Ayo.

Seu Preto olhou para os bairros pobres espalhados pela cidade, Setubal tinha todas as caraterísticas de um quilombo urbano, embora não fosse reconhecido, a Trizidela estava á sua frente. Visualizou em sua tela mental  os rostos negros a carregar  caixas, empurrando bicicletas, limpando vidros de carros nos sinais.

Então respondeu:

— Vive meu neto. Porque a senzala acabou no papel. Mas muita gente poderosa passou séculos construindo maneiras novas de deixar o mesmo povo do lado de fora da casa-grande.

O sino da igreja Santa Terezinha bateu seis horas. Era Padre Lauro com sua cara de Santo Barroco que fez dieta chamando para a Missa das sete.

E naquela hora, Bacabal inteira pareceu ficar alguns segundos em silêncio. Como se até a cidade tivesse entendido que liberdade sem justiça é só uma porta aberta para o abandono.

Por José Casanova
Professsor, Jornalista, escritor e cronista
membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade

domingo, 26 de abril de 2026

Prefeito Roberto Costa leva assistência a famílias isoladas pela cheia do Rio Bambu na zona rural de Bacabal

 

Na tarde deste domingo (26), o prefeito Roberto Costa esteve no povoado Mata de Ana, na zona rural de Bacabal, para acompanhar de perto a situação enfrentada por moradores afetados pela cheia do Rio Bambu.

Com o aumento do nível do rio, o acesso à sede do município ficou comprometido, dificultando a locomoção das famílias ribeirinhas. Durante a visita, o prefeito, acompanhado de sua equipe, realizou a entrega de água mineral, cestas básicas e ofertou atendimento médico à população.

A ação também foi marcada pelo deslocamento em áreas alagadas, onde o gestor percorreu trechos a pé, utilizou motocicleta e chegou a entrar na água para alcançar pontos mais críticos da comunidade. Segundo ele, o objetivo é garantir presença e assistência direta às famílias em situação de vulnerabilidade. “Seguimos presentes, cuidando de quem precisa”, afirmou.

A iniciativa integra as medidas emergenciais adotadas pela gestão municipal para minimizar os impactos causados pelas cheias na zona rural.

Diário do MEARIM com informações de Sérgio Matias

ABL e FALMA prestigiam Sessão Solene da ASCAL em comemoração ao seu aniversário de fundação

 

A Academia São-mateuense de Ciências, Artes e Letras(ASCAL) realizou, nesta sábado(25), uma sessão solene em comemoração ao aniversário de sua fundação. O evento, realizadao no Salão Paroquial de São Mateus do Maranhão, reuniu acadêmicos, autoridades, escritores, intelecutais e membros da sociedade civil em uma noite marcada por emoção, reconhecimento e celebração à cultura.

A solenidade contou com a participação  especial da ABL( Academia Bacabalense de Letras), representada por seu Presidente José Casanova, e da  FALMA - Federação das Acadeias de Letras do Maranhão, represebtado por seu vice-presidente Carlos Furtado  que também é Presidente da AMCLAM -Academmia Maranhense de Ciências, Letras e Artes Militares. Participaram do evento a Academia Gonzaguese de Letras e a Academia de Letras e Artes  de Porto Fanco repreentado por Renato Sérgio. As presenças reforçaramp os laços de cooperação entre as instituições e o fortalecimento do movimento acadêmico-literário  maranhense.

POSSE E COMPROMISSO 

Um dos momentos mais marcantes da noite foi a Posse dos Novos Membros Efetivos e Correspondentes da ASCAL, que passam a integrar o sodalício com a missão de promover, valorizar e difundir a produção intelectual, artística e científica de São Mateus do Maranhão.

"É uma alegria  testemunhar o crescimento da ASCAL  e ver novos nomes comprometidos com a preservação da nossa história e o futuro da nossa cultura", afirmou José Casanova, presidente da ABL.

INTEGRAÇÃO E  VALORIZAÇÃO

Em seu discurso, Carlos Furtado ressaltou  importância da ASCAL no cenário cultural do Maranhão e parabenizou a Academia pela dedicação em manter viva a chama do conhecimento e da literatura.

"A ASCAL é motivo de orgulho para nosso estado.. Sua trajetória inspira e fortalece todas as Academias filiadas à FALMA", destacou Furtado.

UMA NOITE HISTÓRICA

A  programação da sessão solene incluiu ainda, homenagens e a posse de Stuart Junior, presidente da  ASCAL como Delegado da FALMA na Mesorregião Central do Maranhão. em seus discurso  Stuart destacou o papel fundamental dos acadêmicos e parceiros na construção de uma sociedade mais consciente e comprometida com a educação e a cultura.

A sessão foi encerrada com uma  confraternização, celebrando não apenas o aniversário da ASCAL,mas também o poder transformador da cultura.