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quarta-feira, 5 de agosto de 2026

CRÔNICA DO DIA: Chama ACESA

 

Em Junco, o sol não era um simples visitante do céu. Para as artesãs do povoado, era um aliado discreto, incorporado à matéria-prima antes mesmo que o trabalho começasse. Elas passavam as manhãs inteiras colhendo o coco babaçu, um trabalho que exigia um olho treinado para distinguir a flexibilidade que se tornaria trançado ,azeite, sabonete artesanais e biojoias , daquela que apenas serviria para o lixo.

Glenda, aos vinte e quatro anos, carregava um incômodo que ia além da poeira acumulada nos pulmões. Via suas tias e primas venderem peças de uma delicadeza rara por valores irrisórios para atravessadores que, na cidade vizinha, triplicavam o preço ao vender para lojas de decoração.

A economia de  Junco girava na base da sobrevivência, não do sustento. Glenda, com a teimosia típica de quem prefere o risco de criar ao conforto de conformar-se, decidiu que o jogo precisava mudar. Seu escritório era uma varanda de chão de terra, equipada apenas com um caderno de anotações e um celular com a tela trincada, onde ela aprendia, entre vídeos e tutoriais, sobre logística e marketing digital. A ACESA – Associação Comunitária de Educação em Saúde e Agricultura tinha lhe aberto as portas para um novo mundo.

A criação da cooperativa nasceu numa tarde de ventania, sob a sombra de um pé de manga. Reunir as mulheres não foi fácil. Havia o medo do novo, a desconfiança em relação ao "sistema" que sempre prometera mundos e fundos apenas para deixá-las na mão. Glenda não falou de "empreendedorismo" com palavras difíceis; ela falou de margem de lucro, de eliminação do intermediário e de como o trabalho delas, ao cruzar as fronteiras digitais, viraria "ouro" em lugares que elas sequer imaginavam.

— O que a gente faz aqui não é só cesta, é identidade . — Dizia Glenda para Maria, a tecelã mais velha do grupo, cujas mãos moviam-se como se tivessem vontade própria. — Mas a gente precisa parar de dar essa identidade de graça. Se a gente unir as forças, o preço quem dita não é o atravessador. Somos nós.

A transição foi um teste de paciência. Glenda passou semanas ensinando-as a estandardizar os produtos, a fotografar as peças com a luz correta e a utilizar uma conta bancária coletiva. Houve momentos de tensão, quando a primeira encomenda não chegou a tempo ou quando o sinal da internet falhou durante uma venda importante. O ceticismo dos homens do povoado também era uma constante,  comentários sarcásticos sobre "brincadeira de menina" que flutuavam pelos terreiros.

Mas, três meses depois, o primeiro grande pagamento chegou. Quando o valor foi depositado e distribuído de forma justa, as fisionomias das mulheres mudaram. Não era apenas sobre o dinheiro que agora compunha a merenda ou o calçado novo para os filhos; era sobre a percepção de que a palha, que elas sempre consideraram material bruto e comum, carregava um valor que o mundo lá fora estava disposto a pagar.

Na manhã seguinte ao recebimento do primeiro pagamento da venda internacional, Maria acordou mais cedo do que de costume. Caminhou até a pequena feira da cidade vizinha e entrou na única loja que vendia ferramentas para costura e artesanato.

Pediu uma tesoura nova. O vendedor colocou sobre o balcão uma peça de aço reluzente, leve nas mãos e precisa no corte. Maria a segurou por alguns instantes, experimentando o movimento das lâminas. Sorriu discretamente antes de pagar.

Ao voltar para casa, abriu a gaveta onde guardava seus instrumentos de trabalho. Pegou a velha tesoura, de cabo gasto e lâminas marcadas pelo tempo. Quantas fibras de carnaúba, que vinha de longe,  ela havia cortado? Quantas cestas, chapéus e descansos de prato haviam começado entre aquelas duas lâminas já sem brilho?

Ela não a jogou fora. Colocou-a cuidadosamente no fundo da gaveta e acomodou a nova ao lado das linhas e das fibras que usaria no dia seguinte. Não era uma despedida.

Era uma lembrança. Queria conservar, para sempre, a ferramenta com a qual aprendera que a beleza também podia nascer de mãos persistentes e instrumentos gastos.

Glenda montou a página da cooperativa em uma plataforma de nicho. O resultado foi um crescimento lento, mas constante. Ela via a autoestima das artesãs mudar; elas começaram a cuidar mais das cores, a experimentar padrões, a se sentirem parte de um mercado que, anteriormente, parecia um clube fechado do qual elas só viam as sobras. O artesanato, que antes era uma "ajuda" para a renda doméstica imposta pela necessidade, passou a ser visto como uma profissão, motivo de orgulho.

Certa noite, meses após o início, Glenda observou o povoado de longe. Junco continuava humilde, com suas ruas de areia e casas pintadas de cores desbotadas, mas algo parecia vibrar de forma diferente. As conversas nas calçadas não giravam apenas em torno da miséria que faltava, mas dos projetos que cada uma delas agora conseguia vislumbrar. Elas não queriam apenas sobrevivência; queriam a autonomia de suas próprias escolhas

Ela sabia que o caminho ainda era longo. O empreendedorismo em um lugar onde o acesso à estrutura é escasso é uma forma de resistência constante. Havia o problema da logística, o custo do frete, a instabilidade da matéria-prima. Mas, ao ver Maria receber a primeira encomenda para o exterior, uma coleção inteira de descansos de pratos com motivos ancestrais , sabonetes personalizados, massa do mesocarpo de babaçu, viu que estava no caminho certo.

Antes de embalar a encomenda, Maria segurou um dos descansos de prato por alguns instantes. Passou a mão sobre o trançado, conferindo se nenhuma fibra havia escapado do desenho, e colou, com cuidado quase cerimonial, uma pequena etiqueta na parte de trás:

Feito em Junco.

Meses depois, o celular de Glenda vibrou com uma mensagem enviada pela compradora. Era uma fotografia. Sobre uma mesa de madeira clara na Europa, cercada por pratos de porcelana e flores secas, estavam os descansos de prato feitos pelas artesãs do povoado e outros produtos enviados.

Glenda mostrou a imagem a Maria. A artesã aproximou a fotografia dos olhos e passou lentamente os dedos sobre a tela, como se pudesse tocar novamente a palha que havia trançado semanas antes. Não compreendia as palavras escritas na legenda nem o idioma estampado na embalagem ao fundo. Mas reconheceu imediatamente o desenho das fibras e percebeu que suas mãos haviam chegado a um lugar onde seus pés talvez nunca chegassem.

 Glenda compreendeu que havia atingido o objetivo do projeto. O ouro não estava guardado em cofres; estava na capacidade que aquelas mulheres tinham de, com fibras de palha e do coco babaçu e a persistência de quem não aceita o lugar de subalterna, tecer uma rede de independência que transformava a realidade do povoado em um lugar onde o futuro não parecia algo que acontecia apenas aos outros, mas algo que elas mesmas estavam moldando, dia após dia, com suas mãos habilidosas sob o sol generoso do Maranhão. A  chama do progressso tinha nome e continuava... ACESA.

                                                                      José Casanova

 

Roberto Costa avança na recuperação da malha viária de Bacabal com nova etapa de pavimentação

 A Prefeitura de Bacabal segue intensificando os investimentos em infraestrutura urbana com a retomada do programa de recuperação da malha viária do município. Na manhã desta terça-feira (4), o prefeito Roberto Costa vistoriou os serviços de recuperação da camada asfáltica da Rua 28 de Julho, no Centro da cidade, uma das principais vias de circulação e de forte atividade comercial de Bacabal.

A nova etapa dos trabalhos marca a retomada das ações após o período chuvoso e contempla importantes corredores viários do município. Entre as avenidas que já recebem os serviços estão a Magalhães de Almeida e a Maranhão Sobrinho, além de outras frentes de trabalho distribuídas em diferentes regiões da cidade. A programação também prevê a ampliação das intervenções para bairros que necessitam de recuperação da pavimentação.

Durante a vistoria, o prefeito destacou que o programa representa a continuidade de um amplo investimento iniciado ainda no ano passado, quando a gestão executou uma das maiores frentes de asfaltamento da história recente do município.

"No ano passado, para começar, foram quase 70 quilômetros de asfalto que fizemos. E estamos reiniciando, depois das chuvas, um novo programa, em que estamos atendendo as grandes avenidas de Bacabal, como Maranhão Sobrinho, Magalhães de Almeida e aqui a 28 de Julho", afirmou Roberto Costa.

Além da recuperação do pavimento, a Prefeitura pretende ampliar os investimentos em infraestrutura urbana. O planejamento inclui a construção de meio-fio e sarjetas, implantação de iluminação pública em LED e nova sinalização horizontal e vertical, promovendo mais organização do trânsito, segurança para motoristas e pedestres e melhor mobilidade urbana.

Outro projeto anunciado pelo prefeito é a implantação de um novo sistema de circulação viária para Bacabal. A proposta prevê estudos para alteração do sentido de algumas avenidas, transformando vias de mão dupla em mão única, como forma de melhorar a fluidez do tráfego e reduzir congestionamentos.

A recuperação da malha viária também chegará aos bairros. Segundo Roberto Costa, o cronograma de recapeamento será ampliado para localidades como Vila Pedro Brito, Coelho Dias e Parque Santa Clara, beneficiando moradores de diversas regiões do município.

"É bom que se diga: nós teremos também a recuperação através do recapeamento nos bairros da nossa cidade", ressaltou o prefeito.

Roberto Costa também destacou outras obras estratégicas que serão executadas para melhorar a mobilidade urbana, incluindo o asfaltamento das vias localizadas ao lado do Supermercado Mateus e da Escola Batista. Segundo ele, esses trechos funcionarão como importantes alternativas para desafogar o trânsito da Estrada da Bela Vista e facilitar o acesso aos bairros Novo Horizonte e Vila Pedro Brito.

"Faremos o asfaltamento dessas vias para melhorar o fluxo na cidade e facilitar a vida da população", concluiu.

Com a continuidade do programa de recuperação da pavimentação, a Prefeitura de Bacabal busca fortalecer a infraestrutura urbana, ampliar a segurança no trânsito e oferecer melhores condições de mobilidade para motoristas, motociclistas, ciclistas e pedestres em todas as regiões do município.



terça-feira, 4 de agosto de 2026

CRÔNICA DO DIA: Telas de Sangue e Cores


O cheiro de terebintina impregnava as paredes do minúsculo ateliê nos fundos de uma garagem, um aroma que, para Cecília, era o único suspiro de liberdade em sua rotina sufocante em Fortaleza.

Debaixo de luz pobre da tarde, ela aplicava uma camada generosa de carmim sobre uma tela que já estava quase inteiramente coberta por um emaranhado de formas orgânicas. Não eram apenas flores ou silhuetas femininas; eram vísceras, eram cicatrizes transformadas em paisagens, eram o grito contido de gerações de mulheres cujas histórias haviam sido reduzidas a notas de rodapé nas narrativas da cidade.

Cecília limpou as mãos em um pano encardido e recuou. Seus olhos percorreram a obra, procurando a harmonia que faltava. O rosto na pintura não era belo no sentido acadêmico; era um rosto que carregava a geologia da dor, com traços fundos como erosões e um olhar que parecia enxergar através das normas formais que o curador da Galeria Vanguarda tanto prezava. Naquela manhã, ela havia levado seu portfólio pela terceira vez ao mesmo espaço. O homem por trás da mesa, um sujeito de óculos de armação grossa e um descaso polido, sequer olhara para as telas. Disse-lhe que o seu trabalho era "emocional demais", que faltava "desapego comercial", que Fortaleza estava buscando algo "clean", mais minimalista, menos carregado com o que ele chamava de "perturbação".

Cecília permaneceu alguns segundos em silêncio. Não discutiu. Sabia que certas portas se fechavam antes mesmo de serem abertas.

Abaixou-se e começou a recolher as telas, uma por uma, tomando cuidado para que as tintas ainda úmidas não se tocassem.

Do outro lado da mesa, o curador já voltara os olhos para a tela do computador.

Os dedos corriam pelo teclado. Uma notificação piscou. Depois outra. Ele respondia e-mails como se aqueles quadros nunca tivessem atravessado a porta da galeria.

— Obrigada pelo seu tempo. — Disse Cecília.

Ele apenas inclinou a cabeça, sem levantar os olhos. Nenhuma despedida. Ela ajeitou as telas contra o peito e caminhou em direção à saída. Quando já alcançava a porta de vidro, ouviu uma voz baixa atrás do balcão da recepção. Era a jovem que organizava catálogos e servia café aos visitantes. A moça esperou o curador atender ao telefone. Então falou quase num sussurro:

— Moça...

Cecília voltou-se. A funcionária sorriu com certa timidez.

— Eu gostei daquela mulher dourada.

Por um instante, ninguém disse mais nada. Cecília apenas sorriu de volta. Um sorriso pequeno, mas verdadeiro. Depois saiu para o calor da rua. Lá fora, Fortaleza continuava indiferente. Dentro dela, porém, uma certeza acabava de nascer. Nem toda obra precisa convencer quem vende arte. Às vezes, basta encontrar alguém que realmente a veja.

Ele não via as telas; ele via o risco que o feminino, em sua forma mais crua, representava naquele ambiente asséptico.

Cecília mergulhou o pincel no azul-cobalto. O desdém do galerista, em vez de feri-la, servia como combustível. Resistir, para ela, não era apenas segurar o pincel; era recusar-se a pintar o que eles queriam consumir. Enquanto a cidade lá fora fritava sob um sol branco, o ateliê mantinha a temperaturade um santuário.

Ela aplicava camadas de tinta com a intensidade de um duelo. Cada pincelada era uma resposta a um mundo que insistia em ignorar a profundidade da ferida feminina, tentando sempre transformar a complexidade em um objeto decorativo, inofensivo e mudo para pendurar em salas de estar de luxo.

O feminino em sua arte não era uma ode à fragilidade, mas uma arqueologia da sobrevivência.

Ela pintava o sangue que escorre no cotidiano, a beleza que brota na resistência, a urgência de ser vista sem precisar ser domesticada. Se a galeria insistia em ignorá-la, ela pintaria telas ainda arte impossível de não ser notada, uma presença que incomodasse pela verdade que carregava.

Quando a noite caiu, e o calor da capital finalmente cedeu espaço a uma brisa salobra vinda do porto, Cecília terminou o detalhe final: linhas finas de um dourado quase incandescente que percorriam o rosto da figura central, como se a própria ferida estivesse sendo selada com luz.

Cecília largou o pincel dentro do copo de vidro já manchado por dezenas de misturas antigas. Deu dois passos para trás. Observou a tela em silêncio.

As linhas douradas capturavam a luz da única lâmpada do ateliê e pareciam respirar sobre a tinta ainda úmida.

Foi então que alguém bateu de leve na porta de madeira. Três toques curtos.

Ela sorriu consigo mesma. Por um instante, imaginou que pudesse ser alguém interessado em comprar um quadro. Enxugou rapidamente as mãos no avental e abriu a porta. Era apenas a menina da casa vizinha. Devia ter uns nove anos. Segurava uma boneca sem um dos braços e olhava para dentro do ateliê com uma curiosidade sem vergonha.

— Posso ver?

Cecília abriu mais a porta. A menina entrou devagar e caminhou até a tela permanecendo alguns segundos completamente imóvel. Seus olhos percorriam o vermelho, o azul profundo e, por fim, as delicadas linhas douradas que atravessavam o rosto da mulher pintada. Sem desviar o olhar, perguntou:

— Foi você quem fez?

Cecília sorriu.

— Foi.a

A menina ficou mais um instante em silêncio. Depois abriu um sorriso largo.

— Quando eu crescer, quero pintar gente assim.

Ela apontou para a tela. Não esperou resposta. Apenas saiu correndo de volta para a rua, onde a noite já espalhava o cheiro salgado trazido pelo vento. Cecília permaneceu parada à porta. Olhou outra vez para a pintura. Depois para o caminho por onde a menina desaparecera.

Talvez o primeiro reconhecimento verdadeiro de uma obra não acontecesse diante das paredes brancas de uma galeria. Talvez começasse exatamente ali, num pequeno ateliê escondido nos fundos de uma garagem, quando alguém descobria que a arte também podia lhe ensinar um sonho.

Ela apagou a luz. Mesmo na penumbra, o dourado da tela ainda parecia aceso.

José Casanova

domingo, 2 de agosto de 2026

CRÔNICA DO DIA: O Sonho Dobrado na Bolsa


A chuva despencava sobre São Luís Gonzaga do Maranhão como se tentasse lavar as irregularidades do calçamento de pedra, mas lá embaixo, onde o asfalto se misturava à lama, a cidade apenas parecia se fechar em uma melancolia cinzenta. Dalva estava encostada na moldura da porta do bar "Esquina da Sorte", observando as gotas pesadas formarem cortinas translúcidas sobre o mundo. O cheiro de terra molhada se fundia ao aroma barato de cigarro e ao perfume adocicado que ela usava para tentar mascarar a rotina.

Seu reflexo na vidraça embaçada mostrava uma mulher que o espelho insistia em datar, mas que os olhos, ainda ávidos, se recusavam a aceitar. Dalva não era apenas o corpo que circulava entre os homens que buscavam esquecimento ou companhia barata. Dentro de sua cabeça, ela ainda guardava o caderno de caligrafia que um antigo professor, lá no tempo de menina, havia chamado de "o mais bonito da turma". Ela ainda era a menina que sonhava em ser costureira de vestidos de noiva, alguém que desenhava rendas nos cadernos como se pudesse, de fato, tecer um destino diferente.

Um carro passou devagar, as luzes dos faróis cortando a penumbra, e ela sentiu o calafrio que qualquer mulher na rua conhece bem: o misto de vulnerabilidade e a necessidade de não se deixar abater pelo medo. Ela ajeitou a franja com os dedos, um hábito nervoso que mantinha desde a adolescência em Carolina, antes de a vida tomar os rumos de espinho e poeira que a trouxeram até ali.

— Está vindo alguém, Dalva? — Perguntou Joca, o dono do bar, enquanto limpava o balcão com um pano encardido de tão usado.

Dalva não respondeu de imediato.

— Você podia ter outra vida. — Disse Joca.

— Escolha é palavra bonita quando a barriga já jantou.

Ela observou um grupo de rapazes rindo na mesa do canto, ignorantes quanto à existência dela, exceto pelas vezes em que precisavam de um olhar ou de um consolo passageiro. "Humanizar" era uma palavra que ela nunca usara, mas sentia na pele a falta que ela fazia. Para aqueles homens, ela não tinha biografia, não tinha infância, não tinha planos para além do próximo pôr-do-sol. Ela era a paisagem noturna, a funcionalidade da carne, um vulto que atravessava a calçada.

Pensou em sua mãe, na casa de taipa que ficara para trás. Pensou em como, se a vissem naquele momento, a julgariam pela régua da moralidade alheia, sem nunca perguntar quanto custou a ela manter a sanidade.

A prostituição, para Dalva, não era uma "escolha" feita em um escritório, mas uma deriva que foi acontecendo centímetro a centímetro, perna a perna, degrau a degrau, até que o solo embaixo dela já era outro. Ela se lembrava de ser amada, de ter sentido a pele ser tocada com respeito, algo que parecia ter ficado preso em algum ano anterior à virada do milênio.

A chuva aumentou, o som nas telhas de zinco tornando-se um rufar de tambores de guerra. Dalva sentiu um aperto no peito, uma vontade quase infantil de correr para debaixo de algum telhado seguro, mas não havia para onde ir. O seu "lugar" era ali, onde as esquinas de outrora se confundiam com a precariedade do agora. Ela olhou para a própria mão, enfeitada com um anel de bijuteria barata que soltava tinta verde nos dedos. Ainda havia ali a beleza das mãos que um dia desenharam rendas.

— A vida não é o que a gente faz quando não tem saída, Joca. — Ela disse, de repente, quebrando o silêncio do bar.

Joca parou a limpeza, confuso.

— Falou alguma coisa, Dalva?

Nada. — Ela forçou um sorriso, um daqueles que usava como armadura. — Só estava pensando que essa chuva vai estragar o movimento.

Mas não era pelo movimento que ela chorava por dentro. Era pelo reconhecimento de que, embora a rua estivesse cheia de homens, ela se sentia como se vivesse em um vácuo.

Foi então que a porta do bar se abriu outra vez. Um menino de não mais que oito anos entrou correndo, encharcado da cabeça aos pés. Apertava contra o peito um caderno protegido por um saco plástico já rasgado nas pontas.

Olhou para dentro do salão com a timidez de quem sabia que aquele não era um lugar para crianças.

— Moço... tem um copo d'água?

Joca apontou com o queixo para o balcão.:

— Dalva, pega uma água pra ele.

Ela encheu um copo de alumínio e o entregou. O menino bebeu depressa, respirou fundo e devolveu o copo com as duas mãos. Nesse instante, seus olhos encontraram os dela. Não havia curiosidade. Não havia malícia. Nem julgamento. Apenas gratidão.

— Obrigado, dona.

Dalva demorou um segundo para responder. Havia muito tempo ninguém lhe dirigia uma palavra tão simples. Sorriu sem perceber.

— Vai com cuidado. A chuva ainda não terminou.

O menino fez que sim com a cabeça, apertou novamente o caderno contra o peito e saiu correndo pela rua molhada. Dalva acompanhou seus passos até que desaparecessem atrás da cortina de chuva. Então olhou para as próprias mãos. As mesmas mãos que tantos conheciam sem jamais cumprimentar naquela noite, sentiram que ainda existia fora do papel que o mundo insistia em lhe dar.

Ao ver uma luz tremeluzir na poça de água à sua frente, Dalva se lembrou do vestido de noiva que nunca costurou nem vestiu.

Pouco depois, a chuva começou a perder força. As gotas grossas transformaram-se em pingos espaçados, até que restou apenas o som da água escorrendo pelas calhas enferrujadas.

Joca apagou uma das luzes do bar.

— Pode fechar, Dalva. Hoje a noite morreu mais cedo.

Ela apenas assentiu. Empurrou a cadeira para debaixo da mesa, ajeitou a alça da bolsa no ombro e caminhou devagar até a porta. Antes de sair, abriu a bolsa de couro já gasta pelo tempo.

Entre um batom sem tampa, um pente de dentes quebrados e algumas notas dobradas, retirou um pedaço de papel amarelado. Desdobrou-o com o cuidado de quem toca uma fotografia antiga. Era um desenho. Um vestido de noiva. A renda havia sido desenhada a lápis, com linhas delicadas que o tempo quase apagara. Dalva passou a ponta dos dedos sobre o papel.

Sorriu. Não um sorriso de felicidade. Mas de reconhecimento. Dobrou novamente o desenho, alisando cada vinco com paciência, e guardou-o de volta na bolsa. Então saiu. A rua ainda brilhava sob a água da chuva na terra do cuxá. Ela caminhou sem pressa entre as poças que refletiam as luzes dos postes. Naquela noite, ninguém a chamou. Ninguém a assobiou. Ninguém lhe pediu nada. Era apenas uma mulher atravessando a cidade. E, por alguns quarteirões, isso lhe pareceu suficiente.

José  Casanova

sábado, 1 de agosto de 2026

CRÔNICA DO DIA: Mãos de Terra e Sol

O despertador, um galo que teimava em cantar muito antes de o horizonte clarear, soou como um aviso de batalha para Alzira. Em Alto Alegre do Maranhão, o dia não chega devagar. Ele irrompe, como se o sol tivesse urgência de alcançar cada telhado. Ela se levantou da rede antes que o primeiro sinal de claridade tocasse o chão de terra batida, cuidando para não despertar os dois meninos que dormiam enroscados no catre.

O café, ralo e amargo, foi tomado em silêncio. Era o único momento em que a casa, construída com tábuas e que o tempo havia curado, oferecia algum sossego antes das exigências da lida.

Ao sair, o ar ainda tinha aquele frescor enganoso, uma brisa leve que logo seria engolida pelo sol impiedoso do Maranhão. Alzira trajava uma camisa de mangas compridas, já puída pelos anos, uma proteção insuficiente contra o mormaço que a esperava. Carregava a enxada como se fosse uma extensão de seu próprio braço; o metal, desgastado pelo atrito constante com a terra, brilhava sob a luz lunar que ainda persistia.

O trajeto até a roça era uma subida exigente, um terreno íngreme onde cada passo era um exercício de equilíbrio. Alzira não caminhava por gosto, caminhava por contrato, um acordo tácito com a existência para garantir que, ao final do mês, a mesa não ficasse vazia. A terra ali era caprichosa; um dia oferecia sustento farto, noutro, exigia suor de sangue para entregar um punhado de raízes mirradas. Ela limpava o mato com uma técnica precisa, um movimento rítmico que impedia a exaustão total. Seus olhos, habituados a identificar brotos de ervas daninhas quase invisíveis, varriam o solo com uma atenção febril.

Perto do meio-dia, o sol já não era uma presença, mas um martelo. A umidade da terra subia como um bafo quente, e o suor escorria pelas têmporas, ardendo nos olhos. Alzira se sentou sob a sombra rudimentar de um pé de manga rosa, o único refúgio naquelas cercanias. O almoço era escasso: uma porção de farinha misturada com um pouco de proteína, guardada em uma vasilha de plástico.

Enquanto mastigava, não pensava no cansaço ou nas dores que latejavam em sua lombar. Pensava nos cadernos dos meninos.

Na noite anterior, depois da janta, Tiago espalhara o caderno sobre a mesa de madeira. A lamparina desenhava sombras compridas sobre as páginas.

— Mãe... a professora disse que isso aqui cai na prova.

Ele apontou o mapa do Brasil.

— Onde fica o Cerrado? — Perguntou Tiago.

Alzira aproximou o rosto. As letras pareciam pequenas demais. Passou o dedo devagar pelas linhas, como se pudesse encontrar a resposta pelo tato.

— Lê de novo pra mim, meu filho.

Tiago repetiu a pergunta. Ela permaneceu em silêncio. O menino esperou.

— A senhora não sabe?

A pergunta saiu sem maldade. Era apenas curiosidade. Alzira baixou os olhos:

— Não sei, não.

Tiago fechou o caderno com cuidado.

— Tudo bem... amanhã eu pergunto pra professora.

Ele tentou sorrir, mas o sorriso morreu antes de chegar aos olhos. Nesse instante, o menor, que desenhava no chão com um pedaço de carvão, levantou a cabeça.

— Quando eu crescer, vou ensinar a mamãe.

Os dois irmãos riram. Alzira também sorriu. Mas foi um sorriso curto, desses que escondem alguma coisa. Ela passou a mão pelos cabelos de Tiago.

— Não quero que vocês me ensinem porque eu não pude aprender. Quero que estudem porque o mundo é maior que essa roça.

Tiago olhou pela janela. A lua clareava apenas um pedaço do terreiro.

— Maior quanto? — Quis saber Tiago.

Alzira demorou para responder. Depois fitou a escuridão, onde começavam os caminhos que nunca havia percorrido.:

— Grande o bastante pra vocês escolherem onde querem plantar a própria vida.

O silêncio voltou para a casa. Lá fora, um grilo insistia no mesmo canto. Tiago abriu novamente o caderno. Dessa vez não para perguntar. Mas para continuar estudando. E Alzira percebeu que, embora não soubesse responder àquela questão de geografia, talvez estivesse ensinando a mais importante de todas.

A tarde seguiu nesse embate. Alzira cavava, revolvia, capinava. Suas mãos, grossas, com rachaduras que acumulavam o pó da terra, narravam uma biografia de renúncias.

Às vezes, quando tinha certeza de que não havia ninguém por perto, Alzira cantava.

Era um canto baixo, quase um segredo, aprendido com a mãe ainda menina. A melodia saía desafinada pelo cansaço, mas bastava para acompanhar o ritmo da enxada. O vento levava metade das palavras; a outra metade ficava enterrada junto das raízes que arrancava.

Parou de repente. Um estalo no mato fez seu corpo enrijecer. Ergueu a cabeça.

Os olhos percorreram a cerca de varas, os galhos secos, a vereda por onde, vez ou outra, apareciam cobras ou algum estranho atravessando propriedades.

Ninguém.

Ela respirou fundo e sorriu de si mesma:

— Estou ficando medrosa... — Murmurou.

Voltou ao trabalho.

Enquanto a enxada afundava na terra, outra lembrança emergiu. Quando era menina, dizia ao pai que queria ser professora.

Gostava do cheiro dos cadernos novos e das letras desenhadas no quadro da pequena escola da comunidade. Imaginava-se escrevendo o próprio nome todos os dias com giz branco.

Mas a seca de um ano ruim levou primeiro a colheita. Depois levou a escola. E, por fim, levou a infância. Nunca mais falou daquele sonho. Nem para o marido, quando ainda era vivo. Nem para os filhos. Alguns sonhos, aprendera cedo, sobrevivem melhor quando permanecem calados.

Mesmo assim, havia dias em que, sem perceber, corrigia a maneira como Tiago segurava o lápis, alisava as folhas amassadas dos cadernos ou passava a mão sobre os livros como quem acaricia uma porta que nunca conseguiu atravessar.

Então voltava a cantar. Não porque estivesse feliz. Mas porque certas canções conseguem carregar um peso que as palavras não suportam. A enxada desceu outra vez.

E o compasso entre o ferro e a terra pareceu acompanhar a antiga cantiga, como se o chão conhecesse sua história havia muito mais tempo do que qualquer pessoa.



Cada golpe da enxada era um depósito invisível para o futuro dos filhos. À medida que o sol descia, tingindo o céu de um alaranjado violento, ela reunia as ferramentas. O cansaço era absoluto, uma dormência que dominava cada articulação, mas sua mente permanecia estranhamente aguçada. Ela observava a roça, o resultado de seu esforço, e sentia um orgulho silencioso. Não era uma propriedade gloriosa, não havia colheitas recordes, havia apenas a subsistência conquistada a preço de ouro líquido.

O retorno para casa era feito no crepúsculo. Quando atravessava a porta, o cheiro de madeira antiga e de fogão a lenha a recebia. Os meninos estavam acordados, rabiscando folhas com lápis gastos. O mais novo, ao vê-la, correu para abraçar seu avental sujo. Alzira sentiu um alívio que transcendia o cansaço. Ela não via as marcas em suas mãos como feridas, mas como selos de uma jornada que, embora exaustiva, mantinha a família em pé.

Durante o jantar, enquanto ouvia as histórias da escola, ela quase não falava.

Tiago terminou de comer, limpou os dedos na barra da bermuda e puxou o caderno da mochila.

— Mãe, a professora pediu uma redação.

Abriu na última página.

As letras ainda tropeçavam umas nas outras, algumas grandes demais, outras espremidas entre as linhas. Havia palavras riscadas, setas apontando para correções e um pequeno "Muito bem!" escrito em tinta azul no alto da folha.

Tiago respirou fundo.

— Posso ler?

Alzira fez que sim.

O menino começou devagar. Lia sobre a chuva que demorava a chegar, sobre o cheiro da terra molhada e sobre a esperança de ver a roça outra vez coberta de verde. À medida que as palavras saíam de sua boca, os olhos de Alzira deixavam o caderno e repousavam no rosto do filho.

Quando terminou, ele fechou o caderno com cuidado. Ficou alguns segundos em silêncio. Então perguntou:

— Mãe... escrevi bonito?

Alzira sentiu o peito apertar.

Ela não sabia dizer se havia vírgulas fora do lugar, se os verbos estavam certos ou se alguma palavra carregava letras sobrando.

Sabia apenas reconhecer a verdade. Passou a mão devagar pelos cabelos do menino e sorriu:

— Bonito é quando a palavra leva a gente mais longe.

Tiago olhou novamente para o caderno. Sorriu também. Não porque tivesse certeza de que escrevera corretamente. Mas porque compreendeu que escrever podia ser uma maneira de caminhar sem sair do lugar.

O silêncio, naquela hora, era um ato de contemplação. Enquanto os meninos comiam, ela observava os raios de luz que entravam pelas frestas da parede de barro e talos, iluminando o pó que flutuava no ar. Ali, naquela precariedade, o mundo fazia algum sentido. Ela tinha a terra sob as unhas, o sol marcado na pele e o futuro dos filhos pulsando na mesa. Alzira sabia que o sol de amanhã seria novamente um teste de resistência, que a enxada continuaria pesada e que o esforço não teria fim. Mas enquanto houvesse força para levantar a mão e virar o solo, haveria esperança. A jornada era dura, mas cada dia era um pouco de solo lavrado para que os filhos, um dia, não precisassem aprender a ler o mundo apenas pelo cansaço da terra, mas pela possibilidade de um destino por eles mesmos escolhido.

 José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e cronista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade

sexta-feira, 31 de julho de 2026

CRÔNICA DO DIA: O Hábito e a Rua


O vento que sopra em Fortaleza, mesmo na calada da noite, nunca é frio o suficiente para abrandar o asfalto quente da Praia de Iracema. Irmã Helena ajustou o hábito, tentando disfarçar o desconforto com a rigidez do tecido diante da umidade salina que colava a veste ao corpo. O hábito branco, que deveria representar a pureza e a ordem, parecia, sob a luz alaranjada dos postes, uma bandeira de rendição em meio ao caos da madrugada.


Atrás da Catedral, onde as sombras são mais longas, ela encontrou Antônia. Ou o que restava de Antônia. A mulher estava encolhida sobre um pedaço de papelão, os joelhos encostados no peito, os dedos encardidos de fuligem segurando um frasco vazio de cola. Helena ajoelhou-se no chão, manchando a barra do hábito sem hesitar. Sua fé, que antes encontrava refúgio nas orações entoadas no silêncio da capela de Nossa Senhora da Penha, ali se tornava uma faca de dois gumes. Como falar de um plano divino para alguém que sequer tinha certeza de que sobreviveria à névoa da próxima hora?

— Antônia, filha, vamos lá para o abrigo. A noite está perigosa. — Disse Helena, a voz baixa para não despertar a desconfiança da mulher. Antônia levantou os olhos, dois círculos injetados de desamparo. Ela deu um riso seco, que logo se transformou em um acesso de tosse profunda, que parecia arrancar pedaços do seu pulmão.

— O seu Deus também esqueceu de mim aqui, irmã. Por que a senhora não vai lá rezar no seu altar de ouro e me deixa em paz? — A pergunta não tinha ódio, apenas a exaustão absoluta de quem já não esperava nada de ninguém.

Helena sentiu um abismo se abrir sob seus pés. Ela havia estudado teologia, passara anos em retiros silenciosos, mas o seminário não incluía manuais sobre como converter a fome em esperança. A dualidade a golpeava: de um lado, a crença absoluta de que cada vida era sagrada; do outro, a evidência brutal de que a sociedade havia decidido que Antônia era um custo, uma falha, um detalhe descartável na paisagem urbana.

— Eu não rezo por você porque a senhora está esquecida, Antônia. Eu rezo por mim, para que eu tenha forças para não virar as costas quando o seu nome for cuspido pelos outros. — Helena respondeu, estendendo a mão.

O dilema moral pesava mais que o terço no bolso.

Se ela levasse Antônia para o abrigo, teria que enfrentar as regras do convento, o controle rígido de horários, as críticas silenciosas de outras irmãs que viam na marginalidade uma mácula que não deveria cruzar os portões da instituição. A fé, que deveria ser um consolo, tornava-se ali uma arena de combate. Helena questionava se a caridade, quando limitada por muros e burocracias, ainda mantinha sua essência ou se tornava apenas mais uma forma de gestão da pobreza.

Antônia, com um esforço sobre-humano, colocou a mão sobre a de Helena. A pele era fina, quase transparente. Eram duas mulheres à margem: uma, pela escolha do celibato e da dedicação ascética; a outra, pelo completo descarte social. A freira sentiu o tremor daquela mão e o dilema se dissolveu em um único imperativo: o momento presente.

Elas caminharam em silêncio de volta. Passaram por grupos de jovens com roupas caras, por turistas que desviavam o olhar como se a visibilidade da miséria pudesse ser contagiosa. Helena guiava o passo daquela mulher com uma reverência que dedicaria a um círio pascal. Ao chegarem ao portão do abrigo, ela sentiu o peso dos olhares das outras irmãs que observavam da janela.

A fé, para Helena, deixou de ser um dogma a ser recitado e passou a ser o peso daquele corpo que ela ajudava a carregar. Ao colocá-la na cama limpa, enquanto Antônia tremia sob os cobertores, a freira percebeu que o hábito que vestia nada significava se não servisse para esconder as feridas de quem a sociedade preferia não ver. Ela fechou a porta, não para aprisionar Antônia, mas para proteger aquela pequena humanidade contra o mundo lá fora.

Naquela noite, a oração foi breve. Ela percebeu que, nas ruas de Fortaleza, a verdadeira liturgia não mora no altar, mas no ato perigoso e subversivo de se ajoelhar no chão frio para estender a mão a que já não tem mais nada para oferecer além da própria dor.

José Casanova

ABL prestigia lançamento do livro infantil "Casa de Todo Jeito", de Jeane Miranda, em Bacabal

 

A Academia Bacabalense de Letras (ABL) marcou presença, na noite desta quinta-feira (30), no lançamento do livro infantojuvenil "Casa de Todo Jeito", da professora e escritora Jeane Miranda. O evento foi realizado no auditório da Escola Reis Magos, em Bacabal, reunindo leitores, educadores, estudantes, familiares e admiradores da literatura.

Representando a ABL, participaram o presidente José Casanova e a secretária-geral da instituição, Liduina Tavares, reforçando o compromisso da Academia com o incentivo à produção literária e à valorização dos escritores bacabalenses.

Em Casa de Todo Jeito, Jeane Miranda convida o leitor a refletir sobre os diferentes significados do lar e as múltiplas formas de convivência presentes nas histórias que atravessam gerações. Com uma narrativa leve e sensível, a autora revisita casas clássicas da literatura infantil, como a dos Três Porquinhos, que sonhavam em ser vizinhos, e a casa de doces de João e Maria, da qual as crianças precisaram fugir. Cada cenário revela diferentes experiências familiares, passando por ambientes de acolhimento, desafios e exclusão.

A obra propõe uma jornada de autodescoberta e empatia, mostrando que a essência de uma casa ultrapassa suas paredes e está ligada ao pertencimento, ao amor e à segurança. Ao longo da narrativa, Jeane Miranda apresenta uma visão de mundo em que todas as pessoas, independentemente de suas histórias ou circunstâncias, possam encontrar um lugar para chamar de lar.

O livro encerra sua mensagem resgatando uma das frases mais marcantes da personagem Dorothy, de O Mágico de Oz: "Não há lugar como a nossa casa", reafirmando a importância do lar como espaço de afeto e proteção.

Durante o lançamento, Jeane Miranda conversou com o público sobre o processo de criação da obra, respondeu perguntas dos participantes, posou para fotografias com os leitores e autografou exemplares adquiridos durante o evento.

Em sua manifestação, o presidente da Academia Bacabalense de Letras, José Casanova, destacou a relevância da contribuição da escritora para a literatura local e deixou uma mensagem de reconhecimento ao seu trabalho. Segundo ele, a qualidade da produção literária de Jeane Miranda e sua dedicação à cultura fazem com que ela seja vista como um nome com potencial para, em um futuro próximo, ocupar uma cadeira na Academia Bacabalense de Letras, fortalecendo ainda mais o patrimônio literário do município.

A participação da ABL no lançamento reafirma o papel da instituição na valorização dos escritores da região e no estímulo à leitura, especialmente entre crianças e jovens, contribuindo para o fortalecimento da produção literária em Bacabal e no Maranhão.








quinta-feira, 30 de julho de 2026

Roberto Costa entrega Capela da Esperança, primeiro espaço público e gratuito para velórios de Bacabal

A Prefeitura de Bacabal entregou, na terça-feira (28), a Capela Mortuária Municipal da Esperança, o primeiro espaço público e totalmente gratuito do município destinado à realização de velórios e ao acolhimento das famílias durante a despedida de seus entes queridos. A obra representa um importante avanço na política de assistência social da gestão municipal, oferecendo um ambiente digno, seguro, acessível e humanizado para a população.

Localizada no Bairro da Esperança, a capela foi projetada para atender famílias de todas as religiões e condições sociais, garantindo um espaço apropriado para a vivência do luto com respeito, conforto e acolhimento.

A cerimônia de inauguração foi marcada por um ato ecumênico que reuniu representantes da Igreja Católica, igrejas evangélicas e religiões de matriz africana, simbolizando o caráter inclusivo do novo equipamento público. Durante o momento de oração e bênção, lideranças religiosas destacaram a importância da iniciativa para toda a comunidade.

Representando as religiões de matriz africana, Flaviane Freire ressaltou o impacto social da obra para famílias que, muitas vezes, enfrentam dificuldades financeiras para realizar uma despedida digna.

“Vou falar olhando para o nosso povo de terreiro, que muitas vezes não tem um local adequado nem condições de arcar com as despesas de uma despedida. Esse espaço representa acolhimento para todos. Quando o prefeito tem essa iniciativa e abraça toda a população, sem distinção, isso é muito importante para nós”, afirmou.

O vice-presidente da Igreja Evangélica Assembleia de Deus de Bacabal, pastor Antônio Valbert, destacou que a estrutura oferece dignidade às famílias em um dos momentos mais delicados da vida.

“Um ambiente como este, com essa estrutura, é muito importante para as famílias que passam pela dor da perda de um ente querido. É louvável a iniciativa do poder público em garantir esse acolhimento, oferecendo um espaço digno e preparado para esse momento.”

Já o diretor da Capela, padre Lauro Henrique, enfatizou o caráter inédito do equipamento no município.

“O prefeito Roberto Costa presenteia a cidade de Bacabal com um espaço que nunca existiu em nosso município. Agora teremos um ambiente acolhedor, sereno e digno para velar nossos entes queridos, independentemente da condição social ou do credo religioso. É mais uma demonstração da sensibilidade da gestão municipal com as pessoas.”

O bispo da Diocese de Bacabal, Dom Armando Martín Gutiérrez, também destacou a relevância humana da iniciativa.

“Saber que haverá um lugar onde a família poderá se reunir para prestar a última homenagem à pessoa querida, manifestar sua dor, alimentar a esperança e encontrar consolo é um gesto de profunda humanidade. Sou grato ao prefeito Roberto Costa, à gestão municipal e a Deus por esta iniciativa, que certamente levará conforto a muitas famílias.”

A Capela Mortuária Municipal da Esperança foi construída exclusivamente para a realização de velórios e conta com quatro salas de velório, recepção, área de circulação, sala administrativa, copa equipada e banheiros adaptados para pessoas com deficiência, assegurando acessibilidade, conforto, higiene e melhores condições de atendimento.

Durante a entrega, o prefeito Roberto Costa destacou que a obra atende a uma demanda histórica da população bacabalense e reforça o compromisso da administração municipal com políticas públicas voltadas ao cuidado com as pessoas.

“Hoje entregamos um equipamento público que tem uma importância social, humana e espiritual muito grande para nossa cidade. A Capela Mortuária da Esperança foi construída para oferecer conforto às famílias no momento mais difícil, que é a despedida de um ente querido. Este será um espaço de todos, independentemente da religião ou da condição financeira. Um ambiente preparado para acolher a população quando ela mais precisar”, afirmou.

Com a inauguração da Capela Mortuária Municipal da Esperança, Bacabal passa a contar, pela primeira vez, com um espaço público e gratuito dedicado exclusivamente aos velórios, consolidando um importante investimento da gestão municipal na promoção da dignidade, da inclusão e do acolhimento às famílias em um dos momentos mais sensíveis da vida.

quarta-feira, 29 de julho de 2026

Bacabal se destaca como referência em Educação Especial


A Prefeitura de Bacabal deu início, na terça-feira (28), à segunda edição do Simpósio de Educação Especial, considerado um dos maiores eventos voltados à Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva do Maranhão. Realizado no Espaço Catedral de Santa Teresinha, o encontro reúne mediadores escolares, professores do Atendimento Educacional Especializado (AEE), intérpretes de Libras, revisores Braille e demais profissionais da rede municipal de ensino em uma extensa programação de formação continuada, troca de experiências e aperfeiçoamento das práticas pedagógicas inclusivas.

Com o tema "Inclusão que Transforma a Aprendizagem", a solenidade de abertura contou com a presença de centenas de profissionais da educação, gestores, familiares de estudantes e convidados. A programação foi marcada por apresentações culturais do grupo de dança da APAE de Bacabal e do Projeto Movemente, além da palestra magna ministrada pelo psicólogo, palestrante e criador de conteúdo Wallace de Lira, referência nas áreas de Autismo, Psicologia e Saúde Mental.
Durante sua palestra, Wallace de Lira elogiou o compromisso da gestão municipal com a educação inclusiva e destacou a importância da formação permanente dos profissionais da educação.

"Estou vendo um público muito grande aqui, e isso mostra a importância que Bacabal tem dado à educação inclusiva. O prefeito, a Secretaria de Educação e todos os envolvidos estão de parabéns por promoverem iniciativas que fortalecem a inclusão", afirmou.
A participação das famílias também marcou o primeiro dia do simpósio. Representando as mães atípicas, Uerly Sousa ressaltou que a qualificação dos profissionais reflete diretamente na segurança e no desenvolvimento dos estudantes público-alvo da Educação Especial.

"Fui convidada para participar deste momento pela representatividade das famílias atípicas 

e fico muito feliz. Sempre defendemos a importância da capacitação dos profissionais. É muito importante para o professor e também para nós, mães, saber que quem acompanha nossos filhos é um profissional preparado, qualificado e capacitado para atender às necessidades de cada criança", destacou.
Para o coordenador da Educação Especial do município, Renato Silva, o evento consolida Bacabal como referência estadual na formação dos profissionais que atuam na educação inclusiva.
"Este segundo simpósio representa um grande marco para o nosso município. Hoje realizamos o maior evento de Educação Especial do Maranhão. É a Prefeitura investindo na formação dos profissionais e assegurando não apenas uma educação especial de qualidade, mas uma educação verdadeiramente inclusiva, equitativa e acessível para todos os estudantes da nossa rede", enfatizou.

Durante a abertura, o prefeito Roberto Costa destacou os investimentos realizados pela administração municipal para fortalecer a Educação Especial. Segundo ele, a rede de ensino passou por uma significativa ampliação da estrutura de atendimento, com aumento do número de profissionais de apoio, expansão das salas de recursos multifuncionais e fortalecimento do Atendimento Educacional Especializado.
"Nossa gestão trabalha para garantir direitos e promover inclusão para toda a população. Na educação, temos feito investimentos históricos para assegurar que nossas crianças recebam o suporte necessário ao seu desenvolvimento. Hoje, Bacabal conta com cerca de 650 profissionais atuando na Educação Especial, sendo aproximadamente 600 mediadores escolares acompanhando os estudantes em sala de aula. Também ampliamos significativamente as salas de recursos multifuncionais: recebemos o município com apenas nove e, ainda este ano, chegaremos a quase 60 espaços especializados. Esse é um compromisso com uma educação que respeita as diferenças e garante oportunidades para todos", afirmou o prefeito.

O II Simpósio de Educação Especial prossegue até o dia 31 de julho com uma programação diversificada, composta por palestras, oficinas, rodas de conversa e atividades voltadas ao fortalecimento das políticas públicas de inclusão escolar. A iniciativa reafirma o compromisso da gestão municipal em investir na formação dos profissionais da educação e consolidar Bacabal como referência maranhense na promoção de uma escola cada vez mais inclusiva, acessível e comprometida com a aprendizagem de todos.