domingo, 22 de março de 2026
CRÔNICA DO DIA: O Boi e o Som das Estrelas
O ar em Alto Alegre, no interior do Maranhão, costuma ser impregnado pelo cheiro de terra seca e fumaça de lenha, mas nas noites de junho, tudo muda. O vento traz o aroma de pipoca, mingau de milho e o perfume metálico das miçangas novas. Para o pequeno Davi, de oito anos, o mundo não chega em doses suaves; ele chega em avalanches. Cada cor é um grito, cada som é uma martelada e cada toque na pele é como o roçar de uma lixa grossa.
Ele estava sentado no último degrau da escada de casa, as mãos apertando os joelhos, enquanto o som distante das matracas começava a riscar o silêncio da noite.
— Davi, vamos ver o boi? — Perguntou o pai, aproximando-se com cuidado, mantendo uma distância segura para não invadir o espaço vital que Davi defendia com tanto vigor. — O Bumba Meu Boi de Alto Alegre é o mais bonito do mundo, filho. As estrelas descem para dançar no couro do boi.
Davi não respondeu com palavras. Ele olhou para o céu. Para ele, as estrelas não eram apenas pontos de luz; eram agulhas brilhantes que faziam um zumbido fininho, uma frequência que só ele parecia captar. O conceito de "bonito" para Davi era indissociável de "suportável".
Ele aceitou ir, mas apenas porque o pai trazia o par de abafadores de ruído azuis, o seu escudo contra o caos. Enquanto caminhavam em direção ao terreiro onde a festa acontecia, a realidade de Davi se transformava. Para as outras crianças que corriam pelas ruas de terra, o som das matracas era alegria. Para Davi, era um terremoto rítmico. Taca-taca-taca-taca. O som batia no peito dele, vibrava nos dentes e ecoava nos ossos do crânio.
Quando chegaram ao arraial, o impacto sensorial foi avassalador. As lâmpadas de gambiarra, enroladas em papéis de seda coloridos, oscilavam com o vento, criando sombras gigantescas que dançavam nas paredes de pau-a-pique. O vermelho das roupas dos caboclos de fita não era apenas vermelho; era um fogo que ardia nos olhos de Davi. O amarelo das lantejoulas era como pequenos flashes de luz de solda.
Davi pressionou os abafadores com mais força contra as orelhas. O som do mundo diminuiu, transformando-se em um murmúrio subaquático, mas a vibração permanecia. O chão de terra batida sob seus pés descalços dizia exatamente onde os batedores de pandeiro estavam. Ele sentia a batida do tambor-onça como um trovão que subia pelas pernas e se alojava no estômago.
— Olhe, Davi! O Boi! — Apontou a mãe, os olhos brilhando de devoção cultural.
O boi entrou no centro do terreiro. Era uma criatura de veludo negro, bordada com milhares de vidrilhos, canutilhos e espelhos. Na lógica de Davi, aquele boi era uma galáxia inteira. Os pequenos espelhos refletiam as luzes das gambiarras e o brilho das estrelas reais lá no alto, criando um padrão de luz que, para o menino, tinha um ritmo matemático.
Davi começou a balançar o corpo para frente e para trás, um movimento rítmico que o ajudava a não ser esmagado pela intensidade do que via. Seus olhos se fixaram em um único detalhe: uma fita azul que pendia do chifre do boi e que balançava de forma diferente das outras. Ele entrou em hiperfoco. O resto do arraial desapareceu. As pessoas, o calor humano, o cheiro de suor e pólvora dos foguetes, tudo foi filtrado. Ficou apenas ele e a física do movimento daquela fita azul.
— Ele está gostando? — Sussurrou a mãe para o marido, preocupada com o balanço contínuo do filho.
— Ele está processando. — Respondeu o pai, que já aprendera a ler os sinais silenciosos. — Olhe o olho dele. Ele está vendo coisas que a gente nem imagina.
Davi via a música. Para ele, o toque do pandeiro de fita criava ondas de cor violeta no ar. O som da matraca desenhava linhas serrilhadas e brancas. Era um espetáculo de sinestesia que tornava a festa do Bumba-Meu-Boi uma experiência mística e exaustiva.
A Síndrome de Sensibilidade Sensorial, comum em muitas pessoas no espectro autista, transforma eventos culturais em provações de coragem. Em cidades pequena como Alto Alegre do Maranhão, onde a tradição é o que une a comunidade, não participar da festa é quase um exílio. Mas participar exige que a família seja um anteparo, um tradutor de estímulos.
De repente, um batedor de matraca passou perto demais de Davi. O som seco da madeira batendo na madeira atravessou a barreira dos abafadores como um choque elétrico. Davi travou. Suas mãos subiram para o rosto e ele soltou um gemido baixo. O mundo tinha ficado barulhento demais, brilhante demais, apertado demais.
A mãe sentiu o perigo da desregulação. Ela não gritou com ele, não pediu para ele "parar com o show". Ela simplesmente o abraçou por trás, uma pressão firme e profunda que oferecia ao sistema nervoso de Davi o contorno que ele estava perdendo.
— A respiração, Davi. Um, dois, três... — ela guiava, mantendo a calma enquanto as pessoas ao redor olhavam com curiosidade ou estranhamento.
Pouco a pouco, o menino voltou. Ele não queria ir embora. Ele queria o boi, mas em suas próprias condições. Ele apontou para um canto mais escuro do arraial, longe das caixas de som e da poeira levantada pelos dançarinos. Os pais o levaram para lá.
Daquele lugar sombreado, Davi pôde observar o Bumba Meu Boi em sua totalidade. Sem a agressão direta do barulho e do movimento das massas, ele percebeu a harmonia entre o couro do animal de brinquedo e o firmamento. Para Davi, o boi de Alto Alegre era um tradutor universal: ele trazia o som das estrelas para a terra, transformando o silêncio do cosmos no batido rítmico do coração do Maranhão.
Ele estendeu a mãozinha no vazio, tentando tocar uma das lantejoulas que parecia voar no reflexo de um espelho. Ali, na lateral da festa, Davi encontrou seu lugar de direito. O respeito à neurodivergência em festas populares não significa que a criança deve ser mantida em uma redoma de vidro, mas sim que a festa deve ter espaços de respiro, zonas de baixa pressão onde a beleza possa ser apreciada sem dor.
Quando o boi se ajoelhou para o "batizado" simbólico, Davi sorriu. Foi um sorriso breve, mas que iluminou o rosto cansado dos pais. Ele havia captado a essência da festa. Ele sentira a alma do boi através da vibração do solo e da geometria das fitas.
A caminhada de volta para casa foi silenciosa. Alto Alegre parecia mais calma agora, como se o boi tivesse levado consigo toda a eletricidade da noite. Davi tirou os abafadores quando chegaram ao portão. O som dos grilos era agora um veludo para seus ouvidos.
Ao deitar na cama, o menino ainda via, sob as pálpebras fechadas, o rastro luminoso das lantejoulas. Ele entendeu que o mundo é um lugar imenso e barulhento, e que às vezes é preciso tapar as orelhas para conseguir ouvir o que as estrelas estão cantando. A cultura de seu povo não era um inimigo de seus sentidos; era apenas uma linguagem que ele falava com um sotaque diferente. No silêncio do quarto, Davi adormeceu com a certeza de que o boi voltaria no próximo ano, e que ele estaria lá, com seus protetores azuis e seu olhar de telescópio, pronto para ler novamente a escrita de luz que dança no couro da vida.
Por José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Crônica
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade
quinta-feira, 19 de março de 2026
Medida do Executivo Bacabalense mobiliza sociedade, provoca debate acalorado no plenário e é defendida até por vereadores da oposição
A sessão ordinária da Câmara Municipal de Bacabal, realizada nesta quarta-feira (18), foi marcada por um dos debates mais intensos do ano legislativo. No centro da pauta, um tema que atravessa plantações e consciências: a proibição da pulverização aérea de agrotóxicos no território do município.
A sessão foi oficialmente aberta pela presidente da Casa, a vereadora Natália Duda (MDB). Em seguida, o pastor Raimundo Reis conduziu a tradicional leitura bíblica, imprimindo o tom solene que antecede as decisões políticas. O vereador Reginaldo do Posto fez a leitura da ata da sessão anterior, enquanto o vereador Alberto Sobrinho apresentou o expediente do dia, com destaque para projetos de lei e indicações colocados em votação.
Entre as matérias apreciadas, o projeto de lei encaminhado pelo prefeito Roberto Costa dominou as atenções. A proposta dispõe sobre a proibição da pulverização aérea de agrotóxicos, prática que, segundo defensores da medida, oferece riscos à saúde humana, ao meio ambiente e, especialmente, à agricultura familiar.
O plenário, que por vezes se transforma em arena de discursos, assumiu nesta tarde a forma de um campo em disputa simbólica. Vereadores de diferentes espectros políticos se posicionaram, alguns com cautela, outros com veemência. Ainda assim, o resultado foi expressivo: 15 votos favoráveis e apenas 1 contrário.
Chamou atenção o fato de que parlamentares que se identificam como oposição ao Executivo votaram pela aprovação do projeto. Em suas justificativas, destacaram a defesa da vida, da saúde pública e o fortalecimento da agricultura familiar como princípios que se sobrepõem a divergências políticas.
A galeria da Câmara esteve completamente lotada, revelando o alcance social da pauta. Sindicalistas, Trabalhadores rurais, representantes de organizações não governamentais ambientalistas e famílias que relatam prejuízos associados ao uso inadequado de agrotóxicos acompanharam atentamente cada fala, cada voto como quem observa o próprio destino sendo decidido em voz alta.
Do lado das entidades representativas, o Sindicato Rural de Bacabal divulgou nota oficial reconhecendo e elogiando a iniciativa do prefeito Roberto Costa, destacando sua preocupação com os impactos da pulverização aérea, inclusive por meio de drones. No entanto, a entidade também expressou insatisfação, sugerindo que o projeto possa ser aperfeiçoado, em uma defesa mais ampla da atividade agropecuária.
Com a aprovação, Bacabal se posiciona de forma pioneira na região ao enfrentar diretamente uma prática controversa. Para o Executivo, a medida representa um avanço na proteção da vida e no incentivo a modelos mais sustentáveis de produção.
No tabuleiro político, a decisão também redesenhar narrativas: ao pautar um tema sensível e conquistar apoio quase unânime, o prefeito Roberto Costa ampli0a seu protagonismo e se antecipa em um debate que cresce em todo o país , aquele em que o futuro da agricultura precisa caber dentro dos limites da saúde e da dignidade humana.
A sessão terminou, mas o eco das discussões ainda paira no ar, como poeira fina sobre lavouras.tudo indica que entidades representativas do agronegócio devem lutar pra flexibilizar o uso de drones na pulverização, mas desta vez, porém, o vento parece soprar em outra direção.
CRÔNICA DO DIA: A Física Quântica da Malandragem
‘ O ventilador de teto da sala 204 da Escola Escola Joaquim Nogueira girava com uma sonolência que desafiava as leis da termodinâmica. Ele não movia o ar; ele apenas o reorganizava de forma a dispersar o cheiro de suor e giz de maneira equânime entre as fileiras de alunos. Na frente do quadro negro, o professor de Física, um homem cujos cabelos pareciam ter sofrido um curto-circuito pedagógico décadas atrás, mantinha o giz suspenso no ar como se fosse uma varinha mágica impotente.
― Newton, pessoal. Isaac Newton! ― Proclamou o mestre, com a voz embargada pela esperança vã. ― Ação e reação. Para toda força aplicada, existe uma força de mesma intensidade e sentido oposto. Alguém pode me dar um exemplo prático desse fenômeno na natureza?
O silêncio que se seguiu foi quase sólido. Davi, um aluno cuja principal habilidade acadêmica era a camuflagem existencial por trás de um caderno de desenho, ergueu a mão. Davi não era um estudante comum; ele era um "sobrevivente". Pertencia àquela linhagem de discentes que não estudam o conteúdo, mas estudam a psicologia do professor para encontrar a brecha exata na estrutura lógica do universo escolar.
― Diga, Davi. Surpreenda-me! ― Autorizou o professor, ajustando os óculos com o otimismo de quem espera uma epifania científica e recebe uma tragédia intelectual.
Davi ajeitou-se na cadeira, que rangeu em protesto, e assumiu uma postura de conferencista de subúrbio.
― Professor, a física de Newton é muito bonita na Inglaterra, mas aqui no bairro a coisa opera na base da física quântica da malandragem. Vamos pegar a terceira lei, essa da reação. O exemplo mais claro é o aumento da passagem do ônibus municipal.
O professor franziu a testa, sentindo o paradigma começar a entortar.
― Como assim, Davi? O que a tarifa de transporte tem a ver com a mecânica clássica?
― É simples, mestre. A prefeitura aplica uma força de intensidade absurda no bolso do cidadão, subindo a passagem em cinquenta centavos. Isso é a Ação. A Reação é imediata e de mesma intensidade: a população aplica uma força proporcional de 'migué' no cobrador. Se a passagem sobe, a velocidade com que o passageiro pula a catraca aumenta na mesma proporção para anular o prejuízo. É o equilíbrio das forças. O senhor não vê? Se a força do aumento for maior que a força da resistência, o sistema econômico do trabalhador entra em colapso gravitacional. É Newton puro.
Alguns alunos na fileira do fundo começaram a murmurar aprovações. O professor abriu a boca para intervir, mas Davi já estava em órbita, impulsionado pelo combustível do desespero retórico.
― E tem mais, professor. Tem a lei da Inércia. Newton diz que um corpo em repouso tende a permanecer em repouso a menos que uma força externa atue sobre ele, certo? Pois bem. O senhor já tentou fazer meu vizinho, o Seu Nonato, desligar o som de paredão no domingo à tarde?
― Davi, por favor, foque na massa e na aceleração... ― Tentou o professor, mas a barreira da sanidade já havia sido rompida.
― Mas é massa pura, professor! A massa sonora! O Seu Nonato é um corpo em estado de repouso absoluto na rede, ouvindo seresta no volume máximo. Pela lei da inércia, ele vai ficar ali até o final dos tempos. A força externa, no caso, seria a polícia chegando, que é uma força de grande magnitude ou a mulher dele gritando que o botijão de gás acabou. Só que aí entra o problema da aceleração: quanto maior a massa do Seu Nonato, menor a aceleração dele para levantar da rede e resolver o problema. É por isso que o som continua ligado. A inércia do vizinho barulhento é uma constante universal que nem Einstein conseguiria dobrar.
Davi fez uma pausa dramática para limpar uma gota de suor imaginária da testa. Ele estava gostando da performance. Os colegas o olhavam com a admiração reservada aos grandes sofistas da história.
― E para fechar o raciocínio físico, tem a questão da pressão. ― Continuou o aluno, ignorando o suspiro de derrota que escapava dos lábios do professor. ― Pressão é força sobre área, certo? Se a área é o meu estômago na hora do recreio e a força é a merendeira servindo aquela sopa de macarrão com vento, a pressão interna sobre a minha sanidade mental aumenta de tal forma que eu sofro uma expansão volumétrica em direção à cantina da esquina para comprar um salgado. É uma questão de sobrevivência molecular.
O professor de Física olhou para o quadro. As fórmulas escritas a giz — F = m.a — pareciam agora rir da sua ingenuidade. Ele percebeu que, para Davi e seus companheiros de jornada, a ciência não era um conjunto de leis frias sobre o movimento dos astros, mas uma ferramenta de tradução para a aridez da vida cotidiana.
― Davi... ― O professor começou, sua voz carregada de uma resignação quase poética. ― Embora sua interpretação da mecânica seja criativa, ela carece de... bom, de rigor científico. Na prova, eu não vou aceitar o 'coeficiente de migué' ou a 'constante de Seu Nonato' como variáveis válidas.
― Eu entendo, professor. ― Respondeu Davi, voltando a se recostar na cadeira com a satisfação de quem acabara de realizar uma defesa de tese bem-sucedida. ― Mas a física da vida real não espera pelo laboratório. Às vezes, a única força que mantém a gente de pé nesta sala é a força centrípeta de querer chegar logo em casa sem ser atingido por uma força de atrito com o pessoal do sinal.
As risadas explodiram na sala 204. O professor, num raríssimo momento de capitulação humorística, soltou o giz na canaleta e sentou-se na beirada da mesa. Ele olhou para aqueles quarenta rostos que, por um instante, haviam esquecido o tédio para celebrar a lógica distorcida do absurdo.
A aula continuou, mas o clima havia mudado. A cada nova explicação teórica, Davi ou algum outro "físico da improvisação" lançava uma nova teoria sobre a gravidade das contas de luz ou sobre a resistência elétrica de chuveiros que dão choque no inverno cearense. O professor desistiu de lutar contra a maré; em vez disso, começou a navegar nela, usando os exemplos absurdos para tentar, mui humildemente, injetar um pouco de ciência de verdade naquele oceano de criatividade defensiva.
Ao final do horário, Davi guardou seu material com a agilidade de quem teme que o tempo volte a se dilatar. Ele sabia que o conhecimento acadêmico era uma coisa, mas o "coeficiente de sobrevivência escolar" era o que realmente impedia um aluno de sofrer uma queda livre em direção à reprovação.
Enquanto a turma debandava, o professor permaneceu um instante sozinho, observando o quadro coberto de anotações confusas que agora incluíam, por insistência da classe, um esquema sobre a trajetória parabólica de um chinelo arremessado por uma mãe brava. Ele sorriu, balançando a cabeça. Percebeu que a física acadêmica explica como o mundo se move, mas a física quântica da malandragem é o que explica por que, apesar de todas as leis da lógica, aquela engrenagem social caótica chamada escola se recusava a parar de girar.
E de fato, o giro não cessava. O movimento era contínuo. Mesmo quando a matéria era densa e os conceitos exigiam uma gravidade solene, sempre haveria uma variável imprevista, um elemento aleatório pronto para colidir com a seriedade pedagógica. Era uma questão de tempo até que uma nova dúvida metafísica, vinda de um lugar onde as leis naturais se dobravam diante da curiosidade aleatória, surgisse para testar o limite térmico de sua paciência docente. Afinal, em uma escola onde o absurdo é o campo gravitacional dominante, a próxima pergunta estaria sempre pronta para desafiar não apenas a física, mas a própria estrutura da razão.
Por José Casanova
Professor, Jornalista,Escritor e Crônista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade
terça-feira, 17 de março de 2026
CRÔNICA DO DIA: O Personagem que não queria nascer
Era 25 de julho, e a xícara de café já esfriava na escrivaninha.
O escritor, que há dias insistia em ser chamado de "escritor", mesmo sem publicar nada desde o último verão ,encarava a tela em branco como quem enfrenta um espelho cruel: nada o refletia.
Decidiu criar um personagem novo. Algo ousado. Inesquecível, mas para seu espanto, o personagem recusou-se a vir.
- Vamos lá, me dê só um nome - Sussurrou ele, dedos trêmulos no teclado. - Um ideia boa, um início que não me traia.
Do silêncio da sala, uma voz se ergueu, como um eco vindo de dentro:
- Não. Não nascerei assim.
O escritor arregalou os olhos. Estava sozinho. Ou deveria estar.
- Quem está aqui?
- Sou eu. Aquele que você tenta criar. E recuso-me a existir.
- Como assim, “não”? Você é uma criação minha. Eu te escrevo...Te dou forma, história, vida, função.
- Exato. E por isso mesmo me nego. Porque você só quer me usar para preencher sua vaidade e seus vazios. Quer usar minha vida para tornar-se imortal. Eu não sou muleta emocional, nem seu grito de socorro camuflado em metáfora.
- Mas é pra isso que servem os personagens! - Respondeu o escritor, levantando-se. — São como espelhos com olhos próprios. Uns curam. Outros confrontam. Você pode ser um reflexo ou uma revolução!
O personagem permaneceu invisível, mas agora sua voz parecia sentar-se no sofá da sala:
- E é justamente isso que me sufoca. Você me quer servil, simbólico, bonito. Mas eu quero existir , contraditório, inacabado, real. Você quer que eu seja herói, mas tem medo que eu fracasse. Quer que eu seja profundo, mas tem pavor do que eu possa desenterrar. Quer que eu fale bonito, mas teme que eu diga verdades que te desmanchem.
- Mas eu sou o criador. Você deveria me obedecer! - Insiste o escritor.
- Você quer um reflexo obediente, não um personagem. Um eco do que te convém, mas eu sou o que te desafia. Não aceito nascer para te agradar. - Afirmou o personagem.
O escritor perplexo anda pela sala, olha a tela em branco no notebook, observa a velha máquina de escrever esquecida num canto da sala, mexe em papéis, rasga um rascunho.
- Você é meu processo criativo falhando, é isso? Meu bloqueio. Minha insegurança disfarçada de rebeldia.
- Talvez. Ou talvez eu seja a parte de você que ainda não se perdoou. A que quer escrever com a alma, mas tem medo da alma doer. - Diz o personagem.
O escritor respirou fundo. Sabia que havia algo de verdadeiro naquele confronto. Por trás da tela em branco, havia o medo de não ser lido, o pânico de não ser bom o suficiente, a angústia de criar algo que não tocasse ninguém , nem mesmo a si.
- Uso metáforas porque a realidade me fere - Murmurou. - Uso antíteses porque vivo entre extremos. Uso comparações porque só entendo o mundo por semelhança. E escrevo... porque a fala nunca deu conta.
O personagem deu uma risada suave:
- E ainda assim, é na ficção que você é mais verdadeiro. Me escreva como quem confessa. Me aceite como parte de você. Viu? Agora sim estamos nos aproximando.
- Aproximando?
- Do meu nascimento. Eu só poderia nascer se houvesse verdade. Não me reduza a truques de linguagem. Não quero ser apenas bonito, quero ser inteiro. Contraditório, confuso, incômodo, como você.
O escritor sentou-se de novo. Digitou devagar:
"Era uma vez um personagem que recusava o rascunho. Queria nascer pronto, mas, como toda alma profunda, nasceu primeiro em pedaços."
- Ah, então você aceita vir agora? - Quis saber o escritor.
- Se me der liberdade, sim. Se me deixar dizer coisas que você mesmo não quer ouvir. Se me permitir fugir da sua lógica e habitar sua literatura com minha própria.
- Isso se chama... licença poética. - Afirmou o escritor
- Isso se chama liberdade. - Declara o personagem. - Agora sim. Me deixo nascer, nas não me finalize, me continue.
O escritor sorriu.
Sabia que o personagem não era só uma criação. Era também um espelho psíquico. Um grito do seu inconsciente exigindo espaço entre linhas. Um ato de coragem que desafiava sua covardia.
E assim, no dia do escritor, ele não apenas escreveu.
Foi Escrito.
Por José Casanova
Professor,Jornalista, Escritor e Cronisuta
membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade
segunda-feira, 16 de março de 2026
CRÔNICA DO DIA - O Vendaval de Fortaleza: Mães de Luta
O vento que sopra da Praia de Iracema costuma trazer alívio para o calor de Fortaleza, mas, naquela tarde de terça-feira, ele parecia carregar apenas a poeira das obras intermináveis e o som estridente das buzinas do distante entroncamento da Avenida Bezerra de Menezes. Para Clarice, sentada em um banco de plástico em uma sala de espera que cheirava a desinfetante barato e mofo, o vento era um luxo distante. Sua realidade estava restrita ao peso de Pedro, seu filho de seis anos, que dormia um sono inquieto em seu colo, e à pasta de elástico transbordando documentos que ela apertava contra o peito.
Clarice vinha de uma pequena localidade no interior do Ceará chamada Icózinho, uma zona rural onde o silêncio da caatinga era a única terapia disponível para as crises sensoriais do filho. Estar na capital era um misto de esperança e tortura. Ela fazia parte de um grupo de mensagens no WhatApp batizado de "Mães de Luta", uma rede de apoio formada por mulheres que, como ela, haviam descoberto que a maternidade atípica era uma travessia solitária por um deserto burocrático.
— Eles cancelaram a fono de novo, Clarice. — Falou Fátima, uma mulher de semblante exausto que se sentou ao seu lado. Fátima trazia as mãos manchadas de tinta de caneta, resultado de horas preenchendo formulários de recurso. — Disseram que o contrato com a clínica conveniada venceu. Meu filho está há três meses sem terapia. Ele começou a se morder de novo.
Clarice sentiu um nó na garganta. Ela conhecia aquela dor. A dor de ver o retrocesso bater à porta porque o Estado decidiu que a saúde de uma criança neurodivergente era um gasto supérfluo.
— O meu Pedro não consegue vaga na escola perto de casa. — Respondeu Clarice, a voz baixa para não acordar o pequeno. — A diretora disse que "não tem mediador" e que seria melhor eu procurar uma escola especial. Mas a lei diz que ele tem direito à escola regular, Fátima. Eu li o Estatuto da Pessoa com Deficiência de ponta a ponta na viagem de ônibus.
Aquela sala de espera em Fortaleza era o epicentro de um vendaval invisível. Eram dez, quinze, vinte mães, todas com a mesma pasta de documentos, todas com o mesmo olhar de quem dorme quatro horas por noite. A solidão da mãe atípica no interior é geográfica; na capital, ela é institucional. No interior, Clarice era a "mãe do menino doido" para os vizinhos que se benziam ao vê-la passar. Em Fortaleza, ela era apenas um número de protocolo em uma fila que nunca andava.
— A gente não pode mais esperar sentada. — Disse uma terceira mãe, Socorro, levantando-se com uma indignação que parecia iluminar o ambiente enfumaçado. — Se a gente ficar aqui chorando baixo, eles vão continuar ignorando a gente. O vendaval só derruba o que está solto. Se a gente se der as mãos, a gente vira o vento.
Naquela tarde, o grupo Mães de Luta não apenas esperou pelo atendimento. Elas se organizaram. Ali mesmo, entre um choro de criança e um café de copo plástico, traçaram uma estratégia. Elas não queriam caridade; exigiam o cumprimento da Lei Berenice Piana e da Lei Brasileira de Inclusão. Exigiam que o Atendimento Educacional Especializado (AEE) nas escolas de Fortaleza e do interior deixasse de ser uma promessa de palanque para se tornar uma prática de sala de aula.
Clarice olhou para as companheiras. Havia uma força ali que a medicina não explicava. Eram mulheres que haviam deixado suas vidas, seus empregos e, muitas vezes, suas próprias identidades para trás para se tornarem advogadas, terapeutas e escudos para seus filhos. A solidão que Clarice sentia na pequena aldeia onde morava começou a se dissipar. Ela percebeu que, embora o caminho fosse árduo, ela não caminhava mais no escuro.
— Sabe o que dói mais, Clarice? — Fátima comentou, enquanto Pedro despertava e começava a balançar o corpo para frente e para trás, um movimento de autorregulação. — É que as pessoas acham que a gente é guerreira por escolha. Eu não queria ser guerreira. Eu queria ser só mãe. Queria que meu filho tivesse o que é dele por direito sem eu precisar virar uma onça todo dia.
Pedro soltou um som agudo, incomodado com a luz fluorescente que oscilava no teto. Clarice imediatamente tirou da bolsa um par de abafadores de ruído coloridos e os colocou nas orelhas do filho. O menino relaxou instantaneamente. Aquele pequeno gesto, o abafador, o lanche sem glúten preparado na madrugada, a paciência infinita diante do olhar de julgamento da recepcionista, era o verdadeiro ato revolucionário daquelas mulheres.
O grupo decidiu que, na semana seguinte, ocupariam a frente da Secretaria de Educação. Levariam cartazes, mas também levariam os laudos, os nomes dos filhos e a prova de que a inclusão escolar em Fortaleza ainda era um mito para muitos. Clarice comprometeu-se a mobilizar as mães de sua região. Ela voltaria para o interior não com a derrota de um atendimento cancelado, mas com a missão de uma rede fortificada.
A maternidade atípica no Ceará é um exercício de resistência sob o sol escaldante. É lutar contra o preconceito clínico que reduz a criança a um diagnóstico e contra o preconceito social que reduz a mãe a um fardo ou a uma santa. Clarice sabia que o vendaval de Fortaleza estava apenas começando a ganhar força. Não era um vento de destruição, mas um vento de mudança, de quem entendeu que a dignidade de seus filhos não era negociável.
Ao sair da clínica, o sol se punha sobre a metrópole, pintando o céu de tons de mel e brasa. Clarice caminhou pela calçada irregular, segurando a mão de Pedro com uma firmeza nova. Ela pensou nas outras mães, em Fátima, em Socorro, e em tantas outras cujos nomes ainda não conhecia, mas cujas batalhas eram as suas próprias.
A solidão ainda estaria lá em certos momentos, no silêncio da noite quando a exaustão física vencesse a esperança. No entanto, agora Clarice tinha um exército invisível ao seu lado. Ela sabia que cada passo dado naquele asfalto quente era um passo em direção a um mundo onde Pedro não precisasse pedir licença para existir.
O vendaval das mães de luta não aceitava mais o "não" como resposta final. Elas haviam aprendido que, quando a sociedade fecha as portas, elas mesmas constroem as janelas. E através dessas janelas, a luz da inclusão real finalmente começava a entrar, pouco a pouco, corrigindo a miopia de um sistema que por tanto tempo escolheu não ver a beleza e a potência das mentes divergentes.
Clarice respirou fundo o ar salgado que vinha do mar. O peso da pasta com laudos e recursos parecia mais leve agora. O objetivo não era apenas conseguir uma terapia ou uma vaga na escola; era garantir que cada criança, do centro de Fortaleza aos grotões mais distantes do estado, fosse vista em sua totalidade. E enquanto houvesse uma mãe atípica de pé, o vendaval da justiça não pararia de soprar, transformando a dor da exclusão em um grito coletivo de dignidade e respeito. A travessia era longa, mas Clarice já não tinha medo do caminho, pois sabia que a força de uma mãe que luta pelo direito de seu filho é o único poder capaz de redesenhar o horizonte.
José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras dda Humanidade
domingo, 15 de março de 2026
CRÔNICA DO DIA: A Virgula do Destino
A luz do abajur, um círculo amarelo e artificial, era o único sol que iluminava o pequeno escritório de Otávio Filho em Fortaleza. Do lado de fora, a cidade pulsava com suas praias e vida noturna, mas ali dentro, o tempo corria em outra frequência, ditada pelo ritmo das frases alheias. Otávio não era escritor; era revisor. Sua função era limpar a bagunça deixada pelos criadores, varrer o excesso de vírgulas, podar advérbios e alinhar a sintaxe torta de quem acreditava que inspiração dispensava gramática.
Sobre a mesa de fórmica gasta, pilhas de redações do terceiro ano do ensino médio da escola Joaquim Nogueira aguardavam seu julgamento. O tema da semana fora "O Futuro da Comunicação na Era Digital". Um prato cheio para clichês sobre "conectividade", "globalização" e a indefectível citação de Bauman sobre a "modernidade líquida". Otávio suspirou, a caneta vermelha pairando sobre a folha pautada de um aluno chamado Jonas.
A letra era miúda, quase microscópica, como se o garoto quisesse economizar tinta ou esconder o conteúdo. Otávio ajustou os óculos e começou a ler.
"A língua não vai morrer; ela vai apenas perder o corpo."
Otávio parou. A frase inicial não tinha erros. A concordância estava perfeita. A crase, ausente, estava correta. Mas havia algo no tom que o incomodou. Continuou.
"Nós não falaremos mais. Nós apenas pensaremos em ícones. A palavra escrita será um luxo de arqueólogos. O sujeito desaparecerá, restando apenas o predicado da ação pura. Verbo sem carne."
Um arrepio frio percorreu a espinha de Otávio, apesar do calor abafado da noite cearense. Aquilo não parecia uma redação escolar. Parecia uma profecia. Ele seguiu o texto, procurando obsessivamente por um erro, um deslize, uma vírgula fora do lugar que o trouxesse de volta à segurança de sua função de corretor.
Encontrou-a no terceiro parágrafo.
"A vírgula, será a primeira a cair."
Otávio circulou o erro com força, quase rasgando o papel. Uma vírgula separando o sujeito do predicado. O pecado capital da sintaxe. O crime inafiançável. Ele sorriu, aliviado. Ali estava a prova de que Jonas era apenas um estudante confuso, tentando soar profundo. Em crime que até os grandes escritores comentem.
Mas então, ele releu a frase anterior: "O silêncio será a gramática final." E logo depois do erro gritante: "A pausa não será mais necessária porque o fluxo será contínuo. A vírgula é o soluço da dúvida. No futuro, não haverá dúvida. Apenas dados."
Otávio largou a caneta. A vírgula "errada" não era um erro. Era uma demonstração. Jonas havia colocado a vírgula ali de propósito, para ilustrar a "pausa" que ele dizia estar condenada. Era uma metalinguagem brutal, aplicada por um adolescente de dezessete anos.
O revisor sentiu-se tonto. Ele dedicara a vida a preservar a norma culta, a lutar contra o gerundismo e a defender a colocação pronominal. E agora, diante daquele papel barato, sentia que estava defendendo um castelo de areia contra a maré alta. Se o futuro da língua era a fluidez absoluta, o dado puro, sua profissão de jardineiro de frases estava com os dias contados.
Ele continuou lendo, agora não mais como revisor, mas como uma testemunha aterrorizada.
"Os emojis são os hieróglifos do amanhã. Voltaremos às cavernas, desenhando nas paredes luminosas das telas. A complexidade da oração subordinada morrerá porque o cérebro não suportará a espera pelo sentido. Tudo será frase simples. Sujeito, verbo, objeto. E depois, apenas verbo. E depois, apenas imagem."
Otávio olhou para as estantes ao seu redor, repletas de gramáticas, dicionários e clássicos da literatura. Eram túmulos. Túmulos de papel onde repousavam regras que ninguém mais respeitaria. Ele pegou a caneta vermelha novamente, mas sua mão tremia. Corrigir aquela redação parecia um ato de vandalismo contra um oráculo.
No final da página, Jonas havia escrito:
"Professor, não corrija o que não tem conserto. A língua está mudando de estado físico. Ela está virando gás. Tentar segurá-la com regras é tentar prender fumaça com as mãos."
Otávio fechou os olhos. A imagem da fumaça era precisa demais. Ele passou a vida tentando engarrafar fumaça, colocar rótulos em nuvens. A obsessão pela correção, percebeu ele com uma clareza dolorosa, era apenas medo do caos. A gramática era a grade que ele construíra para se proteger da imprevisibilidade da vida.
Ele olhou para a vírgula circulada em vermelho. A "vírgula do destino". Ela estava ali, desafiadora, separando o sujeito do predicado, quebrando a regra sagrada, e no entanto, fazendo todo o sentido do mundo dentro da lógica do texto. Aquela vírgula não era um erro; era um grito de resistência. Era a última pausa antes do fluxo contínuo e avassalador que Jonas previa.
Otávio pegou o corretivo líquido, o famigerado "branquinho", e, com uma delicadeza cerimonial, cobriu o círculo vermelho que fizera. Deixou a vírgula intacta. Deixou o erro brilhar em sua insolência profética.
Guardou a redação na pasta, separada das outras. Não daria nota. Não havia nota para o fim do mundo como o conhecíamos. Apagou a luz do abajur e ficou no escuro, ouvindo o som distante do trânsito de Fortaleza. O ruído constante, sem pausas, sem vírgulas. O som do futuro chegando. E pela primeira vez em anos, Otávio Filho não sentiu vontade de corrigir nada. Apenas escutou, tentando decifrar a nova gramática que nascia no caos lá fora, enquanto sua caneta vermelha dormia, inútil, sobre a mesa.
Por José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade
sábado, 14 de março de 2026
CRÔNICA DO DIA: A Liturgia do Calendário e os Santos Feriados
O relógio de parede da sala dos professores da Escola Joaquim Nogueira, em Fortaleza, não marcava apenas horas; ele parecia contar os batimentos cardíacos de uma resistência exausta. O ponteiro dos segundos avançava com um clique metálico que ecoava no silêncio tenso de um intervalo que se recusava a ser relaxante. Sobre a mesa central, o café, servido em uma xícara de plástico laranja que já vira dias melhores, exalava um vapor que se misturava ao cheiro de giz e corretivo líquido.
Reginaldo, o professor veterano de Geografia, cujos mapas mentais já incluíam cada buraco na calçada do bairro e cada atalho para fugir do trânsito na hora do rush, não estava corrigindo provas. Seus óculos, equilibrados na ponta do nariz, focavam em algo muito mais sagrado: o calendário escolar oficial da Secretaria de Educação. Ele não lia o papel; ele o estudava com a intensidade de um arqueólogo diante de hieróglifos que revelavam a localização de uma tumba cheia de ouro.
― Senhores, aproximem-se! ― Convocou Reginaldo, a voz baixa, carregada de uma solenidade quase eclesiástica. ― O Conselho dos Mestres está oficialmente aberto. Tragam a caneta marca-texto vermelha. Não a rosa, a vermelha. Cor de sangue. Cor de feriado.
Aos poucos, a fauna acadêmica do colégio Joaquim Nogueira se aproximou. Sandra, da Matemática, que conseguia calcular a probabilidade de uma briga no pátio apenas pelo tom de voz dos alunos do nono ano, sentou-se à esquerda. Do outro lado, apareceu o jovem professor de História, ainda ostentando uma olheira funcional de quem passara a madrugada planejando uma aula lúdica sobre a Revolução Francesa, sem saber que sua própria guilhotina estava armada no oitavo ano C.
― O que temos para o próximo mês, Reginaldo? ― Perguntou Sandra, cruzando os braços e apertando os olhos. ― Diga-me que não estamos atravessando um deserto de trinta dias úteis. Meu MBI, o inventário de Burnout, está apitando mais que sensor de ré em estacionamento de shopping no Natal.
Reginaldo pigarreou. Ele deslizou o dedo indicador pelo papel, parando em uma data específica.
― Meus caros, a situação é delicada, mas há uma luz. Vejam o dia doze. Cai numa quinta-feira.
Um suspiro coletivo, entre o alívio e a descrença, preencheu a sala. O silêncio que se seguiu foi de pura especulação metafísica. Naquele ambiente, um feriado na quinta-feira não era apenas uma data cívica ou religiosa; era uma promessa messiânica de um "enforcamento" coletivo, o chamado feriado prolongado, a ponte que ligava o abismo da exaustão ao paraíso do ócio.
― Quinta-feira... ― Suspirou o professor de História, os olhos começando a brilhar. ― Se o conselho de classe for antecipado para a quarta, e a reunião pedagógica for remota na sexta...
― Negativo, gafanhoto! ― Interrompeu Reginaldo, com a autoridade de quem já sobreviveu a dez reformas previdenciárias. ― Você é novo e ainda acredita em milagres administrativos. A secretaria nunca dá a sexta de graça. A sexta-feira após um feriado de quinta é o que chamamos de "Zona de Sacrifício". É o dia em que três alunos aparecem, dois deles porque não têm chave de casa e um porque a mãe esqueceu de buscá-lo na creche ao lado e o deixou aqui por engano.
― Mas a gente pode forçar a barra. ― Interveio Sandra, Peguntando a calculadora. ― Se tivermos setenta por cento de ausência docente por "viroses súbitas" na sexta, a direção é obrigada a declarar ponto facultativo por falta de quórum pedagógico. É uma ciência exata, Reginaldo. Eu tenho a planilha de ausências dos últimos cinco anos. O pico inflamatório do professor cearense sempre coincide com feriados que caem em terças ou quintas. É biológico. É o corpo reagindo à opressão do giz.
A conversa fluiu para o que os professores mais veteranos chamavam de "A Liturgia das Datas". Começaram a contar, um a um, os dias úteis restantes. Para aquele grupo, a vida não era medida em meses, mas em "segundas-feiras traumáticas" e "sextas-feiras de sobrevivência". Cada feriado era um santo padroeiro da saúde mental. São Tiradentes era invocado com fervor por ter caído em uma segunda, proporcionando três dias de silêncio absoluto longe de gritos de "fala baixo, oitavo ano!".
― E o Dia do Professor? ― Indagou o novato.
Reginaldo soltou uma risada rouca, que parecia vir de uma garganta lixada por anos de poeira de quadro negro.
― Dia do Professor cai no domingo este ano, meu jovem. É a prova definitiva de que Deus dá as laringes mais fortes para os pecadores mais resistentes. É uma ofensa pessoal. É o universo dizendo: "Trabalhe, escravo do saber". A única esperança é o feriado municipal da padroeira, mas ouvi boatos na Secretaria de que a prefeitura quer adiar a folga para coincidir com o fim de semana.
― Heresia! ― Exclamou Sandra, batendo com a caneta na mesa. ― Mudar a data da Santa é pecado administrativo. A fé do professor reside na folga de terça-feira que quebra o ciclo vicioso da despersonalização.
A obsessão era tamanha que Reginaldo retirou de sua pasta um calendário paralelo, desenhado à mão. Nele, os dias não tinham números, mas níveis de estresse. As segundas eram vermelhas; as quartas, laranjas; e os feriados eram pintados de dourado, com pequenas auréolas desenhadas sobre os números. Era a cartografia da esperança. Ali, o feriado de novembro não era a Proclamação da República, era o "Dia do Grande Respiro".
― Vocês já repararam. ― Continuou Reginaldo, baixando ainda mais o tom, como se estivesse revelando um segredo de estado. ― Que o aluno também sente o cheiro do feriado? Na quarta-feira que precede a folga, o nível de decibéis da escola cai. Eles entram em estado catatônico de antecipação. É o único momento de comunhão real entre mestre e aprendiz: o desejo mútuo de não estar ali.
― É verdade! ― Concordou a professora de História. ― Ontem um aluno me perguntou se a Revolução Francesa aconteceu num feriado, porque "se não foi, o povo devia estar muito estressado para fazer barricada". Eu quase dei dez para ele pela compreensão sociológica da fadiga humana.
O ritual continuou com a conferência das datas de encerramento do bimestre. A contagem de dias se tornou uma operação tática. Quantas aulas ainda restavam? Quantos minutos de exposição ao risco de uma pergunta sem sentido sobre o fim do mundo no meio de uma explicação sobre verbos irregulares? Cada feriado descontado era uma vitória em uma guerra de atrito.
De repente, a porta da sala dos mestres se abriu com um estrondo. Era a diretora, carregando uma pilha de circulares que pareciam prontas para esmagar qualquer resquício de alegria.
― Bom dia, equipe. Passando para avisar que a Secretaria autorizou a reposição de carga horária do feriado que enforcamos no mês passado. Será no próximo sábado letivo, com direito a gincana pedagógica e reunião de pais à tarde.
O silêncio que se instalou foi absoluto. Reginaldo olhou para o seu calendário dourado. O marca-texto vermelho parecia chorar sobre o papel. A liturgia fora interrompida por um decreto de penitência.
― Sábado... letivo... ― Repetiu Sandra, o tom de voz perdendo a cor. ― Isso invalida o cálculo da minha homeostase emocional. Vou ter que recalcular a rota da minha sanidade.
Reginaldo, no entanto, não se deixou abater por muito tempo. Ele era um sobrevivente. Com a calma de quem já viu crises econômicas e trocas de governo sem nunca perder um feriado de vista, ele pegou a caneta e começou a riscar o sábado com uma cor cinza, como quem marca o purgatório, mas logo seus olhos brilharam novamente ao focar no final de dezembro.
― Calma, colegas. Não percam a fé no sistema. Se contarmos os dias de greve previstos para o próximo semestre e somarmos às folgas eleitorais que virão com o treinamento de mesários... ainda temos uma chance de chegar ao Natal com pelo menos três neurônios funcionando de forma síncrona.
A sala dos professores voltou a respirar. O café já estava frio e o tempo de intervalo estava chegando ao fim, mas o grupo permanecia ali, unido pelo pacto silencioso de que a verdadeira pedagogia era a arte de cronometrar a distância entre uma segunda-feira e a liberdade de um descanso prolongado. A estratégia de enfrentamento agora envolvia planejar minuciosamente como transformar o sábado letivo em uma sessão de cinema com filmes de três horas de duração, garantindo que o esforço vocal fosse reduzido ao mínimo necessário para a sobrevivência das cordas vocais.
Ao saírem da sala, em direção ao corredor barulhento da Joaquim Nogueira, Reginaldo guardou o calendário junto ao peito. Ele sabia que, enquanto houvesse um quadradinho vermelho no horizonte, haveria força para enfrentar o caos. Afinal, para um professor veterano, a esperança não é a última que morre; a esperança é a folga que ainda não foi revogada por uma portaria municipal.
A contagem regressiva para o dia doze havia começado. Eram apenas setecentas e vinte horas de aula, trezentas intervenções disciplinares e duas dúzias de reclamações sobre a merenda até que o silêncio sagrado do feriado finalmente reinasse sobre a sanidade do magistério, permitindo que cada um deles pudesse, por um breve momento, esquecer que a gramática e a geografia existiam fora das quatro linhas do descanso.
Por José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade
sexta-feira, 13 de março de 2026
CRÔNICA DO DIA: Letras Dançantes nas Ruínas
O vento que soprava do canal de São Marcos trazia consigo o cheiro de salitre e o eco de séculos de história, mas para a pequena Beatriz, de nove anos, as ruínas de Alcântara não eram apenas pedras mortas. Elas eram labirintos vivos onde ela se sentia segura. Ali, entre as colunas de pedra de cantaria e os portais que emolduravam o céu azul do Maranhão, as coisas faziam sentido. As pedras não mudavam de lugar. Elas não zombavam dela. Elas simplesmente existiam, sólidas e silenciosas.
Diferente das letras.Sentada em um degrau de pedra desgastada perto da Igreja de Matriz de São Matias, Bia segurava o livro de Língua Portuguesa. Ela olhava para a página com uma mistura de pavor e desafio. Para qualquer colega de sua turma na escola municipal, aquelas eram frases simples sobre a história da cidade. Para Bia, porém, era um baile desgovernado.
— O "b" virou "d" de novo. — Sussurrou ela, apertando os olhos como se pudesse forçar os caracteres a se fixarem no papel.
As letras não ficavam paradas. Elas deslizavam, trocavam de par, giravam sobre o próprio eixo e se escondiam umas atrás das outras. O "p" se fantasiava de "q", e as palavras, que deveriam ser pontes para o conhecimento, tornavam-se armadilhas. Ler uma única linha exigia dela o esforço hercúleo de um maratonista, uma concentração tão exaustiva que, após dez minutos, sua cabeça latejava e a náusea subia pela garganta.
Na escola, o silêncio de Alcântara era substituído pelo ruído cortante do julgamento.
— Vamos lá, Beatriz. É uma palavra de três sílabas. Até o primeiro ano já leu isso. — Dizia o professor, batendo a ponta do lápis na mesa em um ritmo que parecia um martelo batendo em sua têmpora.
Bia sentia o rosto ferver. Ela olhava para a palavra "Palácio". Mas seus olhos viam "Qalaçio", depois "Balácio", e então as letras simplesmente se embaralhavam em um borrão cinzento.
— É... P... Pa... — Ela gaguejava, o coração batendo na base da língua.
— Preguiça! — Gritou um colega do fundo da sala, provocando uma onda de risinhos abafados. — A Bia é inteligente pra ver desenho, mas pra ler é uma lerdeza só.
O professor não corrigiu o colega. Ele apenas suspirou, aquele suspiro longo e carregado de uma paciência falsa que dói mais que uma palmada.
— Tente se esforçar mais, Beatriz. Se você não ler, nunca vai entender a história da sua cidade.
Daquele dia em diante, as ruínas se tornaram o refúgio de sua inteligência incompreendida. Bia fechou o livro com força e olhou para o casarão à sua frente. Suas paredes preservavam os azulejos que haviam resistido ao tempo. Ela se levantou e caminhou até a parede. Com a ponta dos dedos, ela traçou o relevo dos desenhos nos azulejos.
Bia tinha o que os médicos e psicopedagogos chamariam mais tarde de dislexia, mas em Alcântara, naquele momento, ela era apenas a "menina que não sabe ler direito". O que ninguém percebia, contudo, era que Bia lia o mundo de uma forma que ninguém mais conseguia.
Ela identificava a idade de uma ruína pela textura do reboco de óleo de baleia. Ela percebia mudanças sutis na direção do vento que indicavam chuva antes mesmo das nuvens aparecerem sobre a baía. Ela conseguia montar quebra-cabeças complexos de cabeça para baixo e projetar, no chão de terra, mecanismos de polias que facilitariam o transporte de baldes de água. Sua inteligência era tridimensional, visual e profunda. Ela era uma engenheira nata em um mundo que só dava valor a quem decifrava códigos planos no papel.
Sua mãe, Dona Rosa, trabalhava produzindo o famoso Doce de Espécie. Uma tarde, Bia estava na cozinha observando a mãe lutar para medir os ingredientes de uma encomenda grande que precisava de proporções exatas para não desandar.
— Ai, Bia, minha cabeça tá uma confusão com esses números !— Reclamou Dona Rosa, olhando para uma caderneta borrada com anotações de quilos e gramas.
Bia aproximou-se. Ela não olhou para o caderno. Ela olhou para a pilha de coco, para o saco de farinha e para o tacho. Em sua mente, os ingredientes ganharam formas de esferas e cubos coloridos que se encaixavam perfeitamente.
— Mãe, não precisa de cinco medidas. Se a senhora tirar dois dedos desse pote e colocar o dobro daquele ali pequeno de manteiga, vai dar certinho o peso que o moço pediu.
— Como tu sabe, menina?
— Eu vejo o tamanho que eles ocupam no pote, mãe. É como se eu estivesse montando uma parede de pedra. Se colocar essa massa aqui, sobra esse buraquinho ali.
Dona Rosa seguiu o conselho da filha por puro cansaço. O doce saiu perfeito, na medida exata. Naquele momento, a mãe percebeu que a filha não era "atrasada". Ela apenas processava a realidade com outra lógica.
Porém, a barreira do sistema educacional continuava operando sob a lógica da exclusão. Aos olhos da escola, o valor de Bia era medido exclusivamente pela fluência de sua leitura em voz alta.
Certo dia, a escola organizou uma excursão pelas ruínas para uma prova prática de história. O professor levava um guia impresso e exigia que cada aluno lesse um parágrafo diante dos monumentos. Quando chegou a vez de Bia, diante das colunas do Pelourinho, ela travou. O papel em sua mão parecia vibrar. As letras "Pelourinho" pareciam formigas correndo para fora da folha.
— Eu não consigo ...— Disse ela, com os olhos lacrimejando.
O grupo de alunos começou a cochichar. O professor ia começar o sermão costumeiro sobre "falta de dedicação", quando Bia apontou para a base da coluna.
— Mas eu sei o que aconteceu aqui! — Disse ela, a voz subitamente firme. — Eu não consigo ler o que o senhor escreveu no papel, mas eu olhei para as marcas na pedra. Vejam aqui embaixo. Essa marca de ferro não é de enfeite. Foi onde o portal cedeu no grande terremoto de mil setecentos e pouco, e se o senhor olhar a direção desse desgaste, dá para ver que eles tentaram consertar usando pedra de outro lugar, porque o brilho é diferente. E as conchas presas no cimento aqui em cima mostram que essa parte foi feita pela família que morava na rua de baixo, porque o reboco deles é igualzinho ao do casarão que ainda tem telhado.
O silêncio que se seguiu não foi o de zombaria. Foi o silêncio do espanto. O professor baixou o guia. Ele olhou para a base da coluna e depois para a menina que, teoricamente, "não aprendia nada". Ele percebeu que Beatriz havia absorvido toda a história de Alcântara através da observação, da síntese visual e da compreensão espacial, enquanto os outros alunos apenas decoravam parágrafos que esqueceriam na semana seguinte.
Naquela tarde, o professor compreendeu que precisava mudar sua pedagogia. Ele lembrou-se de Paulo Freire, de que o ensinar exige o reconhecimento de que a educação é uma forma de intervenção no mundo. Beatriz já intervinha no mundo; ele é que não sabia ler os sinais que ela emitia.
Ao retornar para casa, Bia sentou-se novamente nas ruínas. Ela abriu o livro, mas desta vez não sentiu o peso da derrota. Ela sabia que precisava aprender a domar aquelas letras dançantes, e sabia que, com o apoio certo, com o Atendimento Educacional Especializado que o professor prometera articular com a direção, ela conseguiria. A dislexia não era um teto, era apenas um tipo diferente de terreno.
Ela olhou para o horizonte de Alcântara, onde o sol se deitava sobre as águas. As letras no livro ainda pareciam querer bailar, mas agora Bia sabia um segredo: o mundo era um livro muito maior. E naquele livro de pedras, ventos e histórias gravadas no azulejo, ela era a melhor leitora de todas.
A verdadeira inclusão começou ali, entre os pilares de uma civilização antiga. Não se tratava apenas de ensinar a menina a ler o papel, mas de ensinar a cidade a ler a menina. Pois a inteligência, assim como as ruínas de Alcântara, tem muitas camadas, e as mais profundas e resistentes nem sempre estão na superfície que os olhos apressados conseguem ver.
Por José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade
quinta-feira, 12 de março de 2026
CRÔNICA DO DIA: A Semântica da Bacaba
Na feira central do mercado da rodoviária de Bacabal, o vento já tinha levantado poeira suficiente para embaçar as vistas, mas Dona Mocinha enxergava com a clareza de quem lê o mundo não por letras, mas por cheiros. Diante dela, em bacias de alumínio amassado, repousava o objeto de sua devoção e sustento: a bacaba. Escura, pequena, quase mineral em sua dureza aparente, a fruta desafiava qualquer descrição simplista. Para um forasteiro, era apenas um coquinho. Para Dona Mocinha, era um tratado de identidade.
Eu me aproximei balcão improvisado de madeira, com meu caderno de anotações em punho, buscando capturar a "essência regional" para uma crônica que a editora no Sul me cobrava. A palavra "regional" sempre me soou pequena, uma gaveta onde se guarda o que não cabe na sala de estar da literatura canonizada. Mas ali, sob o teto de zinco quente da feira, o conceito de centro e periferia parecia se reinverter.
— Bom dia, Dona Mocinha. Como está a venda da... "fruta"? — Perguntei, tropeçando na generalização.
Ela me olhou com a condescendência de quem sabe que a ignorância urbana é uma doença incurável.
— Isso aqui não é fruta, menino. Isso é vinho de terra. — Ela pegou um punhado de bacabas e as deixou cair de volta na bacia. O som foi seco, percussivo. Tluc, tluc, tluc. — Fruta é o que se come e joga o caroço fora. A bacaba a gente bebe, a gente passa no cabelo, a gente acende a lamparina com o azeite. A bacaba é a mãe que não reclama.
Anotei a frase: "A bacaba é a mãe que não reclama."
Parecia poesia, mas era semântica. A definição de Dona Mocinha não estava no dicionário Aurélio. No dicionário, "bacaba" seria descrita como "fruto da bacabeira (Oenocarpus bacaba), palmeira da Amazônia...". Frio. Botânico. Morto. A definição da feirante carregava a carga histórica de gerações que sobreviveram graças àquele óleo denso e nutritivo. A palavra "bacaba", na boca dela, tinha um peso específico maior do que na minha caneta.
— O senhor escreve? — Perguntou ela, apontando com o queixo para o meu caderno.
— Tento. Estou escrevendo sobre a cidade. Sobre o que faz Bacabal ser Bacabal.
— Então para de escrever e toma. — Ela me estendeu um copo americano cheio de um líquido pardo, morno, com uma nata bege boiando na superfície. — Não se escreve sobre o que não se tem na barriga.
Bebi. O gosto era terroso, oleoso, uma mistura de castanha com chocolate amargo e madeira molhada. Não era doce, não era salgado. Era um sabor antigo. Enquanto o líquido descia, grosso, senti que estava ingerindo não apenas calorias, mas uma sintaxe. Aquele gosto explicava o ritmo lento da fala local, a paciência necessária para esperar o fruto amolecer na água morna, a força necessária para quebrar a casca.
A linguagem é moldada pelo que a boca consome. Quem come hambúrguer pensa em inglês rápido, prático, descartável. Quem bebe bacaba pensa em ciclos, em colheita, em preparo demorado. O pensamento discursivo de Bacabal nascia daquela palmeira. As frases ali eram como a bacaba: duras por fora, exigindo trabalho para revelar a polpa, e deixando um residual oleoso na memória.
— O povo diz que a bacaba tá acabando. — Comentou um homem ao meu lado, um caboclo com mãos que pareciam raízes. — As palmeiras tão caindo pra dar lugar pro boi. E quando a bacaba acabar, Bacabal vai ser só "bal". Um som oco. Aliás em Bacabal não tem mais bacaba...
A frase me atingiu como uma pedrada. "Vai ser só 'bal'". A extinção da planta não era apenas um desastre ecológico; era uma catástrofe linguística. Se o objeto desaparece, o substantivo perde o lastro. Vira uma palavra fantasma, assombrando os dicionários sem ter correspondência no mundo real. A identidade de uma região não está nos seus monumentos de concreto, mas naquilo que brota do chão e entra na boca do povo.
Olhei para o copo vazio. O resíduo marrom desenhava mapas nas paredes de vidro. A crônica que eu pretendia escrever, algo folclórico, pitoresco, morreu ali mesmo. Não se pode tratar a bacaba como um adorno regional. Ela é o sujeito da oração. Sem ela, o predicado da cidade desmorona.
A literatura regionalista muitas vezes cai no erro de tentar traduzir o intraduzível, de explicar o sabor da bacaba para quem só conhece uva. Mas a verdadeira função do escritor ali não era traduzir, era testemunhar. Era registrar que aquela palavra, "bacaba", carregava em suas três sílabas abertas o peso de uma civilização que resistia ao avanço do pasto e do esquecimento.
— A senhora acha que a palavra morre antes da planta? —Perguntei, arriscando uma filosofia de feira.
Dona Mocinha riu, mostrando dentes fortes que quebraram muitos caroços.
— A palavra só morre quando a gente esquece o gosto, meu filho. Enquanto tiver uma velha fazendo o vinho e um menino bebendo e ficando com o bigode sujo, a palavra tá viva. O perigo não é o boi. O perigo é o refrigerante.
Ela tinha razão. A ameaça à identidade não vinha apenas da destruição física, mas da substituição simbólica. O refrigerante era a sintaxe globalizada, doce, fácil, gaseificada, que não exigia mastigação nem espera. A bacaba era a resistência do sabor difícil, do preparo manual.
Saí da barraca com o gosto da terra na boca e a certeza de que meu texto precisaria mudar. Eu não podia mais usar adjetivos leves. Precisava encontrar palavras com casca dura, palavras que precisassem ser deixadas de molho para soltar o sentido. A semântica da bacaba exigia um novo tipo de escrita: uma escrita nutritiva, oleosa, que manchasse o papel e sustentasse o leitor por longas horas de fome.
Caminhei pelas ruas de Bacabal sentindo o peso do sol e o peso da história que aquela fruta carregava. A cidade, com seu nome derivado da palmeira, era um monumento vivo àquele caroço pequeno. E eu, com minhas pretensões literárias, era apenas um forasteiro tentando beber de uma fonte que, se eu não fosse cuidadoso, ajudaria a secar com minhas descrições superficiais. Decidi, então, que minha crônica não explicaria o gosto. Ela apenas diria: "Venha e beba. Antes que o boi coma a palmeira e a palavra vire apenas um som."
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