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quarta-feira, 12 de agosto de 2026

CRÔNICA DO DIA: Giz e Esperança

Em 1988, o calor da sala de aula no Colégio Lêda Tajra em Bacabal era mais do que uma condição do tempo. Era um personagem invisível, instalado entre as carteiras, que parecia desafiar cada tentativa de transformar palavras em aprendizado. Marta observava seus trinta alunos, rostos jovens que oscilavam entre a apatia do cansaço e a energia inquieta de quem não via sentido no que estava escrito no quadro negro. O ventilador, pendurado por um único parafuso que insistia em desafiar a gravidade, girava num ritmo que mais parecia uma contagem regressiva para o colapso.

Ela segurou o giz, um toco branco e quebradiço que sujava seus dedos com um pó fino. Escreveu o nome de Clarice Lispector. O traço saiu trêmulo, não pela falta de habilidade, mas pela dúvida que a acompanhava todos os dias: como convencer jovens que mal tinham acesso a uma biblioteca pública de que a literatura não era um privilégio de elite, mas algo urgente e vital?

— Professora, pra que a gente vai ler isso? — Graciano um dos rapazes, sentado no fundo, comentou sem sequer levantar a cabeça da mesa cheia de sulcos de caneta. — Isso não enche barriga.

Marta sentiu o peso das palavras, um reconhecimento amargo da realidade que cercava aquela escola. Ela poderia ter respondido com os manuais de pedagogia que estudou na faculdade, falando sobre a importância da formação crítica e do repertório cultural. Mas, naquele momento, as teorias pareciam tão distantes quanto as prateleiras luxuosas das livrarias que ela, em seus dias de miséria docente, apenas olhava através dos vidros nos shoppings.

— Encher a barriga é o primeiro passo. — Respondeu ela, virando-se para a turma com uma voz que forçou a ser calma, apesar do aperto no peito. — Mas o que a gente lê aqui é o que vai impedir que o mundo nos convença de que a barriga, ou a falta dela, é a única coisa que a gente tem. Se vocês não souberem nomear o que sentem, alguém vai escolher os nomes por vocês. E, acreditem, eles não vão ser gentis.

Ela não tinha livros suficientes. A biblioteca da escola era um cômodo trancado, com prateleiras ocupadas por manuais didáticos desatualizados e três volumes empoeirados de literatura clássica. O que ela tinha eram impressões feitas em um papel reciclado, gasto, que ela pagava com seu próprio salário. Marta distribuía aquele material como se fossem joias, observando, com o coração na mão, as reações.

A vocação da mulher na educação pública em Bacabal, ela descobria diariamente, era uma forma de malabarismo ético. Ela era, ao mesmo tempo, educadora, assistente social, mediadora de conflitos e, frequentemente, o único adulto na vida daqueles jovens que acreditava que a capacidade intelectual deles não era condicionada pelo CEP onde moravam. Havia momentos em que a exaustão a dominava, quando ela chegava em casa e o cheiro de giz impregnado nos poros parecia o símbolo de uma derrota pessoal. Mas, então, ela lembrava de Lucilene, uma aluna do fundo da fila, que começara a trazer seus próprios escritos em um caderno de folhas amareladas.

Naquela tarde, enquanto a chuva começava a bater no telhado, criando um ruído que obrigava todos a falarem mais alto, Lucilene se aproximou. Ela entregou um papel dobrado, um poema que falava sobre a seca e sobre a vontade de ir embora, mas que terminava com uma imagem surpreendente sobre as sementes que, mesmo ignoradas, teimavam em brotar no concreto.

Ao ler aquelas linhas, Marta sentiu uma onda de força. Era por isso. Não era para seguir o currículo engessado pelo Estado, nem para cumprir as horas de uma grade que ignorava a realidade daquelas crianças. Era para ser o canal desse broto. Ali, naquele momento, o giz e o suor, a falta de verbas e o descaso institucional, tudo se fundia. Ela percebia que o seu papel ia muito além de ensinar os tempos verbais; era a construção de uma trincheira de humanidade.

Marta guardou o poema na bolsa, ao lado do giz quebrado. O barulho do zinco pela chuva ficava mais forte, mas ela não se incomodava mais com o calor ou com o improviso daquela escola. Ela olhou para Lucilene, que a observava com uma expectativa silenciosa, e percebeu que, enquanto houvesse um pedaço de giz em sua mão e uma mente disposta a registrar suas próprias dores, a literatura em Bacabal nunca seria um artigo de luxo. Ela seria, como sempre fora, a ferramenta mais poderosa de sobrevivência. Marta  pegou o apagador e limpou o quadro negro. Amanhã, ela escreveria novos nomes, novas ideias, novos caminhos, sabendo que, embora o sistema insistisse em negligenciar aquelas paredes, a esperança ali dentro estava apenas começando a aprender como se ler.

José Casanova 

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

CRÔNICA DO DIA: Dia do Estudante

 

Wladimir desconfiava de certas palavras.  Democracia era uma delas. Parecia uma palavra grande demais para caber na boca de um estudante que ainda precisava pedir autorização para sair da sala. Havia também cidadania, igualdade, oportunidade, futuro. Palavras bonitas, algumas com cheiro de discurso de formatura, mas que ganhavam outro peso quando atravessavam o portão da escola e encontravam a vida como ela era. Na semana do Dia do Estudante, a diretora pediu que cada turma apresentasse uma sugestão para a comemoração.

A maioria sugeriu música. Alguns pediram campeonato. Um grupo queria liberar o uniforme. Wladimir levantou a mão.

— E se a gente fizer uma assembleia?

A sala ficou em silêncio. Não porque a ideia fosse ruim. Talvez porque assembleia fosse uma palavra que assustasse mais do que prova surpresa. Vinícius, sentado na última carteira, levantou os olhos do celular.

— Assembleia para quê?

— Para os estudantes dizerem o que pensam.

Vinícius riu.

— E desde quando estudante pensa?

Alguns riram,  a turma toda. Wladimir não.

— Desde antes de você aprender a rir.

A gargalhada morreu pela metade. A professora tentou esconder o sorriso. Foi assim que começou. Não com uma bandeira. Não com um discurso. Começou com uma provocação.

Wladimir  tinha dezoito anos e uma coleção de inquietações que não cabia na mochila. Morava longe da escola Padre João Mohana, dividia o quarto com dois irmãos e aprendera cedo que alguns sonhos precisam fazer hora extra para sobreviver.

Queria cursar Direito, mas não lhe agradava a ideia de usar terno . Gostava da ideia de conhecer as leis que tantas vezes pareciam escritas para pessoas que nunca haviam conhecido sua rua Naquela época, ele ainda acreditava que bastava estudar muito. Depois descobriria que estudar muito ajuda. Mas nem sempre basta. Foi Jéssica quem lhe ensinou isso.

Ela era uma das melhores alunas da turma. Lia rápido, escrevia melhor ainda e tinha uma mania de guardar palavras difíceis num caderno como quem colecionava pequenas ferramentas para o futuro.

Um dia, porém, apareceu na escola com os olhos vermelhos.

— Vou sair.

Wladimir  pensou que ela estivesse brincando.

— Sair da escola? — Quis saber Wladimir.

— Minha mãe precisa que eu trabalhe.

Naquela noite, Jéssica chegou em casa e encontrou a mãe sentada à mesa, separando algumas moedas ao lado de uma conta de energia vencida. Havia outras contas dobradas debaixo de um copo, como se esconder o papel pudesse esconder também a dívida. A televisão estava ligada, mas ninguém prestava atenção.

Jéssica deixou a mochila no canto e ficou alguns segundos olhando para o uniforme pendurado atrás da porta. A camisa branca ainda guardava uma pequena mancha de tinta da aula de Português. Passou a mão sobre o tecido.

— Mãe...

A mulher levantou os olhos.

— O que foi?

Jéssica hesitou.

— Acho que vou procurar trabalho.

A mãe não respondeu imediatamente. Continuou separando as moedas, empurrando umas para perto das outras como quem tentava fazer o pouco parecer suficiente.

— E a escola?

Jéssica olhou novamente para o uniforme.

— A escola pode esperar.

A mãe parou de contar.

— O problema é que a vida também não espera.

Jéssica baixou os olhos, o uniforme pareceu pesar mais do que a mochila.

Não houve discurso. Nenhuma frase bonita seria capaz de pagar uma conta.

Wladimir  ficou sabendo do Pé-de-Meia naquela tarde. Pesquisou, perguntou, levou informações para Jéssica e descobriu que uma política pública pode parecer abstrata até chegar ao quarto de uma estudante que está prestes a abandonar os livros para ajudar a pagar as despesas de casa.

Jéssica continuou estudando. Não porque o dinheiro tivesse resolvido sua vida. Mas porque, por alguns instantes, o futuro deixou de parecer tão caro.

Na semana seguinte, Wladimir  levou outro assunto para a reunião do grupo que pretendia formar o Grêmio Estudantil. Cotas universitárias. Vinícius quase caiu da cadeira.

— Lá vem essa história de privilégio.

— Privilégio para quem?

— Para quem entra pelas cotas. — Afirmou Vinícius.

Wladimir olhou para ele.

— Você sabe como funciona?

Vinícius hesitou e respondeu:

— Mais ou menos.

— Então vamos discutir depois que você souber.

Foi uma frase simples. Mas a escola descobriu que discutir com informação dá mais trabalho do que discutir com preconceito.

Vieram gráficos. Vieram histórias. Vieram perguntas. Vieram também brigas.

Um estudante dizia que todos deveriam competir em condições iguais. Esses não compreendiam ainda que os ancestrais dos jovens negros e pardos , não receberam nenhuma indenização por terem construído o Brasil com o trabalho escravo, que a alforria os jogou nas ruas e pendurados nos morros sem acesso à educação e moradia.Cota é reparação.

Uma menina respondeu:

— O problema é que nem todos começam do mesmo lugar.

Outro perguntou:

— Então igualdade não serve?

Wladimir  respondeu:

— Serve. Mas, às vezes, tratar desigualmente quem vive em desigualdade é justamente o caminho para produzir igualdade.

A sala ficou quieta. Vinícius não concordou. Mas, pela primeira vez, não teve uma resposta pronta. E talvez fosse exatamente aí que começasse a educação. Não quando alguém aprende a repetir uma resposta. Mas quando descobre que precisa fazer outra pergunta.

A eleição do Grêmio foi marcada para uma sexta-feira. Houve duas chapas.

Uma queria organizar festas, torneios e eventos. A outra, liderada por Wladimir, queria discutir também biblioteca, inclusão, permanência escolar, racismo, transporte, saúde mental, acesso à universidade e participação dos estudantes nas decisões da escola.

Um colega disse:

— Vocês estão transformando o Grêmio em política.

Wladimir respondeu:

— O Grêmio sempre foi política. Só não perceberam porque confundiram política com partido.

A eleição foi apertada. Wladimir venceu por poucos votos. Na segunda-feira, descobriu a parte menos romântica da democracia. As pessoas cobravam. Uma turma queria ar-condicionado. Outra queria mais livros. Os estudantes do turno da noite reclamavam da iluminação na saída. Uma aluna cadeirante apontou dificuldades de acessibilidade. Uma menina denunciou que era interrompida pelos colegas sempre que tentava falar Um grupo queria discutir racismo. Outro queria discutir violência contra as mulheres. Wladimir anotava tudo. A folha foi ficando cheia. Percebeu, então, que representar pessoas era carregar problemas que não eram apenas seus. Naquela noite, chegou em casa cansado.

A mãe perguntou:

— E aí, presidente?

Wladimir largou a mochila.

— Não sei se quero mais ser presidente.

Ela sorriu.

— Por quê?

— Porque todo mundo quer alguma coisa.

— Isso é ruim?

Wladimir pensou antes de responder:

— Não. Só é pesado.

A mãe colocou o café na mesa.

— Então você está aprendendo.

Ele olhou para ela.

— Aprendendo o quê?

— A saber como se sente o filho de dona Lundu. Que liderança não é mandar nos outros. É aguentar o peso de ouvir.

Wladimir não respondeu. Guardou aquela frase. Algumas mães ensinam sem abrir livro.

O Dia do Estudante chegou. A escola estava cheia. No pátio, havia música, cartazes, apresentações e uma faixa enorme produzida pelo Grêmio:

“NENHUM FUTURO É JUSTO QUANDO OPORTUNIDADE É PRIVILÉGIO.”

A diretora chamou Wladimir para falar. Ele subiu ao pequeno palco. Olhou para os colegas. Não tinha discurso pronto. Tinha apenas algumas folhas amassadas.

Começou:

— Ser estudante é uma coisa estranha.

Alguns riram.

— A gente é cobrado como adulto e, muitas vezes, tratado como criança. Dizem que somos o futuro, mas nem sempre perguntam o que precisamos no presente.

O pátio silenciou.

— Falam de educação de qualidade como se qualidade fosse apenas ter uma boa nota. Mas educação de qualidade também é ter professor valorizado, escola estruturada, biblioteca funcionando, acessibilidade, alimentação, permanência e condições para aprender.

Jéssica estava na primeira Wladimir continuou:

— Falam em igualdade. Mas igualdade de oportunidade não significa fingir que todos começam do mesmo lugar. Significa criar condições para que aqueles que historicamente ficaram para trás também possam chegar.

Vinícius levantou os olhos.Wladimir o viu.

— As cotas não são o fim da discussão. São parte de uma tentativa de corrigir desigualdades que não nasceram ontem. O Pé-de-Meia também não resolve todos os problemas. Mas ajudar um jovem a permanecer estudando pode significar impedir que uma necessidade de hoje mate um sonho de amanhã.

Uma professora enxugou discretamente os olhos. Wladimir respirou.

— E existe uma coisa que ninguém pode nos dar de presente: a democracia.

Dessa vez, ninguém se mexeu.

— Democracia precisa ser praticada. Na escola, no Grêmio, na assembleia, na sala de aula, na rua. Ela começa quando aprendemos a discordar sem transformar o outro em inimigo. Quando conseguimos ouvir uma ideia que não é nossa. Quando entendemos que o direito de falar também inclui o direito de ouvir.

Vinícius levantou-se. Alguns acharam que ele fosse interromper. Ele apenas bateu palmas. Depois vieram os outros. Wladimir desceu do palco sem saber se havia feito um bom discurso. Talvez tivesse falado demais. Talvez tivesse esquecido alguma coisa. Mas percebeu uma coisa. Ninguém havia saído dali pensando exatamente igual. E isso, de certa maneira, era uma vitória.

No final da tarde, ele encontrou Vinícius sentado sozinho na arquibancada da quadra.

— Ainda acha que cotas são privilégio?

Vinícius demorou a responder.

— Ainda tenho dúvidas.

Wladimir sorriu.

— Então estamos avançando.

— Como assim?

— Antes você tinha certeza.

Vinícius soltou uma gargalhada e falou:

— Você é insuportável.

— Um insuportável Presidente do Grêmio. — Falou Wladimir.

— Exatamente.

Riram juntos e depois os dois ficaram em silêncio.

No pátio, Jéssica ajudava a recolher os cartazes. A faixa da democracia começava a se soltar de uma parede. Uma ponta caiu sobre o chão e ficou ali, dobrada, cobrindo parcialmente a palavra futuro.

Wladimir se abaixou. Pegou a faixa Alisou o papel e depois tornou a prendê-la.

Talvez fosse isso que os estudantes precisassem aprender. Que algumas coisas não permanecem no lugar sozinhas. Democracia precisa ser presa novamente quando o vento arranca. Direitos precisam ser defendidos quando alguém tenta apagá-los. Oportunidades precisam ser ampliadas quando a desigualdade fecha as portas. E educação precisa ser muito mais que uma passagem para o mercado de trabalho. Precisa ser passagem para a dignidade.

Wladimir colocou a última fita adesiva na parede. Deu dois passos para trás.

Leu novamente:

NENHUM FUTURO É JUSTO QUANDO OPORTUNIDADE É PRIVILÉGIO.

Pensou na Jéssica. Pensou em Vinícius. Pensou nele mesmo. E compreendeu que talvez o Dia do Estudante não devesse ser apenas uma data para lembrar que existem estudantes. Deveria servir para lembrar que existem sonhos esperando condições para crescer. Porque estudante não é apenas aquele que senta numa carteira, copia uma lição e responde à chamada. Estudante é aquele que aprende a ler o mundo depois de aprender a ler as palavras. E, quando aprende de verdade, começa a perceber uma coisa perigosa: o mundo não é uma coisa pronta.

Pode ser questionado. Pode ser transformado. Pode ser reescrito. Às vezes, a primeira palavra dessa reescrita é apenas o nome de um estudante.

José Casanova 
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista 
Membro da Academia Bacabalense de Letras 
Academia Mundial de Letras da Humanidade 

CRÔNICA DO DIA:O Vidro no Topo

O ar condicionado da sala de reuniões no vigésimo andar do edifício mais imponente de São Luís soprava um gelo artificial, perfeitamente alinhado com a frieza dos olhares que aguardavam a entrada de Helena. Ela ajustou o blazer de alfaiataria, a postura impecável e o passo firme, ciente de que, naquela mesa, a competência nunca seria o único critério de avaliação. Como CEO da maior empresa de logística da região, Helena estava acostumada a prever variáveis de mercado e a gerir crises, mas os cinco homens sentados ao redor da mesa oval representavam uma constante que as planilhas jamais conseguiam calibrar: a convicção absoluta deque ela era apenas um acidente de percurso no topo da hierarquia.

A reunião era sobre a expansão multimodal para o Porto do Itaqui. Era o projeto da vida de Helena, desenhado em cada pormenor, testado e validado.

Ao  abrir a pasta de couro e deslizar os gráficos pelo centro da mesa, o silêncio que se formou não foi de admiração, mas de uma espera calculada.

— Helena.  — A voz de Marcelo, um dos diretores mais antigos, soou com aquele tom de condescendência que ela aprendera a identificar como um alarme. — O plano está ambicioso. Contudo, precisamos considerar se a diretoria está pronta para um movimento tão... agressivo. Talvez devêssemos esperar o próximo trimestre e deixar que o board principal, em São Paulo, revise estes números.

Ele não a olhou nos olhos. Olhou para o lado, para o seu par, num gesto calculado de desautorização.

Helena sentiu o peso do vidro no topo; não era apenas a arquitetura do prédio, mas o teto de cristal invisível que ela batia todos os dias. A solidão do cargo não vinha apenas das decisões difíceis, vinha de ter que explicar o óbvio e de ver suas palavras serem esvaziadas de autoridade pelo simples fato de serem ditas por uma mulher.

— O board de São Paulo já aprovou o orçamento preliminar, Marcelo.  — Helena respondeu, a voz equilibrada, sem permitir que a indignação tremulasse o tom. — A expansão não é uma escolha agressiva, é uma necessidade operacional. Se esperarmos, perderemos o timing da concessão portuária. Onde exatamente o seu desconforto reside? Nos números ou na minha condução?

O silêncio ficou mais denso. As palavras pronunciadas em inglês demarcam território na empresa. Um dos diretores, mais jovem, tossiu, desconfortável com a franqueza da pergunta. O machismo, ali, não vestia o traje de uma ofensa explícita; ele se escondia atrás de "precauções" e "estratégias conservadoras" que nunca eram exigidas quando o CEO era um homem. Se ela falasse com firmeza, era mandona ou emocional. Se falasse com calma, era subestimada.

— Não leve para o pessoal. — Retrucou outro, o mais velho da mesa, com um sorriso de dentes brancos que não alcançava os olhos. — Estamos apenas olhando pelo bem da empresa. A senhora sabe como o setor de infraestrutura é um ambiente...peculiar. Talvez, para esta negociação específica, fosse melhor enviarmos uma comissão com mais experiência em campo.

Experiência. A palavra soou como um eco de todos os anos que Helena passou construindo aquela estrutura, acumulando certificações e enfrentando lobbies que eles nunca ousaram encarar. Ela sabia que, se cedesse à comissão, seu projeto seria desmantelado em pequenas partes até que ela perdesse o controle sobre a execução final. A solidão de Helena era feita de saber que, naquele ambiente, qualquer hesitação seria interpretada como fraqueza de gênero.

Ela fechou a pasta de couro com um movimento seco, um estalo que cortou a tensão da sala.

— Pois bem. Já que a minha "experiência" parece ser o foco da preocupação, vamos fazer o seguinte: a decisão final sobre a comissão será tomada pelo conselho amanhã, às nove da manhã. E, para que não haja dúvidas, levarei comigo o relatório técnico que prova que, nos últimos três anos, sob minha gestão, a margem de erro deste setor caiu vinte por cento, enquanto as comissões anteriores, compostas pelos senhores, tiveram perdas anuais na casa dos dois dígitos.

Ela se levantou, a postura inabalável. O impacto na sala foi imediato; o desconforto mudou de dono.

Eles não estavam acostumados a serem confrontados com fatos frios por uma mulher que não se desculpava pelo próprio sucesso. Marcelo a acompanhou com o olhar, uma mistura de irritação e, talvez, um vislumbre fugaz de respeito que ele não sabia como processar.

Helena saiu da sala e atravessou o saguão silencioso em direção ao seu gabinete. O vidro que separava seu escritório da vista panorâmica de São Luís parecia magnificar o tamanho do desafio.

Ao fechar a porta do gabinete, Helena permaneceu alguns segundos imóvel, como se o silêncio daquele espaço precisasse de tempo para acomodá-la. Caminhou até a mesa, pousou a pasta de couro com cuidado e soltou o ar que, durante toda a reunião, parecera preso entre os ombros.

Sentou-se devagar. Descalçou os sapatos de salto e apoiou os pés descalços sobre o tapete. Com movimentos discretos, massageou os tornozelos marcados pela pressão de um dia inteiro em pé, percorrendo com os dedos as pequenas marcas avermelhadas deixadas pelo couro. Não havia ninguém para testemunhar aquele instante de cansaço, e talvez fosse justamente por isso que ele lhe parecia tão verdadeiro.

O celular vibrou sobre a mesa. Ela o pegou esperando, por um breve impulso, encontrar alguma mensagem que não tratasse de planilhas, cronogramas ou contratos.

A tela se iluminou. Havia notificações sobre fornecedores, uma solicitação do conselho, dúvidas do setor financeiro, lembretes de reuniões e atualizações do projeto do Porto do Itaqui.

Helena percorreu todas elas com o polegar. Nenhuma dizia simplesmente:

"Como você está?"

Ela sorriu de leve, não por alegria, mas pelo reconhecimento silencioso de uma solidão que aprendera a administrar havia muito tempo. Respirou fundo, calçou novamente os sapatos e endireitou o blazer. Nesse instante, alguém bateu à porta. A CEO voltou a ocupar seu lugar antes mesmo de responder:

— Pode entrar.

Ela estava exausta. A jornada para chegar até ali não havia sido composta apenas de metas batidas, mas de uma luta constante para não ter a própria voz silenciada pela conveniência do patriarcado corporativo.

Ela sentou-se na cadeira giratória e olhou para a cidade lá embaixo, pequena e distante.

A solidão no topo não era algo que ela pudesse compartilhar com os diretores que ficaram na sala, nem com a família, que mal compreendia o nível de desgaste daquela linha de frente. Era uma solidão de quem precisa ser, permanentemente, dez vezes mais eficiente para ser considerada apenas "boa".

Mas, enquanto observava o pôr do sol tingir o rio Anil, ela percebeu que a sua autonomia valia aquele custo. Ela tinha o controle financeiro, o poder estratégico e a competência técnica. E, mais importante, tinha o privilégio de ter destruído o conforto de quem esperava que ela fosse apenas uma peça decorativa na engrenagem. Amanhã, às nove, ela não estaria apenas defendendo um projeto; estaria mantendo a porta aberta para que outras, ao ocuparem sua cadeira, encontrassem menos vidro e mais chão onde pisar.

José Casanova 
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista 
Membro da Academia Bacabalense de Letras 
Academia Mundial de Letras da Humanidade 

domingo, 9 de agosto de 2026

CRÔNICA DO DIA: O Axé delas

 

O chão de Matinha respirava calor. Dele subia um vapor espesso, semelhante ao que enchia a cozinha de barro quando a água fervia. Mãe Adília nunca confundiu aquele bafo com cansaço. Ela batia o dendê na gamela com a força de quem, durante décadas, havia batido de frente com o desdém, a ofensa e a intolerância calada que atravessava os olhos de alguns vizinhos toda vez que o som do atabaque começava a ecoar pela vila.

A preparação para a festa dos orixás era um exercício de resistência política, uma coreografia detalhada de tradições que ela carregava no sangue.

Havia flores brancas espalhadas em bacias de barro pelas paredes do terreiro, e o cheiro do banquete sendo preparado ;o xinxim, o abará, a doçura da canjica  ocupavam cada fresta daquela casa como se fosse um escudo invisível. Adília sabia que, para além daquela cerca de madeira, havia murmúrios.

Pessoas que olhavam para o terreiro não como um centro de cura e espiritualidade, mas como um alvo.

— Mãe, eles estão passando de novo. — Sussurrou a pequena Iara, ajudando a organizar as contas de cristal num prato de louça. — Estão olhando feio e com celular na mão, gravando a gente.

Adília não olhou para a rua. Ela continuou seu trabalho, movendo os dedos ágeis sobre os preparados.

— Deixa que gravem, minha filha. Ninguém que vive na sombra consegue suportar o brilho de quem celebra o Axé com a alma limpa. Eles nos chamam de estranhos porque a nossa fé não se curva aos templos que eles construíram para restringir Deus. O nosso terreiro é o chão, a raiz, o vento. Isso dói neles.

Liderar um terreiro em uma cidade pequena como Matinha não era tarefa para mãos vacilantes. Adília era a autoridade máxima, a conselheira, a juíza e a curandeira. Pela manhã, recebia mulheres que buscavam amparo para seus casamentos arruinados ou para a falta de sustento; à tarde, organizava o cuidado com os mais velhos; e, ao cair da noite, tornava-se o canal por onde a energia ancestral manifestava sua sabedoria.

O terreiro começou a ganhar outro ritmo. Seu Benedito entrou carregando um dos atabaques debaixo do braço. Sentou-se num banco de madeira e, com a calma de quem conhecia cada fibra do couro, começou a apertar as cordas do instrumento. Deu dois toques leves. Depois mais três e sorriu satisfeito.

Agora ele acordou.

Perto da cozinha, Dona Celina distribuía folhas de bananeira sobre a mesa enquanto duas jovens terminavam de embrulhar os abarás. O cheiro do dendê misturava-se ao perfume das ervas recém-colhidas. No quintal, um menino observava os mais velhos com curiosidade. Arriscou repetir um dos cantos que ouvia desde pequeno.

Errou a melodia despertando o riso de alguns. Mãe Adília aproximou-se e pousou a mão sobre o ombro do menino.

Não tenha pressa. O tambor ensina primeiro o ouvido. Depois ensina o coração.

O menino abaixou a cabeça, envergonhado sob a benção do sorriso de Mãe Adília.

Quem aprende a escutar os mais velhos nunca canta sozinho.

As mulheres retomaram o preparo da comida. Os atabaques voltaram a ressoar.

As vozes se misturaram ao cheiro das panelas e ao vento que atravessava o quintal. Naquele instante, o terreiro deixava de ser apenas um lugar de culto. Era uma casa onde a memória continuava encontrando quem estivesse disposto a recebê-la.

A intolerância, que chegava em forma de pedras arremessadas contra o telhado na calada da noite ou em olhares julgadores na feira municipal, era sentida, mas já não possuía o poder de paralisá-la.

Perto do final da tarde, a chuva chegou sem aviso, lavando a poeira e purificando o pátio. Quando os primeiros toques dos atabaques começaram, o som parecia crescer de dentro das entranhas da terra.

Adília vestiu seus panos brancos, o turbante ajustado com dignidade régia, e assumiu seu posto à frente dos filhos de santo. Ela era a imagem da resistência pura: uma mulher negra, matriarca e guia, sustentando em seus ombros o peso daquela liturgia que seus antepassados guardaram a sete chaves sob o chicote e a perseguição.

Enquanto cantava a saudação aos orixás, Adília sentia a presença daquelas que vieram antes dela,  as pretas velhas, as Iabás, as guerreiras que não permitiram que a história de seu povo fosse enterrada. Do lado de fora da cerca, o grupo de curiosos e críticos aos poucos se dispersou; o poder daquela celebração, aquele batida firme, aquele canto rítmico que não pedia permissão para ser, era simplesmente grande demais para ser contido pelo preconceito alheio.

Ao final da celebração, quando o último tambor parou de ressoar, o terreiro estava em silêncio. Um silêncio sagrado. Mãe Adília sentou-se na cadeira de encosto alto, sentindo a energia da noite vibrar em sua pele como uma carga elétrica suave.

As últimas velas ainda tremeluziam quando o terreiro começou a esvaziar. Os filhos de santo recolhiam os bancos, apagavam algumas lamparinas e guardavam os atabaques com o mesmo cuidado com que se protege uma herança. Mãe Adília permanecia sentada, respirando o silêncio que sempre vinha depois dos cantos. Ouviu passos do lado de fora da cerca.

Levantou os olhos. Era Dona Conceição, uma vizinha conhecida pelas idas diárias aos cultos da Assembleia de Deus.. Trazia nas mãos um pequeno saco de papel. Parou diante do portão, um pouco acanhada. Estendeu o embrulho.

Trouxe porque sei que vocês usam.

Adília abriu o saco. Dentro havia algumas velas brancas. Olhou para a vizinha.

Por um instante, nenhuma das duas falou. Não havia necessidade. Dona Conceição apenas sorriu de leve, fez um discreto aceno com a cabeça e voltou pelo mesmo caminho, desaparecendo na rua iluminada apenas pelos postes e pela lua.

Mãe Adília segurou uma das velas entre os dedos. Sorriu também. Nem toda ponte era construída com palavras. Algumas nasciam de um gesto pequeno, silencioso e corajoso, capaz de atravessar muros que o preconceito insistia em levantar.

 Ela sabia que amanhã enfrentaria novamente o nariz torcido na rua, os olhares atravessados, a negação  constante de sua cultura. Mas naquela noite, sob a luz das velas, ela tinha certeza: ela era o elo. A intolerância podia tentar cercar o terreiro de Matinha, podia tentar diminuir a força daquela fé com leis ou dogmas, mas não havia poder na terra capaz de estancar o fluxo de uma ancestralidade que, cada vez que Adília batia o tambor, reescrevia sua própria história de grandeza, resistência e, acima de tudo, liberdade. Ela não estava ali apenas para realizar uma festa; estava ali para reafirmar que, onde quer que houvesse uma mulher que soubesse o seu lugar de origem, o sagrado jamais seria vencido por um mundo que ainda não aprendeu a respeitar a natureza divina do outro

José Casanova 

sábado, 8 de agosto de 2026

CRÔNICA DO DIA: O Dinheiro da Mãe


Rose Duarte tinha quarenta e poucos anos, uma idade em que algumas mulheres ainda discutiam viagens, festas, novos amores e planos para o futuro. Ela discutia fraldas geriátricas, horários de medicação, curativos e a quantidade de água que deveria passar pela sonda da mãe.

    Na casa pequena, o relógio parecia ter desistido de marcar as horas.

    A mãe, aos noventa e quatro anos, permanecia acamada. O corpo já não obedecia aos comandos que um dia haviam permitido que ela caminhasse pela casa, cozinhasse, cuidasse dos filhos e reclamasse da conta de luz. Agora, quase imóvel, dependia de outras mãos para tudo.

    Mas havia apenas duas mãos disponíveis. As de Rose. Ela acordava antes de a casa clarear. Conferia a sonda, ajeitava o lençol, verificava as escaras, preparava a alimentação e anotava em um caderno os horários dos medicamentos.

    O caderno tinha páginas cheias de números.

    8h.

    10h.

    12h.

    14h.

    16h.

    18h.

    Às vezes, entre um horário e outro, Rose conseguia tomar café. Quando conseguia.

    As outras mãos pertenciam aos irmãos. Muitas mãos, na verdade.

    Filhos e filhas espalhados pela cidade, cada um com uma justificativa diferente, uma obrigação urgente, um trabalho, uma família, uma conta, uma viagem.

    Todos amavam a mãe. Pelo menos diziam que sim. O problema era que o amor, naquela família, parecia funcionar melhor pelo telefone.

    — Como ela está hoje? — Perguntava uma das irmãs.

    Rose olhava para a mãe.

    — Igual.

    — Ela comeu?

    — Pela sonda.

    — E as escaras?

    Rose respirava fundo.

    — Ainda estão sendo tratadas.

    Do outro lado da ligação, vinha um silêncio curto.

    — Qualquer coisa, me avisa.

    Rose quase respondia que qualquer coisa já tinha acontecido havia meses. Mas engolia a frase. Aprendera que algumas respostas produzem mais briga do que ajuda.

    A única que às vezes perguntava outra coisa era a caçula, Luíza. Não "como ela está", mas "e você, já comeu?". A pergunta nunca vinha acompanhada de solução nenhuma, Luíza morava longe, tinha dois filhos pequenos, mas era diferente das outras. Rose guardava isso sem comentar.

    Até que um dia a briga veio sem ser convidada. Era uma tarde abafada. Rose terminava de trocar o curativo da mãe quando o telefone tocou.

    — Rose, preciso falar com você.

    Ela reconheceu a voz da irmã.

    — Pode falar.

    — Você precisa prestar contas do dinheiro da mamãe.

    Rose ficou imóvel. Olhou para a cama. A mãe permanecia de olhos fechados.

    — Que dinheiro?

    — O dinheiro dela, Rose.

    — Eu compro as coisas dela com o dinheiro dela.

    — É isso que você diz.

    Rose segurou o telefone com mais força.

    — O que você está querendo dizer?

    A irmã demorou alguns segundos.

    — Tem gente comentando que você fica com o dinheiro da mamãe.

    Rose sentiu o rosto esquentar.

    — Gente?

— Você sabe como são as coisas.

    — Não. Eu não sei. Me diga quem está dizendo.

    — Não importa quem disse.

    — Importa para mim.

    A irmã mudou o tom.

    — Rose, ninguém está acusando você de nada. A gente só quer transparência.

    Rose olhou para a cômoda. Em cima dela havia uma pasta. Dentro, recibos de medicamentos, notas de farmácia, pagamentos de consultas, fraldas, produtos para curativos e outras despesas.

    — Transparência? — Repetiu. — Quer saber quanto custa cuidar dela?

    — Não precisa falar assim.

    — Precisa, sim.

    A voz de Rose começou a tremer.

    — Vocês querem saber quanto custa?

    Silêncio.

    — Custa dinheiro. Mas custa também noite de sono. Custa braço doendo. Custa ficar sem sair de casa. Custa cancelar compromisso. Custa não conseguir trabalhar direito. Custa ver uma ferida na pele da própria mãe e não poder sentir a dor no lugar dela.

    A irmã respondeu:

    — Nós também somos filhos.

    Rose fechou os olhos.

    — São.

    — Então não fale como se fosse só você.

    Ela olhou novamente para a mãe.

    — Não sou só eu que sou filha. Sou só eu que estou aqui.

    A ligação terminou pouco depois. Naquela noite, Rose chorou no banheiro para que a mãe não ouvisse. Não chorava apenas pela acusação. Chorava porque, no fundo, aquela frase confirmava uma suspeita antiga: os irmãos haviam começado a enxergar o dinheiro antes de enxergar o trabalho.

    No domingo seguinte, todos se reuniram na casa. Era a primeira vez em meses que a sala ficava cheia. Luíza chegou com uma sacola de frutas e ficou parada na porta da cozinha, sem saber se entrava. Outro irmão apareceu depois. Um terceiro ficou parado perto da porta, como quem havia chegado para uma reunião e não para visitar a própria mãe. Rose estava na cozinha.

    — Vamos conversar — Disse uma das irmãs.

    Rose enxugou as mãos no pano de prato.

    — Sobre o quê?

    — Sobre mamãe.

    — Ela está no quarto.

    — Sobre os cuidados dela.

    Rose soltou um riso sem humor.

    — Agora vocês querem conversar sobre os cuidados?

    — Não começa, Rose.

    — Eu não comecei nada.

    O irmão mais velho interveio:

    — Ninguém veio brigar.

    Rose olhou para ele.

    — Então não falem de dinheiro como se fosse a única coisa que importa.

    A irmã abriu a bolsa e retirou algumas folhas.

    — A gente quer organizar as despesas.

    Rose apontou para a pasta sobre a mesa.

    — Está tudo ali.

    — A gente quer os extratos também.

    Rose permaneceu alguns segundos em silêncio. Depois foi até o quarto da mãe. Voltou com uma caixa de papelão e colocou-a sobre a mesa.

    — Aqui.

    Abriu.

    Havia recibos. Muitos. Alguns amarelados, outros dobrados, todos guardados.

    — Fraldas.

    Pegou um.

    — Medicamentos.

    Outro.

    — Pomadas.

    Outro.

    — Material para curativo. Alimentação.

    Foi espalhando o resto dos papéis sobre a mesa, de uma vez, como quem desiste de contar. A sala ficou silenciosa.

    — Vocês podem conferir tudo. — Disse ela. — Cada centavo.

    Luíza pegou um dos recibos.

    — Eu não sabia que era tanto.

    Rose respondeu:

    — Porque vocês não compravam.

    A frase caiu no meio da sala como um objeto quebrado. Ninguém respondeu. Então veio a pergunta que Rose já esperava.

    — E quanto você recebe para cuidar dela?

    Rose demorou a responder.

    — O que você quer dizer?

    — Você não trabalha mais como antes. Algum dinheiro deve ficar com você.

    Rose ficou olhando para a irmã.

    — Você acha que eu recebo salário?

    — Eu acho que alguma coisa você recebe.

    Rose apontou para o quarto.

    — Eu recebo aquilo ali.

    — O quê?

    — Uma mãe que precisa de mim para tudo.

    A irmã balançou a cabeça.

    — Isso não responde.

    Rose respirou fundo.

    — Então eu vou responder.

    Sentou-se.

    — Eu recebo noites em claro. Recebo medo. Recebo cansaço. Recebo dor nas costas. Recebo a culpa de dormir enquanto ela está acordada. Recebo o desespero quando a ferida piora. Recebo o medo de errar na alimentação. Recebo o telefone tocando de madrugada e penso que aconteceu alguma coisa.

    Fez uma pausa.

    — Dinheiro? O dinheiro da mamãe compra as coisas da mamãe. O resto do que eu gasto aqui é meu.

    O irmão mais velho baixou os olhos. A irmã que fizera a acusação permaneceu calada.

    Foi quando um ruído veio do quarto. Todos olharam. Rose levantou imediatamente. Ninguém mais se moveu. Ela entrou no quarto, ajeitou o travesseiro da mãe, verificou a sonda e segurou sua mão.

    — Estou aqui, mãe.

    A mulher abriu os olhos com dificuldade. Não conseguiu falar. Rose aproximou o rosto.

    — Está tudo bem.

    Do lado de fora, os irmãos permaneciam em silêncio. Talvez naquele instante tenham percebido algo que os recibos não conseguiam explicar. O cuidado não cabia numa nota fiscal. Não tinha preço na farmácia. Não vinha dentro de uma caixa. E não podia ser dividido em parcelas. Rose voltou para a sala. Luíza levantou-se.

    — Desculpa.

    Rose não respondeu imediatamente.

    Olhou para ela.

    — Eu não precisava que vocês me dessem razão.

    — Então o que você precisava?

    Rose pensou.

    — Que vocês viessem.

    A frase desmontou a sala.

    — Não precisava trazer dinheiro. Não precisava trazer presente. Não precisava nem saber trocar um curativo. Mas podiam sentar aqui.

    Ninguém falou. Rose continuou:

    — Podiam ficar uma hora com ela para eu tomar banho sem pressa. Podiam ficar duas horas para eu sair de casa. Podiam perguntar como eu estou sem começar perguntando quanto ela recebe.

    Luíza começou a chorar.

    — Eu tive medo de não saber cuidar.

    Rose respondeu baixinho:

    — Eu também tive.

    Aquela talvez fosse a primeira verdade compartilhada entre as duas em muito tempo. Na semana seguinte, um dos irmãos apareceu numa terça-feira.

    — Rose.

    — Oi.

    — Vim ficar com mamãe.

    Rose estranhou.

    — Hoje?

    — Hoje.

    Ela entregou a ele uma folha com os horários.

    — Aqui estão os remédios.

    Ele pegou o papel.

    — Você vai sair?

    Rose olhou para a própria roupa. Fazia semanas que não saía sem ter hora para voltar.

    — Vou.

    — Para onde?

    Ela pensou um pouco.

    — Ainda não sei.

    E saiu. Caminhou pela rua sem pressa. Não tinha destino. Não precisava. Naquela tarde, depois de muito tempo, Rose Duarte percebeu que cuidar da mãe não deveria significar desaparecer dentro da vida dela.

Jose Casanova