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sábado, 22 de agosto de 2026

CRÔNICA DO DIA: Cercas de Espinho

O carro da expedição de resgate sacolejava por uma estrada de terra que parecia rastro de cobra por um mundo esquecido, onde a vegetação do cerrado dava lugar a cercas de arame farpado que não delimitavam propriedades, mas aprisionavam dignidades. Mariana, assistente social cujas botas já traziam o barro daquela lida há anos, apertou o volante com força. Ao seu lado, o agente da fiscalização conferia o mapa. A denúncia falava de uma fazenda de gado, isolada, onde as leis trabalhistas eram apenas um conceito distante.

Não eram apenas homens que eles buscavam. A inteligência indicava que, no alojamento dos fundos, as mulheres viviam em condições de subserviência total, encarregadas de alimentar uma tropa de trabalhadores que mal poderiam suprir a própria miséria. Ao chegarem ao portão principal, a tensão era palpável. A cerca de espinhos não servia apenas para o gado; servia para manter o medo trancado dentro de um perímetro de silêncio. Um capataz surgiu, a mão pesada sobre a cintura, os olhos semicerrados sob a aba do chapéu de couro, medindo o alcance daquela pequena comitiva estatal.

Mariana não recuou. Ela sabia que a autoridade do seu crachá, naquele momento, era a única barreira entre aqueles trabalhadores e a violência da retaliação. Enquanto os fiscais entravam para conferir os registros das cadernetas de dívidas do conhecido "barracão" onde tudo era tabelado pelo preço do sangue e da fome, ela dirigiu-se ao bloco de alvenaria precária que servia como cozinha e dormitório das mulheres.

O cheiro era uma mistura insuportável de gordura rançosa, suor e desespero. Dez mulheres ali estavam, curvadas sobre tachos imensos ou esfregando roupas com as mãos gretadas.

Num canto da cozinha, uma panela grande permanecia destampada sobre um fogão de barro já frio. Ao lado dela, um calendário de anos anteriores ainda estava preso à parede por um prego enferrujado. As folhas haviam parado em um mês qualquer, como se o tempo também tivesse desistido de seguir adiante naquele lugar. Sobre uma prateleira torta, uma pequena boneca feita de retalhos observava o ambiente com um dos olhos desfeito pela poeira. Ninguém parecia notar aqueles objetos. Mas Mariana compreendeu, naquele instante, que a escravidão não roubava apenas a liberdade. Roubava o direito de contar os dias, de cuidar das pequenas belezas e de deixar a infância existir onde a sobrevivência ocupava todo o espaço.

 Quando viram uma mulher estranha, vestida com dignidade e com um olhar focado em seus rostos, o trabalho não parou por medo, mas um silêncio absoluto tomou o ambiente. Havia tantas formas de escravidão quanto havia ali de mulheres. Eram mães, filhas, irmãs que haviam sido atraídas com a promessa de vida melhor a quilômetros de suas casas, apenas para encontrar um sistema de servidão por dívida do qual ninguém nunca voltava.

 Meu nome é Mariana. — Disse ela, mantendo uma distância segura, mas próxima o suficiente para que não houvesse segredos. — Eu não vim aqui como quem vem pedir algo. Vim para garantir que vocês não precisam mais estar aqui.

Não houve aplausos, nem gritos de alegria. Havia apenas uma desconfiança dolorosa, a couraça de quem foi traída tantas vezes pela palavra de estranhos. Eles começaram a ouvir a retirada de documentos. Quando o capataz tentou intervir, alegando que "aquelas ali" tinham dívidas vultosas a pagar, Mariana sentiu o sangue ferver.

 A dívida era a corrente moderna, o elo de espinho que os mantinha imóveis. Ela lembrou-se do que vira em tantos outros interiores do estado: a lógica de que o patrão torna-se dono do corpo porque provê alimento que ele mesmo subtraiu com juros extorsivos.

O resgate foi silencioso. As sobreviventes, com seus pertences dentro de sacos de fibra, foram levadas para o ônibus estacionado fora da cancela. Mariana acompanhou uma das mulheres, Maria, que mal tinha vinte anos e segurava um bebê cujo choro parecia vir de uma alma muito mais antiga. Maria não chorava. Sua expressão era de uma dureza gélida.

Ao subirem no veículo, quando as rodas finalmente começaram a girar e as cercas de espinho ficaram para trás, a mudança na atmosfera foi quase audível. O ar parecia mais limpo, embora o trauma ainda ali estivesse, um fantasma que não se deixava espantar por uma simples viagem de retorno à cidade.

O bebê chorou por mais alguns minutos, até que o balanço constante do carro venceu o cansaço. Aos poucos, seu corpo relaxou nos braços da mãe, e a respiração ganhou o ritmo tranquilo de quem, pela primeira vez em muito tempo, dormia sem o peso do medo ao redor.

Maria permaneceu imóvel. Com a mão livre, passou os dedos lentamente sobre o anelar da mão esquerda, como quem procurasse a marca de uma aliança que nunca existira. Não encontrou ouro, nem promessa, apenas a pele áspera de quem aprendera cedo demais que algumas correntes não precisam de metal para prender.

Depois voltou o rosto para a janela. Encostou a testa no vidro e acompanhou, em silêncio, as cercas de arame ficando cada vez menores até desaparecerem na poeira da estrada. Não chorou. Havia dores que, depois de atravessarem tantos anos, já não encontravam lágrimas. Apenas respirou fundo, enquanto o filho dormia sereno em seu colo.

Enquanto voltavam para São Luís, a capital, Mariana olhava pelo retrovisor. Ela sabia que a polícia logo seria acionada pelo dono da fazenda para tentar reaver o"capital" levado embora, mas a justiça do resgate já estava feita. O debate sobre a terra e o que ela produzia; se riqueza ou servidão,  era um abismo de desigualdade que o Maranhão carregava como uma cruz.

Ela olhava para Maria, que agora abraçava o filho com menos medo, e refletia sobre o custo daquela liberdade. Muitas delas voltariam para bairros periféricos de suas cidades, para a precariedade do subemprego, mas ao menos ali seriam donas de suas próprias horas.

Mariana sabia que o trabalho social, naquele contexto, não era um fim. Era uma interrupção. O sistema de escravidão moderna se renovava com a mesma rapidez com que a ferrugem consumia os arames das fazendas. A tensão social, o conflito entre o agronegócio que devorava hectares e os seres humanos que ele tratava como insumos, ainda precisaria de muito mais do que visitas de fiscalização.

 O carro cortava a escuridão do sertão, ela não pensou nas estatísticas de sucesso. Pensou no desenho da cerca de espinhos através da janela e na promessa de que, enquanto houvesse alguém disposta a questionar o dono da terra, a corrente, por mais grossa que parecesse, não seria eterna. O resgate de hoje era a pequena, mas fundamental rachadura no muro daquelas vidas, e para Mariana, isso já era mais do que a lei,  era a própria dignidade humana batendo em retirada, sobrevivendo, apesar de tudo.

 José Casanova 

 

 

CRÔNICA DO DIA: O Ventre do Destino

A espera em Chapadinha não se media em meses, mas em batidas do coração contra as paredes de  uma casa que, durante muito tempo, pareceu grande demais para uma mulher só. Sandra observava o quarto que ela mesma pintara de um amarelo suave, quase como se tentasse capturar o brilho do sol maranhense para dentro daquele cômodo. O berço, montado com uma precariedade cuidadosa, era o ponto focal de uma existência que, de repente, ganhava um sentido que nenhum livro de autoajuda poderia descrever.

Ela ouvia os comentários na mercearia, no banco, na fila do mercado. Eram sussurros que tentavam policiar sua vida: por que uma mulher solteira, aos quarenta anos, iria querer "se amarrar" a uma criança que não era de seu sangue? O julgamento social em uma cidade do interior atua como um tribunal de paredes finas, onde a autonomia feminina ainda é vista como uma anomalia que precisa ser explicada ou, no mínimo, carimbada com desconfiança. As pessoas olhavam para a barriga da Sandra ou para a ausência dela  com uma curiosidade invasiva, perguntando-se sobre qual teria sido o "desvio" que a fizera optar pelo caminho da adoção.

Numa manhã de sábado, Sandra esperava sua vez no caixa da mercearia, segurando uma pequena sacola de compras. A senhora à sua frente, conhecida pelas conversas que atravessavam a cidade mais depressa do que o vento, voltou-se para ela com um sorriso delicado demais para ser inocente.

— Ainda dá tempo de casar, minha filha. Depois você pensa nessas coisas de criança...

Sandra recebeu o troco, guardou as moedas na bolsa com a mesma calma de quem já havia escutado aquela sentença muitas vezes. Ergueu os olhos e respondeu sem alterar a voz:

— Talvez. Mas meu filho não podia esperar.

A mulher permaneceu em silêncio. Sandra saiu da mercearia sem olhar para trás. Do lado de fora, o sol de Chapadinha aquecia a calçada. Percebera que algumas respostas não servem para convencer quem pergunta, mas para lembrar a nós mesmos por que escolhemos determinado caminho.

Sandra, no entanto, havia passado da fase de se justificar. A sua gestação não fora de células e tecidos, mas de processos jurídicos, de visitas constantes ao fórum, de entrevistas com psicólogas que examinavam sua casa como se fosse um cenário de teatro. Ela passara madrugadas acordada, não com enjoos ou dores nas costas, mas com o medo paralisante de que a burocracia do Estado fosse um obstáculo maior do que o seu próprio amor. O "ventre do destino" era, na verdade, o fórum da cidade, onde ela aprendera que a maternidade não é um evento biológico, mas uma escolha que você renova a cada amanhecer.

Quando o telefone finalmente tocou,  aquela voz técnica da assistente social informando que havia uma criança disponível,  o tempo em Chapadinha pareceu parar. Não houve o estalo de uma bolsa rompida, mas o estalo de uma vida que, até então, era apenas um desejo, e de repente se tornava um peso real e vibrante em seus braços.

No abrigo, quando lhe entregaram o pequeno, ela sentiu um pânico genuíno misturado a um alívio avassalador. Ele tinha seis meses, olhos que pareciam mapear seu rosto com uma sabedoria ancestral. Ao segurá-lo, o julgamento das pessoas na fila da mercearia evaporou-se como a névoa da manhã. O que era aquele pequeno ser além de uma extensão da sua própria alma? O preconceito, a solidão da vida solteira, a desconfiança da vizinhança, tudo aquilo era barulho externo que não conseguia penetrar naquele silêncio sagrado o primeiro gesto de alimentar quem finalmente chamaria de filho, da primeira troca de fralda, da primeira noite em que ela não dormiu apenas para observar se ele respirava.

Nos dias que se seguiram, a rotina foi uma dança de adaptação. A criança tinha cólicas que faziam Sandra andar pela casa, murmurando canções de ninar que ela nem sabia que conhecia. Eram serenatas improvisadas para afogar o choro. E o julgamento não parou; continuou nas frestas das janelas da vizinha, no olhar de lado na paróquia.

"Como será que vai criar?", perguntavam entre si, como se o amor precisasse de linhagem genética para ser legítimo.

Sandra respondia apenas com a sua perseverança.

Ela levava o filho à praça, enfrentava os olhares com uma postura de rainha. Ela entendia agora que a adoção era um ato de rebeldia: era a recusa em aceitar que a maternidade fosse limitada pelas leis da biologia. O filho que o seu coração gerou não era "adotado" no sentido de ser um favor; era seu por um direito mais antigo e profundo do que qualquer papel assinado por um juiz. O ventre do destino fora largo o suficiente para incluir aquela história, e ela, como uma mãe que reconhece em sua cria a própria continuidade, sabia que estava construindo ali o maior dos patrimônios: uma família feita não pelos laços de sangue que a natureza impõe por acaso, mas por um compromisso diário, incondicional e inviolável.

Naquela noite, depois de embalar o menino e esperar que o choro desse lugar à respiração tranquila do sono, Sandra entrou devagar no quarto. A luz amarelada do abajur já estava apagada. Apenas a claridade dos postes da rua atravessava a janela entreaberta e desenhava, lentamente, a sombra do berço sobre a parede que ela mesma pintara meses antes. Aquele amarelo suave, que durante tanto tempo iluminara apenas a espera, agora acolhia uma presença.

Ela aproximou-se sem fazer ruído. O menino dormia com uma das mãos fechadas sobre a manta, alheio às longas filas, aos papéis assinados, às perguntas indiscretas e aos julgamentos que haviam antecedido aquele encontro.

Em silêncio, apagou a luz do corredor, fechou a porta com delicadeza e permaneceu por um instante olhando para o quarto através da pequena fresta. Depois de muitos anos, aquela casa deixara de parecer grande demais. Finalmente tinha o tamanho exato de uma família.


José Casanova 
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista 
Membro da Academia Bacabalense de Letras 
Academia Mundial de Letras da Humanidade 


quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Prefeito Roberto Costa autoriza construção de cinco creches que vão abrir mais de 1.500 vagas para a Educação Infantil em Bacabal

O que durante anos permaneceu como promessa e expectativa começa a ganhar forma concreta para centenas de famílias de Bacabal. O prefeito Roberto Costa assinou, nesta quinta-feira (20), as ordens de serviço para a construção de cinco novas creches no município. Juntas, as unidades terão capacidade para ofertar mais de 1.500 novas vagas destinadas a crianças de 0 a 5 anos, ampliando a rede municipal de Educação Infantil.

A solenidade que marcou o início das obras foi realizada no Residencial Terra do Sol, um dos bairros mais populosos de Bacabal. No local, a comunidade aguardava há mais de 12 anos pela construção da unidade de Educação Infantil. Além da creche do Terra do Sol, o ato oficializou o início das obras de outras quatro unidades, nos bairros D’Areia, Novo Bacabal e Cohab II, além de uma unidade localizada na região central.

Ao todo, os cinco projetos contemplam 40 salas de aula e estruturas planejadas para oferecer um ambiente adequado ao desenvolvimento e à aprendizagem das crianças. As unidades contarão com fraldário, brinquedoteca, salas de amamentação, pátio coberto, parquinho, biblioteca, refeitório e outros espaços, todos projetados com acessibilidade.

Uma espera de mais de uma década

No Residencial Terra do Sol, o início da obra foi recebido com emoção por moradores que acompanharam durante anos a expectativa pela construção da creche.

“Há muito tempo a gente esperava por essa escola. O prefeito disse que ia fazer e hoje estamos vendo a obra começar. Estou muito feliz porque nossas crianças vão ter onde estudar aqui mesmo no bairro”, destacou Maria da Conceição, representante das mães da comunidade.

A alegria também foi compartilhada pelas crianças que serão atendidas pela nova unidade. “Estou muito feliz porque o prefeito Roberto Costa vai construir uma escola para as crianças do Terra do Sol. Obrigada, prefeito!”, declarou Eloá Isabelle, de 4 anos.

Quando concluídas, as cinco creches deverão contribuir para a redução de aproximadamente 60% do déficit de vagas em creches e pré-escolas de Bacabal. Atualmente, o município conta com 25 escolas de Educação Infantil, que atendem 4.845 alunos.

Projetos resgatados

Durante a solenidade, o prefeito Roberto Costa destacou o trabalho realizado para recuperar projetos que estavam paralisados e viabilizar a retomada dos investimentos destinados à Educação Infantil.

“Depois de 12 anos de obras que foram paralisadas, há um ano e oito meses nós estamos numa luta diária. Em Brasília, fui diversas vezes ao FNDE e ao Ministério da Educação, tentando resgatar esses projetos que não tinham sido executados. E hoje, depois desse longo tempo, nós damos início à construção de cinco creches”, afirmou.

O prefeito ressaltou ainda que a ampliação da oferta de vagas terá impacto direto na vida das famílias, especialmente das mães que precisam conciliar os cuidados com os filhos, o trabalho e outras responsabilidades.

“As mães de família passavam pelos escombros e sonhavam um dia ter essa oportunidade de colocar o seu filho num lugar onde ela pudesse garantir também o café, o almoço e o jantar dessas crianças; que pudesse garantir a formação educacional delas. E hoje esse sonho começa a ser realizado”, destacou Roberto Costa.

Estrutura e prazo

Segundo o gestor municipal, as unidades serão construídas dentro dos padrões previstos nos projetos, classificados como Tipo 2 e Tipo 3. A expectativa é que as obras sejam concluídas em um período entre 10 e 12 meses, de acordo com as características de cada empreendimento.

“As creches terão o Tipo 2 e o Tipo 3, mas, até um ano, nós pretendemos garantir todo o recurso que for necessário para que possam ser entregues dentro da data prevista inicialmente”, explicou o prefeito.

Após a solenidade no Residencial Terra do Sol, Roberto Costa seguiu para o bairro Novo Bacabal, onde acompanhou o início da construção da creche localizada na Avenida Dom Bosco.

Com o início simultâneo das cinco obras, Bacabal avança na ampliação da Educação Infantil e transforma uma espera que atravessou mais de uma década em novas perspectivas para crianças e famílias de diferentes regiões do município. A expectativa é de que, com a conclusão das unidades, mais de 1.500 crianças possam conquistar um lugar na rede municipal de ensino, enquanto suas famílias passam a contar com uma estrutura pública mais próxima e preparada para os primeiros anos da vida escolar.

CRÔNICA DO DIA: Sal e Relevo

O mar em Icapuí, geralmente um espelho de cobalto que sussurrava promessas de abundância, amanheceu estranho. Marinalva sentiu o peso do ar antes mesmo de alcançar a areia. Quando os primeiros raios de sol tocaram a costa, o que ela viu não foi a espuma branca e generosa, mas uma película oleosa, um manto negro e viscoso que avançava lentamente, silenciando as ondas e cobrindo os caranguejos que teimavam em lutar contra a camada de piche. Ela tocou a água com a ponta dos dedos e o óleo, frio e denso, grudou em sua pele como uma sentença de morte. Suas mãos, calejadas por décadas de rede e remo, tremeram pela primeira vez. Não era medo do mar; era o pavor de ver seu sustento se transformar em lama.

Naquele dia, a vila de pescadores emudeceu. O cheiro era forte, acre, um atestado de que o equilíbrio do ecossistema fora violado por uma ganância que não tinha rosto, mas que deixava rastros inequívocos. Marinalva reuniu o grupo na sombra de um galpão de redes. Eram pescadores, mariscadeiras e artesãos, gente que entendia o tempo da maré melhor do que qualquer relógio. Ela olhou para cada rosto,  rostos curtidos pelo sol e pela salinidade  e sentiu a urgência da sobrevivência.

— Isso não é uma fatalidade. — Disse ela, a voz subindo acima do marulho estranhamente abafado.

— Isso é um ataque. Se a gente ficar aqui esperando o mar se lavar sozinho, o próximo a virar defunto na areia somos nós! — Desabafou Genival um pescador da comunidade.

A indignação, contida até ali pelo choque, explodiu em vozes sobrepostas. Eles eram uma gente acostumada a lidar com a natureza, a respeitar a fúria das tempestades e o silêncio da calmaria, mas nunca haviam enfrentado um inimigo que não pudesse ser lido ou previsto. A partir daquela tarde, o protesto tornou-se a nova lida. Marinalva transformou seu barco de pesca, o "Esperança", em um posto de comando improvisado. Se as autoridades não vinham ver a mancha, elas levariam o oceano ferido até elas.

Marinalva apoiou um pedaço de carvão sobre a madeira gasta do casco do Esperança e, com traços firmes, desenhou de memória o contorno da costa, as enseadas, os arrecifes e os pontos onde a maré costumava mudar de direção. Em torno dela, homens e mulheres acompanhavam cada risco em silêncio. Sem elevar a voz, começou a distribuir as tarefas. As marisqueiras separavam baldes, luvas e panos para recolher os resíduos que chegavam à praia. Os pescadores arrastavam sacos de fibra de coco para improvisar barreiras contra o avanço do óleo. Os mais jovens anotavam tudo o que encontravam: peixes mortos, aves cobertas de piche, trechos da areia já enegrecidos. Ninguém perguntou quem estava no comando. O próprio mar, ferido e silencioso, já havia escolhido sua liderança.

 Marinalva tornou-se a porta-voz, uma figura firme sob o sol do Ceará, usando seu lenço de cabeça como identificação e sua retórica como arma. Ela enfrentava representantes de empresas, jornalistas e políticos com a mesma destreza que usava para remendar redes de náilon.

— Vocês não estão vendo apenas uma mancha. — Ela dizia em uma reunião tensa no ginásio municipal. — Vocês estão vendo o fim da nossa memória. Nossos avós tiraram o leite das nossas mães desse mar. Se o peixe morre, a história de Icapuí é apagada. O relevo dessa costa é o nosso mapa; o sal é o nosso tempero. Não vamos trocar a nossa sobrevivência por um silêncio caro.

A pressão surtiu efeitos, ainda que lentos e dolorosos. A visibilidade forçou o início de uma limpeza coordenada e o reconhecimento da tragédia. Mas Marinalva não se deu por satisfeita com o uso de absorventes industriais e detergentes nas pedras. Ela liderou uma marcha que percorreu quilômetros de falésias até  Fortaleza, uma jornada de dor e exigência de justiça. Ela carregava, em um frasco de vidro, uma amostra do óleo negro, uma relíquia tóxica que servia como evidência constante da urgência.

Houve noites, durante o ápice do desastre, em que a desesperança quase a venceu. Quando ela voltava do protesto e olhava para o mar, a mancha ainda brilhava ao luar, um espelho maldito. Contudo, na manhã seguinte, ao ver as rede que ela própria remendou serem preparadas para uma pescaria ainda incerta, percebia que a resiliência era um músculo. Ela não estava apenas limpando o mar; estava preservando a dignidade de quem não sabe viver longe do horizonte.

Ao final do mês, quando os primeiros peixes voltaram a aparecer e o brilho do sol sobre a água começou a perder a viscosidade da morte, Marinalva finalmente respirou. O desastre a tinha mudado. Ela não era mais apenas uma pescadora que buscava o sustento; agora, era a sentinela do litoral. O sal, outrora apenas um elemento da natureza, agora representava o suor da sua luta; o relevo das falésias, a fortaleza que abrigava sua gente. Ela aprendeu que a terra e o mar não são elementos passivos de uma economia, mas seres que, quando feridos, exigem que a comunidade se erga como um único corpo.

Naquela tarde, Marinalva caminhou sozinha pela faixa de areia. Ainda havia manchas escuras escondidas entre as pedras, lembranças teimosas de um mar que demoraria a esquecer a violência sofrida. Mais adiante, um menino ajoelhado moldava um pequeno barco de madeira. Com um graveto, desenhava a vela e empurrava a embarcação para uma poça deixada pela maré. O barquinho balançou por um instante e seguiu adiante, levado por uma onda pequena, mas suficiente.

Marinalva abaixou-se. Colheu um punhado de sal úmido entre os dedos e deixou que os cristais escorressem lentamente pela mão, misturando-se ao vento que vinha do oceano. À sua frente, as ondas voltavam a quebrar com um som que ela conhecia desde menina. Depois de muitas semanas, o mar respirava sem pedir socorro.

Havia cicatrizes que permaneceriam nas pedras, na areia e na memória de quem vivera aqueles dias. Aquela criança disposta a colocar um barco nas águas e um mar capaz de empurrá-lo para frente, mostrava  que Icapuí continuaria encontrando razões para recomeçar.

José Casanova 

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

UEMA Bacabal promove Congresso Internacional sobre Educação, Ciência, Inovação e Desenvolvimento Sustentável

 

A Universidade Estadual do Maranhão (UEMA), Campus Bacabal, realiza, de 24 a 27 de agosto, o I Congresso Internacional INTERSABERES NA ERA DA IA, com o tema central “Convergências entre Educação, Ciência, Inovação e Desenvolvimento Sustentável”. A iniciativa propõe um amplo espaço de diálogo interdisciplinar sobre os desafios e as oportunidades trazidos pela Inteligência Artificial e pelas novas tecnologias para diferentes áreas do conhecimento e para a sociedade.

O congresso foi concebido como uma iniciativa voltada à integração entre ensino, pesquisa e extensão, aproximando a universidade da comunidade e estimulando a construção coletiva de conhecimentos. Ao longo dos quatro dias de programação, participantes terão acesso a palestras nacionais e internacionais, mesas-redondas, grupos de trabalho (GTs), minicursos, oficinas, apresentação de trabalhos científicos, pôsteres e premiação.

A proposta do evento ultrapassa a discussão tecnológica e busca compreender a Inteligência Artificial a partir de uma perspectiva ampla, envolvendo temas relacionados à educação, saúde, direitos humanos, inovação, tecnologia e sustentabilidade. As discussões também estarão articuladas aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e aos princípios da extensão universitária.

Nesse contexto, o congresso pretende criar pontes entre diferentes saberes e experiências, reunindo estudantes, docentes, pesquisadores, profissionais e representantes da comunidade em torno de questões que já fazem parte do cotidiano e que deverão ganhar ainda mais relevância nos próximos anos.

A presença da Inteligência Artificial nos ambientes educacionais, científicos e profissionais impõe novos desafios, mas também abre possibilidades para a produção de conhecimento, a inovação e a busca por soluções sustentáveis. É nesse cenário que o INTERSABERES se apresenta como espaço de reflexão sobre como a tecnologia pode ser utilizada de maneira ética, responsável e socialmente comprometida.

Além das conferências e debates, a programação científica dará espaço à produção acadêmica por meio da apresentação de trabalhos, fortalecendo a pesquisa e permitindo o intercâmbio de experiências entre participantes de diferentes áreas.

A realização do congresso no Campus Bacabal da UEMA também reforça a importância da universidade como espaço de produção científica, formação acadêmica e transformação social, colocando o município no centro de uma discussão que ultrapassa fronteiras regionais e dialoga com desafios contemporâneos de alcance internacional.

O I Congresso Internacional INTERSABERES NA ERA DA IA pretende, assim, transformar o encontro entre diferentes áreas do conhecimento em uma oportunidade para pensar o futuro. Um futuro no qual educação, ciência, inovação, tecnologia e sustentabilidade não sejam caminhos isolados, mas partes de uma mesma construção coletiva.

Para informações sobre submissão de trabalhos, normas, templates e demais orientações, os interessados devem consultar os canais oficiais de divulgação do evento.


segunda-feira, 17 de agosto de 2026

CRÔNICA DO DIA: Letras Tardias

 

O papel na mesa de madeira rústica, sob a luz amarela da lâmpada de teto, parecia uma extensão desconhecida do mundo. Dona Sebastiana, aos setenta anos, observava o vazio do caderno universitário como quem encara uma floresta virgem. Em Viana, a vida sempre lhe exigiu muito das mãos ; a enxada, a lavagem de roupas no rio, o preparo da farinha ,  mas nunca havia exigido a marcação linear da mente sobre a pele de celulose.

Seus dedos, tortos por décadas de lida e pela artrite que insistia em reclamar cada vez que o tempo mudava, seguravam o lápis como se fosse uma  ferramenta de precisão proibida.

Ela não queria ler por necessidade documental. O filho mais velho, que vivia em outra cidade, enviara um tablet meses atrás, mas para ela, aquele vidro negro não tinha alma. Ela queria ler porque o silêncio de suas tardes estava ficando preenchido apenas por sombras, e ela sentia que havia palavras presas na garganta que ainda não haviam se transformado em rabiscos.

— O "A" não é difícil, dona Sebastiana.  — Disse Marina, a neta de dez anos que, pacientemente, exercia o papel de tutora. — É só subir, descer e fazer a ponte no meio.

Sebastiana concentrou-se. A subida foi vacilante, a descida quase se perdeu nas fibras do papel.

Quando finalmente conectou os pontos e o desenho se formou, ela soltou um suspiro involuntário, como se tivesse desatado um nó que carregava desde a infância. Naquele instante, as letras não eram apenas fonemas; eram os nomes de tudo o que ela tinha vivido sem nunca ter nomeado. A erva que curava o estômago, o nome da rua onde nasceu, a saudade do marido falecido que ela antes apenas sentia, mas nunca pôde registrar.

As expectativas da vila eram rudes para com as mulheres de sua idade. O papel da anciã em Viana era o da colher de pau, da reza forte e do silêncio reverente sobre o que passou. Ninguém esperava que uma mulher de setenta anos buscasse o alfabeto. "Para que se estressar com isso agora?", alguns vizinhos perguntavam, os olhos velados por um preconceito que tratava a velhice como uma antessala da inutilidade.

Numa manhã de calor espesso, Sebastiana estudava sentada na varanda, o caderno apoiado sobre uma pequena mesa de madeira. A ponta do lápis avançava devagar, desenhando mais uma vez as letras do alfabeto, quando uma vizinha diminuiu o passo diante do portão.

— Agora? Depois de velha? Isso não enche panela. Papagaio velho não aprende a falar!

Sebastiana ergueu os olhos por um instante. Não havia irritação nem vergonha em seu rosto. Apenas voltou ao caderno, como quem já aprendera que certas palavras merecem o silêncio como resposta.

Com mão trêmula, traçou novamente a letra M. A primeira haste saiu torta; a segunda encontrou equilíbrio. Depois vieram o ã e o e. Quando terminou, contemplou demoradamente a pequena palavra escrita diante de si: mãe.

Naquele instante, compreendeu que algumas panelas alimentam o corpo, mas certas palavras alimentam a alma. Depois de  muitos anos, sentiu que a fome que carregava desde menina começava, enfim, a ser saciada.

Ela ouvia, mas não escutava. Aos setenta anos, ela havia aprendido o valor do desapego ao julgamento dos outros. Seus olhos, embora cansados, viam com uma nitidez que a juventude desperdiçava.

Naquela semana, a evolução foi lenta. Cada letra nova era uma conquista sobre o tempo. A cada sessão de estudo, Sebastiana sentia que o mundo, antes fechado em sua própria experiência limitada, começava a se abrir em novas frestas. Ela lia as placas de trânsito ao ir à feira, decifrava os rótulos dos remédios, e a sensação de autonomia era como uma segunda juventude, porém muito mais lúcida.

Não era a pressa das vontades, mas a calma da compreensão.

Certa tarde, Mariana lia um livro de contos regionais para ela. Sebastiana parou a neta em um parágrafo específico.

— Repete essa linha de novo, menina. — Pediu Sebastiana.

A menina leu. E Sebastiana percebeu que as palavras que ela via no livro tinham uma conexão ancestral com o que a vida lhe contara. Ela entendeu, com uma clareza que só o envelhecimento permite, que a sabedoria não está em acumular anos, mas em conseguir descrever a própria jornada. Ela começou a exercitar a escrita de curtas frases. "A vida é um rio que corre para o mar". "A farinha é doce na paz". Ela não estava mais escrevendo apenas letras; estava reescrevendo a si mesma.

A idade tornara-se, para ela, não uma limitação, mas um filtro de urgência. O que ela não aprendera na infância por carência de escola, ela se dava de presente como quem colhe um fruto tardio e, por ser tardio, muito mais saboroso. A resistência ao tempo tornou-se o seu maior ato de rebeldia. Ela, que sempre fora mulher de terra e sol, agora era também mulher de luz e pena.

Quando o sol de Viana se punha no horizonte, tingindo o céu de um violeta profundo, ela se sentava na varanda com seu caderno. Os vizinhos passavam e, em vez de verem apenas uma velha sentada na rede, viam uma mulher que se negava a ser esquecida pela história. Ela olhou para o próprio nome escrito na capa do caderno com letras grandes, um pouco irregulares, mas inegavelmente suas  e sentiu um orgulho que não lhe cabia no peito.

Ao fechar o caderno, percebeu que o lápis já não era o mesmo. Restava apenas um pequeno toco de madeira, arredondado pelos dedos e gasto por tantas tentativas, erros e descobertas. Sorriu ao segurá-lo entre as mãos. Pensou que também a vida lhe havia aparado as arestas, consumido parte da força e deixado marcas que o tempo não apagaria. Ainda assim, era justamente aquele pequeno pedaço de lápis que escrevera as palavras mais importantes de sua existência. Compreendeu, então, que algumas coisas diminuem apenas por fora. Por dentro, tornam-se maiores. Assim eram o lápis e ela: quanto mais o tempo os consumia, mais significado eram capazes de produzir.

 Aos setenta anos, a vida deixara de ser uma sucessão de dias iguais para se tornar um livro. E ela, agora estava escrevendo o final de sua própria história, compreendendo que, enquanto houvesse o interesse em aprender, o tempo nunca seria um obstáculo, mas apenas o cenário necessário para que a sabedoria encontrasse seu lugar de fala, de escrita e de existência plena.

José Casanova 
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista 
Membro da Academia Bacabalense de Letras 
Academia Mundial de Letras da Humanidade 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Mais de 1.500 bacabalenses passam por avaliação para cirurgias de catarata e pterígio

 

A Prefeitura de Bacabal realizou, no sábado (15), na Paróquia de Sant’Ana e São Joaquim, uma grande ação de saúde oftalmológica voltada à população do município. A etapa de triagem do Programa Amor no Olhar reuniu mais de 1.500 pessoas que passaram por avaliação médica para diagnóstico e encaminhamento para cirurgias de catarata e pterígio.

Desde as primeiras horas da manhã, moradores de diferentes bairros e povoados compareceram ao local em busca de atendimento. A estrutura montada pela Prefeitura contou com recepção, lanche, atendimento médico e acolhimento aos pacientes e acompanhantes, proporcionando mais conforto durante o processo de avaliação.

O mutirão amplia o acesso da população aos serviços especializados de saúde e atende uma demanda que afeta principalmente pessoas idosas. A catarata e o pterígio podem comprometer a capacidade visual e interferir diretamente na autonomia e na qualidade de vida dos pacientes.

Para o prefeito Roberto Costa, a iniciativa representa mais do que a realização de procedimentos médicos. Segundo ele, recuperar a visão também significa devolver autonomia e dignidade a pessoas que convivem há anos com dificuldades para enxergar.

“A gente sabe o quanto essa doença da catarata e do pterígio prejudica a nossa população, principalmente uma parcela mais idosa da nossa cidade. São mães de família, pais de família, avós. Nós temos casos de pessoas que não enxergavam mais em função do nível da catarata. Avós que nunca olharam o neto em função da doença e que, através desses mutirões, a gente conseguiu resgatar não só a esperança, mas a dignidade de cada pessoa da nossa cidade”, destacou o prefeito.

Entre os pacientes atendidos estava Raimundo Pereira da Silva. Para ele, a oferta do serviço pela rede pública representa uma oportunidade para pessoas que não teriam condições financeiras de custear consultas e cirurgias particulares.

“É muito bom, muito bom, né?! Muitas pessoas que não teriam condições de pagar uma consulta de vista ou fazer uma cirurgia. Eu tenho um salário, mas é comprometido por tanta despesa. Então, isso foi bem-vindo, ajudando a gente que não tem condição”, relatou.

A paciente Maria do Socorro Santos também destacou a organização e o acolhimento oferecidos durante a ação.

“Vixe Maria! Que nem o Roberto Costa não tem. Teve lanche, tem tudo aqui pra nós. Atendimento aqui, tudo maravilhoso”, afirmou.

Acesso pelas Unidades Básicas de Saúde

Um dos pontos destacados pela Prefeitura é a forma de acesso ao programa. As inscrições foram realizadas diretamente nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs) mais próximas das residências dos pacientes, permitindo organizar a demanda e facilitar o atendimento da população.

Após a inscrição, os pacientes passam pelas etapas de avaliação e triagem médica. Aqueles que apresentam indicação para cirurgia são encaminhados para o procedimento, conforme os critérios clínicos definidos pelas equipes responsáveis.

De acordo com Roberto Costa, a cirurgia de catarata continua entre as principais demandas oftalmológicas do município, especialmente pelo custo elevado do procedimento na rede particular.

“Nós fazemos diversos mutirões de outras cirurgias, de consultas com especialistas, mas a grande demanda que nós temos na cidade ainda é a cirurgia de catarata, principalmente pelo custo elevado dela na rede privada. Uma cirurgia dessa custa R$ 7 mil, R$ 8 mil, R$ 9 mil, R$ 10 mil, e claro que a grande maioria da população, mesmo sofrendo dessa situação, não tem condições”, explicou.

Cirurgias serão realizadas em agosto

Com a conclusão da triagem e a identificação dos pacientes com indicação cirúrgica, a próxima etapa do Programa Amor no Olhar será a realização dos procedimentos.

As cirurgias de catarata e pterígio estão programadas para os dias 21, 22 e 23 de agosto, dando continuidade ao mutirão que busca ampliar o acesso da população bacabalense à assistência oftalmológica especializada.

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

CRÔNICA DO DIA: Cânticos entre Tesouras

O salão de beleza de dona Eunice, em Pindaré-Mirim, não tinha o nome pomposo de um spa ou as luzes de LED dos grandes centros. Era um cômodo simples, conectado à sala de sua casa, onde o perfume de creme de pentear se misturava ao cheiro constante de café torrado na hora. No fundo, um rádio a pilha tocava hinos da harpa cristã em volume baixo, uma trilha sonora que parecia embalar não apenas o corte das tesouras, mas também as confidências que cruzavam o ambiente.

Eunice limpava a tesoura com um lenço de algodão, olhando pelo espelho uma cliente habitual, Marlene, que esperava o tempo da tintura agir.

Marlene tinha o olhar carregado de quem carregava problemas de adultério e dívidas que não cessavam.

O salão, para Eunice, nunca fora apenas sobre cabelo. Era um confessionário de aço e plástico. Ela acreditava firmemente que a beleza de uma mulher não terminava na raiz dos fios; começava exatamente onde a angústia encontrava uma escuta atenta.

— Você está muito quieta hoje, Marlene. A própria Bíblia diz que há tempo para tudo, e se o seu coração está pesado, é porque ele está cheio demais de coisas que não lhe pertencem .— Disse Eunice, com a autoridade de quem, durante anos, havia trilhado os caminhos da fé para curar as próprias rachaduras na alma.

Marlene soltou um suspiro longo, que parecia arrastar consigo toda a exaustão da semana.

 — É o desgaste, Eunice. Parece que, quanto mais eu oro, mais as muralhas aparecem. Meu marido não me escuta, as contas não fecham e a sensação é de que Deus está em silêncio.

               Eunice sorriu, um sorriso amplo e acolhedor, enquanto aplicava um pouco de reparador de pontas nos cabelos de Marlene. Ela sabia bem o que era o silêncio de Deus. Viver a fé evangélica em uma cidade como Pindaré-Mirim, onde as dificuldades da vida são tão palpáveis quanto o calor do meio-dia, exigia mais do que palavras bonitas; exigia prática. A fé não estava no púlpito da igreja aos domingos; estava ali, naquele salão, no ato de ouvir sem julgar a história de queda e ascensão de cada vizinha.

— Deus não está em silêncio, Marlene. Ele está na paciência. Às vezes, a nossa maior luta é aprender a esperar a resposta no tempo que não é o nosso. — Eunice começou a pentear os fios com delicadeza. — O erro é achar que a fé tem que resolver o mundo num passe de mágica. A fé te dá a força para aguentar o soco e ainda assim manter a cabeça erguida.

O sino preso à porta anunciou outra cliente. Era Neide, conhecida na vila pelo temperamento afiado. Sentou-se sem cumprimentar ninguém e jogou a bolsa sobre a cadeira.

— Só aparar as pontas. E, por favor, sem sermão hoje. Já basta o pastor no domingo.

O salão silenciou por um instante. Marlene abaixou os olhos. O rádio continuava a tocar um hino baixinho, quase como se não quisesse interferir.

Neide olhou para o aparelho e bufou.

— Esse povo vive dizendo que Deus resolve tudo. Resolve o quê? Meu marido morreu de câncer, meu filho foi embora e nunca mais deu notícia. Eu orei até perder a voz. Se Deus escutou, resolveu ficar calado.

As palavras ficaram suspensas no ar, mais cortantes que qualquer tesoura.

Eunice não respondeu imediatamente. Enrolou a capa no pescoço da cliente, borrifou um pouco de água sobre os cabelos e começou a penteá-los devagar.

— Sabe por que eu nunca desligo esse rádio? Não é porque minha vida seja bonita. É porque, nos dias em que eu também acho que Deus está longe, alguém canta por mim.

Neide permaneceu em silêncio.

— A fé não impede que a gente enterre quem ama. Também não paga boletos nem devolve filhos perdidos. Mas impede que a dor enterre a gente  primeiro.

A cliente desviou o olhar para o espelho, seus olhos marejaram.

— Faz tempo que ninguém me escuta sem querer me convencer de alguma coisa.

Eunice sorriu discretamente.

— Então hoje não vamos discutir Deus. Hoje vamos cuidar desse cabelo. Amanhã, se Ele quiser, a conversa continua.

O rádio seguiu tocando, e,  naquela tarde, ninguém mais  sentiu necessidade de dizer mais nada. O silêncio já fazia o trabalho que as palavras não conseguiam fazer.

Enquanto a tesoura movia-se com precisão, cortando pontas duplas, a conversa fluía para outros tópicos: a escola dos filhos, a situação da rua, as dificuldades da vizinhança. O salão era um refúgio da solidão que muitas daquelas mulheres evangélicas enfrentavam em suas casas. Ali, elas eram donas de si, tratadas com o carinho que a rotina do serviço doméstico ou do trabalho braçal muitas vezes roubava. Eunice era a pastora daquelas vidas sem necessariamente precisar de um título oficial. Ela exercia o ministério da escuta.

Uma moça mais jovem, recém-chegada à vila, entrou para fazer a sobrancelha. Estava visivelmente nervosa, segurando uma pequena bíblia de bolso com força. Ela observou Eunice conversando com Marlene e sentiu-se confortável para se abrir sobre suas dúvidas quanto a uma decisão que precisava tomar sobre um emprego em outra cidade. Eunice, sem interromper o trabalho, a intercalar frases sobre o dever do cristão com conselhos práticos sobre como gerir o próprio dinheiro e cuidar de sua independência.

Para Eunice, ser evangélica era exatamente isso: transformar o Evangelho em um manual de conduta prática para a vida. Não era sobre proibições ou sobre o medo do inferno, mas sobre a construção de uma dignidade que começava na forma como a mulher se via no espelho. Se a mulher se sentisse amada por Deus, ela trataria a si mesma com mais respeito, exigiria mais do marido, investiria mais na educação dos filhos e não se deixaria abater pelas circunstâncias da vila.

Ao final da tarde, a última cliente despediu-se com um abraço demorado. O rádio ainda deixava escapar um louvor antigo, misturando-se ao canto dos bem-te-vis que anunciavam o fim do dia. Eunice fechou a janela, recolheu as xícaras de café esquecidas sobre a bancada e passou a vassoura lentamente pelo piso.

Pequenos montes de cabelos formavam desenhos irregulares no chão: fios grisalhos, cacheados, lisos, tingidos, negros como a noite ou dourados pelo sol. Cada mecha parecia guardar um pedaço da história de quem havia passado por ali naquela tarde.

Ela juntou tudo na pá, caminhou até a porta e, antes de apagar a luz, desligou o rádio. O silêncio entrou devagar no salão. Eunice voltou os olhos para o monte de cabelos que ainda esperava para ser levado ao lixo.

Ali ficavam apenas fios. As dores, quase sempre, iam embora penteadas. Ela fechou a porta sem pressa. Do lado de dentro permanecia o cheiro de café recém-passado e de creme de pentear. Do lado de fora, a noite caía sobre Pindaré-Mirim. Amanhã outras mulheres chegariam trazendo novas aflições, e ela sabia que nem sempre teria respostas. Ainda assim, haveria uma cadeira vazia, uma tesoura afiada, um ouvido atento e uma esperança insistindo em nascer entre um corte de cabelo e outro.

José Casanova 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CRÔNICA DO DIA:O Jaleco e o Coração


O corredor do setor de oncologia do hospital em Fortaleza tinha um cheiro peculiar, uma mistura de antissépticos cítricos e o odor metálico e seco da esperança que se esgota. Dra. Clara ajustou o jaleco, prendendo o estetoscópio ao redor do pescoço com um gesto mecânico. Havia uma linha tênue, quase  invisível, entre o profissionalismo que a ciência exigia e o abismo emocional que cada prontuário carregava. Ela fechou os olhos por um segundo, respirando fundo, processando o protocolo que estava prestes a entregar para a paciente do leito 402: um estágio avançado, uma metástase que rastejava pelo corpo com a crueldade que só o câncer conhecia.

Entrar naquele quarto era entrar em um território onde as palavras de ordem não eram "cura" ou "dose", mas "acolhimento". Dona Vilma, uma professora aposentada que ainda guardava o hábito de corrigir a gramática dos enfermeiros, aguardava com o olhar fixo na janela por onde se via o sol estalando nos coqueiros da orla.

— Doutora. — Disse ela, com a voz embargada pela secura dos quimioterápicos.  — Eu não quero saber quanto tempo me resta. Quero saber se vou conseguir ir ao aniversário da minha neta no próximo sábado.

Clara sentou-se na cadeira de plástico, ignorando a postura ereta que a medicina a ensinara a manter para impor autoridade. Ela não era autoridade ali; era uma testemunha.

— Nós vamos ajustar a medicação de suporte para controlar a dor e o edema, Dona Vilma. Não vou mentir: o esforço é grande. Mas se o seu desejo é estar lá, nós faremos desse seu desejo o nosso objetivo clínico para esta semana.

Ciência e empatia não eram polos opostos no consultório de Clara; eram, na verdade, as duas pernas sobre as quais caminhava sua prática. Havia quem dissesse que se envolver demais era um erro fatal para o médico, um desgaste que levava ao esgotamento. Clara, contudo, achava o oposto: era a frieza que exauria. O custo de ser humano não era nada comparado ao custo de se tornar um autômato de jaleco branco, ignorando as cicatrizes na alma de quem enfrentava o fim.

O dia seguiu num fluxo de decisões técnicas: protocolos de infusão, ajustes de morfina, pedidos de exames. Em cada etapa, ela era confrontada com a finitude. Fortaleza, lá fora, seguia seu passo frenético, mas ali, dentro daquelas quatro paredes, o tempo tinha uma régua diferente. Ela viu mulheres que, diante da sentença de morte, redescobriram artes, perdões e vozes que haviam calado por décadas.

Certa manhã, ao entrar em um dos quartos, Clara encontrou sobre a mesa de cabeceira uma folha de papel coberta por pinceladas de aquarela. Era um desenho simples: um jardim, uma casa de janelas azuis e duas crianças correndo de mãos dadas. Ao lado, repousava um pincel ainda úmido.

Foi a senhora quem pintou? — Perguntou Clara, aproximando-se.

A paciente sorriu com um brilho sereno nos olhos.

Voltei a pintar depois de quarenta anos. Achei que nunca mais teria tempo. Engraçado... precisei descobrir que o tempo era curto para lembrar do que eu amava fazer.

Clara permaneceu alguns instantes olhando o desenho. Não havia ali qualquer técnica extraordinária. Havia vida. Havia memória transformada em cor.

Antes de deixar o quarto, a paciente acrescentou, quase num sussurro:

Se eu não conseguir terminar este quadro, minha filha termina por mim. O importante é que ele já começou.

Clara saiu em silêncio, levando consigo a certeza de que existiam curas que não apareciam nos exames nem cabiam nos prontuários. Viu famílias se despedaçarem e outras se unirem com uma força que nenhuma tomografia era capaz de captar.

Já ao fim da tarde, Clara encontrou um momento de paz na copa do setor. O cansaço físico era uma torrente, mas sua mente estava voltada para uma paciente jovem, cujo diagnóstico chegara na semana anterior. O dilema era constante: quanto da dor do outro ela devia carregar para casa? Havia um limite para a humanização quando os recursos da ciência se mostravam insuficientes?

Ela lembrou-se das palavras de uma preceptora, anos atrás: "A medicina cura às vezes, alivia frequentemente e consola sempre". Consolar, percebeu ela, não era dar respostas, mas simplesmente estar presente quando as respostas já não existiam mais. Não era sobre prolongar a vida por um mês a qualquer preço, mas sobre dar qualidade ao sopro que restava.

Ao sair do hospital, o sol de Fortaleza já descia, pintando o céu em tons de brasas. Clara caminhou até o estacionamento sentindo o peso do jaleco, que parecia mais pesado do que quando chegara pela manhã. Era o peso das histórias que ela abrigava, das lágrimas que secou e das mãos que segurou nos instantes finais. Ela percebeu que sua profissão não era apenas sobre deter a morte; era sobre garantir que, durante o tempo que houvesse, a dignidade fosse a norma.

Ela entrou no carro e, por um momento, permaneceu parada, olhando para a estrutura do hospital que se espelhava no vidro.

Ela acomodou a bolsa no banco do passageiro, colocou a chave na ignição e girou-a apenas o suficiente para acender o painel. O motor, porém, permaneceu em silêncio. Seus olhos pousaram sobre uma folha de papel presa sob o para-sol.

Era um desenho antigo, já um pouco amassado nas bordas pelo tempo.  Uma casa de telhado vermelho, um sol enorme ocupando quase metade da folha e, ao lado de uma mulher de jaleco branco, uma criança de mãos dadas com ela. No canto, escrito com letras irregulares, havia apenas:

"Para a doutora Clara."

Ela retirou o papel com cuidado, como quem toca uma lembrança que ainda respira. Observou o desenho durante alguns segundos. Um sorriso discreto lhe atravessou o rosto. Não havia fotografias, notícias ou qualquer outra lembrança que explicasse o destino daquela criança. Apenas aquele pedaço de papel que o tempo insistira em preservar.

Clara passou delicadamente os dedos sobre a dobra da folha, respirou fundo e tornou a guardá-la no mesmo lugar. Só então ligou o carro. Enquanto o motor despertava, ela compreendeu que alguns pacientes deixavam o hospital levando parte do tratamento. Outros, sem perceber, deixavam com ela pequenos fragmentos de humanidade que nenhuma faculdade ensinava a acolher e que nenhum jaleco conseguia esconder.

A ciência era a ferramenta, o bisturi, o fármaco, a tecnologia de ponta; mas o coração era o único instrumento capaz de traduzir aquela técnica em conforto. Amanhã haveria outros leitos, outros nomes, outros diagnósticos. Mas, por hoje, ela fizera o seu melhor, não apenas como oncologista que monitorava células malignas, mas como alguém que entendia que, no delicado limiar entre o jaleco e o coração, a medicina atingia seu ápice não quando derrotava a morte, mas quando conseguia, finalmente, olhar nos olhos de quem partia e validar a beleza do que foi vivido.

José Casanova 

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

CRÔNICA DO DIA : O Falso Cristianismo na Política Brasileira

     

Há cenas da política brasileira que parecem escritas por um cronista de humor ácido. O plenário está cheio. Microfones ligados. Câmeras apontadas. Vereadores, Deputados e senadores ocupam seus lugares. Alguém se levanta porque foi convidado pela presidência da casa, abre a Bíblia e faz uma leitura bíblica antes do início da sessão. Por alguns minutos, reina uma espécie de solenidade. Fala-se em Deus. Pede-se sabedoria. Invoca-se a paz. Talvez alguém mencione amor ao próximo.Então a Bíblia é fechada. E começa a sessão.

    Cinco minutos depois, aquilo que parecia uma cerimônia religiosa transforma-se em ringue verbal. Parlamentares trocam acusações, levantam a voz, interrompem-se, chamam uns aos outros de mentirosos, fofoqueiros, ladrões, incompetentes, fracos. O adversário deixa de ser um cidadão que pensa diferente e passa a ser tratado como inimigo.

    É quando a Bíblia parece permanecer sobre a mesa, enquanto seus ensinamentos são expulsos pela porta. Não há problema algum em um parlamentar professar sua fé. A liberdade religiosa é um dos pilares de uma sociedade democrática. O problema está em transformar a fé em cenário, ritual obrigatório de aparência ou instrumento de manipulação política.

    Porque existe uma diferença enorme entre ter fé e usar a fé. A primeira transforma a pessoa. A segunda pode transformar o eleitor em instrumento.

    O que deveria ser um momento de reflexão acaba, muitas vezes, funcionando como uma espécie de verniz moral. Lê-se um versículo para depois agir como se ele não tivesse sido lido. É como lavar as mãos antes de sujá-las. E talvez seja justamente essa contradição que mais deveria incomodar.

    Não porque a política deva ser silenciosa diante da religião. Pelo contrário. O parlamentar tem todo o direito de acreditar, rezar, citar a Bíblia e buscar nela inspiração para sua vida pública. Mas a Bíblia não deveria servir como salvo-conduto para a grosseria. Nenhum versículo transforma ofensa em argumento. Nenhuma oração santifica uma mentira. Nenhum discurso sobre Deus absolve automaticamente a corrupção. Nenhuma citação bíblica concede ao político o direito de humilhar o adversário.

    E certamente nenhuma leitura religiosa deveria ser utilizada para convencer o eleitor de que determinado grupo político possui uma espécie de certificado divino de superioridade moral. O fenômeno é perigoso porque a fé, para milhões de brasileiros, não é apenas uma opinião. É território sagrado. É memória de mãe, conselho de avó, oração antes de dormir, promessa feita em momento de desespero, esperança guardada quando quase tudo parece perdido.

    Quem manipula essa fé sabe disso. Sabe que o eleitor religioso pode não enxergar apenas um candidato diante de si. Pode enxergar alguém que se apresenta como defensor de Deus, da família, da moral e dos bons costumes. E, quando a política veste uma fantasia religiosa, qualquer crítica ao político pode ser apresentada como crítica à própria fé.

    É aí que a democracia começa a respirar com dificuldade. O adversário político deixa de ser adversário. Torna-se inimigo de Deus. A divergência vira pecado. A oposição vira perseguição. A pergunta vira afronta. A crítica vira heresia.

    E o debate democrático, que deveria ser construído com argumentos, passa a ser disputado com dogmas. É uma forma particularmente perigosa de manipulação porque não procura convencer apenas a razão. Procura sequestrar a consciência. O parlamentar diz: "Deus está conosco". 

    Mas quem autorizou alguém a falar em nome de Deus para ganhar uma disputa política? Deus não participa de bancada. Não assina requerimento. Não pede voto. Não precisa de líder partidário. E, principalmente, não deveria ser transformado em cabo eleitoral.

    A cena do plenário revela uma ironia quase perfeita: abre-se a sessão com uma leitura que fala de amor, justiça ou sabedoria e, poucos minutos depois, os mesmos homens e mulheres que ouviram aquelas palavras começam a se comportar como se Deus tivesse deixado o recinto pela porta dos fundos.

    Talvez a pergunta mais importante não seja: "Quem leu a Bíblia?" Mas: "Quem conseguiu levar aquela leitura para dentro das próprias atitudes?" Porque ler a Bíblia é fácil. Difícil é praticá-la quando o adversário está diante de nós. É fácil falar em amor ao próximo quando o próximo concorda conosco. Difícil é respeitá-lo quando ele pensa diferente. É fácil defender a paz diante das câmeras.nDifícil é controlar a língua quando o plenário ferve.

    É fácil pedir sabedoria a Deus. Difícil é reconhecer que podemos estar errados. É fácil falar de honestidade. Difícil é permitir que a transparência alcance também os próprios interesses.

    A política precisa de ética, mas a ética não pode ser terceirizada para a religião.

    O Estado democrático não precisa saber qual político reza mais. Precisa saber quem cumpre a lei, respeita as instituições, administra corretamente o dinheiro público e trata o cidadão com dignidade.

    O eleitor também precisa desconfiar de quem usa Deus como argumento para escapar da crítica.

    Porque uma democracia saudável não precisa de políticos santos. Precisa de políticos responsáveis. Não precisamos eleger apóstolos. Precisamos eleger representantes. E talvez esteja na hora de deixar a Bíblia fazer aquilo que uma Bíblia deveria fazer: provocar consciência, não fabricar votos.

    Que ela permaneça aberta sobre a mesa, sim.  Mas que suas palavras atravessem a mesa, atravessem o microfone e cheguem até o comportamento de quem ocupa o plenário. Caso contrário, a leitura bíblica corre o risco de se transformar apenas em ritual. Uma espécie de prólogo religioso para uma peça política na qual, cinco minutos depois, entram em cena os gritos, as acusações, os insultos e as velhas guerras de sempre.

    Há algo profundamente triste nessa imagem. A Bíblia aberta. A consciência fechada. E a democracia pagando a conta.

José Casanova 
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista 
Membro da Academia Bacabalense de Letras 
Academia Mundial de Letras da Humanidade