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domingo, 2 de agosto de 2026

CRÔNICA DO DIA: O Sonho Dobrado na Bolsa


A chuva despencava sobre São Luís Gonzaga do Maranhão como se tentasse lavar as irregularidades do calçamento de pedra, mas lá embaixo, onde o asfalto se misturava à lama, a cidade apenas parecia se fechar em uma melancolia cinzenta. Dalva estava encostada na moldura da porta do bar "Esquina da Sorte", observando as gotas pesadas formarem cortinas translúcidas sobre o mundo. O cheiro de terra molhada se fundia ao aroma barato de cigarro e ao perfume adocicado que ela usava para tentar mascarar a rotina.

Seu reflexo na vidraça embaçada mostrava uma mulher que o espelho insistia em datar, mas que os olhos, ainda ávidos, se recusavam a aceitar. Dalva não era apenas o corpo que circulava entre os homens que buscavam esquecimento ou companhia barata. Dentro de sua cabeça, ela ainda guardava o caderno de caligrafia que um antigo professor, lá no tempo de menina, havia chamado de "o mais bonito da turma". Ela ainda era a menina que sonhava em ser costureira de vestidos de noiva, alguém que desenhava rendas nos cadernos como se pudesse, de fato, tecer um destino diferente.

Um carro passou devagar, as luzes dos faróis cortando a penumbra, e ela sentiu o calafrio que qualquer mulher na rua conhece bem: o misto de vulnerabilidade e a necessidade de não se deixar abater pelo medo. Ela ajeitou a franja com os dedos, um hábito nervoso que mantinha desde a adolescência em Carolina, antes de a vida tomar os rumos de espinho e poeira que a trouxeram até ali.

— Está vindo alguém, Dalva? — Perguntou Joca, o dono do bar, enquanto limpava o balcão com um pano encardido de tão usado.

Dalva não respondeu de imediato.

— Você podia ter outra vida. — Disse Joca.

— Escolha é palavra bonita quando a barriga já jantou.

Ela observou um grupo de rapazes rindo na mesa do canto, ignorantes quanto à existência dela, exceto pelas vezes em que precisavam de um olhar ou de um consolo passageiro. "Humanizar" era uma palavra que ela nunca usara, mas sentia na pele a falta que ela fazia. Para aqueles homens, ela não tinha biografia, não tinha infância, não tinha planos para além do próximo pôr-do-sol. Ela era a paisagem noturna, a funcionalidade da carne, um vulto que atravessava a calçada.

Pensou em sua mãe, na casa de taipa que ficara para trás. Pensou em como, se a vissem naquele momento, a julgariam pela régua da moralidade alheia, sem nunca perguntar quanto custou a ela manter a sanidade.

A prostituição, para Dalva, não era uma "escolha" feita em um escritório, mas uma deriva que foi acontecendo centímetro a centímetro, perna a perna, degrau a degrau, até que o solo embaixo dela já era outro. Ela se lembrava de ser amada, de ter sentido a pele ser tocada com respeito, algo que parecia ter ficado preso em algum ano anterior à virada do milênio.

A chuva aumentou, o som nas telhas de zinco tornando-se um rufar de tambores de guerra. Dalva sentiu um aperto no peito, uma vontade quase infantil de correr para debaixo de algum telhado seguro, mas não havia para onde ir. O seu "lugar" era ali, onde as esquinas de outrora se confundiam com a precariedade do agora. Ela olhou para a própria mão, enfeitada com um anel de bijuteria barata que soltava tinta verde nos dedos. Ainda havia ali a beleza das mãos que um dia desenharam rendas.

— A vida não é o que a gente faz quando não tem saída, Joca. — Ela disse, de repente, quebrando o silêncio do bar.

Joca parou a limpeza, confuso.

— Falou alguma coisa, Dalva?

Nada. — Ela forçou um sorriso, um daqueles que usava como armadura. — Só estava pensando que essa chuva vai estragar o movimento.

Mas não era pelo movimento que ela chorava por dentro. Era pelo reconhecimento de que, embora a rua estivesse cheia de homens, ela se sentia como se vivesse em um vácuo.

Foi então que a porta do bar se abriu outra vez. Um menino de não mais que oito anos entrou correndo, encharcado da cabeça aos pés. Apertava contra o peito um caderno protegido por um saco plástico já rasgado nas pontas.

Olhou para dentro do salão com a timidez de quem sabia que aquele não era um lugar para crianças.

— Moço... tem um copo d'água?

Joca apontou com o queixo para o balcão.:

— Dalva, pega uma água pra ele.

Ela encheu um copo de alumínio e o entregou. O menino bebeu depressa, respirou fundo e devolveu o copo com as duas mãos. Nesse instante, seus olhos encontraram os dela. Não havia curiosidade. Não havia malícia. Nem julgamento. Apenas gratidão.

— Obrigado, dona.

Dalva demorou um segundo para responder. Havia muito tempo ninguém lhe dirigia uma palavra tão simples. Sorriu sem perceber.

— Vai com cuidado. A chuva ainda não terminou.

O menino fez que sim com a cabeça, apertou novamente o caderno contra o peito e saiu correndo pela rua molhada. Dalva acompanhou seus passos até que desaparecessem atrás da cortina de chuva. Então olhou para as próprias mãos. As mesmas mãos que tantos conheciam sem jamais cumprimentar naquela noite, sentiram que ainda existia fora do papel que o mundo insistia em lhe dar.

Ao ver uma luz tremeluzir na poça de água à sua frente, Dalva se lembrou do vestido de noiva que nunca costurou nem vestiu.

Pouco depois, a chuva começou a perder força. As gotas grossas transformaram-se em pingos espaçados, até que restou apenas o som da água escorrendo pelas calhas enferrujadas.

Joca apagou uma das luzes do bar.

— Pode fechar, Dalva. Hoje a noite morreu mais cedo.

Ela apenas assentiu. Empurrou a cadeira para debaixo da mesa, ajeitou a alça da bolsa no ombro e caminhou devagar até a porta. Antes de sair, abriu a bolsa de couro já gasta pelo tempo.

Entre um batom sem tampa, um pente de dentes quebrados e algumas notas dobradas, retirou um pedaço de papel amarelado. Desdobrou-o com o cuidado de quem toca uma fotografia antiga. Era um desenho. Um vestido de noiva. A renda havia sido desenhada a lápis, com linhas delicadas que o tempo quase apagara. Dalva passou a ponta dos dedos sobre o papel.

Sorriu. Não um sorriso de felicidade. Mas de reconhecimento. Dobrou novamente o desenho, alisando cada vinco com paciência, e guardou-o de volta na bolsa. Então saiu. A rua ainda brilhava sob a água da chuva na terra do cuxá. Ela caminhou sem pressa entre as poças que refletiam as luzes dos postes. Naquela noite, ninguém a chamou. Ninguém a assobiou. Ninguém lhe pediu nada. Era apenas uma mulher atravessando a cidade. E, por alguns quarteirões, isso lhe pareceu suficiente.

José  Casanova

sábado, 1 de agosto de 2026

CRÔNICA DO DIA: Mãos de Terra e Sol

O despertador, um galo que teimava em cantar muito antes de o horizonte clarear, soou como um aviso de batalha para Alzira. Em Alto Alegre do Maranhão, o dia não chega devagar. Ele irrompe, como se o sol tivesse urgência de alcançar cada telhado. Ela se levantou da rede antes que o primeiro sinal de claridade tocasse o chão de terra batida, cuidando para não despertar os dois meninos que dormiam enroscados no catre.

O café, ralo e amargo, foi tomado em silêncio. Era o único momento em que a casa, construída com tábuas e que o tempo havia curado, oferecia algum sossego antes das exigências da lida.

Ao sair, o ar ainda tinha aquele frescor enganoso, uma brisa leve que logo seria engolida pelo sol impiedoso do Maranhão. Alzira trajava uma camisa de mangas compridas, já puída pelos anos, uma proteção insuficiente contra o mormaço que a esperava. Carregava a enxada como se fosse uma extensão de seu próprio braço; o metal, desgastado pelo atrito constante com a terra, brilhava sob a luz lunar que ainda persistia.

O trajeto até a roça era uma subida exigente, um terreno íngreme onde cada passo era um exercício de equilíbrio. Alzira não caminhava por gosto, caminhava por contrato, um acordo tácito com a existência para garantir que, ao final do mês, a mesa não ficasse vazia. A terra ali era caprichosa; um dia oferecia sustento farto, noutro, exigia suor de sangue para entregar um punhado de raízes mirradas. Ela limpava o mato com uma técnica precisa, um movimento rítmico que impedia a exaustão total. Seus olhos, habituados a identificar brotos de ervas daninhas quase invisíveis, varriam o solo com uma atenção febril.

Perto do meio-dia, o sol já não era uma presença, mas um martelo. A umidade da terra subia como um bafo quente, e o suor escorria pelas têmporas, ardendo nos olhos. Alzira se sentou sob a sombra rudimentar de um pé de manga rosa, o único refúgio naquelas cercanias. O almoço era escasso: uma porção de farinha misturada com um pouco de proteína, guardada em uma vasilha de plástico.

Enquanto mastigava, não pensava no cansaço ou nas dores que latejavam em sua lombar. Pensava nos cadernos dos meninos.

Na noite anterior, depois da janta, Tiago espalhara o caderno sobre a mesa de madeira. A lamparina desenhava sombras compridas sobre as páginas.

— Mãe... a professora disse que isso aqui cai na prova.

Ele apontou o mapa do Brasil.

— Onde fica o Cerrado? — Perguntou Tiago.

Alzira aproximou o rosto. As letras pareciam pequenas demais. Passou o dedo devagar pelas linhas, como se pudesse encontrar a resposta pelo tato.

— Lê de novo pra mim, meu filho.

Tiago repetiu a pergunta. Ela permaneceu em silêncio. O menino esperou.

— A senhora não sabe?

A pergunta saiu sem maldade. Era apenas curiosidade. Alzira baixou os olhos:

— Não sei, não.

Tiago fechou o caderno com cuidado.

— Tudo bem... amanhã eu pergunto pra professora.

Ele tentou sorrir, mas o sorriso morreu antes de chegar aos olhos. Nesse instante, o menor, que desenhava no chão com um pedaço de carvão, levantou a cabeça.

— Quando eu crescer, vou ensinar a mamãe.

Os dois irmãos riram. Alzira também sorriu. Mas foi um sorriso curto, desses que escondem alguma coisa. Ela passou a mão pelos cabelos de Tiago.

— Não quero que vocês me ensinem porque eu não pude aprender. Quero que estudem porque o mundo é maior que essa roça.

Tiago olhou pela janela. A lua clareava apenas um pedaço do terreiro.

— Maior quanto? — Quis saber Tiago.

Alzira demorou para responder. Depois fitou a escuridão, onde começavam os caminhos que nunca havia percorrido.:

— Grande o bastante pra vocês escolherem onde querem plantar a própria vida.

O silêncio voltou para a casa. Lá fora, um grilo insistia no mesmo canto. Tiago abriu novamente o caderno. Dessa vez não para perguntar. Mas para continuar estudando. E Alzira percebeu que, embora não soubesse responder àquela questão de geografia, talvez estivesse ensinando a mais importante de todas.

A tarde seguiu nesse embate. Alzira cavava, revolvia, capinava. Suas mãos, grossas, com rachaduras que acumulavam o pó da terra, narravam uma biografia de renúncias.

Às vezes, quando tinha certeza de que não havia ninguém por perto, Alzira cantava.

Era um canto baixo, quase um segredo, aprendido com a mãe ainda menina. A melodia saía desafinada pelo cansaço, mas bastava para acompanhar o ritmo da enxada. O vento levava metade das palavras; a outra metade ficava enterrada junto das raízes que arrancava.

Parou de repente. Um estalo no mato fez seu corpo enrijecer. Ergueu a cabeça.

Os olhos percorreram a cerca de varas, os galhos secos, a vereda por onde, vez ou outra, apareciam cobras ou algum estranho atravessando propriedades.

Ninguém.

Ela respirou fundo e sorriu de si mesma:

— Estou ficando medrosa... — Murmurou.

Voltou ao trabalho.

Enquanto a enxada afundava na terra, outra lembrança emergiu. Quando era menina, dizia ao pai que queria ser professora.

Gostava do cheiro dos cadernos novos e das letras desenhadas no quadro da pequena escola da comunidade. Imaginava-se escrevendo o próprio nome todos os dias com giz branco.

Mas a seca de um ano ruim levou primeiro a colheita. Depois levou a escola. E, por fim, levou a infância. Nunca mais falou daquele sonho. Nem para o marido, quando ainda era vivo. Nem para os filhos. Alguns sonhos, aprendera cedo, sobrevivem melhor quando permanecem calados.

Mesmo assim, havia dias em que, sem perceber, corrigia a maneira como Tiago segurava o lápis, alisava as folhas amassadas dos cadernos ou passava a mão sobre os livros como quem acaricia uma porta que nunca conseguiu atravessar.

Então voltava a cantar. Não porque estivesse feliz. Mas porque certas canções conseguem carregar um peso que as palavras não suportam. A enxada desceu outra vez.

E o compasso entre o ferro e a terra pareceu acompanhar a antiga cantiga, como se o chão conhecesse sua história havia muito mais tempo do que qualquer pessoa.



Cada golpe da enxada era um depósito invisível para o futuro dos filhos. À medida que o sol descia, tingindo o céu de um alaranjado violento, ela reunia as ferramentas. O cansaço era absoluto, uma dormência que dominava cada articulação, mas sua mente permanecia estranhamente aguçada. Ela observava a roça, o resultado de seu esforço, e sentia um orgulho silencioso. Não era uma propriedade gloriosa, não havia colheitas recordes, havia apenas a subsistência conquistada a preço de ouro líquido.

O retorno para casa era feito no crepúsculo. Quando atravessava a porta, o cheiro de madeira antiga e de fogão a lenha a recebia. Os meninos estavam acordados, rabiscando folhas com lápis gastos. O mais novo, ao vê-la, correu para abraçar seu avental sujo. Alzira sentiu um alívio que transcendia o cansaço. Ela não via as marcas em suas mãos como feridas, mas como selos de uma jornada que, embora exaustiva, mantinha a família em pé.

Durante o jantar, enquanto ouvia as histórias da escola, ela quase não falava.

Tiago terminou de comer, limpou os dedos na barra da bermuda e puxou o caderno da mochila.

— Mãe, a professora pediu uma redação.

Abriu na última página.

As letras ainda tropeçavam umas nas outras, algumas grandes demais, outras espremidas entre as linhas. Havia palavras riscadas, setas apontando para correções e um pequeno "Muito bem!" escrito em tinta azul no alto da folha.

Tiago respirou fundo.

— Posso ler?

Alzira fez que sim.

O menino começou devagar. Lia sobre a chuva que demorava a chegar, sobre o cheiro da terra molhada e sobre a esperança de ver a roça outra vez coberta de verde. À medida que as palavras saíam de sua boca, os olhos de Alzira deixavam o caderno e repousavam no rosto do filho.

Quando terminou, ele fechou o caderno com cuidado. Ficou alguns segundos em silêncio. Então perguntou:

— Mãe... escrevi bonito?

Alzira sentiu o peito apertar.

Ela não sabia dizer se havia vírgulas fora do lugar, se os verbos estavam certos ou se alguma palavra carregava letras sobrando.

Sabia apenas reconhecer a verdade. Passou a mão devagar pelos cabelos do menino e sorriu:

— Bonito é quando a palavra leva a gente mais longe.

Tiago olhou novamente para o caderno. Sorriu também. Não porque tivesse certeza de que escrevera corretamente. Mas porque compreendeu que escrever podia ser uma maneira de caminhar sem sair do lugar.

O silêncio, naquela hora, era um ato de contemplação. Enquanto os meninos comiam, ela observava os raios de luz que entravam pelas frestas da parede de barro e talos, iluminando o pó que flutuava no ar. Ali, naquela precariedade, o mundo fazia algum sentido. Ela tinha a terra sob as unhas, o sol marcado na pele e o futuro dos filhos pulsando na mesa. Alzira sabia que o sol de amanhã seria novamente um teste de resistência, que a enxada continuaria pesada e que o esforço não teria fim. Mas enquanto houvesse força para levantar a mão e virar o solo, haveria esperança. A jornada era dura, mas cada dia era um pouco de solo lavrado para que os filhos, um dia, não precisassem aprender a ler o mundo apenas pelo cansaço da terra, mas pela possibilidade de um destino por eles mesmos escolhido.

 José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e cronista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade

sexta-feira, 31 de julho de 2026

CRÔNICA DO DIA: O Hábito e a Rua


O vento que sopra em Fortaleza, mesmo na calada da noite, nunca é frio o suficiente para abrandar o asfalto quente da Praia de Iracema. Irmã Helena ajustou o hábito, tentando disfarçar o desconforto com a rigidez do tecido diante da umidade salina que colava a veste ao corpo. O hábito branco, que deveria representar a pureza e a ordem, parecia, sob a luz alaranjada dos postes, uma bandeira de rendição em meio ao caos da madrugada.


Atrás da Catedral, onde as sombras são mais longas, ela encontrou Antônia. Ou o que restava de Antônia. A mulher estava encolhida sobre um pedaço de papelão, os joelhos encostados no peito, os dedos encardidos de fuligem segurando um frasco vazio de cola. Helena ajoelhou-se no chão, manchando a barra do hábito sem hesitar. Sua fé, que antes encontrava refúgio nas orações entoadas no silêncio da capela de Nossa Senhora da Penha, ali se tornava uma faca de dois gumes. Como falar de um plano divino para alguém que sequer tinha certeza de que sobreviveria à névoa da próxima hora?

— Antônia, filha, vamos lá para o abrigo. A noite está perigosa. — Disse Helena, a voz baixa para não despertar a desconfiança da mulher. Antônia levantou os olhos, dois círculos injetados de desamparo. Ela deu um riso seco, que logo se transformou em um acesso de tosse profunda, que parecia arrancar pedaços do seu pulmão.

— O seu Deus também esqueceu de mim aqui, irmã. Por que a senhora não vai lá rezar no seu altar de ouro e me deixa em paz? — A pergunta não tinha ódio, apenas a exaustão absoluta de quem já não esperava nada de ninguém.

Helena sentiu um abismo se abrir sob seus pés. Ela havia estudado teologia, passara anos em retiros silenciosos, mas o seminário não incluía manuais sobre como converter a fome em esperança. A dualidade a golpeava: de um lado, a crença absoluta de que cada vida era sagrada; do outro, a evidência brutal de que a sociedade havia decidido que Antônia era um custo, uma falha, um detalhe descartável na paisagem urbana.

— Eu não rezo por você porque a senhora está esquecida, Antônia. Eu rezo por mim, para que eu tenha forças para não virar as costas quando o seu nome for cuspido pelos outros. — Helena respondeu, estendendo a mão.

O dilema moral pesava mais que o terço no bolso.

Se ela levasse Antônia para o abrigo, teria que enfrentar as regras do convento, o controle rígido de horários, as críticas silenciosas de outras irmãs que viam na marginalidade uma mácula que não deveria cruzar os portões da instituição. A fé, que deveria ser um consolo, tornava-se ali uma arena de combate. Helena questionava se a caridade, quando limitada por muros e burocracias, ainda mantinha sua essência ou se tornava apenas mais uma forma de gestão da pobreza.

Antônia, com um esforço sobre-humano, colocou a mão sobre a de Helena. A pele era fina, quase transparente. Eram duas mulheres à margem: uma, pela escolha do celibato e da dedicação ascética; a outra, pelo completo descarte social. A freira sentiu o tremor daquela mão e o dilema se dissolveu em um único imperativo: o momento presente.

Elas caminharam em silêncio de volta. Passaram por grupos de jovens com roupas caras, por turistas que desviavam o olhar como se a visibilidade da miséria pudesse ser contagiosa. Helena guiava o passo daquela mulher com uma reverência que dedicaria a um círio pascal. Ao chegarem ao portão do abrigo, ela sentiu o peso dos olhares das outras irmãs que observavam da janela.

A fé, para Helena, deixou de ser um dogma a ser recitado e passou a ser o peso daquele corpo que ela ajudava a carregar. Ao colocá-la na cama limpa, enquanto Antônia tremia sob os cobertores, a freira percebeu que o hábito que vestia nada significava se não servisse para esconder as feridas de quem a sociedade preferia não ver. Ela fechou a porta, não para aprisionar Antônia, mas para proteger aquela pequena humanidade contra o mundo lá fora.

Naquela noite, a oração foi breve. Ela percebeu que, nas ruas de Fortaleza, a verdadeira liturgia não mora no altar, mas no ato perigoso e subversivo de se ajoelhar no chão frio para estender a mão a que já não tem mais nada para oferecer além da própria dor.

José Casanova

ABL prestigia lançamento do livro infantil "Casa de Todo Jeito", de Jeane Miranda, em Bacabal

 

A Academia Bacabalense de Letras (ABL) marcou presença, na noite desta quinta-feira (30), no lançamento do livro infantojuvenil "Casa de Todo Jeito", da professora e escritora Jeane Miranda. O evento foi realizado no auditório da Escola Reis Magos, em Bacabal, reunindo leitores, educadores, estudantes, familiares e admiradores da literatura.

Representando a ABL, participaram o presidente José Casanova e a secretária-geral da instituição, Liduina Tavares, reforçando o compromisso da Academia com o incentivo à produção literária e à valorização dos escritores bacabalenses.

Em Casa de Todo Jeito, Jeane Miranda convida o leitor a refletir sobre os diferentes significados do lar e as múltiplas formas de convivência presentes nas histórias que atravessam gerações. Com uma narrativa leve e sensível, a autora revisita casas clássicas da literatura infantil, como a dos Três Porquinhos, que sonhavam em ser vizinhos, e a casa de doces de João e Maria, da qual as crianças precisaram fugir. Cada cenário revela diferentes experiências familiares, passando por ambientes de acolhimento, desafios e exclusão.

A obra propõe uma jornada de autodescoberta e empatia, mostrando que a essência de uma casa ultrapassa suas paredes e está ligada ao pertencimento, ao amor e à segurança. Ao longo da narrativa, Jeane Miranda apresenta uma visão de mundo em que todas as pessoas, independentemente de suas histórias ou circunstâncias, possam encontrar um lugar para chamar de lar.

O livro encerra sua mensagem resgatando uma das frases mais marcantes da personagem Dorothy, de O Mágico de Oz: "Não há lugar como a nossa casa", reafirmando a importância do lar como espaço de afeto e proteção.

Durante o lançamento, Jeane Miranda conversou com o público sobre o processo de criação da obra, respondeu perguntas dos participantes, posou para fotografias com os leitores e autografou exemplares adquiridos durante o evento.

Em sua manifestação, o presidente da Academia Bacabalense de Letras, José Casanova, destacou a relevância da contribuição da escritora para a literatura local e deixou uma mensagem de reconhecimento ao seu trabalho. Segundo ele, a qualidade da produção literária de Jeane Miranda e sua dedicação à cultura fazem com que ela seja vista como um nome com potencial para, em um futuro próximo, ocupar uma cadeira na Academia Bacabalense de Letras, fortalecendo ainda mais o patrimônio literário do município.

A participação da ABL no lançamento reafirma o papel da instituição na valorização dos escritores da região e no estímulo à leitura, especialmente entre crianças e jovens, contribuindo para o fortalecimento da produção literária em Bacabal e no Maranhão.








quinta-feira, 30 de julho de 2026

Roberto Costa entrega Capela da Esperança, primeiro espaço público e gratuito para velórios de Bacabal

A Prefeitura de Bacabal entregou, na terça-feira (28), a Capela Mortuária Municipal da Esperança, o primeiro espaço público e totalmente gratuito do município destinado à realização de velórios e ao acolhimento das famílias durante a despedida de seus entes queridos. A obra representa um importante avanço na política de assistência social da gestão municipal, oferecendo um ambiente digno, seguro, acessível e humanizado para a população.

Localizada no Bairro da Esperança, a capela foi projetada para atender famílias de todas as religiões e condições sociais, garantindo um espaço apropriado para a vivência do luto com respeito, conforto e acolhimento.

A cerimônia de inauguração foi marcada por um ato ecumênico que reuniu representantes da Igreja Católica, igrejas evangélicas e religiões de matriz africana, simbolizando o caráter inclusivo do novo equipamento público. Durante o momento de oração e bênção, lideranças religiosas destacaram a importância da iniciativa para toda a comunidade.

Representando as religiões de matriz africana, Flaviane Freire ressaltou o impacto social da obra para famílias que, muitas vezes, enfrentam dificuldades financeiras para realizar uma despedida digna.

“Vou falar olhando para o nosso povo de terreiro, que muitas vezes não tem um local adequado nem condições de arcar com as despesas de uma despedida. Esse espaço representa acolhimento para todos. Quando o prefeito tem essa iniciativa e abraça toda a população, sem distinção, isso é muito importante para nós”, afirmou.

O vice-presidente da Igreja Evangélica Assembleia de Deus de Bacabal, pastor Antônio Valbert, destacou que a estrutura oferece dignidade às famílias em um dos momentos mais delicados da vida.

“Um ambiente como este, com essa estrutura, é muito importante para as famílias que passam pela dor da perda de um ente querido. É louvável a iniciativa do poder público em garantir esse acolhimento, oferecendo um espaço digno e preparado para esse momento.”

Já o diretor da Capela, padre Lauro Henrique, enfatizou o caráter inédito do equipamento no município.

“O prefeito Roberto Costa presenteia a cidade de Bacabal com um espaço que nunca existiu em nosso município. Agora teremos um ambiente acolhedor, sereno e digno para velar nossos entes queridos, independentemente da condição social ou do credo religioso. É mais uma demonstração da sensibilidade da gestão municipal com as pessoas.”

O bispo da Diocese de Bacabal, Dom Armando Martín Gutiérrez, também destacou a relevância humana da iniciativa.

“Saber que haverá um lugar onde a família poderá se reunir para prestar a última homenagem à pessoa querida, manifestar sua dor, alimentar a esperança e encontrar consolo é um gesto de profunda humanidade. Sou grato ao prefeito Roberto Costa, à gestão municipal e a Deus por esta iniciativa, que certamente levará conforto a muitas famílias.”

A Capela Mortuária Municipal da Esperança foi construída exclusivamente para a realização de velórios e conta com quatro salas de velório, recepção, área de circulação, sala administrativa, copa equipada e banheiros adaptados para pessoas com deficiência, assegurando acessibilidade, conforto, higiene e melhores condições de atendimento.

Durante a entrega, o prefeito Roberto Costa destacou que a obra atende a uma demanda histórica da população bacabalense e reforça o compromisso da administração municipal com políticas públicas voltadas ao cuidado com as pessoas.

“Hoje entregamos um equipamento público que tem uma importância social, humana e espiritual muito grande para nossa cidade. A Capela Mortuária da Esperança foi construída para oferecer conforto às famílias no momento mais difícil, que é a despedida de um ente querido. Este será um espaço de todos, independentemente da religião ou da condição financeira. Um ambiente preparado para acolher a população quando ela mais precisar”, afirmou.

Com a inauguração da Capela Mortuária Municipal da Esperança, Bacabal passa a contar, pela primeira vez, com um espaço público e gratuito dedicado exclusivamente aos velórios, consolidando um importante investimento da gestão municipal na promoção da dignidade, da inclusão e do acolhimento às famílias em um dos momentos mais sensíveis da vida.

quarta-feira, 29 de julho de 2026

Bacabal se destaca como referência em Educação Especial


A Prefeitura de Bacabal deu início, na terça-feira (28), à segunda edição do Simpósio de Educação Especial, considerado um dos maiores eventos voltados à Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva do Maranhão. Realizado no Espaço Catedral de Santa Teresinha, o encontro reúne mediadores escolares, professores do Atendimento Educacional Especializado (AEE), intérpretes de Libras, revisores Braille e demais profissionais da rede municipal de ensino em uma extensa programação de formação continuada, troca de experiências e aperfeiçoamento das práticas pedagógicas inclusivas.

Com o tema "Inclusão que Transforma a Aprendizagem", a solenidade de abertura contou com a presença de centenas de profissionais da educação, gestores, familiares de estudantes e convidados. A programação foi marcada por apresentações culturais do grupo de dança da APAE de Bacabal e do Projeto Movemente, além da palestra magna ministrada pelo psicólogo, palestrante e criador de conteúdo Wallace de Lira, referência nas áreas de Autismo, Psicologia e Saúde Mental.
Durante sua palestra, Wallace de Lira elogiou o compromisso da gestão municipal com a educação inclusiva e destacou a importância da formação permanente dos profissionais da educação.

"Estou vendo um público muito grande aqui, e isso mostra a importância que Bacabal tem dado à educação inclusiva. O prefeito, a Secretaria de Educação e todos os envolvidos estão de parabéns por promoverem iniciativas que fortalecem a inclusão", afirmou.
A participação das famílias também marcou o primeiro dia do simpósio. Representando as mães atípicas, Uerly Sousa ressaltou que a qualificação dos profissionais reflete diretamente na segurança e no desenvolvimento dos estudantes público-alvo da Educação Especial.

"Fui convidada para participar deste momento pela representatividade das famílias atípicas 

e fico muito feliz. Sempre defendemos a importância da capacitação dos profissionais. É muito importante para o professor e também para nós, mães, saber que quem acompanha nossos filhos é um profissional preparado, qualificado e capacitado para atender às necessidades de cada criança", destacou.
Para o coordenador da Educação Especial do município, Renato Silva, o evento consolida Bacabal como referência estadual na formação dos profissionais que atuam na educação inclusiva.
"Este segundo simpósio representa um grande marco para o nosso município. Hoje realizamos o maior evento de Educação Especial do Maranhão. É a Prefeitura investindo na formação dos profissionais e assegurando não apenas uma educação especial de qualidade, mas uma educação verdadeiramente inclusiva, equitativa e acessível para todos os estudantes da nossa rede", enfatizou.

Durante a abertura, o prefeito Roberto Costa destacou os investimentos realizados pela administração municipal para fortalecer a Educação Especial. Segundo ele, a rede de ensino passou por uma significativa ampliação da estrutura de atendimento, com aumento do número de profissionais de apoio, expansão das salas de recursos multifuncionais e fortalecimento do Atendimento Educacional Especializado.
"Nossa gestão trabalha para garantir direitos e promover inclusão para toda a população. Na educação, temos feito investimentos históricos para assegurar que nossas crianças recebam o suporte necessário ao seu desenvolvimento. Hoje, Bacabal conta com cerca de 650 profissionais atuando na Educação Especial, sendo aproximadamente 600 mediadores escolares acompanhando os estudantes em sala de aula. Também ampliamos significativamente as salas de recursos multifuncionais: recebemos o município com apenas nove e, ainda este ano, chegaremos a quase 60 espaços especializados. Esse é um compromisso com uma educação que respeita as diferenças e garante oportunidades para todos", afirmou o prefeito.

O II Simpósio de Educação Especial prossegue até o dia 31 de julho com uma programação diversificada, composta por palestras, oficinas, rodas de conversa e atividades voltadas ao fortalecimento das políticas públicas de inclusão escolar. A iniciativa reafirma o compromisso da gestão municipal em investir na formação dos profissionais da educação e consolidar Bacabal como referência maranhense na promoção de uma escola cada vez mais inclusiva, acessível e comprometida com a aprendizagem de todos. 

CRÔNICA DO DIA: Luz no Caminho




A casa em Pindaré-Mirim parecia ter encolhido nas últimas semanas. O silêncio, antes um companheiro confortável de tardes chuvosas, tornara-se um peso insuportável desde que a notícia do acidente de Gabriel atravessou a porta da frente. O caçula, a alegria ruidosa da família, o jovem que preenchia os cômodos com o som dos teclados e o entusiasmo pelos projetos da faculdade em São Luís, agora era apenas uma ausência que reverberava em cada cadeira vazia e em cada livro deixado sobre a escrivaninha.

Elisa circulava pela sala como um espectro. As estantes de madeira escura, carregadas de obras de Allan Kardec, guardavam reflexões que ela tantas vezes leu com a leveza de quem estuda um teorema.

Agora, aquelas páginas eram a única âncora que a impedia de afundar em um desespero sem fundo. O luto não era apenas uma dor; era uma erosão de sua fé. Ela sentia-se traída pelo destino, lançada em uma noite escura onde a promessa da continuidade da vida parecia um consolo distante, insuficiente para calar o grito que travava em sua garganta.

Naquela terça-feira, o convite para o dia de assistência no centro espírita local veio como uma ordem silenciosa. Elisa não queria ir. O conforto dos outros soava, muitas vezes, como uma profanação do tamanho de seu sofrimento. Mas, ao cruzar o portão do centro, sob o calor úmido que subia do Pindaré, ela encontrou algo que não estava nos livros. Ela encontrou o servir.

Havia uma fila de pessoas na varanda lateral.

Pessoas com histórias de perdas que, sob a lente exterior, pareceriam menores, mas que ali, naquele chão de cimento batido, ganhavam a mesma dignidade da sua. Elisa foi designada para a distribuição de cestas e o atendimento de sopa para as famílias da periferia da cidade. Ao servir o primeiro prato, ela viu nos olhos de uma senhora idosa, que mal conseguia sustentar as pernas, um espelho de sua própria fragilidade.

Naquele momento, o dogma não importava. A teoria da reencarnação, a visão da morte como uma mudança de domicílio, tudo aquilo parecia se tornar carne através do movimento de suas mãos. Ela percebeu que a sua dor era um círculo fechado, um abismo de egoísmo que a impedia de ver a vastidão

do sofrimento alheio. Gabriel não estava em um lugar distante. Se a vida era contínua, se o espírito era imortal, então o amor que ela nutria pelo filho não podia ser um sentimento confinado ao passado.

O consolo não viria da espera passiva por um sinal mediúnico, mas da transformação de seu afeto em movimento, em cuidado pelo outro.

Ela começou a visitar, semanalmente, o hospital da Santa Inês. Levava livros, mas, acima de tudo, levava o ouvido atento.

Na terceira visita, uma voluntária a conduziu até a ala da clínica médica.

— Hoje tem um senhor que quase não recebe visitas. — Disse, em voz baixa. — Talvez uma conversa lhe faça bem.

Elisa entrou devagar. O quarto era simples. O ventilador antigo girava no teto com um ruído constante, espalhando o cheiro de álcool e medicamento. Sobre a cama, um homem de cabelos completamente brancos olhava pela janela entreaberta, como quem esperava alguma coisa que não sabia nomear.

— Boa tarde. Posso entrar?

Ele voltou o rosto lentamente e esboçou um sorriso discreto.

— Se veio conversar, já entrou na hora certa.

Ela puxou uma cadeira e sentou-se.

— Meu nome é Elisa.

— Joaquim.

Por alguns instantes, permaneceram em silêncio. Elisa percebeu que, pela primeira vez desde a morte de Gabriel, não sentia necessidade de preencher aquele vazio com palavras prontas.

— Trouxe um livro, se o senhor gostar de ouvir uma leitura.

Joaquim balançou a cabeça.

— Hoje eu prefiro ouvir alguém falando da vida.

A resposta a desarmou. Ela respirou fundo.

— Faz pouco tempo que perdi meu filho.

O homem permaneceu calado. Depois de alguns segundos, respondeu com a serenidade de quem conhecia o peso das ausências.

— Eu perdi minha esposa há oito anos. Achei que nunca mais aprenderia a respirar sem ela.

Os olhos de Elisa se encheram de lágrimas.

— E aprendeu?

Joaquim sorriu de novo, dessa vez com mais luz.

— Não. Aprendi a respirar com a saudade. É diferente.

A frase permaneceu suspensa entre os dois.

Quando Elisa segurou sua mão para se despedir, percebeu que não era apenas ela quem oferecia consolo. Também o recebia. Ao deixar o quarto, o corredor parecia o mesmo, mas alguma coisa havia mudado dentro dela. A dor compartilhada não diminuía o amor por Gabriel; apenas o transformava em uma ponte capaz de alcançar outras vidas.

 Ela aprendeu que a caridade não era um gesto de superioridade, mas uma troca secreta de forças. Ao segurar a mão de um paciente acamado, Elisa sentia uma presença sutil, uma serenidade que não era sua, mas que a envolvia com a suavidade que um dia, muito antes de Gabriel partir, ela costumava encontrar em suas conversas de fim de tarde. O luto, sob a perspectiva da doutrina que ela tanto amava, deixava de ser o fim de uma trilha para se tornar o redirecionamento de um caminho.

A morte, compreendeu ela ao ver a cura precária de uma criança na ala infantil, não é um muro, mas uma névoa que altera a forma como vemos as cores ao redor. Se Gabriel era um espírito em contínua jornada, a forma mais pura de manter o laço não era através do apego ao que fora, mas através da continuidade do bem que eles, juntos, sempre projetaram ser. Elisa voltou para a casa em Pindaré-Mirim ao final do dia. O silêncio ainda estava lá, mas o peso era outro. Ao abrir a janela e permitir que o ar da noite entrasse, ela acendeu uma vela sobre a mesa e sentou-se. Não que uma vela representasse alguma coisa para ela, mas era uma prática que cresceu vendo sua vó fazer now momentos de saudades de  entes queridos já falecidos.

Não houve visões, nem fenômenos estrondosos.

Apenas uma presença, um sopro de lucidez, e a convicção profunda de que o consolo não é a ausência de dor, mas a capacidade de carregar a saudade sem se deixar consumir por ela. A caridade havia operado nela uma pequena cirurgia de alma.

O propósito estava ali, no prato de sopa servido, na mão estendida, na paciência com o tempo de Deus que não alinhava com o relógio humano. Ela fechou os olhos, respirou fundo e entendeu que a luz que ela buscava em sua angústia já brilhava através dela, na medida exata em que ela se permitia ser, no mundo, um instrumento de acolhimento para todos aqueles que, como ela, percorriam o caminho incerto da existência em busca de uma esperança que não fincasse raízes apenas no chão, mas que soubesse, com paciência, entender o céu.

 José Casanova

 

terça-feira, 28 de julho de 2026

CRÔNICA DO DIA:Herança de Ouro Preto

O sol em Viana não apenas ilumina; ele pesa. Pesa sobre os ombros de Maria das Dores enquanto ela caminha pela trilha de terra batida que corta o quilombo de Ouro Preto. O chão, seco pela estiagem severa, ainda guarda a memória da umidade dos igarapés que, em outros anos, garantiam a fartura.

Ela parou por um instante, a mão calejada repousando sobre o tronco de uma gameleira centenária. Aquela árvore não era apenas madeira e folhagem; era o marco geográfico dos seus avós, o pilar de sustentação de uma história que, para muitos fora daquelas fronteiras, simplesmente não existia.

Do outro lado da cerca de arame farpado, que cortava a paisagem como uma cicatriz, o contraste era brutal. De um lado, a diversidade da mata nativa, o plantio de subsistência de mandioca e o aroma do fumo de rolo; do outro, a monocultura de soja que se estendia como um mar verde e homogêneo, desprovido de pássaros, de alma.

Os tratores da fazenda vizinha roncavam ao longe, um som de metal que parecia devorar o silêncio da mata.

Maria das Dores não temia o barulho, embora soubesse que ele anunciava a cobiça. Em sua casa, uma estrutura erguida com taipa e a força da união familiar, ela mantinha as ferramentas de sua resistência: o livro de atas da associação, o terço de contas de madeira e o facão que, na palma de sua mão, era mais um instrumento de cuidado do que de ameaça.

Naquela tarde, as mulheres da comunidade se reuniram debaixo da gameleira. Não havia pauta formal, apenas a urgência. O projeto de expansão da nova fazenda previa a drenagem de um canal que alimentava as hortas comunitárias. Se a água fosse desviada, o quilombo sucumbiria à sede.

— Eles dizem que a terra é produtiva porque está cheia de soja. — Disse Zefa, a mais jovem das lavradoras, com os olhos fixos na linha do horizonte. — Eles não entendem que a nossa semente é o que garante que a gente tome café da manhã amanhã.

Maria das Dores levantou-se lentamente e passou o olhar por cada uma das ali presentes. Mulheres que, geração após geração, tinham enfrentado o chicote, o coronelismo e, agora, uma ameaça sem rosto, com CNPJ em vez de nome.

— Ouro Preto não é extensão de hectares. — Começou Maria, a voz firme. — É a nossa pele, o lugar onde a gente enterra a placenta dos nossos filhos. Não vamos deixar transformarem isso em pasto.

Na semana seguinte, o avanço das máquinas foi interrompido não por tribunais ou burocratas de São Luís, mas por quarenta mulheres quilombolas sentadas calmamente sobre a terra que o trator deveria revirar. Zefa estava entre elas, na primeira fila, segurando um cartaz pintado com o barro vermelho da região. Não carregavam armas, apenas panelas onde cozinhavam o feijoal que sustentava a comunidade. Quando o encarregado da empresa chegou, encontrou uma muralha de dignidade.

Maria das Dores não se levantou da cadeira de palha que trouxera para o meio da estrada:

— Pode chamar quem quiser. — Disse ela, enquanto o sol da tarde tingia seu rosto de um tom de cobre intenso. — A lei dos homens pode dizer que essa terra tem registro em nome de banco. Mas a lei da terra diz que a gente está aqui desde antes desse mundo ser medido em metros quadrados.

O impasse durou horas. De um lado, o metal da máquina; do outro, a ancestralidade encarnada naquelas mulheres. A liderança de Maria, forjada no respeito mútuo, impunha um respeito que o dinheiro não conseguia comprar. Ela não pregava o ódio, mas a permanência — do modo de vida, da tradição, do segredo das ervas que só cresciam ali.

Ao final daquele dia, os tratores recuaram. O silêncio retornou a Ouro Preto. As mulheres voltaram para casa em procissão, cantando hinos que atravessavam séculos.

Maria das Dores sentou-se na varanda de sua casa de taipa e observou o pôr do sol sobre o mar de soja que se aproximava de sua cerca. Sabia que a luta seria longa. Mas não sentia medo. Em suas mãos, o terço de madeira se aquecia. Olhou para elas — marcadas pela lida, ainda ágeis para plantar a semente que alimentava sua ética.

O futuro de Ouro Preto não era algo que ela esperava chegar. Era algo que ela construía a cada aurora, palmo a palmo, contra o assoreamento da ganância. Ouro Preto não era apenas uma comunidade de resistência. Era a prova de que, mesmo cercada, ainda há chão que ninguém consegue medir.

 José Casanova 

Professor, Jornalista, Escritor e Cronista 

Membro da Academia Bacabalense de Letras 

Academia Mundial de Letras da Humanidade 

 

 

 

CRÔNICA DO DIA: Entre Grades e Afetos

 

O cheiro na galeria feminina é uma mistura constante de cloro, suor e uma umidade subterrânea que parece corroer as paredes de concreto bruto. Em São Luís, quando o verão bate com força, o ar dentro da unidade prisional feminina de Pedrinhas torna-se denso como uma manta pesada. Beatriz estava  sentada no beliche superior, o espaço mais disputado pela ventilação que vinha de uma grade estreita, alta demais para oferecer qualquer visão da ilha que não fosse o recorte de um céu cinzento.

Ela ajustou o lençol, tentando esconder uma mancha de umidade que insistia em brotar na parede. A cada sete dias, o tempo dilatava. Beatriz contava os segundos, não pela liberdade que viria a longo prazo, mas pelo instante em que o portão de ferro rangia, sinalizando a visita da manhã. A dignidade, ali dentro, não se mede pelo que se tem, já que quase tudo é confiscado na revista de entrada, mas pela capacidade de reconhecer a própria voz em meio ao barulho dos guardas e aos gritos abafados de outras alas.

— Bia, o café hoje veio ralo de novo. — Disse Valéria, a companheira de cela que passava os dias fazendo crochê com barbantes desfiados de uniformes velhos. — Mas tem um pedaço de pão que sobrou. Quer?

Beatriz balançou a cabeça negativamente. A náusea matinal era sua companheira fiel. Ela ajeitou o elástico do cabelo, sentindo os fios rebeldes e secos pela água salobra do banho. O preconceito lá fora, das pessoas que viam o crime como uma mancha irreversível, era sentido ali dentro como uma constante reafirmação de que elas haviam perdido o direito ao nome próprio.

 Eram números de matrícula em arquivos mofados.

O momento mais difícil chegava com a entrega das cartas. A escrita era o único fio condutor entre seu mundo entre paredes e a infância que,  teimosamente, ela tentava preservar na mente dos filhos. Escrever para eles exigia um esforço exaustivo de tradução: como explicar a ausência sem usar a palavra "prisão"? Como falar de amor sem mencionar o cheiro do ferro?

Beatriz pegou o papel ofício amassado. A tinta da caneta esferográfica azul parecia brilhar no ambiente fosco. “Querido Léo, a mamãe está estudando muito aqui. Em breve, a gente vai se ver, e eu quero que você me conte tudo sobre aquele

desenho de dinossauro que você fez.” Ela parou por um instante, a mão tremendo quase imperceptivelmente. A lágrima que ameaçava cair foi contida com um piscar rápido. Chorar na frente das outras seria ceder terreno; ali, a fraqueza era uma moeda de troca perigosa.

Na hora do pátio, o sol de São Luís batia forte no pátio cimentado. O contraste entre o céu azul aberto e as grades que cortavam a visão era uma ferida visual. Beatriz caminhava em círculos, tentando manter a coluna ereta. A dignidade, ela descobriu, era uma postura física. Encurtar os ombros era aceitar a derrota.

— Eles perguntaram por você na escola? — Perguntou Valéria, caminhando ao seu lado.

Beatriz olhou para os próprios pés calçados com chinelos encardidos.

— A minha sogra diz que eu mudei de cidade para trabalhar. Não aguento a ideia deles acharem que eu os abandonei. — Confessou Beatriz, a voz mal saindo da garganta. — O abandono é uma marca. A prisão é só um erro. Se eles me enxergarem como uma mulher que falhou, mas que ainda é mãe, isso é tudo o que me mantém sã.

 A contagem de presas, o jantar servido às quatro da tarde sob o olhar indiferente dos agentes, as revistas vexatórias que pareciam buscar apenas quebrar a última camada de privacidade que restava. Beatriz observava as mulheres ao redor. Algumas haviam se entregado,  deixado o cabelo cair, o olhar vidrado. Outras, como ela, forjavam pequenas resistências. Dividiam o sabonete, repartiam a notícia da família, criavam uma rede de afeto que tornava a sobrevivência algo minimamente suportável.

Naquele dia, a visita aconteceu. O calor aumentou a intensidade dos corpos aglutinados no parlatório.

Quando viu a sogra entrar segurando a mão de Léo, Beatriz sentiu seu coração acelerar. A criança parecia crescida, sua camisa azul estava levemente suja de terra, sinal de que ele ainda corria e brincava. O vidro que as separava parecia uma barreira intransponível, um espelho sujo que distorcia a realidade do carinho.

— Oi, mamãe! — Gritou o menino, encostando a mão pequena no vidro.

Beatriz não pôde abraçá-lo. Encostou a palma da mão no mesmo lugar.

— Oi, meu amor. Você está lindo. A vovó disse que você está aprendendo a ler?

Enquanto conversavam sobre dinossauros e a escola, Beatriz percebeu o olhar da sogra, um misto de julgamento e pena, a sentença que ela carrega diariamente. Ali, diante da inocência do filho, Beatriz teve a clareza definitiva: o sistema podia confinar seu corpo, podia privá-la da luz solar direta, podia tentar apagar sua identidade com um número de matrícula, mas não tinha autorização para apagar o vínculo materno.

Aquela conexão era seu território inalienável. A criança ao lado de fora era a prova de que ela continuava sendo uma mulher, uma mãe, alguém que ainda se importava com as minúcias da vida cotidiana, independentemente da cor da parede ou da rigidez do portão que a separava da liberdade.

Quando a campainha soou indicando o fim da visita, ela não se esgotou. Observou o menino sair, segurando a mão da avó, e guardou a imagem daquele movimento com a precisão de quem armazena água no deserto. Ao voltar para a cela, o som metálico das chaves e a batida das grades não soaram como uma sentença de fim, mas como o compasso de uma espera. Beatriz sentou-se novamente no beliche. Pegou o pedaço de pão que, poucas horas antes, ela se recusara a comer. Desta vez, aceitou. Precisava de força.

Amanhã seria um novo dia, e ela teria novas palavras para escrever para o Léo, mantendo, entre as grades e o concreto, a dignidade de quem ainda tem um lugar reservado no mundo lá fora. Cada dia ali era um degrau a menos para a sua reconstrução, um exercício de sobrevivência que exigia uma mente intacta e um coração teimoso o suficiente para não deixar que a ferrugem do sistema ganhasse a batalha final contra sua humanidade.

José Casanova 

Professor, Jornalista, Escritor e Cronista 

Membro da Academia Bacabalense de Letras

Academia Mundial de Letras da Humanidade 

segunda-feira, 27 de julho de 2026

CRÔNICA DO DIA: O Despertar de Lúcia

Prezado leitor esta é uma crônica de ficção, qualquer semelhança com pessoas e lugares , terá sido mera coincidência. O ventilador de teto girava em uma cadência lenta  inútil, apenas empurrando o ar quente de Babaçú para baixo. Lúcia encarava as pás de madeira escura com os olhos secos e abertos. Era a única parte de seu corpo que obedecia aos seus comandos. O diagnóstico de tetraplegia caíra sobre sua vida seis meses antes, após um acidente numa estrada estreita que cortava a região do Mearim.

 Desde então, o quarto de paredes descascadas tornou-se o mundo inteiro, e o teto, o seu único horizonte. O calor maranhense era implacável. Sem poder mover as mãos para enxugar o suor que escorria pela testa e ardia nos olhos, Lúcia dependia inteiramente dos outros. A dependência era pior do que a dor fantasma que às vezes percorria suas pernas inertes.

A porta rangeu e Fátima entrou no quarto, carregando uma bacia de alumínio com água morna e uma toalha.

— Bom dia, Lúcia. Vamos fazer a higiene.

Lúcia não respondeu de imediato. Apenas piscou, demoradamente, sinalizando que a ouvira.

— Abre a janela, Fátima .— Disse Lúcia. Sua voz soava rouca pelo desuso.

— O sol está muito forte. Vai queimar seu rosto, minha irmã.

— Abre a janela. Eu quero sentir o sol queimar. Eu quero sentir alguma coisa.

Fátima obedeceu em silêncio. A luz invadiu o ambiente, revelando a poeira que dançava no ar. A claridade feriu os olhos de Lúcia, mas ela não os fechou. A vida lá fora pulsava. Carros passavam, vendedores ambulantes gritavam seus produtos na rua de paralelepípedos, crianças corriam soltas. Lúcia estava presa dentro do próprio esqueleto.

O banho de gato começou. Fátima virava o corpo da irmã de um lado para o outro, um manequim de carne e osso. O ressentimento inicial de Lúcia já havia dado lugar a uma apatia sombria, até aquele  momento. Enquanto a toalha úmida percorria seu braço direito, ela sentiu um repuxo agudo, elétrico, na ponta do dedo indicador.

Foi imperceptível para Fátima. Mas para Lúcia, foi um estrondo tátil. Ela fechou os olhos, concentrando toda a energia que restava no seu sistema nervoso naquele milímetro de carne e terminação nervosa. O dedo não se moveu visivelmente, mas a sensação de controle, por uma fração de segundo, estava lá.  nervo não estava morto. Estava apenas dormindo.

— Fátima . — Lúcia chamou, a voz de repente mais firme. — Liga para a clínica. Eu vou começar a fisioterapia amanhã.

— Lúcia, o doutor disse que as chances de voltar a mexer...

— Eu não perguntei as chances. Eu disse para ligar para a clínica.

O processo de reabilitação não teve nada de heroico ou poético. Foi bruto, doloroso e sujo. O centro de fisioterapia público de Babaçú funcionava em um prédio com infiltrações, ventiladores barulhentos e macas de couro sintético rasgado. Três vezes por semana, o maqueiro colocava Lúcia na van do município, uma viagem que sacolejava seus ossos e testava sua sanidade.

O fisioterapeuta, Roberto, era um homem prático. Não oferecia falsas esperanças.

— Vai doer, Lúcia. E muito provavelmente, o progresso será mínimo no começo.

— Faça o seu trabalho, Roberto. — Ela devolvia, os dentes cerrados.

Os meses se acumularam. O esforço para mover um braço exigia o mesmo fôlego de uma corrida. Lúcia gritava de dor quando os músculos atrofiados eram esticados. Ela suava, chorava na maca e, em algumas noites, desejava que o acidente tivesse sido fatal. Mas, na manhã seguinte, exigia ser colocada na van novamente.

A primeira grande vitória veio no oitavo mês. Lúcia conseguiu fechar a mão direita em torno de uma bola de borracha. A segunda vitória, um ano depois, foi sustentar o tronco sentada na borda da cama. Seu sistema nervoso aprendia, lentamente, a recrutar caminhos preservados e recuperar funções que pareciam perdidas. Os exames de acompanhamento revelaram que a lesão medular não era completa, como se acreditara nos primeiros dias após o acidente. Algumas vias nervosas haviam permanecido preservadas, tornando possível uma recuperação parcial mediante um longo processo de reabilitação.

Dois anos após o acidente, Lúcia já não era tetraplégica. O diagnóstico mudara, mas as sequelas eram permanentes. Seus movimentos nos membros inferiores eram severamente limitados e a coordenação motora exigia concentração brutal. Ela passou a usar uma cadeira de rodas adaptada. A euforia da recuperação médica logo esbarrou em um problema muito maior. Lúcia havia vencido as limitações do seu corpo, mas esbarrou nas limitações da cidade.

Em uma terça-feira, Lúcia decidiu que iria ao banco no centro de Babaçú, resolver  questões do BPC por conta própria. Fátima tentou impedi-la, oferecendo-se para ir com uma procuração, mas Lúcia foi categórica ao negar. Ela queria a rua. O trajeto, que para uma pessoa sem deficiência levaria dez minutos, durou quase uma hora. As calçadas da cidade eram um campo minado de buracos, desníveis repentinos, raízes de árvores arrebentando o cimento e degraus irregulares construídos por moradores para impedir que a água da chuva entrasse nas casas.

 Lúcia se viu forçada a transitar pelo asfalto, disputando o espaço com caminhonetes e motos que buzinavam furiosamente. Ao chegar na agência bancária, exausta, os braços latejando de tanto girar as rodas, o choque final.

Uma escadaria de seis degraus de granito separava a rua das portas de vidro do banco. Nenhuma rampa. Nenhum acesso lateral. Nada. Lúcia parou a cadeira na calçada, encarando os degraus. O calor do meio-dia fervia o asfalto. Pessoas subiam e desciam por ela, desviando o olhar, fingindo que a mulher paralisada ali era invisível. Um homem engravatado, saindo da agência, parou no último degrau e olhou para baixo.

— Você precisa de ajuda, minha senhora? Quer que eu chame alguém lá dentro?

— Eu quero entrar. Onde fica a rampa? — A voz de Lúcia era firme, embora a respiração estivesse curta pelo esforço.

— Rapaz, acho que não tem rampa aqui não. Esse prédio é antigo. É melhor a senhora voltar para casa e mandar um parente. A rua não é lugar pra quem tem suas condições. O sol está castigando.

Lúcia travou os freios da cadeira de rodas. Ela encarou o homem de terno, memorizando suas feições, seu tom condescendente e a estrutura de pedra atrás dele. A raiva que subiu pelo seu estômago não era a mesma raiva que tinha do acidente. Era uma fúria lúcida. Estratégica. Política.

— O meu lugar. — Disse Lúcia, projetando a voz para que outras pessoas na calçada ouvissem. — É onde eu quiser estar. A falta de capacidade não é das minhas pernas. É dessa cidade.

O homem deu de ombros, resmungou algo sobre falta de educação e seguiu seu caminho. Lúcia não voltou para casa. Ela foi direto para a praça central. Havia entendido que reconquistar os movimentos do corpo de nada servia se o mundo a mantivesse engaiolada. A tetraplegia havia roubado seus movimentos;  sociedade estava roubando sua cidadania. E ela não permitiria.

Na semana seguinte, a sala de espera do centro de fisioterapia virou um quartel general. Lúcia não falava mais sobre exercícios ou dores musculares. Falava sobre Leis de Acessibilidade. Falava sobre a Constituição

— Quantos de vocês já deixaram de ir a uma consulta médica porque não conseguiram subir no posto de saúde? — Perguntou ela, virando a cadeira no meio da sala.

Marcos, um jovem cego de nascença, levantou a mão hesitante. Tereza, que usava muletas devido à poliomielite, assentiu silenciosamente. Outros pacientes, mães com filhos com paralisia cerebral, idosos com andadores, pararam para escutar.

— Nós ficamos aqui dentro brigando com o nosso corpo para conseguir dar um passo. E quando a gente dá esse passo, a cidade coloca um muro na nossa frente. Vamos cobrar a quem construiu o muro.

Lúcia organizou, inicialmente, um pequeno número de pacientes insatisfeitos. Eles fizeram um levantamento rudimentar. Anotaram quais farmácias, supermercados e repartições públicas não tinham acesso. O cenário era devastador, mas a indignação coletiva era combustível.

O primeiro alvo da recém-formada Associação de Pessoas com Deficiência de Bacabal não foi aleatório. Lúcia escolheu a Câmara Municipal de Vereadores. O prédio histórico, imponente, com uma arquitetura colonial mal preservada, possuía uma longa escadaria na entrada principal. Era o símbolo do poder legislativo, o lugar onde as leis da cidade eram criadas por pessoas que nunca precisaram usar uma cadeira de rodas.

O movimento foi marcado para uma quarta-feira, dia de sessão plenária. Lúcia chegou cedo, acompanhada de vinte pessoas. Havia cadeirantes, cegos, surdos, pessoas com muletas e familiares. Eles não levaram faixas ou megafones. A instrução de Lúcia havia sido clara: a presença física deles, exatamente onde não deveriam conseguir estar, seria a própria mensagem. Eles estacionaram cadeiras ao redor da base da escadaria. Marcos posicionou-se no primeiro degrau com sua bengala branca. As mães sentaram-se no concreto quente com seus filhos.

 O acesso estava bloqueado. Quem quisesse entrar ou sair da Câmara teria que passar por cima deles. Por volta das dez da manhã, os vereadores começaram a chegar para a sessão. Os carros oficiais encostavam, e os políticos saíam, confusos com a barreira humana. Um dos vereadores, conhecido na cidade pelo temperamento explosivo, caminhou em direção a Lúcia, que estava bem no centro.

— O que está acontecendo aqui? Isso é espaço público, precisam liberar a entrada. Temos uma sessão importante hoje para votar o orçamento.

Lúcia o encarou. Os músculos do seu pescoço estavam rijos, mas sua mente estava calma.

— Nós sabemos que é um espaço público, vereador. Por isso viemos assistir à sessão.

— Então subam e entrem no plenário. Ninguém está impedindo.

— O senhor está vendo alguma rampa? — Lúcia apontou para os degraus de concreto. — Se nós não pudermos entrar, ninguém vai. Não haverá sessão até que os senhores escutem as demandas daqueles que a cidade escolheu tornar invisíveis.

O constrangimento se espalhou entre os assessores e políticos presentes. A polícia municipal foi acionada, mas hesitou. Não havia violência, apenas vinte pessoas com diversas deficiências sentadas ali, exigindo o básico da dignidade estipulada em lei municipal há mais de dez anos, mas que nunca havia sido cumprida.

O presidente da Câmara interveio. Tentou contornar a situação, oferecendo que alguns maqueiros do hospital levassem Lúcia e mais dois cadeirantes nos braços até o segundo andar.

A resposta dela foi incisiva.

— Eu passei anos sendo carregada, vereador. Minha autonomia me custou sangue. Eu não vim aqui para ser erguida como uma mercadoria disfuncional. Eu exijo rampa, exijo adaptação, exijo que respeitem o nosso direito de ir e vir por conta própria.

Diante do impasse e com a imprensa local começando a registrar a cena, a sessão plenária daquele dia foi cancelada. O bloqueio durou até o fim da tarde, sob o sol escaldante de Bacabal. Lúcia não arredou o pé. As costas doíam, as pernas tremiam com espasmos nervosos devido à postura prolongada na cadeira, mas ela não abaixou a cabeça.

Ao anoitecer, um acordo verbal com a mesa diretora foi forçado publicamente. Um compromisso formal para discutir o projeto estrutural da Câmara e revisar a aplicação das normas de acessibilidade nas vias principais da cidade nos próximos trinta Dias. Não era a vitória final, apenas o início da guerra Mas o muro havia sido rachado. Lúcia voltou para casa exausta. A rua já estava escura. Fátima abriu a porta, preocupada, e correu para ajudá-la a passar pela soleira.

— A cidade inteira está comentando o que você fez na Câmara de Vereadores, Lúcia. Você arrumou um problema grave.

— Eu não arrumei um problema, Fátima. Eu mostrei o problema que já estava lá.

Fátima a ajudou a fazer a transferência da cadeira para a cama. O quarto, antes um túmulo silencioso onde Lúcia aguardava os dias passarem, agora parecia pequeno para o tamanho da mulher que o ocupava. Ela não era mais a paciente passiva que encarava o ventilador de teto esperando a morte ou um milagre. Sobre a mesa de cabeceira, uma cópia da lei municipal de obras públicas estava marcada com caneta vermelha. Listas com nomes de dezenas de pacientes que aderiram à causa se acumulavam. A tetraplegia havia paralisado seu corpo brutalmente, e cada centímetro recuperado naquelas macas rasgadas da clínica servia a um propósito agora irrenunciável.

 Lúcia sabia que os degraus de granito seriam apenas a primeira obstrução a ser derrubada em Babaçú. O ativismo transformou-se no sangue novo que preencheu suas veias, oxigenando lugares onde a medicina declarou que não haveria mais vida. Ela alcançou a caneta vermelha na mesa e preparou-se para redigir o ofício da próxima reunião, perfeitamente ciente de que não precisava mover o mundo inteiro de uma vez; bastava ter a força suficiente para trancar a entrada até que as portas, sem exceção de formato ou inclinação, fossem, por justiça e de direito, abertas a todos.

José Casanova