A mesa de Bento estava limpa. Diferente das noites anteriores, quando pilhas de manuscritos mutilados lutavam por espaço com xícaras de café e cinzeiros transbordantes de angústia, hoje havia apenas uma folha de papel A4. Branca. Imaculada.
Ele a
encarava há três horas.
Para o mundo
lá fora, Bento era o "Exterminador", o carrasco que decapitava
advérbios e estripava parágrafos inteiros. Mas, na intimidade de seu
pensamento, ele sabia que a destruição era apenas um meio. O fim sempre fora a
busca pela essência. E o que é a essência senão o silêncio que antecede e
sucede a palavra?
Ele pegou a
caneta. Sua mão, calejada de tanto riscar o excesso alheio, pairou sobre a
brancura.
"A vida é..."
Parou. A
vida é o quê? Complicada? Breve? Um sonho? Qualquer adjetivo que ele escolhesse
seria uma redução. Dizer que a vida é "breve" é ignorar os momentos
em que ela se arrasta como um caracol em dia de chuva. Dizer que é
"bela" é ofender quem sofre. Dizer que é "triste" é negar o
sorriso da criança. Qualquer palavra, percebeu Bento, é uma prisão.
Largou a
caneta.
O silêncio
do escritório era absoluto. Podia ouvir o zumbido da lâmpada fluorescente e,
mais longe, o som abafado de um carro passando na rua. Aquele ruído mundano não
o incomodava; pelo contrário, realçava a pureza do papel à sua frente.
Ele sempre
acreditara que o escritor perfeito era aquele que encontrava a palavra exata.
Flaubert e seu le mot juste. Mas e se a palavra exata não existisse? E
se a linguagem humana, com suas limitações gramaticais e semânticas, fosse
apenas uma rede grosseira tentando capturar a água do mar? A água sempre escapa
pelos buracos. O que fica na rede são algas mortas e pedras.
A
literatura, concluiu Bento com um frio na espinha, é a arte do fracasso.
Tentamos dizer "amor" e escrevemos romances de quinhentas páginas
que, no final, não arranham a superfície do que sentimos quando olhamos nos
olhos de quem amamos. Tentamos dizer "medo" e criamos monstros de
papel que não assustam ninguém.
Mas aquela
folha em branco... Ah, ela continha tudo.
Ali, naquele
vazio, cabiam todas as histórias jamais contadas. Cabia o romance épico sobre a
fundação de Bacabal. Cabia o poema lírico que faria chorar as pedras de
cantaria de São Luís. Cabia a confissão do assassino e a oração do santo. O
branco não era a ausência; era a potencialidade infinita. Era o Deus da
literatura antes do "Fiat Lux".
Bento sentiu
uma vertigem. Ele passara a vida cortando, podando, limpando. Seu objetivo
sempre fora chegar ao osso. Mas agora, diante do osso polido, percebia que o
tutano era feito de nada.
Lembrou-se
de um velho mestre de caligrafia japonesa que dizia: "O espaço entre as
letras é mais importante que a tinta". Bento sempre achara aquilo uma
metáfora bonita. Agora, via que era uma instrução técnica. O papel em branco
era o maior intervalo possível. Era a música composta apenas de pausas.
Ele pegou a
folha com as duas mãos, segurando-a pelas bordas como se fosse um objeto
sagrado e frágil.
Se ele
escrevesse uma única palavra ali, estragaria tudo. Uma mancha de tinta
quebraria a perfeição do infinito. "Eternidade", se ele escrevesse,
ocuparia um espaço físico, finito, com começo e fim. A palavra
"Eternidade" dura o tempo que se leva para lê-la. O papel em branco
dura para sempre.
Ele sorriu.
Um sorriso de quem desvendou a piada cósmica.
A obra-prima
não é aquela que diz tudo; é aquela que permite que tudo seja dito na mente do
leitor. Ele, o Exterminador, finalmente terminaria seu trabalho. Não precisava
mais de caneta vermelha. Não precisava mais corrigir ninguém. A correção
suprema era a inexistência do erro, e só não erra quem não escreve.
Levantou-se
e foi até a máquina de escrever, uma relíquia que mantinha no canto da sala por
sentimentalismo. Inseriu a folha. O rolo girou com um estalo seco.
Datilografou,
bem no topo, centralizado:
A PERFEIÇÃO
E puxou a
folha.
Só isso. O
título e o abismo branco abaixo dele.
Olhou para a
obra. Era linda. Era terrível. Qualquer um que olhasse para aquela página veria
seu próprio reflexo. O leitor triste veria tristeza. O leitor apaixonado veria
amor. O crítico veria pretensão. O sábio veria o Tao.
Bento
colocou a folha em uma moldura simples de madeira preta e pendurou-a na parede,
bem em frente à sua mesa. A partir de hoje, aquela seria sua musa e seu juiz.
Sempre que sentisse a tentação de usar um adjetivo desnecessário, olharia para A
Perfeição e lembraria que nenhuma palavra vale o silêncio que ela quebra.
Apagou a luz
e saiu do escritório. A casa estava quieta. Ele sentiu uma paz que nunca
experimentara antes, a paz de quem depôs as armas. O mundo lá fora continuava
barulhento, cheio de vozes, gritos e discursos vazios. Mas ali dentro, no
santuário de sua mente, o silêncio reinava soberano, a única linguagem capaz de
traduzir a inefável complexidade de estar vivo. E pela primeira vez, Bento não
teve vontade de editar nada. O mundo estava, finalmente, limpo.
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundia de Letras da Humanidade





















































