domingo, 2 de agosto de 2026
CRÔNICA DO DIA: O Sonho Dobrado na Bolsa
sábado, 1 de agosto de 2026
CRÔNICA DO DIA: Mãos de Terra e Sol
sexta-feira, 31 de julho de 2026
CRÔNICA DO DIA: O Hábito e a Rua
O vento que sopra em Fortaleza, mesmo na calada da noite, nunca é frio o suficiente para abrandar o asfalto quente da Praia de Iracema. Irmã Helena ajustou o hábito, tentando disfarçar o desconforto com a rigidez do tecido diante da umidade salina que colava a veste ao corpo. O hábito branco, que deveria representar a pureza e a ordem, parecia, sob a luz alaranjada dos postes, uma bandeira de rendição em meio ao caos da madrugada.
ABL prestigia lançamento do livro infantil "Casa de Todo Jeito", de Jeane Miranda, em Bacabal
A Academia Bacabalense de Letras (ABL) marcou presença, na noite desta quinta-feira (30), no lançamento do livro infantojuvenil "Casa de Todo Jeito", da professora e escritora Jeane Miranda. O evento foi realizado no auditório da Escola Reis Magos, em Bacabal, reunindo leitores, educadores, estudantes, familiares e admiradores da literatura.
Representando a ABL, participaram o presidente José Casanova e a secretária-geral da instituição, Liduina Tavares, reforçando o compromisso da Academia com o incentivo à produção literária e à valorização dos escritores bacabalenses.
Em Casa de Todo Jeito, Jeane Miranda convida o leitor a refletir sobre os diferentes significados do lar e as múltiplas formas de convivência presentes nas histórias que atravessam gerações. Com uma narrativa leve e sensível, a autora revisita casas clássicas da literatura infantil, como a dos Três Porquinhos, que sonhavam em ser vizinhos, e a casa de doces de João e Maria, da qual as crianças precisaram fugir. Cada cenário revela diferentes experiências familiares, passando por ambientes de acolhimento, desafios e exclusão.
A obra propõe uma jornada de autodescoberta e empatia, mostrando que a essência de uma casa ultrapassa suas paredes e está ligada ao pertencimento, ao amor e à segurança. Ao longo da narrativa, Jeane Miranda apresenta uma visão de mundo em que todas as pessoas, independentemente de suas histórias ou circunstâncias, possam encontrar um lugar para chamar de lar.
O livro encerra sua mensagem resgatando uma das frases mais marcantes da personagem Dorothy, de O Mágico de Oz: "Não há lugar como a nossa casa", reafirmando a importância do lar como espaço de afeto e proteção.
Durante o lançamento, Jeane Miranda conversou com o público sobre o processo de criação da obra, respondeu perguntas dos participantes, posou para fotografias com os leitores e autografou exemplares adquiridos durante o evento.
Em sua manifestação, o presidente da Academia Bacabalense de Letras, José Casanova, destacou a relevância da contribuição da escritora para a literatura local e deixou uma mensagem de reconhecimento ao seu trabalho. Segundo ele, a qualidade da produção literária de Jeane Miranda e sua dedicação à cultura fazem com que ela seja vista como um nome com potencial para, em um futuro próximo, ocupar uma cadeira na Academia Bacabalense de Letras, fortalecendo ainda mais o patrimônio literário do município.
A participação da ABL no lançamento reafirma o papel da instituição na valorização dos escritores da região e no estímulo à leitura, especialmente entre crianças e jovens, contribuindo para o fortalecimento da produção literária em Bacabal e no Maranhão.
quinta-feira, 30 de julho de 2026
Roberto Costa entrega Capela da Esperança, primeiro espaço público e gratuito para velórios de Bacabal
A Prefeitura de Bacabal entregou, na terça-feira (28), a Capela Mortuária Municipal da Esperança, o primeiro espaço público e totalmente gratuito do município destinado à realização de velórios e ao acolhimento das famílias durante a despedida de seus entes queridos. A obra representa um importante avanço na política de assistência social da gestão municipal, oferecendo um ambiente digno, seguro, acessível e humanizado para a população.
Localizada no Bairro da Esperança, a capela foi projetada para atender famílias de todas as religiões e condições sociais, garantindo um espaço apropriado para a vivência do luto com respeito, conforto e acolhimento.
A cerimônia de inauguração foi marcada por um ato ecumênico que reuniu representantes da Igreja Católica, igrejas evangélicas e religiões de matriz africana, simbolizando o caráter inclusivo do novo equipamento público. Durante o momento de oração e bênção, lideranças religiosas destacaram a importância da iniciativa para toda a comunidade.
Representando as religiões de matriz africana, Flaviane Freire ressaltou o impacto social da obra para famílias que, muitas vezes, enfrentam dificuldades financeiras para realizar uma despedida digna.
“Vou falar olhando para o nosso povo de terreiro, que muitas vezes não tem um local adequado nem condições de arcar com as despesas de uma despedida. Esse espaço representa acolhimento para todos. Quando o prefeito tem essa iniciativa e abraça toda a população, sem distinção, isso é muito importante para nós”, afirmou.
O vice-presidente da Igreja Evangélica Assembleia de Deus de Bacabal, pastor Antônio Valbert, destacou que a estrutura oferece dignidade às famílias em um dos momentos mais delicados da vida.
“Um ambiente como este, com essa estrutura, é muito importante para as famílias que passam pela dor da perda de um ente querido. É louvável a iniciativa do poder público em garantir esse acolhimento, oferecendo um espaço digno e preparado para esse momento.”
Já o diretor da Capela, padre Lauro Henrique, enfatizou o caráter inédito do equipamento no município.
“O prefeito Roberto Costa presenteia a cidade de Bacabal com um espaço que nunca existiu em nosso município. Agora teremos um ambiente acolhedor, sereno e digno para velar nossos entes queridos, independentemente da condição social ou do credo religioso. É mais uma demonstração da sensibilidade da gestão municipal com as pessoas.”
O bispo da Diocese de Bacabal, Dom Armando Martín Gutiérrez, também destacou a relevância humana da iniciativa.
“Saber que haverá um lugar onde a família poderá se reunir para prestar a última homenagem à pessoa querida, manifestar sua dor, alimentar a esperança e encontrar consolo é um gesto de profunda humanidade. Sou grato ao prefeito Roberto Costa, à gestão municipal e a Deus por esta iniciativa, que certamente levará conforto a muitas famílias.”
A Capela Mortuária Municipal da Esperança foi construída exclusivamente para a realização de velórios e conta com quatro salas de velório, recepção, área de circulação, sala administrativa, copa equipada e banheiros adaptados para pessoas com deficiência, assegurando acessibilidade, conforto, higiene e melhores condições de atendimento.
Durante a entrega, o prefeito Roberto Costa destacou que a obra atende a uma demanda histórica da população bacabalense e reforça o compromisso da administração municipal com políticas públicas voltadas ao cuidado com as pessoas.
“Hoje entregamos um equipamento público que tem uma importância social, humana e espiritual muito grande para nossa cidade. A Capela Mortuária da Esperança foi construída para oferecer conforto às famílias no momento mais difícil, que é a despedida de um ente querido. Este será um espaço de todos, independentemente da religião ou da condição financeira. Um ambiente preparado para acolher a população quando ela mais precisar”, afirmou.
Com a inauguração da Capela Mortuária Municipal da Esperança, Bacabal passa a contar, pela primeira vez, com um espaço público e gratuito dedicado exclusivamente aos velórios, consolidando um importante investimento da gestão municipal na promoção da dignidade, da inclusão e do acolhimento às famílias em um dos momentos mais sensíveis da vida.
quarta-feira, 29 de julho de 2026
Bacabal se destaca como referência em Educação Especial
CRÔNICA DO DIA: Luz no Caminho
Ela aprendeu que a
caridade não era um gesto de superioridade, mas uma troca secreta de forças. Ao
segurar a mão de um paciente acamado, Elisa sentia uma presença sutil, uma serenidade
que não era sua, mas que a envolvia com a suavidade que um dia, muito antes de Gabriel
partir, ela costumava encontrar em suas conversas de fim de tarde. O luto, sob
a perspectiva da doutrina que ela tanto amava, deixava de ser o fim de uma
trilha para se tornar o redirecionamento de um caminho.
A morte, compreendeu ela ao ver a cura precária de uma
criança na ala infantil, não é um muro, mas uma névoa que altera a forma como
vemos as cores ao redor. Se Gabriel era um espírito em contínua jornada, a
forma mais pura de manter o laço não era através do apego ao que fora, mas
através da continuidade do bem que eles, juntos, sempre projetaram ser. Elisa
voltou para a casa em Pindaré-Mirim ao final do dia. O silêncio ainda estava
lá, mas o peso era outro. Ao abrir a janela e permitir que o ar da noite
entrasse, ela acendeu uma vela sobre a mesa e sentou-se. Não que uma vela
representasse alguma coisa para ela, mas era uma prática que cresceu vendo sua
vó fazer now momentos de saudades de
entes queridos já falecidos.
Não houve visões, nem fenômenos estrondosos.
Apenas uma presença, um sopro de lucidez, e a convicção
profunda de que o consolo não é a ausência de dor, mas a capacidade de carregar
a saudade sem se deixar consumir por ela. A caridade havia operado nela uma
pequena cirurgia de alma.
O propósito estava ali, no prato de sopa servido, na mão
estendida, na paciência com o tempo de Deus que não alinhava com o relógio
humano. Ela fechou os olhos, respirou fundo e entendeu que a luz que ela
buscava em sua angústia já brilhava através dela, na medida exata em que ela se
permitia ser, no mundo, um instrumento de acolhimento para todos aqueles que,
como ela, percorriam o caminho incerto da existência em busca de uma esperança que
não fincasse raízes apenas no chão, mas que soubesse, com paciência, entender o
céu.
terça-feira, 28 de julho de 2026
CRÔNICA DO DIA:Herança de Ouro Preto
O
sol em Viana não apenas ilumina; ele pesa. Pesa sobre os ombros de Maria das
Dores enquanto ela caminha pela trilha de terra batida que corta o quilombo de
Ouro Preto. O chão, seco pela estiagem severa, ainda guarda a memória da
umidade dos igarapés que, em outros anos, garantiam a fartura.
Ela
parou por um instante, a mão calejada repousando sobre o tronco de uma
gameleira centenária. Aquela árvore não era apenas madeira e folhagem; era o
marco geográfico dos seus avós, o pilar de sustentação de uma história que,
para muitos fora daquelas fronteiras, simplesmente não existia.
Do
outro lado da cerca de arame farpado, que cortava a paisagem como uma cicatriz,
o contraste era brutal. De um lado, a diversidade da mata nativa, o plantio de
subsistência de mandioca e o aroma do fumo de rolo; do outro, a monocultura de
soja que se estendia como um mar verde e homogêneo, desprovido de pássaros, de
alma.
Os
tratores da fazenda vizinha roncavam ao longe, um som de metal que parecia
devorar o silêncio da mata.
Maria
das Dores não temia o barulho, embora soubesse que ele anunciava a cobiça. Em
sua casa, uma estrutura erguida com taipa e a força da união familiar, ela
mantinha as ferramentas de sua resistência: o livro de atas da associação, o
terço de contas de madeira e o facão que, na palma de sua mão, era mais um
instrumento de cuidado do que de ameaça.
Naquela
tarde, as mulheres da comunidade se reuniram debaixo da gameleira. Não havia
pauta formal, apenas a urgência. O projeto de expansão da nova fazenda previa a
drenagem de um canal que alimentava as hortas comunitárias. Se a água fosse
desviada, o quilombo sucumbiria à sede.
—
Eles dizem que a terra é produtiva porque está cheia de soja. — Disse Zefa, a
mais jovem das lavradoras, com os olhos fixos na linha do horizonte. — Eles não
entendem que a nossa semente é o que garante que a gente tome café da manhã
amanhã.
Maria
das Dores levantou-se lentamente e passou o olhar por cada uma das ali
presentes. Mulheres que, geração após geração, tinham enfrentado o chicote, o
coronelismo e, agora, uma ameaça sem rosto, com CNPJ em vez de nome.
—
Ouro Preto não é extensão de hectares. — Começou Maria, a voz firme. — É a
nossa pele, o lugar onde a gente enterra a placenta dos nossos filhos. Não
vamos deixar transformarem isso em pasto.
Na
semana seguinte, o avanço das máquinas foi interrompido não por tribunais ou
burocratas de São Luís, mas por quarenta mulheres quilombolas sentadas
calmamente sobre a terra que o trator deveria revirar. Zefa estava entre elas,
na primeira fila, segurando um cartaz pintado com o barro vermelho da região.
Não carregavam armas, apenas panelas onde cozinhavam o feijoal que sustentava a
comunidade. Quando o encarregado da empresa chegou, encontrou uma muralha de
dignidade.
Maria
das Dores não se levantou da cadeira de palha que trouxera para o meio da
estrada:
— Pode chamar quem
quiser. — Disse ela, enquanto o sol da tarde tingia seu rosto de um tom de
cobre intenso. — A lei dos homens pode dizer que essa terra tem registro em
nome de banco. Mas a lei da terra diz que a gente está aqui desde antes desse
mundo ser medido em metros quadrados.
O
impasse durou horas. De um lado, o metal da máquina; do outro, a ancestralidade
encarnada naquelas mulheres. A liderança de Maria, forjada no respeito mútuo,
impunha um respeito que o dinheiro não conseguia comprar. Ela não pregava o
ódio, mas a permanência — do modo de vida, da tradição, do segredo das ervas
que só cresciam ali.
Ao
final daquele dia, os tratores recuaram. O silêncio retornou a Ouro Preto. As
mulheres voltaram para casa em procissão, cantando hinos que atravessavam
séculos.
Maria
das Dores sentou-se na varanda de sua casa de taipa e observou o pôr do sol
sobre o mar de soja que se aproximava de sua cerca. Sabia que a luta seria
longa. Mas não sentia medo. Em suas mãos, o terço de madeira se aquecia. Olhou
para elas — marcadas pela lida, ainda ágeis para plantar a semente que
alimentava sua ética.
O
futuro de Ouro Preto não era algo que ela esperava chegar. Era algo que ela
construía a cada aurora, palmo a palmo, contra o assoreamento da ganância. Ouro
Preto não era apenas uma comunidade de resistência. Era a prova de que, mesmo
cercada, ainda há chão que ninguém consegue medir.
CRÔNICA DO DIA: Entre Grades e Afetos
O cheiro na galeria feminina é uma mistura constante de
cloro, suor e uma umidade subterrânea que parece corroer as paredes de concreto
bruto. Em São Luís, quando o verão bate com força, o ar dentro da unidade
prisional feminina de Pedrinhas torna-se denso como uma manta pesada. Beatriz
estava sentada no beliche superior, o
espaço mais disputado pela ventilação que vinha de uma grade estreita, alta
demais para oferecer qualquer visão da ilha que não fosse o recorte de um céu
cinzento.
Ela ajustou o lençol, tentando esconder uma mancha de
umidade que insistia em brotar na parede. A cada sete dias, o tempo dilatava.
Beatriz contava os segundos, não pela liberdade que viria a longo prazo, mas
pelo instante em que o portão de ferro rangia, sinalizando a visita da manhã. A
dignidade, ali dentro, não se mede pelo que se tem, já que quase tudo é
confiscado na revista de entrada, mas pela capacidade de reconhecer a própria
voz em meio ao barulho dos guardas e aos gritos abafados de outras alas.
— Bia, o café hoje veio ralo de novo. — Disse Valéria, a
companheira de cela que passava os dias fazendo crochê com barbantes desfiados
de uniformes velhos. — Mas tem um pedaço de pão que sobrou. Quer?
Beatriz balançou a cabeça negativamente. A náusea matinal
era sua companheira fiel. Ela ajeitou o elástico do cabelo, sentindo os fios
rebeldes e secos pela água salobra do banho. O preconceito lá fora, das pessoas
que viam o crime como uma mancha irreversível, era sentido ali dentro como uma constante
reafirmação de que elas haviam perdido o direito ao nome próprio.
Eram números de matrícula
em arquivos mofados.
O momento mais difícil chegava com a entrega das cartas. A
escrita era o único fio condutor entre seu mundo entre paredes e a infância
que, teimosamente, ela tentava preservar
na mente dos filhos. Escrever para eles exigia um esforço exaustivo de
tradução: como explicar a ausência sem usar a palavra "prisão"? Como
falar de amor sem mencionar o cheiro do ferro?
Beatriz pegou o papel ofício amassado. A tinta da caneta
esferográfica azul parecia brilhar no ambiente fosco. “Querido Léo, a mamãe
está estudando muito aqui. Em breve, a gente vai se ver, e eu quero que você me
conte tudo sobre aquele
desenho
de dinossauro que você fez.” Ela parou por um instante, a mão tremendo quase imperceptivelmente.
A lágrima que ameaçava cair foi contida com um piscar rápido. Chorar na frente das
outras seria ceder terreno; ali, a fraqueza era uma moeda de troca perigosa.
Na hora do pátio, o sol de São Luís batia forte no pátio
cimentado. O contraste entre o céu azul aberto e as grades que cortavam a visão
era uma ferida visual. Beatriz caminhava em círculos, tentando manter a coluna
ereta. A dignidade, ela descobriu, era uma postura física. Encurtar os ombros
era aceitar a derrota.
— Eles perguntaram por você na escola? — Perguntou Valéria,
caminhando ao seu lado.
Beatriz olhou para os próprios pés calçados com chinelos
encardidos.
— A minha sogra diz que eu mudei de cidade para trabalhar.
Não aguento a ideia deles acharem que eu os abandonei. — Confessou Beatriz, a
voz mal saindo da garganta. — O abandono é uma marca. A prisão é só um erro. Se
eles me enxergarem como uma mulher que falhou, mas que ainda é mãe, isso é tudo
o que me mantém sã.
A contagem de presas,
o jantar servido às quatro da tarde sob o olhar indiferente dos agentes, as
revistas vexatórias que pareciam buscar apenas quebrar a última camada de privacidade
que restava. Beatriz observava as mulheres ao redor. Algumas haviam se
entregado, deixado o cabelo cair, o
olhar vidrado. Outras, como ela, forjavam pequenas resistências. Dividiam o sabonete,
repartiam a notícia da família, criavam uma rede de afeto que tornava a
sobrevivência algo minimamente suportável.
Naquele dia, a visita aconteceu. O calor aumentou a intensidade
dos corpos aglutinados no parlatório.
Quando viu a sogra entrar segurando a mão de Léo, Beatriz
sentiu seu coração acelerar. A criança parecia crescida, sua camisa azul estava
levemente suja de terra, sinal de que ele ainda corria e brincava. O vidro que
as separava parecia uma barreira intransponível, um espelho sujo que distorcia
a realidade do carinho.
— Oi, mamãe! — Gritou o menino, encostando a mão pequena no
vidro.
Beatriz não pôde abraçá-lo. Encostou a palma da mão no
mesmo lugar.
— Oi, meu amor. Você está lindo. A vovó disse que você está
aprendendo a ler?
Enquanto conversavam sobre dinossauros e a escola, Beatriz
percebeu o olhar da sogra, um misto de julgamento e pena, a sentença que ela carrega
diariamente. Ali, diante da inocência do filho, Beatriz teve a clareza
definitiva: o sistema podia confinar seu corpo, podia privá-la da luz solar
direta, podia tentar apagar sua identidade com um número de matrícula, mas não
tinha autorização para apagar o vínculo materno.
Aquela conexão era seu território inalienável. A criança ao
lado de fora era a prova de que ela continuava sendo uma mulher, uma mãe,
alguém que ainda se importava com as minúcias da vida cotidiana,
independentemente da cor da parede ou da rigidez do portão que a separava da
liberdade.
Quando a campainha soou indicando o fim da visita, ela não
se esgotou. Observou o menino sair, segurando a mão da avó, e guardou a imagem daquele
movimento com a precisão de quem armazena água no deserto. Ao voltar para a
cela, o som metálico das chaves e a batida das grades não soaram como uma
sentença de fim, mas como o compasso de uma espera. Beatriz sentou-se novamente
no beliche. Pegou o pedaço de pão que, poucas horas antes, ela se recusara a
comer. Desta vez, aceitou. Precisava de força.
Amanhã seria um novo dia, e ela teria novas palavras para
escrever para o Léo, mantendo, entre as grades e o concreto, a dignidade de
quem ainda tem um lugar reservado no mundo lá fora. Cada dia ali era um degrau
a menos para a sua reconstrução, um exercício de sobrevivência que exigia uma
mente intacta e um coração teimoso o suficiente para não deixar que a ferrugem
do sistema ganhasse a batalha final contra sua humanidade.
José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade
segunda-feira, 27 de julho de 2026
CRÔNICA DO DIA: O Despertar de Lúcia
Prezado
leitor esta é uma crônica de ficção, qualquer semelhança com pessoas e lugares ,
terá sido mera coincidência. O ventilador de teto girava em uma cadência lenta inútil, apenas empurrando o ar quente de
Babaçú para baixo. Lúcia encarava as pás de madeira escura com os olhos secos
e abertos. Era a única parte de seu corpo que obedecia aos seus comandos. O diagnóstico
de tetraplegia caíra sobre sua vida seis meses antes, após um acidente numa
estrada estreita que cortava a região do Mearim.
Desde então, o quarto de paredes descascadas
tornou-se o mundo inteiro, e o teto, o seu único horizonte. O calor maranhense
era implacável. Sem poder mover as mãos para enxugar o suor que escorria pela
testa e ardia nos olhos, Lúcia dependia inteiramente dos outros. A dependência
era pior do que a dor fantasma que às vezes percorria suas pernas inertes.
A
porta rangeu e Fátima entrou no quarto, carregando uma bacia de alumínio com
água morna e uma toalha.
—
Bom dia, Lúcia. Vamos fazer a higiene.
Lúcia
não respondeu de imediato. Apenas piscou, demoradamente, sinalizando que a
ouvira.
—
Abre a janela, Fátima .— Disse Lúcia. Sua voz soava rouca pelo desuso.
— O
sol está muito forte. Vai queimar seu rosto, minha irmã.
—
Abre a janela. Eu quero sentir o sol queimar. Eu quero sentir alguma coisa.
Fátima
obedeceu em silêncio. A luz invadiu o ambiente, revelando a poeira que dançava
no ar. A claridade feriu os olhos de Lúcia, mas ela não os fechou. A vida lá
fora pulsava. Carros passavam, vendedores ambulantes gritavam seus produtos na rua
de paralelepípedos, crianças corriam soltas. Lúcia estava presa dentro do
próprio esqueleto.
O banho
de gato começou. Fátima virava o corpo da irmã de um lado para o outro, um
manequim de carne e osso. O ressentimento inicial de Lúcia já havia dado lugar
a uma apatia sombria, até aquele momento.
Enquanto a toalha úmida percorria seu braço direito, ela sentiu um repuxo
agudo, elétrico, na ponta do dedo indicador.
Foi
imperceptível para Fátima. Mas para Lúcia, foi um estrondo tátil. Ela fechou os
olhos, concentrando toda a energia que restava no seu sistema nervoso naquele milímetro
de carne e terminação nervosa. O dedo não se moveu visivelmente, mas a sensação
de controle, por uma fração de segundo, estava lá. nervo não estava morto. Estava apenas
dormindo.
—
Fátima . — Lúcia chamou, a voz de repente mais firme. — Liga para a clínica. Eu
vou começar a fisioterapia amanhã.
—
Lúcia, o doutor disse que as chances de voltar a mexer...
— Eu
não perguntei as chances. Eu disse para ligar para a clínica.
O
processo de reabilitação não teve nada de heroico ou poético. Foi bruto, doloroso
e sujo. O centro de fisioterapia público de Babaçú funcionava em um prédio com
infiltrações, ventiladores barulhentos e macas de couro sintético rasgado. Três
vezes por semana, o maqueiro colocava Lúcia na van do município, uma viagem que
sacolejava seus ossos e testava sua sanidade.
O
fisioterapeuta, Roberto, era um homem prático. Não oferecia falsas esperanças.
—
Vai doer, Lúcia. E muito provavelmente, o progresso será mínimo no começo.
—
Faça o seu trabalho, Roberto. — Ela devolvia, os dentes cerrados.
Os
meses se acumularam. O esforço para mover um braço exigia o mesmo fôlego de uma
corrida. Lúcia gritava de dor quando os músculos atrofiados eram esticados. Ela
suava, chorava na maca e, em algumas noites, desejava que o acidente tivesse
sido fatal. Mas, na manhã seguinte, exigia ser colocada na van novamente.
A
primeira grande vitória veio no oitavo mês. Lúcia conseguiu fechar a mão
direita em torno de uma bola de borracha. A segunda vitória, um ano depois, foi
sustentar o tronco sentada na borda da cama. Seu sistema nervoso aprendia,
lentamente, a recrutar caminhos preservados e recuperar funções que pareciam
perdidas. Os exames de acompanhamento revelaram que a lesão medular não era
completa, como se acreditara nos primeiros dias após o acidente. Algumas vias
nervosas haviam permanecido preservadas, tornando possível uma recuperação
parcial mediante um longo processo de reabilitação.
Dois
anos após o acidente, Lúcia já não era tetraplégica. O diagnóstico mudara, mas
as sequelas eram permanentes. Seus movimentos nos membros inferiores eram
severamente limitados e a coordenação motora exigia concentração brutal. Ela passou
a usar uma cadeira de rodas adaptada. A euforia da recuperação médica logo
esbarrou em um problema muito maior. Lúcia havia vencido as limitações do seu
corpo, mas esbarrou nas limitações da cidade.
Em
uma terça-feira, Lúcia decidiu que iria ao banco no centro de Babaçú, resolver questões do BPC por conta própria. Fátima
tentou impedi-la, oferecendo-se para ir com uma procuração, mas Lúcia foi
categórica ao negar. Ela queria a rua. O trajeto, que para uma pessoa sem
deficiência levaria dez minutos, durou quase uma hora. As calçadas da cidade
eram um campo minado de buracos, desníveis repentinos, raízes de árvores arrebentando
o cimento e degraus irregulares construídos por moradores para impedir que a
água da chuva entrasse nas casas.
Lúcia se viu forçada a transitar pelo asfalto,
disputando o espaço com caminhonetes e motos que buzinavam furiosamente. Ao
chegar na agência bancária, exausta, os braços latejando de tanto girar as
rodas, o choque final.
Uma
escadaria de seis degraus de granito separava a rua das portas de vidro do
banco. Nenhuma rampa. Nenhum acesso lateral. Nada. Lúcia parou a cadeira na
calçada, encarando os degraus. O calor do meio-dia fervia o asfalto. Pessoas
subiam e desciam por ela, desviando o olhar, fingindo que a mulher paralisada
ali era invisível. Um homem engravatado, saindo da agência, parou no último
degrau e olhou para baixo.
—
Você precisa de ajuda, minha senhora? Quer que eu chame alguém lá dentro?
— Eu
quero entrar. Onde fica a rampa? — A voz de Lúcia era firme, embora a respiração
estivesse curta pelo esforço.
—
Rapaz, acho que não tem rampa aqui não. Esse prédio é antigo. É melhor a
senhora voltar para casa e mandar um parente. A rua não é lugar pra quem tem
suas condições. O sol está castigando.
Lúcia
travou os freios da cadeira de rodas. Ela encarou o homem de terno, memorizando
suas feições, seu tom condescendente e a estrutura de pedra atrás dele. A raiva
que subiu pelo seu estômago não era a mesma raiva que tinha do acidente. Era
uma fúria lúcida. Estratégica. Política.
— O
meu lugar. — Disse Lúcia, projetando a voz para que outras pessoas na calçada
ouvissem. — É onde eu quiser estar. A falta de capacidade não é das minhas
pernas. É dessa cidade.
O
homem deu de ombros, resmungou algo sobre falta de educação e seguiu seu
caminho. Lúcia não voltou para casa. Ela foi direto para a praça central. Havia
entendido que reconquistar os movimentos do corpo de nada servia se o mundo a mantivesse
engaiolada. A tetraplegia havia roubado seus movimentos; sociedade estava roubando sua cidadania. E ela
não permitiria.
Na
semana seguinte, a sala de espera do centro de fisioterapia virou um quartel
general. Lúcia não falava mais sobre exercícios ou dores musculares. Falava
sobre Leis de Acessibilidade. Falava sobre a Constituição
—
Quantos de vocês já deixaram de ir a uma consulta médica porque não conseguiram
subir no posto de saúde? — Perguntou ela, virando a cadeira no meio da sala.
Marcos,
um jovem cego de nascença, levantou a mão hesitante. Tereza, que usava muletas
devido à poliomielite, assentiu silenciosamente. Outros pacientes, mães com
filhos com paralisia cerebral, idosos com andadores, pararam para escutar.
—
Nós ficamos aqui dentro brigando com o nosso corpo para conseguir dar um passo.
E quando a gente dá esse passo, a cidade coloca um muro na nossa frente. Vamos
cobrar a quem construiu o muro.
Lúcia
organizou, inicialmente, um pequeno número de pacientes insatisfeitos. Eles
fizeram um levantamento rudimentar. Anotaram quais farmácias, supermercados e
repartições públicas não tinham acesso. O cenário era devastador, mas a indignação
coletiva era combustível.
O
primeiro alvo da recém-formada Associação de Pessoas com Deficiência de Bacabal
não foi aleatório. Lúcia escolheu a Câmara Municipal de Vereadores. O prédio
histórico, imponente, com uma arquitetura colonial mal preservada, possuía uma
longa escadaria na entrada principal. Era o símbolo do poder legislativo, o
lugar onde as leis da cidade eram criadas por pessoas que nunca precisaram usar
uma cadeira de rodas.
O
movimento foi marcado para uma quarta-feira, dia de sessão plenária. Lúcia
chegou cedo, acompanhada de vinte pessoas. Havia cadeirantes, cegos, surdos,
pessoas com muletas e familiares. Eles não levaram faixas ou megafones. A
instrução de Lúcia havia sido clara: a presença física deles, exatamente onde
não deveriam conseguir estar, seria a própria mensagem. Eles estacionaram
cadeiras ao redor da base da escadaria. Marcos posicionou-se no primeiro degrau
com sua bengala branca. As mães sentaram-se no concreto quente com seus filhos.
O acesso estava bloqueado. Quem quisesse
entrar ou sair da Câmara teria que passar por cima deles. Por volta das dez da
manhã, os vereadores começaram a chegar para a sessão. Os carros oficiais encostavam,
e os políticos saíam, confusos com a barreira humana. Um dos vereadores,
conhecido na cidade pelo temperamento explosivo, caminhou em direção a Lúcia,
que estava bem no centro.
— O
que está acontecendo aqui? Isso é espaço público, precisam liberar a entrada.
Temos uma sessão importante hoje para votar o orçamento.
Lúcia
o encarou. Os músculos do seu pescoço estavam rijos, mas sua mente estava
calma.
—
Nós sabemos que é um espaço público, vereador. Por isso viemos assistir à
sessão.
—
Então subam e entrem no plenário. Ninguém está impedindo.
— O
senhor está vendo alguma rampa? — Lúcia apontou para os degraus de concreto. —
Se nós não pudermos entrar, ninguém vai. Não haverá sessão até que os senhores
escutem as demandas daqueles que a cidade escolheu tornar invisíveis.
O
constrangimento se espalhou entre os assessores e políticos presentes. A
polícia municipal foi acionada, mas hesitou. Não havia violência, apenas vinte
pessoas com diversas deficiências sentadas ali, exigindo o básico da dignidade
estipulada em lei municipal há mais de dez anos, mas que nunca havia sido
cumprida.
O
presidente da Câmara interveio. Tentou contornar a situação, oferecendo que
alguns maqueiros do hospital levassem Lúcia e mais dois cadeirantes nos braços
até o segundo andar.
A
resposta dela foi incisiva.
— Eu
passei anos sendo carregada, vereador. Minha autonomia me custou sangue. Eu não
vim aqui para ser erguida como uma mercadoria disfuncional. Eu exijo rampa,
exijo adaptação, exijo que respeitem o nosso direito de ir e vir por conta
própria.
Diante
do impasse e com a imprensa local começando a registrar a cena, a sessão
plenária daquele dia foi cancelada. O bloqueio durou até o fim da tarde, sob o
sol escaldante de Bacabal. Lúcia não arredou o pé. As costas doíam, as pernas tremiam
com espasmos nervosos devido à postura prolongada na cadeira, mas ela não
abaixou a cabeça.
Ao
anoitecer, um acordo verbal com a mesa diretora foi forçado publicamente. Um
compromisso formal para discutir o projeto estrutural da Câmara e revisar a
aplicação das normas de acessibilidade nas vias principais da cidade nos
próximos trinta Dias. Não era a vitória final, apenas o início da guerra Mas o
muro havia sido rachado. Lúcia voltou para casa exausta. A rua já estava escura.
Fátima abriu a porta, preocupada, e correu para ajudá-la a passar pela soleira.
— A
cidade inteira está comentando o que você fez na Câmara de Vereadores, Lúcia.
Você arrumou um problema grave.
— Eu
não arrumei um problema, Fátima. Eu mostrei o problema que já estava lá.
Fátima
a ajudou a fazer a transferência da cadeira para a cama. O quarto, antes um
túmulo silencioso onde Lúcia aguardava os dias passarem, agora parecia pequeno
para o tamanho da mulher que o ocupava. Ela não era mais a paciente passiva que
encarava o ventilador de teto esperando a morte ou um milagre. Sobre a mesa de
cabeceira, uma cópia da lei municipal de obras públicas estava marcada com caneta
vermelha. Listas com nomes de dezenas de pacientes que aderiram à causa se
acumulavam. A tetraplegia havia paralisado seu corpo brutalmente, e cada
centímetro recuperado naquelas macas rasgadas da clínica servia a um propósito
agora irrenunciável.
Lúcia sabia que os degraus de granito seriam
apenas a primeira obstrução a ser derrubada em Babaçú. O ativismo
transformou-se no sangue novo que preencheu suas veias, oxigenando lugares onde
a medicina declarou que não haveria mais vida. Ela alcançou a caneta vermelha
na mesa e preparou-se para redigir o ofício da próxima reunião, perfeitamente
ciente de que não precisava mover o mundo inteiro de uma vez; bastava ter a força
suficiente para trancar a entrada até que as portas, sem exceção de formato ou
inclinação, fossem, por justiça e de direito, abertas a todos.
José Casanova



























