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terça-feira, 26 de maio de 2026

CRÔNICA DO DIA: África Mora na Nossa Boca

 

Na Rua Grande, em Bacabal, as palavras circulavam mais rápido que moto em dia de feira. Passavam de boca em boca, de mesa em mesa, de grupo de WhatsApp em grupo de WhatsApp, como se fossem inocentes passarinhos sem dono. Mas palavra nunca é só palavra. Palavra é mala antiga: às vezes a gente carrega sem saber o que tem dentro.

Foi isso que descobriu Leomar numa terça-feira abafada, enquanto tomava café no Bar do Garrincha, perto do Mercado Central.

Tudo começou quando seu Leomar, homem de riso quanto a própria  estatura  e camisa sempre aberta no peito, reclamou do calor e do movimento fraco do comércio:

— Rapaz, a coisa tá preta…

Ninguém estranhou. A frase caiu na mesa como cai farelo de pão: comum, quase invisível.

Mas Cristina Miranda estranhou.

Professora de História recém-chegada de São Luís, ela tinha o hábito perigoso de pensar antes de rir. Mexeu lentamente o café e perguntou:

— Preta por quê?

O silêncio apareceu tão rápido que parecia funcionário público batendo ponto.

Seu Leomar coçou a cabeça.

— Ué… modo de dizer.

— Todo mundo diz. — Respondeu ela. — Mas já reparou que quase tudo que associam ao preto é ruim?

Jonas, que também estava no bar levantou os olhos azuis do celular. Nunca tinha pensado naquilo. Na verdade, nunca tinha pensado em metade das frases que repetia desde menino, como quem herda um móvel velho sem perguntar de onde veio.

Lembrou  imediatamente da mãe dizendo:
“Esse serviço ficou serviço de preto.”

Do tio reclamando:
“Não sou tuas negas.”

Da vizinha chamando a menina bonita de:
“Mulata da cor do pecado.”

E até do cabeleireiro anunciando:
“Vamos dar jeito nesse cabelo ruim.”

Ruim pra quem?, pensou Leomar. Afinal de contas era branco, mas seu cabelo...não era dos melhores.

A conversa cresceu na mesa como chuva engrossando no inverno.

— E “mercado negro”? — Perguntou Cristina. — Já percebeu como o negro quase sempre aparece ligado ao ilegal, ao perigoso, ao errado?

— Mas ninguém fala por mal. — Tentou argumentar Garrincha, enxugando copos atrás do balcão.

— Eu sei. — Respondeu ela. — Só que ausência de intenção não apaga o peso da história.

O ventilador do bar girava lento, empurrando um ar quente que cheirava a café, fritura e memória antiga. Quantas vezes Garricha pensou em colocar uma climatizador de ar no bar e desistiu por causa do preço. Foi então que Dona Ana, que até aquele momento apenas ouvia, resolveu entrar na conversa.

Mulher negra de turbante amarelo e voz baixa, ela parecia carregar continentes dentro dos olhos.

— Vocês sabem qual é o problema? — Perguntou. — O Brasil esqueceu que muita coisa bonita daqui nasceu da África, mas continua lembrando da África apenas quando quer associar algo ao negativo.

O silêncio foi a única resposta. As palavras de dona Ana tinham força de uma navalha a cortar consciências.

— O tambor do bumba meu boi… veio de mãos negras. A comida temperada no dendê… veio de mãos negras. O samba, o tambor de crioula, a capoeira, o jeito da gente rir alto mesmo na dificuldade… tudo atravessou o oceano nos corpos de pessoas escravizadas.

Ela fez uma pausa curta. Todos os olhares do bar de Garrincha se voltaram para Dona Ana.

— Mas aí pegaram a palavra “negro” e transformaram em sinônimo de sujeira, erro e perigo.

Leomar sentiu algo estranho no peito. Como se alguém tivesse aberto uma janela dentro dele.

Dona Ana continuou:

— Na África existiam reis quando muita gente aqui ainda morava em aldeia de madeira na Europa. Existiam universidades em Tombuctu, bibliotecas gigantescas, astronomia, filosofia, comércio. Existiam tecidos coloridos como festa de São João e impérios ricos como canções de ouro.

O bar parecia mais silencioso que a igreja Santa Terezinha em sexta-feira santa.

— Só que a escravidão não roubou apenas corpos! — Disse ela. — Roubou também as narrativas. E até hoje tem palavra carregando correntes invisíveis.

Jonas tomou mais um gole de café  engolindo a seco as lembranças da infância. Das piadas na escola. Dos apelidos que colocavam nos coleguinhas negros. Das meninas alisando o cabelo para “ficar bonito”. Dos colegas dizendo que alguém tinha “alma branca” quando fazia algo considerado elegante.

Agora tudo aquilo parecia poeira colonial grudada na língua.

— Quando alguém chama um cabelo crespo de “ruim”. — Continuou Dona Ana. — Está dizendo sem perceber que a estética africana vale menos. Quando fala “denegrir”, coloca o escuro como sinônimo de manchar. Parece pequeno… mas criança escuta isso crescendo.

Seu Leomar suspirou fundo.

— Então quer dizer que a gente passou a vida repetindo coisa errada?

Cristina sorriu de leve.

— Quer dizer que sempre dá tempo de aprender diferente.

Do lado de fora, o céu começava a escurecer sobre Bacabal. Um grupo ensaiava tambor ao longe. Tum… tum… tum… O som atravessava a rua como um coração antigo lembrando que ainda estava vivo.

O Tambor parecia conversar com alguma aldeia escondida no outro lado do Atlântico. Dona Ana ouviu o tambor e abriu um sorriso bonito.

— Tá vendo? A África nunca foi embora daqui. Mora no ritmo, na comida, na fé, no corpo, na linguagem… e até no jeito brasileiro de sobreviver sorrindo.

Jonas sem entrar na conversa ficou olhando a rua.

Pensou que talvez maturidade fosse isso: abrir espaço dentro da própria cabeça para revisitar palavras antigas como quem reforma uma casa herdada. Tirar o mofo. Abrir as janelas. Deixar entrar luz.

Porque palavra não é vento.

Palavra é semente.

E dependendo do que a gente planta na fala, o mundo floresce… ou continua repetindo sombras que vieram de um passado que já deveria ter perdido a voz.



José Casanova

Professor, Jornalista, Escritor e Cronista
Membro da Academia Bacabalense de Letras

Academia Mundial de Letras da Humanidade

segunda-feira, 25 de maio de 2026

CRÔNICA DO DIA: O Silêncio dos Inocentes (e dos Reprovados)






O ar na sala 302 da Escola Padre João Mohana, em Bacabal, estava tão carregado de tensão que poderia ser cortado com uma régua de trinta centímetros daquelas de plástico que os alunos usam como estilingue. O silêncio reinava, mas não era o silêncio respeitoso de uma biblioteca monástica; era o silêncio fúnebre de um corredor de execução pedagógica. Sobre a mesa de cada aluno, repousava a folha de papel almaço, branca e impessoal, contendo as dez questões de Geometria Analítica que prometiam selar destinos.

O professor, sentado em sua cátedra com a postura de quem vigia uma fronteira em tempos de guerra, observava os alunos. Ele conhecia cada microexpressão da agonia discente. Havia o aluno "estátua", que olhava para a primeira questão há exatamente doze minutos, esperando que as fórmulas de distância entre dois pontos se materializassem no ar por geração espontânea. Havia o aluno "ritmista", cuja única contribuição para a ciência naquele momento era o tique-nervoso de bater a caneta esferográfica contra a mesa: clique-clique, clique-clique. Aquele som era o código Morse da ignorância desesperada, uma mensagem enviada ao universo pedindo uma intercessão divina ou um incêndio acidental que forçasse a evacuação do prédio.

— Professor… — Sussurrou uma voz vinda do fundo, carregada de uma piedade que faria um santo chorar. Era o Darlan Caldas, que tentava manter a cabeça baixa para não atrair o olhar fulminante do mestre. — Essa questão três aqui… o senhor disse que ia cair o que tava no caderno, né?

— O que está no caderno e o que eu expliquei durante três semanas, Darlan — Respondeu o professor, sem desviar os olhos do horizonte de nucas suadas. — Leia o enunciado com calma. A resposta está na interpretação.

Darlan voltou a olhar para o papel. No seu rosto, a "interpretação" parecia mais uma tentativa de decifrar o manuscrito Voynich. Ele suspirou fundo, um som que carregava o peso de todas as aulas em que ele preferiu desenhar logotipos de bandas de metal na última folha do caderno a anotar o que era um plano cartesiano.

O silêncio voltava, apenas para ser interrompido pelo som seco de uma folha sendo apagada com tamanha violência que ameaçava romper o tecido do espaço-tempo, ou pelo menos o papel almaço. Alefe, o filósofo de coisa nenhuma, estava agora em um estado de transe místico. Ele não escrevia. Ele massageava as têmporas, os olhos fechados, os lábios movendo-se num sussurro inaudível. Ele não estava revisando a matéria; ele estava, muito provavelmente, tentando lembrar o próprio nome completo para preencher o cabeçalho, ou talvez negociando com forças ocultas a troca de sua alma por uma nota cinco redonda.

— É pecado colar, professor? — A pergunta veio de uma menina na segunda fileira, com uma sinceridade desarmante.

— Não é pecado, é infração disciplinar passível de anulação da prova, Mariana. Concentre-se no que você sabe.

— Mas é que eu não sei nada, professor. O "nada" é um conceito matemático aceitável como resposta? Tipo o conjunto vazio? — Ela indagou, a caneta suspensa como um ponto de interrogação físico.

O professor apenas sorriu, aquele sorriso clínico de quem já viu gerações inteiras naufragarem no mar de Pitágoras. Ele observava a técnica do "olhar periférico" sendo executada com maestria por alguns sobreviventes. Pescoços se alongavam milimetricamente, olhos giravam nas órbitas como radares de longo alcance, tentando captar qualquer sinal de uma constante numérica na folha do vizinho. No entanto, o desespero era tão generalizado que colar do colega ao lado era como pedir orientações de direção a outro cego no meio de um deserto, a chance de ambos terminarem no fundo de um precipício estatístico era de cem por cento.

Um aluno, no auge do delírio provocado pelo branco mental, começou a desenhar uma pequena paisagem no canto da prova. Havia uma casinha, uma árvore e um sol com óculos escuros. Para ele, aquela prova já não era um teste de conhecimento, era um testamento. Ele estava deixando a vida acadêmica e partindo para o exílio das férias de recuperação final.

De repente, o som de algo caindo. Foi apenas uma borracha, mas no silêncio sepulcral da Escola Padre João Mohana, soou como uma granada. Metade da turma saltou na cadeira. O professor consultou o relógio. Faltavam quinze minutos. Era o momento da "fase do improviso literário". Os alunos que haviam desistido de calcular começavam a escrever parágrafos inteiros sobre a importância da matemática para a sociedade, ou juras de amor eterno à coordenação, na esperança de que o sentimentalismo amolecesse o coração de gelo do corretor.

— Professor, eu posso entregar? — Perguntou Alafe, levantando-se com a dignidade de um capitão que afunda com seu navio.

A prova de Alafe estava impecavelmente limpa, exceto pelo nome e por uma única frase escrita em caligrafia gótica no meio da página: "O conhecimento é uma ilusão, e o erro é a única certeza humana".

— Poético, Alafe. Mas a ilusão vai te custar um zero bem real. — Disse o professor, recebendo o papel.

À medida que o sinal se aproximava, o desespero atingia o ápice. Alunos faziam o sinal da cruz antes de chutar a letra 'C' em todas as questões de múltipla escolha, confiando na estatística divina de que "Deus não castiga quem marca C de Cristo". Outros entregavam as folhas com sorrisos amarelos, o tipo de sorriso que as pessoas dão quando batem o carro num poste e percebem que o seguro venceu ontem.

Quando o sino finalmente tocou, a explosão de ruído foi catártica. Cadeiras foram arrastadas, gritos de "eu tava na dúvida entre a A e a B!" ecoaram pelo corredor, e a sala 302 esvaziou-se em segundos, deixando para trás apenas o cheiro de grafite e o silêncio retornado. O professor juntou o maço de papéis, sabendo que o que tinha em mãos não eram provas, mas uma antologia do absurdo, um registro documental de quantos caminhos a mente humana pode inventar para evitar o encontro direto com a lógica.

Ele caminhou em direção à saída, sentindo o peso das respostas criativas em sua pasta. Amanhã seria o dia de enfrentar o bunker, onde o café tentaria lavar a alma do cansaço de corrigir dez vezes a mesma piada sobre "X sendo a letra escondida e não o valor a ser achado". Mas ali, no pátio agora vazio, ele sorriu por um segundo. O drama cômico da ignorância era, afinal, a prova mais cabal de que, mesmo sem saber geometria, aqueles alunos dominavam a arte da resistência existencial. Eles podiam esquecer as fórmulas, mas nunca esqueceriam como negociar com o destino em uma folha de papel almaço.




José Casanova

Professor, Jornalista, escritor e Cronista

Membro da Academia Bacabalense de Letras

Academia Mundial de Letras da Humanidade

domingo, 24 de maio de 2026

CRÔNICA DO DIA: Pituca, o Miolo encantado

 

Junho chegou em Bacabal como chegam certas visitas antigas: sem pedir licença, espalhando música pelos cantos da cidade e acordando até parede adormecida. Bastava o primeiro toque da zabumba ecoar na Rua do Cajueiro que o povo já sabia: o Boi Curupira estava “levantando o couro” outra vez.

E no centro daquela engrenagem encantada existia Augusto Pituca, homem magro, pele queimada de sol, vendedor de mingau na rodoviária, dono de uma sabedoria feita mais de silêncio do que de palavras difíceis. Não sabia citar poeta, mas conhecia o som do tambor pelo peso do vento. Não entendia de filosofia, mas sabia quando São João estava “andando pela cidade”, como dizia.

Pituca era o miolo do boi. Quase um “santo popular de couro e suor”, um homem simples carregando um universo inteiro nas costas

Não virou miolo por talento. Virou por promessa.

Anos antes, Dandara sua filha  mais nova tinha adoecido. Febre alta, dessas que fazem mãe rezar baixinho e pai desaprender a dormir. Sem dinheiro, sem esperança e sem entender as receitas dos médicos, Pituca entrou sozinho na Igreja de São João Batista no bairro Trizidela numa madrugada de chuva fina. Acendeu uma vela torta e prometeu:

“Se minha menina escapar dessa, eu carrego um boi nas costas enquanto minhas pernas aguentarem.”

            Pituca na simplicidade de sua fé não sabia, mas naquele momento assumira o maior compromisso de sua vida.

A menina sarou.

E promessa feita pra santo junino não evapora. Fica rondando igual fumaça de fogueira.

Desde de então, Pituca entrava no couro do boi todos os anos como quem veste uma segunda pele. Não era fantasia. Era sacerdócio de pano, suor e fé. As pessoas percebiam que balbuciava algumas palavras que ninguém sabia o que era, fazia parte do ritual de sua entrada no boi. Conversar com o boi.Tocar o chão três vezes fazendo o sinal da cruz, ritual herdado do avô que também fora miolo no passado.

O povo dizia que ele mudava quando entrava no miolo.

A costureira da brincadeira, Dona Gracinha jurava ter visto os pés dele deixarem marcas viradas ao contrário na lama depois e um ensaio.

— Isso é o Curupira protegendo o boi.  — Cochichava ela, fazendo o sinal da cruz.

Já Zé Telim, percussionista do grupo e mentiroso profissional nas horas vagas, espalhava pela cidade:

— Uma vez Pituca dançou tanto que o boi amanheceu fumando!

Ninguém acreditava totalmente. Mas também ninguém duvidava.

Porque em terreiro junino, verdade e invenção dormem na mesma rede.

Nos ensaios, Pituca era observado de perto por Raíssa, índia guerreira, moça afiada que dançava como se o chão tivesse música própria.

— Tu precisa aprender a sorrir dentro desse boi, Pituca. — Ela dizia.

— Mas ninguém tá vendo meu rosto. – Respondeu Pituca.

            — São João vê. – Insistiu Raíssa.

Deste de então, Pituca passava o ensaio inteiro tentando sorrir escondido dentro da armação, feito menino aprendendo segredo novo.

Havia também Maestro Chagas, homem responsável pela orquestra, dono de um bigode tão grande que parecia reger sozinho os metais. Tinha vindo da paraíba e se apaixonou pela cultura maranhense.

Chagas levava a brincadeira como ciência.

— Atenção! Trombone não é pra soprar feito quem assusta galinha! Isso aqui é emoção sonora!

Mas bastava Pituca entrar no terreiro para toda disciplina desafinar.

Certa noite, durante apresentação no bairro da Trizidela, uma criança correu no meio da roda atrás do boi. Pituca, num reflexo quase sobrenatural, ergueu a estrutura inteira e girou por cima do menino sem derrubar uma pena.

O povo enlouqueceu.

Uma senhora gritou:

— Esse homem tem mola nos ossos!

Na semana seguinte, surgiu o boato de que Pituca tinha aprendido a dançar com entidades encantadas no fundo do Rio Mearim.

O mais engraçado era que ele próprio começava a acreditar.

Nas madrugadas depois das apresentações, sentado na calçada com os pés mergulhados numa bacia d’água, Pituca conversava com o boi como quem conversa com um velho amigo.

— Hoje nós quase caiu, né parceiro?

O boi, imóvel num canto da sala, parecia escutar.

A esposa dele, Dona Neuma, já estava acostumada com o comportamento esquecido do marido.

— Homem, tu tá conversando com madeira. – Perguntou só pra confirmar.

— Madeira nada. Depois de tanto São João, isso aqui já criou alma.

E talvez tivesse criado mesmo.

Porque havia momentos em que o Boi Curupira parecia conduzir Pituca, e não o contrário.

Na grande apresentação da noite de São Pedro, a orquestra explodiu em metais dourados. As índias rodopiavam feito labaredas coloridas. O amo cantava versos improvisados enquanto o povo se apertava nas ruas de Bacabal como se quisesse caber dentro da própria festa.

Então aconteceu.

No auge da toada, faltou energia.

A cidade mergulhou num breu morno.

Por dois segundos, só existiu silêncio.

Depois alguém começou a bater matraca.

Outro respondeu no pandeirão.

Uma zabumba acordou no escuro.

E Pituca continuou dançando.

Sem     luz.
Sem     palco.
Sem enxergar quase nada.

O couro do boi riscava a noite como um vagalume gigante.

As pessoas acenderam lanternas de celular. As crianças correram atrás do brilho improvisado. As estrelas pareciam mais baixas. E o povo inteiro começou a cantar junto, transformando a escuridão numa espécie de milagre coletivo.

Mais tarde, já perto do amanhecer, Neuma encontrou Pituca sentado sozinho atrás do arraial, ainda vestido de miolo.

— O que foi?

Ele demorou a responder.

— Às vezes eu acho que quando eu tô dentro do boi… eu desapareço.

— E vira o quê?

Pituca olhou o céu clareando sobre Bacabal, enquanto os últimos fogos ainda morriam longe.

— Viro encantado dançando... desses que São João solta pelo mundo só no mês de junho.

José Casanova

Professor, Jornalista, Escritor e Cronista

Membro da Academia Bacabalense de Letras

Academia Mundial de Letras da Humanidade

 

 

sexta-feira, 22 de maio de 2026

CRÔNICA DO DIA: A Burocracia Poética das Terras Altas

    O cartório de Alto Alegre do Maranhão não é um templo de justiça; é um depósito de poeira e silêncio, onde a vida humana é reduzida a carimbos e assinaturas ilegíveis. Elias, escrivão de terceira classe há vinte anos, passava seus dias transcrevendo escrituras de compra e venda de terras que ele nunca veria, pertencentes a pessoas que ele nunca conheceria. A burocracia, pensava ele enquanto ajustava os óculos no nariz suado, é a arte de tornar o mundo chato o suficiente para ser catalogado.

    Naquela tarde de terça-feira modorrenta, chegou às suas mãos um processo de inventário antigo. O falecido, um certo Coronel Firmino (nome comum naquelas bandas, carregado de autoridade e bigode), deixara uma fazenda de nome curioso: "Sítio das Almas Perdidas".

    Elias abriu a pasta de papel pardo, sentindo o cheiro acre de mofo que se desprendia das folhas amareladas. Começou a ler a descrição do imóvel, esperando a habitual litania de medidas em braças, marcos de pedra e confrontações com vizinhos litigiosos.

    "Item 1: Uma gleba de terras de cultura e campos, situada à margem esquerda do Igarapé do Inferno..."

    Até aí, tudo normal. Nomes geográficos nessa região tendiam ao dramático. Mas, à medida que avançava na leitura, a linguagem técnica do agrimensor começava a falhar, dando lugar a algo que Elias não encontrava nos manuais de Direito Imobiliário.

    "...limitando-se ao norte com a cerca de arame farpado que divide a esperança da resignação..."

    Elias parou. Limpou as lentes dos óculos na camisa. Leu de novo. "Cerca de arame farpado que divide a esperança da resignação". Aquilo não era uma confrontação física. Era metafísica. O agrimensor devia estar bêbado ou poeta, duas condições frequentemente indistinguíveis em Alto Alegre.

    Continuou, agora com o coração acelerado.

    "...seguindo por um valado natural até encontrar o pé de tamboril onde, em 1942, jurou-se amor eterno que durou apenas um inverno..."

    O escrivão sentiu um arrepio. Aquele documento não estava descrevendo uma propriedade; estava mapeando uma memória. A posse da terra não se dava por metros quadrados, mas por quilos de sentimento. O inventário listava bens que nenhum herdeiro poderia reclamar em juízo: o eco de um riso antigo na varanda, a sombra fresca de uma mangueira que viu três gerações nascerem e morrerem, o silêncio pesado das tardes de domingo.

    Elias olhou ao redor. O cartório continuava o mesmo: as estantes de metal cinza, o ventilador de teto girando preguiçosamente, o som monótono do carimbo do colega na mesa ao lado. Pá. Pá. Pá. O ritmo da burocracia. Mas ali, naquelas páginas, pulsava uma vida secreta.

    "Item 4: Um açude de águas paradas, profundo como o arrependimento, capaz de saciar a sede do gado, mas não a da alma..."

    Ele pegou sua caneta Bic azul. Sua função era transcrever aquilo para o livro oficial, torná-lo público, legal, irrevogável. Mas como transcrever "profundo como o arrependimento" sem cometer uma infração administrativa? O sistema do Tribunal de Justiça não tinha campo para metáforas. O formulário pedia "Área Total" e "Benfeitorias". Onde ele encaixaria a "tristeza do poente"?

    Elias percebeu que estava diante de um dilema moral. Se ele alterasse o texto para o padrão jurídico ("açude com capacidade de X litros"), estaria cometendo um crime de falsidade ideológica contra a poesia. Estaria matando a verdade daquela terra para salvar a sua legalidade. Mas se mantivesse o original, o processo seria anulado por "inépcia da descrição".

    Olhou para a janela. O sol de Alto Alegre dourava a poeira da rua. Um menino passava correndo atrás de uma pipa. A vida lá fora era feita dessas imprecisões poéticas, dessas belezas que não cabem em formulários. A burocracia era apenas uma tentativa desesperada de enquadrar o caos divino em linhas retas.

    Tomou uma decisão.

    Puxou o livro de registros, pesado e solene. Molhou a ponta da caneta na boca, um hábito antigo. Começou a escrever.

    "Certifico e dou fé que, revendo os autos do inventário dos bens deixados por Firmino..."

    Sua mão tremeu.

    "...consta um imóvel rural denominado Sítio das Almas Perdidas, cujas divisas são a saudade ao norte, o esquecimento ao sul, a paixão a leste e o silêncio a oeste."

    Parou. Olhou para o que escrevera. Era loucura. Ele seria demitido. O juiz corregedor rasgaria a folha. Mas, naquele momento, Elias sentiu-se mais dono daquelas terras do que qualquer herdeiro. Ele havia transformado a posse em poesia. Havia dado à terra sua verdadeira dimensão: a humana.

    Fechou o livro com um estrondo que fez o colega ao lado pular.

    — O que foi, Elias? Matou uma barata? — Perguntou o outro.

    — Não. Salvei uma alma. — Respondeu Elias, levantando-se.

Pegou o paletó no encosto da cadeira. O expediente ainda não tinha acabado, mas para ele, o dia estava feito. Tinha cometido seu ato de rebeldia silenciosa. A burocracia podia ter as chaves do arquivo, mas a poesia tinha acabado de arrombar a porta. Saiu para a rua, sentindo que Alto Alegre, com suas cercas de arame e seus pés de tamboril, agora lhe pertencia de uma forma que nenhum registro de imóveis jamais conseguiria capturar.


José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista
membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de  Letras da Humanidade

quinta-feira, 21 de maio de 2026

CRÔNICA DO DIA: O Ponto Final Absoluto

    A mesa de Bento estava limpa. Diferente das noites anteriores, quando pilhas de manuscritos mutilados lutavam por espaço com xícaras de café e cinzeiros transbordantes de angústia, hoje havia apenas uma folha de papel A4. Branca. Imaculada.

    Ele a encarava há três horas.

  Para o mundo lá fora, Bento era o "Exterminador", o carrasco que decapitava advérbios e estripava parágrafos inteiros. Mas, na intimidade de seu pensamento, ele sabia que a destruição era apenas um meio. O fim sempre fora a busca pela essência. E o que é a essência senão o silêncio que antecede e sucede a palavra?

    Ele pegou a caneta. Sua mão, calejada de tanto riscar o excesso alheio, pairou sobre a brancura.

    "A vida é..."

    Parou. A vida é o quê? Complicada? Breve? Um sonho? Qualquer adjetivo que ele escolhesse seria uma redução. Dizer que a vida é "breve" é ignorar os momentos em que ela se arrasta como um caracol em dia de chuva. Dizer que é "bela" é ofender quem sofre. Dizer que é "triste" é negar o sorriso da criança. Qualquer palavra, percebeu Bento, é uma prisão.

    Largou a caneta.

    O silêncio do escritório era absoluto. Podia ouvir o zumbido da lâmpada fluorescente e, mais longe, o som abafado de um carro passando na rua. Aquele ruído mundano não o incomodava; pelo contrário, realçava a pureza do papel à sua frente.

    Ele sempre acreditara que o escritor perfeito era aquele que encontrava a palavra exata. Flaubert e seu le mot juste. Mas e se a palavra exata não existisse? E se a linguagem humana, com suas limitações gramaticais e semânticas, fosse apenas uma rede grosseira tentando capturar a água do mar? A água sempre escapa pelos buracos. O que fica na rede são algas mortas e pedras.

    A literatura, concluiu Bento com um frio na espinha, é a arte do fracasso. Tentamos dizer "amor" e escrevemos romances de quinhentas páginas que, no final, não arranham a superfície do que sentimos quando olhamos nos olhos de quem amamos. Tentamos dizer "medo" e criamos monstros de papel que não assustam ninguém.

    Mas aquela folha em branco... Ah, ela continha tudo.

   Ali, naquele vazio, cabiam todas as histórias jamais contadas. Cabia o romance épico sobre a fundação de Bacabal. Cabia o poema lírico que faria chorar as pedras de cantaria de São Luís. Cabia a confissão do assassino e a oração do santo. O branco não era a ausência; era a potencialidade infinita. Era o Deus da literatura antes do "Fiat Lux".

    Bento sentiu uma vertigem. Ele passara a vida cortando, podando, limpando. Seu objetivo sempre fora chegar ao osso. Mas agora, diante do osso polido, percebia que o tutano era feito de nada.

    Lembrou-se de um velho mestre de caligrafia japonesa que dizia: "O espaço entre as letras é mais importante que a tinta". Bento sempre achara aquilo uma metáfora bonita. Agora, via que era uma instrução técnica. O papel em branco era o maior intervalo possível. Era a música composta apenas de pausas.

    Ele pegou a folha com as duas mãos, segurando-a pelas bordas como se fosse um objeto sagrado e frágil.

    Se ele escrevesse uma única palavra ali, estragaria tudo. Uma mancha de tinta quebraria a perfeição do infinito. "Eternidade", se ele escrevesse, ocuparia um espaço físico, finito, com começo e fim. A palavra "Eternidade" dura o tempo que se leva para lê-la. O papel em branco dura para sempre.

    Ele sorriu. Um sorriso de quem desvendou a piada cósmica.

    A obra-prima não é aquela que diz tudo; é aquela que permite que tudo seja dito na mente do leitor. Ele, o Exterminador, finalmente terminaria seu trabalho. Não precisava mais de caneta vermelha. Não precisava mais corrigir ninguém. A correção suprema era a inexistência do erro, e só não erra quem não escreve.

    Levantou-se e foi até a máquina de escrever, uma relíquia que mantinha no canto da sala por sentimentalismo. Inseriu a folha. O rolo girou com um estalo seco.

Datilografou, bem no topo, centralizado:

    A PERFEIÇÃO

    E puxou a folha.

    Só isso. O título e o abismo branco abaixo dele.

    Olhou para a obra. Era linda. Era terrível. Qualquer um que olhasse para aquela página veria seu próprio reflexo. O leitor triste veria tristeza. O leitor apaixonado veria amor. O crítico veria pretensão. O sábio veria o Tao.

    Bento colocou a folha em uma moldura simples de madeira preta e pendurou-a na parede, bem em frente à sua mesa. A partir de hoje, aquela seria sua musa e seu juiz. Sempre que sentisse a tentação de usar um adjetivo desnecessário, olharia para A Perfeição e lembraria que nenhuma palavra vale o silêncio que ela quebra.

    Apagou a luz e saiu do escritório. A casa estava quieta. Ele sentiu uma paz que nunca experimentara antes, a paz de quem depôs as armas. O mundo lá fora continuava barulhento, cheio de vozes, gritos e discursos vazios. Mas ali dentro, no santuário de sua mente, o silêncio reinava soberano, a única linguagem capaz de traduzir a inefável complexidade de estar vivo. E pela primeira vez, Bento não teve vontade de editar nada. O mundo estava, finalmente, limpo.

 

José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundia de Letras da Humanidade

terça-feira, 19 de maio de 2026

CRÔNICA DO DIA: Por que as Formigas não usam Tênis?

 

O pincel estalou contra o quadro branco na Escola Joaquim Nogueira, em Fortaleza, desenhando uma guilhotina estilizada que parecia observar a turma com um apetite aristocrático. O professor de História, um homem que defendia o Iluminismo com a mesma paixão que defendia o seu direito a um café quente na sala dos mestres, estava no auge de sua performance pedagógica. 

― Entendam, pessoal! ― Exclamou ele, gesticulando com tamanha pompa que o pó de giz formava uma pequena névoa ao seu redor. O Quadro da sala era metade para uso de gi, metade para uso de pincel. ― O Terceiro Estado não aguentava mais! Era o peso dos impostos, a fome assolando as ruas de Paris, a Maria Antonieta mandando todo mundo comer brioche enquanto o povo clamava por pão. A Queda da Bastilha não foi apenas a invasão de uma prisão; foi a explosão de uma panela de pressão social! 

A turma parecia, milagrosamente, hipnotizada. Até o fundo da sala, geralmente um território sem lei governado por trocas de figurinhas e fofocas sussurradas, mantinha os olhos fixos na lousa. O professor sentiu aquele arrepio sagrado que todo educador experimenta uma vez a cada cometa: a sensação de que o conhecimento estava, de fato, acontecendo. Ele respirou fundo, preparou o clímax sobre a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão e abriu os braços.

Foi nesse exato vácuo de silêncio dramático que uma mão se ergueu na primeira fileira.

Não era uma mão apressada, dessas que buscam tirar uma dúvida urgente sobre a data da prova. Era uma mão lenta, cerimonial, pertencente a Maicon. Na fauna escolar, Maicon era classificado como o "filósofo do nada". Seus processos cognitivos pareciam ocorrer em uma dimensão paralela onde o tempo e a lógica da BNCC não tinham jurisdição.

O professor parou no meio do gesto. O brilho da Revolução Francesa vacilou em seus olhos.

― Sim, Maicon? Alguma dúvida sobre o Diretório? Ou talvez sobre o papel da burguesia na queda da monarquia? ― Perguntou o mestre, tentando manter o fio da meada histórica preso por um fio de esperança.

    Maicon ajeitou os óculos, que escorregavam pelo nariz úmido de suor, e olhou fixamente para um ponto vago na parede, logo acima da cabeça do professor, onde uma formiga solitária percorria o relevo do reboco descascado.

― Professor... ― começou Maicon, com uma voz carregada de uma gravidade existencial que faria Heidegger chorar de inveja. ― Eu tava aqui pensando... Por que as formigas não usam tênis?

O silêncio que se seguiu não foi o silêncio da reflexão histórica. Foi o silêncio do vácuo absoluto, o som de quarenta cérebros sofrendo um curto-circuito simultâneo. O professor de História sentiu Robespierre e Napoleão se revirarem em suas tumbas europeias. 

― Como é, Maicon? ― O professor piscou, o pincel ainda suspenso no ar como uma arma esquecida.

― É que elas andam muito, né? ― Continuou o filósofo do nada, sem se abalar pelo choque coletivo. ― Se a gente andar o que elas andam, proporcionalmente ao tamanho, a gente estoura a sola do pé. E elas sobem parede, passam por cima de farelo de biscoito, atravessam o pátio inteiro no sol de meio-dia de Fortaleza. Se elas usassem um All Starzinho, ou um tênis de mola, elas não iam tropeçar nas imperfeições do chão? Porque se uma formiga tropeça e cai de cara, como é que ela avisa pra coluna que vem atrás pra não fazer um engavetamento?

Davi, o especialista em física quântica da malandragem sentado duas bancadas atrás, franziu a testa, contagiado pelo vírus da aleatoriedade.

― Pior que é mermo, macho ― Interrompeu Davi. ― Se elas tropeçarem carregando uma folha, a folha vira tipo um paraquedas ou esmaga a coitada? É uma questão de resistência dos materiais, professor.

O professor de História sentiu a guilhotina que ele mesmo desenhara cair metaforicamente sobre o seu pescoço. A Bastilha havia caído, mas não para a liberdade; havia caído para o reino do absurdo.

― Pessoal, por favor! ― O professor tentou resgatar os destroços da aula. ― Estamos em 1789! Luís XVI está prestes a perder a cabeça e vocês estão discutindo EPIs para insetos? Maicon, formigas não têm pés como os nossos, elas têm garras e estruturas de adesão. Elas não tropeçam porque têm seis patas, o centro de gravidade é baixo e, pelo amor de tudo o que é pedagógico, elas não têm lojas de calçados no formigueiro!

― Mas e se tivesse, professor? ― Insistiu Maicon, os olhos agora brilhando com a centelha da descoberta inútil. ― Imagina o mercado de trabalho. Um sapateiro de formigas ia ficar rico. Ia ter tênis de corrida, chuteira de trava pra gramado... a Revolução Industrial ia começar na colônia debaixo dessa sala se elas resolvessem calçar alguma coisa.

A turma, que há cinco minutos discutia a fome em Paris, agora estava plenamente engajada em um debate acalorado sobre a numeração de calçados para a classe Insecta. Uma garota no fundo sugeriu que as formigas operárias deveriam usar botas de bico de aço por causa da carga pesada, enquanto outro aluno defendia que isso atrasaria a produção de mel — sendo prontamente corrigido por um colega de que formigas não fazem mel, o que gerou uma nova subdiscussão sobre a utilidade biológica das abelhas no contexto do capitalismo agrário.

O professor de História encostou-se na mesa, sentindo a derrota fluir por suas veias. Ele olhou para o plano de aula, onde a palavra "Iluminismo" brilhava ironicamente. Não havia luz ali. Havia apenas a sombra vasta e imprevisível da mente de um adolescente de catorze anos que, no meio de uma crise política global de dois séculos atrás, decidiu se preocupar com o conforto podológico de uma saúva.

― Sabem de uma coisa? ― Disse o professor, num tom de resignação que beirava o estado de Nirvana. ― Vamos falar de formigas, então. Na Revolução Francesa, o povo era como as formigas. Trabalhavam sem parar, carregavam o peso do clero e da nobreza nas costas e, se um tropeçasse de fome, os outros continuavam marchando sobre ele porque o sistema não parava. A diferença é que o povo não queria tênis. O povo queria a cabeça do rei.

Maicon balançou a cabeça devagar, processando a analogia forçada com uma seriedade assustadora.

― Entendi, professor. O rei era o chinelo que tentava esmagar o formigueiro. Faz sentido.

O sinal da Escola Joaquim Nogueira tocou, libertando o professor de sua tortura filosófica. Enquanto os alunos saíam, Maicon passou pela mesa do mestre, parou por um segundo e disse:

― Mas se elas usassem tênis de luzinha, professor... ia ser bem mais fácil de ver elas no escuro e ninguém ia pisar sem querer. Fica aí a reflexão.

O professor permaneceu sozinho na sala de aula, cercado pelo cheiro de giz e pela poeira do tempo. Ele olhou para a formiga na parede. Ela continuava sua marcha, sem tropeçar, sem All Star e, definitivamente, sem se importar com a queda da monarquia. Ele percebeu que a sala de aula é um ecossistema onde a lógica linear morre para dar lugar a uma biodiversidade de pensamentos desconexos que, de alguma forma bizarra, mantêm a máquina escolar girando.

Lentamente, ele apagou a guilhotina do quadro. Amanhã seria o período napoleônico. Ele já antecipava a pergunta de Maicon sobre se o cavalo branco de Napoleão sofria de insônia ou se o imperador usava o chapéu daquela forma para esconder um roteador de wi-fi. 

As interrupções são, na verdade, os únicos momentos de silêncio real da alma discente, quando a pressão de aprender o que já passou colide com a urgência de entender o que não tem a menor importância. Ele guardou seu material, ciente de que a próxima batalha pedagógica seria travada sob a mesma vigilância silenciosa das paredes descascadas, onde a busca pela verdade histórica estaria sempre a um passo, ou a um tropeço de uma dúvida metafísica sobre o vestuário dos invertebrados.


Por José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista
Membro da Academia Bacabaalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade


segunda-feira, 18 de maio de 2026

CRÔNICA DO DIA: A Máscara de São Luís


O espelho do banheiro da repartição pública, no coração do Centro Histórico de São Luís, devolvia a Marina uma imagem que ela mal reconhecia. O rosto estava perfeitamente composto: um batom discreto, os cabelos cacheados domados por um prendedor elegante e um sorriso ensaiado que ela praticara no reflexo do elevador. Mas, por trás daquela vitrine de funcionalidade, Marina sentia que suas engrenagens internas estavam moendo areia.

Ela tinha trinta e seis anos e um diagnóstico recente de TDAH, acompanhado de uma bagagem pesada de ansiedade generalizada e episódios cíclicos de depressão. Em São Luís, uma cidade que transborda espontaneidade e barulho, a vida de Marina era uma coreografia de contenção.

— Você está ótima, Marina. O relatório está pronto, a reunião foi um sucesso — Sussurrou para si mesma, inspirando o ar úmido que subia do mar e se infiltrava pelas janelas coloniais do casarão onde funcionava seu setor.

O problema não era a competência. O problema era o masking. Para o mundo corporativo e social da Ilha, Marina era a profissional focada, a colega que nunca perdia um prazo. Ninguém via o esforço monumental que ela fazia para não se perder em devaneios durante as falas dos diretores, ou a exaustão física que sentia ao final do dia por ter passado oito horas controlando seus tiques nervosos e forçando um contato visual que lhe parecia invasivo e doloroso.

A máscara social era sua armadura, mas também sua cela.

Ao voltar para sua mesa, o som das conversas paralelas e o clique-clique incessante dos teclados começaram a perfurar sua paciência. A umidade de São Luís parecia pesar dez quilos sobre seus ombros. Marina sentia a ansiedade subindo como a maré da Baía de São Marcos: lenta, inevitável e sufocante.

— Marina, o pessoal vai tomar um sorvete ali na Rua do Giz depois do expediente. Você vem? — Perguntou Ricardo, um colega de trabalho sempre entusiasmado.

— Ah, Ricardo... hoje não vai dar. Tenho muita coisa para organizar em casa. — Mentiu ela, com a precisão de quem já domina a arte da evasão.

A verdade era que o reservatório de energia social de Marina estava abaixo da reserva. Ir ao sorvete significaria mais duas horas de máscara, mais duas horas de risadas calculadas e monitoramento constante da própria postura. Ela precisava do seu "casulo", o apartamento pequeno onde as luzes eram baixas e o silêncio era a única língua permitida.

Ao sair do trabalho, caminhou pelas ruas de paralelepípedos. O pôr do sol dourava os casarões, e o som de um saxofone vindo de uma galeria próxima tentava seduzi-la a ficar. São Luís é uma cidade que exige presença, que convida ao encontro. No entanto, para Marina, cada interação era um gasto de energia que ela não tinha. A depressão não se manifestava nela como uma tristeza profunda e melodramática, mas como uma apatia cinzenta, um descarregamento total da bateria da alma.

"Por que eu não posso simplesmente ser como eles?", pensava ela, observando um grupo de turistas rindo alto perto do Palácio dos Leões. "Por que para mim tudo é um cálculo? Por que o mundo parece ter o volume no máximo e eu não encontro o controle remoto?"

O peso da máscara começou a machucar o rosto invisível de sua mente. Adultos neurodivergentes, especialmente mulheres que passaram décadas sem diagnóstico, frequentemente desenvolvem quadros graves de ansiedade porque passaram a vida tentando se encaixar em moldes que não foram feitos para suas formas. Marina era o resultado dessa pressão interna. Ela era a excelência construída sobre os escombros da própria saúde mental.

Ao chegar em casa, a rotina de descompressão começou. Ela jogou as chaves na tigela, tirou os sapatos e sentou-se no chão da sala, no escuro. O choro veio sem aviso. Não era um choro de dor súbita, mas de alívio por poder, finalmente, soltar os músculos da face. Ali, ninguém exigia que ela fosse "normal". Ali, seus pensamentos podiam saltar de um lado para o outro sem precisar de uma conclusão lógica imediata.

A ansiedade, porém, ainda sussurrava em seu ouvido, enumerando as tarefas de amanhã, prevendo possíveis falhas, revisando conversas de hoje para ver se ela não tinha soado "estranha". A neurodivergência na vida adulta é um jogo de sombras. É lutar contra o preconceito dos outros e contra o próprio autojulgamento, a sombra que insiste em dizer que o cansaço é preguiça e a necessidade de isolamento é falta de afeto.

Marina levantou-se e foi até a janela. Lá fora, São Luís brilhava com as luzes dos postes e o reflexo da lua na água. Ela percebeu que a máscara era um recurso de sobrevivência, mas que não podia ser sua única pele. A inclusão real, que ela tanto lia nos portais de direitos das pessoas com deficiência e neurodivergentes, precisava começar dentro de si mesma.

— Amanhã. — Disse ela para a noite. — Eu vou levar meus fones de ouvido para o trabalho. Vou explicar que o barulho me atrapalha a concentrar.

Pode parecer um gesto pequeno, mas para quem viveu trinta e seis anos fingindo que o mundo não a machucava, admitir uma sensibilidade era um ato de coragem suprema. Era começar a tirar a máscara, peça por peça, e permitir que a Marina real, com seus silêncios, suas inquietações e sua criatividade fragmentada, pudesse respirar o ar úmido da Ilha sem sentir que estava se afogando.

A máscara de São Luís seria guardada na gaveta. Marina sabia que a depressão e a ansiedade não desapareceriam da noite para o dia, mas aceitar que seu cérebro tinha um ritmo diferente era o primeiro passo para que aquelas patologias deixassem de ser sua identidade. Ela era Marina. Ela era neurodivergente. E ela tinha o direito de habitar a cidade sem ter que representar um papel que não fora escrito para ela.

Naquela noite, o sono veio mais fácil. A ansiedade baixou como a maré, deixando na areia de sua mente as conchas de uma nova consciência. Ela não precisava ser normal; ela precisava ser apenas real. E a realidade, tal qual os casarões de sua cidade, podia ter rachaduras e azulejos faltando, mas ainda assim guardava uma beleza e uma dignidade que nenhum disfarce jamais conseguiria igualar.

Ela uma mulher que aprendera a respirar sem o peso de um sorriso forçado. E isso, por si só, já era uma vitória monumental contra o silêncio que o mundo insiste em impor aos que percebem a vida em outras frequências.


José Casanova 

Professor, Jornalista, Escritor e Cronista

Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade