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Sessão Solene na Câmara Municipal de Bacabal Celebra o Dia Internacional da Mulher

Vereadoras Nathália Duda e Regilda Santos conduzem Sessão Solene

quarta-feira, 17 de junho de 2026

CRÔNICA DO DIA: A Vida do Miolo

Augusto não via o mundo como as outras pessoas. O mundo, para ele, era uma sequência de frestas horizontais, uma visão recortada de pés, pernas e poeira, filtrada através do pequeno vão cuidadosamente posicionado na saia bordada do boi. Sob a carcaça de madeira e veludo, o ar é um recurso escasso, reciclado incessantemente por um pulmão que arfa sob a pressão de dezoito quilos de estrutura decorada. O suor não é apenas um incômodo; é uma chuva constante e quente que escorre pelas têmporas, arde nos olhos e apaga a visão periférica, exigindo que ele navegue pelo terreiro não pelo que vê, mas pelo que sente vibrar sob a sola de seus pés.

Ser o miolo do boi é uma forma de anacorese absoluta. Dentro daquela cúpula, ele se torna invisível para que a divindade possa ser vista. O boi precisa ser magnífico, ágil, altivo; o homem, por outro lado, precisa ser inexistente. Enquanto o público aplaude a beleza dos bordados e a destreza dos movimentos do animal que gira e investe, Augusto trava uma luta silenciosa contra a gravidade e o desmaio. Ele é a engrenagem que, para funcionar, deve estar escondida na sombra da máquina.

A escuridão interna da armação é densa, temperada pelo cheiro forte do veludo impregnado de suor de anos e pelo perfume das flores que as mulheres costumam pendurar nos chifres do boi. Em noites de apresentação, o boi é o centro do universo, o destino de todos os olhares. Augusto ouve os gritos, os elogios a "quão real" o boi parece, e o riso de quem se assusta quando ele, num movimento súbito e seco, avança em direção à multidão. Cada um desses estímulos chega até ele como algo distante, abafado pelas camadas de tecido que o separam da realidade. Ele não responde por si; ele responde pela carcaça.

Havia um momento específico, quando as matracas entravam em um ritmo quase hipnótico e o pandeirão do Mestre ditava uma cadência mais rápida, em que a exaustão física atingia um platô de quase delírio. Augusto sabia exatamente como usar esse limite.

Era ali que o boi ganhava vida, que ele parava de ser um boneco manejado e passava a possuir uma vontade própria. Ele sentia o peso da estrutura flutuar sobre seus ombros, como se a armação tivesse se fundido ao seu esqueleto. O boi não era mais um adereço; era uma extensão do seu próprio corpo, uma armadura de fé que o protegia, ou talvez o aprisionasse na celebração coletiva.

As dores nas costas eram parte do pacto. Eram como cicatrizes de honra que ele carregava em silêncio. Muitas vezes, ao retirar a armação após horas de apresentação, ele sentia o mundo girar e a gravidade parecer subitamente muito mais cruel, como se seu corpo tivesse esquecido o peso da própria carne sem o suporte protetor do veludo.

No entanto, o que ele sentia ao sair de dentro do breu daquela carcaça não era alívio puramente físico, mas uma melancolia estranha, a sensação de ser pequeno demais para o mundo vasto que o esperava lá fora.

O miolo é, em essência, aquele que sacrifica a própria voz para que a toada do boi possa ser ouvida. Ele não canta, não declama, não faz as caretas do Cazumbá. Ele apenas é. Ele é o centro gravitacional de uma ópera de rua que se sustenta apenas pela força de sua resistência.

Quando ele se ajoelha diante da multidão, a estrutura range sob o esforço, e Augusto sabe que, do lado de fora, aquele gesto é lido como uma demonstração de humildade ou um aviso de ataque. Mal sabem eles que, ali dentro, trata-se de um homem buscando um ângulo seguro para equilibrar o peso, tentando desesperadamente não tombar e acabar com a magia que ele mesmo sustenta.

Nesta noite, o calor estava particularmente insuportável. As luzes das fogueiras do lado de fora lançavam labaredas que desenhavam silhuetas de monstros nas paredes de zinco, e o som dos tambores de sopapo parecia ressoar dentro de seu crânio, ressoando nos ossos como um chamado ancestral.

Ele deu um giro circular, a saia do boi levantando poeira e obrigando o público a recuar. O brilho dos canutilhos sob os olhos de quem admirava era cego, mas o brilho real, o único que importava, era o que ele sentia ao sentir a batida da matraca vibrar não apenas em seus ouvidos, mas no coração da estrutura que ele carregava.

Quando finalmente o cortejo parou e as matracas silenciaram, o silêncio do lado de dentro da armação era um alívio puro. Augusto fechou os olhos por um segundo, o suor escorrendo em rios pelo peito desnudado. Ele ouviu os aplausos e o som das palmas que não eram para ele, mas para a divindade que ele vestia.

E, no fundo da escuridão, com a testa encostada na madeira bruta da estrutura que o mantinha de pé, Augusto esboçou um sorriso. Ninguém veria, ninguém saberia, mas ele sabia. O Boi Curupira era lindo, e ele, o homem escondido, tinha feito tudo isso acontecer, carregando o peso da tradição em suas costas como se fosse pluma, enquanto o coração batia um só ritmo com a alma daquele boi que, enquanto ele estivesse ali, nunca morreria.

JOSÉ CASANOVA
Professor, Jornalista, Escritor e Crônista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade

PROJETO DA CASA DO IDOSO E DEBATES SOBRE INFRAESTRUTURA MARCAM SESSÃO DA CÂMARA DE BACABAL


A Câmara Municipal de Bacabal realizou, na tarde desta quarta-feira (17), mais uma Sessão Ordinária marcada pela apresentação de projetos, indicações e debates sobre demandas da população. Os trabalhos foram conduzidos pela presidente da Casa, vereadora Natália Duda (MDB).

A sessão teve início com a abertura oficial dos trabalhos pela presidente do Legislativo. Em seguida, o vereador Paulo Brandão (PP) realizou a tradicional leitura bíblica. Dando prosseguimento à pauta, a vereadora Patrícia Teles (MDB) fez a leitura da ata da sessão anterior, enquanto o vereador Alberto Sobrinho(PSB) realizou a leitura da Ordem do Dia.

Um dos destaques da sessão foi a apresentação do Projeto de Lei de autoria da vereadora Vanusa das Jade's (MDB), que propõe a criação da Casa do Idoso no município de Bacabal. A matéria foi encaminhada às comissões permanentes da Câmara para análise técnica e jurídica, devendo retornar ao plenário para apreciação e votação dos parlamentares.

A vereadora também apresentou indicação solicitando ao Poder Executivo uma intervenção no Mercado Central de Bacabal, visando melhorias na estrutura e nas condições de funcionamento do espaço. Outra indicação de sua autoria solicita a realização de um mutirão para emissão da Carteira de Identidade, buscando ampliar o acesso da população ao documento.

Durante a sessão, o vereador Jário Lira (PSB) apresentou requerimentos relacionados à realização de concurso público municipal, melhorias no abastecimento de água e reforço da iluminação pública em diversos pontos da cidade.

Os parlamentares também aprovaram uma indicação convidando o superintendente do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), João Marcelo, para comparecer à Câmara Municipal e prestar esclarecimentos sobre o andamento das obras da ponte sobre o Rio Mearim, uma das intervenções mais aguardadas pela nopopulação da região.

Na tribuna, fizeram uso da palavra os vereadores Ivonete Paiva (PSB), Romarinho (União Brasil), Paulo Brandão (PP), Feitosa (União Brasil) e Alberto Sobrinho (PSB). Durante seus pronunciamentos, os parlamentares abordaram temas de interesse público e promoveram o tradicional debate político que marca as sessões legislativas, discutindo ações administrativas, demandas comunitárias e propostas para o desenvolvimento do município.

A sessão reafirmou o papel do Legislativo Municipal como espaço democrático de discussão e encaminhamento de propostas voltadas para a melhoria da qualidade de vida da população bacabalense.









 

terça-feira, 16 de junho de 2026

CRÔNICA DO DIA: Os Mistérios do Cazumbá


 
Zeca não tinha nome quando vestia a cara de madeira, a máscara de careta que projetava um sorriso torto, dentes caninos exagerados e olhos semicerrados em uma ironia infinita. Atrás daquele artefato esculpido, que cheirava a tinta velha e suor curtido, ele não era o zagueiro que a vizinhança conhecia por ser sério, nem o operário que lidava com máquinas pesadas a semana toda. Ao colocar a máscara, o ar ao seu redor mudava de densidade. O Cazumbá não é um homem, é uma entidade que habita a fronteira tênue onde o medo dos vivos encontra o escárnio dos mortos.

A estrutura do corpo era envolta em retalhos de pano colorido, retalhos que pareciam um mosaico de memórias esquecidas, e ao redor da cintura, centenas de chocalhos de latão que, ao caminhar, emitiam um ronco metálico, como se ele estivesse arrastando fantasmas presos por correntes de metal. Zeca começou a movimentar-se à margem da roda principal, mantendo-se sempre nas sombras, perto de onde o fogo das tochas já estava diminuindo. O segredo do Cazumba, ele confidenciou uma vez a um novato que tremia de medo de usar a máscara, é que você não deve dançar para o público; você deve dançar para fazer o público se sentir observado por algo que eles não conseguem compreender.

Ele avançou sobre um grupo de crianças que, por um instante, hesitaram entre a curiosidade e o susto. Zeca não correu; ele deslizou com um gingado trôpego, propositalmente desconcertante. Deu um giro, fazendo os chocalhos da cintura responderem com um estrondo sincopado, e inclinou a máscara para frente. Por trás das frestas, ele observava o mundo. O olho humano é uma janela, mas a máscara do Cazumbá é um espelho. As pessoas, ao verem aquela carranca grotesca, projetavam nela seus próprios demônios e fantasias. O riso ácido que saía de Zeca, um riso rouco, abafado pela madeira, não era uma piada, era uma provocação.

— O que tu faz lá dentro, Zeca? — Alguém perguntou certa vez, entre risos, em uma noite de trégua nos ensaios. — Tu enlouquece ou tu descansa?

— Eu me desconstruo.  — Ele respondeu, com a seriedade de quem conhece um mistério intransponível. — Quando eu visto essa cara que ri de tudo, eu percebo que o mundo todo é uma careta. O Cazumba é o único que tem a coragem de mostrar a verdade: que a gente vive num circo e que a morte está logo ali, dando risada junto com a gente.

O Cazumbá é o anarquista da brincadeira. Enquanto os caboclos de pena mantêm a elegância e os vaqueiros   campeadores ostentam o orgulho, o Cazumbá faz o papel do caos organizado. Ele invade a roda, atrapalha o passo dos outros, faz caretas para as damas de fita e, com seus chocalhos, pontua o compasso das matracas com uma desordem proposital. Zeca amava esse papel. A liberdade de não precisar ser bonito, nem correto, nem digno. Ele podia ser o feio, o assustador, o engraçado, tudo ao mesmo tempo. Era uma liberação absoluta das amarras que a sociedade impunha sobre o corpo dos homens.

Certa noite, em uma encruzilhada de terra batida perto de Rosário, Zeca sentiu o transe pela primeira vez. A máscara não parecia mais uma peça de madeira presa por amarras de pano; parecia sua própria estrutura óssea. Ele andava e o chão respondia. A risada metálica que escapava de sua garganta soava como se viesse debaixo da terra. O medo que emanava do público era um combustível puro. Ele percebeu, então, por que o Cazumbá era a figura que menos se explicava. Não havia explicação. Havia apenas presença.

Ele se aproximou de uma idosa que o observava com um misto de reza e temor. Zeca não a assustou. Ele parou, ajoelhou-se dramaticamente, fazendo os chocalhos tilintarem em um ritmo lento, quase um lamento, e inclinou a máscara para baixo, num gesto de reverência que a plateia achou ter sido uma brincadeira, mas que, para ela, foi uma bênção. Zeca, por trás do sorriso entalhado, sentiu uma lágrima correr pelo contorno da máscara, mas ninguém nunca saberia. O Cazumbá não chora, o Cazumbá é a própria careta da vida que insiste em rir mesmo quando o mundo desaba.

Ao final da noite, quando ele finalmente retirou o artefato, o rosto de Zeca estava marcado pelas sombras da madeira. Ele sentia o peso do mundo real voltando a se instalar sobre seus ombros. A máscara, pousada no chão, parecia sorrir para ele, como se dissesse que, na próxima noite, ele voltaria a ser ela. O mistério não era como ele aguentava o peso dos chocalhos ou o calor daquele tecido fechado. O mistério era como ele conseguia voltar a ser um homem comum depois de ter sido, por algumas horas, o riso sagrado e o medo proibido daquela tradição centenária. Zeca limpou o suor da máscara com o carinho de quem guarda o seu próprio segredo mais profundo, sabendo que, enquanto houvesse um boi e um tambor, ele sempre teria um lugar para rir de tudo o que os outros apenas temiam.

José Casanova
professor , jornalist ,escritor e cronista
membro da Academia Bcabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade

segunda-feira, 15 de junho de 2026

CRÕNICA DO DIA: O Voo do Caboclo de pena


A estrutura do corpo humano parece pequena demais para comportar a vastidão do mundo quando se veste a indumentária de um Caboclo de Pena. Para Raimundo, a preparação não começava com o trajar, mas com um jejum de corpo e intenção que durava a tarde inteira. Dentro do quartinho apertado nos fundos da sede do Boi de Maracanã, o cheiro de ervas e o calor abafado do entardecer maranhense pareciam comprimir o tempo. Ele permanecia de pé, imóvel, enquanto os ajudantes começavam o ritual, que não admitia pressa nem erros: cada pena, cada miçanga, cada fita precisava ocupar o lugar exato que a tradição, imutável por gerações, ditava.

O peso da armação de madeira, revestida por milhares de penas de ganso e de outras aves, era colossal. Quando o chapéu cônico, adornado com fitas que desciam como uma cascata, foi colocado sobre sua cabeça, Raimundo sentiu a mudança. A postura mudou automaticamente. A coluna, habituada a carregar sacos de cimento nos dias de semana, endireitou-se com uma dignidade que emanava não dos músculos, mas da linhagem que ele agora representava. Ele não era mais o Raimundo silente da oficina mecânica; ele era uma entidade, um guardião da floresta transmutado no asfalto quente dos arraiais de São Luís.

— Firme, compadre .— Disse o velho mestre, ajustando o cinto de miçangas em sua cintura. — O caboclo não dança para o público. O caboclo dança para ser reconhecido pelos encantados. Se você tropeçar, eles param de olhar. Se você elevar o pé e bater com a força da verdade, eles te guiam.

Raimundo respirou fundo, o ar entrando filtrado pelas penas que cercavam seu rosto. O ritual de vestimenta era um exercício de despersonalização.

“Sua indumentária é rica, feita 100% de forma artesanal, e pode chegar a pesar entre 15 e 30 kg. Ela é composta por um grande cocar, gola, saiote e adereços para braços e pernas, todos ornamentados com penas (geralmente de ema tingidas)”

À medida que as camadas de penas eram fixadas, a individualidade de Raimundo ia sendo soterrada, dando lugar a uma presença maior. Ele sentia-se como se estivesse vestindo a própria história dos povos que habitaram aquelas terras antes mesmo da cidade ser desenhada. Era uma armadura, sim, mas não para a guerra de homens, era uma armadura para a exaustão da alma, uma estrutura capaz de sustentar o transe.

Quando finalmente cruzou o limiar do barracão para o terreiro, o impacto cultural foi imediato. O batuque do sotaque da matraca, com seus tambores de sopapo ribombando contra as paredes de zinco, fez o chão vibrar. Raimundo não entrou andando; ele entrou em saltos curtos, rítmicos, chicoteando o ar com as mãos, cada movimento uma saudação aos quatro cantos do mundo. O peso das penas, que antes parecia um fardo, agora era o elo que o ancorava ao solo enquanto sua mente, instigada pelos ritmos frenéticos, começava a descolar da realidade.

A dança do caboclo de pena é uma coreografia de resistência. O suor começou a escorrer por baixo da máscara social, ardendo nos olhos da razão, mas Raimundo não tinha permissão para limpar o rosto. O ritual exige que o brincante suporte o calor, a umidade e a dor, transformando esses elementos em combustível. Ele girava, desenhando círculos invisíveis no ar, suas penas tremulando como se estivessem vivas, reagindo a um vento que apenas ele parecia sentir. A cada volta, era como se ele estivesse removendo as camadas densas da vida urbana daquela praça, filtrando a energia bruta que emanava do público e devolvendo-a, transformada em rito, para o ambiente.

Nos arraiais da capital, onde a luz artificial dos palcos por vezes tentava domesticar a tradição, o Caboclo de Pena vinha para lembrar o porquê de tudo aquilo existir. Raimundo saltava com uma leveza que contradizia a massa da sua indumentária. O tambor, presente na memória ancestral, parecia ecoar dentro de seu peito. Ele via o público ao redor, as pessoas paradas, o queixo caído, espectadoras de um voo que acontecia ali mesmo, entre as barracas de comida típica e o burburinho de São Luís.

O peso da tradição, que ele carregava nas costas sob a forma de penas costuradas à mão, não era um peso morto. Era um lastro de memória. Cada brilho de lantejoula no gibão, cada fita de cetim que chicoteava ao sabor do giro, carregava o nome dos antigos, dos antepassados que iniciaram aquela brincadeira quando o mundo era apenas mato e água de igarapé. Raimundo dançava por eles. Ele dançava pela dor da semana, pela esperança do filho que estudava e seria o primeiro da família a ter um diploma de curso superior, pelo orgulho de carregar o nome de sua guarnição.

O ritmo acelerou. Os pandeirões começaram a virar, o som subiu de tom, e Raimundo sentiu que, se desse um passo maior que a terra, ele seria capaz de subir como os pássaros que emprestaram suas penas para aquele momento. A frenesia atingiu o auge; seus pés tocavam o solo e, antes que o calcanhar descansasse, o corpo já reagia para o próximo salto. Ele era um borrão de cores vibrantes sob as luzes frias da cidade.

Quando o toque final cessou, o silêncio que se abateu sobre o terreiro foi ensurdecedor. Raimundo parou de repente, ainda tremendo com a energia que percorria seus nervos. O suor escorria em rios pelo peito, o peito arfava em busca de um oxigênio que as penas pareciam filtrar com dificuldade. Ele estava exausto, fisicamente drenado, mas espiritualmente completo. Ao olhar para os lados, viu apenas os rostos maravilhados dos que assistiam. Para o espectador, a dança tinha acabado. Para Raimundo, a preparação para o próximo voo já começava ali, no peso silencioso das penas que, uma a uma, ele precisaria desamarrar, devolvendo ao traje o descanso que sua própria alma, ainda vibrante, ainda lutava para encontrar.

JOSÉ CASANOVA
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista
Membro da Academia Bacablaene de Letras
Academia Mundial de letras da Humanidade

domingo, 14 de junho de 2026

CRÔNICA DO DIA: Os Olhos de Catirina e o Gosto do Desejo


Maria não precisava de espelho para saber quem era quando subia no tablado improvisado na lateral do barracão. O espelho era o rosto das outras mulheres que a observavam da plateia; o espelho era o brilho nos olhos daquelas que, durante o ano inteiro, escondiam seus próprios desejos sob o avental de cozinha ou a jornada exaustiva nas casas de família. Quando ela ajustava o vestido colorido, as fitas que pendiam de sua cintura e o lenço que prendia o cabelo, ela não estava apenas se fantasiando de Catirina. Ela estava invocando uma força ancestral, um tipo de autoridade sobre a própria vontade que, no cotidiano árduo da periferia, era-lhe sistematicamente negada.

Catirina, aos olhos de Maria, nunca foi apenas a mulher grávida com desejos excêntricos e um marido complacente. Para ela, a personagem era a única voz que se permitia romper o silêncio da submissão. O desejo pela língua do boi, aquele pedaço de carne nobre, reservado apenas para as mesas dos que mandavam e desmandavam no mundo dos homens, era o manifesto mais antigo e, ao mesmo tempo, o mais subversivo de todo o enredo do Bumba-meu-boi. Ao exigir aquela iguaria, Catirina não estava pedindo apenas um alimento; estava reivindicando o direito de possuir, de consumir e de ser satisfeita, sem pedir desculpas.

Enquanto caminhava para o centro da roda, Maria sentia seus pés tocarem o solo com uma firmeza que ela não experimentava na vida real. Em casa, o mundo exigia que ela fosse a mediadora, a que se cala para evitar o conflito, a que divide o pão entre os filhos e finge estar satisfeita com as migalhas. Mas, ali, sob a luz dos refletores, ela era mulher que não se contentava. Quando ela olhava para Pai Francisco, o seu parceiro Mateus, via nele a ferramenta necessária para a sua vontade. Ela não roubava; ela ordenava. E a beleza do folguedo estava justamente na obediência cega daquele homem que, por amor ou medo, se lançava aos pastos do coronel para extrair o objeto de seu capricho.

Algumas das meninas mais novas, sentadas em caixotes próximos ao terreiro, observavam Maria com uma veneração que quase a fazia sorrir. Elas viam em seus movimentos, na mão posta sobre a barriga, que simulava a gravidez, e nas mãos postas nos quadris, um tipo de poder que ninguém lhes ensinava na escola ou no catecismo. Maria sabia que aquele desejo pela língua do boi não era sobre comida. Era sobre a necessidade visceral de experimentar o que era proibido, de provar o que a hierarquia do campo tentava manter fora do alcance dos braços dos trabalhadores.

— Tu tem certeza que quer mesmo essa língua? — Pergunta Tião durante um breve intervalo no ensaio, mantendo o personagem mesmo longe das matracas.

Maria o olhou fundo nos olhos, e por um instante, a fronteira entre Maria e Catirina se dissolveu completamente. A pergunta de Mateus não era apenas para o roteiro; era, talvez, o reconhecimento da ousadia que ela representava.

— O boi é do patrão, Francisco .— Respondeu ela, a voz firme, num tom de desafio que fez até os tocadores de tambor pararem por um segundo. — Mas o gosto é meu. E se a gente não provar o que é deles, a gente nunca vai saber o que a gente tá perdendo aqui na terra.

Aquela frase ecoou na sede do boi. Parecia uma sentença, um credo que ela carregava para além das festas juninas. Enquanto ela se movia, simulando um mal-estar falso mas convicto, ela sabia que estava ensinando algo para todas aquelas mulheres ao redor: que o desejo, quando reprimido, definha, mas quando é posto à mesa, mesmo com o risco do roubo, ele se torna o tempero da própria existência. A língua do boi era o símbolo da partilha injusta, e ela, como Catirina, era o instrumento de correção daquela balança.

No instante em que começou a dança final da cena, Maria fechou os olhos. O som das matracas parecia, para ela, o barulho do próprio coração disparado, a batida do sangue que corria ansioso pelo gosto daquela vitória. Ela levava as mãos à boca, rindo com uma malícia que não combinava com a Maria de segunda a sexta-feira. Era um riso catártico. Ela viu, nas sombras das fogueiras, as outras mulheres acompanharem seus gestos, imitando a sua altivez. Catirina não pedia licença para existir, e ela, Maria, também não faria.

Ao final do ensaio, quando o boi, aquele simulacro de riqueza e poder, repousava derrotado no canto do terreiro, Maria sentia uma paz estranha. O esforço físico a deixava exaurida, mas a alma estava leve. O desejo pela língua tinha sido satisfeito, não porque ela havia comido o boi, mas porque ela tinha construído, por meio daquela brincadeira, um espaço onde o desejo feminino não era apenas aceito, mas celebrado como o motor da história.

Ela se sentou em um banco de madeira, o lenço úmido de suor na testa, observando o barracão que começava a silenciar. Ali, ela não era mais a dona da casa ou a serva do cotidiano. Ela era a figura central, a portadora da vontade que movia os homens para a floresta e as matracas para os céus. Olhou para o próprio reflexo na vitrine de um armário velho ali perto e, pela primeira vez na temporada, viu que o olhar de Catirina não era apenas um acessório da performance. Era, na verdade, o seu próprio olhar, destemido e faminto pela vida, finalmente em liberdade diante dos olhos de sua gente. Ali, o gosto daquele desejo inexistente era mais real do que qualquer comida que ela já houvesse preparado, um banquete de dignidade que ela finalmente se permitia saborear, pedaço a pedaço, através daquela tradição que a mantinha viva.

José Casanova
professor, Jornalista escritor e  Cro nista
Membro da Academia Bacablense de Letras
Academia Mundial de letras da humanidade

sábado, 13 de junho de 2026

CRÔNICA DO DIA - Pai Francisco: O Desejo e a Travessura


Tião não era um homem de grandes posses, mas possuía uma agilidade nas mãos que, por vezes, parecia desenhar o ar. Durante o ano, ele era mestre de obras em canteiros onde o sol não dava trégua e a poeira de cimento grudava nos poros. Ninguém olharia para Tião na segunda-feira pela manhã, com seu chapéu de sol puído e as costas curvadas sobre o tijolo, e imaginaria que, naqueles mesmos olhos semicerrados pela exaustão, havia uma trava guardada. Uma trava que só se soltava quando o couro do tambor anunciava o reinício do ciclo. Ali, no barracão, ele deixava de ser o homem que obedecia a prazos e plantas baixas para se tornar Pai Francisco, a figura que desafiava a lógica da fazenda, o dono da travessura que movia a engrenagem do Bumba-meu-boi.

Ele se observava no espelho velho da penteadeira que ficava no canto do galpão, um vidro manchado pelo tempo que já vira dezenas de homens antes dele tentarem capturar a alma daquela cena. Pai Francisco não era apenas um homem mau ou um ladrão de gado; ele era a própria encarnação do desejo profundo, do impulso humano que prefere o risco imediato à segurança da obediência. Enquanto passava o pó queimado no rosto para dar o tom da pele curtida pela lida, Tião sentia o peso da responsabilidade. Vestir-se daquela indumentária colorida, chapéu de palha com fitas e o gibão que escondia seu corpo de trabalhador, era como atravessar um portal onde as leis do mundo lá fora perdiam a validade.

Naquela noite, o ensaio estava particularmente denso. O sotaque da matraca batia com uma insistência que lembrava o galope de um animal inquieto. Tião observou Catirina, interpretada pela vizinha Rosana, sentada em um banco de madeira, simulando o enjoo, a languidez, o capricho feminino que ditava o destino de toda a história. Ela olhou para ele com aquela exigência silenciosa que sempre o desarmava, e ele entendeu, mais uma vez, que o roubo da língua do boi não eram apenas palavras cantadas ou uma coreografia ensaiada; era a prova máxima de lealdade e de insensatez.

— Tu tá pronto, Tião? — Sussurrou Rosana, entre um verso e outro da toada. — O patrão vai aparecer daqui a pouco, e aquele boi é o mais bonito que a gente já preparou. Se tu não fizer direito, o povo não vai acreditar no teu desespero.



Ele assentiu, sentindo o suor frio escorrer pelas têmporas. A humanidade de Pai Francisco habitava justamente ali, na tensão entre o amor que sentia pela companheira e o medo da punição que viria na sequência. Era uma malandragem temperada com a dura realidade de quem, na vida real, tantas vezes precisou medir se o pouco que tinha bastava para as necessidades de casa. Mas agora, no terreiro, ele não media nada. Ele se lançava.

Tião caminhou até o centro do terreiro com um gingado que não lhe pertencia. Seus pés, que durante a semana mal se arrastavam na lida, agora pareciam flutuar sobre a terra batida. Ele começou a cantar, sua voz projetando-se com a força de quem tem um segredo que precisa ser contado para não explodir. A toada era um lamento ritmado, o pedido de quem sabe que está cometendo um erro, mas que não se importa, desde que o desejo do ser amado seja satisfeito.

— Se não me der a língua, vou morrer de aflição. — Cantava ele, e o público, formado pelos próprios brincantes que ainda não tinham entrado em cena, respondia com um coro que fazia as vigas do barracão tremerem.



A cada passo dado em direção ao boi, Tião sentia o olhar do Mestre, que observava se o seu Francisco tinha aquele brilho de astúcia no olho. E ele tinha. Era a astúcia de quem compreendeu que a vida, muitas vezes, nos empurra para situações limítrofes onde só a rebeldia pode nos curar. Roubar o boi do patrão era, em última análise, um ato de redistribuição da alegria; algo que aquele boi rico e ornado, que brilhava como uma joia, não deveria estar apenas parado nos pastos do coronel. Ele pertencia ao povo, e a língua, a parte mais nobre, deveria ser o banquete de quem sofria.

Enquanto encenava sua travessura, Tião esquecia do cimento e das ferragens. Ele via na plateia, que se acumulava na entrada do barracão, o reflexo de outros Tiãos. Viu o rapaz que trabalhava na oficina mecânica e que, ali, era um caboclo de pena altivo; viu a senhora que passava o dia lavando roupa para fora e que, ali, era uma rainha bordada. Pai Francisco, em sua teimosia, não era um vilão para aquele grupo; ele era o espelho vivo da própria resistência. Era o riso possível no meio da lida dura, o gesto de amor que desafiava a autoridade e as consequências.

Ao final do bloco, quando Tião finge o arrependimento, ou melhor, finge tentar esconder o rastro do seu crime, a catarse coletiva era absoluta. O público ria, mas era um riso que carregava o gosto de algo familiar. Todos ali, em algum momento, já haviam feito algo por desejo que, pela régua do mundo, seria considerado um erro. E, naquele momento de brincadeira, sob as luzes tremeluzentes das fogueiras, o erro de Pai Francisco tornava-se uma lição de humanidade.

Tião saiu do centro da roda, o peito arfando, o suor empapando o gibão de veludo. Ele tirou o chapéu, limpou a testa com a manga e olhou para o boi, agora guardado em um canto do barracão, esperando pela próxima encenação. O boi era belo, mas ele sabia que a beleza não estava apenas nas miçangas e no brilho dos canutilhos; estava na língua que ele fingia roubar, na fantasia que ele vestia, e na capacidade de, por alguns minutos, ser quem ele desejava ser, sem medo de ser julgado pelo dono das terras ou por quem quer que fosse.

Rosana se aproximou, entregando-lhe um copo de água. Ela não disse nada, apenas tocou em seu ombro, um gesto simples que validava todo o esforço daquela noite. Ele percebeu que a Catirina não era apenas um papel; era o motor de toda a história, a personificação da cobiça que transformava o pacato trabalhador em ladrão de gado por uma noite. E que, sem o desejo dela, seu Francisco seria apenas um homem cansado, sem horizontes, sem aquela malandragem que iluminava seus olhos e trazia o riso de volta às feições curtidas pela vida.

Ali, no silêncio que sucedeu o ensaio, Tião entendeu que não importava o quanto o trabalho fosse pesado na manhã seguinte. Ele já tinha vivido o que precisava viver. Tinha roubado a língua, tinha desafiado o senhor e, acima de tudo, tinha mantido viva a chama daquele folguedo que, para muitos ali, era o único momento em que a vida parecia pedir licença para ser apenas festa. Enquanto as matracas descansavam em cima das mesas, Tião guardou a fantasia com o cuidado de quem trata um objeto sagrado. A travessura estava feita, e, na memória de cada um dos presentes, o desejo de Pai Francisco continuaria ecoando forte, preparando o terreno para quando o boi, de fato, precisasse de sua lingua para cantar as glórias da temporada. E enquanto fechava a porta do galpão, percebeu que aquele não era um papel que ele simplesmente vestia; era um fragmento de sua própria alma que ele, finalmente, tinha a permissão de mostrar ao mundo.


José Casanova
professor , Jornalista, escritor e cronista

membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras d Humanidade




CRÔNICA DO DIA: O Despertar do Couro


Há um silêncio muito peculiar que antecede as noites de junho no Maranhão. Não se trata de uma ausência de som, mas de uma espécie de respiração coletiva presa na garganta de milhares de pessoas. É o momento exato em que o peso do ano inteiro, com suas labutas, poeiras e suores ordinários, começa a ceder espaço para o extraordinário. Nos quintais de terra batida, sob a luz frouxa dos postes ou o brilho agudo das estrelas, as chamas de pequenas fogueiras improvisadas começam a estalar. Elas projetam sombras imensas, trêmulas e apressadas nas paredes de taipa do interior dos brincanres ou nos muros de tijolo cru das periferias de São Luís, nos povoados isolados de Viana, Matinha, Rosário e nas encruzilhadas poeirentas de Bacabal.

Aquele fogo não foi aceso para espantar o frio, tampouco para cozinhar o alimento do corpo. É o fogo sagrado do barracão, nascido e alimentado pelas mãos calejadas dos brincantes, destinado a uma única e sagrada função: aquecer o couro.

Mestre Benedito, um homem de poucas palavras, com a pele marcada por décadas de sol nos manguezais e os olhos fundos que guardavam memórias de incontáveis madrugadas, aproximou seu pandeirão das chamas. A madeira do aro estava gasta pelo aperto das mãos, mas o couro cru, esticado à perfeição sobre a estrutura redonda, era novo e precisava ser domado. Ao seu redor, a comunidade começava a se aglomerar. Eram vizinhos, afilhados, filhos de santo, curiosos e velhos companheiros de guarnição.

— O couro chora antes de cantar, mestre? — Perguntou um menino, os olhos arregalados, refletindo as fagulhas que subiam em espiral para a noite escura.

— O couro não chora, meu filho. — Respondeu Mestre Benedito, girando o instrumento com a precisão de um artesão antigo. — O couro acorda. E, quando ele acorda, ele acorda a gente.

Aquela resposta carregava a essência de tudo o que estava prestes a acontecer nos meses seguintes. O Bumba-meu-boi não é apenas uma festa ou uma encenação teatral de rua; como diria o lendário padre Mohana; é uma liturgia pagã e cristã, uma reza forte que se canta com os pés na terra e os olhos grudados na promessa. Ali, nos dias de preparação, o barracão deixava de ser um simples galpão com telhado de zinco ou palha. Transformava-se em um templo pulsante.

Nos fundos do terreiro, longe das fogueiras e perto dos lampiões e bicos de luz, o cenário era outro, mas guiado pela mesma urgência. Em uma sala apertada, tomada por cheiro de café forte e suor, mulheres debruçavam-se sobre pedaços imensos de veludo escuro. As bordadeiras eram os pilares invisíveis da magia. Em suas mãos silenciosas, milhares de miçangas, canutilhos e lantejoulas transformavam-se em constelações brilhantes, figuras de santos, flores majestosas e escudos protetores.

— Esse boi vai ter que cegar o povo de tanto brilho este ano, Dona Rita. — Comentou uma das jovens, empurrando a agulha pelo tecido grosso com a ajuda de um dedal de metal. — A senhora viu o tamanho da procissão pro São João?

— Promessa grande não se paga com veludo fosco, menina. — Respondeu Dona Rita, sem desviar os olhos apertados da sua obra.

As costas não lhe doíam mais; o anestésico da devoção operava milagres na época das fogueiras.

— Cada continha dessa aqui é um pedido atendido. É a saúde do meu neto, é o emprego do seu marido. O boi carrega o brilho, mas quem suporta o peso da fé somos nós.

Dona Rita tinha razão. A beleza do Bumba-meu-boi é construída pelo avesso dos sacrifícios diários. Quando os portões das fábricas fecham e as ferramentas de construção civil são guardadas, o pedreiro, o estivador, a empregada doméstica, o professor e o pescador atravessam a cidade para se despir de suas rotinas. No barracão, o marcador de tempo não é o relógio ponto, mas o coração. Ao pisar naquele chão de terra ou cimento rústico, as hierarquias do mundo exterior desabam por completo. Sob o teto de zinco, a riqueza se mede pela força do gogó na hora de entoar a toada e pela firmeza do braço ao cruzar as matracas.

Lá fora, os pedaços de madeira começavam a ser testados. O som de duas matracas sendo chocadas uma contra a outra soa simples para quem nunca viu um batalhão do sotaque da Ilha. Um simples tá-tá, tá-tá. Mas, quando centenas de pares de madeira roxa começam a se encontrar em uníssono, não é um som que se escute apenas com os ouvidos. É uma vibração espessa que sobe pelas solas dos pés, sobe pelas pernas, arrepia os pelos dos braços e se instala bem no centro do peito, ditando um novo ritmo para o coração.

Os mutucas, guerreiros ágeis responsáveis pela segurança e pela ordem do cordão, já corriam de um lado a outro do terreiro, gritando ordens que se perdiam nas risadas e cumprimentos efusivos. Eram abraços de irmãos que não se viam desde a fogueira do ano passado. O cheiro de cachaça barata misturava-se ao aroma da macaxeira frita, do suor limpo que brotava da excitação e do amadeirado tostado pelas chamas espalhadas no quintal. Tudo ali era vivo. Tudo exigia presença.

No centro da roda que espontaneamente foi se formando, descansava a armação de buriti coberta por veludo ricamente bordado e fitas coloridas que caíam como uma cachoeira vibrante. A figura do Boi, silenciosa, imponente. O miolo, o homem cuja função é dar vida àquela carcaça pesada e sagrada, aproximou-se devagar. Ele passou a mão pela testa da escultura, acariciando os olhos brilhantes de vidro. Enxergar o mundo através da pequena fresta na saia do boi, equilibrando dezenas de quilos sobre os ombros enquanto gira e reverencia o público, é um ato de submissão e força descomunal. Para o miolo, o boi não é um objeto; é uma divindade temporária que ele aceita abrigar, alimentando a ilusão de quem assiste, para manter viva uma lenda que é a espinha dorsal de sua própria comunidade.

Mestre Benedito, satisfeito com a tensão de seu pandeirão, ergueu-se de seu banquinho baixo perto do fogo. Com um aceno de cabeça imperceptível aos desatentos, a roda de homens e mulheres emudeceu. A conversa animada, os risos frouxos e as instruções repassadas em voz alta morreram no instante em que o Mestre caminhou até o centro do terreiro. A noite maranhense, com suas estrelas e seus ventos mornos, parecia aguardar em reverência.

O Mestre ajeitou o instrumento no braço, suspirou fundo como se puxasse o ar dos séculos passados, desde quando o primeiro negro escravizado olhou para os folguedos lusitanos e decidiu que contaria sua própria história de dor, zombaria e resiliência usando o ritmo forte da terra.

E, então, a mão aberta desceu pesada.

Tum.

Aquele som foi como um trovão caindo dentro de uma sala fechada. O primeiro batido do couro marcou o rasgo no tempo. Não era mais maio, ou o cansaço do trabalho, ou as contas empilhadas sobre a mesa de plástico em casa. O primeiro baque libertou a poeira, os encantados e a alma daquela gente, explodindo no ar escuro feito um grito de alforria. De imediato, quase por instinto de sobrevivência e devoção, os outros tocadores alinharam seus pandeirões.

Tum, tum-pá. Tum, tum-pá.

Em segundos, as dezenas de matracas explodiram no ar com violência festiva. Pais de família choravam enquanto sorriam, as bordadeiras paralisaram suas agulhas apenas para escutar o terremoto controlado que faziam as telhas tremerem e a terra levantar poeira fina. As índias, ainda com roupas civis, sem as penas e miçangas que logo cobririam seus corpos, começaram a ensaiar o passo, pisando forte, girando o pulso, conectando o calcanhar com a veia pulsante do chão.

Para a comunidade que se enxergava e se encontrava no outro através desse transe ritmado, o pertencimento era a única moeda de valor que importava. No calor daquela onda sonora, todos sabiam exatamente quem eram e por que estavam ali. Haviam renunciado ao sono, ao pouco dinheiro que tinham, aos finais de semana livres. Mas no momento de cada toque, recebiam em troca algo impossível de ser alcançado sozinho: a certeza absoluta de que não estavam invisíveis. O Bumba-meu-boi os tornava gigantes, donos das ruas, senhores do tempo e da narrativa da própria terra. Pessoas comuns encontravam sua imortalidade no círculo mágico da cultura popular.

Enquanto a melodia da primeira toada da noite cortava o céu como uma flecha cabocla carregada de lamentos amorosos e convites à dança, cada figura tradicional do cortejo que estava adormecida começava a esticar os braços nos espíritos dos presentes. O caboclo de pena balançava as rédeas invisíveis; o cazumba desenhava em sua imaginação a corrida trôpega e assustadora usando as máscaras e chocalhos; os brincantes mergulhavam cada vez mais fundo na magia que o couro e a madeira convocavam, perdendo a noção das horas.

Quando a toada chegou ao seu refrão arrebatador e ecoou nas telhas de zinco do barracão, o pertencimento já havia silenciado e esmagado qualquer cansaço do mundo lá fora. A poeira, que o primeiro batido do couro ergueu do chão e lançou aos céus, não iria baixar tão cedo, mantendo a atmosfera mergulhada em um encanto que duraria até o último amanhecer de julho. E ali, misturado à emoção de vozes uníssonas e corpos suados, o desejo antigo de brincadeira e liberdade começava a tomar conta de forma inevitável. Em um canto da roda, oculto pelas sombras balançantes da fogueira, um sorriso largo e carregado de uma malandragem quase infantil já começava a despontar no rosto do trabalhador que mal podia esperar pelo momento exato de deixar suas tristezas para trás, cruzar o fogo e assumir seu lugar cômico e trágico na grande encenação do mundo.

 

José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Crônista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade

sexta-feira, 12 de junho de 2026

João Mohana In Concert emociona público durante a II Semana Cultural João Mohana em Bacabal

 A música erudita e a música popular brasileira encontraram-se em perfeita harmonia na noite desta quinta-feira (11), durante a realização do João Mohana In Concert 2026, evento promovido pela Academia Bacabalense de Letras (ABL) dentro da programação da II Semana Cultural João Mohana.

Realizado no auditório da Escola de Música Almir Garcez Assaí, o concerto reuniu um público seleto formado por amantes da música,da literatura,  da cultura e admiradores da trajetória do padre, escritor e intelectual maranhense João Mohana. A apresentação teve como protagonista o instrumentista Leonardo Bezerra de Castro, o Leo 7 Cordas, que conduziu a plateia por uma experiência musical marcada pela sensibilidade, técnica e emoção.

Para o músico, a apresentação representou um momento especial em sua trajetória artística.

"Ontem vivi um dos momentos mais marcantes da minha trajetória na Escola de Música de Bacabal. Tive a honra de realizar um recital de música erudita em homenagem ao saudoso Padre João Mohana, um homem de fé, ciência e profunda ligação com a arte e a cultura da nossa terra", afirmou Leonardo.

O recital foi cuidadosamente concebido em dois atos que dialogaram diretamente com o legado cultural e espiritual deixado por João Mohana. Na primeira parte, a plateia foi conduzida pelas sonoridades da música sacra do compositor alemão Johann Sebastian Bach, em uma atmosfera de contemplação e profunda conexão espiritual.

Já no segundo ato, o concerto celebrou as raízes brasileiras. Empunhando o violão de sete cordas, Leo 7 Cordas apresentou clássicos da Música Popular Brasileira (MPB), destacando a riqueza melódica, o balanço e a identidade cultural presentes no repertório nacional. A mudança de linguagem musical demonstrou a versatilidade do artista e a capacidade da música de transitar entre o erudito e o popular sem perder sua força emocional.

A apresentação encantou o público presente, que também teve a oportunidade de conhecer mais sobre a importância de João Mohana para a cultura brasileira. Médico, sacerdote, escritor, músico e pensador humanista, Mohana deixou uma obra marcada pela valorização da dignidade humana, da espiritualidade e da cultura.

Para a Academia Bacabalense de Letras e para o músico Leonardo Bezerra, prestar essa homenagem em Bacabal possui um significado especial. Foi nesta cidade que João Mohana nasceu e viveu os primeiros anos de sua infância, estabelecendo os vínculos afetivos com a terra que o acompanhariam por toda a vida.

A primeira edição do João Mohana In Concert reafirmou o poder transformador da música, capaz de unir o céu e a terra, o clássico e o popular, a memória e a emoção. Mais do que um concerto, o evento tornou-se um tributo à vida e à obra de um dos mais importantes intelectuais maranhenses.

A expectativa dos organizadores é que o João Mohana In Concert se consolide como parte permanente da programação cultural de Bacabal, mantendo viva a memória de um homem que acreditava na arte como instrumento de formação humana, cura, afeto e encontro entre as pessoas.










domingo, 7 de junho de 2026

CRÔNICA DO DIA: JOHNNY ROCK BLUES, O HOMEM QUE MOLDAVA SONHOS

Bacabal tem dessas coisas que só acontecem em cidades banhadas por rios de memória. De vez em quando nasce alguém que parece ter vindo de outro lugar, não por ser estranho ao povo, mas por carregar dentro de si uma centelha rara, dessas que iluminam caminhos e deixam rastros difíceis de apagar.

Foi assim com Ejoão Martins Ferreira.

Mas poucos o conheciam por esse nome. Para a maioria, ele era Johnny Rock Blues. Um nome que parecia música, liberdade e estrada ao mesmo tempo. Um nome que cabia perfeitamente naquele homem que transformava tudo o que tocava em arte.

Dizem que alguns artistas aprendem a criar. Johnny não. Johnny nasceu criando.

Ainda menino, quando outras crianças rabiscavam o chão com gravetos, ele já desenhava mundos inteiros. Seus traços possuíam a delicadeza dos que enxergam o invisível. O papel era pequeno demais para a imaginação que carregava. Havia algo mais a ser conquistado.

Vieram então as tintas. Deram cores a sua vida.

E as telas. Onde projetava  os seus sonhos.

E os primeiros olhares de admiração.

Certa vez foi convidado para expor seus trabalhos em uma feira de artesanato. Levou suas obras sem grandes pretensões, como quem leva filhos para conhecer o mundo. Ao final do evento, todas as telas haviam sido vendidas.

Todas.

Talvez naquele dia ele tenha compreendido que sua arte não lhe pertencia mais. Pertencia ao mundo. E para um artista admitir sua grandeza ´r comprender que não era uma pessoa comum.

Mas Johnny era daqueles espíritos inquietos que não se acomodam em um único horizonte.

Se a pintura lhe servia como linguagem, a escultura tornou-se oração.

A madeira ganhou alma.

O isopor ganhou movimento.

A argila ganhou respiração. Era como se soprasse nas suas esculturas o fóligo da vida.

Das barrancas do Mearim surgia o barro que suas mãos transformavam em santos, anjos, pescadores, mães, crianças, pecadores e sonhadores. Não se sabia ao certo onde terminava a matéria e começava o artista.

Em alguns momentos, parecia que a argila se confundia com o próprio corpo de Johnny.

Era como se ele também tivesse sido moldado pelas águas e pela terra de Bacabal.

Mas limitar Johnny Rock Blues às artes plásticas seria uma injustiça.

Ele era desenhista.

Pintor.

Escultor.

Artista plástico.

Cronista.

Poeta.

Músico.

Compositor.

Cantor.

Ator de cinema.

Um verdadeiro artesão de sensibilidades.

Enquanto muitos escolhem uma única estrada, Johnny caminhava por várias ao mesmo tempo, sem jamais perder o rumo da beleza.

Havia nele algo dos antigos alquimistas.

Transformava barro em emoção.

Palavras em memória.

Notas musicais em sentimento.

Silêncios em poesia.

Por isso sua partida deixou um vazio difícil de explicar.

Algumas pessoas morrem e deixam saudade. Outras deixam obras.

Johnny deixou universos.

Suas esculturas continuam falando.

Seus textos continuam respirando.

Suas canções continuam ecoando.

Sua arte continua caminhando pelas ruas da cidade onde nasceu. Inspirando as anáforas dos poetas distraídos no fim de tarde sob o Mearim.

Talvez os gregos antigos o chamassem de semideus. Virtudes e talento para isso tinha de sobra.

Não por possuir poderes sobrenaturais, mas porque parecia conversar com a própria criação.

Hoje, quando alguém observa uma de suas obras, escuta uma de suas músicas ou encontra um de seus escritos, percebe que Johnny Rock Blues nunca partiu completamente.

Artistas assim não desaparecem. Transformam-se em permanência.

Viram rio.

Viram memória.

Encantam-se no Mearim

Viram lenda.

E Bacabal, que tantas vezes serviu de inspiração para suas mãos mágicas, guarda agora a honra de ter sido o berço de um dos seus mais extraordinários criadores.

Johnny Rock Blues foi um homem.

Mas sua arte continua sendo infinita.

José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Crônista

Membro da Academia Bacabalense de Letras

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