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terça-feira, 15 de setembro de 2026

CRÔNICA DO DIA: O Acaso não Existe

O asfalto mudo de Brasília, com suas curvas largas e monumentais, não parece ter o mesmo hálito que o chão de terra batida de Bacabal, no interior do Maranhão. No entanto, o vento que sopra entre os eixos da capital federal carrega a mesma poeira invisível de mistério que envolve as palmeiras de babaçu. Quando caminhamos pelas ruas de São Luís, os azulejos antigos das fachadas parecem nos observar, guardando histórias de séculos que se entrelaçam aos passos apressados de quem hoje busca apenas o próximo ônibus.

            Muitas vezes, acreditamos piamente que o curso de nossas vidas é fruto exclusivo de escolhas conscientes, de planos traçados em agendas de couro ou em aplicativos de celular. Mas há uma força silenciosa, uma engenharia invisível que opera nos bastidores, rearranjando encontros e desencontros com uma precisão que beira o assustador. Alguns chamam de coincidência; outros, mais prevenidos, preferem chamar de destino.

A verdade é que nada é isolado. Um atraso de cinco minutos na saída para o trabalho em São Paulo, aquele semáforo que demora a abrir na Avenida Paulista, pode ser o responsável por evitar um desastre ou por colocar você diante da pessoa que mudará o rumo da sua carreira. É curioso notar como as cidades, por mais distantes que sejam, se conectam por fios tênues de causalidades humanas.

 Fortaleza, com seu cheiro de maresia e o sol que nunca descansa, abriga vidas que, sem saber, dependem de um evento ocorrido em uma repartição pública de Brasília ou de uma conversa de mesa de bar no Maranhão. O cotidiano é uma teia. Cada gesto, por menor que seja, um olhar trocado na balsa para Alcântara, um pedido de desculpas em um restaurante lotado é uma peça de dominó que, ao cair, reverbera em locais que jamais visitaremos.

Observemos o senhor que vende tapioca na orla. Para ele, o dia é apenas mais uma jornada de trabalho sob o sol. Mas, para a jovem que parou ali por estar com fome após uma entrevista de emprego frustrada, aquele breve diálogo sobre o tempo pode ser o alento necessário para que ela não desista e decida caminhar mais dois quarteirões, onde verá um anúncio de vaga que será o início de sua ascensão profissional. O acaso, se é que ele existe, é um mestre disfarçado de trivialidade. Ele não se apresenta com trombetas ou luzes neon; ele prefere o anonimato das pequenas coisas, o salto que se quebra no momento errado, o guarda-chuva esquecido que obriga alguém a se abrigar sob o mesmo toldo que um desconhecido.

A vida não é uma linha reta, mas um emaranhado de curvas que se cruzam e se afastam conforme uma geometria própria. Muitas vezes, olhamos para trás e tentamos encontrar uma lógica em nossas trajetórias. "Se eu não tivesse pego aquele voo...", pensamos. Ou "se eu não tivesse aceitado aquele convite...". O exercício de imaginar o que poderia ter sido é fascinante, mas ignora o fato de que as peças já estão em movimento.

 Não somos apenas os jogadores; somos também as peças de um tabuleiro vasto demais para a nossa compreensão imediata. O destino se manifesta na capacidade de transformar o improvável em rotina e o extraordinário em uma terça-feira comum em qualquer uma dessas metrópoles brasileiras.

Em Bacabal, o silêncio da noite é diferente do silêncio de Brasília. No Maranhão, o silêncio é preenchido pelo som dos grilos e pelo murmúrio das conversas nas calçadas, onde o tempo parece passar mais devagar, permitindo que as conexões humanas sejam saboreadas com a calma de um café passado na hora. Em São Paulo, o silêncio é uma raridade, um luxo conquistado em fones de ouvido no meio do metrô, onde milhões de destinos se esbarram sem se ver, como átomos em uma reação química prestes a explodir.

No entanto, em ambos os lugares, a mesma regra se aplica: a vida está constantemente conspirando para que as histórias se completem. Um drama que começa no coração do cerrado pode encontrar seu desfecho nas praias do Ceará, impulsionado por uma série de eventos que, vistos individualmente, parecem não ter sentido, mas que, no conjunto, formam um mosaico perfeito.

É preciso ter bom senso para enxergar essas tramas. Não se trata de misticismo barato, mas de uma observação atenta da realidade. Quem nunca sentiu aquele frio na espinha ao perceber que estava no lugar certo, na hora exata, para testemunhar algo que parecia destinado apenas aos seus olhos? Ou aquela sensação de que um estranho cruzou seu caminho apenas para lhe entregar uma palavra que era exatamente o que você precisava ouvir?

 Essas situações são os lembretes de que a autonomia que tanto pregamos é, em parte, uma ilusão necessária para mantermos a sanidade. No fundo, somos todos personagens de uma crônica maior, escrita por uma mão que não conhecemos, mas cujos parágrafos sentimos na pele a cada reviravolta.

Interessante é pensar nas figuras que compõem esse cenário. Imagine uma mulher que caminha com a confiança de quem domina o mundo, os passos marcados pelo ritmo de uma música que só ela ouve, sendo subitamente interrompida por um imprevisto mecânico de sua própria vestimenta. O que parece ser um desastre de percurso, um embaraço público sob os holofotes, pode ser, na verdade, o ponto de inflexão necessário para que ela revele sua verdadeira força. O brilho excessivo muitas vezes cego, e é no momento da falha, da vulnerabilidade, que o destino abre uma fresta para que a essência humana apareça sem filtros. A resiliência não nasce do sucesso contínuo, mas da capacidade de lidar com o salto que falha justamente quando todos estão olhando.

As cidades mencionadas : Bacabal, São Luís, Fortaleza, São Paulo, Brasília  são mais que meros pontos num mapa nesta crônica; elas são organismos vivos que respiram e reagem às nossas passagens. Elas guardam os segredos de crianças que desapareceram em meio ao caos urbano e o silêncio ensurdecedor de políticos que, por um golpe do destino ou uma estranha condição da alma, perderam a capacidade de camuflar a verdade com mentiras convenientes. Cada uma dessas histórias, por mais disparatadas que pareçam, está conectada por esse princípio fundamental: o cotidiano é grávido de significados que raramente paramos para decifrar.

Ao observarmos a vida com esse olhar mais aguçado, passamos a respeitar os imprevistos. O trânsito parado, a chuva súbita que estraga o penteado, o erro de digitação que envia um Pix para o destinatário errado. Em vez de irritação, surge uma curiosidade quase infantil: o que essa nova rota quer me mostrar? Para onde esse desvio está me levando? A sabedoria reside em entender que, enquanto tentamos controlar as marés, o mar já decidiu como nos levar à praia. Às vezes, ele nos joga na areia com violência; outras vezes, nos conduz suavemente em uma espuma morna. De qualquer forma, chegamos exatamente onde deveríamos estar, mesmo que não seja onde havíamos planejado.

O tecido da realidade é feito de fibras resistentes e outras extremamente frágeis. O drama humano é essa constante tentativa de remendar onde rasgou e de celebrar onde a trama é firme. O destino não é um destino final, mas o próprio caminho, cheio de conexões que só fazem sentido quando paramos de lutar contra a correnteza e começamos a observar a beleza do fluxo.

Essa percepção nos torna mais humanos e, paradoxalmente, mais humildes. Ao aceitar que não somos os únicos autores de nossa biografia, passamos a olhar para o outro com mais complacência. Afinal, aquele desconhecido que nos irrita com sua lentidão pode ser apenas o instrumento que nos impede de chegar a um perigo logo adiante. Ou aquela pessoa que nos pede uma informação pode ser o início de um capítulo que ainda não ousamos imaginar. A vida é esse jogo de espelhos e ecos, onde cada som emitido em Bacabal pode retornar como uma melodia em São Paulo, e cada lágrima derramada em Brasília pode encontrar consolo numa manhã ensolarada em Fortaleza.

Estamos todos mergulhados nessa sopa de causalidades. E é justamente quando os ornamentos do dia a dia falham, quando os artifícios da nossa imagem pública são postos à prova pela crueza de um pequeno acidente ou de um grande dilema, que percebemos a engrenagem girando. Um sapato que falha, uma voz que não mente, um rastro que some, tudo faz parte de um mesmo enredo. A partir daqui, cada passo será uma descoberta de como o inesperado tem a chave de todas as portas que julgávamos trancadas. E, ao aceitarmos que cada tropeço pode ser o início de uma nova dança, estamos prontos para enfrentar qualquer avenida sob as luzes da cidade.

 

José Casanova

Professor, Jornalista, Escritor e Crônista

Membro da A cademia Bacabalense de Letras

Academia Mundial de Letras da Humanidade

sábado, 12 de setembro de 2026

CRÔNICA DO DIA: Indepedência ou Master!!!!

Dizem que, às margens do Ipiranga, Dom Pedro puxou a espada e resolveu o problema com uma frase que cabia inteira num quadro de escola: “Independência ou Morte!”. A História gosta dessas cenas arrumadinhas. Um cavalo bonito, o príncipe no centro, meia dúzia de homens levantando chapéu e pronto: nasceu um país. Na vida real provavelmente havia poeira, cansaço, roupa suada, cavalo menos fotogênico e gente sem entender direito o tamanho daquilo.

Mais de duzentos anos depois, o Brasil continua discutindo sua independência. Só mudou o cenário. Não tem riacho do Ipiranga. Tem Brasília. Não tem espada. Tem celular apreendido. E, em vez de “Independência ou Morte”, talvez o grito mais apropriado para estes tempos fosse outro:

Independência ou Master!

O Banco Master era pequeno quando comparado ao tamanho do sistema financeiro brasileiro. O próprio Banco Central informou que o conglomerado representava 0,57% dos ativos do Sistema Financeiro Nacional quando decretou sua liquidação, em novembro de 2025, apontando grave crise de liquidez, comprometimento econômico-financeiro e graves violações às normas do setor. Pequeno no tamanho. Enorme na sombra que deixou.

No primeiro semestre de 2026, o Fundo Garantidor de Créditos já havia desembolsado R$ 40,2 bilhões para 722 mil clientes ligados ao conglomerado Master. É dinheiro demais para tratar o episódio como uma simples história de um banco que fez negócios ruins.

E aí entra Daniel Vorcaro.

Vorcaro talvez venha a ser lembrado menos como banqueiro e mais como uma espécie de personagem que descobriu que, em Brasília, uma boa agenda de contatos pode valer quase tanto quanto um bom balanço. Seu celular virou uma espécie de mapa informal da República.

Ali aparecem políticos, ministros, empresários, advogados, intermediários, viagens, reuniões, mensagens, favores discutidos, contratos e aproximações que atravessam direita, esquerda e centro com uma desenvoltura que faria qualquer ideólogo ficar constrangido.

O Master conseguiu uma façanha tipicamente brasileira: unir adversários.

Não necessariamente no crime é importante dizer isso. Mas na fotografia desconfortável das relações de poder.

Alexandre de Moraes, por exemplo, passou a ocupar o centro de uma crise dentro do próprio Supremo depois da divulgação de mensagens e informações sobre sua relação com Vorcaro. Reportagens apontaram pelo menos seis encontros entre os dois, sendo que os primeiros teriam sido articulados pelo ex-ministro Fábio Faria. Também veio à tona o contrato milionário do Banco Master com o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro. O escritório sustenta que os serviços foram efetivamente prestados, e Moraes afirma que jamais julgou causa envolvendo o banco.

É exatamente aí que começa o problema brasileiro. Nem tudo que é legal parece normal.

E nem tudo que parece estranho é crime. Só que instituições públicas não vivem apenas da legalidade. Vivem também de confiança.

Dias Toffoli conhece bem esse desconforto. Foi o primeiro relator do caso Master no Supremo e deixou a condução do processo em fevereiro. Questionamentos surgiram em torno de negócios envolvendo empresa de sua família e fundos relacionados ao universo do Master. Toffoli afirmou que não conhecia os gestores do fundo e negou amizade ou recebimento de dinheiro de Vorcaro. Depois de sua saída, o processo foi para André Mendonça.

E então a novela ganhou outro capítulo.

Mendonça abriu documentos, manteve outros sob sigilo, entrou em choque com colegas de Supremo e com a Polícia Federal e chegou a determinar o afastamento de Andrei Rodrigues da direção-geral da PF, decisão que acabou entrando no centro de outra batalha institucional. Mendonça sustentou que determinados sigilos eram necessários para preservar investigações; outros ministros passaram a cobrar acesso mais amplo ao conteúdo apreendido.

Andrei Rodrigues, por sua vez, teve o nome citado em mensagens relacionadas ao caso e foi tragado pela guerra entre gabinetes. Até aqui, a simples menção de seu nome em mensagens de terceiros não demonstra, por si só, participação irregular. E essa diferença precisa ser lembrada, principalmente quando o noticiário corre mais rápido que os processos.

Mas a história não termina no Supremo. Longe disso.

Ciro Nogueira aparece num dos capítulos politicamente mais delicados. A Polícia Federal passou a investigar uma proposta apresentada pelo senador que ampliaria a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos. Segundo a investigação, o texto teria sido produzido pelo próprio Banco Master e encaminhado a Ciro, que o apresentou. Mensagens atribuídas a Vorcaro demonstram entusiasmo com a iniciativa. Ciro nega ter praticado conduta inadequada relacionada ao banco.

Antônio Rueda, presidente do União Brasil, também entrou no enredo. Documentos enviados pela Receita à CPI apontaram pagamentos do Master a escritórios ligados a ele. Rueda afirmou ter prestado serviços advocatícios legítimos ao banco. Seu nome também aparece ao lado de Ciro em episódios envolvendo deslocamentos de helicóptero ligados a Vorcaro.

Ibaneis Rocha aparece por outra porta.

O BRB, banco controlado pelo governo do Distrito Federal, tentou comprar parte relevante do Master. Vorcaro declarou à Polícia Federal ter conversado mais de uma vez com Ibaneis sobre a operação. Isso não significa, automaticamente, que o governador tenha cometido irregularidade. Significa, porém, que a discussão sobre o Master deixou de ser apenas bancária há muito tempo. Virou política de Estado, negócio público e problema institucional.

Fábio Faria, ex-ministro de Jair Bolsonaro, surge como personagem de bastidor, apontado em mensagens como articulador dos primeiros contatos entre Vorcaro e Alexandre de Moraes. De novo: apresentar duas pessoas não é crime. Mas, quando as duas pessoas são um banqueiro que depois protagonizaria um escândalo financeiro e um ministro do Supremo, aquilo que parecia apenas networking passa a ser examinado com uma lupa bem maior.

O bolsonarismo, claro não passou ileso.

Flávio Bolsonaro entrou formalmente no radar de uma investigação relacionada ao financiamento do filme Dark Horse, sobre seu pai, Jair Bolsonaro. A apuração conduzida no contexto do caso Master investiga suspeitas envolvendo a origem e a circulação desses recursos. Flávio nega irregularidade e afirma estar tranquilo com a abertura das informações.

Perceba a beleza quase perversa da coisa. Tem ministro indicado por governo de esquerda. Tem ministro indicado por Bolsonaro. Tem dirigente do Centrão. Tem bolsonarista. Tem empresário. Tem governador. Tem ex-ministro. Tem chefe da Polícia Federal. Tem senador. Se alguém ainda estiver procurando uma ideologia para o escândalo, talvez esteja procurando no lugar errado.

O idioma mais falado nesses ambientes nem sempre é esquerda ou direita.Às vezes é acesso. Acesso ao gabinete. Acesso ao telefone. Acesso ao jantar. Acesso ao jatinho. Acesso a quem decide.

E talvez seja justamente aí que nossa velha Independência de 1822 encontre a Independência de 2026. Dom Pedro queria romper a dependência de Portugal. O brasileiro de hoje precisa perguntar se o Estado consegue romper sua dependência das relações pessoais que rondam o poder. Porque independência institucional não significa ministro sem amigos, senador sem empresário conhecido ou governador proibido de conversar com banqueiro. Isso seria infantilidade.

Independência é outra coisa. É conseguir dizer “não” ao amigo quando o interesse público exige. É investigar aliado e adversário com a mesma disposição. É não transformar telefone pessoal em atalho para instituição pública. É não confundir advocacia com influência, influência com amizade, amizade com favor e favor com política de Estado.

Principalmente: independência é fazer tudo isso sem escolher previamente quem será culpado e quem será inocentado. O Brasil já sofreu demais com investigações que começaram pela conclusão.

O caso Master precisa terminar em provas, processos, defesa e julgamento,  não em torcida organizada. Talvez essa seja a parte mais incômoda. Vorcaro pode acabar sendo apenas o personagem que abriu uma janela. E o que apareceu pela janela é maior do que ele.

Apareceu um Brasil em que poder político, sistema financeiro, advocacia, Judiciário e relações privadas circulam muitas vezes pelos mesmos salões. Gente que discursa como inimJiga durante o dia pode acabar dividindo os mesmos interlocutores à noite.

Enquanto isso, do lado de fora desse mundo, existe o brasileiro comum. Esse não pega jatinho. Pega fila. Não manda mensagem para ministro. Manda protocolo. Não conhece presidente de partido. Conhece o gerente do banco, quando consegue falar com ele. Se a aplicação quebra, ele descobre o significado de FGC. Se o salário não chega ao fim do mês, ninguém marca jantar em Brasília para resolver.

É por isso que o caso Master interessa tanto. Não é apenas sobre Daniel Vorcaro. Nem sobre Alexandre de Moraes, Dias Toffoli, André Mendonça, Andrei Rodrigues, Flávio Bolsonaro, Ciro Nogueira, Antônio Rueda, Ibaneis Rocha ou Fábio Faria isoladamente.

É sobre a distância entre quem precisa bater na porta do Estado e quem aparentemente já tem o número do celular.

Em 1822, a pergunta era se continuaríamos dependentes de Portugal. Em 2026, a pergunta ficou mais complicada:

De quem a República precisa declarar independência?

Do dinheiro?

Dos amigos?

Dos partidos?

Dos banqueiros?

Dos próprios ministros?

Do Trump?

Talvez de todos, quando necessário. Porque uma República que só consegue ser independente de seus adversários não é independente. É apenas partidária. E uma Justiça que pesa a mão conforme o nome do investigado deixa de carregar uma balança para carregar uma bandeira.

Por isso, diante de tanta mensagem, contrato, reunião, investigação, helicóptero, gabinete e bilhão circulando por aí, talvez o Brasil esteja novamente diante do seu Ipiranga. Só falta decidir qual será o grito.

Independência ou Master? Ou Indepedência ou morte!

Eu ainda fico com a primeira. Mas independência de verdade. Inclusive dos nossos amigos.

CRÔNICA DO DIA: Defeito de Caráter

Há dias em que a repartição pública parece parada no tempo. E há dias em que o tempo para só para assistir ao absurdo passar pela porta. Na Prefeitura de Babaçulandia, numa manhã dessas, entrou uma mulher branca com uma pasta debaixo do braço e uma certeza na cabeça: alguém ali precisava receber o currículo dela. O problema é que não havia ninguém no setor.

Japi, segurança do prédio, explicou com educação:

— Minha senhora, o pessoal do setor não está agora. Se a senhora quiser, pode deixar comigo que eu entrego.

Era uma solução simples. Civilizada. Quase moderna. Mas a mulher olhou para Japi como quem recebe uma proposta indecente:

— Com você?

Japi olhou para o uniforme. Depois olhou para ela.

— Comigo. – Confirmou Japi

— Mas você é segurança.

— Até onde eu sei.

Ela apertou a pasta sobre o peito

— Não tem ninguém para receber?

— Agora, não.

— Nenhuma mulher?

— Não.

— Nenhum funcionário?

Japi respirou.

— Eu sou funcionário.

Foi aí que a conversa, que até então caminhava normalmente, tropeçou na Idade Média.  A mulher fez cara de quem estava sendo obrigada a resolver um mistério administrativo de alta complexidade. Então perguntou:

— Não tem ninguém branco para me atender?

Pronto. Chegamos. A humanidade inventou satélites, transplantes, inteligência artificial e até air fryer. Mas ainda tem gente travada na atualização básica do século XIX. Japi ficou olhando para ela.

— Desculpe? Não ouvi direito.

— Branco. Não tem ninguém branco aqui pra mim atender? — Insistiu a mulher.

Talvez ela acreditasse que a Prefeitura funcionasse por tonalidade.

Guichê 1: documentos.

Guichê 2: tributos.

Guichê 3: brancos atendendo brancos.

Japi respondeu:

— Minha senhora, se a senhora não quiser deixar comigo, pode voltar depois.

Era a chance perfeita de ir embora. Mas há pessoas que, diante da oportunidade de se calar, entendem como convocação para discurso. Ela disparou:

— Eu não vou deixar meus documentos com negro!

O corredor ficou quieto. Silêncio de repartição pública geralmente significa café. Naquele momento significava vergonha alheia.

Japi continuou:

— A senhora está sendo racista.

Ela respondeu com uma das frases preferidas de todo racista flagrado em pleno expediente:

— Eu não sou racista!

É interessante. Ninguém se declara racista. O racista pode insultar, humilhar, discriminar, comparar uma pessoa negra a um animal e ainda assim considerar “racista” uma palavra muito forte. Ela perdeu o último pedaço de vergonha que ainda carregava.

— Negro! Macaco! – Exclamou a mulher.

O silêncio agora era absoluto. Ela ainda acrescentou outro insulto, tentando diminuir o homem que estava diante dela.

— E viado também!

Japi ficou imóvel. Não porque não tivesse resposta. Tinha dezenas. Algumas poderiam custar-lhe o emprego. Outras poderiam custar-lhe a liberdade. Escolheu a mais difícil.

— A senhora terminou? – Perguntou Japi.

Ela pareceu surpresa.

— O quê?

— Terminou?

— Terminei o quê?

— De mostrar quem a senhora é.

A mulher abriu a boca, mas não respondeu. Japi apontou para a saída:.

— Pode ir. – Disse Japi indicando a porta de saída.

— Você está me expulsando?

— Não. Estou apenas lembrando onde fica a porta.

Ela virou-se furiosa. Antes de sair, ainda gritou:

— Vou reclamar de você!

Japi respondeu:

— Reclame.

Ela ergueu a pasta.

— Você vai perder esse emprego!

— Talvez.

Ele fez uma pequena pausa.

— Mas minha cor eu não perco!

Ele acabara de ser vítima de dois crimes: Racismo e homofobia. Leve dois, pague a dignidade. Japi segurou-se. Quem nunca sofreu esse tipo de agressão talvez pergunte: “Por que ele não respondeu?” Porque, curiosamente, numa situação dessas, a vítima precisa pensar em tudo. No emprego. Na família. Nas testemunhas. Na câmera. Na Justiça. Na própria reação.

O agressor, não. O agressor simplesmente fala. A mulher ainda ameaçou: “ Vou reclamar de você!” Essa parte quase merecia aplauso. Depois de entrar num prédio público, ofender um trabalhador por causa da cor da pele e transformar o corredor numa exposição gratuita de preconceito, ela decidiu que a vítima era o problema.

Ela foi embora. Currículo debaixo do braço. Educação aparentemente esquecida em casa. A denúncia foi feita. O fato chegou ao conhecimento de quem deveria tomar providências. E então entrou em cena uma personagem muito conhecida da vida brasileira: a senhora Burocracia. Aquela que anda devagar. Principalmente quando o problema aconteceu com os outros. Com os mais humildes.

Disseram que iam verificar. Analisar. Apurar. Conversar. Avaliar e outros verbos de primeira conulgação. Talvez até constituir uma comissão para decidir se seria necessário decidir alguma coisa. Enquanto isso, Japi voltou ao trabalho. Porque essa é outra especialidade brasileira. A vítima sofre na terça e bate ponto na quarta.

Dias depois, alguém apareceu com um papel na mão.

— Japi, lembra daquela mulher?

— Qual?

— A do currículo.

Ele riu.

— Infelizmente.

O funcionário explicou:

— O currículo dela acabou chegando ao setor.

Japi arregalou os olhos.

— Como?

— Encontraram depois e encaminharam.

— E aí?

— Analisaram.

— E?

— Chamaram para entrevista.

Japi encostou no balcão.

— Rapaz, esse mundo gosta de piada.

Na mesma manhã, eis que a mulher reapareceu. A pasta. O salto. A cara. Mas a coragem estava uns três números menor. Ela se aproximou. Japi estava no mesmo lugar. Ela olhou para ele. Ele olhou para ela. Silêncio. Dessa vez não perguntou se havia alguém branco disponível. Uma funcionária saiu de uma sala.

— Senhora, pode entrar. É para a vaga da recepção.

A mulher sorriu. Vaga de emprego tem esse efeito democrático. Faz até arrogância esperar ser chamada. Antes de entrar, perguntou:

— E se eu for contratada, quem vai me orientar?

A funcionária respondeu naturalmente:

— Japi.

A mulher congelou.

— Ele?

— Ele. – Confirmo a recepcionista.

— O segurança? O porteiro?

— O funcionário. Ele conhece praticamente tudo aqui.

Japi levantou-se. Olhou para ela. E disse:

— Se precisar, posso ajudar.

Ela não respondeu. Talvez naquele momento tenha descoberto que a vida possui um setor de protocolo próprio. E não adianta reclamar no balcão. Há currículos que contam cursos. Há currículos que contam experiências. Há currículos cheios de certificados. Mas existe uma informação que nenhuma folha de papel consegue esconder por muito tempo: como a pessoa trata quem ela acredita não poder fazer nada por ela.

A mulher foi à Prefeitura tentar entregar um currículo. No fim, quem entregou alguma coisa foi ela. Entregou preconceito. Arrogância. Ignorância. E uma bela demonstração de caráter. Quanto à vaga, não sei dizer se conseguiu. Mas, naquela manhã, uma entrevista já tinha acontecido no corredor. E nela, sem banca examinadora, sem prova escrita e sem direito a recurso, alguém havia sido reprovado.

Não era Japi.

 

José Casanova

Professor, Jornalista, Escritor e Cronista

Membro da Academia Bacabalense de Letras

Academia Mundial de Letras da Humanidade

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Sessão da Câmara de Bacabal é marcada por debate político entre vereadores



A Câmara Municipal de Bacabal realizou, nesta quarta-feira(9), sua sessão ordinária, marcada pela apreciação de requerimentos e por debates envolvendo assuntos relacionados à administração pública e ao cenário político do município.

A reunião foi aberta oficialmente pela presidente da Casa, vereadora Natália Duda (MDB). Na sequência, o vereador Cândido de Madureira(UNIÃO) realizou a tradicional leitura bíblica, momento que antecede os trabalhos legislativos.

Dando continuidade à sessão, o vereador Reginaldo do Posto(PP) fez a leitura da ata da reunião anterior, enquanto o vereador Alberto Sobrinho(PSB) apresentou a Ordem do Dia, com as matérias previstas para apreciação dos parlamentares.

Após a análise e aprovação dos requerimentos apresentados, teve início o momento destinado aos pronunciamentos na tribuna.

Fizeram uso da palavra os vereadores Jairo Lira(PSB), Cândido de Madureira(UNIÃO), Alberto Sobrinho(PSB), Feitosa(UNIÃO) e Luizinho Padeiro(PSDB). Durante os discursos, os parlamentares abordaram diferentes temas relacionados ao município e promoveram o debate político no plenário.

As manifestações foram marcadas tanto por críticas quanto por elogios ao Poder Executivo Municipal, com os vereadores apresentando suas avaliações sobre ações da administração e questões consideradas importantes para a população de Bacabal.

No decorrer da reunião, a presidente Natália Duda precisou deixar o plenário por motivo de força maior. Com a saída da parlamentar, a presidência dos trabalhos foi assumida pelo vereador Serafim( MDB), que deu continuidade à pauta e conduziu a sessão até o encerramento.

A sessão reforçou o espaço da Câmara Municipal como ambiente de discussão das demandas da população e de debate entre os representantes do Legislativo sobre os rumos da administração pública de Bacabal.

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

CRÔNICA DO DIA: Reunião dos Pais

Na Escola Municipal Poeta Samuel Barreto, em Pedreiras, reunião de pais nunca foi exatamente uma reunião. Era mais parecido com sessão da Câmara, programa de auditório e julgamento de tribunal, tudo ao mesmo tempo. Naquela terça-feira, às seis da tarde, a diretora, dona Marinalva, já estava na porta da sala dos professores segurando uma pasta azul, três folhas de frequência e a pouca paciência que ainda lhe restava.

A pauta da reunião era simples de explicar e difícil de resolver: havia alunos do 6º e do 7º ano que ainda apresentavam sérias dificuldades de leitura e escrita. Dona Marinalva pediu silêncio.

— Boa noite a todos. Chamamos os senhores responsáveis porque precisamos conversar sobre a aprendizagem dos nossos alunos.

Do fundo da sala, seu Raimundo, pai de Wescleyson, levantou a mão.

— Diretora, antes de começar, tem café?

— Tem ali na mesa. – Respondeu a diretora.

— Então pode continuar.

A professora de Português, dona Cláudia, começou a apresentar os dados.

— Temos estudantes no 6º ano que ainda não conseguem ler pequenos textos com fluência. Outros têm dificuldade para escrever frases completas.

A mãe de Juninho, dona Socorro, arregalou os olhos:

— Mas como assim não sabe ler? Meu menino passa o dia no celular!

A professora respirou fundo.

— Justamente, dona Socorro. Ele lê mensagens?

— Não. Ele manda áudio.

A coordenadora pedagógica, professora Lúcia, tentou não rir.

— E quando recebe mensagem escrita?

— Manda áudio perguntando o que foi que a pessoa escreveu.

Nesse momento, algumas mães começaram a cochichar. Seu João não conseguiu segurar uma gaitada.  Seu Raimundo resolveu participar novamente.

— No meu tempo era diferente. A gente aprendia na base da cartilha, da tabuada e do medo. – Afirmo Raimundo.

— Medo de quê? — Perguntou a professora.

— Da professora com a  Palmatória.

Dona Cláudia ajeitou os óculos.

— Hoje a educação trabalha com outros princípios.

— Pois esses princípios tão muito tranquilos .— Respondeu seu Raimundo. — Porque o Wescleyson não tem medo nem de mim!

Foi então que entrou dona Creuza, avó de uma aluna do 7º ano. A sala inteira se virou. Dona Creuza tinha aproximadamente sessenta e muitos anos, embora afirmasse ter cinquenta e dois desde 2010. Chegou com uma calça tão apertada que parecia ter sido pintada, uma blusa cheia de brilho, salto alto e um perfume que entrou na sala uns três segundos antes dela. Atrás vinha dona Neide, outra avó, usando óculos escuros, apesar de já ser noite. A coordenadora perguntou:

— Dona Neide, está tudo bem com seus olhos?

— Tá, minha filha. É estilo.

As duas sentaram na primeira fila. Uma mãe comentou baixinho:

— Rapaz, as avós estão mais periguetes  que as netas.

Dona Creuza ouviu.

— Minha filha, envelhecer é obrigatório. Se acabar, não.

Dona Neide completou:

— Eu vim pra reunião, não pro velório.

A diretora bateu a caneta na mesa.

— Gente, vamos voltar à pauta.

A professora Cláudia mostrou uma atividade feita pelos alunos.

— Pedi que eles escrevessem uma pequena redação sobre a família.

Dona Socorro ficou animada.

— Juninho falou de mim?

A professora consultou a folha.

— Falou.

— O que ele escreveu? – Quis saber dona Socorro.

A professora hesitou.

— “Minha mãe é uma pessoa muito legal.”

Dona Socorro sorriu.

— Tá vendo?

— Só que ele escreveu “minha mãe é uma peçoa muito legau”. – Respondeu a professora escrevendo a frase no quadro branco.

O sorriso desapareceu.

— Aí já é culpa da escola. Foi o suficiente. Começou o temporal.

— A escola tem que ensinar! — Falou a mãe do Allafy.

— Professor hoje não quer mais Trabalhar! — Exclamou a vó de Débora.

— No nosso tempo a gente aprendia! – Afirmou o pai de João Pedro.

— Meu filho tira nota boa no TikTok! – Disse a mãe de kairon.

— O meu sabe mexer em celular melhor do que eu!  — Gabou-se a vó de Pedro Henrique.

A professora Cláudia levantou a voz.

— Pais, nós estamos ensinando! Mas a educação precisa continuar em casa.

Seu Raimundo cruzou os braços:

— Professora, eu trabalho o dia inteiro.

— Eu também. — Respondeu dona Socorro.

Dona Creuza levantou a mão.

— Eu posso ajudar minha neta.

A professora sorriu.

— Ótimo, dona Creuza. A senhora costuma ler com ela?

— Leio.

— Que tipo de texto?

— Comentário de Facebook.

A coordenadora colocou a mão na testa. Dona Creuza continuou:

— E vou lhe dizer uma coisa: tem comentário que precisa de três professores de Português e um advogado pra entender.

A sala caiu na gargalhada. Depois de alguns minutos, a diretora conseguiu reorganizar a reunião.

— Vamos procurar soluções. A escola está propondo um projeto de reforço de leitura e escrita.

A professora Lúcia apresentou as ideias:

— Teremos oficinas de leitura, produção de texto, jogos de palavras, biblioteca itinerante e acompanhamento individual dos alunos com mais dificuldade.

Dona Neide levantou a mão.

— Pode botar competição?

— Como assim?

— Quem ler mais ganha prêmio.

Seu Raimundo gostou.

— Boa! – Exclamou seu Raimundo.

A professora perguntou:

— Que tipo de prêmio?

Dona Neide pensou.

— Um celular.

— Dona Neide, estamos tentando justamente diminuir o tempo de tela.

— Então dê um celular sem internet.

Dona Creuza deu outra ideia:

— Podia fazer um grupo de leitura com os pais também.

A diretora ficou surpresa.

— Excelente ideia!

— Mas tem que ser de manhã.

— Por quê?

— Porque de noite eu tenho meus compromissos.

Ninguém perguntou quais eram. A professora Cláudia aproveitou o momento de boa vontade coletiva.

— Podemos criar também o “Quinze Minutos de Leitura em Família”. Todos os dias, pais, mães, avós ou responsáveis leem com as crianças por quinze minutos.

Seu Raimundo arregalou os olhos.

— Todo dia?

— Todo dia.

— Nem academia exige tanto compromisso.

Dona Socorro reclamou:

— Lá em casa só tem Bíblia, conta de energia e manual da geladeira.

— Pode começar pela Bíblia. — Sugeriu a professora.

— A conta de energia também é boa. — Disse seu Raimundo. — Quando vem alta, a pessoa lê umas dez vezes tentando acreditar.

A reunião começou, finalmente, a produzir alguma coisa. Ficou decidido que a escola faria reforço duas vezes por semana, os professores enviariam atividades simples para casa e as famílias participariam de momentos de leitura. Quando todos já estavam mais calmos, a diretora resolveu encerrar.

— Antes de irmos embora, quero agradecer a presença de todos. Sei que houve discussões, mas saímos daqui com propostas importantes.

Nesse instante, um menino apareceu na porta. Era Juninho.

— Mãe, bora?

Dona Socorro estranhou.

— Menino, como tu sabia que eu tava aqui?

Juninho mostrou o celular.

— A escola mandou mensagem.

Dona Socorro olhou para a tela.

— E tu leu?

— Não. Pedi pra inteligência artificial ler pra mim.

A sala ficou em silêncio. A professora Cláudia fechou os olhos. A diretora sentou novamente. Seu Raimundo pegou outro copo de café. Dona Creuza ajeitou o cabelo e perguntou:

— Essa inteligência artificial dá aula particular?

A coordenadora respirou fundo.

— Gente… acho que vamos precisar marcar outra reunião.

Seu Raimundo levantou-se imediatamente.

— Tem café?

— Vai ter. – Respondeu  diretora

— Então eu venho.

E foi assim que terminou a reunião de pais da Escola Poeta Samuel Barreto: ninguém saiu sabendo exatamente de quem era a culpa, mas todos saíram sabendo que, na semana seguinte, começaria o projeto de leitura. E dona Creuza saiu com uma missão especial.

Na porta, ela pegou emprestado um livro infantil da biblioteca.

A professora sorriu.

— Vai ler com sua neta?

— Vou.

— Que ótimo!

Dona Creuza colocou os óculos escuros, mesmo sendo quase oito da noite.

— Mas primeiro vou ler sozinha.

— Por quê?

Ela olhou para a professora e respondeu:

— Porque se a menina perguntar o significado de alguma palavra e eu não souber, perco minha autoridade.

E saiu pelo corredor desfilando com o livro debaixo do braço, provando que, naquela escola, quem precisava aprender a ler melhor talvez não fossem apenas os alunos. Na parede em um quadro grande, a foto de Poeta Samuel  Barreto piscou o olho esquerdo e sorriu se divertindo com a situação.

 José Casanova