O
chão de Matinha respirava calor. Dele subia um vapor espesso, semelhante ao que
enchia a cozinha de barro quando a água fervia. Mãe Adília nunca confundiu
aquele bafo com cansaço. Ela batia o dendê na gamela com a força de
quem, durante décadas, havia batido de frente com o desdém, a ofensa e a
intolerância calada que atravessava os olhos de alguns vizinhos toda vez que o
som do atabaque começava a ecoar pela vila.
A preparação para a festa dos orixás era um exercício de
resistência política, uma coreografia detalhada de tradições que ela carregava
no sangue.
Havia flores brancas espalhadas em bacias de barro pelas
paredes do terreiro, e o cheiro do banquete sendo preparado ;o xinxim, o abará,
a doçura da canjica ocupavam cada fresta
daquela casa como se fosse um escudo invisível. Adília sabia que, para além
daquela cerca de madeira, havia murmúrios.
Pessoas que olhavam para o terreiro não como um centro de
cura e espiritualidade, mas como um alvo.
— Mãe, eles estão passando de novo. — Sussurrou a pequena
Iara, ajudando a organizar as contas de cristal num prato de louça. — Estão
olhando feio e com celular na mão, gravando a gente.
Adília não olhou para a rua. Ela continuou seu trabalho,
movendo os dedos ágeis sobre os preparados.
— Deixa que gravem, minha filha. Ninguém que vive na sombra
consegue suportar o brilho de quem celebra o Axé com a alma limpa. Eles nos
chamam de estranhos porque a nossa fé não se curva aos templos que eles
construíram para restringir Deus. O nosso terreiro é o chão, a raiz, o vento.
Isso dói neles.
Liderar um terreiro em uma cidade pequena como Matinha não
era tarefa para mãos vacilantes. Adília era a autoridade máxima, a conselheira,
a juíza e a curandeira. Pela manhã, recebia mulheres que buscavam amparo para
seus casamentos arruinados ou para a falta de sustento; à tarde, organizava o cuidado
com os mais velhos; e, ao cair da noite, tornava-se o canal por onde a energia
ancestral manifestava sua sabedoria.
O terreiro começou a ganhar outro ritmo. Seu
Benedito entrou carregando um dos atabaques debaixo do braço. Sentou-se num
banco de madeira e, com a calma de quem conhecia cada fibra do couro, começou a
apertar as cordas do instrumento. Deu dois toques leves. Depois mais três e sorriu
satisfeito.
— Agora ele acordou.
Perto da
cozinha, Dona Celina distribuía folhas de bananeira sobre a mesa enquanto duas
jovens terminavam de embrulhar os abarás. O cheiro do dendê misturava-se ao
perfume das ervas recém-colhidas. No quintal, um menino observava os mais
velhos com curiosidade. Arriscou repetir um dos cantos que ouvia desde pequeno.
Errou a
melodia despertando o riso de alguns. Mãe Adília aproximou-se e pousou a mão
sobre o ombro do menino.
— Não tenha pressa. O tambor ensina primeiro o ouvido. Depois
ensina o coração.
O menino
abaixou a cabeça, envergonhado sob a benção do sorriso de Mãe Adília.
— Quem aprende a escutar os
mais velhos nunca canta sozinho.
As mulheres
retomaram o preparo da comida. Os atabaques voltaram a ressoar.
As vozes se
misturaram ao cheiro das panelas e ao vento que atravessava o quintal. Naquele
instante, o terreiro deixava de ser apenas um lugar de culto. Era uma casa onde
a memória continuava encontrando quem estivesse disposto a recebê-la.
A intolerância, que chegava em forma de pedras arremessadas
contra o telhado na calada da noite ou em olhares julgadores na feira
municipal, era sentida, mas já não possuía o poder de paralisá-la.
Perto do final da tarde, a chuva chegou sem aviso, lavando
a poeira e purificando o pátio. Quando os primeiros toques dos atabaques
começaram, o som parecia crescer de dentro das entranhas da terra.
Adília vestiu seus panos brancos, o turbante ajustado com
dignidade régia, e assumiu seu posto à frente dos filhos de santo. Ela era a
imagem da resistência pura: uma mulher negra, matriarca e guia, sustentando em
seus ombros o peso daquela liturgia que seus antepassados guardaram a sete chaves
sob o chicote e a perseguição.
Enquanto cantava a saudação aos orixás, Adília sentia a
presença daquelas que vieram antes dela,
as pretas velhas, as Iabás, as guerreiras que não permitiram que a
história de seu povo fosse enterrada. Do lado de fora da cerca, o grupo de curiosos
e críticos aos poucos se dispersou; o poder daquela celebração, aquele batida
firme, aquele canto rítmico que não pedia permissão para ser, era simplesmente
grande demais para ser contido pelo preconceito alheio.
Ao final da celebração, quando o último tambor parou de
ressoar, o terreiro estava em silêncio. Um silêncio sagrado. Mãe Adília
sentou-se na cadeira de encosto alto, sentindo a energia da noite vibrar em sua
pele como uma carga elétrica suave.
As últimas velas ainda tremeluziam quando o
terreiro começou a esvaziar. Os filhos de santo recolhiam os bancos, apagavam
algumas lamparinas e guardavam os atabaques com o mesmo cuidado com que se
protege uma herança. Mãe Adília permanecia sentada, respirando o silêncio que
sempre vinha depois dos cantos. Ouviu passos do lado de fora da cerca.
Levantou os
olhos. Era Dona Conceição, uma vizinha conhecida pelas idas diárias aos cultos
da Assembleia de Deus.. Trazia nas mãos um pequeno saco de papel. Parou diante
do portão, um pouco acanhada. Estendeu o embrulho.
— Trouxe porque sei que
vocês usam.
Adília abriu
o saco. Dentro havia algumas velas brancas. Olhou para a vizinha.
Por um
instante, nenhuma das duas falou. Não havia necessidade. Dona Conceição apenas
sorriu de leve, fez um discreto aceno com a cabeça e voltou pelo mesmo caminho,
desaparecendo na rua iluminada apenas pelos postes e pela lua.
Mãe Adília
segurou uma das velas entre os dedos. Sorriu também. Nem toda ponte era
construída com palavras. Algumas nasciam de um gesto pequeno, silencioso e
corajoso, capaz de atravessar muros que o preconceito insistia em levantar.



























