A cidade de São Paulo não dorme, mas para Helena, ela também nunca acorda de um pesadelo que já dura quatro mil e duzentos dias. Quando ela desembarca na Estação da Luz, considerada como patrimônio histórico por refletir o momento em que foi construida, mostrando o poder do café no crecimento da cidade. O fluxo humano parece um rio caudaloso de rostos anônimos, cada um mergulhado em sua própria urgência, seus fones de ouvido e suas pequenas tragédias cotidianas. Para quem observa de fora, Helena é apenas mais uma mulher simples na multidão, carregando uma bolsa de plástico desgastada e um olhar que parece focar em algo além do horizonte visível. Mas, dentro daquela bolsa, protegidos por um envelope pardo, estão os rastros de sua existência: centenas de panfletos com a foto de um menino de dez anos, olhos amendoados e um sorriso levemente desalinhado que o tempo se recusa a envelhecer.
Mateus desapareceu numa tarde de terça-feira, a caminho da padaria, em um bairro da periferia onde todos se conheciam, mas ninguém viu nada. Desde então, o mapa de São Paulo transformou-se, para Helena, em um território de buscas incessantes. Ela conhece cada praça, cada albergue, cada vulto que se abriga sob os viadutos do centro. Aprendera a amar pessoas em situação de rua com Padre Julio Lacellotti. Ela não enxerga a arquitetura imponente dos prédios da Avenida Paulista; ela enxerga os vãos, os cantos escuros, as frestas onde o destino gosta de esconder o que nos tira.
— Licença, o senhor viu este menino? — Ela pergunta a um guarda civil, estendendo o papel já um pouco úmido pela garoa fina que começa a cair.
— Minha senhora, essa foto é antiga, não é? O rosto já deve ter mudado muito — responde o homem, com uma gentileza mecânica, aquela que se usa para tratar quem a esperança já tornou um pouco estranho aos olhos do mundo.
— Eu sei que mudou. Eu mudei, a cidade mudou. Mas o olhar... o olhar é o mesmo. Eu reconheceria entre um milhão de pessoas.
Essa certeza é o combustível que a mantém de pé enquanto suas pernas latejam após horas de caminhada. Helena aprendeu que a dor do desaparecimento é diferente da dor do luto. O luto tem um ponto final, uma lápide, uma despedida que permite o início de uma cura, por mais lenta que seja. O desaparecimento é uma ferida aberta que nunca sangra por completo, mas que nunca cicatriza. É viver em uma suspensão eterna, onde cada toque de telefone é um sobressalto e cada sirene de ambulância é um golpe no peito.
Naquela tarde, como faz em toda primeira quinta-feira do mês, Helena se dirigiu a um pequeno centro comunitário perto da Praça da Sé. Lá, ela não estava sozinha. O grupo era formado por outras dez mulheres e dois homens, todos carregando pastas semelhantes, todos unidos por um fio invisível de agonia e resiliência. Eles se chamam de "Buscadores".
— Alguma novidade no IML desta semana, Dona Nair? — Perguntou Helena, sentando-se ao lado de uma senhora cujo filho desapareceu há quinze anos.
— Nada, Helena. Só os mesmos rostos de sempre que ninguém reclama. Dói ver que tem tanta gente que vira apenas um número num sistema. — Suspirou Nair, apertando a mão da amiga. — Mas ontem recebi uma ligação de uma moça em Fortaleza. Disse que viu um rapaz parecido com o meu Júnior perto da rodoviária. Pode não ser nada, mas já pedi para uma sobrinha que mora lá ir verificar.
Esse é o ecossistema da busca. Uma rede de solidariedade que atravessa estados, conectando a angústia de São Paulo com a esperança de Fortaleza, São Luís, Bacabal ou Brasília. Eles trocam informações, compartilham contatos de investigadores que realmente se importam e, acima de tudo, validam a existência uns dos outros. Em um mundo que prefere desviar o olhar do sofrimento que não tem solução imediata, esse grupo é o único lugar onde Helena não se sente uma assombração.
— Às vezes eu acho que estou ficando louco. — Confessou um pai novo no grupo, cujas lágrimas ainda eram recentes e ardidas. — Eu vejo meu filho em cada mochila escolar que passa pela rua. Eu corro atrás de ônibus, grito o nome dele e, quando percebo, é só um estranho me olhando com medo.
Helena colocou a mão no ombro dele.
— No começo é assim mesmo. Depois, você para de correr atrás de ônibus e passa a observar os detalhes. Você aprende a ler os sinais da cidade. A esperança não é uma loucura, é um ofício. É o que nos separa do abismo.
Ela contou a eles sobre o que ouvira no rádio de um táxi naquele dia. Um político em Brasília , um tal de Valadares, estava causando um rebuliço ao falar verdades incômodas sobre como os fundos de segurança pública eram desviados. Houve um momento de silêncio na sala. Para eles, a política não era sobre partidos, mas sobre recursos para DNA, sobre bancos de dados integrados, sobre o direito humano básico de saber onde está o seu próprio sangue.
— Se aquele homem está mesmo falando a verdade. — Disse Nair — Quem sabe ele não fala sobre as nossas crianças? Quem sabe ele não diz, em rede nacional, que existem milhares de famílias vivendo como fantasmas porque o Estado é cego? Quem sabe ela não diga que em 2025 no Brasil teve cerca de 232 casos de desaparecimento de pessoas por dia e que 28% por cento das ocorrencias envolvem criaças e adolesnetes!
A reunião terminou com um abraço coletivo. Não havia promessas de final feliz, apenas a promessa de que, na próxima quinta-feira, todos estariam ali novamente. Helena saiu para a noite paulistana, onde o neon dos letreiros tentava ofuscar as estrelas. Ela caminhou em direção ao metrô, mas parou diante de um grande mural de fotos de pessoas desaparecidas colado em uma parede de concreto. Ela tirou um tubo de cola da bolsa e afixou o panfleto de Mateus em um espaço vazio, exatamente ao lado da foto de uma menina que fora levada em uma festa de Carnaval.
Enquanto alisava o papel, Helena pensou na rainha de bateria que vira na televisão dias antes, sambando descalça no asfalto quente. Ela sentiu uma conexão estranha com aquela mulher. Ambas eram guerreiras à sua maneira, lutando para manter a dignidade enquanto o chão lhes faltava. Ambas transformavam a dor em movimento. A rainha dançava para não cair; Helena caminhava para não morrer por dentro.
A cidade continuava a rugir ao seu redor. Carros de luxo passavam por poças de água, sujando os sapatos de quem dormia nas calçadas. Políticos em Brasília continuavam suas tramas de poder e verdade. Mas ali, naquele pequeno quadrado de papel colado no concreto frio de São Paulo, o rosto de Mateus permanecia vivo. Helena sabia que o acaso poderia ter levado seu filho, mas o acaso também poderia trazê-lo de volta, ou ao menos trazer uma resposta.
Ela subiu as escadarias da estação sentindo o peso da bolsa, agora um pouco mais leve pela distribuição dos panfletos. Cada papel entregue era uma semente de memória plantada no esquecimento urbano. Ao entrar no vagão lotado, ela não se sentou. Permaneceu de pé, observando os reflexos no vidro escuro do túnel. Ela não via seu próprio rosto cansado; via apenas os caminhos que ainda precisava percorrer. São Paulo era grande, o Brasil era vasto, mas o coração de uma mãe era um bússola que nunca perdia o norte.
Enquanto o trem acelerava, Helena fechou os olhos e, por um instante, o cheiro de ozônio do metrô foi substituído pelo cheiro de talco de bebê e de terra molhada de um quintal antigo. Ela respirou fundo, guardando aquele rastro de lembrança como um tesouro sagrado. O amanhã traria novas ruas, novas praças e as mesmas perguntas, mas ela estaria lá. Porque enquanto houvesse um rastro na multidão, haveria uma razão para continuar caminhando, cruzando destinos e tecendo, com fios de dor e de fé, a tapeçaria invisível de uma busca que não conhece o cansaço.
Por José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Crônista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade







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