O Palácio do Planalto, com suas linhas de concreto que parecem flutuar sobre o espelho d'água, sempre foi o cenário de uma coreografia milimétrica. Em Brasília, a verdade costuma ser uma convidada indesejada, alguém que se mantém trancada em gavetas de carvalho ou escondida sob o verniz de discursos cuidadosamente redigidos por marqueteiros de fôlego. O Deputado Federal Dr. Waldir Valadares era um mestre nessa arte. Com décadas de vida pública, ele sabia exatamente como dizer nada utilizando o máximo de palavras possível. Seu sorriso era treinado, suas pausas eram estratégicas e sua capacidade de omitir fatos era considerada quase uma virtude teologal entre seus pares na Câmara.
Tudo mudou em uma terça-feira de céu absurdamente azul, após um incidente banal durante o café da manhã. Waldir engasgara com um pedaço de mamão e, após alguns segundos de pânico e uma manobra de Heimlich executada às pressas por seu motorista, algo parecia ter se desconectado em seu córtex pré-frontal. Ou talvez, como ele mesmo passaria a suspeitar, algo tivesse finalmente se conectado.
O primeiro sinal do desastre iminente ocorreu na abertura da Comissão de Constituição e Justiça. O relator de um projeto polêmico que beneficiava grandes empreiteiras terminou sua leitura e, voltando-se para Valadares, perguntou:
— E qual a posição do nobre deputado sobre este aditivo ao projeto?
Waldir sentiu a resposta padrão se formando no fundo da garganta — algo sobre "análise técnica detalhada" e "bem-estar social". Mas o que saiu de sua boca foi um jato de honestidade pura:
— Olha, relator, para ser sincero, eu não li uma linha sequer desse lixo. O que eu sei é que o dono da construtora pagou metade da reforma da minha casa de campo e, por isso, eu deveria votar a favor, mas esse projeto é tão mal escrito que dá vergonha até de ser corrupto com ele.
O silêncio que se seguiu não foi apenas a ausência de som; foi um vácuo físico. Os taquígrafos pararam de digitar. Os colegas de bancada olharam para Waldir como se ele tivesse acabado de se transformar em um alienígena verde. O relator, gago, tentou contornar:
— O deputado certamente está usando de uma ironia refinada para criticar a burocracia...
— Ironia nada, rapaz — Retrucou Waldir, agora com um prazer quase infantil. — Você também não leu. Você recebeu o texto pronto do lobista ontem à noite no jantar. Aliás, aquele risoto de lagosta que você postou estava com uma cara ótima, embora todos saibamos que você odeia frutos do mar e só comeu para parecer sofisticado.
O terremoto começou ali. Em menos de uma hora, os corredores do Congresso fervilhavam. O "Incidente Valadares" foi tratado inicialmente como um surto psicótico ou um AVC súbito. Seus assessores correram para a enfermaria, mas Waldir se recusava a ser examinado. Ele se sentia leve. A carga de décadas carregando segredos e mentiras sociais havia desaparecido, substituída por uma urgência quase biológica de clareza.
À tarde, no Grande Expediente, ele subiu à tribuna. O plenário estava lotado, atraído pelo cheiro de sangue e escândalo.
— Senhoras e senhores. — Começou Waldir, sem olhar para o papel. — Eu pretendia ler um manifesto sobre a importância da educação básica. Mas vamos falar a verdade? Ninguém aqui se importa com a educação se ela não render um palanque para a próxima eleição ou um desvio de verba nas obras da escola técnica. Inclusive, aquele deputado ali na terceira fila, que está me olhando com cara de horror, passou a manhã tentando negociar um cargo para a amante no Ministério da Infraestrutura. Ela não tem currículo para limpar o chão do ministério, mas ele insiste que é uma "técnica qualificada".
— Ordem! Questão de ordem! — Gritou o visado, vermelho como uma pimenta.
— A única ordem que você entende é a ordem de despejo que vai receber se sua esposa descobrir onde você gasta os fundos de gabinete .— Devolveu Waldir, sorrindo.
O caos se instalou. O presidente da Câmara martelava o malhete com tanta força que parecia querer quebrar o mármore da mesa. Waldir foi retirado da tribuna por seguranças, mas não parou. Nos corredores, cercado por jornalistas ávidos por um título de primeira página, ele continuou sua metralhadora de fatos.
— Deputado, o senhor está renunciando? — Perguntou uma repórter da TV ÁGAPE.
— Minha filha, eu adoraria renunciar e ir morar em uma praia em Fortaleza, mas eu ganho muito bem para fazer quase nada e tenho um ego maior que o Estádio Mané Garrincha. Eu só resolvi falar a verdade porque mentir cansa a musculatura da face, e minha dermatologista disse que o botox não está mais segurando as rugas de preocupação com a Polícia Federal.
A repercussão foi imediata. Nas redes sociais, Waldir Valadares tornou-se um fenômeno. O povo, cansado da linguagem empolada e das promessas vazias, dividia-se entre o riso e a perplexidade. Alguns o chamavam de profeta; outros, de louco. No mercado financeiro, as ações de empresas citadas por ele despencaram em questão de minutos. O governo entrou em modo de contenção de danos, tentando internar o deputado à força em uma clínica psiquiátrica de luxo sob o diagnóstico de "Síndrome da Veracidade Compulsiva".
À noite, em seu gabinete, Valadares recebeu a visita de um dos caciques de seu partido, um homem cujos cabelos brancos e voz mansa escondiam uma das mentes mais perigosas da política nacional.
— Waldir, meu caro. — disse o cacique, fechando a porta com cuidado. — Brincadeira divertida. O país parou. Agora, vamos soltar uma nota dizendo que foi uma reação adversa a um novo remédio para dormir e que você pede desculpas pelo "delírio".
Waldir olhou para o velho amigo e sentiu uma pontada de pena.
— Sabe o que é, presidente? Eu olhei para você agora e só consegui pensar em como esse seu implante capilar ficou ridículo. Parece grama de campo de golfe. E aquela conta que você tem nas Ilhas Cayman? O número é bem fácil de decorar, comecei a anotar hoje de manhã.
O cacique empalideceu. O suor brotou em sua testa, revelando a linha artificial do cabelo.
— Você não faria isso. Acabaria com a sua carreira também.
— Que carreira, homem? Eu sou um político que fala a verdade. Minha carreira acabou no momento em que o mamão entalou na minha glote. Agora eu sou apenas um homem livre observando o incêndio. E quer saber? As chamas são lindas.
Brasília nunca mais seria a mesma nas semanas seguintes. Waldir tornou-se um "homem-bomba" ambulante nos jantares de gala e nas sessões solenes. Ele apontava conflitos de interesse em contratos de licitação como quem aponta o sabor de um sorvete. Mas havia algo mais profundo acontecendo. O riso inicial deu lugar a um desconforto coletivo. A verdade dói, não apenas em quem a ouve, mas no tecido de uma sociedade construída sobre pequenos acordos de silêncio.
Ele percebeu que a honestidade radical em um ambiente saturado de simulação é a maior das rebeldias. Não havia estratégia em seu comportamento, apenas a impossibilidade de operar o filtro que separa o pensamento da fala. No entanto, em meio ao terremoto político que causava, Waldir começou a notar pequenas conexões humanas que antes lhe escapavam. Ao falar a verdade sobre suas próprias fraquezas e medos, ele começou a atrair confessionários espontâneos. Garçons do Congresso lhe contavam segredos não para chantagear, mas para se sentirem vistos. Ele percebeu que, por trás da máscara do poder, havia uma fragilidade monumental movida pela necessidade básica de ser aceito.
Em seus momentos de solidão, olhando as luzes de Brasília da janela de seu apartamento funcional, ele pensava em como a vida era um emaranhado de causas e efeitos. Talvez o seu surto de verdade fosse o contraponto necessário para o drama de alguém em outro canto do Brasil. Talvez sua fala desastrada pudesse, por caminhos tortuosos, ajudar a encontrar algo que estava perdido — seja um filho em São Paulo ou a dignidade de uma rainha no Carnaval.
O fenômeno Valadares serviu para mostrar que a realidade é muito mais estranha que a ficção. Em uma cidade projetada para o futuro, o ato mais revolucionário que um homem pôde praticar foi o de resgatar a mais antiga e simples das virtudes humanas. No final das contas, Waldir descobriu que a verdade não liberta apenas quem a conhece; ela obriga todos ao redor a lidarem com o próprio reflexo no espelho, mesmo que o reflexo mostre olheiras profundas ou um implante capilar mal-sucedido. E enquanto Brasília tentava desesperadamente construir uma nova mentira para abafar suas revelações, o deputado sentava-se na varanda, respirando o ar seco do planalto e esperando pelo próximo pensamento que, inevitavelmente, ganharia o mundo sem filtros, sem pudores e sem volta.
Como diria Neruda: “ A verdade é que não há verdade”. Será verdade?
Por José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Crônista
Menbro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade







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