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segunda-feira, 26 de outubro de 2026

CRÔNICA DO DIA: A Virada

 

Há uma palavra que parece carregar dentro de si o movimento do mundo: virada. A gente vira a página de um livro, vira a esquina de uma rua, vira a noite trabalhando tentando escrever uma crônica, vira o rosto para esconder uma lágrima. Vira o calendário, vira o ano, vira a sorte. Há quem vire as costas para o passado e quem passe a vida inteira tentando virar o jogo. Mas nem toda virada faz barulho. Algumas acontecem no silêncio de uma madrugada, quando a coragem, cansada de esperar, resolve finalmente acordar.

Dona Francisca, por exemplo, nunca imaginou que sua grande virada aconteceria aos sessenta e dois anos. Depois de uma vida inteira lavando roupa para fora, viu-se diante de uma máquina de costura herdada da irmã. As mãos, acostumadas ao sabão e à água fria, aprenderam a conversar com linhas e tecidos. No começo, costurava pequenos consertos. Depois vieram vestidos, uniformes, encomendas. Um dia, pendurou na porta de casa uma placa escrita à mão: Costuras da Chica.

Não ficou rica, mas passou a assinar o próprio destino com a linha da independência. Sua virada não apareceu nos jornais, não mereceu discursos nem fotografias. Coube inteira naquele pequeno letreiro, onde uma mulher que sempre trabalhara para os outros descobriu que ainda podia construir alguma coisa para si.

Já Antônio, motorista de ônibus, experimentou uma virada bem diferente. Durante vinte anos, percorreu as mesmas ruas, enfrentou os mesmos engarrafamentos e ouviu as mesmas reclamações dos passageiros. Conhecia a cidade pelos buracos do asfalto e pelas histórias que entravam pela porta da frente. Até que, numa manhã de segunda-feira, recebeu a notícia de que a empresa encerraria suas atividades.

Aos cinquenta anos, desempregado, Antônio sentiu que o mundo havia feito uma curva sem avisá-lo.

Passou semanas olhando pela janela, vendo os ônibus seguirem seus caminhos enquanto o dele parecia interrompido. Até que a filha, estudante de pedagogia, lhe perguntou por que não terminava os estudos que havia abandonado na juventude.

Antônio resistiu. Disse que estava velho, que não tinha cabeça para aquilo, que os livros pertenciam a outra estação da vida. Mas voltou à escola. Na primeira noite, sentou-se na última carteira, envergonhado. Meses depois, já era o primeiro a levantar a mão. Descobriu que existem viagens que não precisam de volante e estradas que começam dentro de um caderno.

A vida lhe havia tirado uma direção, mas lhe oferecia a possibilidade de encontrar outra. 

Também havia Clara, professora de escola pública, dessas que carregam no coração mais alunos do que cabem numa sala de aula. Clara pensou em desistir muitas vezes. Faltavam livros, sobravam dificuldades. Havia dias em que o salário parecia pequeno demais para sustentar os sonhos e grande demais era o cansaço para continuar acreditando. Certa manhã, encontrou sobre sua mesa uma carta de um antigo aluno.

Ele havia ingressado na universidade. Na última linha, escreveu: “Professora, a senhora me ensinou que o lugar onde nascemos não precisa determinar até onde podemos chegar.”

Clara chorou.

Naquele instante, compreendeu que sua virada não consistia em abandonar a sala de aula, mas em reencontrar o sentido de permanecer nela. Porque existem viradas que mudam o caminho. Outras mudam apenas o nosso modo de caminhar. E há aquelas que ultrapassam a vida individual e alcançam as ruas, as praças, as cidades, o país inteiro.

O Brasil também conhece suas viradas.

É um país que, entre avanços e retrocessos, aprendeu que a democracia não é uma estrada reta. É um caminho construído por milhões de passos, por disputas, divergências, conquistas e escolhas. Um caminho que exige vigilância, respeito e a capacidade de reconhecer no outro o mesmo direito de existir, pensar e sonhar.

Em tempos de eleição, a palavra virada ganha uma força especial.

Ela sai das conversas de esquina, atravessa as mesas de bar, invade as redes sociais e chega às casas onde famílias inteiras acompanham, entre expectativas e apreensões, a contagem dos votos. Foi assim que a trajetória de Lula, marcada por derrotas, vitórias, afastamentos e retornos, transformou a ideia de virada em uma imagem recorrente da política brasileira.

No segundo turno de uma eleição, cada voto participa de uma história coletiva. A virada nas urnas, quando acontece, não é apenas uma mudança na posição dos candidatos. É também a demonstração de que, numa democracia, o resultado pertence à vontade expressa pelos eleitores, e não às certezas antecipadas por quem disputa o poder.

Para uns, o resultado representa esperança. Para outros, preocupação ou discordância. E talvez esteja justamente aí uma das maiores responsabilidades democráticas: compreender que a vitória de um candidato não elimina a cidadania de quem escolheu outro. A democracia precisa continuar depois da apuração.

Precisa chegar à mesa de Dona Francisca, ao emprego de Antônio, à escola de Clara. Precisa ser percebida na dignidade do trabalho, no acesso à educação, no alimento que não pode faltar, no direito de falar e de ser ouvido. Porque uma virada política só encontra seu significado mais profundo quando a vida das pessoas também encontra oportunidades de melhorar.

E o povo, esse personagem imenso que raramente cabe inteiro nos discursos, continua fazendo suas próprias viradas. É a mãe que consegue matricular o filho na universidade. O agricultor que vê a chuva chegar depois de uma longa estiagem. O jovem que conquista o primeiro emprego. O aposentado que recupera a tranquilidade de comprar seus remédios. A família que, depois de tantas dificuldades, volta a fazer planos para o futuro.

Nenhuma dessas histórias depende apenas de um homem, de um partido ou de uma eleição. Dependem de trabalho, políticas públicas, oportunidades, escolhas e de uma sociedade que não desista de si mesma. Talvez seja esse o verdadeiro sentido da virada: a possibilidade de que o amanhã não esteja condenado a repetir o ontem. Afinal, a vida não avisa quando vai mudar de direção.

Às vezes, a virada chega como tempestade. Outras vezes, como uma brisa que abre discretamente a janela. Pode nascer de uma perda, de um encontro, de uma decisão ou de um voto. O importante é compreender que virar não significa necessariamente esquecer o caminho percorrido. Significa reconhecer que ainda existe estrada pela frente.

Dona Francisca continua costurando. Antônio continua estudando. Clara continua ensinando. E o Brasil continua escrevendo, entre conflitos e esperanças, as páginas de sua história. Todos, à sua maneira, procuram a mesma coisa: um amanhã que valha a pena.

Porque, no fundo, a maior virada não é simplesmente trocar quem está no poder, mudar de profissão ou começar outra vez.

A maior virada acontece quando aquilo que parecia impossível deixa de ser apenas esperança e começa, finalmente, a se tornar realidade.

José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

CRÔNICA DO DIA: A Última Lição do Dia dos Professores


Naquela manhã de outubro, a escola amanheceu com a mesma aparência de todos os dias: paredes descascadas, ventiladores cansados, ar condicionados quase frios, carteiras riscadas com declarações de amor que duravam menos que uma aula e um corredor onde os gritos dos alunos chegavam antes deles. Havia, porém, uma diferença no calendário. Era Dia dos Professores.

A Secretaria de Educação havia reorganizado as datas letivas para evitar folgas alternadas e garantir a continuidade das aulas. Por isso, enquanto algumas escolas celebravam a data com homenagens, bolos e fotografias nas redes sociais, naquela escola o sinal tocou normalmente. A festa ficara para outra ocasião. O conteúdo programático, não.

Na sala do nono ano, a professora  Maria do Amparo  preparava mais uma tentativa de fazer a língua portuguesa atravessar a fronteira da indiferença.

Tinha quase vinte anos de magistério e uma convicção que o tempo, apesar de tudo, ainda não conseguira aposentar: a escola deveria ensinar os alunos a ler o mundo antes mesmo de exigir que decifrassem as palavras. Gostava de Paulo Freire, acreditava no diálogo e defendia uma educação que libertasse, em vez de apenas disciplinar. Para ela, ensinar não era despejar regras gramaticais sobre cabeças distraídas, mas abrir janelas onde os alunos só enxergavam paredes.

Naquela turma, entretanto, as janelas pareciam emperradas.

Havia quem chutasse a mochila do colega, quem transformasse qualquer pergunta em motivo de zombaria, quem disputasse o volume da própria voz com o ventilador e quem já tivesse aprendido, antes mesmo de terminar o ensino fundamental, que intimidar os outros era uma maneira eficiente de conquistar espaço.

Amparo conhecia os nomes, os temperamentos e algumas das histórias que os alunos escondiam atrás dos gestos agressivos. Sabia que, em certas casas, faltava comida; em outras, sobravam gritos. Havia meninos que trabalhavam depois da aula, meninas que cuidavam dos irmãos menores e adolescentes que conheciam mais profundamente a linguagem das ofensas do que a dos afetos.

Compreender aquelas realidades, contudo, não tornava a sala de aula menos difícil. A professora sabia que a pobreza não condenava ninguém à violência, assim como conhecia alunos de famílias desestruturadas capazes de gestos extraordinários de ternura. Cada estudante era um universo, embora alguns insistissem em transformar a sala inteira num campo de batalha.

Naquela manhã, Helena decidiu começar de maneira diferente. Escreveu no quadro, em letras grandes:

QUEM TEM O DIREITO DE CONTAR A PRÓPRIA HISTÓRIA?

Em seguida, virou-se para a turma.

— Hoje, não quero começar pela gramática. Quero ouvir vocês. Se pudessem mudar alguma coisa no mundo, o que mudariam?

Um aluno respondeu que acabaria com as provas. Outro disse que proibiria os professores de passar atividades. A turma explodiu em gargalhadas. Do fundo, alguém imitou o som de uma sirene. Duas carteiras arrastaram-se pelo chão, e um pedaço de papel atravessou a sala como um pássaro sem rumo.

Amparo esperou. Acreditava que o silêncio também podia ser uma ferramenta pedagógica, embora naquele nono ano ele fosse um artigo de luxo.

— Professora, eu mudaria a escola inteira. — Disse um rapaz, sem tirar os olhos do celular. — Aqui ninguém escuta ninguém.

A frase provocou risos, mas Helena percebeu nela uma verdade involuntária.

— Então talvez seja por aí que a gente deva começar. — respondeu a professora. — Aprendendo a escutar.

Foi quando percebeu que Camila, sentada perto da janela, continuava mexendo no telefone, alheia à atividade. Ela era conhecida pelos enfrentamentos. Respondia aos professores, discutia com os colegas e parecia carregar nos ombros uma raiva maior que seu corpo franzino. Naquela manhã, tinha o rosto fechado e os olhos fixos na tela. Helena aproximou-se da carteira.

— Camila, guarde o celular e participe da atividade, por favor.

A menina não respondeu.

— Estou falando com você.

— E eu ouvi.

— Então guarde o aparelho.

Camila ergueu os olhos devagar.

— A senhora só sabe mandar.

Helena respirou fundo. Não queria transformar uma orientação em duelo. A experiência lhe ensinara que, diante de uma turma inquieta, certas palavras precisavam ser escolhidas com o cuidado de quem atravessa uma ponte estreita.

— Não estou aqui para mandar na sua vida. Estou aqui para ajudar você a aprender. Mas, para isso, precisamos respeitar o espaço de todos.

— Respeitar? — Camila soltou uma risada amarga. — Vocês falam de respeito, mas ninguém respeita a gente!

Alguns alunos começaram a incentivar a discussão. Outros puxaram os celulares, atentos à possibilidade de registrar uma cena que, minutos depois, poderia circular pelas redes sociais com uma legenda cruel.

Amparo sentiu a aula escapar por entre os dedos.

— Camila, sente-se direito, guarde o celular e vamos conversar depois. Agora, preciso continuar a atividade.

— A senhora não manda em mim!

— Não quero mandar em você. Quero que você entenda que sua liberdade não lhe dá o direito de impedir a liberdade dos outros.

Por um instante, a sala ficou suspensa naquela frase. Camila levantou-se bruscamente. A cadeira tombou para trás. A professora pediu que ela se acalmasse, mas a menina já não parecia ouvir. Havia insultos, vozes sobrepostas, colegas incentivando o confronto e uma tensão que crescia sem que ninguém soubesse como interrompê-la.

Amparo tentou manter a voz firme.

— Camila, por favor, vamos resolver isso conversando.

A resposta veio num movimento rápido, desesperado e irreversível. A lâmina de uma faca surgiu na mão da adolescente. Houve um grito. Depois, o silêncio.

Amparo levou a mão ao corpo e olhou para a própria palma, como se não compreendesse o vermelho que começava a manchá-la. Camila permaneceu imóvel por um segundo, os olhos arregalados diante daquilo que acabara de fazer. Alguém correu até a porta. Outro aluno começou a chorar. As carteiras, antes instrumentos de barulho, pareciam agora testemunhas incapazes de falar.

A professora caiu.

Naquele instante, o Dia dos Professores deixou de ser uma data no calendário e se transformou numa pergunta terrível: em que momento a escola, que deveria ser um lugar de encontro, se tornara um lugar onde uma educadora precisava temer pela própria vida?

Os minutos seguintes foram de desespero. Chamaram a direção, pediram socorro, afastaram os estudantes. Helena foi amparada até a chegada do atendimento médico. Camila, ainda em choque, foi retirada da sala.

Sobre a mesa, o livro de língua portuguesa permanecia aberto. A atividade continuava pela metade. No quadro, a pergunta escrita em letras grandes parecia olhar para todos:

Quem tem o direito de contar a própria história?

Naquela manhã, ninguém conseguiu respondê-la.

Amparo sobreviveu, mas alguma coisa nela permaneceu naquela sala. Não apenas o medo, nem somente a lembrança da lâmina. Ficou a imagem dos rostos adolescentes, do celular erguido, das vozes que incentivavam a briga e do instante em que uma tentativa de ensinar se converteu numa luta pela sobrevivência.

Nos dias seguintes, vieram as notícias, os comentários, as opiniões apressadas. Houve quem culpasse a professora por ter chamado a atenção da aluna. Houve quem exigisse punições exemplares. Outros aproveitaram a tragédia para atacar a escola pública, como se os problemas de uma sociedade inteira coubessem nos muros de uma instituição.

Poucos perguntaram quantos alunos naquela escola precisavam de acompanhamento psicológico, quantos professores trabalhavam sem apoio suficiente, quantas famílias estavam desamparadas e quantas vezes a violência havia dado sinais antes de explodir.

Compreender as circunstâncias não significava justificar a agressão. Camila precisava responder pelo que fizera, de acordo com a lei e com sua condição de adolescente. Amparo tinha o direito de ser protegida, cuidada e respeitada. E a escola precisava de condições reais para ensinar, acolher e estabelecer limites.

A educação libertadora em que Amparo acreditava nunca significara ausência de regras, muito menos a obrigação de um professor aceitar humilhações ou correr riscos para provar sua vocação. Liberdade sem responsabilidade não constrói convivência. Diálogo sem segurança não se sustenta. E nenhuma pedagogia pode exigir que um educador ofereça a própria integridade física como material didático.

Talvez a grande tragédia daquela manhã não tivesse começado no instante em que a lâmina apareceu. Talvez tivesse raízes mais antigas, espalhadas por ausências, negligências, agressividades naturalizadas e pela dificuldade coletiva de reconhecer que educar é uma tarefa de toda a sociedade, não apenas de quem entra numa sala com um livro debaixo do braço.

Mas seria injusto reduzir Amparo à condição de vítima. Ela era professora antes daquele dia e continuava sendo muito mais do que a violência que sofrera. Era a mulher que preparava aulas, corrigia redações, inventava estratégias para despertar curiosidade e acreditava que uma palavra bem colocada poderia abrir caminhos.

Era uma profissional que merecia voltar para casa em segurança. E isso, que deveria ser tão simples, tornou-se uma reivindicação urgente.

No Brasil, há milhares de Amparos que entram nas escolas carregando livros, cadernos, planos de aula e uma esperança que raramente aparece nos contracheques. Professores que improvisam laboratórios onde faltam equipamentos, transformam textos em debates, fazem da poesia uma ponte para a realidade e tentam descobrir, entre uma provocação e outra, o que ainda pode despertar o interesse de um adolescente.

São profissionais que ensinam a diferença entre uma metáfora e uma mentira, entre uma opinião e um argumento, entre discordar de alguém e desejar destruí-lo. Ensinam que a palavra pode ferir, mas também pode reparar; que a liberdade exige responsabilidade; que ninguém precisa humilhar o outro para ser ouvido.

Não são heróis de uma profissão destinada ao sacrifício. São trabalhadores. Precisam de salários dignos, formação continuada, respeito, segurança, equipes de apoio, escolas bem estruturadas e políticas públicas que não os abandonem diante de problemas que ultrapassam os limites da sala de aula.

Neste Dia dos Professores, enquanto flores, cartões e homenagens percorrem as redes sociais, vale lembrar que o melhor presente não é um discurso bonito pronunciado uma vez por ano. É a garantia de que cada educador possa ensinar sem medo, de que cada estudante encontre na escola oportunidades reais de crescimento e de que a sociedade compreenda que a violência contra um professor fere muito mais do que uma pessoa: atinge o próprio sentido da educação.

Quanto a Helena, talvez um dia volte a escrever no quadro. Talvez escolha outra pergunta, outro texto, outra maneira de começar a aula. Não sabemos se conseguirá apagar inteiramente o que viveu. Algumas feridas não obedecem ao calendário escolar.

Mas, se voltar, que encontre uma escola diferente. Uma escola onde sua voz não precise disputar espaço com ameaças, onde o diálogo seja acompanhado de responsabilidade e onde ensinar não seja um ato de coragem diante do perigo, mas um exercício cotidiano de dignidade.

E que, ao abrir o livro, encontre novamente aquilo que a fez escolher o magistério: a possibilidade de que uma palavra alcance alguém, permaneça em sua memória e ajude a mudar o rumo de uma vida.

Porque há lições que não cabem no quadro. Há mestres que continuam ensinando mesmo quando o mundo lhes oferece motivos para desistir. E há uma dívida que o Brasil precisa reconhecer: não basta aplaudir os professores no dia em que se celebra sua profissão. É preciso defendê-los em todos os dias em que exercem o direito de ensinar.

Aos professores brasileiros, que fazem da palavra uma ferramenta de transformação e da sala de aula um território de possibilidades, nossa homenagem, nosso respeito e nossa gratidão.

Que nunca lhes faltem livros para ensinar, liberdade para pensar, condições para trabalhar e segurança para voltar para casa. E que nenhum professor precise derramar o próprio sangue para que o Brasil finalmente compreenda o valor de sua missão. Porque, quando um professor é ferido, não é apenas uma pessoa que sangra.

É o futuro inteiro que perde uma página.


José Casanova

Professor, Jornalista, Escritor e Cronista

Membro da Academia Bacabalense de Letras

Academia Mundial de Letras da Humanidade

 

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

CRÔNICA DO DIA: O Voto e o Lombo

 

A urna tem dessas ironias. Às vezes, a mão que aperta o botão parece esquecer o corpo que a sustenta. Esquece o despertador tocando antes do sol. Esquece o ônibus lotado, a marmita, a jornada que ocupa seis dias da semana e deixa apenas um para descansar, cuidar da casa, abraçar os filhos e tentar lembrar que a vida deveria ser mais do que trabalhar para sobreviver.

Esquece a fila do supermercado e aquela conta silenciosa feita diante da prateleira: isso cabe no salário? Dá para levar a carne? O leite? O remédio? E se faltar dinheiro antes do fim do mês?

A política, para quem tem pouco, nunca foi apenas uma discussão abstrata entre esquerda e direita. Política é comida. É salário. É aposentadoria. É universidade. É financiamento estudantil. É a prestação da casa própria. É o preço do gás. É o ônibus que leva ao trabalho. É saber se, depois de uma vida inteira contribuindo, haverá alguma segurança na velhice.

Por isso me espanta quando trabalhadores transformam a política numa espécie de torcida e passam a defender projetos sem perguntar primeiro o que esses projetos significarão na própria mesa.

Há quem receba Bolsa Família e despreze políticas sociais. Há quem dependa do salário mínimo e trate sua valorização como assunto menor. Há pais e mães que jamais poderiam pagar uma universidade particular, mas cujos filhos chegaram ao ensino superior por programas como Prouni e Fies. Há famílias que passaram décadas pagando aluguel e enxergaram no Minha Casa, Minha Vida a primeira possibilidade concreta de chamar quatro paredes de suas.

Nada disso deveria pertencer a um político como propriedade pessoal. São políticas públicas. São escolhas de país. E, justamente por isso, precisam ser discutidas, cobradas, fiscalizadas e defendidas quando funcionam.

O eleitor deveria perguntar a qualquer candidato — Lula, Flávio Bolsonaro ou qualquer outro — coisas muito simples: o que acontecerá com meu salário? Com minha aposentadoria? Com a universidade do meu filho? Com os programas habitacionais? Com os direitos de quem trabalha? Com a jornada de trabalho? Com o preço dos alimentos? E, sobretudo, com a democracia?

Porque eleição não é concurso para escolher quem fala mais alto. É uma decisão sobre quem pagará a conta depois.

Às vezes observo certas escolhas políticas e me vem à cabeça, como metáfora imperfeita, a chamada Síndrome de Estocolmo: aquela associação conhecida popularmente pela situação paradoxal em que uma vítima desenvolve vínculo ou lealdade em relação a quem a submete ou ameaça. Na política, a comparação deve ser usada com cuidado, mas a imagem provoca uma pergunta incômoda: por que alguém apoiaria alegremente aquilo que acredita poder prejudicá-lo?

Talvez porque a política tenha conseguido uma façanha terrível: fazer muita gente votar primeiro pela identidade e somente depois pelo próprio interesse concreto.

O trabalhador passou a dizer que é “de direita” ou “de esquerda” antes de perguntar quem defende sua jornada, seu salário e sua dignidade. O aposentado escolhe uma camisa antes de conferir o que cada projeto pretende fazer com sua aposentadoria. O jovem aprende o nome do inimigo político antes de descobrir quem pretende ampliar ou restringir suas oportunidades.

E então nasce uma tentação amarga. Às vezes penso: talvez seja preciso sentir no próprio lombo.

Talvez algumas sociedades só compreendam o valor de determinadas conquistas quando correm o risco de perdê-las. É fácil desprezar uma ponte enquanto estamos atravessando por ela. Difícil é perceber sua importância depois que o rio fica entre nós e o outro lado.

Mas esse pensamento dura pouco. Política não deveria ser uma experiência de sofrimento destinada a ensinar uma lição. Um país inteiro não pode ser colocado em risco para que uma parcela de seus cidadãos descubra, tarde demais, o peso das próprias escolhas.

Democracia é justamente o contrário disso. É escolher antes da queda. É desconfiar das promessas. É comparar projetos. É cobrar números. É verificar declarações. É lembrar do passado sem transformar ninguém em santo e olhar para o futuro sem transformar ninguém em salvador.

Tenho minha opinião sobre Lula. Tenho também minhas críticas. Nenhum governante deve estar acima delas. Mas considero impossível negar a dimensão que ele adquiriu na história política brasileira e, sobretudo, o lugar que as políticas sociais associadas aos seus governos ocuparam na vida de milhões de brasileiros.

O eleitor, entretanto, não deve nada a Lula. Nem a Flávio Bolsonaro. Nem a partido algum. Deve alguma coisa apenas a si mesmo, à sua família e ao país que deixará para os filhos. Por isso, depois do barulho do primeiro turno, talvez a pergunta mais importante não seja: “De que lado eu estou?” Talvez seja outra: “Que país haverá do outro lado do meu voto?”

Porque a urna leva poucos segundos, mas resultado dela pode durar anos.

José Casanova

Professor, Jornalista, Escritor e Cronista

Membro da Academia Bacabalense de Letras

Academia Mundial de Letras da Humanidade

 

terça-feira, 22 de setembro de 2026

CRÔNICA DO DIA: A neta de Humberto de Campos e a luz de uma memória literária na FELIS

Há encontros que não terminam quando a fotografia é guardada no celular. Eles permanecem como uma espécie de marca silenciosa na memória de quem teve o privilégio de estar presente. Foi assim quando Patricia de Campos, neta de Humberto de Campos, chegou ao estande da FALMA (Federação das Academias de Letras do Maranhão), durante a 19ª FELIS (Feira Literária de São Luís).

Naquele instante, o espaço ganhou uma atmosfera diferente. Não era apenas a chegada de uma visitante ilustre. Era a presença de um pedaço vivo da história literária maranhense. Pessoas se aproximavam emocionadas, com livros nas mãos, olhos curiosos e aquele desejo quase infantil de registrar um momento raro: uma fotografia ao lado da descendente de um dos maiores nomes da literatura brasileira.

Humberto de Campos não era apenas um nome escrito nas páginas dos livros. Foi um escritor que conquistou leitores com sua prosa elegante, fluida e acessível. Sua produção literária transitou entre a poesia, a crônica e o ensaio, sempre marcada por erudição, sensibilidade e um humor refinado que aproximava o autor do público.

Mas a história de Humberto de Campos também carrega capítulos cercados de debates e mistérios. Após sua morte, algumas obras atribuídas ao escritor foram psicografadas pelo médium Chico Xavier, apresentadas como mensagens ditadas pelo espírito do próprio Humberto. O episódio gerou grande repercussão e levou a família do escritor a contestar judicialmente a situação, em 1944, em um processo envolvendo Chico Xavier e a Federação Espírita Brasileira, buscando uma definição sobre a autoria das obras e questões relacionadas aos direitos autorais. Há quem diga em tom de humor, que a psicografia é a prscussora da inteligencia artificial.

É claro que aquele não era o momento para transformar um encontro de celebração literária em uma discussão sobre polêmicas históricas. Havia algo muito maior acontecendo ali. O que importava naquele instante era a homenagem, o afeto e o reconhecimento de uma trajetória que atravessou gerações.

A curiosidade existia. Estava nos olhares, nos comentários discretos, nas conversas entre escritores e visitantes. Afinal, quando uma família carrega consigo a memória de uma personalidade tão marcante, inevitavelmente desperta perguntas e reflexões. Mas a delicadeza daquele momento falou mais alto.

Patricia de Campos trouxe ao estande da FALMA algo que nenhum livro consegue transmitir sozinho: a sensação de proximidade com a história. Sua presença aproximou passado e presente, escritor e leitor, memória e emoção.

Naquela tarde, entre abraços, sorrisos e fotografias, a literatura maranhense ganhou mais uma página para guardar. Uma página escrita não com tinta, mas com sentimento.

Porque algumas pessoas não chegam apenas para visitar um lugar. Algumas chegam para iluminar a história que já estava ali.

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Academia Bacabalense de Letras leva produção literária de Bacabal à 19ª FeliS, em São Luís

 

A literatura produzida em Bacabal ganhou espaço e visibilidade na 19ª Feira do Livro de São Luís (FeliS), realizada de 18 a 27 de setembro, na Praça Maria Aragão, no Centro da capital maranhense. A Academia Bacabalense de Letras (ABL) participa do evento divulgando e comercializando obras de autores do município no estande da Federação das Academias de Letras do Maranhão (FALMA), presidida pelo escritor César Brito.

A participação representa uma importante vitrine para a produção literária bacabalense, aproximando escritores e leitores e levando ao público da feira diferentes gêneros, que vão da poesia à crônica, do romance à literatura infantil.

Entre as obras apresentadas está a “Coletânea da ABL – Centenário de Bacabal”, de autoria coletiva, publicação que reúne vozes da Academia e contribui para preservar parte da memória histórica, cultural e literária do município.

A escritora Maria Raimunda participa com os livros de poesia “Vivências” e “Reminiscências”, obras marcadas pela sensibilidade poética e pelo registro das experiências humanas por meio dos versos.

Também integra a representação literária de Bacabal a escritora Aline Freitas, que apresenta ao público títulos como “Ladeiras do Eterno Alvorecer”, “Vida Crônica”, no gênero crônica, e “A Música”, romance que integra sua produção literária.

A escritora Francinalva Muniz está representada por obras e participações em diferentes projetos literários, entre eles “Verve Lasciva: Poesia Erótica”, “Tudo é Poesia” e “Por Alguns Minutos, Eles”. Integrante da Academia Bacabalense de Letras, Francinalva vem ampliando sua produção e participação em antologias e projetos editoriais.

A literatura voltada ao público infantil também ganhou espaço com a escritora Jeane Miranda, que levou à feira o livro “Casas de Todo Jeito”, obra que aborda, de forma lúdica e sensível, diferentes concepções de lar, convivência, acolhimento e pertencimento.

BACABAL EM UMA GRANDE VITRINE LITERÁRIA

A presença da Academia Bacabalense de Letras na FeliS insere a produção cultural do município em um ambiente que reúne escritores, editoras, academias, livreiros, pesquisadores, professores, estudantes e leitores de diferentes lugares.

Mais do que comercializar livros, a participação possibilita apresentar ao público a diversidade da produção literária de Bacabal e reafirmar a importância das academias de letras como instituições de preservação da memória, estímulo à leitura e valorização de novos e consagrados escritores.

O espaço da FALMA funciona justamente como ponto de convergência dessas diferentes produções literárias espalhadas pelo Maranhão, aproximando academias e autores de várias regiões do estado.

Presidida pelo escritor César Brito, a Federação das Academias de Letras do Maranhão tem participação ativa na programação da feira, promovendo a integração entre instituições literárias e oferecendo espaço para divulgação de autores maranhenses.

PATRONO DA FEIRA TEM LAÇOS COM A HISTÓRIA LITERÁRIA DO MARANHÃO

Com o tema “O livro na palma, alimento da alma”, a 19ª FeliS presta homenagem a importantes nomes da literatura maranhense.

O patrono desta edição é Humberto de Campos (1886-1934), escritor, jornalista e político maranhense que alcançou projeção nacional e integrou a Academia Brasileira de Letras.

A feira também homenageia Antônio Lobo, figura de destaque na fundação da Academia Maranhense de Letras, e Mata Roma, reconhecido por sua contribuição à literatura, à crítica e à reflexão intelectual sobre o Maranhão.

Um dos momentos especiais no espaço da FALMA foi a visita de Patrícia Campos, neta de Humberto de Campos. Na oportunidade, ela conversou com escritores maranhenses sobre a trajetória e o legado literário do avô, aproximando a história de um dos grandes nomes das letras brasileiras dos autores que atualmente ajudam a manter viva a produção literária no Maranhão.

FEIRA REÚNE GRANDES NOMES DA LITERATURA

A programação da 19ª Feira do Livro de São Luís reúne literatura, cultura, educação, memória e formação de leitores.

Com entrada gratuita, o evento oferece palestras, debates, seminários, oficinas, contações de histórias, apresentações culturais, lançamentos, rodas de conversa e comercialização de livros, atendendo crianças, jovens, estudantes, professores, escritores, pesquisadores e o público em geral.

Entre os convidados desta edição estão nomes reconhecidos nacional e internacionalmente, como Jeferson Tenório, Socorro Acioli, Cristóvão Tezza, Raphael Montes, Eliane Potiguara, Auritha Tabajara, Antônio Carlos Secchin, Geraldo Carneiro, Jorge Caldeira, Salgado Maranhão, Mary Del Priore e José Eduardo Agualusa.

A estrutura da FeliS conta com 40 estandes de livreiros, 11 sebos literários, 81 lançamentos de livros, 17 escritores nacionais e um convidado internacional, além da participação de instituições culturais, editoras, academias, coletivos e diferentes agentes ligados à cadeia produtiva do livro.

Durante dez dias, a Praça Maria Aragão transforma-se em uma verdadeira Cidade do Livro, colocando escritores e leitores frente a frente e fazendo da literatura um espaço de encontro, conhecimento e valorização da identidade cultural maranhense.

“BACABAL BRILHA NA FEIRA”

Para o presidente da Academia Bacabalense de Letras, José Casanova, a participação na FeliS representa um importante passo na divulgação dos escritores e da produção cultural do município.

“Bacabal brilha na Feira do Livro de São Luís”, afirmou o presidente, ao destacar a diversidade e a qualidade das obras apresentadas pela Academia.

José Casanova também agradeceu à Federação das Academias de Letras do Maranhão (FALMA), especialmente ao presidente César Brito, pelo espaço disponibilizado aos escritores bacabalenses.

Segundo o presidente da ABL, iniciativas dessa natureza ampliam as oportunidades para que autores do interior maranhense sejam conhecidos por novos públicos e mostram que a produção literária de qualidade não está restrita aos grandes centros.

A participação da Academia Bacabalense de Letras na 19ª FeliS, portanto, ultrapassa a exposição de livros. É também a presença simbólica de uma cidade que escreve, produz memória e transforma suas experiências em literatura.

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

CRÔNICA DO DIA: A Despedida de Junho



O fim não vem com um estrondo, como as matracas que iniciaram o ciclo, mas com o recolhimento minucioso de cada fita, de cada pena, de cada miçanga. O silêncio que se instala no barracão depois da última apresentação é denso, como se ainda sustentasse a vibração das toadas nas paredes de zinco. Há uma melancolia própria desse momento, um vazio que aperta o peito: a sensação de que o mundo, tão colorido e vibrante durante aquelas semanas, está sendo guardado em caixas de papelão e baús de madeira, como se a própria vida se despisse, por algum tempo, de seu brilho. Dona Zefa observa as bordadeiras dobrarem os veludos com o cuidado de quem embrulha relíquias e, por um instante, a tristeza da despedida paira sobre o terreiro.

As mãos, agora sem a pressão da agulha ou a urgência do tambor, parecem perdidas, como se não soubessem que outro ritmo seguir senão o do boi. O barracão, antes preenchido por risos, gritos de comando, discussões sobre o compasso e o cheiro da comida de festa, devolve agora o som dos passos de quem caminha devagar para a saída. É quando os brincantes voltam a ser pessoas comuns: o vaqueiro retoma a lida bruta do campo; a índia regressa à rotina dos estudos e do trabalho; o miolo retorna ao anonimato dos dias sem fantasia. Ainda assim, o orgulho que permanece em seus olhos é maior que a tristeza do fim. Eles sabem que não apenas cumpriram um calendário. Deram continuidade a um rito de resistência, memória e pertencimento.

Guardar o boi é quase uma liturgia. A estrutura de madeira é desmontada peça por peça, e não há quem toque na armação sem sentir gratidão pelo que ali foi vivido. O boi precisa ser desarmado para que cada brincante possa retomar a própria história. Há reverência no modo como limpam os pandeirões, passam cera nas matracas e organizam os figurinos, protegendo-os das traças e da umidade. Tudo precisa repousar. Quando o próximo ciclo despontar no horizonte — quando maio trouxer novamente o calor e as primeiras brisas secas — cada peça deverá estar pronta para devolver corpo ao sonho.

Na penumbra do galpão, Mestre Benedito permanece sozinho por alguns instantes. Percorre com os olhos o terreiro vazio, onde ainda resta um pouco da poeira levantada pelas últimas danças. É ali, na quietude, que reafirma o pacto. Não se trata de uma despedida definitiva. Algo que nasce da necessidade de expressão e da vontade de pertencer não conhece verdadeiramente o fim. A melancolia talvez seja apenas o preço de se ter vivido algo tão intenso. Mestre Benedito respira o ar ainda carregado de vestígios de incenso, poeira e madeira e sente, com uma certeza que independe de calendário, que alguma coisa foi plantada em cada um dos batalhões.

Uma das jovens índias deixa sobre a mesa uma pequena fita colorida, oferenda silenciosa ao santo que os protegeu em cada estrada percorrida. É também uma promessa para o ano seguinte. Ninguém precisa dizer nada. O pacto está feito. O barracão pode voltar a ser um espaço de silêncio, o terreiro pode voltar a ser apenas terra, mas, nas conversas à porta de casa e nos suspiros de quem recorda o brilho da arena, a história continua. Eles deixam para trás as fantasias, mas levam consigo a alma do boi, guardada nos recantos mais profundos da memória.

Quando Mestre Benedito finalmente apaga a luz do barracão e tranca o portão enferrujado, não está apenas encerrando uma temporada. Está protegendo um tesouro. Lá fora, a escuridão já tomou as ruas, mas, no caminho de casa, ele sente que a luz criada durante aquelas noites ainda permanece acesa por dentro. Junho se despede, e a energia entregue à festa permanece na memória de cada brincante, incorporada àquilo que são.

Enquanto caminha pelas ruas silenciosas da cidade, já devolvida ao ritmo dos dias comuns, Mestre Benedito sabe que o tambor pode ter parado. A promessa, não. Ela continua batendo no peito de quem dançou, bordou, tocou, cantou e carregou o boi. E bastará que o tempo complete sua volta para que as caixas sejam abertas, os veludos respirem outra vez e a primeira matraca rompa o silêncio.

Junho termina.

O boi, não.

José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista
membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade

terça-feira, 15 de setembro de 2026

CRÔNICA DO DIA: O Acaso não Existe

O asfalto mudo de Brasília, com suas curvas largas e monumentais, não parece ter o mesmo hálito que o chão de terra batida de Bacabal, no interior do Maranhão. No entanto, o vento que sopra entre os eixos da capital federal carrega a mesma poeira invisível de mistério que envolve as palmeiras de babaçu. Quando caminhamos pelas ruas de São Luís, os azulejos antigos das fachadas parecem nos observar, guardando histórias de séculos que se entrelaçam aos passos apressados de quem hoje busca apenas o próximo ônibus.

            Muitas vezes, acreditamos piamente que o curso de nossas vidas é fruto exclusivo de escolhas conscientes, de planos traçados em agendas de couro ou em aplicativos de celular. Mas há uma força silenciosa, uma engenharia invisível que opera nos bastidores, rearranjando encontros e desencontros com uma precisão que beira o assustador. Alguns chamam de coincidência; outros, mais prevenidos, preferem chamar de destino.

A verdade é que nada é isolado. Um atraso de cinco minutos na saída para o trabalho em São Paulo, aquele semáforo que demora a abrir na Avenida Paulista, pode ser o responsável por evitar um desastre ou por colocar você diante da pessoa que mudará o rumo da sua carreira. É curioso notar como as cidades, por mais distantes que sejam, se conectam por fios tênues de causalidades humanas.

 Fortaleza, com seu cheiro de maresia e o sol que nunca descansa, abriga vidas que, sem saber, dependem de um evento ocorrido em uma repartição pública de Brasília ou de uma conversa de mesa de bar no Maranhão. O cotidiano é uma teia. Cada gesto, por menor que seja, um olhar trocado na balsa para Alcântara, um pedido de desculpas em um restaurante lotado é uma peça de dominó que, ao cair, reverbera em locais que jamais visitaremos.

Observemos o senhor que vende tapioca na orla. Para ele, o dia é apenas mais uma jornada de trabalho sob o sol. Mas, para a jovem que parou ali por estar com fome após uma entrevista de emprego frustrada, aquele breve diálogo sobre o tempo pode ser o alento necessário para que ela não desista e decida caminhar mais dois quarteirões, onde verá um anúncio de vaga que será o início de sua ascensão profissional. O acaso, se é que ele existe, é um mestre disfarçado de trivialidade. Ele não se apresenta com trombetas ou luzes neon; ele prefere o anonimato das pequenas coisas, o salto que se quebra no momento errado, o guarda-chuva esquecido que obriga alguém a se abrigar sob o mesmo toldo que um desconhecido.

A vida não é uma linha reta, mas um emaranhado de curvas que se cruzam e se afastam conforme uma geometria própria. Muitas vezes, olhamos para trás e tentamos encontrar uma lógica em nossas trajetórias. "Se eu não tivesse pego aquele voo...", pensamos. Ou "se eu não tivesse aceitado aquele convite...". O exercício de imaginar o que poderia ter sido é fascinante, mas ignora o fato de que as peças já estão em movimento.

 Não somos apenas os jogadores; somos também as peças de um tabuleiro vasto demais para a nossa compreensão imediata. O destino se manifesta na capacidade de transformar o improvável em rotina e o extraordinário em uma terça-feira comum em qualquer uma dessas metrópoles brasileiras.

Em Bacabal, o silêncio da noite é diferente do silêncio de Brasília. No Maranhão, o silêncio é preenchido pelo som dos grilos e pelo murmúrio das conversas nas calçadas, onde o tempo parece passar mais devagar, permitindo que as conexões humanas sejam saboreadas com a calma de um café passado na hora. Em São Paulo, o silêncio é uma raridade, um luxo conquistado em fones de ouvido no meio do metrô, onde milhões de destinos se esbarram sem se ver, como átomos em uma reação química prestes a explodir.

No entanto, em ambos os lugares, a mesma regra se aplica: a vida está constantemente conspirando para que as histórias se completem. Um drama que começa no coração do cerrado pode encontrar seu desfecho nas praias do Ceará, impulsionado por uma série de eventos que, vistos individualmente, parecem não ter sentido, mas que, no conjunto, formam um mosaico perfeito.

É preciso ter bom senso para enxergar essas tramas. Não se trata de misticismo barato, mas de uma observação atenta da realidade. Quem nunca sentiu aquele frio na espinha ao perceber que estava no lugar certo, na hora exata, para testemunhar algo que parecia destinado apenas aos seus olhos? Ou aquela sensação de que um estranho cruzou seu caminho apenas para lhe entregar uma palavra que era exatamente o que você precisava ouvir?

 Essas situações são os lembretes de que a autonomia que tanto pregamos é, em parte, uma ilusão necessária para mantermos a sanidade. No fundo, somos todos personagens de uma crônica maior, escrita por uma mão que não conhecemos, mas cujos parágrafos sentimos na pele a cada reviravolta.

Interessante é pensar nas figuras que compõem esse cenário. Imagine uma mulher que caminha com a confiança de quem domina o mundo, os passos marcados pelo ritmo de uma música que só ela ouve, sendo subitamente interrompida por um imprevisto mecânico de sua própria vestimenta. O que parece ser um desastre de percurso, um embaraço público sob os holofotes, pode ser, na verdade, o ponto de inflexão necessário para que ela revele sua verdadeira força. O brilho excessivo muitas vezes cego, e é no momento da falha, da vulnerabilidade, que o destino abre uma fresta para que a essência humana apareça sem filtros. A resiliência não nasce do sucesso contínuo, mas da capacidade de lidar com o salto que falha justamente quando todos estão olhando.

As cidades mencionadas : Bacabal, São Luís, Fortaleza, São Paulo, Brasília  são mais que meros pontos num mapa nesta crônica; elas são organismos vivos que respiram e reagem às nossas passagens. Elas guardam os segredos de crianças que desapareceram em meio ao caos urbano e o silêncio ensurdecedor de políticos que, por um golpe do destino ou uma estranha condição da alma, perderam a capacidade de camuflar a verdade com mentiras convenientes. Cada uma dessas histórias, por mais disparatadas que pareçam, está conectada por esse princípio fundamental: o cotidiano é grávido de significados que raramente paramos para decifrar.

Ao observarmos a vida com esse olhar mais aguçado, passamos a respeitar os imprevistos. O trânsito parado, a chuva súbita que estraga o penteado, o erro de digitação que envia um Pix para o destinatário errado. Em vez de irritação, surge uma curiosidade quase infantil: o que essa nova rota quer me mostrar? Para onde esse desvio está me levando? A sabedoria reside em entender que, enquanto tentamos controlar as marés, o mar já decidiu como nos levar à praia. Às vezes, ele nos joga na areia com violência; outras vezes, nos conduz suavemente em uma espuma morna. De qualquer forma, chegamos exatamente onde deveríamos estar, mesmo que não seja onde havíamos planejado.

O tecido da realidade é feito de fibras resistentes e outras extremamente frágeis. O drama humano é essa constante tentativa de remendar onde rasgou e de celebrar onde a trama é firme. O destino não é um destino final, mas o próprio caminho, cheio de conexões que só fazem sentido quando paramos de lutar contra a correnteza e começamos a observar a beleza do fluxo.

Essa percepção nos torna mais humanos e, paradoxalmente, mais humildes. Ao aceitar que não somos os únicos autores de nossa biografia, passamos a olhar para o outro com mais complacência. Afinal, aquele desconhecido que nos irrita com sua lentidão pode ser apenas o instrumento que nos impede de chegar a um perigo logo adiante. Ou aquela pessoa que nos pede uma informação pode ser o início de um capítulo que ainda não ousamos imaginar. A vida é esse jogo de espelhos e ecos, onde cada som emitido em Bacabal pode retornar como uma melodia em São Paulo, e cada lágrima derramada em Brasília pode encontrar consolo numa manhã ensolarada em Fortaleza.

Estamos todos mergulhados nessa sopa de causalidades. E é justamente quando os ornamentos do dia a dia falham, quando os artifícios da nossa imagem pública são postos à prova pela crueza de um pequeno acidente ou de um grande dilema, que percebemos a engrenagem girando. Um sapato que falha, uma voz que não mente, um rastro que some, tudo faz parte de um mesmo enredo. A partir daqui, cada passo será uma descoberta de como o inesperado tem a chave de todas as portas que julgávamos trancadas. E, ao aceitarmos que cada tropeço pode ser o início de uma nova dança, estamos prontos para enfrentar qualquer avenida sob as luzes da cidade.

 

José Casanova

Professor, Jornalista, Escritor e Crônista

Membro da A cademia Bacabalense de Letras

Academia Mundial de Letras da Humanidade