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quinta-feira, 17 de setembro de 2026

CRÔNICA DO DIA: A Despedida de Junho



O fim não vem com um estrondo, como as matracas que iniciaram o ciclo, mas com o recolhimento minucioso de cada fita, de cada pena, de cada miçanga. O silêncio que se instala no barracão depois da última apresentação é denso, como se ainda sustentasse a vibração das toadas nas paredes de zinco. Há uma melancolia própria desse momento, um vazio que aperta o peito: a sensação de que o mundo, tão colorido e vibrante durante aquelas semanas, está sendo guardado em caixas de papelão e baús de madeira, como se a própria vida se despisse, por algum tempo, de seu brilho. Dona Zefa observa as bordadeiras dobrarem os veludos com o cuidado de quem embrulha relíquias e, por um instante, a tristeza da despedida paira sobre o terreiro.

As mãos, agora sem a pressão da agulha ou a urgência do tambor, parecem perdidas, como se não soubessem que outro ritmo seguir senão o do boi. O barracão, antes preenchido por risos, gritos de comando, discussões sobre o compasso e o cheiro da comida de festa, devolve agora o som dos passos de quem caminha devagar para a saída. É quando os brincantes voltam a ser pessoas comuns: o vaqueiro retoma a lida bruta do campo; a índia regressa à rotina dos estudos e do trabalho; o miolo retorna ao anonimato dos dias sem fantasia. Ainda assim, o orgulho que permanece em seus olhos é maior que a tristeza do fim. Eles sabem que não apenas cumpriram um calendário. Deram continuidade a um rito de resistência, memória e pertencimento.

Guardar o boi é quase uma liturgia. A estrutura de madeira é desmontada peça por peça, e não há quem toque na armação sem sentir gratidão pelo que ali foi vivido. O boi precisa ser desarmado para que cada brincante possa retomar a própria história. Há reverência no modo como limpam os pandeirões, passam cera nas matracas e organizam os figurinos, protegendo-os das traças e da umidade. Tudo precisa repousar. Quando o próximo ciclo despontar no horizonte — quando maio trouxer novamente o calor e as primeiras brisas secas — cada peça deverá estar pronta para devolver corpo ao sonho.

Na penumbra do galpão, Mestre Benedito permanece sozinho por alguns instantes. Percorre com os olhos o terreiro vazio, onde ainda resta um pouco da poeira levantada pelas últimas danças. É ali, na quietude, que reafirma o pacto. Não se trata de uma despedida definitiva. Algo que nasce da necessidade de expressão e da vontade de pertencer não conhece verdadeiramente o fim. A melancolia talvez seja apenas o preço de se ter vivido algo tão intenso. Mestre Benedito respira o ar ainda carregado de vestígios de incenso, poeira e madeira e sente, com uma certeza que independe de calendário, que alguma coisa foi plantada em cada um dos batalhões.

Uma das jovens índias deixa sobre a mesa uma pequena fita colorida, oferenda silenciosa ao santo que os protegeu em cada estrada percorrida. É também uma promessa para o ano seguinte. Ninguém precisa dizer nada. O pacto está feito. O barracão pode voltar a ser um espaço de silêncio, o terreiro pode voltar a ser apenas terra, mas, nas conversas à porta de casa e nos suspiros de quem recorda o brilho da arena, a história continua. Eles deixam para trás as fantasias, mas levam consigo a alma do boi, guardada nos recantos mais profundos da memória.

Quando Mestre Benedito finalmente apaga a luz do barracão e tranca o portão enferrujado, não está apenas encerrando uma temporada. Está protegendo um tesouro. Lá fora, a escuridão já tomou as ruas, mas, no caminho de casa, ele sente que a luz criada durante aquelas noites ainda permanece acesa por dentro. Junho se despede, e a energia entregue à festa permanece na memória de cada brincante, incorporada àquilo que são.

Enquanto caminha pelas ruas silenciosas da cidade, já devolvida ao ritmo dos dias comuns, Mestre Benedito sabe que o tambor pode ter parado. A promessa, não. Ela continua batendo no peito de quem dançou, bordou, tocou, cantou e carregou o boi. E bastará que o tempo complete sua volta para que as caixas sejam abertas, os veludos respirem outra vez e a primeira matraca rompa o silêncio.

Junho termina.

O boi, não.

José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista
membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade

domingo, 22 de março de 2026

CRÔNICA DO DIA: O Boi e o Som das Estrelas




O ar em Alto Alegre, no interior do Maranhão, costuma ser impregnado pelo cheiro de terra seca e fumaça de lenha, mas nas noites de junho, tudo muda. O vento traz o aroma de pipoca, mingau de milho e o perfume metálico das miçangas novas. Para o pequeno Davi, de oito anos, o mundo não chega em doses suaves; ele chega em avalanches. Cada cor é um grito, cada som é uma martelada e cada toque na pele é como o roçar de uma lixa grossa.

Ele estava sentado no último degrau da escada de casa, as mãos apertando os joelhos, enquanto o som distante das matracas começava a riscar o silêncio da noite.

— Davi, vamos ver o boi? — Perguntou o pai, aproximando-se com cuidado, mantendo uma distância segura para não invadir o espaço vital que Davi defendia com tanto vigor. — O Bumba Meu Boi de Alto Alegre é o mais bonito do mundo, filho. As estrelas descem para dançar no couro do boi.

Davi não respondeu com palavras. Ele olhou para o céu. Para ele, as estrelas não eram apenas pontos de luz; eram agulhas brilhantes que faziam um zumbido fininho, uma frequência que só ele parecia captar. O conceito de "bonito" para Davi era indissociável de "suportável".

Ele aceitou ir, mas apenas porque o pai trazia o par de abafadores de ruído azuis, o seu escudo contra o caos. Enquanto caminhavam em direção ao terreiro onde a festa acontecia, a realidade de Davi se transformava. Para as outras crianças que corriam pelas ruas de terra, o som das matracas era alegria. Para Davi, era um terremoto rítmico. Taca-taca-taca-taca. O som batia no peito dele, vibrava nos dentes e ecoava nos ossos do crânio.

Quando chegaram ao arraial, o impacto sensorial foi avassalador. As lâmpadas de gambiarra, enroladas em papéis de seda coloridos, oscilavam com o vento, criando sombras gigantescas que dançavam nas paredes de pau-a-pique. O vermelho das roupas dos caboclos de fita não era apenas vermelho; era um fogo que ardia nos olhos de Davi. O amarelo das lantejoulas era como pequenos flashes de luz de solda.

Davi pressionou os abafadores com mais força contra as orelhas. O som do mundo diminuiu, transformando-se em um murmúrio subaquático, mas a vibração permanecia. O chão de terra batida sob seus pés descalços dizia exatamente onde os batedores de pandeiro estavam. Ele sentia a batida do tambor-onça como um trovão que subia pelas pernas e se alojava no estômago.

— Olhe, Davi! O Boi! — Apontou a mãe, os olhos brilhando de devoção cultural.

O boi entrou no centro do terreiro. Era uma criatura de veludo negro, bordada com milhares de vidrilhos, canutilhos e espelhos. Na lógica de Davi, aquele boi era uma galáxia inteira. Os pequenos espelhos refletiam as luzes das gambiarras e o brilho das estrelas reais lá no alto, criando um padrão de luz que, para o menino, tinha um ritmo matemático.

Davi começou a balançar o corpo para frente e para trás, um movimento rítmico que o ajudava a não ser esmagado pela intensidade do que via. Seus olhos se fixaram em um único detalhe: uma fita azul que pendia do chifre do boi e que balançava de forma diferente das outras. Ele entrou em hiperfoco. O resto do arraial desapareceu. As pessoas, o calor humano, o cheiro de suor e pólvora dos foguetes, tudo foi filtrado. Ficou apenas ele e a física do movimento daquela fita azul.

— Ele está gostando? — Sussurrou a mãe para o marido, preocupada com o balanço contínuo do filho.

— Ele está processando. — Respondeu o pai, que já aprendera a ler os sinais silenciosos. — Olhe o olho dele. Ele está vendo coisas que a gente nem imagina.

Davi via a música. Para ele, o toque do pandeiro de fita criava ondas de cor violeta no ar. O som da matraca desenhava linhas serrilhadas e brancas. Era um espetáculo de sinestesia que tornava a festa do Bumba-Meu-Boi uma experiência mística e exaustiva.

A Síndrome de Sensibilidade Sensorial, comum em muitas pessoas no espectro autista, transforma eventos culturais em provações de coragem. Em cidades pequena como Alto Alegre do Maranhão, onde a tradição é o que une a comunidade, não participar da festa é quase um exílio. Mas participar exige que a família seja um anteparo, um tradutor de estímulos.

De repente, um batedor de matraca passou perto demais de Davi. O som seco da madeira batendo na madeira atravessou a barreira dos abafadores como um choque elétrico. Davi travou. Suas mãos subiram para o rosto e ele soltou um gemido baixo. O mundo tinha ficado barulhento demais, brilhante demais, apertado demais.

A mãe sentiu o perigo da desregulação. Ela não gritou com ele, não pediu para ele "parar com o show". Ela simplesmente o abraçou por trás, uma pressão firme e profunda que oferecia ao sistema nervoso de Davi o contorno que ele estava perdendo.

— A respiração, Davi. Um, dois, três... — ela guiava, mantendo a calma enquanto as pessoas ao redor olhavam com curiosidade ou estranhamento.

Pouco a pouco, o menino voltou. Ele não queria ir embora. Ele queria o boi, mas em suas próprias condições. Ele apontou para um canto mais escuro do arraial, longe das caixas de som e da poeira levantada pelos dançarinos. Os pais o levaram para lá.

Daquele lugar sombreado, Davi pôde observar o Bumba Meu Boi em sua totalidade. Sem a agressão direta do barulho e do movimento das massas, ele percebeu a harmonia entre o couro do animal de brinquedo e o firmamento. Para Davi, o boi de Alto Alegre era um tradutor universal: ele trazia o som das estrelas para a terra, transformando o silêncio do cosmos no batido rítmico do coração do Maranhão.

Ele estendeu a mãozinha no vazio, tentando tocar uma das lantejoulas que parecia voar no reflexo de um espelho. Ali, na lateral da festa, Davi encontrou seu lugar de direito. O respeito à neurodivergência em festas populares não significa que a criança deve ser mantida em uma redoma de vidro, mas sim que a festa deve ter espaços de respiro, zonas de baixa pressão onde a beleza possa ser apreciada sem dor.

Quando o boi se ajoelhou para o "batizado" simbólico, Davi sorriu. Foi um sorriso breve, mas que iluminou o rosto cansado dos pais. Ele havia captado a essência da festa. Ele sentira a alma do boi através da vibração do solo e da geometria das fitas.

A caminhada de volta para casa foi silenciosa. Alto Alegre parecia mais calma agora, como se o boi tivesse levado consigo toda a eletricidade da noite. Davi tirou os abafadores quando chegaram ao portão. O som dos grilos era agora um veludo para seus ouvidos.

Ao deitar na cama, o menino ainda via, sob as pálpebras fechadas, o rastro luminoso das lantejoulas. Ele entendeu que o mundo é um lugar imenso e barulhento, e que às vezes é preciso tapar as orelhas para conseguir ouvir o que as estrelas estão cantando. A cultura de seu povo não era um inimigo de seus sentidos; era apenas uma linguagem que ele falava com um sotaque diferente. No silêncio do quarto, Davi adormeceu com a certeza de que o boi voltaria no próximo ano, e que ele estaria lá, com seus protetores azuis e seu olhar de telescópio, pronto para ler novamente a escrita de luz que dança no couro da vida.

Por José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Crônica
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade







terça-feira, 30 de agosto de 2011

Podem esquentar os panderões: Bumba meu boi é Patrimônio Imaterial do Brasil


Bumba meu boi é Patrimônio Imaterial do Brasil
  O bumba meu boi do Maranhão é o mais novo Patrimônio Cultural do Brasil. O registro foi aprovado pelo Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural nesta terça-feira (30), durante reunião na sede do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), em Brasília. A reunião foi acompanhada pela governadora Roseana Sarney, no Salão de Atos do Palácio dos Leões, em São Luís, por meio de teleconferência, que contou com a participação de cantadores de boi, pesquisadores da cultura, produtores culturais, secretários de Estado e integrantes dessa festa tradicional maranhense que reúne várias manifestações culturais tendo o boi como centro do universo místico-religioso.
“Trinta de agosto é a partir de hoje o dia do Maranhão e o dia do boi do Brasil. Esse título engrandece o nosso Estado e nos dá a certeza de que nossa cultura tem se elevado aos maiores patamares. A partir desse reconhecimento a expressão maior da nossa cultura ganha força nacional com raízes definitivas em nosso solo”, ressaltou a governadora Roseana Sarney, em tom de felicidade.


Foto: De Jesus/ O EstadoDe Jesus/ O Estado

Roseana Sarney destacou, ainda, que o patrimônio do Maranhão agora passa a ser também patrimônio cultural do Brasil. “Essa é uma vitória de todos os maranhenses, principalmente dos que fazem parte dessa festa que é o bumba meu boi”. Participaram da solenidade, o vice-governador Washington Luiz Oliveira, os secretários de Estado, Luís Fernando Silva (Casa Civil), Max Barros (Infraestrutura) e Sérgio Macedo (Comunicação Social), além dos amos de boi Humberto do Maracanã, João Chiador, Francisco Naiva, Chagas da Maioba, José Carlos Lobato, José Alberto, entre outros.
A ministra da Cultura, Ana de Hollanda, presente na reunião em Brasília, foi quem anunciou o resultado da votação e disse que, como admiradora da cultura maranhense, estava muito feliz com o título dado à expressão do folclore do Estado. “Pelo que foi destacado aqui está é uma manifestação única e parabenizo pelo trabalho brilhante apresentado”, destacou a ministra.
O projeto apresentado ao conselho teve como relator Luiz Phelipe Andrés, conselheiro Integrante da Câmara Imaterial. O trabalho apresentado pela comissão maranhense foi elogiado pelo presidente do Iphan, Luiz Fernando de Almeida. O secretário de Estado de Cultura, Luis Bulcão; a superintendente do Iphan-MA, Katia Bogéa, também participaram da reunião do conselho, em Brasília.
A pesquisadora e folclorista Zelinda Lima acompanhou a votação ao lado da governadora Roseana Sarney e declarou ser esse é um momento de grande alegria para a cultura maranhense. Ela se lembrou do início da história do bumba meu boi e dos tempos em que havia discriminação aos integrantes.
O presidente da Liga Independente de Bumba Meu Boi, José Lobato, amo do Boi de Morros, disse que essa é uma grande vitória para a cultura do Estado. “A gente sabe que um povo sem cultura e sem história não existe e esse título é um reconhecimento dessa festa maranhense e que será ainda mais perpetuada para as futuras gerações”, disse.
A pesquisadora Ester Marques observou que o registro é o primeiro momento para que se possa parar e discutir os sotaques de bumba meu boi que se tem hoje. “Há uma grande discussão em todos os níveis porque tantas transformações e mudanças no bumba meu boi, mas nunca tivemos um fórum onde a gente pudesse discutir o que realmente está acontecendo. Então, o registro é o primeiro momento para a gente organizar uma comissão de salvaguarda do boi”, destacou.
A proposta foi apresentada ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) pela Comissão Interinstitucional de Trabalho no ano de 2008.
A comissão é composta pela Superintendência Regional do Iphan e atual Superintendência do Iphan no Maranhão, Secretaria de Estado de Cultura, Fundação Municipal de Cultural, Comissão Maranhense de Folclore, Grupo de Pesquisa Religião e Cultura Popular da UFMA, representantes dos Grupos de Bumba meu boi dos Sotaques da Baixada, Matraca, Zabumba, Costa de mão, Orquestra e de Bois Alternativos.
O Conselho Consultivo
O Conselho que avaliou os processos de tombamento e registro de bens do patrimônio cultural brasileiro é presidido pelo presidente do Iphan, Luiz Fernando de Almeida, e formado por especialistas de diversas áreas, como cultura, turismo, arquitetura e arqueologia. Ao todo, são 22 conselheiros de instituições como Ministério do Turismo, Instituto dos Arquitetos do Brasil, Sociedade de Arqueologia Brasileira, Ministério da Educação, Sociedade Brasileira de Antropologia e Instituto Brasileiro de Museus (Ibram) e da sociedade civil.
Agora, assim como o tambor de crioula, o bumba meu boi passa a ser reconhecido nacionalmente como uma manifestação da cultura popular maranhense que faz parte da identidade de todos os brasileiros.


Foto: Biman Prado/ O EstadoFoto: Biman Prado/ O Estado

Bumba meu boi do Maranhão
O boi, segundo o dossiê descritivo do DPI/Iphan, já era objeto de culto em diversas sociedades do mundo desde a pré-história.
Em algumas grandes festas populares do Brasil, a figura do boi é o elemento central, sendo que essas festas do boi ocorrem em todas as regiões. São brincadeiras como o bumba meu boi, boi bumbá, Boi Surubi, Boi Calemba, Boi Pintadinho, Boi Barroso, Boi Jaraguá, Boi de Canastra, Boi de Reis, Reis de Boi, entre outros.
Em relação ao bumba meu boi do Maranhão, uma das diferenças é o momento do ano em que as festas acontecem. Em geral, no Norte do país, as festas ocorrem durante o chamado Ciclo Junino, assim como o bumba meu boi do Maranhão. Já nos outros estados do Nordeste, os festejos se concentram próximo do Natal.
A festa comporta diversos estilos de brincar - chamados de sotaques - praticados por homens e mulheres, de diferentes classes sociais e que atuam profissionalmente como estivadores, pescadores, trabalhadores rurais e pequenos comerciantes.
De um modo geral, o auto do bumba-meu-boi é apresentado como a morte e a ressurreição de um boi especial.
As apresentações cômicas são feitas com grande participação do público e são entremeadas por toadas curtas contando a história sobre um boi precioso e querido pelo seu amo e pelos vaqueiros. Pai Francisco, o escravo de confiança do patrão, mata e arranca a língua do boi para satisfazer os desejos de grávida de sua esposa, Mãe Catirina. O crime de Pai Francisco é descoberto e por isso ele é perseguido pelos vaqueiros da fazenda, caboclos guerreiros e os índios.
Quando preso, são infligidos terríveis castigos e, para não morrer, Pai Francisco se vê forçado a ressuscitar o animal. É quando o doutor entra em cena para ajudar a trazer à vida o boi precioso, que, ao voltar, urra. Todos, então, cantam e dançam em comemoração. Como em muitas festas populares, o bumba meu boi também requer grande dedicação e preparo dos participantes ao longo do ano.
É necessário fabricar as vestimentas e treinar as toadas, entre outras atividades que, em geral, se concentram no fim do primeiro semestre e no início do segundo semestre. Os festejos podem ser divididos em quatro etapas: os ensaios, o batismo, as apresentações e a morte do boi.
Os ensaios começam no Sábado de Aleluia e seguem até a primeira quinzena de junho. Na véspera do Dia de São João, em 23 de junho, as rezadeiras fazem o batismo do boi que é acompanhado pelos participantes na sede dos grupos, nas Igrejas católicas ou em casas de culto afrobrasileiro. Esse é o momento de purificação do novilho, quando São João dá permissão para o boi brincar.
A partir daí começam as apresentações que se concentram no fim do mês de junho e vão até o dia de Sant’Ana, em 26 de julho.
Em São Luís, por exemplo, ocorrem em arraiais financiados pelo governo estadual e municipal, nas casas ou em arraiais de instituições. Existem dois grandes eventos que marcam a etapa de apresentações na cidade de São Luís: a alvorada na Capela de São Pedro, no bairro de Madre Deus, no dia 29 de junho, e o desfile da Avenida São Marçal, no bairro de João Paulo, no dia 30 de junho. Com o fim do ciclo festivo, os grupos começam a programar a morte do boi, um momento para encenação política, pois o tamanho da festa é diretamente proporcional ao prestígio daquele boi e do seu grupo na cidade.
A festa da morte, quando o boi retorna para São João, pode durar de dois a sete dias e envolve um elaborado ritual com ornamentos, toadas e encenação.
O universo místico-religioso e social da festa maranhenseDurante a realização do Inventário Nacional de Referência Cultural – INRC sobre o bumba meu boi do Maranhão, os técnicos do DPI/Iphan destacaram que a festa possui profundas relações com as esferas religiosas da vida através do catolicismo popular e das religiões afrobrasileiras e também se associa às expressões lúdicas.
Os participantes fazem o boi para pagar promessa ou como oferenda a entidades espirituais, por exemplo, como existem também aqueles que querem apenas fazer a sua apresentação. Desta forma, o bumba meu boi do Maranhão está presente em muitas dimensões da vida social dos participantes, tanto que existem regiões no estado onde os grupos fazem visitas às covas de cemitério para saudar os mortos, reforçando a relação que o ciclo festivo estabelece com o ciclo vital, com a vida e morte de bois e homens.
Saiba mais
Patrimônio cultural imaterial (ou patrimônio cultural intangível) é uma concepção de patrimônio cultural que abrange as expressões culturais e as tradições que um grupo de indivíduos preserva em respeito da sua ancestralidade, para as gerações futuras. São exemplos de patrimônio imaterial: os saberes, os modos de fazer, as formas de expressão, celebrações, as festas e danças populares, lendas, músicas, costumes e outras tradições.
*Com informações da Secom do Estado.