O fim não vem com um estrondo, como as matracas que iniciaram o ciclo, mas com o recolhimento minucioso de cada fita, de cada pena, de cada miçanga. O silêncio que se instala no barracão depois da última apresentação é denso, como se ainda sustentasse a vibração das toadas nas paredes de zinco. Há uma melancolia própria desse momento, um vazio que aperta o peito: a sensação de que o mundo, tão colorido e vibrante durante aquelas semanas, está sendo guardado em caixas de papelão e baús de madeira, como se a própria vida se despisse, por algum tempo, de seu brilho. Dona Zefa observa as bordadeiras dobrarem os veludos com o cuidado de quem embrulha relíquias e, por um instante, a tristeza da despedida paira sobre o terreiro.
As mãos, agora sem a pressão da agulha ou a urgência do tambor, parecem perdidas, como se não soubessem que outro ritmo seguir senão o do boi. O barracão, antes preenchido por risos, gritos de comando, discussões sobre o compasso e o cheiro da comida de festa, devolve agora o som dos passos de quem caminha devagar para a saída. É quando os brincantes voltam a ser pessoas comuns: o vaqueiro retoma a lida bruta do campo; a índia regressa à rotina dos estudos e do trabalho; o miolo retorna ao anonimato dos dias sem fantasia. Ainda assim, o orgulho que permanece em seus olhos é maior que a tristeza do fim. Eles sabem que não apenas cumpriram um calendário. Deram continuidade a um rito de resistência, memória e pertencimento.
Guardar o boi é quase uma liturgia. A estrutura de madeira é desmontada peça por peça, e não há quem toque na armação sem sentir gratidão pelo que ali foi vivido. O boi precisa ser desarmado para que cada brincante possa retomar a própria história. Há reverência no modo como limpam os pandeirões, passam cera nas matracas e organizam os figurinos, protegendo-os das traças e da umidade. Tudo precisa repousar. Quando o próximo ciclo despontar no horizonte — quando maio trouxer novamente o calor e as primeiras brisas secas — cada peça deverá estar pronta para devolver corpo ao sonho.
Na penumbra do galpão, Mestre Benedito permanece sozinho por alguns instantes. Percorre com os olhos o terreiro vazio, onde ainda resta um pouco da poeira levantada pelas últimas danças. É ali, na quietude, que reafirma o pacto. Não se trata de uma despedida definitiva. Algo que nasce da necessidade de expressão e da vontade de pertencer não conhece verdadeiramente o fim. A melancolia talvez seja apenas o preço de se ter vivido algo tão intenso. Mestre Benedito respira o ar ainda carregado de vestígios de incenso, poeira e madeira e sente, com uma certeza que independe de calendário, que alguma coisa foi plantada em cada um dos batalhões.
Uma das jovens índias deixa sobre a mesa uma pequena fita colorida, oferenda silenciosa ao santo que os protegeu em cada estrada percorrida. É também uma promessa para o ano seguinte. Ninguém precisa dizer nada. O pacto está feito. O barracão pode voltar a ser um espaço de silêncio, o terreiro pode voltar a ser apenas terra, mas, nas conversas à porta de casa e nos suspiros de quem recorda o brilho da arena, a história continua. Eles deixam para trás as fantasias, mas levam consigo a alma do boi, guardada nos recantos mais profundos da memória.
Quando Mestre Benedito finalmente apaga a luz do barracão e tranca o portão enferrujado, não está apenas encerrando uma temporada. Está protegendo um tesouro. Lá fora, a escuridão já tomou as ruas, mas, no caminho de casa, ele sente que a luz criada durante aquelas noites ainda permanece acesa por dentro. Junho se despede, e a energia entregue à festa permanece na memória de cada brincante, incorporada àquilo que são.
Enquanto caminha pelas ruas silenciosas da cidade, já devolvida ao ritmo dos dias comuns, Mestre Benedito sabe que o tambor pode ter parado. A promessa, não. Ela continua batendo no peito de quem dançou, bordou, tocou, cantou e carregou o boi. E bastará que o tempo complete sua volta para que as caixas sejam abertas, os veludos respirem outra vez e a primeira matraca rompa o silêncio.
Junho termina.
O boi, não.
José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista
membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade






0 comments:
Postar um comentário