Dizem que, às margens do
Ipiranga, Dom Pedro puxou a espada e resolveu o problema com uma frase que
cabia inteira num quadro de escola: “Independência ou Morte!”. A História gosta
dessas cenas arrumadinhas. Um cavalo bonito, o príncipe no centro, meia dúzia
de homens levantando chapéu e pronto: nasceu um país. Na vida real
provavelmente havia poeira, cansaço, roupa suada, cavalo menos fotogênico e
gente sem entender direito o tamanho daquilo.
Mais de duzentos anos depois, o
Brasil continua discutindo sua independência. Só mudou o cenário. Não tem
riacho do Ipiranga. Tem Brasília. Não tem espada. Tem celular apreendido. E, em
vez de “Independência ou Morte”, talvez o grito mais apropriado para estes
tempos fosse outro:
Independência ou Master!
O Banco Master era pequeno quando
comparado ao tamanho do sistema financeiro brasileiro. O próprio Banco Central
informou que o conglomerado representava 0,57% dos ativos do Sistema Financeiro
Nacional quando decretou sua liquidação, em novembro de 2025, apontando grave
crise de liquidez, comprometimento econômico-financeiro e graves violações às
normas do setor. Pequeno no tamanho. Enorme na sombra que deixou.
No primeiro semestre de 2026, o
Fundo Garantidor de Créditos já havia desembolsado R$ 40,2 bilhões para 722 mil
clientes ligados ao conglomerado Master. É dinheiro demais para tratar o
episódio como uma simples história de um banco que fez negócios ruins.
E aí entra Daniel Vorcaro.
Vorcaro talvez venha a ser
lembrado menos como banqueiro e mais como uma espécie de personagem que
descobriu que, em Brasília, uma boa agenda de contatos pode valer quase tanto
quanto um bom balanço. Seu celular virou uma espécie de mapa informal da
República.
Ali aparecem políticos,
ministros, empresários, advogados, intermediários, viagens, reuniões,
mensagens, favores discutidos, contratos e aproximações que atravessam direita,
esquerda e centro com uma desenvoltura que faria qualquer ideólogo ficar
constrangido.
O Master conseguiu uma façanha
tipicamente brasileira: unir adversários.
Não necessariamente no crime é
importante dizer isso. Mas na fotografia desconfortável das relações de poder.
Alexandre de Moraes, por exemplo,
passou a ocupar o centro de uma crise dentro do próprio Supremo depois da
divulgação de mensagens e informações sobre sua relação com Vorcaro.
Reportagens apontaram pelo menos seis encontros entre os dois, sendo que os
primeiros teriam sido articulados pelo ex-ministro Fábio Faria. Também veio à
tona o contrato milionário do Banco Master com o escritório de advocacia de
Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro. O escritório sustenta que os
serviços foram efetivamente prestados, e Moraes afirma que jamais julgou causa
envolvendo o banco.
É exatamente aí que começa o
problema brasileiro. Nem tudo que é legal parece normal.
E nem tudo que parece estranho é
crime. Só que instituições públicas não vivem apenas da legalidade. Vivem
também de confiança.
Dias Toffoli conhece bem esse
desconforto. Foi o primeiro relator do caso Master no Supremo e deixou a
condução do processo em fevereiro. Questionamentos surgiram em torno de
negócios envolvendo empresa de sua família e fundos relacionados ao universo do
Master. Toffoli afirmou que não conhecia os gestores do fundo e negou amizade
ou recebimento de dinheiro de Vorcaro. Depois de sua saída, o processo foi para
André Mendonça.
E então a novela ganhou outro
capítulo.
Mendonça abriu documentos,
manteve outros sob sigilo, entrou em choque com colegas de Supremo e com a
Polícia Federal e chegou a determinar o afastamento de Andrei Rodrigues da
direção-geral da PF, decisão que acabou entrando no centro de outra batalha
institucional. Mendonça sustentou que determinados sigilos eram necessários
para preservar investigações; outros ministros passaram a cobrar acesso mais
amplo ao conteúdo apreendido.
Andrei Rodrigues, por sua vez,
teve o nome citado em mensagens relacionadas ao caso e foi tragado pela guerra
entre gabinetes. Até aqui, a simples menção de seu nome em mensagens de
terceiros não demonstra, por si só, participação irregular. E essa diferença
precisa ser lembrada, principalmente quando o noticiário corre mais rápido que
os processos.
Mas a história não termina no
Supremo. Longe disso.
Ciro Nogueira aparece num dos
capítulos politicamente mais delicados. A Polícia Federal passou a investigar
uma proposta apresentada pelo senador que ampliaria a cobertura do Fundo
Garantidor de Créditos. Segundo a investigação, o texto teria sido produzido
pelo próprio Banco Master e encaminhado a Ciro, que o apresentou. Mensagens
atribuídas a Vorcaro demonstram entusiasmo com a iniciativa. Ciro nega ter
praticado conduta inadequada relacionada ao banco.
Antônio Rueda, presidente do
União Brasil, também entrou no enredo. Documentos enviados pela Receita à CPI
apontaram pagamentos do Master a escritórios ligados a ele. Rueda afirmou ter
prestado serviços advocatícios legítimos ao banco. Seu nome também aparece ao
lado de Ciro em episódios envolvendo deslocamentos de helicóptero ligados a
Vorcaro.
Ibaneis Rocha aparece por outra
porta.
O BRB, banco controlado pelo
governo do Distrito Federal, tentou comprar parte relevante do Master. Vorcaro
declarou à Polícia Federal ter conversado mais de uma vez com Ibaneis sobre a
operação. Isso não significa, automaticamente, que o governador tenha cometido
irregularidade. Significa, porém, que a discussão sobre o Master deixou de ser
apenas bancária há muito tempo. Virou política de Estado, negócio público e problema
institucional.
Fábio Faria, ex-ministro de Jair
Bolsonaro, surge como personagem de bastidor, apontado em mensagens como
articulador dos primeiros contatos entre Vorcaro e Alexandre de Moraes. De
novo: apresentar duas pessoas não é crime. Mas, quando as duas pessoas são um
banqueiro que depois protagonizaria um escândalo financeiro e um ministro do
Supremo, aquilo que parecia apenas networking passa a ser examinado com uma
lupa bem maior.
O bolsonarismo, claro não passou
ileso.
Flávio Bolsonaro entrou formalmente
no radar de uma investigação relacionada ao financiamento do filme Dark
Horse, sobre seu pai, Jair Bolsonaro. A apuração conduzida no contexto do
caso Master investiga suspeitas envolvendo a origem e a circulação desses
recursos. Flávio nega irregularidade e afirma estar tranquilo com a abertura
das informações.
Perceba a beleza quase perversa
da coisa. Tem ministro indicado por governo de esquerda. Tem ministro indicado
por Bolsonaro. Tem dirigente do Centrão. Tem bolsonarista. Tem empresário. Tem
governador. Tem ex-ministro. Tem chefe da Polícia Federal. Tem senador. Se
alguém ainda estiver procurando uma ideologia para o escândalo, talvez esteja
procurando no lugar errado.
O idioma mais falado nesses
ambientes nem sempre é esquerda ou direita.Às vezes é acesso. Acesso ao
gabinete. Acesso ao telefone. Acesso ao jantar. Acesso ao jatinho. Acesso a
quem decide.
E talvez seja justamente aí que
nossa velha Independência de 1822 encontre a Independência de 2026. Dom Pedro
queria romper a dependência de Portugal. O brasileiro de hoje precisa perguntar
se o Estado consegue romper sua dependência das relações pessoais que rondam o
poder. Porque independência institucional não significa ministro sem amigos,
senador sem empresário conhecido ou governador proibido de conversar com
banqueiro. Isso seria infantilidade.
Independência é outra coisa. É
conseguir dizer “não” ao amigo quando o interesse público exige. É investigar
aliado e adversário com a mesma disposição. É não transformar telefone pessoal
em atalho para instituição pública. É não confundir advocacia com influência,
influência com amizade, amizade com favor e favor com política de Estado.
Principalmente: independência é
fazer tudo isso sem escolher previamente quem será culpado e quem será
inocentado. O Brasil já sofreu demais com investigações que começaram pela
conclusão.
O caso Master precisa terminar em
provas, processos, defesa e julgamento, não em torcida organizada. Talvez essa seja a
parte mais incômoda. Vorcaro pode acabar sendo apenas o personagem que abriu
uma janela. E o que apareceu pela janela é maior do que ele.
Apareceu um Brasil em que poder
político, sistema financeiro, advocacia, Judiciário e relações privadas
circulam muitas vezes pelos mesmos salões. Gente que discursa como inimJiga
durante o dia pode acabar dividindo os mesmos interlocutores à noite.
Enquanto isso, do lado de fora
desse mundo, existe o brasileiro comum. Esse não pega jatinho. Pega fila. Não
manda mensagem para ministro. Manda protocolo. Não conhece presidente de
partido. Conhece o gerente do banco, quando consegue falar com ele. Se a
aplicação quebra, ele descobre o significado de FGC. Se o salário não chega ao
fim do mês, ninguém marca jantar em Brasília para resolver.
É por isso que o caso Master
interessa tanto. Não é apenas sobre Daniel Vorcaro. Nem sobre Alexandre de
Moraes, Dias Toffoli, André Mendonça, Andrei Rodrigues, Flávio Bolsonaro, Ciro
Nogueira, Antônio Rueda, Ibaneis Rocha ou Fábio Faria isoladamente.
É sobre a distância entre quem
precisa bater na porta do Estado e quem aparentemente já tem o número do
celular.
Em 1822, a pergunta era se
continuaríamos dependentes de Portugal. Em 2026, a pergunta ficou mais
complicada:
De quem a República precisa
declarar independência?
Do dinheiro?
Dos amigos?
Dos partidos?
Dos banqueiros?
Dos próprios ministros?
Do Trump?
Talvez de todos, quando
necessário. Porque uma República que só consegue ser independente de seus
adversários não é independente. É apenas partidária. E uma Justiça que pesa a
mão conforme o nome do investigado deixa de carregar uma balança para carregar
uma bandeira.
Por isso, diante de tanta
mensagem, contrato, reunião, investigação, helicóptero, gabinete e bilhão
circulando por aí, talvez o Brasil esteja novamente diante do seu Ipiranga. Só
falta decidir qual será o grito.
Independência ou Master? Ou Indepedência
ou morte!
Eu ainda fico com a primeira. Mas
independência de verdade. Inclusive dos nossos amigos.







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