sábado, 12 de setembro de 2026

CRÔNICA DO DIA: Indepedência ou Master!!!!

Dizem que, às margens do Ipiranga, Dom Pedro puxou a espada e resolveu o problema com uma frase que cabia inteira num quadro de escola: “Independência ou Morte!”. A História gosta dessas cenas arrumadinhas. Um cavalo bonito, o príncipe no centro, meia dúzia de homens levantando chapéu e pronto: nasceu um país. Na vida real provavelmente havia poeira, cansaço, roupa suada, cavalo menos fotogênico e gente sem entender direito o tamanho daquilo.

Mais de duzentos anos depois, o Brasil continua discutindo sua independência. Só mudou o cenário. Não tem riacho do Ipiranga. Tem Brasília. Não tem espada. Tem celular apreendido. E, em vez de “Independência ou Morte”, talvez o grito mais apropriado para estes tempos fosse outro:

Independência ou Master!

O Banco Master era pequeno quando comparado ao tamanho do sistema financeiro brasileiro. O próprio Banco Central informou que o conglomerado representava 0,57% dos ativos do Sistema Financeiro Nacional quando decretou sua liquidação, em novembro de 2025, apontando grave crise de liquidez, comprometimento econômico-financeiro e graves violações às normas do setor. Pequeno no tamanho. Enorme na sombra que deixou.

No primeiro semestre de 2026, o Fundo Garantidor de Créditos já havia desembolsado R$ 40,2 bilhões para 722 mil clientes ligados ao conglomerado Master. É dinheiro demais para tratar o episódio como uma simples história de um banco que fez negócios ruins.

E aí entra Daniel Vorcaro.

Vorcaro talvez venha a ser lembrado menos como banqueiro e mais como uma espécie de personagem que descobriu que, em Brasília, uma boa agenda de contatos pode valer quase tanto quanto um bom balanço. Seu celular virou uma espécie de mapa informal da República.

Ali aparecem políticos, ministros, empresários, advogados, intermediários, viagens, reuniões, mensagens, favores discutidos, contratos e aproximações que atravessam direita, esquerda e centro com uma desenvoltura que faria qualquer ideólogo ficar constrangido.

O Master conseguiu uma façanha tipicamente brasileira: unir adversários.

Não necessariamente no crime é importante dizer isso. Mas na fotografia desconfortável das relações de poder.

Alexandre de Moraes, por exemplo, passou a ocupar o centro de uma crise dentro do próprio Supremo depois da divulgação de mensagens e informações sobre sua relação com Vorcaro. Reportagens apontaram pelo menos seis encontros entre os dois, sendo que os primeiros teriam sido articulados pelo ex-ministro Fábio Faria. Também veio à tona o contrato milionário do Banco Master com o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro. O escritório sustenta que os serviços foram efetivamente prestados, e Moraes afirma que jamais julgou causa envolvendo o banco.

É exatamente aí que começa o problema brasileiro. Nem tudo que é legal parece normal.

E nem tudo que parece estranho é crime. Só que instituições públicas não vivem apenas da legalidade. Vivem também de confiança.

Dias Toffoli conhece bem esse desconforto. Foi o primeiro relator do caso Master no Supremo e deixou a condução do processo em fevereiro. Questionamentos surgiram em torno de negócios envolvendo empresa de sua família e fundos relacionados ao universo do Master. Toffoli afirmou que não conhecia os gestores do fundo e negou amizade ou recebimento de dinheiro de Vorcaro. Depois de sua saída, o processo foi para André Mendonça.

E então a novela ganhou outro capítulo.

Mendonça abriu documentos, manteve outros sob sigilo, entrou em choque com colegas de Supremo e com a Polícia Federal e chegou a determinar o afastamento de Andrei Rodrigues da direção-geral da PF, decisão que acabou entrando no centro de outra batalha institucional. Mendonça sustentou que determinados sigilos eram necessários para preservar investigações; outros ministros passaram a cobrar acesso mais amplo ao conteúdo apreendido.

Andrei Rodrigues, por sua vez, teve o nome citado em mensagens relacionadas ao caso e foi tragado pela guerra entre gabinetes. Até aqui, a simples menção de seu nome em mensagens de terceiros não demonstra, por si só, participação irregular. E essa diferença precisa ser lembrada, principalmente quando o noticiário corre mais rápido que os processos.

Mas a história não termina no Supremo. Longe disso.

Ciro Nogueira aparece num dos capítulos politicamente mais delicados. A Polícia Federal passou a investigar uma proposta apresentada pelo senador que ampliaria a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos. Segundo a investigação, o texto teria sido produzido pelo próprio Banco Master e encaminhado a Ciro, que o apresentou. Mensagens atribuídas a Vorcaro demonstram entusiasmo com a iniciativa. Ciro nega ter praticado conduta inadequada relacionada ao banco.

Antônio Rueda, presidente do União Brasil, também entrou no enredo. Documentos enviados pela Receita à CPI apontaram pagamentos do Master a escritórios ligados a ele. Rueda afirmou ter prestado serviços advocatícios legítimos ao banco. Seu nome também aparece ao lado de Ciro em episódios envolvendo deslocamentos de helicóptero ligados a Vorcaro.

Ibaneis Rocha aparece por outra porta.

O BRB, banco controlado pelo governo do Distrito Federal, tentou comprar parte relevante do Master. Vorcaro declarou à Polícia Federal ter conversado mais de uma vez com Ibaneis sobre a operação. Isso não significa, automaticamente, que o governador tenha cometido irregularidade. Significa, porém, que a discussão sobre o Master deixou de ser apenas bancária há muito tempo. Virou política de Estado, negócio público e problema institucional.

Fábio Faria, ex-ministro de Jair Bolsonaro, surge como personagem de bastidor, apontado em mensagens como articulador dos primeiros contatos entre Vorcaro e Alexandre de Moraes. De novo: apresentar duas pessoas não é crime. Mas, quando as duas pessoas são um banqueiro que depois protagonizaria um escândalo financeiro e um ministro do Supremo, aquilo que parecia apenas networking passa a ser examinado com uma lupa bem maior.

O bolsonarismo, claro não passou ileso.

Flávio Bolsonaro entrou formalmente no radar de uma investigação relacionada ao financiamento do filme Dark Horse, sobre seu pai, Jair Bolsonaro. A apuração conduzida no contexto do caso Master investiga suspeitas envolvendo a origem e a circulação desses recursos. Flávio nega irregularidade e afirma estar tranquilo com a abertura das informações.

Perceba a beleza quase perversa da coisa. Tem ministro indicado por governo de esquerda. Tem ministro indicado por Bolsonaro. Tem dirigente do Centrão. Tem bolsonarista. Tem empresário. Tem governador. Tem ex-ministro. Tem chefe da Polícia Federal. Tem senador. Se alguém ainda estiver procurando uma ideologia para o escândalo, talvez esteja procurando no lugar errado.

O idioma mais falado nesses ambientes nem sempre é esquerda ou direita.Às vezes é acesso. Acesso ao gabinete. Acesso ao telefone. Acesso ao jantar. Acesso ao jatinho. Acesso a quem decide.

E talvez seja justamente aí que nossa velha Independência de 1822 encontre a Independência de 2026. Dom Pedro queria romper a dependência de Portugal. O brasileiro de hoje precisa perguntar se o Estado consegue romper sua dependência das relações pessoais que rondam o poder. Porque independência institucional não significa ministro sem amigos, senador sem empresário conhecido ou governador proibido de conversar com banqueiro. Isso seria infantilidade.

Independência é outra coisa. É conseguir dizer “não” ao amigo quando o interesse público exige. É investigar aliado e adversário com a mesma disposição. É não transformar telefone pessoal em atalho para instituição pública. É não confundir advocacia com influência, influência com amizade, amizade com favor e favor com política de Estado.

Principalmente: independência é fazer tudo isso sem escolher previamente quem será culpado e quem será inocentado. O Brasil já sofreu demais com investigações que começaram pela conclusão.

O caso Master precisa terminar em provas, processos, defesa e julgamento,  não em torcida organizada. Talvez essa seja a parte mais incômoda. Vorcaro pode acabar sendo apenas o personagem que abriu uma janela. E o que apareceu pela janela é maior do que ele.

Apareceu um Brasil em que poder político, sistema financeiro, advocacia, Judiciário e relações privadas circulam muitas vezes pelos mesmos salões. Gente que discursa como inimJiga durante o dia pode acabar dividindo os mesmos interlocutores à noite.

Enquanto isso, do lado de fora desse mundo, existe o brasileiro comum. Esse não pega jatinho. Pega fila. Não manda mensagem para ministro. Manda protocolo. Não conhece presidente de partido. Conhece o gerente do banco, quando consegue falar com ele. Se a aplicação quebra, ele descobre o significado de FGC. Se o salário não chega ao fim do mês, ninguém marca jantar em Brasília para resolver.

É por isso que o caso Master interessa tanto. Não é apenas sobre Daniel Vorcaro. Nem sobre Alexandre de Moraes, Dias Toffoli, André Mendonça, Andrei Rodrigues, Flávio Bolsonaro, Ciro Nogueira, Antônio Rueda, Ibaneis Rocha ou Fábio Faria isoladamente.

É sobre a distância entre quem precisa bater na porta do Estado e quem aparentemente já tem o número do celular.

Em 1822, a pergunta era se continuaríamos dependentes de Portugal. Em 2026, a pergunta ficou mais complicada:

De quem a República precisa declarar independência?

Do dinheiro?

Dos amigos?

Dos partidos?

Dos banqueiros?

Dos próprios ministros?

Do Trump?

Talvez de todos, quando necessário. Porque uma República que só consegue ser independente de seus adversários não é independente. É apenas partidária. E uma Justiça que pesa a mão conforme o nome do investigado deixa de carregar uma balança para carregar uma bandeira.

Por isso, diante de tanta mensagem, contrato, reunião, investigação, helicóptero, gabinete e bilhão circulando por aí, talvez o Brasil esteja novamente diante do seu Ipiranga. Só falta decidir qual será o grito.

Independência ou Master? Ou Indepedência ou morte!

Eu ainda fico com a primeira. Mas independência de verdade. Inclusive dos nossos amigos.

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