sábado, 29 de agosto de 2026

CRÔNICA DO DIA: O Espelho Adormecido

O relógio na parede da sala em Bacabal marcava três da tarde, mas o tempo girava num compasso próprio, ditado apenas pelas necessidades da pequena Alice. Ela estava acomodada na cadeira adaptada, os músculos do pescoço num repouso inquieto, os olhos, grandes e profundos, fixos em algo que apenas ela parecia alcançar. Ana Célia, sua mãe, estava sentada no chão, exausta, segurando a mão de Alice, cujos dedos se mantinham cerrados numa tensão constante de anos. Por um breve instante, o silêncio da casa foi interrompido apenas pelo zumbido da geladeira, e Ana Célia desviou o olhar para o espelho posicionado na entrada, um acessório que ela ignorava há tanto tempo que chegara a se tornar um borrão na decoração.

O espelho refletia uma mulher que ela já não reconhecia de imediato: o cabelo preso com um grampo que esquecera ali, as olheiras fundas que carregavam o mapa de noites mal dormidas e, sobretudo, um olhar que parecia ter esquecido como brilhar por si mesmo. Ana Célia era, para quase todos em Bacabal, a "mãe da Alice". Sua identidade havia sido absorvida pela condição da filha. A dedicação integral, que a levaria a ser admirada pela vizinhança como "um exemplo de sacrifício", era, na verdade, um manto que a cobria inteira, ocultando o ser humano embaixo das camadas de terapias, cuidados, fisioterapias e planos de saúde.

— Você está cansada, não está? — Ana Célia perguntou, acariciando o braço da filha. Sabia que Alice não podia responder com palavras, mas sentia na respiração dela a mudança de ritmo que indicava reconhecimento.

Como se tivesse compreendido o carinho da mãe, Alice moveu lentamente os olhos em sua direção. Os dedos, que durante anos permaneceram quase sempre rígidos, afrouxaram por um instante e envolveram, ainda que de maneira delicada, a mão de Ana Célia. Um som baixo, quase um suspiro transformado em vogal, escapou de seus lábios.

Ana Célia sorriu sem perceber. Para qualquer pessoa, aqueles gestos talvez passassem despercebidos. Para ela, eram frases inteiras. Naquele breve aperto de mão havia reconhecimento; naquele olhar demorado, companhia; naquela respiração mais tranquila, uma forma de dizer que também estava ali, compartilhando o silêncio.

Durante muito tempo, Ana Célia acreditou que se separar da identidade de "mãe cuidadora" seria um ato de traição. Se ela parasse para tomar um café lendo um livro que nada tivesse a ver com deficiência, se ela voltasse a insistir nas pinturas que guardara no fundo do guarda-roupa, estaria sendo negligente. A sociedade, com sua cobrança silenciosa e cruel, reforçava essa armadilha: a mãe deveria ser uma extensão do cuidado, uma santa sem desejos, sem vontades, sem corpo além daquilo que servia para sustentar o corpo do outro.

Ela se aproximou do espelho. O vidro, antes considerado uma testemunha silenciosa do seu esgotamento, passou a ser um desafio. Começou a observar as linhas que se formavam ao redor de sua boca. Eram marcas de preocupação, sim, mas também eram marcas de resiliência. E, por trás daquelas linhas, ela viu o brilho de uma pessoa que ainda existia. Ana Célia lembrou-se do tempo em que amava o pôr do sol no rio Mearim, da época em que sonhava em viajar para ver o mar.

A deficiência de Alice era uma realidade imutável, um dado biológico, mas a sua própria vida não precisava ser um apêndice daquela condição.

Naquela mesma noite, após o banho de Alice e o sucesso de colocá-la para dormir em um sono sereno, Ana Célia não foi para a sala de televisão. Ela foi até o quarto onde guardava suas tintas, secas pela falta de uso. Abriu o conjunto, o cheiro de óleo e solvente ainda guardando a promessa de algo antigo. Ela não pretendia virar uma grande artista, nem ganhar o mundo, mas precisava provar a si mesma que suas mãos, que passavam o dia inteiro apenas realizando movimentos mecânicos de suporte, também podiam criar.

Começou a desenhar, não o rosto de Alice, mas algo abstrato, formas que lembravam o movimento da água, cores que ela sentia falta de ver. O primeiro traço foi trêmulo, uma hesitação entre o medo e a vontade, mas quando a cor ocupou o papel, Ana Célia sentiu um arrepio. Aquele era o seu eu, adormecido atrás da figura da cuidadora, acordando finalmente de um letargo.

Enquanto misturava um tom de cinza que lhe lembrava as águas do Mearim ao entardecer, Ana Célia ouviu um pequeno ruído vindo do quarto. O pincel caiu sobre a mesa.

Num reflexo construído por anos de vigilância, levantou-se imediatamente e correu pelo corredor, o coração acelerado antes mesmo de qualquer pensamento. Empurrou a porta devagar.

Alice continuava dormindo. A respiração era tranquila, o rosto permanecia sereno, e apenas um leve movimento dos dedos denunciava a vida pulsando naquele silêncio. Ana Célia respirou aliviada.

Ao voltar para o ateliê improvisado, estendeu a mão para fechar a porta e percebeu uma pequena mancha azul na maçaneta. Ficou olhando aquele traço de tinta por alguns segundos. Durante anos, todas as marcas espalhadas pela casa haviam sido remédios, horários, equipamentos, receitas e anotações de consultas. Percebeu que  havia ali uma marca que não pertencia à rotina do cuidado. Era dela.

Sem dizer palavra, voltou para a tela. A pequena mancha azul permaneceu na maçaneta, discreta como uma assinatura. Não era apenas tinta. Era a identidade que, depois de tanto tempo adormecida, começava finalmente a deixar suas próprias cores pela casa.


José Casanova 
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista 
Membro da Academia Bacabalense de Letras 
Academia Mundial de Letras da Humanidade 

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