O relógio na parede da sala em Bacabal marcava três da
tarde, mas o tempo girava num compasso próprio, ditado apenas pelas
necessidades da pequena Alice. Ela estava acomodada na cadeira adaptada, os
músculos do pescoço num repouso inquieto, os olhos, grandes e profundos, fixos
em algo que apenas ela parecia alcançar. Ana Célia, sua mãe, estava sentada no
chão, exausta, segurando a mão de Alice, cujos dedos se mantinham cerrados numa
tensão constante de anos. Por um breve instante, o silêncio da casa foi
interrompido apenas pelo zumbido da geladeira, e Ana Célia desviou o olhar para
o espelho posicionado na entrada, um acessório que ela ignorava há tanto tempo
que chegara a se tornar um borrão na decoração.
O espelho refletia uma mulher que ela já não reconhecia de
imediato: o cabelo preso com um grampo que esquecera ali, as olheiras fundas
que carregavam o mapa de noites mal dormidas e, sobretudo, um olhar que parecia
ter esquecido como brilhar por si mesmo. Ana Célia era, para quase todos em
Bacabal, a "mãe da Alice". Sua identidade havia sido absorvida pela
condição da filha. A dedicação integral, que a levaria a ser admirada pela
vizinhança como "um exemplo de sacrifício", era, na verdade, um manto
que a cobria inteira, ocultando o ser humano embaixo das camadas de terapias,
cuidados, fisioterapias e planos de saúde.
— Você está cansada, não está? — Ana Célia perguntou,
acariciando o braço da filha. Sabia que Alice não podia responder com palavras,
mas sentia na respiração dela a mudança de ritmo que indicava reconhecimento.
Como se tivesse compreendido o
carinho da mãe, Alice moveu lentamente os olhos em sua direção. Os dedos, que
durante anos permaneceram quase sempre rígidos, afrouxaram por um instante e
envolveram, ainda que de maneira delicada, a mão de Ana Célia. Um som baixo,
quase um suspiro transformado em vogal, escapou de seus lábios.
Ana Célia sorriu sem perceber. Para qualquer
pessoa, aqueles gestos talvez passassem despercebidos. Para ela, eram frases
inteiras. Naquele breve aperto de mão havia reconhecimento; naquele olhar
demorado, companhia; naquela respiração mais tranquila, uma forma de dizer que
também estava ali, compartilhando o silêncio.
Durante muito tempo, Ana Célia acreditou que se separar da
identidade de "mãe cuidadora" seria um ato de traição. Se ela parasse
para tomar um café lendo um livro que nada tivesse a ver com deficiência, se
ela voltasse a insistir nas pinturas que guardara no fundo do guarda-roupa,
estaria sendo negligente. A sociedade, com sua cobrança silenciosa e cruel,
reforçava essa armadilha: a mãe deveria ser uma extensão do cuidado, uma santa sem
desejos, sem vontades, sem corpo além daquilo que servia para sustentar o corpo
do outro.
Ela se aproximou do espelho. O vidro, antes considerado uma
testemunha silenciosa do seu esgotamento, passou a ser um desafio. Começou a observar
as linhas que se formavam ao redor de sua boca. Eram marcas de preocupação,
sim, mas também eram marcas de resiliência. E, por trás daquelas linhas, ela
viu o brilho de uma pessoa que ainda existia. Ana Célia lembrou-se do tempo em
que amava o pôr do sol no rio Mearim, da época em que sonhava em viajar para
ver o mar.
A deficiência de Alice era uma realidade imutável, um dado biológico,
mas a sua própria vida não precisava ser um apêndice daquela condição.
Naquela mesma noite, após o banho de Alice e o sucesso de
colocá-la para dormir em um sono sereno, Ana Célia não foi para a sala de
televisão. Ela foi até o quarto onde guardava suas tintas, secas pela falta de
uso. Abriu o conjunto, o cheiro de óleo e solvente ainda guardando a promessa
de algo antigo. Ela não pretendia virar uma grande artista, nem ganhar o mundo,
mas precisava provar a si mesma que suas mãos, que passavam o dia inteiro apenas
realizando movimentos mecânicos de suporte, também podiam criar.
Começou a desenhar, não o rosto de Alice, mas algo abstrato,
formas que lembravam o movimento da água, cores que ela sentia falta de ver. O
primeiro traço foi trêmulo, uma hesitação entre o medo e a vontade, mas quando
a cor ocupou o papel, Ana Célia sentiu um arrepio. Aquele era o seu eu,
adormecido atrás da figura da cuidadora, acordando finalmente de um letargo.
Enquanto misturava um tom de cinza
que lhe lembrava as águas do Mearim ao entardecer, Ana Célia ouviu um pequeno
ruído vindo do quarto. O pincel caiu sobre a mesa.
Num reflexo construído por anos
de vigilância, levantou-se imediatamente e correu pelo corredor, o coração
acelerado antes mesmo de qualquer pensamento. Empurrou a porta devagar.
Alice continuava dormindo. A
respiração era tranquila, o rosto permanecia sereno, e apenas um leve movimento
dos dedos denunciava a vida pulsando naquele silêncio. Ana Célia respirou
aliviada.
Ao voltar para o ateliê
improvisado, estendeu a mão para fechar a porta e percebeu uma pequena mancha
azul na maçaneta. Ficou olhando aquele traço de tinta por alguns segundos. Durante
anos, todas as marcas espalhadas pela casa haviam sido remédios, horários,
equipamentos, receitas e anotações de consultas. Percebeu que havia ali uma marca que não pertencia à rotina
do cuidado. Era dela.
Sem dizer palavra, voltou para a
tela. A pequena mancha azul permaneceu na maçaneta, discreta como uma
assinatura. Não era apenas tinta. Era a identidade que, depois de tanto tempo
adormecida, começava finalmente a deixar suas próprias cores pela casa.
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade







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