sábado, 8 de agosto de 2026

CRÔNICA DO DIA: O Dinheiro da Mãe


Rose Duarte tinha quarenta e poucos anos, uma idade em que algumas mulheres ainda discutiam viagens, festas, novos amores e planos para o futuro. Ela discutia fraldas geriátricas, horários de medicação, curativos e a quantidade de água que deveria passar pela sonda da mãe.

    Na casa pequena, o relógio parecia ter desistido de marcar as horas.

    A mãe, aos noventa e quatro anos, permanecia acamada. O corpo já não obedecia aos comandos que um dia haviam permitido que ela caminhasse pela casa, cozinhasse, cuidasse dos filhos e reclamasse da conta de luz. Agora, quase imóvel, dependia de outras mãos para tudo.

    Mas havia apenas duas mãos disponíveis. As de Rose. Ela acordava antes de a casa clarear. Conferia a sonda, ajeitava o lençol, verificava as escaras, preparava a alimentação e anotava em um caderno os horários dos medicamentos.

    O caderno tinha páginas cheias de números.

    8h.

    10h.

    12h.

    14h.

    16h.

    18h.

    Às vezes, entre um horário e outro, Rose conseguia tomar café. Quando conseguia.

    As outras mãos pertenciam aos irmãos. Muitas mãos, na verdade.

    Filhos e filhas espalhados pela cidade, cada um com uma justificativa diferente, uma obrigação urgente, um trabalho, uma família, uma conta, uma viagem.

    Todos amavam a mãe. Pelo menos diziam que sim. O problema era que o amor, naquela família, parecia funcionar melhor pelo telefone.

    — Como ela está hoje? — Perguntava uma das irmãs.

    Rose olhava para a mãe.

    — Igual.

    — Ela comeu?

    — Pela sonda.

    — E as escaras?

    Rose respirava fundo.

    — Ainda estão sendo tratadas.

    Do outro lado da ligação, vinha um silêncio curto.

    — Qualquer coisa, me avisa.

    Rose quase respondia que qualquer coisa já tinha acontecido havia meses. Mas engolia a frase. Aprendera que algumas respostas produzem mais briga do que ajuda.

    A única que às vezes perguntava outra coisa era a caçula, Luíza. Não "como ela está", mas "e você, já comeu?". A pergunta nunca vinha acompanhada de solução nenhuma, Luíza morava longe, tinha dois filhos pequenos, mas era diferente das outras. Rose guardava isso sem comentar.

    Até que um dia a briga veio sem ser convidada. Era uma tarde abafada. Rose terminava de trocar o curativo da mãe quando o telefone tocou.

    — Rose, preciso falar com você.

    Ela reconheceu a voz da irmã.

    — Pode falar.

    — Você precisa prestar contas do dinheiro da mamãe.

    Rose ficou imóvel. Olhou para a cama. A mãe permanecia de olhos fechados.

    — Que dinheiro?

    — O dinheiro dela, Rose.

    — Eu compro as coisas dela com o dinheiro dela.

    — É isso que você diz.

    Rose segurou o telefone com mais força.

    — O que você está querendo dizer?

    A irmã demorou alguns segundos.

    — Tem gente comentando que você fica com o dinheiro da mamãe.

    Rose sentiu o rosto esquentar.

    — Gente?

— Você sabe como são as coisas.

    — Não. Eu não sei. Me diga quem está dizendo.

    — Não importa quem disse.

    — Importa para mim.

    A irmã mudou o tom.

    — Rose, ninguém está acusando você de nada. A gente só quer transparência.

    Rose olhou para a cômoda. Em cima dela havia uma pasta. Dentro, recibos de medicamentos, notas de farmácia, pagamentos de consultas, fraldas, produtos para curativos e outras despesas.

    — Transparência? — Repetiu. — Quer saber quanto custa cuidar dela?

    — Não precisa falar assim.

    — Precisa, sim.

    A voz de Rose começou a tremer.

    — Vocês querem saber quanto custa?

    Silêncio.

    — Custa dinheiro. Mas custa também noite de sono. Custa braço doendo. Custa ficar sem sair de casa. Custa cancelar compromisso. Custa não conseguir trabalhar direito. Custa ver uma ferida na pele da própria mãe e não poder sentir a dor no lugar dela.

    A irmã respondeu:

    — Nós também somos filhos.

    Rose fechou os olhos.

    — São.

    — Então não fale como se fosse só você.

    Ela olhou novamente para a mãe.

    — Não sou só eu que sou filha. Sou só eu que estou aqui.

    A ligação terminou pouco depois. Naquela noite, Rose chorou no banheiro para que a mãe não ouvisse. Não chorava apenas pela acusação. Chorava porque, no fundo, aquela frase confirmava uma suspeita antiga: os irmãos haviam começado a enxergar o dinheiro antes de enxergar o trabalho.

    No domingo seguinte, todos se reuniram na casa. Era a primeira vez em meses que a sala ficava cheia. Luíza chegou com uma sacola de frutas e ficou parada na porta da cozinha, sem saber se entrava. Outro irmão apareceu depois. Um terceiro ficou parado perto da porta, como quem havia chegado para uma reunião e não para visitar a própria mãe. Rose estava na cozinha.

    — Vamos conversar — Disse uma das irmãs.

    Rose enxugou as mãos no pano de prato.

    — Sobre o quê?

    — Sobre mamãe.

    — Ela está no quarto.

    — Sobre os cuidados dela.

    Rose soltou um riso sem humor.

    — Agora vocês querem conversar sobre os cuidados?

    — Não começa, Rose.

    — Eu não comecei nada.

    O irmão mais velho interveio:

    — Ninguém veio brigar.

    Rose olhou para ele.

    — Então não falem de dinheiro como se fosse a única coisa que importa.

    A irmã abriu a bolsa e retirou algumas folhas.

    — A gente quer organizar as despesas.

    Rose apontou para a pasta sobre a mesa.

    — Está tudo ali.

    — A gente quer os extratos também.

    Rose permaneceu alguns segundos em silêncio. Depois foi até o quarto da mãe. Voltou com uma caixa de papelão e colocou-a sobre a mesa.

    — Aqui.

    Abriu.

    Havia recibos. Muitos. Alguns amarelados, outros dobrados, todos guardados.

    — Fraldas.

    Pegou um.

    — Medicamentos.

    Outro.

    — Pomadas.

    Outro.

    — Material para curativo. Alimentação.

    Foi espalhando o resto dos papéis sobre a mesa, de uma vez, como quem desiste de contar. A sala ficou silenciosa.

    — Vocês podem conferir tudo. — Disse ela. — Cada centavo.

    Luíza pegou um dos recibos.

    — Eu não sabia que era tanto.

    Rose respondeu:

    — Porque vocês não compravam.

    A frase caiu no meio da sala como um objeto quebrado. Ninguém respondeu. Então veio a pergunta que Rose já esperava.

    — E quanto você recebe para cuidar dela?

    Rose demorou a responder.

    — O que você quer dizer?

    — Você não trabalha mais como antes. Algum dinheiro deve ficar com você.

    Rose ficou olhando para a irmã.

    — Você acha que eu recebo salário?

    — Eu acho que alguma coisa você recebe.

    Rose apontou para o quarto.

    — Eu recebo aquilo ali.

    — O quê?

    — Uma mãe que precisa de mim para tudo.

    A irmã balançou a cabeça.

    — Isso não responde.

    Rose respirou fundo.

    — Então eu vou responder.

    Sentou-se.

    — Eu recebo noites em claro. Recebo medo. Recebo cansaço. Recebo dor nas costas. Recebo a culpa de dormir enquanto ela está acordada. Recebo o desespero quando a ferida piora. Recebo o medo de errar na alimentação. Recebo o telefone tocando de madrugada e penso que aconteceu alguma coisa.

    Fez uma pausa.

    — Dinheiro? O dinheiro da mamãe compra as coisas da mamãe. O resto do que eu gasto aqui é meu.

    O irmão mais velho baixou os olhos. A irmã que fizera a acusação permaneceu calada.

    Foi quando um ruído veio do quarto. Todos olharam. Rose levantou imediatamente. Ninguém mais se moveu. Ela entrou no quarto, ajeitou o travesseiro da mãe, verificou a sonda e segurou sua mão.

    — Estou aqui, mãe.

    A mulher abriu os olhos com dificuldade. Não conseguiu falar. Rose aproximou o rosto.

    — Está tudo bem.

    Do lado de fora, os irmãos permaneciam em silêncio. Talvez naquele instante tenham percebido algo que os recibos não conseguiam explicar. O cuidado não cabia numa nota fiscal. Não tinha preço na farmácia. Não vinha dentro de uma caixa. E não podia ser dividido em parcelas. Rose voltou para a sala. Luíza levantou-se.

    — Desculpa.

    Rose não respondeu imediatamente.

    Olhou para ela.

    — Eu não precisava que vocês me dessem razão.

    — Então o que você precisava?

    Rose pensou.

    — Que vocês viessem.

    A frase desmontou a sala.

    — Não precisava trazer dinheiro. Não precisava trazer presente. Não precisava nem saber trocar um curativo. Mas podiam sentar aqui.

    Ninguém falou. Rose continuou:

    — Podiam ficar uma hora com ela para eu tomar banho sem pressa. Podiam ficar duas horas para eu sair de casa. Podiam perguntar como eu estou sem começar perguntando quanto ela recebe.

    Luíza começou a chorar.

    — Eu tive medo de não saber cuidar.

    Rose respondeu baixinho:

    — Eu também tive.

    Aquela talvez fosse a primeira verdade compartilhada entre as duas em muito tempo. Na semana seguinte, um dos irmãos apareceu numa terça-feira.

    — Rose.

    — Oi.

    — Vim ficar com mamãe.

    Rose estranhou.

    — Hoje?

    — Hoje.

    Ela entregou a ele uma folha com os horários.

    — Aqui estão os remédios.

    Ele pegou o papel.

    — Você vai sair?

    Rose olhou para a própria roupa. Fazia semanas que não saía sem ter hora para voltar.

    — Vou.

    — Para onde?

    Ela pensou um pouco.

    — Ainda não sei.

    E saiu. Caminhou pela rua sem pressa. Não tinha destino. Não precisava. Naquela tarde, depois de muito tempo, Rose Duarte percebeu que cuidar da mãe não deveria significar desaparecer dentro da vida dela.

Jose Casanova 

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