O
sol em Viana não apenas ilumina; ele pesa. Pesa sobre os ombros de Maria das
Dores enquanto ela caminha pela trilha de terra batida que corta o quilombo de
Ouro Preto. O chão, seco pela estiagem severa, ainda guarda a memória da
umidade dos igarapés que, em outros anos, garantiam a fartura.
Ela
parou por um instante, a mão calejada repousando sobre o tronco de uma
gameleira centenária. Aquela árvore não era apenas madeira e folhagem; era o
marco geográfico dos seus avós, o pilar de sustentação de uma história que,
para muitos fora daquelas fronteiras, simplesmente não existia.
Do
outro lado da cerca de arame farpado, que cortava a paisagem como uma cicatriz,
o contraste era brutal. De um lado, a diversidade da mata nativa, o plantio de
subsistência de mandioca e o aroma do fumo de rolo; do outro, a monocultura de
soja que se estendia como um mar verde e homogêneo, desprovido de pássaros, de
alma.
Os
tratores da fazenda vizinha roncavam ao longe, um som de metal que parecia
devorar o silêncio da mata.
Maria
das Dores não temia o barulho, embora soubesse que ele anunciava a cobiça. Em
sua casa, uma estrutura erguida com taipa e a força da união familiar, ela
mantinha as ferramentas de sua resistência: o livro de atas da associação, o
terço de contas de madeira e o facão que, na palma de sua mão, era mais um
instrumento de cuidado do que de ameaça.
Naquela
tarde, as mulheres da comunidade se reuniram debaixo da gameleira. Não havia
pauta formal, apenas a urgência. O projeto de expansão da nova fazenda previa a
drenagem de um canal que alimentava as hortas comunitárias. Se a água fosse
desviada, o quilombo sucumbiria à sede.
—
Eles dizem que a terra é produtiva porque está cheia de soja. — Disse Zefa, a
mais jovem das lavradoras, com os olhos fixos na linha do horizonte. — Eles não
entendem que a nossa semente é o que garante que a gente tome café da manhã
amanhã.
Maria
das Dores levantou-se lentamente e passou o olhar por cada uma das ali
presentes. Mulheres que, geração após geração, tinham enfrentado o chicote, o
coronelismo e, agora, uma ameaça sem rosto, com CNPJ em vez de nome.
—
Ouro Preto não é extensão de hectares. — Começou Maria, a voz firme. — É a
nossa pele, o lugar onde a gente enterra a placenta dos nossos filhos. Não
vamos deixar transformarem isso em pasto.
Na
semana seguinte, o avanço das máquinas foi interrompido não por tribunais ou
burocratas de São Luís, mas por quarenta mulheres quilombolas sentadas
calmamente sobre a terra que o trator deveria revirar. Zefa estava entre elas,
na primeira fila, segurando um cartaz pintado com o barro vermelho da região.
Não carregavam armas, apenas panelas onde cozinhavam o feijoal que sustentava a
comunidade. Quando o encarregado da empresa chegou, encontrou uma muralha de
dignidade.
Maria
das Dores não se levantou da cadeira de palha que trouxera para o meio da
estrada:
— Pode chamar quem
quiser. — Disse ela, enquanto o sol da tarde tingia seu rosto de um tom de
cobre intenso. — A lei dos homens pode dizer que essa terra tem registro em
nome de banco. Mas a lei da terra diz que a gente está aqui desde antes desse
mundo ser medido em metros quadrados.
O
impasse durou horas. De um lado, o metal da máquina; do outro, a ancestralidade
encarnada naquelas mulheres. A liderança de Maria, forjada no respeito mútuo,
impunha um respeito que o dinheiro não conseguia comprar. Ela não pregava o
ódio, mas a permanência — do modo de vida, da tradição, do segredo das ervas
que só cresciam ali.
Ao
final daquele dia, os tratores recuaram. O silêncio retornou a Ouro Preto. As
mulheres voltaram para casa em procissão, cantando hinos que atravessavam
séculos.
Maria
das Dores sentou-se na varanda de sua casa de taipa e observou o pôr do sol
sobre o mar de soja que se aproximava de sua cerca. Sabia que a luta seria
longa. Mas não sentia medo. Em suas mãos, o terço de madeira se aquecia. Olhou
para elas — marcadas pela lida, ainda ágeis para plantar a semente que
alimentava sua ética.
O
futuro de Ouro Preto não era algo que ela esperava chegar. Era algo que ela
construía a cada aurora, palmo a palmo, contra o assoreamento da ganância. Ouro
Preto não era apenas uma comunidade de resistência. Era a prova de que, mesmo
cercada, ainda há chão que ninguém consegue medir.






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