Prezado
leitor esta é uma crônica de ficção, qualquer semelhança com pessoas e lugares ,
terá sido mera coincidência. O ventilador de teto girava em uma cadência lenta inútil, apenas empurrando o ar quente de
Babaçú para baixo. Lúcia encarava as pás de madeira escura com os olhos secos
e abertos. Era a única parte de seu corpo que obedecia aos seus comandos. O diagnóstico
de tetraplegia caíra sobre sua vida seis meses antes, após um acidente numa
estrada estreita que cortava a região do Mearim.
Desde então, o quarto de paredes descascadas
tornou-se o mundo inteiro, e o teto, o seu único horizonte. O calor maranhense
era implacável. Sem poder mover as mãos para enxugar o suor que escorria pela
testa e ardia nos olhos, Lúcia dependia inteiramente dos outros. A dependência
era pior do que a dor fantasma que às vezes percorria suas pernas inertes.
A
porta rangeu e Fátima entrou no quarto, carregando uma bacia de alumínio com
água morna e uma toalha.
—
Bom dia, Lúcia. Vamos fazer a higiene.
Lúcia
não respondeu de imediato. Apenas piscou, demoradamente, sinalizando que a
ouvira.
—
Abre a janela, Fátima .— Disse Lúcia. Sua voz soava rouca pelo desuso.
— O
sol está muito forte. Vai queimar seu rosto, minha irmã.
—
Abre a janela. Eu quero sentir o sol queimar. Eu quero sentir alguma coisa.
Fátima
obedeceu em silêncio. A luz invadiu o ambiente, revelando a poeira que dançava
no ar. A claridade feriu os olhos de Lúcia, mas ela não os fechou. A vida lá
fora pulsava. Carros passavam, vendedores ambulantes gritavam seus produtos na rua
de paralelepípedos, crianças corriam soltas. Lúcia estava presa dentro do
próprio esqueleto.
O banho
de gato começou. Fátima virava o corpo da irmã de um lado para o outro, um
manequim de carne e osso. O ressentimento inicial de Lúcia já havia dado lugar
a uma apatia sombria, até aquele momento.
Enquanto a toalha úmida percorria seu braço direito, ela sentiu um repuxo
agudo, elétrico, na ponta do dedo indicador.
Foi
imperceptível para Fátima. Mas para Lúcia, foi um estrondo tátil. Ela fechou os
olhos, concentrando toda a energia que restava no seu sistema nervoso naquele milímetro
de carne e terminação nervosa. O dedo não se moveu visivelmente, mas a sensação
de controle, por uma fração de segundo, estava lá. nervo não estava morto. Estava apenas
dormindo.
—
Fátima . — Lúcia chamou, a voz de repente mais firme. — Liga para a clínica. Eu
vou começar a fisioterapia amanhã.
—
Lúcia, o doutor disse que as chances de voltar a mexer...
— Eu
não perguntei as chances. Eu disse para ligar para a clínica.
O
processo de reabilitação não teve nada de heroico ou poético. Foi bruto, doloroso
e sujo. O centro de fisioterapia público de Babaçú funcionava em um prédio com
infiltrações, ventiladores barulhentos e macas de couro sintético rasgado. Três
vezes por semana, o maqueiro colocava Lúcia na van do município, uma viagem que
sacolejava seus ossos e testava sua sanidade.
O
fisioterapeuta, Roberto, era um homem prático. Não oferecia falsas esperanças.
—
Vai doer, Lúcia. E muito provavelmente, o progresso será mínimo no começo.
—
Faça o seu trabalho, Roberto. — Ela devolvia, os dentes cerrados.
Os
meses se acumularam. O esforço para mover um braço exigia o mesmo fôlego de uma
corrida. Lúcia gritava de dor quando os músculos atrofiados eram esticados. Ela
suava, chorava na maca e, em algumas noites, desejava que o acidente tivesse
sido fatal. Mas, na manhã seguinte, exigia ser colocada na van novamente.
A
primeira grande vitória veio no oitavo mês. Lúcia conseguiu fechar a mão
direita em torno de uma bola de borracha. A segunda vitória, um ano depois, foi
sustentar o tronco sentada na borda da cama. Seu sistema nervoso aprendia,
lentamente, a recrutar caminhos preservados e recuperar funções que pareciam
perdidas. Os exames de acompanhamento revelaram que a lesão medular não era
completa, como se acreditara nos primeiros dias após o acidente. Algumas vias
nervosas haviam permanecido preservadas, tornando possível uma recuperação
parcial mediante um longo processo de reabilitação.
Dois
anos após o acidente, Lúcia já não era tetraplégica. O diagnóstico mudara, mas
as sequelas eram permanentes. Seus movimentos nos membros inferiores eram
severamente limitados e a coordenação motora exigia concentração brutal. Ela passou
a usar uma cadeira de rodas adaptada. A euforia da recuperação médica logo
esbarrou em um problema muito maior. Lúcia havia vencido as limitações do seu
corpo, mas esbarrou nas limitações da cidade.
Em
uma terça-feira, Lúcia decidiu que iria ao banco no centro de Babaçú, resolver questões do BPC por conta própria. Fátima
tentou impedi-la, oferecendo-se para ir com uma procuração, mas Lúcia foi
categórica ao negar. Ela queria a rua. O trajeto, que para uma pessoa sem
deficiência levaria dez minutos, durou quase uma hora. As calçadas da cidade
eram um campo minado de buracos, desníveis repentinos, raízes de árvores arrebentando
o cimento e degraus irregulares construídos por moradores para impedir que a
água da chuva entrasse nas casas.
Lúcia se viu forçada a transitar pelo asfalto,
disputando o espaço com caminhonetes e motos que buzinavam furiosamente. Ao
chegar na agência bancária, exausta, os braços latejando de tanto girar as
rodas, o choque final.
Uma
escadaria de seis degraus de granito separava a rua das portas de vidro do
banco. Nenhuma rampa. Nenhum acesso lateral. Nada. Lúcia parou a cadeira na
calçada, encarando os degraus. O calor do meio-dia fervia o asfalto. Pessoas
subiam e desciam por ela, desviando o olhar, fingindo que a mulher paralisada
ali era invisível. Um homem engravatado, saindo da agência, parou no último
degrau e olhou para baixo.
—
Você precisa de ajuda, minha senhora? Quer que eu chame alguém lá dentro?
— Eu
quero entrar. Onde fica a rampa? — A voz de Lúcia era firme, embora a respiração
estivesse curta pelo esforço.
—
Rapaz, acho que não tem rampa aqui não. Esse prédio é antigo. É melhor a
senhora voltar para casa e mandar um parente. A rua não é lugar pra quem tem
suas condições. O sol está castigando.
Lúcia
travou os freios da cadeira de rodas. Ela encarou o homem de terno, memorizando
suas feições, seu tom condescendente e a estrutura de pedra atrás dele. A raiva
que subiu pelo seu estômago não era a mesma raiva que tinha do acidente. Era
uma fúria lúcida. Estratégica. Política.
— O
meu lugar. — Disse Lúcia, projetando a voz para que outras pessoas na calçada
ouvissem. — É onde eu quiser estar. A falta de capacidade não é das minhas
pernas. É dessa cidade.
O
homem deu de ombros, resmungou algo sobre falta de educação e seguiu seu
caminho. Lúcia não voltou para casa. Ela foi direto para a praça central. Havia
entendido que reconquistar os movimentos do corpo de nada servia se o mundo a mantivesse
engaiolada. A tetraplegia havia roubado seus movimentos; sociedade estava roubando sua cidadania. E ela
não permitiria.
Na
semana seguinte, a sala de espera do centro de fisioterapia virou um quartel
general. Lúcia não falava mais sobre exercícios ou dores musculares. Falava
sobre Leis de Acessibilidade. Falava sobre a Constituição
—
Quantos de vocês já deixaram de ir a uma consulta médica porque não conseguiram
subir no posto de saúde? — Perguntou ela, virando a cadeira no meio da sala.
Marcos,
um jovem cego de nascença, levantou a mão hesitante. Tereza, que usava muletas
devido à poliomielite, assentiu silenciosamente. Outros pacientes, mães com
filhos com paralisia cerebral, idosos com andadores, pararam para escutar.
—
Nós ficamos aqui dentro brigando com o nosso corpo para conseguir dar um passo.
E quando a gente dá esse passo, a cidade coloca um muro na nossa frente. Vamos
cobrar a quem construiu o muro.
Lúcia
organizou, inicialmente, um pequeno número de pacientes insatisfeitos. Eles
fizeram um levantamento rudimentar. Anotaram quais farmácias, supermercados e
repartições públicas não tinham acesso. O cenário era devastador, mas a indignação
coletiva era combustível.
O
primeiro alvo da recém-formada Associação de Pessoas com Deficiência de Bacabal
não foi aleatório. Lúcia escolheu a Câmara Municipal de Vereadores. O prédio
histórico, imponente, com uma arquitetura colonial mal preservada, possuía uma
longa escadaria na entrada principal. Era o símbolo do poder legislativo, o
lugar onde as leis da cidade eram criadas por pessoas que nunca precisaram usar
uma cadeira de rodas.
O
movimento foi marcado para uma quarta-feira, dia de sessão plenária. Lúcia
chegou cedo, acompanhada de vinte pessoas. Havia cadeirantes, cegos, surdos,
pessoas com muletas e familiares. Eles não levaram faixas ou megafones. A
instrução de Lúcia havia sido clara: a presença física deles, exatamente onde
não deveriam conseguir estar, seria a própria mensagem. Eles estacionaram
cadeiras ao redor da base da escadaria. Marcos posicionou-se no primeiro degrau
com sua bengala branca. As mães sentaram-se no concreto quente com seus filhos.
O acesso estava bloqueado. Quem quisesse
entrar ou sair da Câmara teria que passar por cima deles. Por volta das dez da
manhã, os vereadores começaram a chegar para a sessão. Os carros oficiais encostavam,
e os políticos saíam, confusos com a barreira humana. Um dos vereadores,
conhecido na cidade pelo temperamento explosivo, caminhou em direção a Lúcia,
que estava bem no centro.
— O
que está acontecendo aqui? Isso é espaço público, precisam liberar a entrada.
Temos uma sessão importante hoje para votar o orçamento.
Lúcia
o encarou. Os músculos do seu pescoço estavam rijos, mas sua mente estava
calma.
—
Nós sabemos que é um espaço público, vereador. Por isso viemos assistir à
sessão.
—
Então subam e entrem no plenário. Ninguém está impedindo.
— O
senhor está vendo alguma rampa? — Lúcia apontou para os degraus de concreto. —
Se nós não pudermos entrar, ninguém vai. Não haverá sessão até que os senhores
escutem as demandas daqueles que a cidade escolheu tornar invisíveis.
O
constrangimento se espalhou entre os assessores e políticos presentes. A
polícia municipal foi acionada, mas hesitou. Não havia violência, apenas vinte
pessoas com diversas deficiências sentadas ali, exigindo o básico da dignidade
estipulada em lei municipal há mais de dez anos, mas que nunca havia sido
cumprida.
O
presidente da Câmara interveio. Tentou contornar a situação, oferecendo que
alguns maqueiros do hospital levassem Lúcia e mais dois cadeirantes nos braços
até o segundo andar.
A
resposta dela foi incisiva.
— Eu
passei anos sendo carregada, vereador. Minha autonomia me custou sangue. Eu não
vim aqui para ser erguida como uma mercadoria disfuncional. Eu exijo rampa,
exijo adaptação, exijo que respeitem o nosso direito de ir e vir por conta
própria.
Diante
do impasse e com a imprensa local começando a registrar a cena, a sessão
plenária daquele dia foi cancelada. O bloqueio durou até o fim da tarde, sob o
sol escaldante de Bacabal. Lúcia não arredou o pé. As costas doíam, as pernas tremiam
com espasmos nervosos devido à postura prolongada na cadeira, mas ela não
abaixou a cabeça.
Ao
anoitecer, um acordo verbal com a mesa diretora foi forçado publicamente. Um
compromisso formal para discutir o projeto estrutural da Câmara e revisar a
aplicação das normas de acessibilidade nas vias principais da cidade nos
próximos trinta Dias. Não era a vitória final, apenas o início da guerra Mas o
muro havia sido rachado. Lúcia voltou para casa exausta. A rua já estava escura.
Fátima abriu a porta, preocupada, e correu para ajudá-la a passar pela soleira.
— A
cidade inteira está comentando o que você fez na Câmara de Vereadores, Lúcia.
Você arrumou um problema grave.
— Eu
não arrumei um problema, Fátima. Eu mostrei o problema que já estava lá.
Fátima
a ajudou a fazer a transferência da cadeira para a cama. O quarto, antes um
túmulo silencioso onde Lúcia aguardava os dias passarem, agora parecia pequeno
para o tamanho da mulher que o ocupava. Ela não era mais a paciente passiva que
encarava o ventilador de teto esperando a morte ou um milagre. Sobre a mesa de
cabeceira, uma cópia da lei municipal de obras públicas estava marcada com caneta
vermelha. Listas com nomes de dezenas de pacientes que aderiram à causa se
acumulavam. A tetraplegia havia paralisado seu corpo brutalmente, e cada
centímetro recuperado naquelas macas rasgadas da clínica servia a um propósito
agora irrenunciável.
Lúcia sabia que os degraus de granito seriam
apenas a primeira obstrução a ser derrubada em Babaçú. O ativismo
transformou-se no sangue novo que preencheu suas veias, oxigenando lugares onde
a medicina declarou que não haveria mais vida. Ela alcançou a caneta vermelha
na mesa e preparou-se para redigir o ofício da próxima reunião, perfeitamente
ciente de que não precisava mover o mundo inteiro de uma vez; bastava ter a força
suficiente para trancar a entrada até que as portas, sem exceção de formato ou
inclinação, fossem, por justiça e de direito, abertas a todos.
José Casanova






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