O
entardecer ainda tingia Fortaleza de dourado quando o fogo rompeu o silêncio.
As labaredas ergueram-se rápidas, alaranjadas e impiedosas, engolindo, uma a
uma, as paredes da casa de dona Zilda e tudo o que nelas ainda respirava em
memória. A estrutura de madeira compensada e telhas de fibrocimento, que
ela levara uma vida inteira para erguer, torceu-se e cedeu em menos de uma
hora, deixando apenas um amontoado de brasas e o cheiro insuportável de borracha
e madeira queimada. Quando o fogo finalmente silenciou, o que sobrou foi o
desamparo total: Zilda sentada no chão de terra batida, o rosto pintado de
fuligem, segurando apenas um retrato de família que escapara por milagre.
Não houve tempo para luto. A notícia correu a favela com a
velocidade das fofocas, mas não veio acompanhada de piedade, veio com a urgência da ação.
Em menos de vinte minutos, o pátio da comunidade estava
cheio de mulheres. Não havia cargos oficiais, nem diretórios, nem planos de governo;
havia ali uma rede viva, forjada no convívio diário das filas do posto de saúde
e na partilha da mesma carência.
— Levanta, Zilda. Chorar não põe telhado em cima da cabeça !
— Disse Tereza, mulher de braços fortes que, sem pedir licença, tomou o retrato
das mãos da amiga e o colocou num lugar seguro.
A reconstrução começou antes mesmo de os bombeiros
encerrarem o rescaldo. A solidariedade, naquele recanto de Fortaleza, nunca foi
uma teoria abstrata; era uma necessidade mecânica de sobrevivência. Naquela
mesma noite, enquanto os homens da vila ainda discutiam como salvar os restos
dos móveis, as mulheres já haviam montado uma força-tarefa. Maria, a dona do
armazém da esquina, abriu o estoque e liberou tijolos e sacos de cimento que
mantinha como reserva. Joana, cuja casa já era pequena demais para seus seis
filhos, trouxe metade de sua própria estrutura de madeira para garantir que
Zilda tivesse onde se abrigar até a alvenaria subir.
O mutirão seguiu pelos dias seguintes sob um calor que
parecia tentar puni-las por ousar desafiar a miséria. Cada tijolo colocado era
um exercício de partilha. Elas se revezavam no comando da mistura de argamassa,
sob o comando da voz firme de dona Zilda, que, apesar da dor, agora dirigia a
obra com a autoridade de quem sabia que sua dignidade estava sendo restaurada
tijolo por tijolo. Não era uma construção profissional, mas era a mais sólida
das estruturas: cada liga de cimento ali continha o suor emprestado de vizinhas
que sacrificavam o pouco tempo de descanso após jornadas duplas de trabalho
braçal.
Enquanto empilhavam os blocos, as conversas não eram sobre
a tragédia da perda, mas sobre o futuro.
Elas falavam da merenda dos filhos, dos preços da feira, da
próxima reunião da associação de moradores. A reconstrução da casa era, na
verdade, a reconstrução do tecido social que as mantinha de pé. Ali, em meio ao
pó e ao barulho das colheres de pedreiro, elas reafirmavam a premissa de sua existência
naquele território: ali, ninguém cai sozinho, porque a queda de uma é o chamado
para que todas se ergam.
No fim da
tarde do penúltimo dia de trabalho, quando as últimas fiadas de tijolos
começavam a ganhar altura, o céu de Fortaleza escureceu de repente. Um vento
quente atravessou o terreno, levantando a poeira e espalhando sacos vazios de
cimento pelo quintal.
— A chuva vem forte! — Gritou Joana, olhando
para o horizonte.
As primeiras gotas caíram pesadas, abrindo
pequenas crateras na argamassa ainda fresca. Por um instante, ninguém falou.
Bastaria um temporal para desfazer em poucos minutos o esforço de vários dias. Foi
Tereza quem reagiu primeiro.
— Não deixem essas paredes caírem!
Sem hesitar, as mulheres correram. Umas
seguravam lonas sobre a alvenaria recém-erguida; outras escoravam as paredes
com tábuas improvisadas. Maria empilhava tijolos na base dos plásticos para
impedir que o vento os arrancasse. Encharcadas, cobertas de barro e cimento,
elas formaram uma barreira humana em torno da casa, protegendo cada parede como
quem protege alguém da própria família.
Quando a chuva finalmente cessou, a estrutura
permanecia de pé. Ninguém comemorou.
Apenas voltaram ao trabalho, como se vencer
tempestades também fizesse parte da rotina de quem aprendera a reconstruir a
vida muitas vezes.
Quando o último tijolo foi posicionado e o telhado básico
foi finalmente fixado, não houve cerimônia.
Zilda entrou no espaço nu, ainda cheirando a cimento
fresco. Ela olhou para as paredes feitas com tijolos doados, cimento emprestado
e tempo roubado das fadigas diárias. O espaço não era luxuoso, não tinha
reboco, mas era o lugar mais seguro do mundo.
Caminhou
devagar pelo pequeno cômodo ainda vazio. Em um canto, envolvido por um pano
para protegê-lo da poeira da obra, estava o retrato de família que escapara das
chamas. Ela o segurou com cuidado, como quem reencontra um pedaço de si que o
fogo não conseguira alcançar.
Procurou um prego esquecido entre os restos
de madeira, apoiou uma pequena banqueta contra a parede recém-erguida e, com
movimentos lentos, pendurou o retrato acima da porta.
Afastou-se alguns passos. As paredes ainda
estavam ásperas, sem reboco, e o cheiro do cimento fresco dominava o ambiente.
Mas aquele retrato devolvia à casa algo que nenhum mutirão seria capaz de
construir: a memória.
Zilda sorriu discretamente. Naquele instante,
compreendeu que elas não haviam levantado apenas paredes. Haviam devolvido um
endereço às lembranças e um futuro à esperança.
Tereza aproximou-se, limpando o rosto sujo de pó, e entregou
a Zilda uma xícara de café quente. Elas se olharam, e não foi preciso
agradecer. O agradecimento ali seria uma formalidade inútil, quase uma ofensa
àquela aliança. Elas sabiam que, caso o fogo visasse a próxima porta, o
resultado seria exatamente o mesmo.
Naquele momento, sob
aquela estrutura que haviam erguido com a força do coletivo, elas compreenderam
que a pobreza pode até levar o patrimônio, mas nunca será párea para a
solidariedade de mulheres que entendem que, quando a vida as desafia à
destruição, a resposta mais potente é sempre a construção tijolo por tijolo, mão por mão, irmandade fortalecida
na certeza de que a moradia, assim como a amizade, é algo que se mantém de pé
não apenas pela liga do cimento, mas pelo laço indestrutível de quem decide ser
o arrimo alheio quando o mundo inteiro, lá fora, prefere ignorar que ali existe
gente tentando sobreviver.
José Casanova







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