Em
1988, o calor da sala de aula no Colégio Lêda Tajra em Bacabal era mais do que
uma condição do tempo. Era um personagem invisível, instalado entre as
carteiras, que parecia desafiar cada tentativa de transformar palavras em
aprendizado. Marta observava seus trinta alunos, rostos jovens que oscilavam
entre a apatia do cansaço e a energia inquieta de quem não via sentido no que
estava escrito no quadro negro. O ventilador, pendurado por um único parafuso
que insistia em desafiar a gravidade, girava num ritmo que mais parecia uma
contagem regressiva para o colapso.
Ela segurou o giz, um toco branco e quebradiço que sujava
seus dedos com um pó fino. Escreveu o nome de Clarice Lispector. O traço saiu
trêmulo, não pela falta de habilidade, mas pela dúvida que a acompanhava todos
os dias: como convencer jovens que mal tinham acesso a uma biblioteca pública
de que a literatura não era um privilégio de elite, mas algo urgente e vital?
— Professora, pra que a gente vai ler isso? — Graciano um dos
rapazes, sentado no fundo, comentou sem sequer levantar a cabeça da mesa cheia
de sulcos de caneta. — Isso não enche barriga.
Marta sentiu o peso das palavras, um reconhecimento amargo
da realidade que cercava aquela escola. Ela poderia ter respondido com os manuais
de pedagogia que estudou na faculdade, falando sobre a importância da formação
crítica e do repertório cultural. Mas, naquele momento, as teorias pareciam tão
distantes quanto as prateleiras luxuosas das livrarias que ela, em seus dias de
miséria docente, apenas olhava através dos vidros nos shoppings.
— Encher a barriga é o primeiro passo. — Respondeu ela,
virando-se para a turma com uma voz que forçou a ser calma, apesar do aperto no
peito. — Mas o que a gente lê aqui é o que vai impedir que o mundo nos convença
de que a barriga, ou a falta dela, é a única coisa que a gente tem. Se vocês
não souberem nomear o que sentem, alguém vai escolher os nomes por vocês. E, acreditem,
eles não vão ser gentis.
Ela não tinha livros suficientes. A biblioteca da escola
era um cômodo trancado, com prateleiras ocupadas por manuais didáticos
desatualizados e três volumes empoeirados de literatura clássica. O que ela
tinha eram impressões feitas em um papel reciclado, gasto, que ela pagava com
seu próprio salário. Marta distribuía aquele material como se fossem joias,
observando, com o coração na mão, as reações.
A vocação da mulher na educação pública em Bacabal, ela
descobria diariamente, era uma forma de malabarismo ético. Ela era, ao mesmo
tempo, educadora, assistente social, mediadora de conflitos e, frequentemente,
o único adulto na vida daqueles jovens que acreditava que a capacidade
intelectual deles não era condicionada pelo CEP onde moravam. Havia momentos em
que a exaustão a dominava, quando ela chegava em casa e o cheiro de giz
impregnado nos poros parecia o símbolo de uma derrota pessoal. Mas, então, ela
lembrava de Lucilene, uma aluna do fundo da fila, que começara a trazer seus
próprios escritos em um caderno de folhas amareladas.
Naquela tarde, enquanto a chuva começava a bater no
telhado, criando um ruído que obrigava todos a falarem mais alto, Lucilene se
aproximou. Ela entregou um papel dobrado, um poema que falava sobre a seca e
sobre a vontade de ir embora, mas que terminava com uma imagem surpreendente sobre
as sementes que, mesmo ignoradas, teimavam em brotar no concreto.
Ao ler aquelas linhas, Marta sentiu uma onda de força. Era
por isso. Não era para seguir o currículo engessado pelo Estado, nem para
cumprir as horas de uma grade que ignorava a realidade daquelas crianças. Era
para ser o canal desse broto. Ali, naquele momento, o giz e o suor, a falta de
verbas e o descaso institucional, tudo se fundia. Ela percebia que o seu papel
ia muito além de ensinar os tempos verbais; era a construção de uma trincheira
de humanidade.
Marta guardou o poema na bolsa, ao lado do giz quebrado. O
barulho do zinco pela chuva ficava mais forte, mas ela não se incomodava mais
com o calor ou com o improviso daquela escola. Ela olhou para Lucilene, que a
observava com uma expectativa silenciosa, e percebeu que, enquanto houvesse um pedaço
de giz em sua mão e uma mente disposta a registrar suas próprias dores, a
literatura em Bacabal nunca seria um artigo de luxo. Ela seria, como sempre
fora, a ferramenta mais poderosa de sobrevivência. Marta pegou o apagador e limpou o quadro negro.
Amanhã, ela escreveria novos nomes, novas ideias, novos caminhos, sabendo que,
embora o sistema insistisse em negligenciar aquelas paredes, a esperança ali
dentro estava apenas começando a aprender como se ler.
José Casanova







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