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quarta-feira, 12 de agosto de 2026

CRÔNICA DO DIA: Giz e Esperança

Em 1988, o calor da sala de aula no Colégio Lêda Tajra em Bacabal era mais do que uma condição do tempo. Era um personagem invisível, instalado entre as carteiras, que parecia desafiar cada tentativa de transformar palavras em aprendizado. Marta observava seus trinta alunos, rostos jovens que oscilavam entre a apatia do cansaço e a energia inquieta de quem não via sentido no que estava escrito no quadro negro. O ventilador, pendurado por um único parafuso que insistia em desafiar a gravidade, girava num ritmo que mais parecia uma contagem regressiva para o colapso.

Ela segurou o giz, um toco branco e quebradiço que sujava seus dedos com um pó fino. Escreveu o nome de Clarice Lispector. O traço saiu trêmulo, não pela falta de habilidade, mas pela dúvida que a acompanhava todos os dias: como convencer jovens que mal tinham acesso a uma biblioteca pública de que a literatura não era um privilégio de elite, mas algo urgente e vital?

— Professora, pra que a gente vai ler isso? — Graciano um dos rapazes, sentado no fundo, comentou sem sequer levantar a cabeça da mesa cheia de sulcos de caneta. — Isso não enche barriga.

Marta sentiu o peso das palavras, um reconhecimento amargo da realidade que cercava aquela escola. Ela poderia ter respondido com os manuais de pedagogia que estudou na faculdade, falando sobre a importância da formação crítica e do repertório cultural. Mas, naquele momento, as teorias pareciam tão distantes quanto as prateleiras luxuosas das livrarias que ela, em seus dias de miséria docente, apenas olhava através dos vidros nos shoppings.

— Encher a barriga é o primeiro passo. — Respondeu ela, virando-se para a turma com uma voz que forçou a ser calma, apesar do aperto no peito. — Mas o que a gente lê aqui é o que vai impedir que o mundo nos convença de que a barriga, ou a falta dela, é a única coisa que a gente tem. Se vocês não souberem nomear o que sentem, alguém vai escolher os nomes por vocês. E, acreditem, eles não vão ser gentis.

Ela não tinha livros suficientes. A biblioteca da escola era um cômodo trancado, com prateleiras ocupadas por manuais didáticos desatualizados e três volumes empoeirados de literatura clássica. O que ela tinha eram impressões feitas em um papel reciclado, gasto, que ela pagava com seu próprio salário. Marta distribuía aquele material como se fossem joias, observando, com o coração na mão, as reações.

A vocação da mulher na educação pública em Bacabal, ela descobria diariamente, era uma forma de malabarismo ético. Ela era, ao mesmo tempo, educadora, assistente social, mediadora de conflitos e, frequentemente, o único adulto na vida daqueles jovens que acreditava que a capacidade intelectual deles não era condicionada pelo CEP onde moravam. Havia momentos em que a exaustão a dominava, quando ela chegava em casa e o cheiro de giz impregnado nos poros parecia o símbolo de uma derrota pessoal. Mas, então, ela lembrava de Lucilene, uma aluna do fundo da fila, que começara a trazer seus próprios escritos em um caderno de folhas amareladas.

Naquela tarde, enquanto a chuva começava a bater no telhado, criando um ruído que obrigava todos a falarem mais alto, Lucilene se aproximou. Ela entregou um papel dobrado, um poema que falava sobre a seca e sobre a vontade de ir embora, mas que terminava com uma imagem surpreendente sobre as sementes que, mesmo ignoradas, teimavam em brotar no concreto.

Ao ler aquelas linhas, Marta sentiu uma onda de força. Era por isso. Não era para seguir o currículo engessado pelo Estado, nem para cumprir as horas de uma grade que ignorava a realidade daquelas crianças. Era para ser o canal desse broto. Ali, naquele momento, o giz e o suor, a falta de verbas e o descaso institucional, tudo se fundia. Ela percebia que o seu papel ia muito além de ensinar os tempos verbais; era a construção de uma trincheira de humanidade.

Marta guardou o poema na bolsa, ao lado do giz quebrado. O barulho do zinco pela chuva ficava mais forte, mas ela não se incomodava mais com o calor ou com o improviso daquela escola. Ela olhou para Lucilene, que a observava com uma expectativa silenciosa, e percebeu que, enquanto houvesse um pedaço de giz em sua mão e uma mente disposta a registrar suas próprias dores, a literatura em Bacabal nunca seria um artigo de luxo. Ela seria, como sempre fora, a ferramenta mais poderosa de sobrevivência. Marta  pegou o apagador e limpou o quadro negro. Amanhã, ela escreveria novos nomes, novas ideias, novos caminhos, sabendo que, embora o sistema insistisse em negligenciar aquelas paredes, a esperança ali dentro estava apenas começando a aprender como se ler.

José Casanova 

quarta-feira, 11 de março de 2026

CRÔNICA DO DIA: O Batismo de Giz no Leda Tajra


O cheiro inconfundível de extrato de tomate industrial e desinfetante de eucalipto formava a atmosfera pesada do corredor. Aquele odor, impregnado nas paredes descascadas da Escola Leda Tajra, em Bacabal, era o primeiro aviso sensorial de que a academia havia ficado para trás. Não havia teses de mestrado flutuando naquele ar denso e úmido, apenas poeira, ecos de gritos estridentes e a vibração quase imperceptível de trezentos adolescentes confinados em blocos de concreto sob o sol implacável do Maranhão.

Arthur caminhava por esse corredor segurando uma pasta catálogo contra o peito como se fosse um escudo heráldico. Dentro dela, repousava sua obra-prima: doze páginas impressas a laser de um plano de aula milimetricamente arquitetado. Ali, nas páginas em fonte Arial tamanho doze, espacejamento um e meio, não havia espaço para o fracasso. Era um documento perfeito. Havia rubricas de avaliação formativa, propostas de metodologias ativas, um roteiro para sala de aula invertida e citações indiretas a teóricos europeus que, muito provavelmente, jamais haviam pisado em uma sala com quarenta alunos e um ventilador de teto que ameaçava decapitar os mais altos.

Recém-formado, com o diploma ainda exalando o cheiro da tinta da impressora da reitoria, ele acreditava piamente que o mundo poderia ser salvo pelo socioconstrutivismo. Vestia uma camisa social azul-clara, impecavelmente passada, e calçava sapatos de couro que já começavam a apertar seus pés inchados pelo calor.

Dona Cida, a coordenadora pedagógica, o acompanhava a passos lentos e arrastados. Ela era a encapsulação física do esgotamento ocupacional. Seus olhos carregavam a opacidade de quem já havia confiscado mais de mil estilingues e apartado trezentas brigas por causa de figurinhas. Ela não caminhava; ela patrulhava.

― É aqui, professor. ― anunciou Cida, parando diante de uma porta de madeira crivada de marcas de sapato. O barulho que vinha lá de dentro lembrava um estádio de futebol durante uma cobrança de pênalti decisiva. ― Turma oitocentos e dois. Eles são... enérgicos. Não dê as costas para o fundo da sala quando for apagar o quadro. Sobreviva até o sinal.

Ela lhe entregou uma caixa de giz branco, ressecada e meio amassada. Não houve discurso motivacional, nem votos de sucesso profissional. Dona Cida apenas virou as costas e sumiu pelo corredor, retornando ao seu santuário climatizado, onde a máquina de café soluçava gotas negras e amargas de cafeína.

Arthur respirou fundo. Repassou mentalmente o primeiro passo do seu plano estratégico: quebrar a hierarquia espacial da sala de aula. Ele não seria um professor ditador no alto de um palanque pedagógico. Ele seria um mediador do conhecimento, um facilitador. Com a mão ligeiramente trêmula, girou a maçaneta e empurrou a porta.

O impacto de sua entrada foi imediato, mas não pelo respeito à sua figura. Foi o choque do novo. Quarenta pares de olhos se voltaram para ele simultaneamente. Bolinhas de papel molhadas com saliva interromperam suas trajetórias balísticas no meio do ar. Um garoto que estava de pé em cima de uma carteira simulando um solo de guitarra com uma vassoura congelou a pose. O silêncio que se abateu sobre o ambiente não era de subordinação, era investigativo. Eles estavam avaliando a presa. Cheiravam o frescor da teoria pura em sua camisa engomada.

― Bom dia, pessoal! ― Começou Arthur, depositando sua pasta sobre a mesa do professor com uma reverência quase sagrada. Ele sorriu. O seu melhor e mais acolhedor sorriso pedagógico. ― Meu nome é Arthur. Sou o novo professor de vocês. E hoje, nós não vamos ter uma aula.

O silêncio ficou ainda mais denso. Uma mosca solitária zumbia erraticamente perto da lousa apagada pela metade.

― Como assim, não vai ter aula? ― Questionou uma voz esganiçada vinda da terceira fileira. Era um garoto de óculos de armação grossa, com o uniforme rabiscado de caneta azul, formando padrões que lembravam tatuagens tribais.

― Nós vamos ter uma vivência. ― Declarou Arthur, abrindo os braços para enfatizar a grandiosidade do conceito. ― Quero que esqueçam essa organização opressora de enfileiramento militar. Por favor, levantem-se. Vamos colocar as carteiras em um grande círculo. Vamos nos olhar nos olhos para construir o conhecimento de forma horizontal, onde todos têm voz.

Os alunos permaneceram imóveis. Alguns piscaram lentamente. Outros olharam para os lados, buscando confirmar se haviam escutado a mesma insanidade.

O garoto do fundo, que minutos antes tocava guitarra com a vassoura, desceu da carteira com uma calma surpreendente. Ele tinha a expressão de um veterano de guerra de quatorze anos de idade. Caminhou lentamente até a frente, arrastando os pés com chinelos de dedo escondidos sob as meias do fardamento escolar.

― Professor... ― Disse o garoto, franzindo a testa. ― O nome do senhor é Arthur, né?

― Sim, Arthur. E o seu? ― Respondeu o professor, já mentalizando a rubrica de engajamento discente sendo preenchida com sucesso.

― Darlan Caldas. Olha só, professor Arthur... o negócio é o seguinte. ― Darlan coçou a nuca, assumindo o tom de um negociador sindical diante de uma proposta patronal irrealista. ― Para fazer esse círculo aí, a gente vai ter que arrastar essas cadeiras. O pé de ferro da carteira do Maicon tá quebrado. Se arrastar, despenca tudo. Além disso, a Tábata e a Jéssica não se falam desde outubro do ano passado porque a Jéssica curtiu a foto do ex da Tábata. Se elas ficarem de frente uma para a outra no círculo, vai ter sangue no meio da cenela. Sangue e cabelo.

Arthur piscou, tentando processar a complexidade geopolítica do oitavo ano.

― Mas a roda de conversa é essencial para o protagonismo de vocês... ― Tentou argumentar, sentindo a primeira rachadura em seu projeto europeu.

― Eu entendo, professor. Protagonismo. Muito bom. ― Concordou Darlan, balançando a cabeça com uma condescendência que um adolescente jamais deveria ser capaz de expressar para um adulto diplomado. ― Mas a pergunta que não quer calar, a questão central da nossa vivência hoje é: se a gente arrastar as cadeiras e fizer o tal do círculo sem ninguém morrer, o senhor libera a gente dez minutos mais cedo para o recreio?

Um murmúrio de aprovação espalhou-se pela sala. Darlan não era apenas um aluno; era o porta-voz, o diplomata do caos, o primeiro-ministro do desespero letivo.

― Liberar mais cedo? ― Arthur recuou meio passo, instintivamente tocando sua pasta catálogo. ― Nossa aula tem cinquenta minutos, Darlan. Cada minuto é precioso para o letramento crítico de vocês.

Um gemido coletivo de frustração ecoou. A negociação havia falhado. O interesse no círculo horizontal de conhecimento evaporou imediatamente. Os alunos voltaram a se esparramar em suas carteiras. Aquele professor não aceitava suborno temporal; logo, era inútil.

Determinado a não se deixar abater nos primeiros seis minutos da sua carreira, Arthur decidiu pular a etapa do arranjo espacial e investir na dinâmica de tempestade de ideias. Caminhou até a lousa verde, pegou o bastão de giz de calcário e, com uma caligrafia arredondada e caprichada, escreveu a palavra-chave no centro: CIDADANIA.

Virou-se para a turma, com o peito estufado, sentindo o pó branco impregnar as pontas de seus dedos.

― O que vem à mente de vocês quando leem esta palavra? Não existem respostas erradas, pessoal. Tudo é válido no processo de construção semântica.

As mãos não se levantaram. Os olhares estavam perdidos. Dois alunos na fileira da janela faziam uma complexa troca comercial envolvendo um pacote de biscoitos recheados moídos e uma caneta esferográfica de quatro cores.

Finalmente, um menino franzino, sentado bem na frente da mesa do professor, ergueu a mão timidamente. Ele tinha o olhar distante de quem habitava dimensões paralelas durante o horário comercial e só descia à Terra por acidente. Seu nome, Arthur descobriria depois no diário de classe do Leda Tajra, era Maicon. O filósofo do nada.

― Sim? Diga, meu jovem. ― Encorajou Arthur, sorrindo e estendendo a mão espalmada para o garoto, como manda o manual da escuta ativa.

― Professor... ― Maicon olhou fixamente para o giz na mão de Arthur. ― Se o sol engolir a Terra amanhã de tarde, as notas do boletim ainda vão contar para a recuperação final?

Arthur congelou. Procurou desesperadamente em sua memória, revirando gavetas mentais das aulas de didática, psicologia da educação, fundamentos de sociologia. Nenhum autor, em nenhum simpósio internacional, o alertou sobre o niilismo cósmico do aluno brasileiro do ensino fundamental.

― Maicon, isso é... bem... isso é astrofísica. E um tanto catastrofista. Nossa matéria hoje foca nas relações sociais. O que aconteceria com os direitos civis se o mundo acabasse? ― Arthur tentou, num esforço colossal, amarrar o absurdo à sua aba de currículo.

― E tem gente que faz prova na recuperação sendo que o mundo nem acabou ainda, professor. ― Resmungou uma garota do fundo, pintando as unhas com corretivo líquido branco de forma metódica.

Aquela sala de aula não precisava de metodologias ativas. Aquela sala de aula operava em um estado de sobrevivência cínica, onde o conteúdo pragmático não importava, e o tempo era a única moeda real. O professor não era visto como um portador da luz do saber, mas como um guarda de trânsito em uma estrada engarrafada e infinita, de quem eles queriam apenas descobrir o percurso mais curto para escapar dali.

Nos quarenta minutos seguintes, Arthur experimentou todas as fases do luto profissional. A princípio, a negação: tentou distribuir post-its coloridos para a tempestade de ideias. Em menos de três minutos, os post-its amarelos haviam sido colados nas costas de colegas distraídos com mensagens impublicáveis numa crônica, metodicamente transformando a ferramenta pedagógica em instrumento de bullying socioconstrutivista.

Depois, veio a raiva disfarçada de autoridade. Tentou aumentar o volume da voz para competir com o ventilador de teto, que parecia estar moendo pedras em seu interior metálico. O suor já não era discreto. Minava de sua testa, escorria pelo pescoço, ensopava as axilas da camisa azul outrora impecável. Ele andava de um lado para o outro, discursando fervorosamente sobre direitos e deveres, enquanto Darlan, com um relógio digital gigantesco no pulso, balbuciava a contagem regressiva com os lábios, olhando para ele.

Por fim, a barganha.

Dez minutos antes do sinal, Arthur sentou-se na beirada de sua mesa. A camisa estava manchada de pó de giz verde, misturado ao suor, resultando numa pasta cinzenta espalhada por seus cotovelos e barriga. O plano de aula, esquecido dentro da pasta catálogo, agora parecia um antigo pergaminho de uma religião morta que já não fazia sentido naquele local profano.

― Certo... ― A voz de Arthur saiu mais baixa, sem o timbre aveludado da falsa segurança acadêmica. Era a voz de um homem derrotado pela termodinâmica e pela antropologia adolescente. ― Se vocês ficarem em absoluto silêncio durante três minutos cronometrados... sem respirar tão alto, sem balançar os pés de ferro das carteiras, e guardarem esse corretivo... eu lidero a saída pro recreio cinco minutos antes.

Darlan sorriu um sorriso tão afiado de malícia que pareceu rasgar o horizonte. Ele ergueu a mão direita, fazendo um sinal universal de pacificação para a turma. Num milagre imediato, incomparável com qualquer metodologia ativa que Paulo Freire ou Piaget pudessem documentar, a turma oitocentos e dois mergulhou no mais profundo, respeitoso e absoluto silêncio. Um silêncio comprado, comercial, puro e simples.

Quando a sirene rasgou o ar, soando como o último trompete do apocalipse na velha escola, os quarenta alunos se ergueram simultaneamente e desapareceram pela porta em um fluxo contínuo e violento, deixando para trás um rastro de carteiras fora do lugar, farelos enigmáticos de salgadinho e um Arthur esgotado, segurando um pedaço de giz que já estava pela metade.

Arthur caminhou até o pátio interno e procurou a sala dos professores. Abriu a porta do refúgio, e uma nuvem de ar condicionado bateu em seu rosto como um afago divino, misturada ao aroma inegavelmente anestésico do café requentado em garrafões de plástico.

O ambiente interno operava como um hospital de campanha. Ao redor de uma longa mesa oval com forro de plástico imitando renda, espalhavam-se mestres de expressões variadas. Alguns corrigiam provas com a velocidade de caixas de supermercado; outros olhavam fixamente para o nada, travando diálogos invisíveis; e alguns simplesmente riam. Um riso baixo e cínico, o riso funcional de quem desenvolveu uma defesa coletiva contra o absurdo.

No canto da sala de professores, o veterano Professor Ribamar, mestre da disciplina de Geografia e de sobrevivência, segurava sua caneca térmica. Ribamar tinha os cabelos brancos penteados para trás e vestia uma camisa de botão envelhecida pelo tempo, mas limpa de giz. Ele sabia onde não encostar. Ele olhou para Arthur dos pés à cabeça. Reparou na sujeira esbranquiçada no terno improvisado, reparou nos olhos arregalados de choque adrenalínico.

― Deixa eu adivinhar... ― A voz de Ribamar soava grossa, raspando como lixa. ― Oitocentos e dois. E você tentou fazer dinâmica de roda.

Dois outros professores que corrigiam pilhas de folhas de almaço começaram a rir baixinho. Mas não era um riso cruel. Era o riso de acolhimento. A risada da fraternidade dos lascados, a identificação imediata do caos do magistério.

Arthur caminhou lentamente até a mesa, encostou a pasta catálogo perfeita e inútil perto do garrafão de café, e deixou os braços pesarem junto ao corpo.

― Eu só queria mudar o paradigma espacial, professor Ribamar ― murmurou Arthur, servindo-se do líquido escuro e fumegante num copinho plástico que derretia levemente com o calor.

― Rapaz, paradigma espacial aqui a gente muda quando chove e o teto da sala pinga em cima da mesa do aluno. Aí a gente afasta a carteira para não molhar o diário. Fora isso, de frente para a lousa e encostado na parede para não tomar bolinhada por trás ― Ribamar deu um gole largo em sua caneca. ― Você acha que eles se importam com a sua teoria, menino? O instinto humano, em seu estado mais primata e selvagem dentro de um prédio escolar, quer apenas duas coisas: energia processada em formato de lanche de graça, e a diminuição do tempo dentro da instituição disciplinar. O resto é ilusão do MEC.

O conselho professoral na mesa soltou mais alguns murmúrios de concordância. Uma senhora com óculos encostados na ponta do nariz e que ensinava História levantou os olhos de sua pilha de provas.

― Não se preocupe, meu filho. O seu primeiro milagre não é ensinar tudo. O seu primeiro milagre é o aluno Maicon não ter te perguntado se você já fez contato com alienígenas durante a chamada. Porque comigo, ele perguntou ontem. É um batismo. A gente entra achando que é o jardineiro semeando flores, e descobre que é o guarda do zoológico de portas abertas.

As risadas ecoaram pela sala abafada, ruidosas, genuínas, desprovidas de qualquer intenção heroica. Eram apenas trabalhadores em uma linha de montagem emocional desgastante, encontrando alívio cômico nas frestas de suas próprias tragédias cotidianas. Arthur bebeu o café amargo, que desceu queimando o estômago e finalmente acordando seu senso de realidade. Olhou para as palmas de suas próprias mãos, cravejadas nas ranhuras digitais pelo pó calcário, a marca registrada da classe. A prova material de que ele agora não era mais um acadêmico utópico; era um de operação tática.

Passou o olhar ao redor, observando os rostos cansados, os diários amontoados, canetas mordidas pela ansiedade. E enquanto bebia as últimas gotas, sua visão focou na parede de azulejos pálidos atrás da garrafa de café, preenchida de fita adesiva amarelada e comunicados antigos. Apenas um item recebia reverência unânime ali, limpo e bem posicionado no centro visual de todos os presentes, sem a poeira que acometia todo o resto do colégio.

Era a folha solta de papel couché brilhante ostentando a grelha de dias e semanas. Cada olhar exausto que se erguia de uma correção penosa de provas fatalmente ancorava, por pura instabilidade mental, naquele quadrante cheio de quadradinhos pretos e raros e preciosos retalhos vermelhos. Lentamente, como quem decifra um mapa do tesouro capaz de interromper o sufocamento crônico do ruído dos ventiladores e do pó esmagador das lousas, Arthur flagrou a si mesmo memorizando as datas destacadas, entendendo o porquê de os olhares dos veteranos estarem fixos lá, buscando oxigênio nos números da matemática temporal. Ali repousava a verdadeira âncora de sanidade do educador brasileiro contemporâneo.

Por José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Conista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade