O despertador, um galo que teimava em cantar muito antes de o horizonte clarear, soou como um aviso de batalha para Alzira. Em Alto Alegre do Maranhão, o dia não chega devagar. Ele irrompe, como se o sol tivesse urgência de alcançar cada telhado. Ela se levantou da rede antes que o primeiro sinal de claridade tocasse o chão de terra batida, cuidando para não despertar os dois meninos que dormiam enroscados no catre.
O café, ralo e amargo, foi tomado em silêncio. Era o único momento em que a casa, construída com tábuas e que o tempo havia curado, oferecia algum sossego antes das exigências da lida.
Ao sair, o ar ainda tinha aquele frescor enganoso, uma brisa leve que logo seria engolida pelo sol impiedoso do Maranhão. Alzira trajava uma camisa de mangas compridas, já puída pelos anos, uma proteção insuficiente contra o mormaço que a esperava. Carregava a enxada como se fosse uma extensão de seu próprio braço; o metal, desgastado pelo atrito constante com a terra, brilhava sob a luz lunar que ainda persistia.
O trajeto até a roça era uma subida exigente, um terreno íngreme onde cada passo era um exercício de equilíbrio. Alzira não caminhava por gosto, caminhava por contrato, um acordo tácito com a existência para garantir que, ao final do mês, a mesa não ficasse vazia. A terra ali era caprichosa; um dia oferecia sustento farto, noutro, exigia suor de sangue para entregar um punhado de raízes mirradas. Ela limpava o mato com uma técnica precisa, um movimento rítmico que impedia a exaustão total. Seus olhos, habituados a identificar brotos de ervas daninhas quase invisíveis, varriam o solo com uma atenção febril.
Perto do meio-dia, o sol já não era uma presença, mas um martelo. A umidade da terra subia como um bafo quente, e o suor escorria pelas têmporas, ardendo nos olhos. Alzira se sentou sob a sombra rudimentar de um pé de manga rosa, o único refúgio naquelas cercanias. O almoço era escasso: uma porção de farinha misturada com um pouco de proteína, guardada em uma vasilha de plástico.
Enquanto mastigava, não pensava no cansaço ou nas dores que latejavam em sua lombar. Pensava nos cadernos dos meninos.
Na noite anterior, depois da janta, Tiago espalhara o caderno sobre a mesa de madeira. A lamparina desenhava sombras compridas sobre as páginas.
— Mãe... a professora disse que isso aqui cai na prova.
Ele apontou o mapa do Brasil.
— Onde fica o Cerrado? — Perguntou Tiago.
Alzira aproximou o rosto. As letras pareciam pequenas demais. Passou o dedo devagar pelas linhas, como se pudesse encontrar a resposta pelo tato.
— Lê de novo pra mim, meu filho.
Tiago repetiu a pergunta. Ela permaneceu em silêncio. O menino esperou.
— A senhora não sabe?
A pergunta saiu sem maldade. Era apenas curiosidade. Alzira baixou os olhos:
— Não sei, não.
Tiago fechou o caderno com cuidado.
— Tudo bem... amanhã eu pergunto pra professora.
Ele tentou sorrir, mas o sorriso morreu antes de chegar aos olhos. Nesse instante, o menor, que desenhava no chão com um pedaço de carvão, levantou a cabeça.
— Quando eu crescer, vou ensinar a mamãe.
Os dois irmãos riram. Alzira também sorriu. Mas foi um sorriso curto, desses que escondem alguma coisa. Ela passou a mão pelos cabelos de Tiago.
— Não quero que vocês me ensinem porque eu não pude aprender. Quero que estudem porque o mundo é maior que essa roça.
Tiago olhou pela janela. A lua clareava apenas um pedaço do terreiro.
— Maior quanto? — Quis saber Tiago.
Alzira demorou para responder. Depois fitou a escuridão, onde começavam os caminhos que nunca havia percorrido.:
— Grande o bastante pra vocês escolherem onde querem plantar a própria vida.
O silêncio voltou para a casa. Lá fora, um grilo insistia no mesmo canto. Tiago abriu novamente o caderno. Dessa vez não para perguntar. Mas para continuar estudando. E Alzira percebeu que, embora não soubesse responder àquela questão de geografia, talvez estivesse ensinando a mais importante de todas.
A tarde seguiu nesse embate. Alzira cavava, revolvia, capinava. Suas mãos, grossas, com rachaduras que acumulavam o pó da terra, narravam uma biografia de renúncias.
Às vezes, quando tinha certeza de que não havia ninguém por perto, Alzira cantava.
Era um canto baixo, quase um segredo, aprendido com a mãe ainda menina. A melodia saía desafinada pelo cansaço, mas bastava para acompanhar o ritmo da enxada. O vento levava metade das palavras; a outra metade ficava enterrada junto das raízes que arrancava.
Parou de repente. Um estalo no mato fez seu corpo enrijecer. Ergueu a cabeça.
Os olhos percorreram a cerca de varas, os galhos secos, a vereda por onde, vez ou outra, apareciam cobras ou algum estranho atravessando propriedades.
Ninguém.
Ela respirou fundo e sorriu de si mesma:
— Estou ficando medrosa... — Murmurou.
Voltou ao trabalho.
Enquanto a enxada afundava na terra, outra lembrança emergiu. Quando era menina, dizia ao pai que queria ser professora.
Gostava do cheiro dos cadernos novos e das letras desenhadas no quadro da pequena escola da comunidade. Imaginava-se escrevendo o próprio nome todos os dias com giz branco.
Mas a seca de um ano ruim levou primeiro a colheita. Depois levou a escola. E, por fim, levou a infância. Nunca mais falou daquele sonho. Nem para o marido, quando ainda era vivo. Nem para os filhos. Alguns sonhos, aprendera cedo, sobrevivem melhor quando permanecem calados.
Mesmo assim, havia dias em que, sem perceber, corrigia a maneira como Tiago segurava o lápis, alisava as folhas amassadas dos cadernos ou passava a mão sobre os livros como quem acaricia uma porta que nunca conseguiu atravessar.
Então voltava a cantar. Não porque estivesse feliz. Mas porque certas canções conseguem carregar um peso que as palavras não suportam. A enxada desceu outra vez.
E o compasso entre o ferro e a terra pareceu acompanhar a antiga cantiga, como se o chão conhecesse sua história havia muito mais tempo do que qualquer pessoa.
Cada golpe da enxada era um depósito invisível para o futuro dos filhos. À medida que o sol descia, tingindo o céu de um alaranjado violento, ela reunia as ferramentas. O cansaço era absoluto, uma dormência que dominava cada articulação, mas sua mente permanecia estranhamente aguçada. Ela observava a roça, o resultado de seu esforço, e sentia um orgulho silencioso. Não era uma propriedade gloriosa, não havia colheitas recordes, havia apenas a subsistência conquistada a preço de ouro líquido.
O retorno para casa era feito no crepúsculo. Quando atravessava a porta, o cheiro de madeira antiga e de fogão a lenha a recebia. Os meninos estavam acordados, rabiscando folhas com lápis gastos. O mais novo, ao vê-la, correu para abraçar seu avental sujo. Alzira sentiu um alívio que transcendia o cansaço. Ela não via as marcas em suas mãos como feridas, mas como selos de uma jornada que, embora exaustiva, mantinha a família em pé.
Durante o jantar, enquanto ouvia as histórias da escola, ela quase não falava.
Tiago terminou de comer, limpou os dedos na barra da bermuda e puxou o caderno da mochila.
— Mãe, a professora pediu uma redação.
Abriu na última página.
As letras ainda tropeçavam umas nas outras, algumas grandes demais, outras espremidas entre as linhas. Havia palavras riscadas, setas apontando para correções e um pequeno "Muito bem!" escrito em tinta azul no alto da folha.
Tiago respirou fundo.
— Posso ler?
Alzira fez que sim.
O menino começou devagar. Lia sobre a chuva que demorava a chegar, sobre o cheiro da terra molhada e sobre a esperança de ver a roça outra vez coberta de verde. À medida que as palavras saíam de sua boca, os olhos de Alzira deixavam o caderno e repousavam no rosto do filho.
Quando terminou, ele fechou o caderno com cuidado. Ficou alguns segundos em silêncio. Então perguntou:
— Mãe... escrevi bonito?
Alzira sentiu o peito apertar.
Ela não sabia dizer se havia vírgulas fora do lugar, se os verbos estavam certos ou se alguma palavra carregava letras sobrando.
Sabia apenas reconhecer a verdade. Passou a mão devagar pelos cabelos do menino e sorriu:
— Bonito é quando a palavra leva a gente mais longe.
Tiago olhou novamente para o caderno. Sorriu também. Não porque tivesse certeza de que escrevera corretamente. Mas porque compreendeu que escrever podia ser uma maneira de caminhar sem sair do lugar.
O silêncio, naquela hora, era um ato de contemplação. Enquanto os meninos comiam, ela observava os raios de luz que entravam pelas frestas da parede de barro e talos, iluminando o pó que flutuava no ar. Ali, naquela precariedade, o mundo fazia algum sentido. Ela tinha a terra sob as unhas, o sol marcado na pele e o futuro dos filhos pulsando na mesa. Alzira sabia que o sol de amanhã seria novamente um teste de resistência, que a enxada continuaria pesada e que o esforço não teria fim. Mas enquanto houvesse força para levantar a mão e virar o solo, haveria esperança. A jornada era dura, mas cada dia era um pouco de solo lavrado para que os filhos, um dia, não precisassem aprender a ler o mundo apenas pelo cansaço da terra, mas pela possibilidade de um destino por eles mesmos escolhido.






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