segunda-feira, 31 de agosto de 2026

CRÔNICA DO DIA: O Passo Limite

O silêncio na casa de Antônia em  São Luís Gonzaga não era de paz, era de morte. A cada passo que dava sobre o assoalho de madeira, Antônia evitava as tábuas que rangiam, uma coreografia que ela aprimorara por anos para não despertar a ira de Ricardo. A fita adesiva que ela usava para fixar a pequena mala embaixo do banco do carro de aluguel,  que a esperaria a três ruas de distância, na sombra de um cajueiro antigo  parecia fazer um barulho ensurdecedor contra o seu medo.

O "Passo Limite" não era apenas o nome da rua para onde ela se dirigia; era exatamente o contorno que ela traçava entre a existência que ele tentava apagar e a vida que ela começava a vislumbrar.

Antônia sentiu o peso do pequeno maço de dinheiro que juntara moeda a moeda, escondido no fundo de um pote de farinha, o único esconderijo que ele nunca inspecionava devido ao desprezo que sentia pelas coisas da cozinha.

Embaixo da pia, um bilhete amarelado contava o contato de Cida, uma das cabeleireiras do bairro que, sob a fachada de cortes e colorações, geria a rede de proteção que as mulheres daquela cidade haviam tecido na surdina.

Não havia cartazes, nem megafones, apenas olhares trocados intensamente entre mulheres na feira, toques no ombro e sussurros que prometiam abrigo quando a dor superasse o medo.

O relógio na parede parecia atrasado, arrastando os ponteiros enquanto o som da respiração pesada de Ricardo, no quarto ao lado, confirmava que ele estava mergulhado no sono profundo do álcool. Era a brecha. O "Passo Limite". Se errasse o tempo da partida, a represália seria definitiva. Ela vestiu o casaco, não para se aquecer da noite úmida de São Luís Gonzaga, mas para esconder a silhueta que ele tentara controlar, reduzir e humilhar durante toda a década de casamento.

Caminhar até a saída foi um exercício de tortura.

Cada sombra na parede parecia uma mão esticada.

Quando alcançou a maçaneta da porta dos fundos, o medo subiu por seus pés, congelando seus nervos.

Lembre-se, ela repetia para si mesma, como um mantra, que a pele que ele marcava não lhe pertencia. A marca era dele, a pele era sua.

Na esquina, o sinal combinado : três batidas lentas no metal do portão  foi seguido pelo motor abafado de um veículo conhecido. Cida estava lá, ao volante, com o rosto iluminado apenas pela luz tênue do painel. Não houve perguntas, apenas o gesto de porta aberta. Ao entrar no carro, o cheiro de perfume de lavanda de Cida soou como o cheiro da própria liberdade. Enquanto elas se afastavam, Antônia não olhou para trás. Não era necessário. A imagem daquela fachada, com suas luzes apagadas e seu domínio opressor, já não exercia poder sobre ela.

A rede de proteção funcionava como uma engrenagem silenciosa. Na casa de uma tia distante de Cida, num bairro vizinho, o refúgio estava  montado. Havia uma cama com lençóis limpos, um pouco de água e a promessa de que, pelos próximos dias, ninguém entraria ali. Enquanto comiam um resto de bolo em silêncio, sem precisar explicar os motivos da cicatriz no braço ou o motivo de seu coração bater como um tambor, Antônia compreendeu algo que a rede secreta sabia há tempos: a violência doméstica prospera no isolamento, mas o primeiro passo para a superação é a interrupção desse silêncio.

— Você não está sozinha. — Disse Cida, segurando suas mãos calejadas. — Nunca mais.

Antônia encostou a cabeça no ombro da amiga e fechou os olhos. A liberdade, ela descobriu, não veio com a grandiosidade de um espetáculo, mas com a quietude de uma escolha. Ali, naquele refúgio secreto, a dignidade não era mais um conceito distante que ela tentava alcançar, mas o ar que ela respirava. O Passo Limite foi apenas a travessia de um umbral  do medo em direção ao território desconhecido da própria autonomia.

 Ela sabia que os próximos dias seriam de burocracia, documentos, Delegacia da Mulher em Bacabal,  ordens restritivas e o medo latente de ser encontrada, mas pela primeira vez em dez anos, o horizonte não estava bloqueado pela vontade de um homem. Ela era, enfim, a dona de sua própria direção, caminhando para um futuro onde a única marca que restaria em sua pele seria o símbolo de uma escolha que ela, e apenas ela, fizera em nome da sua paz.


José Casanova 

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