O silêncio na casa de Antônia em São Luís Gonzaga não era de paz, era de morte.
A cada passo que dava sobre o assoalho de madeira, Antônia evitava as tábuas
que rangiam, uma coreografia que ela aprimorara por anos para não despertar a
ira de Ricardo. A fita adesiva que ela usava para fixar a pequena mala embaixo
do banco do carro de aluguel, que a esperaria
a três ruas de distância, na sombra de um cajueiro antigo parecia fazer um barulho ensurdecedor contra
o seu medo.
O "Passo Limite" não era apenas o nome da rua
para onde ela se dirigia; era exatamente o contorno que ela traçava entre a
existência que ele tentava apagar e a vida que ela começava a vislumbrar.
Antônia sentiu o peso do pequeno maço de dinheiro que
juntara moeda a moeda, escondido no fundo de um pote de farinha, o único
esconderijo que ele nunca inspecionava devido ao desprezo que sentia pelas
coisas da cozinha.
Embaixo da pia, um bilhete amarelado contava o contato de
Cida, uma das cabeleireiras do bairro que, sob a fachada de cortes e
colorações, geria a rede de proteção que as mulheres daquela cidade haviam
tecido na surdina.
Não havia cartazes, nem megafones, apenas olhares trocados
intensamente entre mulheres na feira, toques no ombro e sussurros que prometiam
abrigo quando a dor superasse o medo.
O relógio na parede parecia atrasado, arrastando os ponteiros
enquanto o som da respiração pesada de Ricardo, no quarto ao lado, confirmava
que ele estava mergulhado no sono profundo do álcool. Era a brecha. O
"Passo Limite". Se errasse o tempo da partida, a represália seria
definitiva. Ela vestiu o casaco, não para se aquecer da noite úmida de São Luís
Gonzaga, mas para esconder a silhueta que ele tentara controlar, reduzir e
humilhar durante toda a década de casamento.
Caminhar até a saída foi um exercício de tortura.
Cada sombra na parede parecia uma mão esticada.
Quando alcançou a maçaneta da porta dos fundos, o medo
subiu por seus pés, congelando seus nervos.
Lembre-se, ela repetia para si mesma, como um mantra, que a
pele que ele marcava não lhe pertencia. A marca era dele, a pele era sua.
Na esquina, o sinal combinado : três batidas lentas no
metal do portão foi seguido pelo motor abafado
de um veículo conhecido. Cida estava lá, ao volante, com o rosto iluminado
apenas pela luz tênue do painel. Não houve perguntas, apenas o gesto de porta
aberta. Ao entrar no carro, o cheiro de perfume de lavanda de Cida soou como o cheiro
da própria liberdade. Enquanto elas se afastavam, Antônia não olhou para trás.
Não era necessário. A imagem daquela fachada, com suas luzes apagadas e seu
domínio opressor, já não exercia poder sobre ela.
A rede de proteção funcionava como uma engrenagem
silenciosa. Na casa de uma tia distante de Cida, num bairro vizinho, o refúgio
estava montado. Havia uma cama com
lençóis limpos, um pouco de água e a promessa de que, pelos próximos dias,
ninguém entraria ali. Enquanto comiam um resto de bolo em silêncio, sem
precisar explicar os motivos da cicatriz no braço ou o motivo de seu coração
bater como um tambor, Antônia compreendeu algo que a rede secreta sabia há tempos:
a violência doméstica prospera no isolamento, mas o primeiro passo para a
superação é a interrupção desse silêncio.
— Você não está sozinha. — Disse Cida, segurando suas mãos
calejadas. — Nunca mais.
Antônia encostou a cabeça no ombro da amiga e fechou os olhos. A liberdade, ela descobriu, não veio com a grandiosidade de um espetáculo, mas com a quietude de uma escolha. Ali, naquele refúgio secreto, a dignidade não era mais um conceito distante que ela tentava alcançar, mas o ar que ela respirava. O Passo Limite foi apenas a travessia de um umbral do medo em direção ao território desconhecido da própria autonomia.
Ela sabia que os próximos dias seriam de burocracia, documentos,
Delegacia da Mulher em Bacabal, ordens
restritivas e o medo latente de ser encontrada, mas pela primeira vez em dez
anos, o horizonte não estava bloqueado pela vontade de um homem. Ela era,
enfim, a dona de sua própria direção, caminhando para um futuro onde a única marca
que restaria em sua pele seria o símbolo de uma escolha que ela, e apenas ela,
fizera em nome da sua paz.
José Casanova







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