domingo, 9 de agosto de 2026

CRÔNICA DO DIA: O Axé delas

 

O chão de Matinha respirava calor. Dele subia um vapor espesso, semelhante ao que enchia a cozinha de barro quando a água fervia. Mãe Adília nunca confundiu aquele bafo com cansaço. Ela batia o dendê na gamela com a força de quem, durante décadas, havia batido de frente com o desdém, a ofensa e a intolerância calada que atravessava os olhos de alguns vizinhos toda vez que o som do atabaque começava a ecoar pela vila.

A preparação para a festa dos orixás era um exercício de resistência política, uma coreografia detalhada de tradições que ela carregava no sangue.

Havia flores brancas espalhadas em bacias de barro pelas paredes do terreiro, e o cheiro do banquete sendo preparado ;o xinxim, o abará, a doçura da canjica  ocupavam cada fresta daquela casa como se fosse um escudo invisível. Adília sabia que, para além daquela cerca de madeira, havia murmúrios.

Pessoas que olhavam para o terreiro não como um centro de cura e espiritualidade, mas como um alvo.

— Mãe, eles estão passando de novo. — Sussurrou a pequena Iara, ajudando a organizar as contas de cristal num prato de louça. — Estão olhando feio e com celular na mão, gravando a gente.

Adília não olhou para a rua. Ela continuou seu trabalho, movendo os dedos ágeis sobre os preparados.

— Deixa que gravem, minha filha. Ninguém que vive na sombra consegue suportar o brilho de quem celebra o Axé com a alma limpa. Eles nos chamam de estranhos porque a nossa fé não se curva aos templos que eles construíram para restringir Deus. O nosso terreiro é o chão, a raiz, o vento. Isso dói neles.

Liderar um terreiro em uma cidade pequena como Matinha não era tarefa para mãos vacilantes. Adília era a autoridade máxima, a conselheira, a juíza e a curandeira. Pela manhã, recebia mulheres que buscavam amparo para seus casamentos arruinados ou para a falta de sustento; à tarde, organizava o cuidado com os mais velhos; e, ao cair da noite, tornava-se o canal por onde a energia ancestral manifestava sua sabedoria.

O terreiro começou a ganhar outro ritmo. Seu Benedito entrou carregando um dos atabaques debaixo do braço. Sentou-se num banco de madeira e, com a calma de quem conhecia cada fibra do couro, começou a apertar as cordas do instrumento. Deu dois toques leves. Depois mais três e sorriu satisfeito.

Agora ele acordou.

Perto da cozinha, Dona Celina distribuía folhas de bananeira sobre a mesa enquanto duas jovens terminavam de embrulhar os abarás. O cheiro do dendê misturava-se ao perfume das ervas recém-colhidas. No quintal, um menino observava os mais velhos com curiosidade. Arriscou repetir um dos cantos que ouvia desde pequeno.

Errou a melodia despertando o riso de alguns. Mãe Adília aproximou-se e pousou a mão sobre o ombro do menino.

Não tenha pressa. O tambor ensina primeiro o ouvido. Depois ensina o coração.

O menino abaixou a cabeça, envergonhado sob a benção do sorriso de Mãe Adília.

Quem aprende a escutar os mais velhos nunca canta sozinho.

As mulheres retomaram o preparo da comida. Os atabaques voltaram a ressoar.

As vozes se misturaram ao cheiro das panelas e ao vento que atravessava o quintal. Naquele instante, o terreiro deixava de ser apenas um lugar de culto. Era uma casa onde a memória continuava encontrando quem estivesse disposto a recebê-la.

A intolerância, que chegava em forma de pedras arremessadas contra o telhado na calada da noite ou em olhares julgadores na feira municipal, era sentida, mas já não possuía o poder de paralisá-la.

Perto do final da tarde, a chuva chegou sem aviso, lavando a poeira e purificando o pátio. Quando os primeiros toques dos atabaques começaram, o som parecia crescer de dentro das entranhas da terra.

Adília vestiu seus panos brancos, o turbante ajustado com dignidade régia, e assumiu seu posto à frente dos filhos de santo. Ela era a imagem da resistência pura: uma mulher negra, matriarca e guia, sustentando em seus ombros o peso daquela liturgia que seus antepassados guardaram a sete chaves sob o chicote e a perseguição.

Enquanto cantava a saudação aos orixás, Adília sentia a presença daquelas que vieram antes dela,  as pretas velhas, as Iabás, as guerreiras que não permitiram que a história de seu povo fosse enterrada. Do lado de fora da cerca, o grupo de curiosos e críticos aos poucos se dispersou; o poder daquela celebração, aquele batida firme, aquele canto rítmico que não pedia permissão para ser, era simplesmente grande demais para ser contido pelo preconceito alheio.

Ao final da celebração, quando o último tambor parou de ressoar, o terreiro estava em silêncio. Um silêncio sagrado. Mãe Adília sentou-se na cadeira de encosto alto, sentindo a energia da noite vibrar em sua pele como uma carga elétrica suave.

As últimas velas ainda tremeluziam quando o terreiro começou a esvaziar. Os filhos de santo recolhiam os bancos, apagavam algumas lamparinas e guardavam os atabaques com o mesmo cuidado com que se protege uma herança. Mãe Adília permanecia sentada, respirando o silêncio que sempre vinha depois dos cantos. Ouviu passos do lado de fora da cerca.

Levantou os olhos. Era Dona Conceição, uma vizinha conhecida pelas idas diárias aos cultos da Assembleia de Deus.. Trazia nas mãos um pequeno saco de papel. Parou diante do portão, um pouco acanhada. Estendeu o embrulho.

Trouxe porque sei que vocês usam.

Adília abriu o saco. Dentro havia algumas velas brancas. Olhou para a vizinha.

Por um instante, nenhuma das duas falou. Não havia necessidade. Dona Conceição apenas sorriu de leve, fez um discreto aceno com a cabeça e voltou pelo mesmo caminho, desaparecendo na rua iluminada apenas pelos postes e pela lua.

Mãe Adília segurou uma das velas entre os dedos. Sorriu também. Nem toda ponte era construída com palavras. Algumas nasciam de um gesto pequeno, silencioso e corajoso, capaz de atravessar muros que o preconceito insistia em levantar.

 Ela sabia que amanhã enfrentaria novamente o nariz torcido na rua, os olhares atravessados, a negação  constante de sua cultura. Mas naquela noite, sob a luz das velas, ela tinha certeza: ela era o elo. A intolerância podia tentar cercar o terreiro de Matinha, podia tentar diminuir a força daquela fé com leis ou dogmas, mas não havia poder na terra capaz de estancar o fluxo de uma ancestralidade que, cada vez que Adília batia o tambor, reescrevia sua própria história de grandeza, resistência e, acima de tudo, liberdade. Ela não estava ali apenas para realizar uma festa; estava ali para reafirmar que, onde quer que houvesse uma mulher que soubesse o seu lugar de origem, o sagrado jamais seria vencido por um mundo que ainda não aprendeu a respeitar a natureza divina do outro

José Casanova 

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