O corredor da escola Nauro Machado em São Luís exalava aquele bafo quente de meio-dia, uma mistura de maresia represada e o cheiro metálico de portões que já sofreram dez camadas de zarcão. Mas, ao cruzar a porta da sala dos professores, o microclima mudava. Ali era o "Bunker". O ar-condicionado, um modelo de janela que roncava como um trator de esteira, mantinha a temperatura em níveis glaciais, criando uma redoma de sobrevivência onde o giz não ousava flutuar.
No centro do bunker, sobre uma mesa que sustentava pilhas de provas grampeadas tortas e diários de classe que pareciam manuscritos do Mar Morto, reinava o objeto de culto absoluto: a garrafa térmica de dois litros.
— Acabou o açúcar ou eu perdi o paladar por causa do estresse? — Perguntou Márcia , professora de Biologia, enquanto despejava um líquido negro e viscoso num copinho plástico que começou a deformar instantaneamente sob o calor da bebida.
— O açúcar acabou na terceira aula, Márcia. O que você está bebendo agora é puro extrato de luto pedagógico e cafeína industrial. — Respondeu Joaquim Kicil, o mestre de Filosofia, que corrigia pilhas de redações com a resignação de quem espera encontrar o sentido da vida em textos sobre "a importância da internet".
Joaquim levantou uma folha, os olhos vermelhos de sono e poeira.
— Escutem essa: "O Filósofo Platão dizia que o homem vive numa caverna, mas hoje em dia a caverna tem Wi-Fi e ar-condicionado, então ninguém quer sair de lá para ver o sol porque o sol queima a retina e estraga o brilho do celular". Alguém me explica? Eu dou o ponto ou eu entro com um pedido de licença-capacitação para estudar a física do absurdo?
Uma risada rouca veio do fundo da sala, onde Adelaide, veterana de Português, lutava contra um grampeador que insistia em cuspir grampos inúteis.
— Joaquim, meu filho, dê o ponto e peça um café novo. Na minha prova de gramática, um abençoado escreveu que o coletivo de 'professor' é 'sofredor'. Eu ia dar errado, mas parei, olhei para o espelho do banheiro, vi minhas olheiras e decidi que a resposta era uma verdade linguística incontestável. Ele ganhou meio ponto pela sinceridade antropológica.
O Bunker era o único lugar onde a hierarquia acadêmica se dissolvia em ironia. Ali, o Doutor em Letras e a recém-formada em Geografia dividiam o mesmo destino: a busca incessante por um feriado que caísse na quinta-feira e a observação clínica do corpo discente.
— Vocês viram o que o Max fez hoje? — Márcia sentou-se, abraçando o copo quente como se fosse um amuleto. — Ele passou a aula inteira olhando para o ventilador de teto e me perguntou se, caso o ventilador caísse e girasse no chão, ele viraria um drone ou um beyblade. Eu estava explicando a mitocôndria, gente. A usina energética da célula!
— O Max é um gênio incompreendido pela BNCC. — Comentou Joaquim, secamente. — Ele está operando em uma frequência quântica onde o conteúdo programático é apenas ruído de fundo.
A porta do Bunker se abriu e um rastro de calor entrou, trazendo o barulho ensurdecedor do recreio: gritos, apitos e o som de uma bola de capotão batendo contra a grade. Entrou Ricardo, o professor de Educação Física, com a camisa suada e o semblante de quem acaba de apartar uma guerra civil por causa de um escanteio não marcado.
— Alguém tem um paracetamol? Ou um rivotril de uso tópico? — Ricardo desabou na cadeira ao lado da garrafa térmica. — Os meninos do nono ano resolveram que o futebol hoje seria no estilo 'Vale Tudo'. Eu tentei intervir e um deles me disse que, segundo as leis da física que o professor de ontem explicou, ele não estava batendo no colega, estava apenas testando a terceira lei de Newton em tecidos moles.
— A culpa é da interdisciplinaridade — Adelaide cantarolou, sem tirar os olhos do grampeador. — A gente ensina o conceito e eles usam para a barbárie. É o ciclo natural da educação básica.
O café, aquele néctar amargo que sustentava o moral da tropa, começou a baixar na garrafa. Era o sinal de que o intervalo estava no fim. A conversa no Bunker sempre seguia o mesmo arco dramático: começava com o desespero de uma prova mal respondida, passava pela indignação contra a burocracia do sistema e terminava numa resignação cômica, onde a única saída era rir do próprio cansaço.
— Sabe o que é o pior? — Márcia olhou para o fundo do copo plástico. — Amanhã tem conselho de classe.
Um silêncio fúnebre caiu sobre a sala. O conselho de classe era o apocalipse, julgamento final, o momento em que se decidia quem seguiria para o paraíso das férias e quem arderia no purgatório da recuperação.
— No conselho, eu vou propor uma nova categoria de avaliação. — Disse Joaquim, levantando-se e ajeitando sua pasta. — Além de 'Aprovado' e 'Reprovado', deveríamos ter o 'Milagre Educacional'. Para aqueles que não abriram o caderno o ano inteiro, mas conseguiram decorar a música do TikTok que ajuda a decorar a tabela periódica.
Adelaide soltou o grampeador, que finalmente funcionou, e sorriu com os dentes manchados de café.
— O milagre, Joaquim, é a gente ainda estar aqui, comemorando que a garrafa de café não estava vazia quando a gente chegou.
O sinal tocou. O roncado do ar-condicionado pareceu diminuir diante do rugido dos alunos voltando para as salas. Os professores, munidos de seus diários e de uma paciência que desafiava a medicina moderna, levantaram-se em uníssono. O Bunker seria fechado temporariamente, mas a resistência continuaria nas trincheiras da sala de aula.
Ao sair, Márcia deu um último olhar para a garrafa térmica de Nauro Machado. Ela sabia que, enquanto houvesse café e alguém para ouvir o absurdo do dia, o esgotamento não venceria. Amanhã haveria novas formas de explicar que a vida, assim como o café do bunker, é amarga, mas a gente se acostuma com o sabor depois que a primeira aula começa.
José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade







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