Não existe música que se compare ao sotaque de matraca da Ilha de São Luís. Não se trata de uma melodia que se convida para ouvir, mas de uma força telúrica que se impõe sobre o peito. Quando as centenas de pares de madeira roxa começam a se encontrar, num choque seco, preciso, brutal, o ar se torna denso, físico. É um som que não entra apenas pelos ouvidos; ele caminha pelos poros, sobe pela coluna e encontra o ritmo cardíaco, forçando o sangue a correr na mesma cadência dos batalhões.
Para os moradores da Ilha, o som da matraca é o batimento do próprio coração da terra, o eco que nos une àqueles que, séculos atrás, descobriram que, na falta de metais ou materiais luxuosos, a madeira das matas e o couro dos tambores bastariam para entoar o lamento e a exaltação de um povo inteiro.
No centro da roda, Mestre Nonato no auge dos seus 59 anos, observava os seus com o rigor de um general. À sua volta, nada menos que duzentos brincantes, dispostos em fileiras perfeitas. Eles não eram apenas vizinhos; eram engrenagens de um relógio ancestral.
- Tio, me ajuda a tocar ? – Pediu uma criança de 12 anos com um par de matracas na mão.
Nonato interrompeu a missão e ensinou a criança o ritmo das matracas. O menino erra o compasso.
- Assim filho! – Exemplifica Nonato como um maestro que rege uma orquestra.
O menino retribui com um sorriso baixadeiro. Em poucos segundos o jovem brincante entrava no ritmo e se perdia na multidão.
Neste instante Nonato percebeu que seu primo Raimundo fazia caretas de dor, tentando esconder as bolhas nas mãos. Achou melhor levar Raimundo até as Mutucas para ajudá-lo.
Um copo de mingau ajudou a aliviar a fome antes de começar a cantoria.
Quando a voz do puxador de toadas rasgou o silêncio com o primeiro verso, a resposta não veio em notas musicais, mas no golpe coletivo e ensurdecedor das madeiras. Tá-tá. Tá-tá. Tá-tá. É um som que chora e celebra no mesmo instante, uma ferida aberta que se fecha na palma da mão de quem bate.
A força das matracas é medida pela resiliência. Depois de uma hora de toque ininterrupto, as mãos começam a formigar, o suor corre pelo cabo de madeira tornando a empunhadura escorregadia, e o esforço nos ombros se torna uma queimação persistente. Mas ninguém para.
O sotaque da Ilha exige esse sacrifício porque é, na base, uma memória de resistência. Cada pancada na madeira é um lembrete de que a tradição se mantém não pelo luxo, mas pela repetição exaustiva e sagrada de um gesto que não se permite esquecer. É o choro das matracas que entoa a epopeia de quem não nasceu em berço de ouro, mas que, na arena do Bumba-meu-boi, assume a majestade de reis e rainhas do próprio destino.
As vozes que completam o ritmo são milhares, uma massa sonora que se projeta para além dos telhados e das ruas de asfalto. Quando o batalhão canta em uníssono, o som da matraca serve como o pulsar que impede que a multidão se disperse.
O ritmo frenético cria um vácuo, um centro de gravidade para onde convergem todos os olhares, medos e alegrias daquela gente. É hipnótico. É impossível estar diante de um sotaque de matraca e permanecer indiferente; o corpo convida-se a balançar, a render-se ao compasso que não deixa espaço para o silêncio.
Muitos jovens que crescem nos bairros periféricos de São Luís têm a sua primeira lembrança de mundo ligada a esse som. Antes de aprenderem as primeiras letras na escola, aprendem a bater a matraca na cadência do mestre. É uma escola de vida, onde se aprende que o indivíduo é nada sem o batalhão, e o batalhão é nada sem o ritmo compartilhado.
A matraca ensina a disciplina que a vida nega. Ensina que, para o som sair perfeito, não basta bater forte; é preciso bater junto. No erro de um, desafina-se o todo. Nesse compromisso absoluto com o coletivo, a comunidade se fortalece, criando um laço indissolúvel que garante que, enquanto o som das matracas pairar sobre a Ilha, ninguém estará verdadeiramente sozinho.
À medida que a noite avançava, o som se intensificava em um crescendo épico. O suor de centenas de pessoas levantava do terreiro sob a forma de uma bruma fina que refletia os lampiões de luz fraca. As mãos dos brincantes, calejadas e firmes, pareciam prolongamentos naturais daqueles pedaços de madeira roxa.
Eram mãos que construíam casas, que pescavam nos mangues, que limpavam escritórios e que, durante as noites de junho, transformavam-se em instrumentos de percussão capazes de invocar os ancestrais. O choro da matraca era, na verdade, uma risada de felicidade; era a celebração da própria existência, o grito coletivo de quem sabe que, ao bater daquela forma, está reafirmando sua identidade diante de um mundo que, lá fora, tanto faz questão de ignorar.
Quando o toque final finalmente estalou no ar, um silêncio absoluto e pesado desabou sobre o terreiro. Foi um instante de suspensão, como se a própria Ilha prendesse a respiração em reverência ao que havia acabado de acontecer. Os brincantes, ofegantes, olhavam uns para os outros com a certeza de quem acabara de cumprir um dever sagrado.
Não eram apenas pessoas que haviam passado horas batendo madeira; eram testemunhas da força de um povo que, através de um instrumento tão simples quanto potente, conseguia desafiar o tempo e reafirmar, noite após noite, que o eco de sua história jamais seria silenciado enquanto houvesse alguém disposto a levantar as mãos e fazer a Ilha inteira vibrar sob o pulsar de suas matracas.
José Casanova
Professor, Jornalista, Escrittor e Crônista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade










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