Não há vaqueiro no mundo, por mais experiente que seja nas lidas do campo aberto, que não sinta o peso do peito ao se aproximar da armação do boi no momento de entrada na arena. O boi não é apenas um adereço de veludo e madeira; é o epicentro de uma fé comunitária que se materializou em miçangas e fitas. E é ali, na guarda de honra, onde o vaqueiro campeador assume seu posto, que a festa deixa de ser entretenimento e se converte em responsabilidade. Eles são os vigias, os escudos vivos entre a reverência do sagrado e a agitação frenética das multidões que se aglomeram nos arraiais da capital ou nas praças das cidades do interior.
Sebastião era um desses homens que pareciam ter nascido com o chapéu de couro já encrostado na testa. Suas mãos, calejadas por décadas lidando com o gado de verdade, possuíam uma delicadeza peculiar ao tocar a armação adornada. Ele sabia que o boi, sob o peso dos seus miolos e a pressão da encenação, era um animal vulnerável.
Naquela noite a multidão ameaçava romper o cordão, os vaqueiros precisaram sair de seus espaços para fazer um cordão de isolamento para que o boi pudesse se apresentar. O Tablado era pequeno para apresentar o campear dos vaqueiros.
O trabalho de Sebastião, ao lado dos outros vaqueiros, era abrir o caminho, suavizar a barreira humana e garantir que o boi pudesse girar, investir e reviver a sua lenda sem ser esmagado pela curiosidade desmedida ou pela falta de jeito de quem assiste.
O movimento dos vaqueiros é uma coreografia de autoridade. Eles não correm e não se apressam; eles marcham. Cada passo é medido, o floreio do punho garantindo que o espaço ao redor da brincadeira permaneça respeitosamente preservado. Eles mantêm os ombros erguidos, uma postura de soldado que protege um tesouro real.
De repente o boi perde a postura, era o miolo passando mal. Sebastião foi o primeiro a perceber
-- O que está acontecendo parceiro? – Perguntou Sebastião ao miolo .
- Tô ruim... – Murmurou o miolo do boi quase a desmaiar.
Os vaqueiros retiram o boi e o Miolo ofegante é socorrido pelos brincantes. A brincadeira não pode falar, índias e outros personagens continuam a dançar. José, o Miolo reserva assume a função e a carcaça de talo de buriti ganha vida novamente.
Quando a música de sotaque de orquestra atinge seu momento de maior brilho, o vaqueiro campeador ergue o seu maracá, não como arma, mas como um cetro que demarca o território do mistério Aquela marcação de limite é o que permite ao miolo do boi perder-se no transe. Se o vaqueiro falha, o boi se perde; se o vaqueiro vacila, o sagrado se desmancha.
Há, contudo, uma intimidade silenciosa nesse cuidado. Muitas vezes, no calor do cortejo, Sebastião precisava sussurrar instruções para dentro da abertura da saia do boi, garantindo que o miolo soubesse se deveria virar à esquerda ou se manter firme diante de um obstáculo na multidão. Não eram palavras de comando, mas de sintonia.
O vaqueiro campeador escuta o boi. Ele entende, pela inclinação da carcaça, o cansaço do homem lá dentro, e compensa isso sustentando, por breves segundos, o peso da estrutura nas próprias mãos, um apoio invisível que a plateia nunca percebe, mas que mantém o folguedo de pé.
Nos dias de cortejo pelas ruas estreitas do centro histórico de São Luís, a missão dos vaqueiros testava o limite da resistência. Sob o sol de fim de tarde que insistia em queimar a pele, eles formavam uma linha de defesa inflexível. O brilho dos canutilhos em seus chapéus e coletes funcionava como um aviso visual: ali passa algo que pertence ao povo, mas que exige deferência.
Eles protegiam o boi da poeira excessiva, dos empurrões desajeitados, e até mesmo do excesso de euforia de quem queria tocar o veludo sagrado a qualquer custo. O cuidado com o boi era um exercício contínuo de diplomacia e firmeza.
Quando o boi, em dado momento da toada, arremetia contra o público, parte integrante do ritual de susto e risada, o vaqueiro estava lá para puxar a rédea simbólica, controlando a fera imaginária antes que a brincadeira virasse acidente. É um balé complexo, onde o vaqueiro precisa ser ao mesmo tempo a rédea que segura e o incentivador que faz o boi avançar.
Eles são a fé que não deixa o boi cair. Sem os vaqueiros, o boi seria apenas uma peça de museu, despida de movimento e sem os guardiões que legitimam sua presença nas ruas.
A última toada desceu sobre o terreiro como uma ave procurando pouso. Aos poucos, a multidão começou a se dispersar, levando consigo fragmentos da festa: um refrão assobiado, o brilho de uma lantejoula, a lembrança de um susto arrancado pelo boi. Sebastião permaneceu onde estava por alguns instantes, observando a armação ser conduzida para os bastidores.
O veludo ainda respirava o calor da dança. As fitas balançavam preguiçosamente na brisa da noite, como se relutassem em aceitar que o espetáculo havia terminado.
Ao redor, as luzes se apagavam uma a uma. Mas os vaqueiros continuavam ali, silenciosos, formando o último cordão de proteção. Não guardavam apenas um boi. Guardavam as histórias dos antigos, as promessas feitas em tempos difíceis, as alegrias que resistiam ano após ano.
Quando finalmente virou as costas para o terreiro, Sebastião percebeu que suas pegadas se misturavam às de seus companheiros na terra úmida. Amanhã o vento as apagaria sem deixar vestígio. Ainda assim, ele sorriu. Havia marcas que o chão não conservava, mas que permaneciam vivas no coração de um povo. E eram justamente essas que os vaqueiros passavam a vida inteira protegendo.
José Casanova
Professor,joranalista, escritor e cronista
Membro da Academia Bcabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade











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