segunda-feira, 15 de junho de 2026

CRÕNICA DO DIA: O Voo do Caboclo de pena


A estrutura do corpo humano parece pequena demais para comportar a vastidão do mundo quando se veste a indumentária de um Caboclo de Pena. Para Raimundo, a preparação não começava com o trajar, mas com um jejum de corpo e intenção que durava a tarde inteira. Dentro do quartinho apertado nos fundos da sede do Boi de Maracanã, o cheiro de ervas e o calor abafado do entardecer maranhense pareciam comprimir o tempo. Ele permanecia de pé, imóvel, enquanto os ajudantes começavam o ritual, que não admitia pressa nem erros: cada pena, cada miçanga, cada fita precisava ocupar o lugar exato que a tradição, imutável por gerações, ditava.

O peso da armação de madeira, revestida por milhares de penas de ganso e de outras aves, era colossal. Quando o chapéu cônico, adornado com fitas que desciam como uma cascata, foi colocado sobre sua cabeça, Raimundo sentiu a mudança. A postura mudou automaticamente. A coluna, habituada a carregar sacos de cimento nos dias de semana, endireitou-se com uma dignidade que emanava não dos músculos, mas da linhagem que ele agora representava. Ele não era mais o Raimundo silente da oficina mecânica; ele era uma entidade, um guardião da floresta transmutado no asfalto quente dos arraiais de São Luís.

— Firme, compadre .— Disse o velho mestre, ajustando o cinto de miçangas em sua cintura. — O caboclo não dança para o público. O caboclo dança para ser reconhecido pelos encantados. Se você tropeçar, eles param de olhar. Se você elevar o pé e bater com a força da verdade, eles te guiam.

Raimundo respirou fundo, o ar entrando filtrado pelas penas que cercavam seu rosto. O ritual de vestimenta era um exercício de despersonalização.

“Sua indumentária é rica, feita 100% de forma artesanal, e pode chegar a pesar entre 15 e 30 kg. Ela é composta por um grande cocar, gola, saiote e adereços para braços e pernas, todos ornamentados com penas (geralmente de ema tingidas)”

À medida que as camadas de penas eram fixadas, a individualidade de Raimundo ia sendo soterrada, dando lugar a uma presença maior. Ele sentia-se como se estivesse vestindo a própria história dos povos que habitaram aquelas terras antes mesmo da cidade ser desenhada. Era uma armadura, sim, mas não para a guerra de homens, era uma armadura para a exaustão da alma, uma estrutura capaz de sustentar o transe.

Quando finalmente cruzou o limiar do barracão para o terreiro, o impacto cultural foi imediato. O batuque do sotaque da matraca, com seus tambores de sopapo ribombando contra as paredes de zinco, fez o chão vibrar. Raimundo não entrou andando; ele entrou em saltos curtos, rítmicos, chicoteando o ar com as mãos, cada movimento uma saudação aos quatro cantos do mundo. O peso das penas, que antes parecia um fardo, agora era o elo que o ancorava ao solo enquanto sua mente, instigada pelos ritmos frenéticos, começava a descolar da realidade.

A dança do caboclo de pena é uma coreografia de resistência. O suor começou a escorrer por baixo da máscara social, ardendo nos olhos da razão, mas Raimundo não tinha permissão para limpar o rosto. O ritual exige que o brincante suporte o calor, a umidade e a dor, transformando esses elementos em combustível. Ele girava, desenhando círculos invisíveis no ar, suas penas tremulando como se estivessem vivas, reagindo a um vento que apenas ele parecia sentir. A cada volta, era como se ele estivesse removendo as camadas densas da vida urbana daquela praça, filtrando a energia bruta que emanava do público e devolvendo-a, transformada em rito, para o ambiente.

Nos arraiais da capital, onde a luz artificial dos palcos por vezes tentava domesticar a tradição, o Caboclo de Pena vinha para lembrar o porquê de tudo aquilo existir. Raimundo saltava com uma leveza que contradizia a massa da sua indumentária. O tambor, presente na memória ancestral, parecia ecoar dentro de seu peito. Ele via o público ao redor, as pessoas paradas, o queixo caído, espectadoras de um voo que acontecia ali mesmo, entre as barracas de comida típica e o burburinho de São Luís.

O peso da tradição, que ele carregava nas costas sob a forma de penas costuradas à mão, não era um peso morto. Era um lastro de memória. Cada brilho de lantejoula no gibão, cada fita de cetim que chicoteava ao sabor do giro, carregava o nome dos antigos, dos antepassados que iniciaram aquela brincadeira quando o mundo era apenas mato e água de igarapé. Raimundo dançava por eles. Ele dançava pela dor da semana, pela esperança do filho que estudava e seria o primeiro da família a ter um diploma de curso superior, pelo orgulho de carregar o nome de sua guarnição.

O ritmo acelerou. Os pandeirões começaram a virar, o som subiu de tom, e Raimundo sentiu que, se desse um passo maior que a terra, ele seria capaz de subir como os pássaros que emprestaram suas penas para aquele momento. A frenesia atingiu o auge; seus pés tocavam o solo e, antes que o calcanhar descansasse, o corpo já reagia para o próximo salto. Ele era um borrão de cores vibrantes sob as luzes frias da cidade.

Quando o toque final cessou, o silêncio que se abateu sobre o terreiro foi ensurdecedor. Raimundo parou de repente, ainda tremendo com a energia que percorria seus nervos. O suor escorria em rios pelo peito, o peito arfava em busca de um oxigênio que as penas pareciam filtrar com dificuldade. Ele estava exausto, fisicamente drenado, mas espiritualmente completo. Ao olhar para os lados, viu apenas os rostos maravilhados dos que assistiam. Para o espectador, a dança tinha acabado. Para Raimundo, a preparação para o próximo voo já começava ali, no peso silencioso das penas que, uma a uma, ele precisaria desamarrar, devolvendo ao traje o descanso que sua própria alma, ainda vibrante, ainda lutava para encontrar.

JOSÉ CASANOVA
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista
Membro da Academia Bacablaene de Letras
Academia Mundial de letras da Humanidade

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