O espelho do banheiro da repartição pública, no
coração do Centro Histórico de São Luís, devolvia a Marina uma imagem que ela
mal reconhecia. O rosto estava perfeitamente composto: um batom discreto, os
cabelos cacheados domados por um prendedor elegante e um sorriso ensaiado que
ela praticara no reflexo do elevador. Mas, por trás daquela vitrine de
funcionalidade, Marina sentia que suas engrenagens internas estavam moendo areia.
Ela tinha trinta e seis anos e um diagnóstico
recente de TDAH, acompanhado de uma bagagem pesada de ansiedade generalizada e
episódios cíclicos de depressão. Em São Luís, uma cidade que transborda
espontaneidade e barulho, a vida de Marina era uma coreografia de contenção.
— Você está ótima, Marina. O relatório está pronto,
a reunião foi um sucesso — Sussurrou para si mesma, inspirando o ar úmido que
subia do mar e se infiltrava pelas janelas coloniais do casarão onde funcionava
seu setor.
O problema não era a competência. O problema era o masking.
Para o mundo corporativo e social da Ilha, Marina era a profissional focada, a
colega que nunca perdia um prazo. Ninguém via o esforço monumental que ela
fazia para não se perder em devaneios durante as falas dos diretores, ou a
exaustão física que sentia ao final do dia por ter passado oito horas
controlando seus tiques nervosos e forçando um contato visual que lhe parecia
invasivo e doloroso.
A máscara social era sua armadura, mas também sua
cela.
Ao voltar para sua mesa, o som das conversas
paralelas e o clique-clique incessante dos teclados começaram a perfurar sua
paciência. A umidade de São Luís parecia pesar dez quilos sobre seus ombros.
Marina sentia a ansiedade subindo como a maré da Baía de São Marcos: lenta,
inevitável e sufocante.
— Marina, o pessoal vai tomar um sorvete ali na Rua
do Giz depois do expediente. Você vem? — Perguntou Ricardo, um colega de
trabalho sempre entusiasmado.
— Ah, Ricardo... hoje não vai dar. Tenho muita
coisa para organizar em casa. — Mentiu ela, com a precisão de quem já domina a
arte da evasão.
A verdade era que o reservatório de energia social
de Marina estava abaixo da reserva. Ir ao sorvete significaria mais duas horas
de máscara, mais duas horas de risadas calculadas e monitoramento constante da
própria postura. Ela precisava do seu "casulo", o apartamento pequeno
onde as luzes eram baixas e o silêncio era a única língua permitida.
Ao sair do trabalho, caminhou pelas ruas de
paralelepípedos. O pôr do sol dourava os casarões, e o som de um saxofone vindo
de uma galeria próxima tentava seduzi-la a ficar. São Luís é uma cidade que
exige presença, que convida ao encontro. No entanto, para Marina, cada
interação era um gasto de energia que ela não tinha. A depressão não se
manifestava nela como uma tristeza profunda e melodramática, mas como uma
apatia cinzenta, um descarregamento total da bateria da alma.
"Por que
eu não posso simplesmente ser como eles?", pensava ela, observando um
grupo de turistas rindo alto perto do Palácio dos Leões. "Por que para mim tudo é um cálculo? Por que
o mundo parece ter o volume no máximo e eu não encontro o controle remoto?"
O peso da máscara começou a machucar o rosto
invisível de sua mente. Adultos neurodivergentes, especialmente mulheres que
passaram décadas sem diagnóstico, frequentemente desenvolvem quadros graves de
ansiedade porque passaram a vida tentando se encaixar em moldes que não foram
feitos para suas formas. Marina era o resultado dessa pressão interna. Ela era
a excelência construída sobre os escombros da própria saúde mental.
Ao chegar em casa, a rotina de descompressão
começou. Ela jogou as chaves na tigela, tirou os sapatos e sentou-se no chão da
sala, no escuro. O choro veio sem aviso. Não era um choro de dor súbita, mas de
alívio por poder, finalmente, soltar os músculos da face. Ali, ninguém exigia
que ela fosse "normal". Ali, seus pensamentos podiam saltar de um
lado para o outro sem precisar de uma conclusão lógica imediata.
A ansiedade, porém, ainda sussurrava em seu ouvido,
enumerando as tarefas de amanhã, prevendo possíveis falhas, revisando conversas
de hoje para ver se ela não tinha soado "estranha". A
neurodivergência na vida adulta é um jogo de sombras. É lutar contra o
preconceito dos outros e contra o próprio autojulgamento, a sombra que insiste
em dizer que o cansaço é preguiça e a necessidade de isolamento é falta de
afeto.
Marina levantou-se e foi até a janela. Lá fora, São
Luís brilhava com as luzes dos postes e o reflexo da lua na água. Ela percebeu
que a máscara era um recurso de sobrevivência, mas que não podia ser sua única
pele. A inclusão real, que ela tanto lia nos portais de direitos das pessoas
com deficiência e neurodivergentes, precisava começar dentro de si mesma.
— Amanhã. — Disse ela para a noite. — Eu vou levar
meus fones de ouvido para o trabalho. Vou explicar que o barulho me atrapalha a
concentrar.
Pode parecer um gesto pequeno, mas para quem viveu
trinta e seis anos fingindo que o mundo não a machucava, admitir uma
sensibilidade era um ato de coragem suprema. Era começar a tirar a máscara,
peça por peça, e permitir que a Marina real, com seus silêncios, suas
inquietações e sua criatividade fragmentada, pudesse respirar o ar úmido da
Ilha sem sentir que estava se afogando.
A máscara de São Luís seria guardada na gaveta.
Marina sabia que a depressão e a ansiedade não desapareceriam da noite para o
dia, mas aceitar que seu cérebro tinha um ritmo diferente era o primeiro passo
para que aquelas patologias deixassem de ser sua identidade. Ela era Marina.
Ela era neurodivergente. E ela tinha o direito de habitar a cidade sem ter que
representar um papel que não fora escrito para ela.
Naquela noite, o sono veio mais fácil. A ansiedade
baixou como a maré, deixando na areia de sua mente as conchas de uma nova
consciência. Ela não precisava ser normal; ela precisava ser apenas real. E a
realidade, tal qual os casarões de sua cidade, podia ter rachaduras e azulejos
faltando, mas ainda assim guardava uma beleza e uma dignidade que nenhum
disfarce jamais conseguiria igualar.
Ela uma mulher que aprendera a respirar sem o peso
de um sorriso forçado. E isso, por si só, já era uma vitória monumental contra
o silêncio que o mundo insiste em impor aos que percebem a vida em outras
frequências.
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade







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