Em Bacabal, maio sempre chega
vestido de duas cores: o verde das margens do Mearim e o preto invisível da
memória que o Brasil insiste em esconder debaixo do tapete da História.
Na Praça Santa Terezinha,
enquanto os carros passavam cuspindo pressa e fumaça, seu Antônio Preto, “dono”
de um boi sotaque de Zambumba, ajeitava lentamente o chapéu de palha. Sentado
num banco gasto pelo tempo, parecia conversar com os fantasmas da cidade. Não
os fantasmas de lençol branco das histórias de assombração. Eram outros.
Fantasmas que carregavam correntes nos tornozelos e cicatrizes nas costas.
Um menino parou diante dele .Ayo
com seus 12 anos não era formador de opinião, mas sua curiosidade em saber o
porquê das coisas lhe dava ares de ter mais idade.
— Vô, é verdade que a Princesa
Isabel libertou os escravos porque era boazinha?
Seu Preto soltou uma risada seca.
Dessas que não nascem da alegria, mas do cansaço. O coração bateu forte feito a
Zabumba do seu bumba-meu-boi.
— Menino… se bondade acabasse com
escravidão, o mundo nunca tinha precisado de revolta.
O vento atravessou a praça como
quem queria ouvir melhor. Seu Preto olhou para o rio Mearim com olhos fixos no
passado.
— A abolição não foi presente.
Foi derrota da elite escravista. – Afirmou seu Preto com um tom de vitória.
O menino franziu a testa. Ayo queria
apenas entender o que dissera a professora de história na escola.
— Derrota? – Questionou Ayo.
— Sim. Os fazendeiros lutaram até
o último segundo pra manter nossos parentes
acorrentados. Compravam políticos, financiavam deputados, inventavam
leis que pareciam liberdade, mas eram armadilhas com perfume de progresso.
Seu Preto apontou para o céu,
como se lesse palavras invisíveis. A história de seus ancestrais estrava
escrita e gravada na sua mente, quem contou foi sua vó Venancia do Seco das
Mulatas.
— A Lei do Ventre Livre dizia que
os filhos dos escravizados nasceriam livres… mas tinham que trabalhar até os
vinte e um anos. Liberdade com coleira.
—E a Lei dos Sexagenários?
— Libertava os velhos quando o corpo já estava quebrado pelo trabalho. Era como
devolver ao mar um peixe depois que ele já morreu.
O menino ficou em silêncio. Cada
palavra que ele dizia surgiam em sua mente como imagens acústicas,
Ao redor, Bacabal seguia viva:
mototáxis zunindo como insetos nervosos, vendedores gritando promoções, ônibus
sacudindo poeira. A cidade parecia correr sem perceber que pisava sobre séculos
mal enterrados. Eram fantasmas, almas penadas sociais que se viam na obrigação
de assombrar o futuro.
— Então a princesa não acabou com
a escravidão? – Quis entender Ayo curioso,
— Quem acabou foi o medo da elite
de perder tudo. A Inglaterra pressionava. Os escravizados fugiam em massa.
Quilombos como o São Sebastião dos pretos cresciam por toda parte. O Exército
já se recusava a caçar fugitivos. A escravidão não foi desmontada com
delicadeza. Ela apodreceu em praça pública.
Seu Raimundo levantou devagar.
Seus passos eram devagar devido ao peso da história que carregava nos ombros.
Os olhos dele tinham uma tristeza
antiga, dessas que passam de geração em geração como herança invisível. Essa
herança agora se materializava em novas arapucas da modernidade.
— Quando veio o 13 de maio de
1888, a princesa assinou a tal da lei áurea, a elite perdeu os escravizados…
mas não perdeu as terras, nem o dinheiro, nem o poder político. E sabe o que
fizeram com os libertos? Nada. Porque o Brasil não deu escola, não deu terra,
não deu trabalho digno. Jogaram o povo negro numa liberdade vazia, como quem
solta alguém no meio da tempestade sem abrigo. Libertaram o povo negro da senzala,
mas penduraram nossos descendentes nos morros, nas periferias e nas margens
invisíveis do país
O menino olhou para as próprias
mãos. As
palavras do avô ecoavam na cabeça do menino como tambores atravessando o tempo...
— Então o racismo de hoje começou
ali?
Seu Raimundo respondeu quase num
sussurro:
— O racismo de hoje é a
continuação daquela assinatura. Só trocaram as correntes de ferro por outras
mais modernas.
A tarde começou a cair sobre o
Rio Mearim. O céu parecia uma brasa acesa. Bonito de se ver de onde estava com
o neto.
Do outro lado da praça, professora Raquel encerrava a aula dizendo aos alunos:
— A abolição foi um ato de
humanidade.
Seu preto lhou para o neto
sacudindo a cabeça em sinal de desaprovação ap que ouviu. Respirou fundo. Depois falou baixinho, como
quem conversa com o próprio país:
— Humanidade teria sido repartir terra. Construir
escolas. Garantir dignidade. O 13 de maio não foi bondade. Foi uma derrota
incompleta da escravidão.
O menino perguntou:
— E o Brasil ainda vive essa derrota? – Indagou Ayo.
Seu Preto olhou para os bairros
pobres espalhados pela cidade, Setubal tinha todas as caraterísticas de um
quilombo urbano, embora não fosse reconhecido, a Trizidela estava á sua frente.
Visualizou em sua tela mental os rostos
negros a carregar caixas, empurrando
bicicletas, limpando vidros de carros nos sinais.
Então respondeu:
— Vive meu neto. Porque a senzala
acabou no papel. Mas muita gente poderosa passou séculos construindo maneiras
novas de deixar o mesmo povo do lado de fora da casa-grande.
O sino da igreja Santa Terezinha
bateu seis horas. Era Padre Lauro com sua cara de Santo Barroco que fez dieta
chamando para a Missa das sete.
E naquela hora, Bacabal inteira
pareceu ficar alguns segundos em silêncio. Como se até a cidade tivesse
entendido que liberdade sem justiça é só uma porta aberta para o abandono.
Professsor, Jornalista, escritor e cronista
membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade







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