quarta-feira, 8 de abril de 2026

ARTIGO: O Papel da Imprensa na Defesa dos Recursos Hídricos

Abrir a torneira e ver a água correr parece um gesto banal. Mas e se um dia ela simplesmente não viesse? Quando a água falta, a imprensa falha. A água, elemento vital à existência humana e ao equilíbrio dos ecossistemas, atravessa o século XXI sob tensão crescente. É o estresse da escassez, poluição, má gestão e mudanças climáticas que transformam esse recurso em um dos principais desafios globais. Basta um período de estiagem mais severo ou uma crise de abastecimento para que esse cenário ganhe contornos de urgência. Nesse contexto,  a imprensa emerge como um agente estratégico na mediação entre informação, consciência pública e mobilização social. Mais do que noticiar, ela pode atuar como guardiã simbólica dos recursos hídricos, iluminando conflitos, denunciando abusos e promovendo o debate democrático. A pergunta que fica é inquietante: por que a água só vira pauta quando começa a faltar?

Para respondermos essa pergunta com responsabilidade temos que admitir que isso necessariamente passa pela forma como a imprensa escolhe contar ou ignorar determinadas histórias e, muitas vezes, são histórias mal contadas..

A imprensa como mediadora social

O fato é que os meios de comunicação têm o poder de direcionar o olhar da sociedade. A compreensão dessa postura da imprensa passa, inicialmente, pela Teoria do Agendamento proposta por Maxwell McCombs e Donald Shaw. Segundo esses autores, os meios de comunicação não dizem às pessoas o que pensar, mas influenciam fortemente sobre o que pensar. Ao destacar temas como crise hídrica, poluição de rios ou escassez de água potável, a imprensa contribui para inserir essas questões na agenda pública e política.

Na prática, o que se observa é que a água raramente é tratada como pauta contínua. Muitas vezes, a cobertura fragmenta o problema, apresentando-o como casos isolados. Isso pode induzir a percepção de que falhas estruturais são pontuais, abrindo espaço, inclusive, para narrativas que defendem soluções simplificadas, como a privatização, sem o devido aprofundamento. Outro fator comum é a divulgação de enchentes no período do inverno, no Maranhão muito comum em comunidades ribeirinhas do Mearim e outros rios.

A cobertura sobre recursos hídricos costuma seguir um roteiro previsível. Quando há seca, falta d’água ou desastre ambiental, o tema explode nas manchetes. Especialistas são ouvidos, gráficos são exibidos, a preocupação cresce. Mas, passada a crise, o assunto desaparece como um rio que seca fora do radar. O resultado é uma sociedade que reage, mas não se antecipa.

Jürgen Habermas, ao discutir a esfera pública, aponta que a comunicação é essencial para a formação da opinião pública e para o exercício da cidadania. Nesse sentido, a imprensa atua como espaço de debate, onde diferentes atores sociais podem se manifestar sobre a gestão dos recursos hídricos, promovendo transparência e participação social.


Jornalismo ambiental e responsabilidade social

Conforme destaca Wilson da Costa Bueno, um dos principais teóricos da área no Brasil, o jornalismo ambiental é um campo que vai muito além da simples divulgação de notícias sobre a natureza. Ele é concebido como um jornalismo especializado que assume um papel pedagógico, político e de mobilização social. A cobertura de temas hídricos exige contextualização, linguagem acessível e rigor científico, evitando tanto o alarmismo quanto a superficialidade.

Ora, se a mídia tem competência para pautar e promover debates, seria fragilidade sua não pautar temas estratégicos como a água, isso vai além de informar quando o problema já está instalado, mas de acompanhar, investigar e pressionar antes que ele se torne irreversível.

O filósofo e escritor francês Manuel Castells, considerado um dos mais controversos pensadores da atualidade, afirma que vivemos em uma sociedade em rede, onde a informação circula de forma rápida e descentralizada. Portanto, a imprensa precisa disputar atenção com múltiplas fontes, o que torna ainda mais relevante sua credibilidade. Quando bem exercida, essa função contribui para formar uma consciência coletiva sobre a importância da preservação da água.

A imprensa como instrumento de denúncia e fiscalização

Outro papel fundamental da imprensa é o de vigilância social, frequentemente associado ao conceito de “quarto poder”. Quando exercido com ética, pois a imparcialidade é impossível numa sociedade dividida ainda em classes, o jornalismo ao investigar e divulgar casos de poluição de rios, desperdício de água ou má gestão de recursos hídricos, os meios de comunicação exercem pressão sobre governos e empresas.

Exemplos recorrentes no Brasil mostram como reportagens investigativas foram decisivas para revelar crimes ambientais que afetaram diretamente corpos d’água. Esse papel se aproxima do que o sociólogo Pierre Bourdieu descreve como o poder simbólico da mídia, capaz de moldar percepções e influenciar ações sociais.

Educação ambiental e formação de consciência

Sem precisar de sala de aula, a imprensa também desempenha uma função pedagógica. Ao traduzir dados técnicos em narrativas compreensíveis, contribui para a educação ambiental da população. Essa perspectiva dialoga com Paulo Freire, que defendia uma educação crítica, voltada para a conscientização e transformação social.

Nesse contexto nem sempre a missão da imprensa é exercida como deveria. Entre outros desafios há pressões econômicas, disputas por audiência e a avalanche de desinformação nas redes sociais, ou seja, a imprensa também enfrenta seus próprios desafios. É claro que isso não diminui sua responsabilidade, pelo contrário, a torna ainda maior.

Quando a imprensa aborda o uso racional da água, práticas sustentáveis ou os impactos da degradação ambiental, ela ajuda a formar cidadãos mais conscientes e engajados. O que nem sempre agrada os detentores do poder .Nesse processo, a informação deixa de ser apenas conteúdo e se transforma em ferramenta de transformação.

Outro desafio é tornar o tema da água atrativo sem perder sua complexidade. A cobertura precisa equilibrar dados técnicos com narrativas envolventes, capazes de sensibilizar o público sem simplificar excessivamente a realidade.

Considerações finais

O papel da imprensa na defesa dos recursos hídricos é multifacetado e indispensável. Ela informa, educa, denuncia e mobiliza. Em um mundo onde a água se torna cada vez mais um recurso estratégico, a atuação responsável dos meios de comunicação pode contribuir decisivamente para sua preservação.

Se a água é o sangue do planeta, a imprensa pode ser vista como sua voz, ora serena como um riacho que ensina, ora potente como uma correnteza que denuncia. Entre palavras e fatos, constrói-se a possibilidade de um futuro onde informação e consciência caminhem juntas na defesa da vida.

Porque, no fim das contas, a água não desaparece de uma vez. Ela vai sumindo aos poucos: em um rio poluído aqui, em uma nascente degradada ali, em um silêncio prolongado nas manchetes.

E talvez esse seja o ponto mais crítico: quando a cobertura falha, o problema não deixa de existir, ele apenas deixa de ser visto.

Defender os recursos hídricos não é apenas tarefa de governos ou ambientalistas. É também uma questão de narrativa. De visibilidade. De escolha editorial.

A imprensa decide todos os dias o que merece destaque. E, ao fazer isso, decide também o que pode ser esquecido.

Se a água é essencial à vida, tratá-la como pauta secundária é um erro que não se pode mais dar ao luxo de cometer.

Porque, quando a água falta, não é só a torneira que seca.

É o futuro.

Por José Casanova
Professor,Jornalista, Escritor e Cronista
Membro da Academia Bacabalense de Letra
Academia Mundial de Letras da Humanidade

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