segunda-feira, 9 de março de 2026

CRÔNICADO DIA: O Eco dos Azuleijos



Tomás veio de Santos, onde o horizonte é cortado por guindastes e o mar tem cheiro de óleo diesel e sal grosso. Lá, a poesia é concreta, feita de areia dura e prédios que arranham o céu com geometria pragmática. Mas ali, no Centro Histórico de São Luís, a arquitetura não abrigava apenas pessoas; abrigava uma sintaxe antiga que ele desconhecia. O calor úmido da ilha não o fazia suar água, mas sim adjetivos.

Ele caminhava pela Rua do Giz, arrastando a mão pelas fachadas dos casarões coloniais. A cerâmica fria sob seus dedos não era lisa. Os azulejos, trazidos de uma Europa distante séculos atrás, possuíam relevos, pequenas imperfeições que, para um leitor atento, pareciam braile. Tomás buscava uma inspiração virgem, uma frase que nunca tivesse sido dita sobre aquela cidade magnética, mas São Luís era uma câmara de ecos.

Parou diante de um sobrado revestido por azulejos azuis e amarelos, com padrões florais que se repetiam numa métrica obsessiva: A-B-A-B, A-B-A-B. Era um soneto visual. Ele abriu seu caderno de anotações, a caneta pairando sobre a folha branca, ansiosa para capturar a "essência" do lugar. Escreveu: "A luz reflete na parede..."

Antes que pudesse terminar a oração, teve a sensação física de que alguém soprava em seu ouvido. Não era vento. Era uma correção. A frase em sua mente mudou, involuntariamente, para "O lume reverbera na faiança..."

Tomás sacudiu a cabeça, atordoado. Riscou a linha. Tentou de novo, buscando sua voz moderna, santista, direta. "O sol bate forte."

O sussurro voltou, emanando das juntas de argamassa podre entre os azulejos: "O astro fustiga a pedra..."

Ele recuou um passo, tropeçando no calçamento irregular de paralelepípedos. A cidade não lhe permitia escrever. A "Atenas Brasileira" não era apenas um apelido ufanista; era uma maldição. O ar estava tão saturado de literatura, tão denso de versos declamados por fantasmas de séculos passados, que não havia espaço para o novo. Cada esquina já havia sido descrita por Aluísio Azevedo; cada palmeira já pertencera a Gonçalves Dias; cada ironia já fora gasta por Odorico Mendes.

Sentou-se no meio-fio, derrotado pela própria erudição do reboco. O que é a inspiração, afinal? Tomás sempre acreditara que o escritor era um deus criador, tirando mundos do nada. Mas ali, cercado por aquelas paredes que funcionavam como espelhos acústicos do tempo, a verdade era mais humilde: o escritor não cria, ele apenas escuta. E o problema de escutar em São Luís é que as vozes são muitas e falam um português que não existe mais na boca do povo, mas que persiste na alma da pedra.

Um gato magro passou por ele, roçando em sua perna, e miou. Até o miado parecia ter uma cadência alexandrina.

Tomás olhou novamente para os azulejos. Percebeu que o padrão não era apenas decorativo. Era uma grade. A repetição dos desenhos impunha um ritmo, uma rima visual que condicionava o pensamento. Quem vive cercado por rimas visuais não consegue pensar em prosa livre. A cidade te obrigava a rimar, a buscar a consoante perfeita, a cair na armadilha da forma.

— Está ouvindo eles? — Perguntou uma voz rouca.

Tomás levantou os olhos. Um homem velho, vendendo picolés de frutas que Tomás não sabia nomear, parara o carrinho ao seu lado.

— Ouvindo quem?

— As palavras... — Disse o velho, chupando um picolé roxo que tingia sua língua. — Essas paredes aqui, moço, elas não seguram só o teto. Elas seguram a conversa de quem já morreu. O azulejo é feito de barro cozido, e o barro tem memória. Quando esquenta com esse sol de meio-dia, a memória vaza.

Tomás sorriu, um sorriso amarelo como os detalhes da fachada à frente.

— Eu estou tentando escrever, mas parece que estou apenas psicografando. Tudo o que penso já foi escrito melhor por alguém que morou nesta casa há duzentos anos.

— E por que o senhor quer ser o primeiro? — O velho empurrou o carrinho, fazendo as rodas de metal gritarem contra a pedra. — Ninguém inventa a água, moço. A gente só bebe dela. O eco não é defeito do som. É a prova de que a parede existe.

O vendedor se afastou, deixando Tomás com a frase flutuando no ar quente. "O eco é a prova de que a parede existe."

A angústia da influência, aquele medo paralisante de não ser original, começou a se dissolver. Ele olhou para o caderno riscado. A autoria não era um ato solitário de invenção, mas um coro. Se as paredes sussurravam verbos arcaicos, o papel dele não era silenciá-los, mas convida-los para dançar com suas gírias de Santos. A literatura não nascia no vácuo; ela nascia no ricochete.

Levantou-se e tocou o azulejo novamente. Estava quente, quase febril. Desta vez, não tentou impor sua voz sobre a pedra. Fechou os olhos e deixou que o vocabulário da cidade invadisse sua mente: arruinado, solene, maresia, azinhavre. Palavras pesadas, úmidas.

Abriu o caderno e escreveu, sem brigar com a história:

"Os verbos esquecidos dormem na cerâmica, esperando que o calor da tarde os faça evaporar. Eu não escrevo; eu suo a história dos outros."

Não era um poema épico. Não era um romance revolucionário. Mas era verdadeiro. Tomás percebeu que a originalidade em São Luís não estava em ignorar o passado, mas em saber harmonizar o próprio grito com o sussurro constante daquelas fachadas. A inspiração não vinha de dentro, como uma fonte mágica; ela vinha de fora, batendo, refletindo, voltando. Ele era apenas mais uma superfície onde o som da cidade batia antes de seguir viagem.

Guardou a caneta no bolso, sentindo-se mais leve. O peso da tradição, que antes parecia esmagá-lo, agora o sustentava. O eco dos azulejos não era uma prisão, era uma base. E sobre essa base, feita de barro cozido e verbos antigos, ele finalmente poderia começar a construir, tijolo por tijolo, palavra por palavra, a sua própria ruína ou o seu próprio palácio.

Por José Casanova
Professor,Jornalista, Escritor e Cronista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de  Letras da Humanidade

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