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segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Jeane Miranda lança “Casas de Todo Jeito” durante a 19ª FELIS, em São Luís

 

A escritora Jeane Miranda lançou, neste domingo (20), o livro “Casas de Todo Jeito”, durante a programação da 19ª Feira do Livro de São Luís (FELIS). O lançamento aconteceu no estande da FALMA – Federação das Academias de Letras do Maranhão e integrou a participação de escritores convidados pela  Academia Bacabalense de Letras no evento literário realizado na capital maranhense.

Jeane Miranda levou ao público uma obra voltada especialmente ao universo infantojuvenil. Durante o lançamento, a escritora apresentou o livro de maneira lúdica e interativa, despertando a curiosidade e prendendo a atenção das crianças presentes no espaço.

“Casas de Todo Jeito” propõe uma reflexão sensível sobre os lares e as diferentes formas de convivência retratadas em histórias que atravessam gerações. Por meio de uma narrativa leve, criativa e envolvente, Jeane Miranda conduz o leitor por conhecidas casas da literatura infantil, atribuindo a cada uma delas novos sentidos sobre família, acolhimento, convivência e pertencimento.

Entre as referências presentes na obra estão a casa dos Três Porquinhos, que sonhavam com vizinhos, e a inesquecível casa de doces de João e Maria, que, apesar de toda a aparência encantadora, tornou-se um lugar do qual as crianças precisaram fugir

A partir dessas e de outras referências do imaginário infantil, a autora apresenta diferentes realidades de convivência. Há casas que acolhem, protegem e oferecem segurança, mas também existem aquelas marcadas por desafios, dificuldades e exclusões. Dessa forma, o livro ultrapassa a simples ideia da casa enquanto espaço físico e provoca o leitor a pensar sobre aquilo que, verdadeiramente, transforma um lugar em lar.

Ao longo da obra, Jeane Miranda conduz crianças, jovens e adultos por uma jornada de descoberta e reflexão, defendendo a construção de um mundo em que todas as pessoas, independentemente de suas histórias ou circunstâncias, possam encontrar um espaço que realmente possam chamar de “lar” — marcado pelo afeto, pelo respeito, pela proteção e pelo sentimento de pertencimento.

O percurso literário encontra, ao final, uma das mais conhecidas referências de “O Mágico de Oz”, quando Dorothy expressa o sentimento de que “não há lugar como a nossa casa”. A lembrança reforça a principal mensagem da obra: mais do que paredes e telhados, o verdadeiro lar é construído onde existem amor, segurança, acolhimento e pertencimento.

A apresentação lúdica realizada por Jeane Miranda durante a FELIS transformou o lançamento em um momento de aproximação entre literatura e infância. A interação com as crianças evidenciou ainda uma das principais potencialidades da literatura infantojuvenil: abordar temas profundos e universais por meio da imaginação, da fantasia e de histórias capazes de dialogar com diferentes gerações.


O lançamento de “Casas de Todo Jeito” também marcou, com brilho e sensibilidade, a participação de escritores de Bacabal na 19ª Feira do Livro de São Luís, ampliando a visibilidade da produção literária bacabalense e fortalecendo a presença da literatura produzida no interior do Maranhão em um dos mais importantes espaços de celebração do livro, da leitura e da cultura no estado.









segunda-feira, 9 de março de 2026

CRÔNICADO DIA: O Eco dos Azuleijos



Tomás veio de Santos, onde o horizonte é cortado por guindastes e o mar tem cheiro de óleo diesel e sal grosso. Lá, a poesia é concreta, feita de areia dura e prédios que arranham o céu com geometria pragmática. Mas ali, no Centro Histórico de São Luís, a arquitetura não abrigava apenas pessoas; abrigava uma sintaxe antiga que ele desconhecia. O calor úmido da ilha não o fazia suar água, mas sim adjetivos.

Ele caminhava pela Rua do Giz, arrastando a mão pelas fachadas dos casarões coloniais. A cerâmica fria sob seus dedos não era lisa. Os azulejos, trazidos de uma Europa distante séculos atrás, possuíam relevos, pequenas imperfeições que, para um leitor atento, pareciam braile. Tomás buscava uma inspiração virgem, uma frase que nunca tivesse sido dita sobre aquela cidade magnética, mas São Luís era uma câmara de ecos.

Parou diante de um sobrado revestido por azulejos azuis e amarelos, com padrões florais que se repetiam numa métrica obsessiva: A-B-A-B, A-B-A-B. Era um soneto visual. Ele abriu seu caderno de anotações, a caneta pairando sobre a folha branca, ansiosa para capturar a "essência" do lugar. Escreveu: "A luz reflete na parede..."

Antes que pudesse terminar a oração, teve a sensação física de que alguém soprava em seu ouvido. Não era vento. Era uma correção. A frase em sua mente mudou, involuntariamente, para "O lume reverbera na faiança..."

Tomás sacudiu a cabeça, atordoado. Riscou a linha. Tentou de novo, buscando sua voz moderna, santista, direta. "O sol bate forte."

O sussurro voltou, emanando das juntas de argamassa podre entre os azulejos: "O astro fustiga a pedra..."

Ele recuou um passo, tropeçando no calçamento irregular de paralelepípedos. A cidade não lhe permitia escrever. A "Atenas Brasileira" não era apenas um apelido ufanista; era uma maldição. O ar estava tão saturado de literatura, tão denso de versos declamados por fantasmas de séculos passados, que não havia espaço para o novo. Cada esquina já havia sido descrita por Aluísio Azevedo; cada palmeira já pertencera a Gonçalves Dias; cada ironia já fora gasta por Odorico Mendes.

Sentou-se no meio-fio, derrotado pela própria erudição do reboco. O que é a inspiração, afinal? Tomás sempre acreditara que o escritor era um deus criador, tirando mundos do nada. Mas ali, cercado por aquelas paredes que funcionavam como espelhos acústicos do tempo, a verdade era mais humilde: o escritor não cria, ele apenas escuta. E o problema de escutar em São Luís é que as vozes são muitas e falam um português que não existe mais na boca do povo, mas que persiste na alma da pedra.

Um gato magro passou por ele, roçando em sua perna, e miou. Até o miado parecia ter uma cadência alexandrina.

Tomás olhou novamente para os azulejos. Percebeu que o padrão não era apenas decorativo. Era uma grade. A repetição dos desenhos impunha um ritmo, uma rima visual que condicionava o pensamento. Quem vive cercado por rimas visuais não consegue pensar em prosa livre. A cidade te obrigava a rimar, a buscar a consoante perfeita, a cair na armadilha da forma.

— Está ouvindo eles? — Perguntou uma voz rouca.

Tomás levantou os olhos. Um homem velho, vendendo picolés de frutas que Tomás não sabia nomear, parara o carrinho ao seu lado.

— Ouvindo quem?

— As palavras... — Disse o velho, chupando um picolé roxo que tingia sua língua. — Essas paredes aqui, moço, elas não seguram só o teto. Elas seguram a conversa de quem já morreu. O azulejo é feito de barro cozido, e o barro tem memória. Quando esquenta com esse sol de meio-dia, a memória vaza.

Tomás sorriu, um sorriso amarelo como os detalhes da fachada à frente.

— Eu estou tentando escrever, mas parece que estou apenas psicografando. Tudo o que penso já foi escrito melhor por alguém que morou nesta casa há duzentos anos.

— E por que o senhor quer ser o primeiro? — O velho empurrou o carrinho, fazendo as rodas de metal gritarem contra a pedra. — Ninguém inventa a água, moço. A gente só bebe dela. O eco não é defeito do som. É a prova de que a parede existe.

O vendedor se afastou, deixando Tomás com a frase flutuando no ar quente. "O eco é a prova de que a parede existe."

A angústia da influência, aquele medo paralisante de não ser original, começou a se dissolver. Ele olhou para o caderno riscado. A autoria não era um ato solitário de invenção, mas um coro. Se as paredes sussurravam verbos arcaicos, o papel dele não era silenciá-los, mas convida-los para dançar com suas gírias de Santos. A literatura não nascia no vácuo; ela nascia no ricochete.

Levantou-se e tocou o azulejo novamente. Estava quente, quase febril. Desta vez, não tentou impor sua voz sobre a pedra. Fechou os olhos e deixou que o vocabulário da cidade invadisse sua mente: arruinado, solene, maresia, azinhavre. Palavras pesadas, úmidas.

Abriu o caderno e escreveu, sem brigar com a história:

"Os verbos esquecidos dormem na cerâmica, esperando que o calor da tarde os faça evaporar. Eu não escrevo; eu suo a história dos outros."

Não era um poema épico. Não era um romance revolucionário. Mas era verdadeiro. Tomás percebeu que a originalidade em São Luís não estava em ignorar o passado, mas em saber harmonizar o próprio grito com o sussurro constante daquelas fachadas. A inspiração não vinha de dentro, como uma fonte mágica; ela vinha de fora, batendo, refletindo, voltando. Ele era apenas mais uma superfície onde o som da cidade batia antes de seguir viagem.

Guardou a caneta no bolso, sentindo-se mais leve. O peso da tradição, que antes parecia esmagá-lo, agora o sustentava. O eco dos azulejos não era uma prisão, era uma base. E sobre essa base, feita de barro cozido e verbos antigos, ele finalmente poderia começar a construir, tijolo por tijolo, palavra por palavra, a sua própria ruína ou o seu próprio palácio.

Por José Casanova
Professor,Jornalista, Escritor e Cronista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de  Letras da Humanidade

domingo, 8 de março de 2026

CRÔNICA DO DIA: Ritmos da Ilha e Mentes Inquietas



Quando os primeiros raios de sol de São Luís atravessaram a janela do quarto no bairro da Cohama, atingindo o rosto de Mateus Ribeiro, sua mente já estava em rotação máxima há pelo menos duas horas. Ele não acordara com o sol; ele simplesmente nunca havia desligado o motor. Enquanto a cidade despertava sob o manto de umidade característica da Ilha do Amor, Mateus tentava, pela quarta vez consecutiva, organizar os livros de Antropologia na estante, apenas para ser sequestrado pela visão de uma pequena rachadura no gesso do teto que, jura ele, tinha o formato exato do contorno da costa maranhense.

— Concentra, Mateus. O trabalho de campo não vai se escrever sozinho. — Murmurou para as paredes, embora soubesse que sua voz era apenas um ruído a mais na orquestra de pensamentos que aceleravam em seu lobo frontal.

Mateus era um estudante de Ciências Sociais da UFMA, um jovem de vinte e dois anos cujos olhos castanhos brilhavam com uma curiosidade elétrica, típica de quem possui o Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH). Para ele, a capital maranhense não era apenas um cenário geográfico; era um estímulo sensorial ininterrupto. O problema não era a falta de atenção, como muitos professores insistiam em anotar em seus boletins desde a infância na rede pública. O problema era o excesso dela. Ele prestava atenção em tudo: no ritmo do bumba-meu-boi que ecoava de ensaios distantes, no padrão das ondas do mar na Ponta d'Areia, na temperatura exata do café que esquecera sobre a mesa e, principalmente, na tese complexa sobre as matrizes africanas que precisava entregar em dois dias.

Ele pegou sua mochila, enchendo-a de canetas de quatro cores diferentes, três cadernos (um para a faculdade, um para desenhos e outro para ideias aleatórias que surgiam como flashes de magnésio) e saiu de casa. O trajeto até o Centro Histórico, onde planejava observar a dinâmica dos casarões para seu trabalho, era um desafio de navegação mental.

No terminal de integração da Cohama, o caos era uma sinfonia. Mateus sentia cada empurrão, ouvia cada conversa paralela e, por um momento, ficou paralisado diante de um cartaz de um show de reggae que seria no final de semana. Reggae. Jamaica. Radiolas. Frequências baixas. Como o som viaja na água? Em questão de segundos, ele já não estava mais no terminal; sua mente navegava por artigos científicos sobre acústica que lera três meses atrás em um surto de interesse por engenharia de som.

— Ei, rapaz! Vai subir ou vai ficar aí namorando o poste? — o motorista do ônibus gritou, despertando-o do transe.

Mateus subiu apressado, sentindo o rosto queimar. Sentou-se perto da janela e pegou o caderno. Tentou escrever sobre o trabalho de antropologia, mas o ritmo do motor do ônibus, um tantan-tantan metálico e persistente, o lembrou da batida do tambor de crioula. Ele começou a desenhar o padrão rítmico nas margens do papel. Suas mãos não paravam: uma perna balançava freneticamente, enquanto os dedos da mão esquerda batiam no banco à sua frente.

— Você está bem, mano? — Perguntou um outro jovem sentado ao lado, estranhando a agitação.

— Sim, sim. Só estou... — Mateus buscou a palavra. — Processando. Tem muita coisa acontecendo aqui dentro hoje.

O rapaz deu de ombros e voltou para o celular. Mateus sentiu aquela pontada familiar de isolamento. As pessoas achavam que ele era impaciente ou ansioso, mas a verdade é que ele estava apenas tentando não se afogar em si mesmo. Para um jovem neurodivergente em São Luís, a cidade oferece o melhor e o pior dos mundos: a efervescência cultural que alimenta a criatividade e o caos urbano que estraçalha a organização executiva.

Ao descer na Praia Grande, a arquitetura colonial o abraçou. Os azulejos portugueses, com seus padrões geométricos repetitivos, eram um oásis para seu hiperfoco. Ele podia passar horas analisando a simetria de um único casarão na Rua do Giz. E foi exatamente o que aconteceu.

Ele se sentou no meio da escadaria, ignorando os turistas e os vendedores de artesanato. O sol batia nos azulejos azuis e brancos, criando reflexos que dançavam diante de seus olhos. De repente, a tese de antropologia que parecia um fardo pesado de manhã começou a se conectar. Ele não via apenas pedras e cal; ele via a história das mãos que assentaram aqueles blocos, via a resistência negra infiltrada nas frestas do barro, sentia a pulsação do porto que outrora fora o coração da província.

Suas canetas coloridas começaram a voar pelo papel. O que seria um texto acadêmico rígido transformou-se em um mapa mental vibrante. Ele desenhava fluxos de poder, setas que ligavam a música de hoje ao sofrimento de séculos atrás, rimas que explicavam conceitos de sociologia urbana. O hiperfoco, aquele estado de graça doloroso e magnífico, o havia capturado. Durante três horas, Mateus não sentiu sede, não percebeu o calor sufocante e nem ouviu as notificações insistentes em seu celular.

A mente inquietante, que o fazia perder as chaves de casa e esquecer o nome das pessoas dois segundos após as apresentações, agora era um laser de alta precisão. Naquele momento, o TDAH não era um déficit; era uma superpotência de síntese criativa.

Porém, como toda maré em São Luís, o refluxo era inevitável.

Quando o sol começou a baixar, tingindo o Rio Anil de laranja e carmim, Mateus sentiu o cansaço mental desabar sobre seus ombros como um manto de chumbo. A adrenalina do hiperfoco evaporara, deixando-o com uma dor de cabeça latente e uma desorientação espacial momentânea. Ele olhou para o caderno. Tinha trinta páginas de anotações brilhantes, mas o resumo que o professor exigia para aquela tarde ainda não estava formatado.

Ele se levantou, sentindo as pernas dormentes. Precisava comer, precisava de silêncio, mas São Luís àquela hora se preparava para a noite. O som de uma radiola de reggae começou a brotar de um bar próximo, as vibrações graves fazendo o chão tremer levemente.

Mateus caminhou até uma lanchonete e pediu um suco de acerola. Enquanto esperava, tirou da mochila um pequeno objeto de metal, um fidget spinner desgastado que ele usava para canalizar a energia cinética. Girar o objeto o ajudava a fixar o pensamento no presente, a não deixar a mente voar de volta para as frestas dos azulejos ou para as batidas do tambor.

— Você é o Mateus, lá da UFMA, né? — Uma moça de óculos e cabelos cacheados sentou-se na mesa ao lado. — Te vi lá na escadaria. Você parecia estar em outra dimensão, escrevendo sem parar.

— É... — Ele sorriu sem jeito, escondendo o brinquedo de metal sob a palma da mão. — Às vezes eu entro nessas "outras dimensões". É o meu jeito de funcionar.

— Eu vi um pouco do que você estava rascunhando. Aquela conexão entre a urbanização da Ilha e os toques de terreiro... aquilo é genial. Você devia mandar para o congresso de estudantes.

Mateus sentiu um alívio genuíno. O reconhecimento de que sua mente inquieta produzia valor, e não apenas confusão, era o melhor remédio que ele poderia receber.

— O problema é organizar tudo isso antes do prazo. — Admitiu ele. — Minha cabeça é como essa cidade em dia de festa de São Pedro: muita cor, muita gente falando ao mesmo tempo, muita alegria, mas um trânsito impossível de organizar.

A moça riu, uma risada leve que parecia harmonizar com o vento da orla.

— Mas olha, Mateus, a beleza da gente aqui na Ilha é justamente essa mistura. Se a gente fosse todo mundo arrumadinho e silencioso, São Luís seria apenas um museu de pedra morta. A gente precisa dessa sua agitação para manter as coisas vivas.

Ele terminou o suco, sentindo a energia retornar devagar. Ele sabia que a noite seria longa, que teria que lutar contra a procrastinação para transcrever aqueles rascunhos fascinantes para o computador, e que provavelmente perderia o ônibus de volta por se distrair com a lua refletida no mar. Mas ali, sob o céu da capital que acolhia poetas e loucos com a mesma generosidade, Mateus aceitou que sua mente era, de fato, um ritmo próprio.

Ele não precisava ser o metrônomo perfeito que o sistema acadêmico esperava; ele poderia ser o improviso sincopado de um solo de saxofone no Reviver. A dificuldade de concentração permaneceria lá, o esquecimento das coisas triviais continuaria a persegui-lo, mas a capacidade de ver beleza onde os outros viam apenas azulejos velhos era o seu lugar no mundo.

Mateus guardou seus cadernos, fechando o zíper da mochila com um senso de propósito renovado. Ele atravessou a rua, esquivando-se do trânsito intenso da volta para casa, mas desta vez não se sentia sobrecarregado. Ele apenas sorriu. Enquanto as luzes dos postes se acendiam uma a uma, pontilhando a orla de São Luís como estrelas terrestres, ele percebeu que a sua pressa interna não era um erro de fabricação. Era apenas a sua maneira de acompanhar a rotação acelerada de um planeta que ele, em seus melhores dias, conseguia entender como ninguém mais.

A luta por espaço, por direitos e por compreensão educacional ainda seria uma constante em sua vida acadêmica. Ele ainda teria que explicar muitas vezes por que não conseguia ficar parado ou por que precisava de fones de ouvido para ler um texto simples na biblioteca. Contudo, naquela tarde, o mar de São Luís lhe ensinara que é possível ser imenso e turbulento ao mesmo tempo, e que a verdadeira inclusão começa quando paramos de tentar acalmar a tempestade e aprendemos, enfim, a navegar nela.

A agitação não cessaria ao chegar em casa, nem as letras parariam de flutuar diante de seus olhos pregando peças de atenção. Ele sabia que o roteiro da sua vida seria escrito em saltos, em hiperfocos e em recomeços. E ao olhar uma última vez para os casarões antes de entrar no ônibus, Mateus compreendeu que seu direito à neurodivergência era, antes de tudo, o direito de ser essa mente inquieta que faz a Ilha pulsar em ritmos que só ele era capaz de traduzir em cores e rimas.

Esta crônica é dedicado ao escritor Matheus Soares da Academia  Bacabalense de Letras 

Por José Casanova
Professor,Jornalista, Escritor e Cronista
Membro da Academia Bacbalense de letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade













sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

CRÔNICA DO DIA: O Mercado de Verbos de São Luís



O Mercado Central de São Luís não é um lugar; é um texto polifônico escrito em tempo real, sem pausa para respirar. Osmar Gomes, cronista por teimosia e desespero de prazo, estava encurralado entre uma banca de camarão seco e outra de farinha d'água, tentando encontrar um verbo que não estivesse melado de suor ou impregnado de cheiro de peixe. O editor esperava 800 palavras até o meio-dia. Eram dez e meia. O sol castigava as telhas de amianto, transformando o galpão numa estufa de vozes e odores.

Ele abriu o bloco de notas no celular, os dedos escorregando na tela engordurada pela umidade do ar.

"A cidade acorda..."

Apagou. Clichê. A cidade nunca dormia, apenas mudava de turno. E "acorda" era um verbo preguiçoso para aquele pandemônio.

Ao seu redor, o vocabulário era físico, gritado, arremessado.

— Olha o caranguejo! Tá vivo, freguesa! A corda tá nova!

— Tiquira pura! Mata a tristeza e o verme!

— Juçara grossa! Sangue de boi não chega nem perto!

Osmar tentou blindar os ouvidos, mas a sintaxe do mercado era invasiva. Ela não pedia licença; ela entrava pelos poros. A literatura, pensou ele, é uma atividade aristocrática que exige silêncio, café e uma janela com vista para o nada. Aqui, a janela dava para o tudo. Escrever no meio daquele caos era tentar fazer crochê num ringue de boxe.

Um homem passou esbarrando em seu ombro, carregando um cesto de vime cheio de mangas que pareciam corações pulsantes.

— Sai do meio, escritor! A fruta não espera!

Osmar gomes cambaleou, quase derrubando o celular dentro de um saco de goma. "A fruta não espera". A frase ficou quicando em sua mente. A urgência da vida real atropelava a calmaria da gramática. Todo cronista é um parasita dessa urgência, tentando congelar o movimento perpétuo em parágrafos estáticos. Mas como congelar o cheiro de coentro que invadia suas narinas com a violência de um soco?

Ele respirou fundo, absorvendo a mistura de maresia, podridão e vida. Decidiu que não lutaria contra o mercado; ele o usaria como tinta.

"O mercado não pede, ele intima. O verbo aqui é imperativo. Compre. Coma. Leve. A farinha é amarela como o sol que lá fora derrete o asfalto, e aqui dentro, derrete a paciência..."

Não. Ainda muito "bonitinho". O mercado não era bonito. Era brutal e honesto. Ele apagou "derrete a paciência" e escreveu "cozinha a alma em banho-maria". Melhor. Mais culinário.

— Vai levar o quê, patrão? — A voz veio de baixo. Uma senhora sentada num banquinho, descascando macaxeira com uma faca que brilhava perigosamente.

— Estou levando palavras, minha senhora. — Respondeu Osmar, num impulso de sinceridade.

Ela parou a faca, olhou para ele com olhos que já tinham visto muita enchente e muita seca, e soltou uma gargalhada rouca.

— Palavra não enche barriga, meu filho. Mas se temperar bem, engana a fome.

Aquela mulher acabara de lhe entregar a crônica pronta. "Palavra não enche barriga, mas se temperar bem, engana a fome." Era a definição perfeita da literatura. Um consolo. Um tempero para a realidade crua e indigesta.

Para aquela mulher, ele era apenas mais um na multidão, ela não sabia que estava diante de um Juiz de Direito e que estava sem saber lhe ajudando a escrever direito tudo o que uma crônica tem direito.

Osmar Gomes, agora anonimamente agia como presidente da Academia Ludovicense de Letras, começou a digitar freneticamente. Seus polegares voavam sobre o teclado virtual. Ele descreveu a senhora da macaxeira como uma guardiã de segredos subterrâneos. Descreveu o vendedor de ervas, que prometia cura para espinhela caída e dor de amor com a mesma garrafada escura. Descreveu o som das facas batendo nas tábuas de carne, um ritmo sincopado que marcava o tempo melhor que qualquer relógio.
A pressão do prazo desapareceu. O barulho ao redor, antes inimigo, virou trilha sonora. O grito do peixeiro virou vírgula. O choro de uma criança virou ponto e vírgula. A confusão de pernas e cestos virou a complexidade de uma oração subordinada que se desenrolava sem fim.

Ele suava. O suor pingava na tela, distorcendo as letras. A escrita é um ato físico, lembrou-se do "Exterminador" das palavras. Não é apenas mente; é corpo. É resistência. Escrever ali, espremido entre a sobrevivência alheia, era provar que a palavra ainda tinha lugar no mundo, mesmo que fosse um lugar apertado e barulhento.

"A literatura no mercado não é lida; é gritada. Ela tem preço, tem peso, tem cheiro. Ela apodrece se não for consumida hoje."

Faltavam dez minutos para o meio-dia. Ele releu o texto. Estava sujo, manchado, caótico. Estava vivo. Era pura literatura.Não tinha a elegância asséptica das crônicas de gabinete, mas tinha a pulsação da Rua da Estrela. Tinha o gosto do camarão seco e a aspereza da farinha.

Enviou o email. "Crônica enviada com sucesso". A mensagem na tela pareceu ridícula diante da grandiosidade daquele teatro humano.

Osmar guardou o celular no bolso. Sentiu uma fome voraz, aquela fome que só vem depois que a alma se esvazia no papel. Olhou para a senhora da macaxeira.

— Me vê dois quilos, por favor.

Ela sorriu, sem parar de descascar.

— Viu só? Palavra engana, mas a macaxeira sustenta.

Ele pagou, pegou a sacola pesada e saiu para o sol de meio-dia. A crônica estava feita, mas a verdadeira história continuava ali dentro, sendo escrita e reescrita a cada grito, a cada facada, a cada troca de moedas sujas. Tinha uma relação de afeto com aquele mercado, mas agora era apenas um turista naquele idioma de sobrevivência. Mas, por alguns minutos, conseguira conjugar os verbos certos. E isso, para um escritor, era o suficiente para justificar o dia. A resistência da palavra não estava em durar para sempre em livros de capa dura, mas em conseguir ser ouvida, nem que fosse por um segundo, no meio do rugido ensurdecedor da vida real.

p.s: Esta crônica é uma homenagem ao escritor e Cronista Osmar Gomes.

Por José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista
Membro da Academia Bacabalense de Letras


Academia Mundial de Letras da Humanidade