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quarta-feira, 17 de junho de 2026

CRÔNICA DO DIA: A Vida do Miolo

Augusto não via o mundo como as outras pessoas. O mundo, para ele, era uma sequência de frestas horizontais, uma visão recortada de pés, pernas e poeira, filtrada através do pequeno vão cuidadosamente posicionado na saia bordada do boi. Sob a carcaça de madeira e veludo, o ar é um recurso escasso, reciclado incessantemente por um pulmão que arfa sob a pressão de dezoito quilos de estrutura decorada. O suor não é apenas um incômodo; é uma chuva constante e quente que escorre pelas têmporas, arde nos olhos e apaga a visão periférica, exigindo que ele navegue pelo terreiro não pelo que vê, mas pelo que sente vibrar sob a sola de seus pés.

Ser o miolo do boi é uma forma de anacorese absoluta. Dentro daquela cúpula, ele se torna invisível para que a divindade possa ser vista. O boi precisa ser magnífico, ágil, altivo; o homem, por outro lado, precisa ser inexistente. Enquanto o público aplaude a beleza dos bordados e a destreza dos movimentos do animal que gira e investe, Augusto trava uma luta silenciosa contra a gravidade e o desmaio. Ele é a engrenagem que, para funcionar, deve estar escondida na sombra da máquina.

A escuridão interna da armação é densa, temperada pelo cheiro forte do veludo impregnado de suor de anos e pelo perfume das flores que as mulheres costumam pendurar nos chifres do boi. Em noites de apresentação, o boi é o centro do universo, o destino de todos os olhares. Augusto ouve os gritos, os elogios a "quão real" o boi parece, e o riso de quem se assusta quando ele, num movimento súbito e seco, avança em direção à multidão. Cada um desses estímulos chega até ele como algo distante, abafado pelas camadas de tecido que o separam da realidade. Ele não responde por si; ele responde pela carcaça.

Havia um momento específico, quando as matracas entravam em um ritmo quase hipnótico e o pandeirão do Mestre ditava uma cadência mais rápida, em que a exaustão física atingia um platô de quase delírio. Augusto sabia exatamente como usar esse limite.

Era ali que o boi ganhava vida, que ele parava de ser um boneco manejado e passava a possuir uma vontade própria. Ele sentia o peso da estrutura flutuar sobre seus ombros, como se a armação tivesse se fundido ao seu esqueleto. O boi não era mais um adereço; era uma extensão do seu próprio corpo, uma armadura de fé que o protegia, ou talvez o aprisionasse na celebração coletiva.

As dores nas costas eram parte do pacto. Eram como cicatrizes de honra que ele carregava em silêncio. Muitas vezes, ao retirar a armação após horas de apresentação, ele sentia o mundo girar e a gravidade parecer subitamente muito mais cruel, como se seu corpo tivesse esquecido o peso da própria carne sem o suporte protetor do veludo.

No entanto, o que ele sentia ao sair de dentro do breu daquela carcaça não era alívio puramente físico, mas uma melancolia estranha, a sensação de ser pequeno demais para o mundo vasto que o esperava lá fora.

O miolo é, em essência, aquele que sacrifica a própria voz para que a toada do boi possa ser ouvida. Ele não canta, não declama, não faz as caretas do Cazumbá. Ele apenas é. Ele é o centro gravitacional de uma ópera de rua que se sustenta apenas pela força de sua resistência.

Quando ele se ajoelha diante da multidão, a estrutura range sob o esforço, e Augusto sabe que, do lado de fora, aquele gesto é lido como uma demonstração de humildade ou um aviso de ataque. Mal sabem eles que, ali dentro, trata-se de um homem buscando um ângulo seguro para equilibrar o peso, tentando desesperadamente não tombar e acabar com a magia que ele mesmo sustenta.

Nesta noite, o calor estava particularmente insuportável. As luzes das fogueiras do lado de fora lançavam labaredas que desenhavam silhuetas de monstros nas paredes de zinco, e o som dos tambores de sopapo parecia ressoar dentro de seu crânio, ressoando nos ossos como um chamado ancestral.

Ele deu um giro circular, a saia do boi levantando poeira e obrigando o público a recuar. O brilho dos canutilhos sob os olhos de quem admirava era cego, mas o brilho real, o único que importava, era o que ele sentia ao sentir a batida da matraca vibrar não apenas em seus ouvidos, mas no coração da estrutura que ele carregava.

Quando finalmente o cortejo parou e as matracas silenciaram, o silêncio do lado de dentro da armação era um alívio puro. Augusto fechou os olhos por um segundo, o suor escorrendo em rios pelo peito desnudado. Ele ouviu os aplausos e o som das palmas que não eram para ele, mas para a divindade que ele vestia.

E, no fundo da escuridão, com a testa encostada na madeira bruta da estrutura que o mantinha de pé, Augusto esboçou um sorriso. Ninguém veria, ninguém saberia, mas ele sabia. O Boi Curupira era lindo, e ele, o homem escondido, tinha feito tudo isso acontecer, carregando o peso da tradição em suas costas como se fosse pluma, enquanto o coração batia um só ritmo com a alma daquele boi que, enquanto ele estivesse ali, nunca morreria.

JOSÉ CASANOVA
Professor, Jornalista, Escritor e Crônista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade

terça-feira, 16 de junho de 2026

CRÔNICA DO DIA: Os Mistérios do Cazumbá


 
Zeca não tinha nome quando vestia a cara de madeira, a máscara de careta que projetava um sorriso torto, dentes caninos exagerados e olhos semicerrados em uma ironia infinita. Atrás daquele artefato esculpido, que cheirava a tinta velha e suor curtido, ele não era o zagueiro que a vizinhança conhecia por ser sério, nem o operário que lidava com máquinas pesadas a semana toda. Ao colocar a máscara, o ar ao seu redor mudava de densidade. O Cazumbá não é um homem, é uma entidade que habita a fronteira tênue onde o medo dos vivos encontra o escárnio dos mortos.

A estrutura do corpo era envolta em retalhos de pano colorido, retalhos que pareciam um mosaico de memórias esquecidas, e ao redor da cintura, centenas de chocalhos de latão que, ao caminhar, emitiam um ronco metálico, como se ele estivesse arrastando fantasmas presos por correntes de metal. Zeca começou a movimentar-se à margem da roda principal, mantendo-se sempre nas sombras, perto de onde o fogo das tochas já estava diminuindo. O segredo do Cazumba, ele confidenciou uma vez a um novato que tremia de medo de usar a máscara, é que você não deve dançar para o público; você deve dançar para fazer o público se sentir observado por algo que eles não conseguem compreender.

Ele avançou sobre um grupo de crianças que, por um instante, hesitaram entre a curiosidade e o susto. Zeca não correu; ele deslizou com um gingado trôpego, propositalmente desconcertante. Deu um giro, fazendo os chocalhos da cintura responderem com um estrondo sincopado, e inclinou a máscara para frente. Por trás das frestas, ele observava o mundo. O olho humano é uma janela, mas a máscara do Cazumbá é um espelho. As pessoas, ao verem aquela carranca grotesca, projetavam nela seus próprios demônios e fantasias. O riso ácido que saía de Zeca, um riso rouco, abafado pela madeira, não era uma piada, era uma provocação.

— O que tu faz lá dentro, Zeca? — Alguém perguntou certa vez, entre risos, em uma noite de trégua nos ensaios. — Tu enlouquece ou tu descansa?

— Eu me desconstruo.  — Ele respondeu, com a seriedade de quem conhece um mistério intransponível. — Quando eu visto essa cara que ri de tudo, eu percebo que o mundo todo é uma careta. O Cazumba é o único que tem a coragem de mostrar a verdade: que a gente vive num circo e que a morte está logo ali, dando risada junto com a gente.

O Cazumbá é o anarquista da brincadeira. Enquanto os caboclos de pena mantêm a elegância e os vaqueiros   campeadores ostentam o orgulho, o Cazumbá faz o papel do caos organizado. Ele invade a roda, atrapalha o passo dos outros, faz caretas para as damas de fita e, com seus chocalhos, pontua o compasso das matracas com uma desordem proposital. Zeca amava esse papel. A liberdade de não precisar ser bonito, nem correto, nem digno. Ele podia ser o feio, o assustador, o engraçado, tudo ao mesmo tempo. Era uma liberação absoluta das amarras que a sociedade impunha sobre o corpo dos homens.

Certa noite, em uma encruzilhada de terra batida perto de Rosário, Zeca sentiu o transe pela primeira vez. A máscara não parecia mais uma peça de madeira presa por amarras de pano; parecia sua própria estrutura óssea. Ele andava e o chão respondia. A risada metálica que escapava de sua garganta soava como se viesse debaixo da terra. O medo que emanava do público era um combustível puro. Ele percebeu, então, por que o Cazumbá era a figura que menos se explicava. Não havia explicação. Havia apenas presença.

Ele se aproximou de uma idosa que o observava com um misto de reza e temor. Zeca não a assustou. Ele parou, ajoelhou-se dramaticamente, fazendo os chocalhos tilintarem em um ritmo lento, quase um lamento, e inclinou a máscara para baixo, num gesto de reverência que a plateia achou ter sido uma brincadeira, mas que, para ela, foi uma bênção. Zeca, por trás do sorriso entalhado, sentiu uma lágrima correr pelo contorno da máscara, mas ninguém nunca saberia. O Cazumbá não chora, o Cazumbá é a própria careta da vida que insiste em rir mesmo quando o mundo desaba.

Ao final da noite, quando ele finalmente retirou o artefato, o rosto de Zeca estava marcado pelas sombras da madeira. Ele sentia o peso do mundo real voltando a se instalar sobre seus ombros. A máscara, pousada no chão, parecia sorrir para ele, como se dissesse que, na próxima noite, ele voltaria a ser ela. O mistério não era como ele aguentava o peso dos chocalhos ou o calor daquele tecido fechado. O mistério era como ele conseguia voltar a ser um homem comum depois de ter sido, por algumas horas, o riso sagrado e o medo proibido daquela tradição centenária. Zeca limpou o suor da máscara com o carinho de quem guarda o seu próprio segredo mais profundo, sabendo que, enquanto houvesse um boi e um tambor, ele sempre teria um lugar para rir de tudo o que os outros apenas temiam.

José Casanova
professor , jornalist ,escritor e cronista
membro da Academia Bcabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade

sábado, 13 de junho de 2026

CRÔNICA DO DIA: O Despertar do Couro


Há um silêncio muito peculiar que antecede as noites de junho no Maranhão. Não se trata de uma ausência de som, mas de uma espécie de respiração coletiva presa na garganta de milhares de pessoas. É o momento exato em que o peso do ano inteiro, com suas labutas, poeiras e suores ordinários, começa a ceder espaço para o extraordinário. Nos quintais de terra batida, sob a luz frouxa dos postes ou o brilho agudo das estrelas, as chamas de pequenas fogueiras improvisadas começam a estalar. Elas projetam sombras imensas, trêmulas e apressadas nas paredes de taipa do interior dos brincanres ou nos muros de tijolo cru das periferias de São Luís, nos povoados isolados de Viana, Matinha, Rosário e nas encruzilhadas poeirentas de Bacabal.

Aquele fogo não foi aceso para espantar o frio, tampouco para cozinhar o alimento do corpo. É o fogo sagrado do barracão, nascido e alimentado pelas mãos calejadas dos brincantes, destinado a uma única e sagrada função: aquecer o couro.

Mestre Benedito, um homem de poucas palavras, com a pele marcada por décadas de sol nos manguezais e os olhos fundos que guardavam memórias de incontáveis madrugadas, aproximou seu pandeirão das chamas. A madeira do aro estava gasta pelo aperto das mãos, mas o couro cru, esticado à perfeição sobre a estrutura redonda, era novo e precisava ser domado. Ao seu redor, a comunidade começava a se aglomerar. Eram vizinhos, afilhados, filhos de santo, curiosos e velhos companheiros de guarnição.

— O couro chora antes de cantar, mestre? — Perguntou um menino, os olhos arregalados, refletindo as fagulhas que subiam em espiral para a noite escura.

— O couro não chora, meu filho. — Respondeu Mestre Benedito, girando o instrumento com a precisão de um artesão antigo. — O couro acorda. E, quando ele acorda, ele acorda a gente.

Aquela resposta carregava a essência de tudo o que estava prestes a acontecer nos meses seguintes. O Bumba-meu-boi não é apenas uma festa ou uma encenação teatral de rua; como diria o lendário padre Mohana; é uma liturgia pagã e cristã, uma reza forte que se canta com os pés na terra e os olhos grudados na promessa. Ali, nos dias de preparação, o barracão deixava de ser um simples galpão com telhado de zinco ou palha. Transformava-se em um templo pulsante.

Nos fundos do terreiro, longe das fogueiras e perto dos lampiões e bicos de luz, o cenário era outro, mas guiado pela mesma urgência. Em uma sala apertada, tomada por cheiro de café forte e suor, mulheres debruçavam-se sobre pedaços imensos de veludo escuro. As bordadeiras eram os pilares invisíveis da magia. Em suas mãos silenciosas, milhares de miçangas, canutilhos e lantejoulas transformavam-se em constelações brilhantes, figuras de santos, flores majestosas e escudos protetores.

— Esse boi vai ter que cegar o povo de tanto brilho este ano, Dona Rita. — Comentou uma das jovens, empurrando a agulha pelo tecido grosso com a ajuda de um dedal de metal. — A senhora viu o tamanho da procissão pro São João?

— Promessa grande não se paga com veludo fosco, menina. — Respondeu Dona Rita, sem desviar os olhos apertados da sua obra.

As costas não lhe doíam mais; o anestésico da devoção operava milagres na época das fogueiras.

— Cada continha dessa aqui é um pedido atendido. É a saúde do meu neto, é o emprego do seu marido. O boi carrega o brilho, mas quem suporta o peso da fé somos nós.

Dona Rita tinha razão. A beleza do Bumba-meu-boi é construída pelo avesso dos sacrifícios diários. Quando os portões das fábricas fecham e as ferramentas de construção civil são guardadas, o pedreiro, o estivador, a empregada doméstica, o professor e o pescador atravessam a cidade para se despir de suas rotinas. No barracão, o marcador de tempo não é o relógio ponto, mas o coração. Ao pisar naquele chão de terra ou cimento rústico, as hierarquias do mundo exterior desabam por completo. Sob o teto de zinco, a riqueza se mede pela força do gogó na hora de entoar a toada e pela firmeza do braço ao cruzar as matracas.

Lá fora, os pedaços de madeira começavam a ser testados. O som de duas matracas sendo chocadas uma contra a outra soa simples para quem nunca viu um batalhão do sotaque da Ilha. Um simples tá-tá, tá-tá. Mas, quando centenas de pares de madeira roxa começam a se encontrar em uníssono, não é um som que se escute apenas com os ouvidos. É uma vibração espessa que sobe pelas solas dos pés, sobe pelas pernas, arrepia os pelos dos braços e se instala bem no centro do peito, ditando um novo ritmo para o coração.

Os mutucas, guerreiros ágeis responsáveis pela segurança e pela ordem do cordão, já corriam de um lado a outro do terreiro, gritando ordens que se perdiam nas risadas e cumprimentos efusivos. Eram abraços de irmãos que não se viam desde a fogueira do ano passado. O cheiro de cachaça barata misturava-se ao aroma da macaxeira frita, do suor limpo que brotava da excitação e do amadeirado tostado pelas chamas espalhadas no quintal. Tudo ali era vivo. Tudo exigia presença.

No centro da roda que espontaneamente foi se formando, descansava a armação de buriti coberta por veludo ricamente bordado e fitas coloridas que caíam como uma cachoeira vibrante. A figura do Boi, silenciosa, imponente. O miolo, o homem cuja função é dar vida àquela carcaça pesada e sagrada, aproximou-se devagar. Ele passou a mão pela testa da escultura, acariciando os olhos brilhantes de vidro. Enxergar o mundo através da pequena fresta na saia do boi, equilibrando dezenas de quilos sobre os ombros enquanto gira e reverencia o público, é um ato de submissão e força descomunal. Para o miolo, o boi não é um objeto; é uma divindade temporária que ele aceita abrigar, alimentando a ilusão de quem assiste, para manter viva uma lenda que é a espinha dorsal de sua própria comunidade.

Mestre Benedito, satisfeito com a tensão de seu pandeirão, ergueu-se de seu banquinho baixo perto do fogo. Com um aceno de cabeça imperceptível aos desatentos, a roda de homens e mulheres emudeceu. A conversa animada, os risos frouxos e as instruções repassadas em voz alta morreram no instante em que o Mestre caminhou até o centro do terreiro. A noite maranhense, com suas estrelas e seus ventos mornos, parecia aguardar em reverência.

O Mestre ajeitou o instrumento no braço, suspirou fundo como se puxasse o ar dos séculos passados, desde quando o primeiro negro escravizado olhou para os folguedos lusitanos e decidiu que contaria sua própria história de dor, zombaria e resiliência usando o ritmo forte da terra.

E, então, a mão aberta desceu pesada.

Tum.

Aquele som foi como um trovão caindo dentro de uma sala fechada. O primeiro batido do couro marcou o rasgo no tempo. Não era mais maio, ou o cansaço do trabalho, ou as contas empilhadas sobre a mesa de plástico em casa. O primeiro baque libertou a poeira, os encantados e a alma daquela gente, explodindo no ar escuro feito um grito de alforria. De imediato, quase por instinto de sobrevivência e devoção, os outros tocadores alinharam seus pandeirões.

Tum, tum-pá. Tum, tum-pá.

Em segundos, as dezenas de matracas explodiram no ar com violência festiva. Pais de família choravam enquanto sorriam, as bordadeiras paralisaram suas agulhas apenas para escutar o terremoto controlado que faziam as telhas tremerem e a terra levantar poeira fina. As índias, ainda com roupas civis, sem as penas e miçangas que logo cobririam seus corpos, começaram a ensaiar o passo, pisando forte, girando o pulso, conectando o calcanhar com a veia pulsante do chão.

Para a comunidade que se enxergava e se encontrava no outro através desse transe ritmado, o pertencimento era a única moeda de valor que importava. No calor daquela onda sonora, todos sabiam exatamente quem eram e por que estavam ali. Haviam renunciado ao sono, ao pouco dinheiro que tinham, aos finais de semana livres. Mas no momento de cada toque, recebiam em troca algo impossível de ser alcançado sozinho: a certeza absoluta de que não estavam invisíveis. O Bumba-meu-boi os tornava gigantes, donos das ruas, senhores do tempo e da narrativa da própria terra. Pessoas comuns encontravam sua imortalidade no círculo mágico da cultura popular.

Enquanto a melodia da primeira toada da noite cortava o céu como uma flecha cabocla carregada de lamentos amorosos e convites à dança, cada figura tradicional do cortejo que estava adormecida começava a esticar os braços nos espíritos dos presentes. O caboclo de pena balançava as rédeas invisíveis; o cazumba desenhava em sua imaginação a corrida trôpega e assustadora usando as máscaras e chocalhos; os brincantes mergulhavam cada vez mais fundo na magia que o couro e a madeira convocavam, perdendo a noção das horas.

Quando a toada chegou ao seu refrão arrebatador e ecoou nas telhas de zinco do barracão, o pertencimento já havia silenciado e esmagado qualquer cansaço do mundo lá fora. A poeira, que o primeiro batido do couro ergueu do chão e lançou aos céus, não iria baixar tão cedo, mantendo a atmosfera mergulhada em um encanto que duraria até o último amanhecer de julho. E ali, misturado à emoção de vozes uníssonas e corpos suados, o desejo antigo de brincadeira e liberdade começava a tomar conta de forma inevitável. Em um canto da roda, oculto pelas sombras balançantes da fogueira, um sorriso largo e carregado de uma malandragem quase infantil já começava a despontar no rosto do trabalhador que mal podia esperar pelo momento exato de deixar suas tristezas para trás, cruzar o fogo e assumir seu lugar cômico e trágico na grande encenação do mundo.

 

José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Crônista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade

segunda-feira, 18 de maio de 2026

CRÔNICA DO DIA: A Máscara de São Luís


O espelho do banheiro da repartição pública, no coração do Centro Histórico de São Luís, devolvia a Marina uma imagem que ela mal reconhecia. O rosto estava perfeitamente composto: um batom discreto, os cabelos cacheados domados por um prendedor elegante e um sorriso ensaiado que ela praticara no reflexo do elevador. Mas, por trás daquela vitrine de funcionalidade, Marina sentia que suas engrenagens internas estavam moendo areia.

Ela tinha trinta e seis anos e um diagnóstico recente de TDAH, acompanhado de uma bagagem pesada de ansiedade generalizada e episódios cíclicos de depressão. Em São Luís, uma cidade que transborda espontaneidade e barulho, a vida de Marina era uma coreografia de contenção.

— Você está ótima, Marina. O relatório está pronto, a reunião foi um sucesso — Sussurrou para si mesma, inspirando o ar úmido que subia do mar e se infiltrava pelas janelas coloniais do casarão onde funcionava seu setor.

O problema não era a competência. O problema era o masking. Para o mundo corporativo e social da Ilha, Marina era a profissional focada, a colega que nunca perdia um prazo. Ninguém via o esforço monumental que ela fazia para não se perder em devaneios durante as falas dos diretores, ou a exaustão física que sentia ao final do dia por ter passado oito horas controlando seus tiques nervosos e forçando um contato visual que lhe parecia invasivo e doloroso.

A máscara social era sua armadura, mas também sua cela.

Ao voltar para sua mesa, o som das conversas paralelas e o clique-clique incessante dos teclados começaram a perfurar sua paciência. A umidade de São Luís parecia pesar dez quilos sobre seus ombros. Marina sentia a ansiedade subindo como a maré da Baía de São Marcos: lenta, inevitável e sufocante.

— Marina, o pessoal vai tomar um sorvete ali na Rua do Giz depois do expediente. Você vem? — Perguntou Ricardo, um colega de trabalho sempre entusiasmado.

— Ah, Ricardo... hoje não vai dar. Tenho muita coisa para organizar em casa. — Mentiu ela, com a precisão de quem já domina a arte da evasão.

A verdade era que o reservatório de energia social de Marina estava abaixo da reserva. Ir ao sorvete significaria mais duas horas de máscara, mais duas horas de risadas calculadas e monitoramento constante da própria postura. Ela precisava do seu "casulo", o apartamento pequeno onde as luzes eram baixas e o silêncio era a única língua permitida.

Ao sair do trabalho, caminhou pelas ruas de paralelepípedos. O pôr do sol dourava os casarões, e o som de um saxofone vindo de uma galeria próxima tentava seduzi-la a ficar. São Luís é uma cidade que exige presença, que convida ao encontro. No entanto, para Marina, cada interação era um gasto de energia que ela não tinha. A depressão não se manifestava nela como uma tristeza profunda e melodramática, mas como uma apatia cinzenta, um descarregamento total da bateria da alma.

"Por que eu não posso simplesmente ser como eles?", pensava ela, observando um grupo de turistas rindo alto perto do Palácio dos Leões. "Por que para mim tudo é um cálculo? Por que o mundo parece ter o volume no máximo e eu não encontro o controle remoto?"

O peso da máscara começou a machucar o rosto invisível de sua mente. Adultos neurodivergentes, especialmente mulheres que passaram décadas sem diagnóstico, frequentemente desenvolvem quadros graves de ansiedade porque passaram a vida tentando se encaixar em moldes que não foram feitos para suas formas. Marina era o resultado dessa pressão interna. Ela era a excelência construída sobre os escombros da própria saúde mental.

Ao chegar em casa, a rotina de descompressão começou. Ela jogou as chaves na tigela, tirou os sapatos e sentou-se no chão da sala, no escuro. O choro veio sem aviso. Não era um choro de dor súbita, mas de alívio por poder, finalmente, soltar os músculos da face. Ali, ninguém exigia que ela fosse "normal". Ali, seus pensamentos podiam saltar de um lado para o outro sem precisar de uma conclusão lógica imediata.

A ansiedade, porém, ainda sussurrava em seu ouvido, enumerando as tarefas de amanhã, prevendo possíveis falhas, revisando conversas de hoje para ver se ela não tinha soado "estranha". A neurodivergência na vida adulta é um jogo de sombras. É lutar contra o preconceito dos outros e contra o próprio autojulgamento, a sombra que insiste em dizer que o cansaço é preguiça e a necessidade de isolamento é falta de afeto.

Marina levantou-se e foi até a janela. Lá fora, São Luís brilhava com as luzes dos postes e o reflexo da lua na água. Ela percebeu que a máscara era um recurso de sobrevivência, mas que não podia ser sua única pele. A inclusão real, que ela tanto lia nos portais de direitos das pessoas com deficiência e neurodivergentes, precisava começar dentro de si mesma.

— Amanhã. — Disse ela para a noite. — Eu vou levar meus fones de ouvido para o trabalho. Vou explicar que o barulho me atrapalha a concentrar.

Pode parecer um gesto pequeno, mas para quem viveu trinta e seis anos fingindo que o mundo não a machucava, admitir uma sensibilidade era um ato de coragem suprema. Era começar a tirar a máscara, peça por peça, e permitir que a Marina real, com seus silêncios, suas inquietações e sua criatividade fragmentada, pudesse respirar o ar úmido da Ilha sem sentir que estava se afogando.

A máscara de São Luís seria guardada na gaveta. Marina sabia que a depressão e a ansiedade não desapareceriam da noite para o dia, mas aceitar que seu cérebro tinha um ritmo diferente era o primeiro passo para que aquelas patologias deixassem de ser sua identidade. Ela era Marina. Ela era neurodivergente. E ela tinha o direito de habitar a cidade sem ter que representar um papel que não fora escrito para ela.

Naquela noite, o sono veio mais fácil. A ansiedade baixou como a maré, deixando na areia de sua mente as conchas de uma nova consciência. Ela não precisava ser normal; ela precisava ser apenas real. E a realidade, tal qual os casarões de sua cidade, podia ter rachaduras e azulejos faltando, mas ainda assim guardava uma beleza e uma dignidade que nenhum disfarce jamais conseguiria igualar.

Ela uma mulher que aprendera a respirar sem o peso de um sorriso forçado. E isso, por si só, já era uma vitória monumental contra o silêncio que o mundo insiste em impor aos que percebem a vida em outras frequências.


José Casanova 

Professor, Jornalista, Escritor e Cronista

Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade


domingo, 15 de março de 2026

CRÔNICA DO DIA: A Virgula do Destino



A luz do abajur, um círculo amarelo e artificial, era o único sol que iluminava o pequeno escritório de Otávio Filho em Fortaleza. Do lado de fora, a cidade pulsava com suas praias e vida noturna, mas ali dentro, o tempo corria em outra frequência, ditada pelo ritmo das frases alheias. Otávio não era escritor; era revisor. Sua função era limpar a bagunça deixada pelos criadores, varrer o excesso de vírgulas, podar advérbios e alinhar a sintaxe torta de quem acreditava que inspiração dispensava gramática.

Sobre a mesa de fórmica gasta, pilhas de redações do terceiro ano do ensino médio da escola Joaquim Nogueira aguardavam seu julgamento. O tema da semana fora "O Futuro da Comunicação na Era Digital". Um prato cheio para clichês sobre "conectividade", "globalização" e a indefectível citação de Bauman sobre a "modernidade líquida". Otávio suspirou, a caneta vermelha pairando sobre a folha pautada de um aluno chamado Jonas.

A letra era miúda, quase microscópica, como se o garoto quisesse economizar tinta ou esconder o conteúdo. Otávio ajustou os óculos e começou a ler.

"A língua não vai morrer; ela vai apenas perder o corpo."

Otávio parou. A frase inicial não tinha erros. A concordância estava perfeita. A crase, ausente, estava correta. Mas havia algo no tom que o incomodou. Continuou.

"Nós não falaremos mais. Nós apenas pensaremos em ícones. A palavra escrita será um luxo de arqueólogos. O sujeito desaparecerá, restando apenas o predicado da ação pura. Verbo sem carne."

Um arrepio frio percorreu a espinha de Otávio, apesar do calor abafado da noite cearense. Aquilo não parecia uma redação escolar. Parecia uma profecia. Ele seguiu o texto, procurando obsessivamente por um erro, um deslize, uma vírgula fora do lugar que o trouxesse de volta à segurança de sua função de corretor.

Encontrou-a no terceiro parágrafo.

"A vírgula, será a primeira a cair."

Otávio circulou o erro com força, quase rasgando o papel. Uma vírgula separando o sujeito do predicado. O pecado capital da sintaxe. O crime inafiançável. Ele sorriu, aliviado. Ali estava a prova de que Jonas era apenas um estudante confuso, tentando soar profundo. Em crime que até os grandes escritores comentem.

Mas então, ele releu a frase anterior: "O silêncio será a gramática final." E logo depois do erro gritante: "A pausa não será mais necessária porque o fluxo será contínuo. A vírgula é o soluço da dúvida. No futuro, não haverá dúvida. Apenas dados."

Otávio largou a caneta. A vírgula "errada" não era um erro. Era uma demonstração. Jonas havia colocado a vírgula ali de propósito, para ilustrar a "pausa" que ele dizia estar condenada. Era uma metalinguagem brutal, aplicada por um adolescente de dezessete anos.

O revisor sentiu-se tonto. Ele dedicara a vida a preservar a norma culta, a lutar contra o gerundismo e a defender a colocação pronominal. E agora, diante daquele papel barato, sentia que estava defendendo um castelo de areia contra a maré alta. Se o futuro da língua era a fluidez absoluta, o dado puro, sua profissão de jardineiro de frases estava com os dias contados.

Ele continuou lendo, agora não mais como revisor, mas como uma testemunha aterrorizada.

"Os emojis são os hieróglifos do amanhã. Voltaremos às cavernas, desenhando nas paredes luminosas das telas. A complexidade da oração subordinada morrerá porque o cérebro não suportará a espera pelo sentido. Tudo será frase simples. Sujeito, verbo, objeto. E depois, apenas verbo. E depois, apenas imagem."

Otávio olhou para as estantes ao seu redor, repletas de gramáticas, dicionários e clássicos da literatura. Eram túmulos. Túmulos de papel onde repousavam regras que ninguém mais respeitaria. Ele pegou a caneta vermelha novamente, mas sua mão tremia. Corrigir aquela redação parecia um ato de vandalismo contra um oráculo.

No final da página, Jonas havia escrito:

"Professor, não corrija o que não tem conserto. A língua está mudando de estado físico. Ela está virando gás. Tentar segurá-la com regras é tentar prender fumaça com as mãos."

Otávio fechou os olhos. A imagem da fumaça era precisa demais. Ele passou a vida tentando engarrafar fumaça, colocar rótulos em nuvens. A obsessão pela correção, percebeu ele com uma clareza dolorosa, era apenas medo do caos. A gramática era a grade que ele construíra para se proteger da imprevisibilidade da vida.

Ele olhou para a vírgula circulada em vermelho. A "vírgula do destino". Ela estava ali, desafiadora, separando o sujeito do predicado, quebrando a regra sagrada, e no entanto, fazendo todo o sentido do mundo dentro da lógica do texto. Aquela vírgula não era um erro; era um grito de resistência. Era a última pausa antes do fluxo contínuo e avassalador que Jonas previa.

Otávio pegou o corretivo líquido, o famigerado "branquinho", e, com uma delicadeza cerimonial, cobriu o círculo vermelho que fizera. Deixou a vírgula intacta. Deixou o erro brilhar em sua insolência profética.

Guardou a redação na pasta, separada das outras. Não daria nota. Não havia nota para o fim do mundo como o conhecíamos. Apagou a luz do abajur e ficou no escuro, ouvindo o som distante do trânsito de Fortaleza. O ruído constante, sem pausas, sem vírgulas. O som do futuro chegando. E pela primeira vez em anos, Otávio Filho não sentiu vontade de corrigir nada. Apenas escutou, tentando decifrar a nova gramática que nascia no caos lá fora, enquanto sua caneta vermelha dormia, inútil, sobre a mesa.

Por José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade





sábado, 14 de março de 2026

CRÔNICA DO DIA: A Liturgia do Calendário e os Santos Feriados

O relógio de parede da sala dos professores da Escola Joaquim Nogueira, em Fortaleza, não marcava apenas horas; ele parecia contar os batimentos cardíacos de uma resistência exausta. O ponteiro dos segundos avançava com um clique metálico que ecoava no silêncio tenso de um intervalo que se recusava a ser relaxante. Sobre a mesa central, o café, servido em uma xícara de plástico laranja que já vira dias melhores, exalava um vapor que se misturava ao cheiro de giz e corretivo líquido.

Reginaldo, o professor veterano de Geografia, cujos mapas mentais já incluíam cada buraco na calçada do bairro e cada atalho para fugir do trânsito na hora do rush, não estava corrigindo provas. Seus óculos, equilibrados na ponta do nariz, focavam em algo muito mais sagrado: o calendário escolar oficial da Secretaria de Educação. Ele não lia o papel; ele o estudava com a intensidade de um arqueólogo diante de hieróglifos que revelavam a localização de uma tumba cheia de ouro.

― Senhores, aproximem-se! ― Convocou Reginaldo, a voz baixa, carregada de uma solenidade quase eclesiástica. ― O Conselho dos Mestres está oficialmente aberto. Tragam a caneta marca-texto vermelha. Não a rosa, a vermelha. Cor de sangue. Cor de feriado.

Aos poucos, a fauna acadêmica do colégio Joaquim Nogueira se aproximou. Sandra, da Matemática, que conseguia calcular a probabilidade de uma briga no pátio apenas pelo tom de voz dos alunos do nono ano, sentou-se à esquerda. Do outro lado, apareceu o jovem professor de História, ainda ostentando uma olheira funcional de quem passara a madrugada planejando uma aula lúdica sobre a Revolução Francesa, sem saber que sua própria guilhotina estava armada no oitavo ano C.

― O que temos para o próximo mês, Reginaldo? ― Perguntou Sandra, cruzando os braços e apertando os olhos. ― Diga-me que não estamos atravessando um deserto de trinta dias úteis. Meu MBI, o inventário de Burnout, está apitando mais que sensor de ré em estacionamento de shopping no Natal.

Reginaldo pigarreou. Ele deslizou o dedo indicador pelo papel, parando em uma data específica.

― Meus caros, a situação é delicada, mas há uma luz. Vejam o dia doze. Cai numa quinta-feira.

Um suspiro coletivo, entre o alívio e a descrença, preencheu a sala. O silêncio que se seguiu foi de pura especulação metafísica. Naquele ambiente, um feriado na quinta-feira não era apenas uma data cívica ou religiosa; era uma promessa messiânica de um "enforcamento" coletivo, o chamado feriado prolongado, a ponte que ligava o abismo da exaustão ao paraíso do ócio.

― Quinta-feira... ― Suspirou o professor de História, os olhos começando a brilhar. ― Se o conselho de classe for antecipado para a quarta, e a reunião pedagógica for remota na sexta...

― Negativo, gafanhoto! ― Interrompeu Reginaldo, com a autoridade de quem já sobreviveu a dez reformas previdenciárias. ― Você é novo e ainda acredita em milagres administrativos. A secretaria nunca dá a sexta de graça. A sexta-feira após um feriado de quinta é o que chamamos de "Zona de Sacrifício". É o dia em que três alunos aparecem, dois deles porque não têm chave de casa e um porque a mãe esqueceu de buscá-lo na creche ao lado e o deixou aqui por engano.

― Mas a gente pode forçar a barra. ― Interveio Sandra, Peguntando a calculadora. ― Se tivermos setenta por cento de ausência docente por "viroses súbitas" na sexta, a direção é obrigada a declarar ponto facultativo por falta de quórum pedagógico. É uma ciência exata, Reginaldo. Eu tenho a planilha de ausências dos últimos cinco anos. O pico inflamatório do professor cearense sempre coincide com feriados que caem em terças ou quintas. É biológico. É o corpo reagindo à opressão do giz.

A conversa fluiu para o que os professores mais veteranos chamavam de "A Liturgia das Datas". Começaram a contar, um a um, os dias úteis restantes. Para aquele grupo, a vida não era medida em meses, mas em "segundas-feiras traumáticas" e "sextas-feiras de sobrevivência". Cada feriado era um santo padroeiro da saúde mental. São Tiradentes era invocado com fervor por ter caído em uma segunda, proporcionando três dias de silêncio absoluto longe de gritos de "fala baixo, oitavo ano!".

― E o Dia do Professor? ― Indagou o novato.

Reginaldo soltou uma risada rouca, que parecia vir de uma garganta lixada por anos de poeira de quadro negro.

― Dia do Professor cai no domingo este ano, meu jovem. É a prova definitiva de que Deus dá as laringes mais fortes para os pecadores mais resistentes. É uma ofensa pessoal. É o universo dizendo: "Trabalhe, escravo do saber". A única esperança é o feriado municipal da padroeira, mas ouvi boatos na Secretaria de que a prefeitura quer adiar a folga para coincidir com o fim de semana.

― Heresia! ― Exclamou Sandra, batendo com a caneta na mesa. ― Mudar a data da Santa é pecado administrativo. A fé do professor reside na folga de terça-feira que quebra o ciclo vicioso da despersonalização.

A obsessão era tamanha que Reginaldo retirou de sua pasta um calendário paralelo, desenhado à mão. Nele, os dias não tinham números, mas níveis de estresse. As segundas eram vermelhas; as quartas, laranjas; e os feriados eram pintados de dourado, com pequenas auréolas desenhadas sobre os números. Era a cartografia da esperança. Ali, o feriado de novembro não era a Proclamação da República, era o "Dia do Grande Respiro".

― Vocês já repararam. ― Continuou Reginaldo, baixando ainda mais o tom, como se estivesse revelando um segredo de estado. ― Que o aluno também sente o cheiro do feriado? Na quarta-feira que precede a folga, o nível de decibéis da escola cai. Eles entram em estado catatônico de antecipação. É o único momento de comunhão real entre mestre e aprendiz: o desejo mútuo de não estar ali.

― É verdade! ― Concordou a professora de História. ― Ontem um aluno me perguntou se a Revolução Francesa aconteceu num feriado, porque "se não foi, o povo devia estar muito estressado para fazer barricada". Eu quase dei dez para ele pela compreensão sociológica da fadiga humana.

O ritual continuou com a conferência das datas de encerramento do bimestre. A contagem de dias se tornou uma operação tática. Quantas aulas ainda restavam? Quantos minutos de exposição ao risco de uma pergunta sem sentido sobre o fim do mundo no meio de uma explicação sobre verbos irregulares? Cada feriado descontado era uma vitória em uma guerra de atrito.

De repente, a porta da sala dos mestres se abriu com um estrondo. Era a diretora, carregando uma pilha de circulares que pareciam prontas para esmagar qualquer resquício de alegria.

― Bom dia, equipe. Passando para avisar que a Secretaria autorizou a reposição de carga horária do feriado que enforcamos no mês passado. Será no próximo sábado letivo, com direito a gincana pedagógica e reunião de pais à tarde.

O silêncio que se instalou foi absoluto. Reginaldo olhou para o seu calendário dourado. O marca-texto vermelho parecia chorar sobre o papel. A liturgia fora interrompida por um decreto de penitência.

― Sábado... letivo... ― Repetiu Sandra, o tom de voz perdendo a cor. ― Isso invalida o cálculo da minha homeostase emocional. Vou ter que recalcular a rota da minha sanidade.

Reginaldo, no entanto, não se deixou abater por muito tempo. Ele era um sobrevivente. Com a calma de quem já viu crises econômicas e trocas de governo sem nunca perder um feriado de vista, ele pegou a caneta e começou a riscar o sábado com uma cor cinza, como quem marca o purgatório, mas logo seus olhos brilharam novamente ao focar no final de dezembro.

― Calma, colegas. Não percam a fé no sistema. Se contarmos os dias de greve previstos para o próximo semestre e somarmos às folgas eleitorais que virão com o treinamento de mesários... ainda temos uma chance de chegar ao Natal com pelo menos três neurônios funcionando de forma síncrona.

A sala dos professores voltou a respirar. O café já estava frio e o tempo de intervalo estava chegando ao fim, mas o grupo permanecia ali, unido pelo pacto silencioso de que a verdadeira pedagogia era a arte de cronometrar a distância entre uma segunda-feira e a liberdade de um descanso prolongado. A estratégia de enfrentamento agora envolvia planejar minuciosamente como transformar o sábado letivo em uma sessão de cinema com filmes de três horas de duração, garantindo que o esforço vocal fosse reduzido ao mínimo necessário para a sobrevivência das cordas vocais.

Ao saírem da sala, em direção ao corredor barulhento da Joaquim Nogueira, Reginaldo guardou o calendário junto ao peito. Ele sabia que, enquanto houvesse um quadradinho vermelho no horizonte, haveria força para enfrentar o caos. Afinal, para um professor veterano, a esperança não é a última que morre; a esperança é a folga que ainda não foi revogada por uma portaria municipal.

A contagem regressiva para o dia doze havia começado. Eram apenas setecentas e vinte horas de aula, trezentas intervenções disciplinares e duas dúzias de reclamações sobre a merenda até que o silêncio sagrado do feriado finalmente reinasse sobre a sanidade do magistério, permitindo que cada um deles pudesse, por um breve momento, esquecer que a gramática e a geografia existiam fora das quatro linhas do descanso.

Por José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista
Membro da Academia Bacabalense de Letras 
Academia Mundial de Letras da Humanidade



domingo, 8 de março de 2026

CRÔNICA DO DIA: Ritmos da Ilha e Mentes Inquietas



Quando os primeiros raios de sol de São Luís atravessaram a janela do quarto no bairro da Cohama, atingindo o rosto de Mateus Ribeiro, sua mente já estava em rotação máxima há pelo menos duas horas. Ele não acordara com o sol; ele simplesmente nunca havia desligado o motor. Enquanto a cidade despertava sob o manto de umidade característica da Ilha do Amor, Mateus tentava, pela quarta vez consecutiva, organizar os livros de Antropologia na estante, apenas para ser sequestrado pela visão de uma pequena rachadura no gesso do teto que, jura ele, tinha o formato exato do contorno da costa maranhense.

— Concentra, Mateus. O trabalho de campo não vai se escrever sozinho. — Murmurou para as paredes, embora soubesse que sua voz era apenas um ruído a mais na orquestra de pensamentos que aceleravam em seu lobo frontal.

Mateus era um estudante de Ciências Sociais da UFMA, um jovem de vinte e dois anos cujos olhos castanhos brilhavam com uma curiosidade elétrica, típica de quem possui o Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH). Para ele, a capital maranhense não era apenas um cenário geográfico; era um estímulo sensorial ininterrupto. O problema não era a falta de atenção, como muitos professores insistiam em anotar em seus boletins desde a infância na rede pública. O problema era o excesso dela. Ele prestava atenção em tudo: no ritmo do bumba-meu-boi que ecoava de ensaios distantes, no padrão das ondas do mar na Ponta d'Areia, na temperatura exata do café que esquecera sobre a mesa e, principalmente, na tese complexa sobre as matrizes africanas que precisava entregar em dois dias.

Ele pegou sua mochila, enchendo-a de canetas de quatro cores diferentes, três cadernos (um para a faculdade, um para desenhos e outro para ideias aleatórias que surgiam como flashes de magnésio) e saiu de casa. O trajeto até o Centro Histórico, onde planejava observar a dinâmica dos casarões para seu trabalho, era um desafio de navegação mental.

No terminal de integração da Cohama, o caos era uma sinfonia. Mateus sentia cada empurrão, ouvia cada conversa paralela e, por um momento, ficou paralisado diante de um cartaz de um show de reggae que seria no final de semana. Reggae. Jamaica. Radiolas. Frequências baixas. Como o som viaja na água? Em questão de segundos, ele já não estava mais no terminal; sua mente navegava por artigos científicos sobre acústica que lera três meses atrás em um surto de interesse por engenharia de som.

— Ei, rapaz! Vai subir ou vai ficar aí namorando o poste? — o motorista do ônibus gritou, despertando-o do transe.

Mateus subiu apressado, sentindo o rosto queimar. Sentou-se perto da janela e pegou o caderno. Tentou escrever sobre o trabalho de antropologia, mas o ritmo do motor do ônibus, um tantan-tantan metálico e persistente, o lembrou da batida do tambor de crioula. Ele começou a desenhar o padrão rítmico nas margens do papel. Suas mãos não paravam: uma perna balançava freneticamente, enquanto os dedos da mão esquerda batiam no banco à sua frente.

— Você está bem, mano? — Perguntou um outro jovem sentado ao lado, estranhando a agitação.

— Sim, sim. Só estou... — Mateus buscou a palavra. — Processando. Tem muita coisa acontecendo aqui dentro hoje.

O rapaz deu de ombros e voltou para o celular. Mateus sentiu aquela pontada familiar de isolamento. As pessoas achavam que ele era impaciente ou ansioso, mas a verdade é que ele estava apenas tentando não se afogar em si mesmo. Para um jovem neurodivergente em São Luís, a cidade oferece o melhor e o pior dos mundos: a efervescência cultural que alimenta a criatividade e o caos urbano que estraçalha a organização executiva.

Ao descer na Praia Grande, a arquitetura colonial o abraçou. Os azulejos portugueses, com seus padrões geométricos repetitivos, eram um oásis para seu hiperfoco. Ele podia passar horas analisando a simetria de um único casarão na Rua do Giz. E foi exatamente o que aconteceu.

Ele se sentou no meio da escadaria, ignorando os turistas e os vendedores de artesanato. O sol batia nos azulejos azuis e brancos, criando reflexos que dançavam diante de seus olhos. De repente, a tese de antropologia que parecia um fardo pesado de manhã começou a se conectar. Ele não via apenas pedras e cal; ele via a história das mãos que assentaram aqueles blocos, via a resistência negra infiltrada nas frestas do barro, sentia a pulsação do porto que outrora fora o coração da província.

Suas canetas coloridas começaram a voar pelo papel. O que seria um texto acadêmico rígido transformou-se em um mapa mental vibrante. Ele desenhava fluxos de poder, setas que ligavam a música de hoje ao sofrimento de séculos atrás, rimas que explicavam conceitos de sociologia urbana. O hiperfoco, aquele estado de graça doloroso e magnífico, o havia capturado. Durante três horas, Mateus não sentiu sede, não percebeu o calor sufocante e nem ouviu as notificações insistentes em seu celular.

A mente inquietante, que o fazia perder as chaves de casa e esquecer o nome das pessoas dois segundos após as apresentações, agora era um laser de alta precisão. Naquele momento, o TDAH não era um déficit; era uma superpotência de síntese criativa.

Porém, como toda maré em São Luís, o refluxo era inevitável.

Quando o sol começou a baixar, tingindo o Rio Anil de laranja e carmim, Mateus sentiu o cansaço mental desabar sobre seus ombros como um manto de chumbo. A adrenalina do hiperfoco evaporara, deixando-o com uma dor de cabeça latente e uma desorientação espacial momentânea. Ele olhou para o caderno. Tinha trinta páginas de anotações brilhantes, mas o resumo que o professor exigia para aquela tarde ainda não estava formatado.

Ele se levantou, sentindo as pernas dormentes. Precisava comer, precisava de silêncio, mas São Luís àquela hora se preparava para a noite. O som de uma radiola de reggae começou a brotar de um bar próximo, as vibrações graves fazendo o chão tremer levemente.

Mateus caminhou até uma lanchonete e pediu um suco de acerola. Enquanto esperava, tirou da mochila um pequeno objeto de metal, um fidget spinner desgastado que ele usava para canalizar a energia cinética. Girar o objeto o ajudava a fixar o pensamento no presente, a não deixar a mente voar de volta para as frestas dos azulejos ou para as batidas do tambor.

— Você é o Mateus, lá da UFMA, né? — Uma moça de óculos e cabelos cacheados sentou-se na mesa ao lado. — Te vi lá na escadaria. Você parecia estar em outra dimensão, escrevendo sem parar.

— É... — Ele sorriu sem jeito, escondendo o brinquedo de metal sob a palma da mão. — Às vezes eu entro nessas "outras dimensões". É o meu jeito de funcionar.

— Eu vi um pouco do que você estava rascunhando. Aquela conexão entre a urbanização da Ilha e os toques de terreiro... aquilo é genial. Você devia mandar para o congresso de estudantes.

Mateus sentiu um alívio genuíno. O reconhecimento de que sua mente inquieta produzia valor, e não apenas confusão, era o melhor remédio que ele poderia receber.

— O problema é organizar tudo isso antes do prazo. — Admitiu ele. — Minha cabeça é como essa cidade em dia de festa de São Pedro: muita cor, muita gente falando ao mesmo tempo, muita alegria, mas um trânsito impossível de organizar.

A moça riu, uma risada leve que parecia harmonizar com o vento da orla.

— Mas olha, Mateus, a beleza da gente aqui na Ilha é justamente essa mistura. Se a gente fosse todo mundo arrumadinho e silencioso, São Luís seria apenas um museu de pedra morta. A gente precisa dessa sua agitação para manter as coisas vivas.

Ele terminou o suco, sentindo a energia retornar devagar. Ele sabia que a noite seria longa, que teria que lutar contra a procrastinação para transcrever aqueles rascunhos fascinantes para o computador, e que provavelmente perderia o ônibus de volta por se distrair com a lua refletida no mar. Mas ali, sob o céu da capital que acolhia poetas e loucos com a mesma generosidade, Mateus aceitou que sua mente era, de fato, um ritmo próprio.

Ele não precisava ser o metrônomo perfeito que o sistema acadêmico esperava; ele poderia ser o improviso sincopado de um solo de saxofone no Reviver. A dificuldade de concentração permaneceria lá, o esquecimento das coisas triviais continuaria a persegui-lo, mas a capacidade de ver beleza onde os outros viam apenas azulejos velhos era o seu lugar no mundo.

Mateus guardou seus cadernos, fechando o zíper da mochila com um senso de propósito renovado. Ele atravessou a rua, esquivando-se do trânsito intenso da volta para casa, mas desta vez não se sentia sobrecarregado. Ele apenas sorriu. Enquanto as luzes dos postes se acendiam uma a uma, pontilhando a orla de São Luís como estrelas terrestres, ele percebeu que a sua pressa interna não era um erro de fabricação. Era apenas a sua maneira de acompanhar a rotação acelerada de um planeta que ele, em seus melhores dias, conseguia entender como ninguém mais.

A luta por espaço, por direitos e por compreensão educacional ainda seria uma constante em sua vida acadêmica. Ele ainda teria que explicar muitas vezes por que não conseguia ficar parado ou por que precisava de fones de ouvido para ler um texto simples na biblioteca. Contudo, naquela tarde, o mar de São Luís lhe ensinara que é possível ser imenso e turbulento ao mesmo tempo, e que a verdadeira inclusão começa quando paramos de tentar acalmar a tempestade e aprendemos, enfim, a navegar nela.

A agitação não cessaria ao chegar em casa, nem as letras parariam de flutuar diante de seus olhos pregando peças de atenção. Ele sabia que o roteiro da sua vida seria escrito em saltos, em hiperfocos e em recomeços. E ao olhar uma última vez para os casarões antes de entrar no ônibus, Mateus compreendeu que seu direito à neurodivergência era, antes de tudo, o direito de ser essa mente inquieta que faz a Ilha pulsar em ritmos que só ele era capaz de traduzir em cores e rimas.

Esta crônica é dedicado ao escritor Matheus Soares da Academia  Bacabalense de Letras 

Por José Casanova
Professor,Jornalista, Escritor e Cronista
Membro da Academia Bacbalense de letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade













sábado, 7 de março de 2026

CRÔNICA DO DIA : O Corretor de Destinos


A sala era um campo de batalha, embora ninguém de fora pudesse perceber. Não havia cheiro de pólvora nem drones sobrevoando, mas o ar estava saturado com o odor metálico de tinta fresca e o perfume seco de papel velho. Bento estava de pé, a camisa empapada de suor nas costas, empunhando uma caneta vermelha como se fosse uma adaga. Diante dele, sobre a mesa de madeira maciça, jazia o manuscrito de setecentas páginas intitulado "A Epopeia do Sertão Maranhense". O autor, um jovem promissor de Caxias, o enviara com a esperança de que Bento, o lendário editor conhecido apenas como "O Exterminador", lhe desse a bênção final.

Bento não dava bênçãos; ele dava extrema-unção.

Ele olhou para a página 43. O parágrafo descrevia o nascer do sol no Rio Itapecuru. Eram vinte linhas. Vinte linhas para dizer que o sol nasceu. O adjetivo "rubro" aparecia três vezes. "Majestoso", duas. Bento sentiu uma pontada na têmpora. Aquilo não era literatura; era vaidade. O escritor não estava descrevendo o rio; estava descrevendo a si mesmo descrevendo o rio, admirando o próprio reflexo na superfície das palavras.

Era a própria personificação de Narciso.

Com um movimento brusco, Bento riscou o parágrafo inteiro. O som da caneta rasgando o papel foi audível no silêncio da sala. Riiiip. Um corte. Uma amputação necessária.

O texto sangrou em vermelho.

A revisão não é um ato de correção gramatical; é uma luta corporal. Bento sentia o peso físico daquelas palavras inúteis. Elas ocupavam espaço, consumiam oxigênio, pesavam na mochila do leitor. Cada advérbio desnecessário era uma pedra que o narrador obrigava o público a carregar morro acima. Sua função era aliviar a carga, mesmo que para isso tivesse que quebrar os dedos do autor que se agarravam às suas preciosas criações.

Virou a página. Um diálogo.

"— Maria, por obséquio, poderias tu, em tua infinita bondade, passar-me o sal que repousa sobre a toalha de linho bordada por tua avó?"

Bento soltou um gemido. Ninguém falava assim. Nem em 1800, nem hoje, nem nunca. A verossimilhança fora sacrificada no altar do rebuscamento. Ele riscou tudo e escreveu na margem, com letras garrafais e trêmulas de raiva contida: "— Me passa o sal, Maria."

A luta física se intensificou. Seus ombros doíam. A tensão de segurar o caos, de impedir que a entropia da linguagem tomasse conta da obra, exigia uma postura de gladiador. Ele caminhava ao redor da mesa, gesticulando para o vazio, discutindo com o autor ausente.

— Você não entende, garoto? — Murmurou Bento, batendo o dedo na mesa. — O leitor não tem tempo para o seu umbigo. Ele quer a história. Ele quer o sangue, o suor, o medo. Você está dando a ele um catálogo de sinônimos!

Arrancou a página 150. Amassou-a e jogou no canto da sala, onde já havia uma pilha de bolas de papel, cadáveres de cenas inteiras que não sobreviveram ao critério da necessidade. Naquela cena, o protagonista passava três páginas pensando sobre a morte de um besouro. O besouro não tinha função na trama. Era apenas um pretexto para o autor mostrar que lera Kafka. Fora. O Exterminador não tinha piedade de referências gratuitas.

A noite avançava lá fora, os grilos de Bacabal cantando em um ritmo que parecia zombar da prolixidade humana. Bento serviu-se de mais uma xícara de café frio. Suas mãos tremiam, manchadas de tinta vermelha. Parecia sangue seco. Talvez fosse. O sangue das ideias que ele matara para que a história pudesse viver.

Voltou ao manuscrito. Página 400. O clímax. Aqui, o autor finalmente acertara o tom. A descrição da seca, da fome, da morte do gado. Era crua. Era real. Bento sentiu um arrepio. Ali estava. A pepita de ouro no meio da lama. Mas, logo em seguida, o autor estragava tudo com uma reflexão filosófica de cinco páginas sobre a transitoriedade da existência.

— Não! — Gritou Bento, riscando furiosamente. — Deixe o leitor sentir! Não explique o que ele deve sentir! Confie na sua cena!

O corte foi profundo. Cinco páginas inteiras marcadas com um grande "X". O que sobrava era o silêncio após a tragédia. E naquele silêncio, a dor do personagem gritava com uma força que nenhuma explicação poderia igualar. O vazio, percebeu Bento, era a ferramenta mais poderosa do escritor. Era no espaço em branco entre um ponto final e a próxima maiúscula que a imaginação do leitor trabalhava.

Ao final da madrugada, o manuscrito de setecentas páginas fora reduzido a trezentas. A mesa estava coberta de retalhos. O chão, um cemitério de parágrafos. Bento sentou-se, exausto. O corpo doía como se tivesse carregado sacos de cimento. Mas, ao passar a mão pelas páginas restantes, sentiu a pulsação da obra. Agora, ela respirava. O coração da história batia forte, sem a gordura que o sufocava.

Ele pegou a caneta vermelha, agora quase sem tinta, e escreveu na capa do manuscrito sobrevivente: "Agora sim. Agora é um livro."

Levantou-se e foi até a janela. O sol começava a pintar o céu de Bacabal com cores que dispensavam adjetivos. Bento sabia que o autor, ao receber o texto mutilado, choraria. Ficaria furioso. Chamaria Bento de carniceiro, de insensível, de inimigo da arte. Mas, daqui a alguns anos, quando relesse a obra publicada, entenderia. Ou talvez não. Pouco importava. O Exterminador não trabalhava para o aplauso do autor; trabalhava para a sobrevivência do texto.

Olhou para as próprias mãos. A tinta vermelha impregnada nas digitais era a prova do crime e da salvação. A revisão era um ato de amor violento. Era preciso ferir para curar. Era preciso matar o que era apenas bonito para salvar o que era verdadeiro. E ali, naquela sala silenciosa onde o único som era o da própria respiração, Bento soube que a batalha fora vencida. O que restava sobre a mesa não era mais um amontoado de palavras; era algo sólido, denso, perigoso. Era literatura.

Por José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista
Membro da Academia Bcabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade