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sábado, 13 de junho de 2026

CRÔNICA DO DIA: O Despertar do Couro


Há um silêncio muito peculiar que antecede as noites de junho no Maranhão. Não se trata de uma ausência de som, mas de uma espécie de respiração coletiva presa na garganta de milhares de pessoas. É o momento exato em que o peso do ano inteiro, com suas labutas, poeiras e suores ordinários, começa a ceder espaço para o extraordinário. Nos quintais de terra batida, sob a luz frouxa dos postes ou o brilho agudo das estrelas, as chamas de pequenas fogueiras improvisadas começam a estalar. Elas projetam sombras imensas, trêmulas e apressadas nas paredes de taipa do interior dos brincanres ou nos muros de tijolo cru das periferias de São Luís, nos povoados isolados de Viana, Matinha, Rosário e nas encruzilhadas poeirentas de Bacabal.

Aquele fogo não foi aceso para espantar o frio, tampouco para cozinhar o alimento do corpo. É o fogo sagrado do barracão, nascido e alimentado pelas mãos calejadas dos brincantes, destinado a uma única e sagrada função: aquecer o couro.

Mestre Benedito, um homem de poucas palavras, com a pele marcada por décadas de sol nos manguezais e os olhos fundos que guardavam memórias de incontáveis madrugadas, aproximou seu pandeirão das chamas. A madeira do aro estava gasta pelo aperto das mãos, mas o couro cru, esticado à perfeição sobre a estrutura redonda, era novo e precisava ser domado. Ao seu redor, a comunidade começava a se aglomerar. Eram vizinhos, afilhados, filhos de santo, curiosos e velhos companheiros de guarnição.

— O couro chora antes de cantar, mestre? — Perguntou um menino, os olhos arregalados, refletindo as fagulhas que subiam em espiral para a noite escura.

— O couro não chora, meu filho. — Respondeu Mestre Benedito, girando o instrumento com a precisão de um artesão antigo. — O couro acorda. E, quando ele acorda, ele acorda a gente.

Aquela resposta carregava a essência de tudo o que estava prestes a acontecer nos meses seguintes. O Bumba-meu-boi não é apenas uma festa ou uma encenação teatral de rua; como diria o lendário padre Mohana; é uma liturgia pagã e cristã, uma reza forte que se canta com os pés na terra e os olhos grudados na promessa. Ali, nos dias de preparação, o barracão deixava de ser um simples galpão com telhado de zinco ou palha. Transformava-se em um templo pulsante.

Nos fundos do terreiro, longe das fogueiras e perto dos lampiões e bicos de luz, o cenário era outro, mas guiado pela mesma urgência. Em uma sala apertada, tomada por cheiro de café forte e suor, mulheres debruçavam-se sobre pedaços imensos de veludo escuro. As bordadeiras eram os pilares invisíveis da magia. Em suas mãos silenciosas, milhares de miçangas, canutilhos e lantejoulas transformavam-se em constelações brilhantes, figuras de santos, flores majestosas e escudos protetores.

— Esse boi vai ter que cegar o povo de tanto brilho este ano, Dona Rita. — Comentou uma das jovens, empurrando a agulha pelo tecido grosso com a ajuda de um dedal de metal. — A senhora viu o tamanho da procissão pro São João?

— Promessa grande não se paga com veludo fosco, menina. — Respondeu Dona Rita, sem desviar os olhos apertados da sua obra.

As costas não lhe doíam mais; o anestésico da devoção operava milagres na época das fogueiras.

— Cada continha dessa aqui é um pedido atendido. É a saúde do meu neto, é o emprego do seu marido. O boi carrega o brilho, mas quem suporta o peso da fé somos nós.

Dona Rita tinha razão. A beleza do Bumba-meu-boi é construída pelo avesso dos sacrifícios diários. Quando os portões das fábricas fecham e as ferramentas de construção civil são guardadas, o pedreiro, o estivador, a empregada doméstica, o professor e o pescador atravessam a cidade para se despir de suas rotinas. No barracão, o marcador de tempo não é o relógio ponto, mas o coração. Ao pisar naquele chão de terra ou cimento rústico, as hierarquias do mundo exterior desabam por completo. Sob o teto de zinco, a riqueza se mede pela força do gogó na hora de entoar a toada e pela firmeza do braço ao cruzar as matracas.

Lá fora, os pedaços de madeira começavam a ser testados. O som de duas matracas sendo chocadas uma contra a outra soa simples para quem nunca viu um batalhão do sotaque da Ilha. Um simples tá-tá, tá-tá. Mas, quando centenas de pares de madeira roxa começam a se encontrar em uníssono, não é um som que se escute apenas com os ouvidos. É uma vibração espessa que sobe pelas solas dos pés, sobe pelas pernas, arrepia os pelos dos braços e se instala bem no centro do peito, ditando um novo ritmo para o coração.

Os mutucas, guerreiros ágeis responsáveis pela segurança e pela ordem do cordão, já corriam de um lado a outro do terreiro, gritando ordens que se perdiam nas risadas e cumprimentos efusivos. Eram abraços de irmãos que não se viam desde a fogueira do ano passado. O cheiro de cachaça barata misturava-se ao aroma da macaxeira frita, do suor limpo que brotava da excitação e do amadeirado tostado pelas chamas espalhadas no quintal. Tudo ali era vivo. Tudo exigia presença.

No centro da roda que espontaneamente foi se formando, descansava a armação de buriti coberta por veludo ricamente bordado e fitas coloridas que caíam como uma cachoeira vibrante. A figura do Boi, silenciosa, imponente. O miolo, o homem cuja função é dar vida àquela carcaça pesada e sagrada, aproximou-se devagar. Ele passou a mão pela testa da escultura, acariciando os olhos brilhantes de vidro. Enxergar o mundo através da pequena fresta na saia do boi, equilibrando dezenas de quilos sobre os ombros enquanto gira e reverencia o público, é um ato de submissão e força descomunal. Para o miolo, o boi não é um objeto; é uma divindade temporária que ele aceita abrigar, alimentando a ilusão de quem assiste, para manter viva uma lenda que é a espinha dorsal de sua própria comunidade.

Mestre Benedito, satisfeito com a tensão de seu pandeirão, ergueu-se de seu banquinho baixo perto do fogo. Com um aceno de cabeça imperceptível aos desatentos, a roda de homens e mulheres emudeceu. A conversa animada, os risos frouxos e as instruções repassadas em voz alta morreram no instante em que o Mestre caminhou até o centro do terreiro. A noite maranhense, com suas estrelas e seus ventos mornos, parecia aguardar em reverência.

O Mestre ajeitou o instrumento no braço, suspirou fundo como se puxasse o ar dos séculos passados, desde quando o primeiro negro escravizado olhou para os folguedos lusitanos e decidiu que contaria sua própria história de dor, zombaria e resiliência usando o ritmo forte da terra.

E, então, a mão aberta desceu pesada.

Tum.

Aquele som foi como um trovão caindo dentro de uma sala fechada. O primeiro batido do couro marcou o rasgo no tempo. Não era mais maio, ou o cansaço do trabalho, ou as contas empilhadas sobre a mesa de plástico em casa. O primeiro baque libertou a poeira, os encantados e a alma daquela gente, explodindo no ar escuro feito um grito de alforria. De imediato, quase por instinto de sobrevivência e devoção, os outros tocadores alinharam seus pandeirões.

Tum, tum-pá. Tum, tum-pá.

Em segundos, as dezenas de matracas explodiram no ar com violência festiva. Pais de família choravam enquanto sorriam, as bordadeiras paralisaram suas agulhas apenas para escutar o terremoto controlado que faziam as telhas tremerem e a terra levantar poeira fina. As índias, ainda com roupas civis, sem as penas e miçangas que logo cobririam seus corpos, começaram a ensaiar o passo, pisando forte, girando o pulso, conectando o calcanhar com a veia pulsante do chão.

Para a comunidade que se enxergava e se encontrava no outro através desse transe ritmado, o pertencimento era a única moeda de valor que importava. No calor daquela onda sonora, todos sabiam exatamente quem eram e por que estavam ali. Haviam renunciado ao sono, ao pouco dinheiro que tinham, aos finais de semana livres. Mas no momento de cada toque, recebiam em troca algo impossível de ser alcançado sozinho: a certeza absoluta de que não estavam invisíveis. O Bumba-meu-boi os tornava gigantes, donos das ruas, senhores do tempo e da narrativa da própria terra. Pessoas comuns encontravam sua imortalidade no círculo mágico da cultura popular.

Enquanto a melodia da primeira toada da noite cortava o céu como uma flecha cabocla carregada de lamentos amorosos e convites à dança, cada figura tradicional do cortejo que estava adormecida começava a esticar os braços nos espíritos dos presentes. O caboclo de pena balançava as rédeas invisíveis; o cazumba desenhava em sua imaginação a corrida trôpega e assustadora usando as máscaras e chocalhos; os brincantes mergulhavam cada vez mais fundo na magia que o couro e a madeira convocavam, perdendo a noção das horas.

Quando a toada chegou ao seu refrão arrebatador e ecoou nas telhas de zinco do barracão, o pertencimento já havia silenciado e esmagado qualquer cansaço do mundo lá fora. A poeira, que o primeiro batido do couro ergueu do chão e lançou aos céus, não iria baixar tão cedo, mantendo a atmosfera mergulhada em um encanto que duraria até o último amanhecer de julho. E ali, misturado à emoção de vozes uníssonas e corpos suados, o desejo antigo de brincadeira e liberdade começava a tomar conta de forma inevitável. Em um canto da roda, oculto pelas sombras balançantes da fogueira, um sorriso largo e carregado de uma malandragem quase infantil já começava a despontar no rosto do trabalhador que mal podia esperar pelo momento exato de deixar suas tristezas para trás, cruzar o fogo e assumir seu lugar cômico e trágico na grande encenação do mundo.

 

José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Crônista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade

quinta-feira, 14 de agosto de 2025

Bacabal sedia ação do programa “Maranhão Sem Queimadas” com foco em prevenção e preservação ambiental



Na tarde desta quarta-feira (13), no auditório da Secretaria Municipal de Educação de Bacabal realizou-se uma importante mobilização ambiental: a ação do programa Maranhão Sem Queimadas, iniciativa do Governo do Estado voltada à prevenção e combate a incêndios florestais. O encontro reuniu autoridades estaduais e municipais, além de representantes de cidades vizinhas, com o objetivo de fortalecer estratégias conjuntas para a preservação ambiental.

    A secretária municipal de Meio Ambiente, professora Ludúina Tavares, representou o prefeito Roberto Costa na solenidade. Também participaram a superintendente de Recursos Florestais, Scarleth Karolyne Vieira Leitão, representando o secretário de Estado de Meio Ambiente e Recursos Naturais, e o Major QOCBM David Harrison Silva Abreu, comandante do 6º Batalhão de Bombeiros Militar.

  O evento contou ainda com a presença do secretário adjunto de Meio Ambiente de Bacabal, Ítalo Vinícius, do chefe da Divisão de Planejamento Ambiental e Ações de Preservação de Pedreiras, Vicente Camilo de Lima, além de outros secretários municipais e representantes de cidades como Lago Verde e São Luís Gonzaga.

    O programa Maranhão Sem Queimadas tem como foco a prevenção e resposta rápida aos incêndios florestais, combinando educação ambiental, capacitação de brigadistas e uso de tecnologia para monitoramento e combate ao fogo. A iniciativa atua em parceria com órgãos públicos, Corpo de Bombeiros, prefeituras e sociedade civil organizada, buscando minimizar os impactos ambientais e proteger a população de riscos associados às queimadas.

   Durante o encontro, foram apresentadas orientações técnicas e ações de conscientização, reforçando que a preservação do meio ambiente depende de um esforço coletivo. Os participantes destacaram que, além das operações de combate, é fundamental trabalhar a prevenção, sensibilizando comunidades rurais e urbanas sobre os perigos e prejuízos das queimadas.

    A Secretária Liduína Tavares apresentou aos presentes sua equipe de trabalho e declarou que a Secretaria está à disposição de todos e tuda fará para realizar uma boa política publica de proteção aomeio ambiente.

    O município de Bacabal, localizado em uma região estratégica e cercado por áreas rurais, foi apontado como peça-chave para a implementação das ações do programa no Médio Mearim. No período de estiagem, a integração entre Estado, municípios e sociedade se torna ainda mais urgente para garantir a redução dos focos de calor e a preservação dos recursos naturais.









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O fogo apaga o verde, mas sua atitude acende a vida

O sol de agosto estava impiedoso. No sertão maranhense, parecia que o céu havia descido para assar a terra. O chão, rachado, deixava escapar um pó fino, e o cheiro de fumaça se misturava ao vento seco, denunciando que em algum lugar, não muito longe dali, a vegetação ardia.

No povoado de Pedra Preta, na zona rural de Arame, três figuras se encontravam sob o abrigo minguado de um pé de juçara, cuja copa magra projetava uma sombra tão rala que era mais lembrança do que alívio.

Seu Avelino, mãos calejadas e pele curtida pelo sol, olhava para o horizonte como quem lê um livro antigo.
— Vocês falam muito de novidade, mas o que eu sei aprendi com meu pai e com o pai dele. Sempre foi assim: o fogo limpa, renova e faz nascer o pasto. Queimar é parte da vida na roça. Um terreno queimado hoje é capim verdinho amanhã.

Miguel, o professor da única escola do povoado, ajeitou os óculos e respondeu com a voz calma, mas carregada de firmeza.
— Seu Avelino, não é mais como no tempo do seu pai. O clima mudou. O Maranhão está entre os estados que mais registram focos de calor na Amazônia Legal. Só este mês, já são mais de 4 mil detectados por satélite. Isso não é manejo, é incêndio fora de controle. O calor excessivo seca o solo, mata microrganismos essenciais e deixa a terra menos fértil.

Raimundinho, técnico de agroecologia, interveio.
— O professor tem razão numa parte, e o senhor também, Seu Avelino. O fogo, quando usado de forma controlada, no momento certo, pode ajudar no manejo da vegetação, reduzindo material inflamável e evitando incêndios maiores. É o que chamamos de Manejo Integrado do Fogo. O problema é que, na prática, quase ninguém segue as regras. A queimada ilegal acontece em plena seca, com vento forte, e vira desastre.

O vento que passava parecia concordar. Trouxe com ele uma cortina fina de fumaça, cobrindo o céu de um cinza triste. Ao longe, uma linha laranja tremeluzia — o sinal claro de que outro pedaço do cerrado maranhense estava sendo devorado.

— Mas como é que a gente vai plantar sem queimar? — insistiu Seu Avelino, a voz carregando mais dúvida do que resistência. — O mato toma conta, o solo endurece…

Miguel apontou para o chão, onde brotava timidamente uma muda de ipê, plantada por seus alunos.
— É aqui que entram os viveiros de mudas. Árvores ajudam a manter a umidade, protegem o solo e trazem de volta os animais. Com projetos de produção sustentável, como agrofloresta e plantio direto, é possível cultivar sem destruir. O verde não volta da noite para o dia, mas sem plantar, ele nunca volta.

Raimundinho completou, abrindo o celular para mostrar fotos.
— Tem propriedade no interior que já faz isso. Plantam milho, feijão e mandioca em consórcio com árvores nativas. Usam cobertura vegetal para manter a umidade e, quando queimam, é só em pequenas faixas, na época certa e com brigadistas por perto. Resultado: produtividade alta e menos impacto ambiental.

O barulho seco de galhos estalando chegou até eles. Era o som do fogo mastigando o mato, invisível, mas presente. No dia seguinte, equipes do Corpo de Bombeiros e de brigadas voluntárias estariam na área, com abafadores, sopradores e mochilas costais, combatendo as chamas que avançavam sem pedir licença.

Raimundinho mostrou fotos no celular:

— Aqui, ó. Essa propriedade em Lago do Junco planta milho, mandioca e feijão junto com espécies nativas. O produtor quase não usa fogo. E quando usa, é só pra limpar um trecho pequeno, de forma controlada. A produção aumentou e ele ainda vende madeira de reflorestamento legalizada.

Miguel, ao fim da tarde, entrou na sala da escola e escreveu na lousa, em letras grandes:

"O fogo apaga o verde, mas sua atitude acende a vida."

Esta frase de efeito copiara do Programa Maranhão sem Queimadas e utilizou como tema gerador das aulas da semana. 

Ao olhar pela janela, viu o céu tingido de laranja pelo pôr do sol e pelo reflexo distante das chamas. Sabia que convencer Seu Avelino seria um processo lento, como o crescimento de uma muda no solo árido, mas também sabia que até a maior das florestas começa com uma semente , e a conversa daquele dia talvez tivesse plantado uma.

Na madrugada, enquanto o silêncio do povoado era cortado por um vento quente, cada um deles sonhou com um Maranhão onde o calor viesse apenas do sol e não das labaredas que roubam o verde e a vida.

José Casanova

Professor. Jornalista,  Escritor e Cronista 

Membro da Academia Bacabalense de Letras 

Academia Mundial de Letras da Humanidade 

Tutor da Academia Marahense de Letras Infantojuvenil