Ainda era
madrugada quando dona Lúcia acordou. O relógio marcava quatro e meia. Na
cozinha pequena, o café requentado dividia espaço com as contas vencidas sobre
a mesa. Vestiu a roupa cuidadosamente passada na noite anterior, prendeu os
cabelos, beijou a filha que ainda dormia e saiu para mais um dia de trabalho.
Dona Lúcia
era servidora pública. Trabalhava na recepção de uma unidade de saúde havia
quase vinte anos. Conhecia pelo nome muitas das pessoas que chegavam à procura
de atendimento. Sabia das dores de algumas, das dificuldades de outras e até
dos remédios que certos idosos tomavam. Não era médica, não receitava
medicamentos, não fazia milagres. Mas tinha uma qualidade que, em tempos de
tanta pressa, parecia cada vez mais rara: sabia ouvir.
Naquela manhã,
porém, nem toda a paciência do mundo parecia suficiente.
— Isso
aqui é uma vergonha! Vocês não fazem nada! São pagos com o nosso dinheiro! — Gritou
um homem, irritado com a demora no atendimento.
Dona Lúcia
respirou fundo. Tentou explicar que faltavam profissionais, que o sistema
estava lento e que havia pacientes aguardando desde cedo. Não conseguiu
terminar.
—
Funcionário público é tudo igual! Só quer saber de salário no fim do mês!
Ela baixou
os olhos. Não por concordar, mas porque aprendera, ao longo dos anos, que
algumas pessoas não procuram explicações. Procuram alguém sobre quem
descarregar suas frustrações.
O homem
não sabia que dona Lúcia também pagava impostos. Que enfrentava ônibus lotados.
Que, muitas vezes, comprava material de expediente com o próprio dinheiro. Que
já havia deixado de acompanhar uma apresentação escolar da filha porque
precisara permanecer no trabalho.
Também não
sabia que, naquela manhã, ela estava com a mãe internada e o coração apertado
de preocupação. Mas dona Lúcia permaneceu ali. Atendendo.
Do outro
lado da cidade, seu Antônio Moraes, professor de uma escola pública, tentava
convencer um adolescente de que estudar ainda valia a pena. O menino,
desanimado, dizia que precisava abandonar a escola para trabalhar.
Seu
Antônio não tinha uma resposta fácil. Conhecia a pobreza de perto. Sabia que a
fome nem sempre espera o futuro chegar. Mesmo assim, conversou, procurou
alternativas, chamou a família e insistiu para que o garoto não desistisse.
Na semana
anterior, havia sido chamado de incompetente por um pai inconformado com a nota
do filho. Também ouvira que professor trabalhava pouco e reclamava demais.
Naquela
noite, depois de corrigir provas e preparar aulas, ficou olhando a velha
fotografia de sua primeira turma. Perguntou a si mesmo se ainda fazia alguma
diferença.
Fazia. Só não aparecia nas
manchetes.
Havia
também Maria das Dores, auxiliar de serviços gerais da escola municipal
Rosimeire Torres Nunes no bairro Caxuxa em Alto alegre do Maranhão. Chegava
antes dos alunos e saía depois de muitos deles. Limpava salas, corredores e
banheiros. Recolhia o lixo, lavava o chão e cuidava de espaços que alguns
sujavam sem o menor constrangimento.
Certa vez,
ouviu de uma visitante:
— Chame
alguém importante para resolver isso!
Maria
ficou em silêncio. Por um instante, teve vontade de perguntar quem havia
decidido que seu trabalho não era importante. Mas apenas respondeu:
— Vou
procurar a pessoa responsável.
Naquele
dia, voltou para casa com uma tristeza que não soube explicar aos filhos.
Talvez porque certas palavras
machuquem mais do que o cansaço. E assim
segue o Brasil.
Um país sustentado
diariamente por milhares de mãos que quase nunca aparecem nas fotografias
oficiais. Mãos que vacinam crianças, ensinam a ler, cuidam de idosos, recolhem
o lixo, fiscalizam alimentos, combatem incêndios, organizam documentos, atendem
famílias e garantem que direitos escritos nas leis possam existir na vida real.
É verdade
que o serviço público brasileiro tem problemas. Há burocracia excessiva,
estruturas precárias, falhas de gestão e profissionais que não cumprem adequadamente
suas responsabilidades. Negar isso seria fechar os olhos à realidade. Mas seria
igualmente injusto transformar essas falhas em uma condenação coletiva.
O servidor
público não é o dono do serviço. É alguém que trabalha para que ele exista. E,
muitas vezes, é justamente quem recebe as reclamações por decisões que não
tomou, por recursos que não administra e por problemas que não tem poder para
resolver.
Há uma
diferença enorme entre cobrar eficiência e humilhar uma pessoa. Entre exigir
direitos e negar dignidade a quem trabalha.
O cidadão
tem todo o direito de reclamar de um atendimento inadequado. Tem o direito de
fiscalizar, denunciar irregularidades e exigir que os serviços públicos
funcionem. Afinal, o Estado existe para servir à sociedade. Mas o respeito
precisa caminhar junto com a cobrança.
Talvez
tenhamos nos acostumado a enxergar o servidor apenas quando alguma coisa dá
errado. Quando a fila demora, quando falta um medicamento, quando o documento
não fica pronto ou quando a escola enfrenta dificuldades. Raramente nos
lembramos dele quando a criança aprende a primeira palavra, quando uma vacina
salva uma vida, quando um incêndio é controlado ou quando uma família consegue
acessar um direito que desconhecia.
Nessas
horas, o serviço público simplesmente funciona. E aquilo que funciona em
silêncio quase nunca recebe aplausos.
No fim
daquela tarde, dona Lúcia encerrava o expediente quando uma senhora se
aproximou lentamente do balcão. Era uma paciente que havia sido atendida
semanas antes.
— Minha
filha, eu só voltei para lhe agradecer. Naquele dia em que cheguei aqui
desesperada, você me tratou como gente.
Dona Lúcia
sorriu. Um sorriso pequeno, desses que nascem depois de um dia comprido.
A senhora
segurou sua mão e completou:
— A gente
nunca esquece quem cuida da gente.
Na volta
para casa, sentada junto à janela do ônibus, dona Lúcia pensou naquela frase.
Não havia recebido aumento, promoção ou qualquer reconhecimento oficial. Os
problemas continuavam os mesmos. No dia seguinte, provavelmente haveria novas
filas, novas reclamações e novas dificuldades. Mas, naquela noite, levou
consigo a certeza de que seu trabalho tinha sentido.
No dia 28
de outubro, quando se comemora o Dia do Servidor Público, talvez o maior
reconhecimento não esteja nas homenagens protocolares, nas mensagens bonitas ou
nos discursos que desaparecem no dia seguinte. Talvez esteja em compreender
que, por trás de cada balcão, de cada sala de aula, de cada unidade de saúde e
de cada repartição, existe uma pessoa. Alguém com família, sonhos, contas a
pagar, problemas e uma história que merece ser respeitada.
O Brasil
precisa de servidores preparados, comprometidos e responsáveis. Mas precisa
também de condições dignas de trabalho, valorização profissional e uma
sociedade que saiba distinguir o direito de cobrar da pretensão de humilhar. Porque
o serviço público não é um favor concedido à população. É um direito da
população e um compromisso do Estado.
E quem
dedica a vida a fazer esse direito chegar às pessoas não deveria precisar abrir
mão da própria dignidade. Afinal, antes de ser servidor, é gente. E quem serve
ao público não deixa de merecer respeito por isso.
José Casanova
Professor, Jornalsita, Escritor e Crônista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade







0 comments:
Postar um comentário