quarta-feira, 28 de outubro de 2026

CRÔNICA DO DIA: Servidor Público - Quem Serve Também Merece Respeito

 

Ainda era madrugada quando dona Lúcia acordou. O relógio marcava quatro e meia. Na cozinha pequena, o café requentado dividia espaço com as contas vencidas sobre a mesa. Vestiu a roupa cuidadosamente passada na noite anterior, prendeu os cabelos, beijou a filha que ainda dormia e saiu para mais um dia de trabalho.

Dona Lúcia era servidora pública. Trabalhava na recepção de uma unidade de saúde havia quase vinte anos. Conhecia pelo nome muitas das pessoas que chegavam à procura de atendimento. Sabia das dores de algumas, das dificuldades de outras e até dos remédios que certos idosos tomavam. Não era médica, não receitava medicamentos, não fazia milagres. Mas tinha uma qualidade que, em tempos de tanta pressa, parecia cada vez mais rara: sabia ouvir.

Naquela manhã, porém, nem toda a paciência do mundo parecia suficiente.

— Isso aqui é uma vergonha! Vocês não fazem nada! São pagos com o nosso dinheiro! — Gritou um homem, irritado com a demora no atendimento.

Dona Lúcia respirou fundo. Tentou explicar que faltavam profissionais, que o sistema estava lento e que havia pacientes aguardando desde cedo. Não conseguiu terminar.

— Funcionário público é tudo igual! Só quer saber de salário no fim do mês!

Ela baixou os olhos. Não por concordar, mas porque aprendera, ao longo dos anos, que algumas pessoas não procuram explicações. Procuram alguém sobre quem descarregar suas frustrações.

O homem não sabia que dona Lúcia também pagava impostos. Que enfrentava ônibus lotados. Que, muitas vezes, comprava material de expediente com o próprio dinheiro. Que já havia deixado de acompanhar uma apresentação escolar da filha porque precisara permanecer no trabalho.

Também não sabia que, naquela manhã, ela estava com a mãe internada e o coração apertado de preocupação. Mas dona Lúcia permaneceu ali. Atendendo.

Do outro lado da cidade, seu Antônio Moraes, professor de uma escola pública, tentava convencer um adolescente de que estudar ainda valia a pena. O menino, desanimado, dizia que precisava abandonar a escola para trabalhar.

Seu Antônio não tinha uma resposta fácil. Conhecia a pobreza de perto. Sabia que a fome nem sempre espera o futuro chegar. Mesmo assim, conversou, procurou alternativas, chamou a família e insistiu para que o garoto não desistisse.

Na semana anterior, havia sido chamado de incompetente por um pai inconformado com a nota do filho. Também ouvira que professor trabalhava pouco e reclamava demais.

Naquela noite, depois de corrigir provas e preparar aulas, ficou olhando a velha fotografia de sua primeira turma. Perguntou a si mesmo se ainda fazia alguma diferença.

Fazia. Só não aparecia nas manchetes.

Havia também Maria das Dores, auxiliar de serviços gerais da escola municipal Rosimeire Torres Nunes no bairro Caxuxa em Alto alegre do Maranhão. Chegava antes dos alunos e saía depois de muitos deles. Limpava salas, corredores e banheiros. Recolhia o lixo, lavava o chão e cuidava de espaços que alguns sujavam sem o menor constrangimento.

Certa vez, ouviu de uma visitante:

— Chame alguém importante para resolver isso!

Maria ficou em silêncio. Por um instante, teve vontade de perguntar quem havia decidido que seu trabalho não era importante. Mas apenas respondeu:

— Vou procurar a pessoa responsável.

Naquele dia, voltou para casa com uma tristeza que não soube explicar aos filhos.

Talvez porque certas palavras machuquem mais do que o cansaço.  E assim segue o Brasil.

Um país sustentado diariamente por milhares de mãos que quase nunca aparecem nas fotografias oficiais. Mãos que vacinam crianças, ensinam a ler, cuidam de idosos, recolhem o lixo, fiscalizam alimentos, combatem incêndios, organizam documentos, atendem famílias e garantem que direitos escritos nas leis possam existir na vida real.

É verdade que o serviço público brasileiro tem problemas. Há burocracia excessiva, estruturas precárias, falhas de gestão e profissionais que não cumprem adequadamente suas responsabilidades. Negar isso seria fechar os olhos à realidade. Mas seria igualmente injusto transformar essas falhas em uma condenação coletiva.

O servidor público não é o dono do serviço. É alguém que trabalha para que ele exista. E, muitas vezes, é justamente quem recebe as reclamações por decisões que não tomou, por recursos que não administra e por problemas que não tem poder para resolver.

Há uma diferença enorme entre cobrar eficiência e humilhar uma pessoa. Entre exigir direitos e negar dignidade a quem trabalha.

O cidadão tem todo o direito de reclamar de um atendimento inadequado. Tem o direito de fiscalizar, denunciar irregularidades e exigir que os serviços públicos funcionem. Afinal, o Estado existe para servir à sociedade. Mas o respeito precisa caminhar junto com a cobrança.

Talvez tenhamos nos acostumado a enxergar o servidor apenas quando alguma coisa dá errado. Quando a fila demora, quando falta um medicamento, quando o documento não fica pronto ou quando a escola enfrenta dificuldades. Raramente nos lembramos dele quando a criança aprende a primeira palavra, quando uma vacina salva uma vida, quando um incêndio é controlado ou quando uma família consegue acessar um direito que desconhecia.

Nessas horas, o serviço público simplesmente funciona. E aquilo que funciona em silêncio quase nunca recebe aplausos.

No fim daquela tarde, dona Lúcia encerrava o expediente quando uma senhora se aproximou lentamente do balcão. Era uma paciente que havia sido atendida semanas antes.

— Minha filha, eu só voltei para lhe agradecer. Naquele dia em que cheguei aqui desesperada, você me tratou como gente.

Dona Lúcia sorriu. Um sorriso pequeno, desses que nascem depois de um dia comprido.

A senhora segurou sua mão e completou:

— A gente nunca esquece quem cuida da gente.

Na volta para casa, sentada junto à janela do ônibus, dona Lúcia pensou naquela frase. Não havia recebido aumento, promoção ou qualquer reconhecimento oficial. Os problemas continuavam os mesmos. No dia seguinte, provavelmente haveria novas filas, novas reclamações e novas dificuldades. Mas, naquela noite, levou consigo a certeza de que seu trabalho tinha sentido.

No dia 28 de outubro, quando se comemora o Dia do Servidor Público, talvez o maior reconhecimento não esteja nas homenagens protocolares, nas mensagens bonitas ou nos discursos que desaparecem no dia seguinte. Talvez esteja em compreender que, por trás de cada balcão, de cada sala de aula, de cada unidade de saúde e de cada repartição, existe uma pessoa. Alguém com família, sonhos, contas a pagar, problemas e uma história que merece ser respeitada.

O Brasil precisa de servidores preparados, comprometidos e responsáveis. Mas precisa também de condições dignas de trabalho, valorização profissional e uma sociedade que saiba distinguir o direito de cobrar da pretensão de humilhar. Porque o serviço público não é um favor concedido à população. É um direito da população e um compromisso do Estado.

E quem dedica a vida a fazer esse direito chegar às pessoas não deveria precisar abrir mão da própria dignidade. Afinal, antes de ser servidor, é gente. E quem serve ao público não deixa de merecer respeito por isso.


José Casanova

Professor, Jornalsita, Escritor e Crônista

Membro da Academia Bacabalense de Letras

Academia Mundial de Letras da Humanidade

 

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