segunda-feira, 5 de outubro de 2026

CRÔNICA DO DIA: O Voto e o Lombo

 

A urna tem dessas ironias. Às vezes, a mão que aperta o botão parece esquecer o corpo que a sustenta. Esquece o despertador tocando antes do sol. Esquece o ônibus lotado, a marmita, a jornada que ocupa seis dias da semana e deixa apenas um para descansar, cuidar da casa, abraçar os filhos e tentar lembrar que a vida deveria ser mais do que trabalhar para sobreviver.

Esquece a fila do supermercado e aquela conta silenciosa feita diante da prateleira: isso cabe no salário? Dá para levar a carne? O leite? O remédio? E se faltar dinheiro antes do fim do mês?

A política, para quem tem pouco, nunca foi apenas uma discussão abstrata entre esquerda e direita. Política é comida. É salário. É aposentadoria. É universidade. É financiamento estudantil. É a prestação da casa própria. É o preço do gás. É o ônibus que leva ao trabalho. É saber se, depois de uma vida inteira contribuindo, haverá alguma segurança na velhice.

Por isso me espanta quando trabalhadores transformam a política numa espécie de torcida e passam a defender projetos sem perguntar primeiro o que esses projetos significarão na própria mesa.

Há quem receba Bolsa Família e despreze políticas sociais. Há quem dependa do salário mínimo e trate sua valorização como assunto menor. Há pais e mães que jamais poderiam pagar uma universidade particular, mas cujos filhos chegaram ao ensino superior por programas como Prouni e Fies. Há famílias que passaram décadas pagando aluguel e enxergaram no Minha Casa, Minha Vida a primeira possibilidade concreta de chamar quatro paredes de suas.

Nada disso deveria pertencer a um político como propriedade pessoal. São políticas públicas. São escolhas de país. E, justamente por isso, precisam ser discutidas, cobradas, fiscalizadas e defendidas quando funcionam.

O eleitor deveria perguntar a qualquer candidato — Lula, Flávio Bolsonaro ou qualquer outro — coisas muito simples: o que acontecerá com meu salário? Com minha aposentadoria? Com a universidade do meu filho? Com os programas habitacionais? Com os direitos de quem trabalha? Com a jornada de trabalho? Com o preço dos alimentos? E, sobretudo, com a democracia?

Porque eleição não é concurso para escolher quem fala mais alto. É uma decisão sobre quem pagará a conta depois.

Às vezes observo certas escolhas políticas e me vem à cabeça, como metáfora imperfeita, a chamada Síndrome de Estocolmo: aquela associação conhecida popularmente pela situação paradoxal em que uma vítima desenvolve vínculo ou lealdade em relação a quem a submete ou ameaça. Na política, a comparação deve ser usada com cuidado, mas a imagem provoca uma pergunta incômoda: por que alguém apoiaria alegremente aquilo que acredita poder prejudicá-lo?

Talvez porque a política tenha conseguido uma façanha terrível: fazer muita gente votar primeiro pela identidade e somente depois pelo próprio interesse concreto.

O trabalhador passou a dizer que é “de direita” ou “de esquerda” antes de perguntar quem defende sua jornada, seu salário e sua dignidade. O aposentado escolhe uma camisa antes de conferir o que cada projeto pretende fazer com sua aposentadoria. O jovem aprende o nome do inimigo político antes de descobrir quem pretende ampliar ou restringir suas oportunidades.

E então nasce uma tentação amarga. Às vezes penso: talvez seja preciso sentir no próprio lombo.

Talvez algumas sociedades só compreendam o valor de determinadas conquistas quando correm o risco de perdê-las. É fácil desprezar uma ponte enquanto estamos atravessando por ela. Difícil é perceber sua importância depois que o rio fica entre nós e o outro lado.

Mas esse pensamento dura pouco. Política não deveria ser uma experiência de sofrimento destinada a ensinar uma lição. Um país inteiro não pode ser colocado em risco para que uma parcela de seus cidadãos descubra, tarde demais, o peso das próprias escolhas.

Democracia é justamente o contrário disso. É escolher antes da queda. É desconfiar das promessas. É comparar projetos. É cobrar números. É verificar declarações. É lembrar do passado sem transformar ninguém em santo e olhar para o futuro sem transformar ninguém em salvador.

Tenho minha opinião sobre Lula. Tenho também minhas críticas. Nenhum governante deve estar acima delas. Mas considero impossível negar a dimensão que ele adquiriu na história política brasileira e, sobretudo, o lugar que as políticas sociais associadas aos seus governos ocuparam na vida de milhões de brasileiros.

O eleitor, entretanto, não deve nada a Lula. Nem a Flávio Bolsonaro. Nem a partido algum. Deve alguma coisa apenas a si mesmo, à sua família e ao país que deixará para os filhos. Por isso, depois do barulho do primeiro turno, talvez a pergunta mais importante não seja: “De que lado eu estou?” Talvez seja outra: “Que país haverá do outro lado do meu voto?”

Porque a urna leva poucos segundos, mas resultado dela pode durar anos.

José Casanova

Professor, Jornalista, Escritor e Cronista

Membro da Academia Bacabalense de Letras

Academia Mundial de Letras da Humanidade

 

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