A urna tem dessas ironias. Às
vezes, a mão que aperta o botão parece esquecer o corpo que a sustenta. Esquece
o despertador tocando antes do sol. Esquece o ônibus lotado, a marmita, a
jornada que ocupa seis dias da semana e deixa apenas um para descansar, cuidar
da casa, abraçar os filhos e tentar lembrar que a vida deveria ser mais do que
trabalhar para sobreviver.
Esquece a fila do supermercado
e aquela conta silenciosa feita diante da prateleira: isso cabe no salário? Dá
para levar a carne? O leite? O remédio? E se faltar dinheiro antes do fim do
mês?
A política, para quem tem
pouco, nunca foi apenas uma discussão abstrata entre esquerda e direita. Política
é comida. É salário. É aposentadoria. É universidade. É financiamento
estudantil. É a prestação da casa própria. É o preço do gás. É o ônibus que
leva ao trabalho. É saber se, depois de uma vida inteira contribuindo, haverá
alguma segurança na velhice.
Por isso me espanta quando
trabalhadores transformam a política numa espécie de torcida e passam a
defender projetos sem perguntar primeiro o que esses projetos significarão na
própria mesa.
Há quem receba Bolsa Família e
despreze políticas sociais. Há quem dependa do salário mínimo e trate sua
valorização como assunto menor. Há pais e mães que jamais poderiam pagar uma
universidade particular, mas cujos filhos chegaram ao ensino superior por
programas como Prouni e Fies. Há famílias que passaram décadas pagando aluguel
e enxergaram no Minha Casa, Minha Vida a primeira possibilidade concreta de
chamar quatro paredes de suas.
Nada disso deveria pertencer a
um político como propriedade pessoal. São políticas públicas. São escolhas de
país. E, justamente por isso, precisam ser discutidas, cobradas, fiscalizadas e
defendidas quando funcionam.
O eleitor deveria perguntar a
qualquer candidato — Lula, Flávio Bolsonaro ou qualquer outro — coisas muito
simples: o que acontecerá com meu salário? Com minha aposentadoria? Com a
universidade do meu filho? Com os programas habitacionais? Com os direitos de
quem trabalha? Com a jornada de trabalho? Com o preço dos alimentos? E,
sobretudo, com a democracia?
Porque eleição não é concurso
para escolher quem fala mais alto. É uma decisão sobre quem pagará a conta
depois.
Às vezes observo certas
escolhas políticas e me vem à cabeça, como metáfora imperfeita, a chamada
Síndrome de Estocolmo: aquela associação conhecida popularmente pela situação
paradoxal em que uma vítima desenvolve vínculo ou lealdade em relação a quem a
submete ou ameaça. Na política, a comparação deve ser usada com cuidado, mas a
imagem provoca uma pergunta incômoda: por que alguém apoiaria alegremente
aquilo que acredita poder prejudicá-lo?
Talvez porque a política tenha
conseguido uma façanha terrível: fazer muita gente votar primeiro pela
identidade e somente depois pelo próprio interesse concreto.
O trabalhador passou a dizer
que é “de direita” ou “de esquerda” antes de perguntar quem defende sua
jornada, seu salário e sua dignidade. O aposentado escolhe uma camisa antes de
conferir o que cada projeto pretende fazer com sua aposentadoria. O jovem
aprende o nome do inimigo político antes de descobrir quem pretende ampliar ou
restringir suas oportunidades.
E então nasce uma tentação
amarga. Às vezes penso: talvez seja preciso sentir no próprio lombo.
Talvez algumas sociedades só
compreendam o valor de determinadas conquistas quando correm o risco de
perdê-las. É fácil desprezar uma ponte enquanto estamos atravessando por ela.
Difícil é perceber sua importância depois que o rio fica entre nós e o outro
lado.
Mas esse pensamento dura
pouco. Política não deveria ser uma experiência de sofrimento destinada a
ensinar uma lição. Um país inteiro não pode ser colocado em risco para que uma
parcela de seus cidadãos descubra, tarde demais, o peso das próprias escolhas.
Democracia é justamente o
contrário disso. É escolher antes da queda. É desconfiar das promessas. É
comparar projetos. É cobrar números. É verificar declarações. É lembrar do
passado sem transformar ninguém em santo e olhar para o futuro sem transformar
ninguém em salvador.
Tenho minha opinião sobre
Lula. Tenho também minhas críticas. Nenhum governante deve estar acima delas.
Mas considero impossível negar a dimensão que ele adquiriu na história política
brasileira e, sobretudo, o lugar que as políticas sociais associadas aos seus
governos ocuparam na vida de milhões de brasileiros.
O eleitor, entretanto, não
deve nada a Lula. Nem a Flávio Bolsonaro. Nem a partido algum. Deve alguma
coisa apenas a si mesmo, à sua família e ao país que deixará para os filhos. Por
isso, depois do barulho do primeiro turno, talvez a pergunta mais importante
não seja: “De que lado eu estou?” Talvez seja outra: “Que país haverá do outro
lado do meu voto?”
Porque a urna leva poucos
segundos, mas resultado dela pode durar anos.
José
Casanova
Professor,
Jornalista, Escritor e Cronista
Membro
da Academia Bacabalense de Letras
Academia
Mundial de Letras da Humanidade








