quarta-feira, 9 de setembro de 2026

CRÔNICA DO DIA: Reunião dos Pais

Na Escola Municipal Poeta Samuel Barreto, em Pedreiras, reunião de pais nunca foi exatamente uma reunião. Era mais parecido com sessão da Câmara, programa de auditório e julgamento de tribunal, tudo ao mesmo tempo. Naquela terça-feira, às seis da tarde, a diretora, dona Marinalva, já estava na porta da sala dos professores segurando uma pasta azul, três folhas de frequência e a pouca paciência que ainda lhe restava.

A pauta da reunião era simples de explicar e difícil de resolver: havia alunos do 6º e do 7º ano que ainda apresentavam sérias dificuldades de leitura e escrita. Dona Marinalva pediu silêncio.

— Boa noite a todos. Chamamos os senhores responsáveis porque precisamos conversar sobre a aprendizagem dos nossos alunos.

Do fundo da sala, seu Raimundo, pai de Wescleyson, levantou a mão.

— Diretora, antes de começar, tem café?

— Tem ali na mesa. – Respondeu a diretora.

— Então pode continuar.

A professora de Português, dona Cláudia, começou a apresentar os dados.

— Temos estudantes no 6º ano que ainda não conseguem ler pequenos textos com fluência. Outros têm dificuldade para escrever frases completas.

A mãe de Juninho, dona Socorro, arregalou os olhos:

— Mas como assim não sabe ler? Meu menino passa o dia no celular!

A professora respirou fundo.

— Justamente, dona Socorro. Ele lê mensagens?

— Não. Ele manda áudio.

A coordenadora pedagógica, professora Lúcia, tentou não rir.

— E quando recebe mensagem escrita?

— Manda áudio perguntando o que foi que a pessoa escreveu.

Nesse momento, algumas mães começaram a cochichar. Seu João não conseguiu segurar uma gaitada.  Seu Raimundo resolveu participar novamente.

— No meu tempo era diferente. A gente aprendia na base da cartilha, da tabuada e do medo. – Afirmo Raimundo.

— Medo de quê? — Perguntou a professora.

— Da professora com a  Palmatória.

Dona Cláudia ajeitou os óculos.

— Hoje a educação trabalha com outros princípios.

— Pois esses princípios tão muito tranquilos .— Respondeu seu Raimundo. — Porque o Wescleyson não tem medo nem de mim!

Foi então que entrou dona Creuza, avó de uma aluna do 7º ano. A sala inteira se virou. Dona Creuza tinha aproximadamente sessenta e muitos anos, embora afirmasse ter cinquenta e dois desde 2010. Chegou com uma calça tão apertada que parecia ter sido pintada, uma blusa cheia de brilho, salto alto e um perfume que entrou na sala uns três segundos antes dela. Atrás vinha dona Neide, outra avó, usando óculos escuros, apesar de já ser noite. A coordenadora perguntou:

— Dona Neide, está tudo bem com seus olhos?

— Tá, minha filha. É estilo.

As duas sentaram na primeira fila. Uma mãe comentou baixinho:

— Rapaz, as avós estão mais periguetes  que as netas.

Dona Creuza ouviu.

— Minha filha, envelhecer é obrigatório. Se acabar, não.

Dona Neide completou:

— Eu vim pra reunião, não pro velório.

A diretora bateu a caneta na mesa.

— Gente, vamos voltar à pauta.

A professora Cláudia mostrou uma atividade feita pelos alunos.

— Pedi que eles escrevessem uma pequena redação sobre a família.

Dona Socorro ficou animada.

— Juninho falou de mim?

A professora consultou a folha.

— Falou.

— O que ele escreveu? – Quis saber dona Socorro.

A professora hesitou.

— “Minha mãe é uma pessoa muito legal.”

Dona Socorro sorriu.

— Tá vendo?

— Só que ele escreveu “minha mãe é uma peçoa muito legau”. – Respondeu a professora escrevendo a frase no quadro branco.

O sorriso desapareceu.

— Aí já é culpa da escola. Foi o suficiente. Começou o temporal.

— A escola tem que ensinar! — Falou a mãe do Allafy.

— Professor hoje não quer mais Trabalhar! — Exclamou a vó de Débora.

— No nosso tempo a gente aprendia! – Afirmou o pai de João Pedro.

— Meu filho tira nota boa no TikTok! – Disse a mãe de kairon.

— O meu sabe mexer em celular melhor do que eu!  — Gabou-se a vó de Pedro Henrique.

A professora Cláudia levantou a voz.

— Pais, nós estamos ensinando! Mas a educação precisa continuar em casa.

Seu Raimundo cruzou os braços:

— Professora, eu trabalho o dia inteiro.

— Eu também. — Respondeu dona Socorro.

Dona Creuza levantou a mão.

— Eu posso ajudar minha neta.

A professora sorriu.

— Ótimo, dona Creuza. A senhora costuma ler com ela?

— Leio.

— Que tipo de texto?

— Comentário de Facebook.

A coordenadora colocou a mão na testa. Dona Creuza continuou:

— E vou lhe dizer uma coisa: tem comentário que precisa de três professores de Português e um advogado pra entender.

A sala caiu na gargalhada. Depois de alguns minutos, a diretora conseguiu reorganizar a reunião.

— Vamos procurar soluções. A escola está propondo um projeto de reforço de leitura e escrita.

A professora Lúcia apresentou as ideias:

— Teremos oficinas de leitura, produção de texto, jogos de palavras, biblioteca itinerante e acompanhamento individual dos alunos com mais dificuldade.

Dona Neide levantou a mão.

— Pode botar competição?

— Como assim?

— Quem ler mais ganha prêmio.

Seu Raimundo gostou.

— Boa! – Exclamou seu Raimundo.

A professora perguntou:

— Que tipo de prêmio?

Dona Neide pensou.

— Um celular.

— Dona Neide, estamos tentando justamente diminuir o tempo de tela.

— Então dê um celular sem internet.

Dona Creuza deu outra ideia:

— Podia fazer um grupo de leitura com os pais também.

A diretora ficou surpresa.

— Excelente ideia!

— Mas tem que ser de manhã.

— Por quê?

— Porque de noite eu tenho meus compromissos.

Ninguém perguntou quais eram. A professora Cláudia aproveitou o momento de boa vontade coletiva.

— Podemos criar também o “Quinze Minutos de Leitura em Família”. Todos os dias, pais, mães, avós ou responsáveis leem com as crianças por quinze minutos.

Seu Raimundo arregalou os olhos.

— Todo dia?

— Todo dia.

— Nem academia exige tanto compromisso.

Dona Socorro reclamou:

— Lá em casa só tem Bíblia, conta de energia e manual da geladeira.

— Pode começar pela Bíblia. — Sugeriu a professora.

— A conta de energia também é boa. — Disse seu Raimundo. — Quando vem alta, a pessoa lê umas dez vezes tentando acreditar.

A reunião começou, finalmente, a produzir alguma coisa. Ficou decidido que a escola faria reforço duas vezes por semana, os professores enviariam atividades simples para casa e as famílias participariam de momentos de leitura. Quando todos já estavam mais calmos, a diretora resolveu encerrar.

— Antes de irmos embora, quero agradecer a presença de todos. Sei que houve discussões, mas saímos daqui com propostas importantes.

Nesse instante, um menino apareceu na porta. Era Juninho.

— Mãe, bora?

Dona Socorro estranhou.

— Menino, como tu sabia que eu tava aqui?

Juninho mostrou o celular.

— A escola mandou mensagem.

Dona Socorro olhou para a tela.

— E tu leu?

— Não. Pedi pra inteligência artificial ler pra mim.

A sala ficou em silêncio. A professora Cláudia fechou os olhos. A diretora sentou novamente. Seu Raimundo pegou outro copo de café. Dona Creuza ajeitou o cabelo e perguntou:

— Essa inteligência artificial dá aula particular?

A coordenadora respirou fundo.

— Gente… acho que vamos precisar marcar outra reunião.

Seu Raimundo levantou-se imediatamente.

— Tem café?

— Vai ter. – Respondeu  diretora

— Então eu venho.

E foi assim que terminou a reunião de pais da Escola Poeta Samuel Barreto: ninguém saiu sabendo exatamente de quem era a culpa, mas todos saíram sabendo que, na semana seguinte, começaria o projeto de leitura. E dona Creuza saiu com uma missão especial.

Na porta, ela pegou emprestado um livro infantil da biblioteca.

A professora sorriu.

— Vai ler com sua neta?

— Vou.

— Que ótimo!

Dona Creuza colocou os óculos escuros, mesmo sendo quase oito da noite.

— Mas primeiro vou ler sozinha.

— Por quê?

Ela olhou para a professora e respondeu:

— Porque se a menina perguntar o significado de alguma palavra e eu não souber, perco minha autoridade.

E saiu pelo corredor desfilando com o livro debaixo do braço, provando que, naquela escola, quem precisava aprender a ler melhor talvez não fossem apenas os alunos. Na parede em um quadro grande, a foto de Poeta Samuel  Barreto piscou o olho esquerdo e sorriu se divertindo com a situação.

 José Casanova

 

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