Naquela
manhã de outubro, a escola amanheceu com a mesma aparência de todos os dias:
paredes descascadas, ventiladores cansados, ar condicionados quase frios,
carteiras riscadas com declarações de amor que duravam menos que uma aula e um
corredor onde os gritos dos alunos chegavam antes deles. Havia, porém, uma
diferença no calendário. Era Dia dos Professores.
A
Secretaria de Educação havia reorganizado as datas letivas para evitar folgas
alternadas e garantir a continuidade das aulas. Por isso, enquanto algumas
escolas celebravam a data com homenagens, bolos e fotografias nas redes
sociais, naquela escola o sinal tocou normalmente. A festa ficara para outra
ocasião. O conteúdo programático, não.
Na sala do
nono ano, a professora Maria do Amparo preparava mais uma tentativa de fazer a língua
portuguesa atravessar a fronteira da indiferença.
Tinha
quase vinte anos de magistério e uma convicção que o tempo, apesar de tudo,
ainda não conseguira aposentar: a escola deveria ensinar os alunos a ler o
mundo antes mesmo de exigir que decifrassem as palavras. Gostava de Paulo
Freire, acreditava no diálogo e defendia uma educação que libertasse, em vez de
apenas disciplinar. Para ela, ensinar não era despejar regras gramaticais sobre
cabeças distraídas, mas abrir janelas onde os alunos só enxergavam paredes.
Naquela
turma, entretanto, as janelas pareciam emperradas.
Havia
quem chutasse a mochila do colega, quem transformasse qualquer pergunta em
motivo de zombaria, quem disputasse o volume da própria voz com o ventilador e
quem já tivesse aprendido, antes mesmo de terminar o ensino fundamental, que
intimidar os outros era uma maneira eficiente de conquistar espaço.
Amparo
conhecia os nomes, os temperamentos e algumas das histórias que os alunos
escondiam atrás dos gestos agressivos. Sabia que, em certas casas, faltava
comida; em outras, sobravam gritos. Havia meninos que trabalhavam depois da
aula, meninas que cuidavam dos irmãos menores e adolescentes que conheciam mais
profundamente a linguagem das ofensas do que a dos afetos.
Compreender
aquelas realidades, contudo, não tornava a sala de aula menos difícil. A
professora sabia que a pobreza não condenava ninguém à violência, assim como
conhecia alunos de famílias desestruturadas capazes de gestos extraordinários
de ternura. Cada estudante era um universo, embora alguns insistissem em
transformar a sala inteira num campo de batalha.
Naquela
manhã, Helena decidiu começar de maneira diferente. Escreveu no quadro, em
letras grandes:
QUEM TEM
O DIREITO DE CONTAR A PRÓPRIA HISTÓRIA?
Em
seguida, virou-se para a turma.
— Hoje,
não quero começar pela gramática. Quero ouvir vocês. Se pudessem mudar alguma
coisa no mundo, o que mudariam?
Um aluno
respondeu que acabaria com as provas. Outro disse que proibiria os professores
de passar atividades. A turma explodiu em gargalhadas. Do fundo, alguém imitou
o som de uma sirene. Duas carteiras arrastaram-se pelo chão, e um pedaço de
papel atravessou a sala como um pássaro sem rumo.
Amparo
esperou. Acreditava que o silêncio também podia ser uma ferramenta pedagógica,
embora naquele nono ano ele fosse um artigo de luxo.
—
Professora, eu mudaria a escola inteira. — Disse um rapaz, sem tirar os olhos
do celular. — Aqui ninguém escuta ninguém.
A frase
provocou risos, mas Helena percebeu nela uma verdade involuntária.
— Então
talvez seja por aí que a gente deva começar. — respondeu a professora. —
Aprendendo a escutar.
Foi
quando percebeu que Camila, sentada perto da janela, continuava mexendo no
telefone, alheia à atividade. Ela era conhecida pelos enfrentamentos. Respondia
aos professores, discutia com os colegas e parecia carregar nos ombros uma
raiva maior que seu corpo franzino. Naquela manhã, tinha o rosto fechado e os
olhos fixos na tela. Helena aproximou-se da carteira.
— Camila,
guarde o celular e participe da atividade, por favor.
A menina
não respondeu.
— Estou
falando com você.
— E eu
ouvi.
— Então
guarde o aparelho.
Camila
ergueu os olhos devagar.
— A
senhora só sabe mandar.
Helena
respirou fundo. Não queria transformar uma orientação em duelo. A experiência
lhe ensinara que, diante de uma turma inquieta, certas palavras precisavam ser
escolhidas com o cuidado de quem atravessa uma ponte estreita.
— Não
estou aqui para mandar na sua vida. Estou aqui para ajudar você a aprender.
Mas, para isso, precisamos respeitar o espaço de todos.
—
Respeitar? — Camila soltou uma risada amarga. — Vocês falam de respeito, mas
ninguém respeita a gente!
Alguns
alunos começaram a incentivar a discussão. Outros puxaram os celulares, atentos
à possibilidade de registrar uma cena que, minutos depois, poderia circular
pelas redes sociais com uma legenda cruel.
Amparo
sentiu a aula escapar por entre os dedos.
— Camila,
sente-se direito, guarde o celular e vamos conversar depois. Agora, preciso
continuar a atividade.
— A
senhora não manda em mim!
— Não
quero mandar em você. Quero que você entenda que sua liberdade não lhe dá o
direito de impedir a liberdade dos outros.
Por um
instante, a sala ficou suspensa naquela frase. Camila levantou-se bruscamente.
A cadeira tombou para trás. A professora pediu que ela se acalmasse, mas a
menina já não parecia ouvir. Havia insultos, vozes sobrepostas, colegas
incentivando o confronto e uma tensão que crescia sem que ninguém soubesse como
interrompê-la.
Amparo
tentou manter a voz firme.
— Camila,
por favor, vamos resolver isso conversando.
A
resposta veio num movimento rápido, desesperado e irreversível. A lâmina de uma
faca surgiu na mão da adolescente. Houve um grito. Depois, o silêncio.
Amparo
levou a mão ao corpo e olhou para a própria palma, como se não compreendesse o
vermelho que começava a manchá-la. Camila permaneceu imóvel por um segundo, os
olhos arregalados diante daquilo que acabara de fazer. Alguém correu até a
porta. Outro aluno começou a chorar. As carteiras, antes instrumentos de
barulho, pareciam agora testemunhas incapazes de falar.
A
professora caiu.
Naquele
instante, o Dia dos Professores deixou de ser uma data no calendário e se
transformou numa pergunta terrível: em que momento a escola, que deveria ser um
lugar de encontro, se tornara um lugar onde uma educadora precisava temer pela
própria vida?
Os
minutos seguintes foram de desespero. Chamaram a direção, pediram socorro,
afastaram os estudantes. Helena foi amparada até a chegada do atendimento
médico. Camila, ainda em choque, foi retirada da sala.
Sobre a
mesa, o livro de língua portuguesa permanecia aberto. A atividade continuava
pela metade. No quadro, a pergunta escrita em letras grandes parecia olhar para
todos:
Quem tem
o direito de contar a própria história?
Naquela
manhã, ninguém conseguiu respondê-la.
Amparo
sobreviveu, mas alguma coisa nela permaneceu naquela sala. Não apenas o medo,
nem somente a lembrança da lâmina. Ficou a imagem dos rostos adolescentes, do
celular erguido, das vozes que incentivavam a briga e do instante em que uma
tentativa de ensinar se converteu numa luta pela sobrevivência.
Nos dias
seguintes, vieram as notícias, os comentários, as opiniões apressadas. Houve
quem culpasse a professora por ter chamado a atenção da aluna. Houve quem
exigisse punições exemplares. Outros aproveitaram a tragédia para atacar a
escola pública, como se os problemas de uma sociedade inteira coubessem nos
muros de uma instituição.
Poucos
perguntaram quantos alunos naquela escola precisavam de acompanhamento
psicológico, quantos professores trabalhavam sem apoio suficiente, quantas
famílias estavam desamparadas e quantas vezes a violência havia dado sinais
antes de explodir.
Compreender
as circunstâncias não significava justificar a agressão. Camila precisava
responder pelo que fizera, de acordo com a lei e com sua condição de
adolescente. Amparo tinha o direito de ser protegida, cuidada e respeitada. E a
escola precisava de condições reais para ensinar, acolher e estabelecer
limites.
A educação
libertadora em que Amparo acreditava nunca significara ausência de regras,
muito menos a obrigação de um professor aceitar humilhações ou correr riscos
para provar sua vocação. Liberdade sem responsabilidade não constrói
convivência. Diálogo sem segurança não se sustenta. E nenhuma pedagogia pode
exigir que um educador ofereça a própria integridade física como material
didático.
Talvez a
grande tragédia daquela manhã não tivesse começado no instante em que a lâmina
apareceu. Talvez tivesse raízes mais antigas, espalhadas por ausências,
negligências, agressividades naturalizadas e pela dificuldade coletiva de
reconhecer que educar é uma tarefa de toda a sociedade, não apenas de quem
entra numa sala com um livro debaixo do braço.
Mas seria
injusto reduzir Amparo à condição de vítima. Ela era professora antes daquele
dia e continuava sendo muito mais do que a violência que sofrera. Era a mulher
que preparava aulas, corrigia redações, inventava estratégias para despertar
curiosidade e acreditava que uma palavra bem colocada poderia abrir caminhos.
Era uma
profissional que merecia voltar para casa em segurança. E isso, que deveria ser
tão simples, tornou-se uma reivindicação urgente.
No
Brasil, há milhares de Amparos que entram nas escolas carregando livros,
cadernos, planos de aula e uma esperança que raramente aparece nos
contracheques. Professores que improvisam laboratórios onde faltam
equipamentos, transformam textos em debates, fazem da poesia uma ponte para a
realidade e tentam descobrir, entre uma provocação e outra, o que ainda pode
despertar o interesse de um adolescente.
São
profissionais que ensinam a diferença entre uma metáfora e uma mentira, entre
uma opinião e um argumento, entre discordar de alguém e desejar destruí-lo. Ensinam
que a palavra pode ferir, mas também pode reparar; que a liberdade exige
responsabilidade; que ninguém precisa humilhar o outro para ser ouvido.
Não são
heróis de uma profissão destinada ao sacrifício. São trabalhadores. Precisam de
salários dignos, formação continuada, respeito, segurança, equipes de apoio,
escolas bem estruturadas e políticas públicas que não os abandonem diante de
problemas que ultrapassam os limites da sala de aula.
Neste Dia
dos Professores, enquanto flores, cartões e homenagens percorrem as redes
sociais, vale lembrar que o melhor presente não é um discurso bonito
pronunciado uma vez por ano. É a garantia de que cada educador possa ensinar
sem medo, de que cada estudante encontre na escola oportunidades reais de
crescimento e de que a sociedade compreenda que a violência contra um professor
fere muito mais do que uma pessoa: atinge o próprio sentido da educação.
Quanto a
Helena, talvez um dia volte a escrever no quadro. Talvez escolha outra
pergunta, outro texto, outra maneira de começar a aula. Não sabemos se
conseguirá apagar inteiramente o que viveu. Algumas feridas não obedecem ao
calendário escolar.
Mas, se
voltar, que encontre uma escola diferente. Uma escola onde sua voz não precise
disputar espaço com ameaças, onde o diálogo seja acompanhado de
responsabilidade e onde ensinar não seja um ato de coragem diante do perigo,
mas um exercício cotidiano de dignidade.
E que, ao
abrir o livro, encontre novamente aquilo que a fez escolher o magistério: a
possibilidade de que uma palavra alcance alguém, permaneça em sua memória e
ajude a mudar o rumo de uma vida.
Porque há
lições que não cabem no quadro. Há mestres que continuam ensinando mesmo quando
o mundo lhes oferece motivos para desistir. E há uma dívida que o Brasil
precisa reconhecer: não basta aplaudir os professores no dia em que se celebra
sua profissão. É preciso defendê-los em todos os dias em que exercem o direito
de ensinar.
Aos
professores brasileiros, que fazem da palavra uma ferramenta de transformação e
da sala de aula um território de possibilidades, nossa homenagem, nosso
respeito e nossa gratidão.
Que nunca
lhes faltem livros para ensinar, liberdade para pensar, condições para
trabalhar e segurança para voltar para casa. E que nenhum professor precise
derramar o próprio sangue para que o Brasil finalmente compreenda o valor de
sua missão. Porque, quando um professor é ferido, não é apenas uma pessoa que
sangra.
É o
futuro inteiro que perde uma página.
José
Casanova
Professor,
Jornalista, Escritor e Cronista
Membro da
Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade







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