quinta-feira, 15 de outubro de 2026

CRÔNICA DO DIA: A Última Lição do Dia dos Professores


Naquela manhã de outubro, a escola amanheceu com a mesma aparência de todos os dias: paredes descascadas, ventiladores cansados, ar condicionados quase frios, carteiras riscadas com declarações de amor que duravam menos que uma aula e um corredor onde os gritos dos alunos chegavam antes deles. Havia, porém, uma diferença no calendário. Era Dia dos Professores.

A Secretaria de Educação havia reorganizado as datas letivas para evitar folgas alternadas e garantir a continuidade das aulas. Por isso, enquanto algumas escolas celebravam a data com homenagens, bolos e fotografias nas redes sociais, naquela escola o sinal tocou normalmente. A festa ficara para outra ocasião. O conteúdo programático, não.

Na sala do nono ano, a professora  Maria do Amparo  preparava mais uma tentativa de fazer a língua portuguesa atravessar a fronteira da indiferença.

Tinha quase vinte anos de magistério e uma convicção que o tempo, apesar de tudo, ainda não conseguira aposentar: a escola deveria ensinar os alunos a ler o mundo antes mesmo de exigir que decifrassem as palavras. Gostava de Paulo Freire, acreditava no diálogo e defendia uma educação que libertasse, em vez de apenas disciplinar. Para ela, ensinar não era despejar regras gramaticais sobre cabeças distraídas, mas abrir janelas onde os alunos só enxergavam paredes.

Naquela turma, entretanto, as janelas pareciam emperradas.

Havia quem chutasse a mochila do colega, quem transformasse qualquer pergunta em motivo de zombaria, quem disputasse o volume da própria voz com o ventilador e quem já tivesse aprendido, antes mesmo de terminar o ensino fundamental, que intimidar os outros era uma maneira eficiente de conquistar espaço.

Amparo conhecia os nomes, os temperamentos e algumas das histórias que os alunos escondiam atrás dos gestos agressivos. Sabia que, em certas casas, faltava comida; em outras, sobravam gritos. Havia meninos que trabalhavam depois da aula, meninas que cuidavam dos irmãos menores e adolescentes que conheciam mais profundamente a linguagem das ofensas do que a dos afetos.

Compreender aquelas realidades, contudo, não tornava a sala de aula menos difícil. A professora sabia que a pobreza não condenava ninguém à violência, assim como conhecia alunos de famílias desestruturadas capazes de gestos extraordinários de ternura. Cada estudante era um universo, embora alguns insistissem em transformar a sala inteira num campo de batalha.

Naquela manhã, Helena decidiu começar de maneira diferente. Escreveu no quadro, em letras grandes:

QUEM TEM O DIREITO DE CONTAR A PRÓPRIA HISTÓRIA?

Em seguida, virou-se para a turma.

— Hoje, não quero começar pela gramática. Quero ouvir vocês. Se pudessem mudar alguma coisa no mundo, o que mudariam?

Um aluno respondeu que acabaria com as provas. Outro disse que proibiria os professores de passar atividades. A turma explodiu em gargalhadas. Do fundo, alguém imitou o som de uma sirene. Duas carteiras arrastaram-se pelo chão, e um pedaço de papel atravessou a sala como um pássaro sem rumo.

Amparo esperou. Acreditava que o silêncio também podia ser uma ferramenta pedagógica, embora naquele nono ano ele fosse um artigo de luxo.

— Professora, eu mudaria a escola inteira. — Disse um rapaz, sem tirar os olhos do celular. — Aqui ninguém escuta ninguém.

A frase provocou risos, mas Helena percebeu nela uma verdade involuntária.

— Então talvez seja por aí que a gente deva começar. — respondeu a professora. — Aprendendo a escutar.

Foi quando percebeu que Camila, sentada perto da janela, continuava mexendo no telefone, alheia à atividade. Ela era conhecida pelos enfrentamentos. Respondia aos professores, discutia com os colegas e parecia carregar nos ombros uma raiva maior que seu corpo franzino. Naquela manhã, tinha o rosto fechado e os olhos fixos na tela. Helena aproximou-se da carteira.

— Camila, guarde o celular e participe da atividade, por favor.

A menina não respondeu.

— Estou falando com você.

— E eu ouvi.

— Então guarde o aparelho.

Camila ergueu os olhos devagar.

— A senhora só sabe mandar.

Helena respirou fundo. Não queria transformar uma orientação em duelo. A experiência lhe ensinara que, diante de uma turma inquieta, certas palavras precisavam ser escolhidas com o cuidado de quem atravessa uma ponte estreita.

— Não estou aqui para mandar na sua vida. Estou aqui para ajudar você a aprender. Mas, para isso, precisamos respeitar o espaço de todos.

— Respeitar? — Camila soltou uma risada amarga. — Vocês falam de respeito, mas ninguém respeita a gente!

Alguns alunos começaram a incentivar a discussão. Outros puxaram os celulares, atentos à possibilidade de registrar uma cena que, minutos depois, poderia circular pelas redes sociais com uma legenda cruel.

Amparo sentiu a aula escapar por entre os dedos.

— Camila, sente-se direito, guarde o celular e vamos conversar depois. Agora, preciso continuar a atividade.

— A senhora não manda em mim!

— Não quero mandar em você. Quero que você entenda que sua liberdade não lhe dá o direito de impedir a liberdade dos outros.

Por um instante, a sala ficou suspensa naquela frase. Camila levantou-se bruscamente. A cadeira tombou para trás. A professora pediu que ela se acalmasse, mas a menina já não parecia ouvir. Havia insultos, vozes sobrepostas, colegas incentivando o confronto e uma tensão que crescia sem que ninguém soubesse como interrompê-la.

Amparo tentou manter a voz firme.

— Camila, por favor, vamos resolver isso conversando.

A resposta veio num movimento rápido, desesperado e irreversível. A lâmina de uma faca surgiu na mão da adolescente. Houve um grito. Depois, o silêncio.

Amparo levou a mão ao corpo e olhou para a própria palma, como se não compreendesse o vermelho que começava a manchá-la. Camila permaneceu imóvel por um segundo, os olhos arregalados diante daquilo que acabara de fazer. Alguém correu até a porta. Outro aluno começou a chorar. As carteiras, antes instrumentos de barulho, pareciam agora testemunhas incapazes de falar.

A professora caiu.

Naquele instante, o Dia dos Professores deixou de ser uma data no calendário e se transformou numa pergunta terrível: em que momento a escola, que deveria ser um lugar de encontro, se tornara um lugar onde uma educadora precisava temer pela própria vida?

Os minutos seguintes foram de desespero. Chamaram a direção, pediram socorro, afastaram os estudantes. Helena foi amparada até a chegada do atendimento médico. Camila, ainda em choque, foi retirada da sala.

Sobre a mesa, o livro de língua portuguesa permanecia aberto. A atividade continuava pela metade. No quadro, a pergunta escrita em letras grandes parecia olhar para todos:

Quem tem o direito de contar a própria história?

Naquela manhã, ninguém conseguiu respondê-la.

Amparo sobreviveu, mas alguma coisa nela permaneceu naquela sala. Não apenas o medo, nem somente a lembrança da lâmina. Ficou a imagem dos rostos adolescentes, do celular erguido, das vozes que incentivavam a briga e do instante em que uma tentativa de ensinar se converteu numa luta pela sobrevivência.

Nos dias seguintes, vieram as notícias, os comentários, as opiniões apressadas. Houve quem culpasse a professora por ter chamado a atenção da aluna. Houve quem exigisse punições exemplares. Outros aproveitaram a tragédia para atacar a escola pública, como se os problemas de uma sociedade inteira coubessem nos muros de uma instituição.

Poucos perguntaram quantos alunos naquela escola precisavam de acompanhamento psicológico, quantos professores trabalhavam sem apoio suficiente, quantas famílias estavam desamparadas e quantas vezes a violência havia dado sinais antes de explodir.

Compreender as circunstâncias não significava justificar a agressão. Camila precisava responder pelo que fizera, de acordo com a lei e com sua condição de adolescente. Amparo tinha o direito de ser protegida, cuidada e respeitada. E a escola precisava de condições reais para ensinar, acolher e estabelecer limites.

A educação libertadora em que Amparo acreditava nunca significara ausência de regras, muito menos a obrigação de um professor aceitar humilhações ou correr riscos para provar sua vocação. Liberdade sem responsabilidade não constrói convivência. Diálogo sem segurança não se sustenta. E nenhuma pedagogia pode exigir que um educador ofereça a própria integridade física como material didático.

Talvez a grande tragédia daquela manhã não tivesse começado no instante em que a lâmina apareceu. Talvez tivesse raízes mais antigas, espalhadas por ausências, negligências, agressividades naturalizadas e pela dificuldade coletiva de reconhecer que educar é uma tarefa de toda a sociedade, não apenas de quem entra numa sala com um livro debaixo do braço.

Mas seria injusto reduzir Amparo à condição de vítima. Ela era professora antes daquele dia e continuava sendo muito mais do que a violência que sofrera. Era a mulher que preparava aulas, corrigia redações, inventava estratégias para despertar curiosidade e acreditava que uma palavra bem colocada poderia abrir caminhos.

Era uma profissional que merecia voltar para casa em segurança. E isso, que deveria ser tão simples, tornou-se uma reivindicação urgente.

No Brasil, há milhares de Amparos que entram nas escolas carregando livros, cadernos, planos de aula e uma esperança que raramente aparece nos contracheques. Professores que improvisam laboratórios onde faltam equipamentos, transformam textos em debates, fazem da poesia uma ponte para a realidade e tentam descobrir, entre uma provocação e outra, o que ainda pode despertar o interesse de um adolescente.

São profissionais que ensinam a diferença entre uma metáfora e uma mentira, entre uma opinião e um argumento, entre discordar de alguém e desejar destruí-lo. Ensinam que a palavra pode ferir, mas também pode reparar; que a liberdade exige responsabilidade; que ninguém precisa humilhar o outro para ser ouvido.

Não são heróis de uma profissão destinada ao sacrifício. São trabalhadores. Precisam de salários dignos, formação continuada, respeito, segurança, equipes de apoio, escolas bem estruturadas e políticas públicas que não os abandonem diante de problemas que ultrapassam os limites da sala de aula.

Neste Dia dos Professores, enquanto flores, cartões e homenagens percorrem as redes sociais, vale lembrar que o melhor presente não é um discurso bonito pronunciado uma vez por ano. É a garantia de que cada educador possa ensinar sem medo, de que cada estudante encontre na escola oportunidades reais de crescimento e de que a sociedade compreenda que a violência contra um professor fere muito mais do que uma pessoa: atinge o próprio sentido da educação.

Quanto a Helena, talvez um dia volte a escrever no quadro. Talvez escolha outra pergunta, outro texto, outra maneira de começar a aula. Não sabemos se conseguirá apagar inteiramente o que viveu. Algumas feridas não obedecem ao calendário escolar.

Mas, se voltar, que encontre uma escola diferente. Uma escola onde sua voz não precise disputar espaço com ameaças, onde o diálogo seja acompanhado de responsabilidade e onde ensinar não seja um ato de coragem diante do perigo, mas um exercício cotidiano de dignidade.

E que, ao abrir o livro, encontre novamente aquilo que a fez escolher o magistério: a possibilidade de que uma palavra alcance alguém, permaneça em sua memória e ajude a mudar o rumo de uma vida.

Porque há lições que não cabem no quadro. Há mestres que continuam ensinando mesmo quando o mundo lhes oferece motivos para desistir. E há uma dívida que o Brasil precisa reconhecer: não basta aplaudir os professores no dia em que se celebra sua profissão. É preciso defendê-los em todos os dias em que exercem o direito de ensinar.

Aos professores brasileiros, que fazem da palavra uma ferramenta de transformação e da sala de aula um território de possibilidades, nossa homenagem, nosso respeito e nossa gratidão.

Que nunca lhes faltem livros para ensinar, liberdade para pensar, condições para trabalhar e segurança para voltar para casa. E que nenhum professor precise derramar o próprio sangue para que o Brasil finalmente compreenda o valor de sua missão. Porque, quando um professor é ferido, não é apenas uma pessoa que sangra.

É o futuro inteiro que perde uma página.


José Casanova

Professor, Jornalista, Escritor e Cronista

Membro da Academia Bacabalense de Letras

Academia Mundial de Letras da Humanidade

 

0 comments:

Postar um comentário