Há um silêncio muito peculiar que antecede as noites de junho no Maranhão. Não se trata de uma ausência de som, mas de uma espécie de respiração coletiva presa na garganta de milhares de pessoas. É o momento exato em que o peso do ano inteiro, com suas labutas, poeiras e suores ordinários, começa a ceder espaço para o extraordinário. Nos quintais de terra batida, sob a luz frouxa dos postes ou o brilho agudo das estrelas, as chamas de pequenas fogueiras improvisadas começam a estalar. Elas projetam sombras imensas, trêmulas e apressadas nas paredes de taipa do interior dos brincanres ou nos muros de tijolo cru das periferias de São Luís, nos povoados isolados de Viana, Matinha, Rosário e nas encruzilhadas poeirentas de Bacabal.
Aquele fogo não foi aceso para espantar o frio, tampouco para cozinhar o alimento do corpo. É o fogo sagrado do barracão, nascido e alimentado pelas mãos calejadas dos brincantes, destinado a uma única e sagrada função: aquecer o couro.
Mestre Benedito, um homem de poucas palavras, com a pele marcada por décadas de sol nos manguezais e os olhos fundos que guardavam memórias de incontáveis madrugadas, aproximou seu pandeirão das chamas. A madeira do aro estava gasta pelo aperto das mãos, mas o couro cru, esticado à perfeição sobre a estrutura redonda, era novo e precisava ser domado. Ao seu redor, a comunidade começava a se aglomerar. Eram vizinhos, afilhados, filhos de santo, curiosos e velhos companheiros de guarnição.
— O couro chora antes de cantar, mestre? — Perguntou um menino, os olhos arregalados, refletindo as fagulhas que subiam em espiral para a noite escura.
— O couro não chora, meu filho. — Respondeu Mestre Benedito, girando o instrumento com a precisão de um artesão antigo. — O couro acorda. E, quando ele acorda, ele acorda a gente.
Aquela resposta carregava a essência de tudo o que estava prestes a acontecer nos meses seguintes. O Bumba-meu-boi não é apenas uma festa ou uma encenação teatral de rua; como diria o lendário padre Mohana; é uma liturgia pagã e cristã, uma reza forte que se canta com os pés na terra e os olhos grudados na promessa. Ali, nos dias de preparação, o barracão deixava de ser um simples galpão com telhado de zinco ou palha. Transformava-se em um templo pulsante.
Nos fundos do terreiro, longe das fogueiras e perto dos lampiões e bicos de luz, o cenário era outro, mas guiado pela mesma urgência. Em uma sala apertada, tomada por cheiro de café forte e suor, mulheres debruçavam-se sobre pedaços imensos de veludo escuro. As bordadeiras eram os pilares invisíveis da magia. Em suas mãos silenciosas, milhares de miçangas, canutilhos e lantejoulas transformavam-se em constelações brilhantes, figuras de santos, flores majestosas e escudos protetores.
— Esse boi vai ter que cegar o povo de tanto brilho este ano, Dona Rita. — Comentou uma das jovens, empurrando a agulha pelo tecido grosso com a ajuda de um dedal de metal. — A senhora viu o tamanho da procissão pro São João?
— Promessa grande não se paga com veludo fosco, menina. — Respondeu Dona Rita, sem desviar os olhos apertados da sua obra.
As costas não lhe doíam mais; o anestésico da devoção operava milagres na época das fogueiras.
— Cada continha dessa aqui é um pedido atendido. É a saúde do meu neto, é o emprego do seu marido. O boi carrega o brilho, mas quem suporta o peso da fé somos nós.
Dona Rita tinha razão. A beleza do Bumba-meu-boi é construída pelo avesso dos sacrifícios diários. Quando os portões das fábricas fecham e as ferramentas de construção civil são guardadas, o pedreiro, o estivador, a empregada doméstica, o professor e o pescador atravessam a cidade para se despir de suas rotinas. No barracão, o marcador de tempo não é o relógio ponto, mas o coração. Ao pisar naquele chão de terra ou cimento rústico, as hierarquias do mundo exterior desabam por completo. Sob o teto de zinco, a riqueza se mede pela força do gogó na hora de entoar a toada e pela firmeza do braço ao cruzar as matracas.
Lá fora, os pedaços de madeira começavam a ser testados. O som de duas matracas sendo chocadas uma contra a outra soa simples para quem nunca viu um batalhão do sotaque da Ilha. Um simples tá-tá, tá-tá. Mas, quando centenas de pares de madeira roxa começam a se encontrar em uníssono, não é um som que se escute apenas com os ouvidos. É uma vibração espessa que sobe pelas solas dos pés, sobe pelas pernas, arrepia os pelos dos braços e se instala bem no centro do peito, ditando um novo ritmo para o coração.
Os mutucas, guerreiros ágeis responsáveis pela segurança e pela ordem do cordão, já corriam de um lado a outro do terreiro, gritando ordens que se perdiam nas risadas e cumprimentos efusivos. Eram abraços de irmãos que não se viam desde a fogueira do ano passado. O cheiro de cachaça barata misturava-se ao aroma da macaxeira frita, do suor limpo que brotava da excitação e do amadeirado tostado pelas chamas espalhadas no quintal. Tudo ali era vivo. Tudo exigia presença.
No centro da roda que espontaneamente foi se formando, descansava a armação de buriti coberta por veludo ricamente bordado e fitas coloridas que caíam como uma cachoeira vibrante. A figura do Boi, silenciosa, imponente. O miolo, o homem cuja função é dar vida àquela carcaça pesada e sagrada, aproximou-se devagar. Ele passou a mão pela testa da escultura, acariciando os olhos brilhantes de vidro. Enxergar o mundo através da pequena fresta na saia do boi, equilibrando dezenas de quilos sobre os ombros enquanto gira e reverencia o público, é um ato de submissão e força descomunal. Para o miolo, o boi não é um objeto; é uma divindade temporária que ele aceita abrigar, alimentando a ilusão de quem assiste, para manter viva uma lenda que é a espinha dorsal de sua própria comunidade.
Mestre Benedito, satisfeito com a tensão de seu pandeirão, ergueu-se de seu banquinho baixo perto do fogo. Com um aceno de cabeça imperceptível aos desatentos, a roda de homens e mulheres emudeceu. A conversa animada, os risos frouxos e as instruções repassadas em voz alta morreram no instante em que o Mestre caminhou até o centro do terreiro. A noite maranhense, com suas estrelas e seus ventos mornos, parecia aguardar em reverência.
O Mestre ajeitou o instrumento no braço, suspirou fundo como se puxasse o ar dos séculos passados, desde quando o primeiro negro escravizado olhou para os folguedos lusitanos e decidiu que contaria sua própria história de dor, zombaria e resiliência usando o ritmo forte da terra.
E, então, a mão aberta desceu pesada.
Tum.
Aquele som foi como um trovão caindo dentro de uma sala fechada. O primeiro batido do couro marcou o rasgo no tempo. Não era mais maio, ou o cansaço do trabalho, ou as contas empilhadas sobre a mesa de plástico em casa. O primeiro baque libertou a poeira, os encantados e a alma daquela gente, explodindo no ar escuro feito um grito de alforria. De imediato, quase por instinto de sobrevivência e devoção, os outros tocadores alinharam seus pandeirões.
Tum, tum-pá. Tum, tum-pá.
Em segundos, as dezenas de matracas explodiram no ar com violência festiva. Pais de família choravam enquanto sorriam, as bordadeiras paralisaram suas agulhas apenas para escutar o terremoto controlado que faziam as telhas tremerem e a terra levantar poeira fina. As índias, ainda com roupas civis, sem as penas e miçangas que logo cobririam seus corpos, começaram a ensaiar o passo, pisando forte, girando o pulso, conectando o calcanhar com a veia pulsante do chão.
Para a comunidade que se enxergava e se encontrava no outro através desse transe ritmado, o pertencimento era a única moeda de valor que importava. No calor daquela onda sonora, todos sabiam exatamente quem eram e por que estavam ali. Haviam renunciado ao sono, ao pouco dinheiro que tinham, aos finais de semana livres. Mas no momento de cada toque, recebiam em troca algo impossível de ser alcançado sozinho: a certeza absoluta de que não estavam invisíveis. O Bumba-meu-boi os tornava gigantes, donos das ruas, senhores do tempo e da narrativa da própria terra. Pessoas comuns encontravam sua imortalidade no círculo mágico da cultura popular.
Enquanto a melodia da primeira toada da noite cortava o céu como uma flecha cabocla carregada de lamentos amorosos e convites à dança, cada figura tradicional do cortejo que estava adormecida começava a esticar os braços nos espíritos dos presentes. O caboclo de pena balançava as rédeas invisíveis; o cazumba desenhava em sua imaginação a corrida trôpega e assustadora usando as máscaras e chocalhos; os brincantes mergulhavam cada vez mais fundo na magia que o couro e a madeira convocavam, perdendo a noção das horas.
Quando a toada chegou ao seu refrão arrebatador e ecoou nas telhas de zinco do barracão, o pertencimento já havia silenciado e esmagado qualquer cansaço do mundo lá fora. A poeira, que o primeiro batido do couro ergueu do chão e lançou aos céus, não iria baixar tão cedo, mantendo a atmosfera mergulhada em um encanto que duraria até o último amanhecer de julho. E ali, misturado à emoção de vozes uníssonas e corpos suados, o desejo antigo de brincadeira e liberdade começava a tomar conta de forma inevitável. Em um canto da roda, oculto pelas sombras balançantes da fogueira, um sorriso largo e carregado de uma malandragem quase infantil já começava a despontar no rosto do trabalhador que mal podia esperar pelo momento exato de deixar suas tristezas para trás, cruzar o fogo e assumir seu lugar cômico e trágico na grande encenação do mundo.
José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Crônista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade
Professor, Jornalista, Escritor e Crônista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade







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