quarta-feira, 17 de junho de 2026

CRÔNICA DO DIA: A Vida do Miolo

Augusto não via o mundo como as outras pessoas. O mundo, para ele, era uma sequência de frestas horizontais, uma visão recortada de pés, pernas e poeira, filtrada através do pequeno vão cuidadosamente posicionado na saia bordada do boi. Sob a carcaça de madeira e veludo, o ar é um recurso escasso, reciclado incessantemente por um pulmão que arfa sob a pressão de dezoito quilos de estrutura decorada. O suor não é apenas um incômodo; é uma chuva constante e quente que escorre pelas têmporas, arde nos olhos e apaga a visão periférica, exigindo que ele navegue pelo terreiro não pelo que vê, mas pelo que sente vibrar sob a sola de seus pés.

Ser o miolo do boi é uma forma de anacorese absoluta. Dentro daquela cúpula, ele se torna invisível para que a divindade possa ser vista. O boi precisa ser magnífico, ágil, altivo; o homem, por outro lado, precisa ser inexistente. Enquanto o público aplaude a beleza dos bordados e a destreza dos movimentos do animal que gira e investe, Augusto trava uma luta silenciosa contra a gravidade e o desmaio. Ele é a engrenagem que, para funcionar, deve estar escondida na sombra da máquina.

A escuridão interna da armação é densa, temperada pelo cheiro forte do veludo impregnado de suor de anos e pelo perfume das flores que as mulheres costumam pendurar nos chifres do boi. Em noites de apresentação, o boi é o centro do universo, o destino de todos os olhares. Augusto ouve os gritos, os elogios a "quão real" o boi parece, e o riso de quem se assusta quando ele, num movimento súbito e seco, avança em direção à multidão. Cada um desses estímulos chega até ele como algo distante, abafado pelas camadas de tecido que o separam da realidade. Ele não responde por si; ele responde pela carcaça.

Havia um momento específico, quando as matracas entravam em um ritmo quase hipnótico e o pandeirão do Mestre ditava uma cadência mais rápida, em que a exaustão física atingia um platô de quase delírio. Augusto sabia exatamente como usar esse limite.

Era ali que o boi ganhava vida, que ele parava de ser um boneco manejado e passava a possuir uma vontade própria. Ele sentia o peso da estrutura flutuar sobre seus ombros, como se a armação tivesse se fundido ao seu esqueleto. O boi não era mais um adereço; era uma extensão do seu próprio corpo, uma armadura de fé que o protegia, ou talvez o aprisionasse na celebração coletiva.

As dores nas costas eram parte do pacto. Eram como cicatrizes de honra que ele carregava em silêncio. Muitas vezes, ao retirar a armação após horas de apresentação, ele sentia o mundo girar e a gravidade parecer subitamente muito mais cruel, como se seu corpo tivesse esquecido o peso da própria carne sem o suporte protetor do veludo.

No entanto, o que ele sentia ao sair de dentro do breu daquela carcaça não era alívio puramente físico, mas uma melancolia estranha, a sensação de ser pequeno demais para o mundo vasto que o esperava lá fora.

O miolo é, em essência, aquele que sacrifica a própria voz para que a toada do boi possa ser ouvida. Ele não canta, não declama, não faz as caretas do Cazumbá. Ele apenas é. Ele é o centro gravitacional de uma ópera de rua que se sustenta apenas pela força de sua resistência.

Quando ele se ajoelha diante da multidão, a estrutura range sob o esforço, e Augusto sabe que, do lado de fora, aquele gesto é lido como uma demonstração de humildade ou um aviso de ataque. Mal sabem eles que, ali dentro, trata-se de um homem buscando um ângulo seguro para equilibrar o peso, tentando desesperadamente não tombar e acabar com a magia que ele mesmo sustenta.

Nesta noite, o calor estava particularmente insuportável. As luzes das fogueiras do lado de fora lançavam labaredas que desenhavam silhuetas de monstros nas paredes de zinco, e o som dos tambores de sopapo parecia ressoar dentro de seu crânio, ressoando nos ossos como um chamado ancestral.

Ele deu um giro circular, a saia do boi levantando poeira e obrigando o público a recuar. O brilho dos canutilhos sob os olhos de quem admirava era cego, mas o brilho real, o único que importava, era o que ele sentia ao sentir a batida da matraca vibrar não apenas em seus ouvidos, mas no coração da estrutura que ele carregava.

Quando finalmente o cortejo parou e as matracas silenciaram, o silêncio do lado de dentro da armação era um alívio puro. Augusto fechou os olhos por um segundo, o suor escorrendo em rios pelo peito desnudado. Ele ouviu os aplausos e o som das palmas que não eram para ele, mas para a divindade que ele vestia.

E, no fundo da escuridão, com a testa encostada na madeira bruta da estrutura que o mantinha de pé, Augusto esboçou um sorriso. Ninguém veria, ninguém saberia, mas ele sabia. O Boi Curupira era lindo, e ele, o homem escondido, tinha feito tudo isso acontecer, carregando o peso da tradição em suas costas como se fosse pluma, enquanto o coração batia um só ritmo com a alma daquele boi que, enquanto ele estivesse ali, nunca morreria.

JOSÉ CASANOVA
Professor, Jornalista, Escritor e Crônista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade

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