terça-feira, 30 de junho de 2026

CRÔNICA DO DIA: Damas do Barracão


Quando Dona Dalva acende o fogão do barracão, o ensaio ainda nem começou. A chama azul sob a panela é o primeiro sinal de que o boi está vivo naquela noite. Enquanto os homens discutem o ritmo das matracas ou ajustam os detalhes técnicos da carcaça do boi sob a luz forte dos refletores, existe uma outra geografia que dita a sobrevivência do grupo: a cozinha. Ali, o território pertence às mulheres.

Não são apenas cozinheiras que preparam o feijão com arroz ou o café forte da madrugada; são as arquitetas do bem-estar, as mãos que sustentam o estômago de um batalhão inteiro. Elas são as mães do brinquedo, figuras como Dona Dalva, que circula pelos cantos da cozinha improvisada como se estivesse regendo uma orquestra invisível. Para ela, cada prato servido é uma forma de reza, um investimento na energia que, logo mais, se transformará em dança, em suor e em tradição.

A sede da brincadeira, sem o olhar atento dessas mulheres, seria apenas um amontoado de madeira e zinco. São elas que garantem que as fardas estejam costuradas antes da véspera de São João, que as crianças tenham onde se sentar e que as brigas internas, inevitáveis em qualquer grupo que transpira a intensidade do folguedo, sejam dissipadas com uma palavra firme ou um chá calmante.

- Machado, sai da cozinha homem, vai cuidar da tua careta, infeliz! – Diz Dalva dando bronca num brincante que circulava pela cozinha.

- Me larga, dona Dalva! – Responde Machado saindo da cozinha.

As mulheres conhecem o segredo por trás de cada brincante: sabem quem está com o coração partido, quem está com as contas apertadas após um ano de seca, quem precisa de um conselho antes de entrar na roda. O barracão é um lar em construção permanente porque elas insistem em preencher os vazios com a força da sua organização comunitária.

A rotina de uma dessas damas é uma coreografia de resistência invisível.

Elas chegam horas antes dos ensaios e saem muito depois de o portão ser trancado. Limpam o chão de terra com a mesma dedicação com que se preparam para desfilar, entendendo que um terreiro sagrado exige ordem e reverência.

Durante a festa, enquanto os vaqueiros ostentam o brilho dos seus peitorais e os miolos brilham sob a armação, elas estão lá, controlando o estoque de água, gerenciando as doações da vizinhança, garantindo que o fogão a gás não apague e mediando a entrada de quem quer ajudar. Elas são o sustento verdadeiro do brinquedo, os fios que amarram o boi à realidade da comunidade, impedindo que a fantasia se perca no delírio e que o grupo se fragmente por negligência.

- Meu Deus!– Exclamou Dona Dalva.

- O que foi mulher? – Quis saber Ana Maria.

- Esqueci o sal no Mocotó... – Responde Dalva apreensiva.

Muitas vezes, a necessidade de organização traz um peso silencioso. É preciso dividir o pouco que chega entre tantos, gerenciar os humores dos músicos que vêm cansados do trabalho e garantir que o boi, em sua forma física, esteja sempre digno. Elas são as guardiãs da estética e da ética do grupo.

Uma das jovens dançarinas, ao ver seu figurino rasgar-se no meio de uma apresentação, não chora, ela corre para os bastidores, onde encontra a costureira do grupo, uma daquelas mulheres de mãos firmes que, entre um suspiro e outro, conserta o dano em segundos com a agulha que já parecia ser parte de seu próprio corpo. Esse amparo é muito mais que um ajuste técnico; é o selo de permissão para que o espetáculo prossiga sem interrupções.

Dona Dalva é uma senhora repartindo a comida igualmente mesmo sabendo que ela não será suficiente. Há uma força política e social, quase sempre subestimada, no papel dessas mulheres. Elas são o elo que mantém a conexão do Bumba-meu-boi com as raízes da sobrevivência local. Sem a sua disciplina, sem o seu zelo pelo espaço físico e pela dignidade dos brincantes, a tradição teria dificuldades em sobreviver à velocidade do mundo moderno, que é especialista em dispersar comunidades e encarecer a fé.

Elas não buscam o protagonismo absoluto na arena, não querem o brilho cegante das lantejoulas, mas sabem que, sem a sua retaguarda, o brilho do boi seria efêmero.

Quando, ao final de uma celebração ruidosa e exaustiva, as damas do barracão se reúnem para lavar os últimos pratos e organizar o que ficou espalhado, há um orgulho silencioso em cada movimento. Elas olham para as matracas abandonadas sobre a mesa, para os trajes que repousam no cabide e sabem, no fundo de suas almas, que aquela tradição é, antes de tudo, um projeto de maternidade coletiva. Elas cuidam do folguedo como quem cuida de uma planta rara, impedindo que o vento do esquecimento a arranque daquele lugar.

- Pessoal, tá no ponto, vou apagar o fogo!

José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Crônista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade

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