sábado, 20 de junho de 2026

CRÔNICA DO DIA: O Brilho da Orquestra



Sob as luzes incandescentes do arraial, aquilo não parecia ser apenas uma banda de música; era uma cavalaria de sons, um exército de refinamento que descia sobre a terra batida com a precisão de um ponteiro de relógio. Quando o sotaque de orquestra finalmente soltava as primeiras notas, havia uma mudança imediata na atmosfera. O ar, antes denso pela poeira e pelo suor das figuras folclóricas, parecia ganhar um novo fôlego, tornando-se límpido e cintilante como o latão polido. O som dos metais: saxofones, trombones, clarinetes e trompetes , não apenas ocupava o espaço; ele o esculpia, transformando o terreiro em uma sala de concertos a céu aberto, sob a imensidão estrelada de junho.

Os vaqueiros Campeadores, na frente de toda a estrutura, eram a própria definição de elegância rústica. Com seus chapéus de couro adornados com fitas reluzentes e espelhos recortados que capturavam as luzes do palco, eles não caminhavam; eles desfilavam com uma autoridade que parecia vir do tempo das grandes fazendas coloniais.

Suas roupas, um misto de couro cru e veludo, brilhavam com o suor da dedicação. Entre eles, o vaqueiro campeador erguia o busto, o peito estufado, mantendo uma postura de orgulho que servia de farol para todos os seus companheiros de guarnição. Não era apenas uma exibição de roupas; era a ostentação de uma linhagem, uma herança que eles orgulhosamente entregavam ao público como quem oferece um presente de valor inestimável.

Ao lado deles, os músicos da orquestra faziam o tempo parar. Cada um deles, com seus instrumentos cuidadosamente limpos e brilhando sob o reflexo dos refletores, ditava uma cadência que exigia total rendição da plateia. Não havia o estalo abrupto das matracas aqui, nem o transe caótico do Cazubá; havia harmonia, melodia e uma construção sonora que subia como uma escada para o céu.

O som dos sopros, aveludado e expansivo, envolvia o boi em uma redoma de majestade. Era uma sonoridade que parecia vir de fontes distantes, mesclando o erudito ao popular numa simbiose tão perfeita que, por momentos, o chão de terra esquecia sua própria natureza e parecia mármore sob os passos dos brincantes.

Um dos trombonistas, Inácio, um homem de mãos firmes e cabelos já grisalhos, fechou os olhos ao soltar uma nota longa e profunda que parecia rasgar a noite. Ele sentia, na vibração do instrumento contra seus lábios, o mesmo poder que os tocadores de tambor sentiam na pele do couro.

Era um tipo diferente de transe: menos visceral e mais espiritual, um transporte que permitia ao brincante flutuar sobre o cansaço. Para aqueles músicos, o dever era manter o equilíbrio, garantir que o brilho dos metais refletisse a luz do São João para cada esquina do arraial, levando a melodia a quem estivesse cansado demais para continuar.
A elegância dos vaqueiros campeadores em cena era contrastada pela força descomunal com que pisavam o solo. A cada passo, o tilintar das esporas nos calcanhares fazia o compasso com os metais, criando uma percussão secundária que quase ninguém notava, mas que era o alicerce de toda a musicalidade. Eles eram a fronteira entre a delicadeza da orquestra e a rusticidade do boi. Se a música era o vestido de seda da festa, o vaqueiro era o punho de ferro que a protegia.

Nas barracas de comida ao redor, o burburinho cessava quando os metais de ouro e prata começavam seu chamado. Mestra Janete Valéria regia o odor frito do arroz de cuxá e das tortas de camarão parecia ganhar um novo sabor quando acompanhado por uma melodia tão bem alinhavada. As crianças, paradas na primeira fila, acompanhavam o movimento dos dedos dos instrumentistas como se estivessem vendo mágica acontecer, enquanto os casais de dançarinos ajustavam o passo, ganhando a sutileza que só aquele sotaque podia proporcionar.

À medida que a noite avançava, o brilho dos metais parecia aumentar, como se os instrumentos absorvessem a luz daquelas milhares de pessoas e a devolvessem em forma de som puro. Era um ciclo de energia ininterrupto. Quando o ápice da toada se aproximava, o regente, ou o mestre que ali assumia a batuta, dava um sinal sutil. Os trompetes elevavam-se, o agudo cortando a noite, e o conjunto todo respondia como uma só voz, um coro de metais que anunciava a glória do boi de orquestra.

Naquele momento, todo o esforço de ensaios, todo o investimento nas indumentárias dos brincantes, toda a dedicação para manter os instrumentos impecáveis, ganhava o seu sentido final.

No bolso da calça, Inácio sente o celular vibrar, ele interrompe a própria apresentação e atende uma chamada de vídeo de sua filha cecília, no leito do hospital exibia a cabeça sem cabelos, efeito de uma quimioterapia. Inácio sorrir quase em descompasso[C1] mostrando o restante da orquestra.

Eles não estavam apenas tocando uma música; estavam mantendo viva a própria dignidade de sua cultura, provando a si mesmos e ao mundo que o Maranhão sabia revestir sua alma de couro e veludo com o mais refinado dos metais, tornando a noite de junho um testemunho eterno de brilho e cadência, onde a elegância e a força se encontravam sob o olhar atento da lua, transformando cada compasso em uma promessa de que a tradição, quando bem cuidada, reluz com a própria luz da eternidade.

José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e cronista
Membro da Academia Bcabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade

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