Quando o sol se põe no horizonte de Bacabal, o cenário urbano parece perder sua rigidez, cedendo lugar a uma espécie de espera vibrante que só o mês de junho é capaz de criar. A cidade, conhecida como um entroncamento de destinos, transforma-se. As ruas que durante o dia veem o passar incessante de caminhões e a poeira das estradas, à noite, tornam-se veias por onde o sangue da tradição começa a circular com mais vigor. Não é apenas a luz que muda; é a própria atmosfera que se torna densa, impregnada com o cheiro do carvão vegetal, da macaxeira sendo cozida e, sobretudo, com a expectativa de quem sabe que, a cada esquina, um couro pode começar a pulsar.
Em Bacabal, o Bumba-meu-boi não chega de mansinho; ele irrompe nas entranhas da paisagem. O terreiro é, muitas vezes, o quintal de uma casa humilde do bairro Pantanal cujos muros foram derrubados para dar espaço à roda, ou um terreno baldio na Vila São João que, sob o olhar atento dos velhos brincantes, é limpo, varrido e preparado como se fosse o altar de uma catedral.
A areia, espalhada para que os pés dos dançarinos não levantem tanta poeira quanto a argila seca, cria um contraste cênico sob as lâmpadas de mercúrio que piscam com um zumbido constante. Ali, a transformação é física: o boi chega e a geografia da cidade desaparece. As casas ao redor tornam-se apenas arquibancadas naturais, onde os moradores se equilibram em janelas e muros para não perder nem o giro mais simples de uma índia.
O ânimo em Bacabal tem uma peculiaridade que deriva de sua própria localização no mapa interiorano. É um otimismo que se nutre do encontro. Ali, o boi é um acontecimento que reúne povoados vizinhos, pessoas que viajam horas em cima de carrocerias para sentir o tremor da matraca.
Quando o batuque começa, o som parece ricochetear nas fachadas das lojas fechadas, criando um eco que viaja até as margens do rio Mearim. É como se a própria cidade estivesse sendo rebatizada pelo rito; o asfalto, antes quente e monótono, torna-se cenário de uma procissão pagã onde cada passo marca a posse do território pela cultura.
É fascinante observar como a paisagem interiorana se submete ao boi. O boi de Bacabal possui um sotaque que parece carregar o peso dos trilhos e a longevidade dos campos. Não tem pressa. Ele respeita o tempo da conversa, o tempo do cafezinho servido nas canecas esmaltadas durante a pausa da orquestra, o tempo da contação de histórias sobre bois antigos que, dizem os mais velhos, faziam o chão tremer ainda mais do que os atuais.
A transformação não é apenas cênica; ela é anímica. Homens que passaram a quinzena inteira curvados sobre as plantações ou cuidando do gado, ao vestirem o gibão ou pegarem o seu pandeirão, erguem a cabeça como se estivessem reivindicando a cidadania do mundo.
Durante a noite, o ápice da brincadeira em Bacabal é quase cinematográfico. Quando o grupo se desloca da casa do Mestre em direção ao centro do bairro, a procissão parece não ter fim. As crianças correm entre as pernas dos adultos, os cachorros latem em sinal de estranhamento e euforia, e as luzes das varandas se acendem como se fossem pirilampos gigantes saudando a passagem do cortejo.
O boi, imponente com seus olhos de vidro reluzindo sob a luz artificial, lidera essa cavalaria de sons e cores. É nesse momento que a paisagem de Bacabal atinge a sua plenitude. Ela deixa de ser apenas um lugar de passagem, um ponto de parada estratégica no mapa, e assume o seu papel de guardiã da memória.
O ar úmido da noite de junho, que desce dos cupins de terra espalhados pelos campos próximos, mistura-se ao suor dos brincantes, criando um perfume único, inconfundível. É o cheiro de um povo que, mesmo diante da lida mais árdua, sabe transformar a poeira das estradas em pó de estrelas.
Ao ver o brilho das miçangas refletido no olhar de um menino que pela primeira vez vê o boi subir a rua principal, compreende-se que Bacabal não está apenas sediando uma brincadeira; ela está perpetuando um pacto com o futuro. Enquanto o boi atravessar aquelas ruas, enquanto a matraca ecoar entre os prédios de concreto, a paisagem estará viva, consciente de sua própria magia, pronta para ser lembrada como o lugar onde, uma vez por ano, o boi ensina a cidade inteira a caminhar com o ritmo da alma, sem fronteiras e sem pressa de chegar ao fim, pois o fim, ali, é apenas a promessa do próximo ensaio.
José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade







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