sábado, 13 de junho de 2026

CRÔNICA DO DIA - Pai Francisco: O Desejo e a Travessura


Tião não era um homem de grandes posses, mas possuía uma agilidade nas mãos que, por vezes, parecia desenhar o ar. Durante o ano, ele era mestre de obras em canteiros onde o sol não dava trégua e a poeira de cimento grudava nos poros. Ninguém olharia para Tião na segunda-feira pela manhã, com seu chapéu de sol puído e as costas curvadas sobre o tijolo, e imaginaria que, naqueles mesmos olhos semicerrados pela exaustão, havia uma trava guardada. Uma trava que só se soltava quando o couro do tambor anunciava o reinício do ciclo. Ali, no barracão, ele deixava de ser o homem que obedecia a prazos e plantas baixas para se tornar Pai Francisco, a figura que desafiava a lógica da fazenda, o dono da travessura que movia a engrenagem do Bumba-meu-boi.

Ele se observava no espelho velho da penteadeira que ficava no canto do galpão, um vidro manchado pelo tempo que já vira dezenas de homens antes dele tentarem capturar a alma daquela cena. Pai Francisco não era apenas um homem mau ou um ladrão de gado; ele era a própria encarnação do desejo profundo, do impulso humano que prefere o risco imediato à segurança da obediência. Enquanto passava o pó queimado no rosto para dar o tom da pele curtida pela lida, Tião sentia o peso da responsabilidade. Vestir-se daquela indumentária colorida, chapéu de palha com fitas e o gibão que escondia seu corpo de trabalhador, era como atravessar um portal onde as leis do mundo lá fora perdiam a validade.

Naquela noite, o ensaio estava particularmente denso. O sotaque da matraca batia com uma insistência que lembrava o galope de um animal inquieto. Tião observou Catirina, interpretada pela vizinha Rosana, sentada em um banco de madeira, simulando o enjoo, a languidez, o capricho feminino que ditava o destino de toda a história. Ela olhou para ele com aquela exigência silenciosa que sempre o desarmava, e ele entendeu, mais uma vez, que o roubo da língua do boi não eram apenas palavras cantadas ou uma coreografia ensaiada; era a prova máxima de lealdade e de insensatez.

— Tu tá pronto, Tião? — Sussurrou Rosana, entre um verso e outro da toada. — O patrão vai aparecer daqui a pouco, e aquele boi é o mais bonito que a gente já preparou. Se tu não fizer direito, o povo não vai acreditar no teu desespero.



Ele assentiu, sentindo o suor frio escorrer pelas têmporas. A humanidade de Pai Francisco habitava justamente ali, na tensão entre o amor que sentia pela companheira e o medo da punição que viria na sequência. Era uma malandragem temperada com a dura realidade de quem, na vida real, tantas vezes precisou medir se o pouco que tinha bastava para as necessidades de casa. Mas agora, no terreiro, ele não media nada. Ele se lançava.

Tião caminhou até o centro do terreiro com um gingado que não lhe pertencia. Seus pés, que durante a semana mal se arrastavam na lida, agora pareciam flutuar sobre a terra batida. Ele começou a cantar, sua voz projetando-se com a força de quem tem um segredo que precisa ser contado para não explodir. A toada era um lamento ritmado, o pedido de quem sabe que está cometendo um erro, mas que não se importa, desde que o desejo do ser amado seja satisfeito.

— Se não me der a língua, vou morrer de aflição. — Cantava ele, e o público, formado pelos próprios brincantes que ainda não tinham entrado em cena, respondia com um coro que fazia as vigas do barracão tremerem.



A cada passo dado em direção ao boi, Tião sentia o olhar do Mestre, que observava se o seu Francisco tinha aquele brilho de astúcia no olho. E ele tinha. Era a astúcia de quem compreendeu que a vida, muitas vezes, nos empurra para situações limítrofes onde só a rebeldia pode nos curar. Roubar o boi do patrão era, em última análise, um ato de redistribuição da alegria; algo que aquele boi rico e ornado, que brilhava como uma joia, não deveria estar apenas parado nos pastos do coronel. Ele pertencia ao povo, e a língua, a parte mais nobre, deveria ser o banquete de quem sofria.

Enquanto encenava sua travessura, Tião esquecia do cimento e das ferragens. Ele via na plateia, que se acumulava na entrada do barracão, o reflexo de outros Tiãos. Viu o rapaz que trabalhava na oficina mecânica e que, ali, era um caboclo de pena altivo; viu a senhora que passava o dia lavando roupa para fora e que, ali, era uma rainha bordada. Pai Francisco, em sua teimosia, não era um vilão para aquele grupo; ele era o espelho vivo da própria resistência. Era o riso possível no meio da lida dura, o gesto de amor que desafiava a autoridade e as consequências.

Ao final do bloco, quando Tião finge o arrependimento, ou melhor, finge tentar esconder o rastro do seu crime, a catarse coletiva era absoluta. O público ria, mas era um riso que carregava o gosto de algo familiar. Todos ali, em algum momento, já haviam feito algo por desejo que, pela régua do mundo, seria considerado um erro. E, naquele momento de brincadeira, sob as luzes tremeluzentes das fogueiras, o erro de Pai Francisco tornava-se uma lição de humanidade.

Tião saiu do centro da roda, o peito arfando, o suor empapando o gibão de veludo. Ele tirou o chapéu, limpou a testa com a manga e olhou para o boi, agora guardado em um canto do barracão, esperando pela próxima encenação. O boi era belo, mas ele sabia que a beleza não estava apenas nas miçangas e no brilho dos canutilhos; estava na língua que ele fingia roubar, na fantasia que ele vestia, e na capacidade de, por alguns minutos, ser quem ele desejava ser, sem medo de ser julgado pelo dono das terras ou por quem quer que fosse.

Rosana se aproximou, entregando-lhe um copo de água. Ela não disse nada, apenas tocou em seu ombro, um gesto simples que validava todo o esforço daquela noite. Ele percebeu que a Catirina não era apenas um papel; era o motor de toda a história, a personificação da cobiça que transformava o pacato trabalhador em ladrão de gado por uma noite. E que, sem o desejo dela, seu Francisco seria apenas um homem cansado, sem horizontes, sem aquela malandragem que iluminava seus olhos e trazia o riso de volta às feições curtidas pela vida.

Ali, no silêncio que sucedeu o ensaio, Tião entendeu que não importava o quanto o trabalho fosse pesado na manhã seguinte. Ele já tinha vivido o que precisava viver. Tinha roubado a língua, tinha desafiado o senhor e, acima de tudo, tinha mantido viva a chama daquele folguedo que, para muitos ali, era o único momento em que a vida parecia pedir licença para ser apenas festa. Enquanto as matracas descansavam em cima das mesas, Tião guardou a fantasia com o cuidado de quem trata um objeto sagrado. A travessura estava feita, e, na memória de cada um dos presentes, o desejo de Pai Francisco continuaria ecoando forte, preparando o terreno para quando o boi, de fato, precisasse de sua lingua para cantar as glórias da temporada. E enquanto fechava a porta do galpão, percebeu que aquele não era um papel que ele simplesmente vestia; era um fragmento de sua própria alma que ele, finalmente, tinha a permissão de mostrar ao mundo.


José Casanova
professor , Jornalista, escritor e cronista

membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras d Humanidade




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