quinta-feira, 9 de julho de 2026

CRÔNICA DO DIA: Marrom - A Cor da Resistência

O carro ainda nem havia parado completamente quando os flashes começaram a pipocar como fogos de artifício em noite de São João. Os pés calçados numa sandália que ajudara a criar com seus  próprios pitacos de estilista. Sua beleza negra dominava o ambiente.. Ela acena para fãs que a esperavam na entrada do hotel. Era Alcione, a marrom.

O saguão do hotel fervilhava de executivos, artistas e jornalistas. As portas de vidro se abriram e Alcione surgiu envolta num vestido negro salpicado de cristais que pareciam pequenas estrelas presas ao tecido. Era impossível não olhar. Não porque fosse extravagante, mas porque carregava aquela rara elegância de quem sabe exatamente quem é.

Foi então que uma voz atravessou o salão:

— Ih... chegou o navio negreiro!

As conversas morreram pela metade. Um garçom congelou com a bandeja nas mãos. A recepcionista fingiu procurar alguma coisa no computador para esconder o constrangimento.

Alcione parou. Respirou. Olhou diretamente para o homem.

Sem elevar a voz, respondeu com a contundência de quem já havia enfrentado preconceitos demais para desperdiçar palavras.

— Meu papel higiênico é branco... e eu limpo o meu cu com ele.- Falou Alcione sem perder a elegância.

O silêncio seguinte foi maior que qualquer aplauso.

O homem baixou os olhos. Não havia resposta possível para quem acabara de descobrir que a dignidade pode falar mais alto que o preconceito. Tão rápido quanto apareceu, o homem desapareceu nos corredores do hotel.

Alcione nunca respondeu ao racismo apenas por si. Cada resposta sua parecia carregar séculos de vozes que foram obrigadas a silenciar. Ela sabia que o preconceito não nasce da inteligência. Nasce justamente da ausência dela. Costumava dizer que racismo é falta de cultura e que, num país formado por tantas misturas como o Brasil, ninguém deveria imaginar-se superior ao outro pela cor da pele.

Dizem que a chamaram de Marrom por causa da cor da pele. Talvez fosse apenas um apelido. Mas os apelidos também têm destino. O dela cresceu junto com sua voz. Deixou de morar na superfície da pele para habitar o coração do povo. "Marrom" passou a ter cheiro de tambor, gosto de samba, sotaque maranhense e força de ancestralidade. Era a prova de que uma cor pode ser transformada em bandeira quando quem a carrega decide não esconder a própria história, mas iluminá-la.

Desde então, quando alguém anuncia "A Marrom chegou", ninguém pensa em pigmento. Pensa numa das maiores vozes Negras da música brasileira.

As primeiras notas de Não Deixe o Samba Morrer mal haviam saído dos instrumentos quando o teatro deixou de ser plateia. Transformou-se em um enorme coral. Centenas de vozes cantavam juntas, algumas afinadas, outras nem tanto, mas todas carregadas da mesma emoção. Alcione sorriu e afastou o microfone da boca. Não precisava cantar. O público fazia isso por ela.

Ela apontou para os músicos e brincou:

— Vocês estão ouvindo? Acho que daqui a pouco vou ter que pedir emprego nesse coral!

A banda caiu na gargalhada. O cavaquinista respondeu com um floreio bem-humorado, e o percussionista fez o tambor "retrucar", arrancando novos aplausos.

Alcione levou a mão ao peito e contemplou a multidão por alguns segundos.

— Voltar ao Maranhão é diferente... Não é fazer um show. É voltar para casa. É reencontrar o cheiro da minha terra, o batuque que embalou minha infância e esse povo que sempre me ensinou que o samba também nasce onde o tambor fala mais alto.

A plateia respondeu em coro:

— Marrom! Marrom! Marrom!

Ela riu, daquele riso largo que parecia contagiar até os refletores do palco.

— Vocês não prestam... Cada vez que volto, saio daqui mais maranhense do que cheguei.

Sem avisar a banda, improvisou alguns versos sobre São Luís, o mar, os azulejos antigos, os tambores e o povo que transforma saudade em festa. Os músicos se entreolharam por um instante e, como quem já conhecia aquele velho costume da cantora, acompanharam a improvisação sem perder o compasso.

Ao terminar, o teatro inteiro levantou-se. Não era apenas uma salva de palmas. Era o Maranhão abraçando uma de suas filhas mais ilustres. Naquele instante, não existiam camarins, luzes ou distância entre palco e plateia. Existia apenas uma mulher cantando para a terra que nunca deixou de morar dentro dela.

Alcione precisou de uma pausa para trocar o figurino. O calor do Maranhão parecia pequeno diante do calor humano que vinha da plateia.

Ela voltou ao palco usando um vestido vermelho coberto de paetês. Caminhou em direção aos músicos. O salto encontrou um cabo esquecido. Por um segundo, a Marrom caiu. O teatro inteiro levou a mão ao peito. Os músicos interromperam a introdução.

Um segurança correu. Ela levantou antes mesmo que alguém pudesse ajudá-la. Pegou o microfone e sorriu:

— Quem nasceu no Maranhão aprende cedo que cair não é problema. Problema é não levantar.

O teatro explode em aplausos. Para encerrar o show Alcione canta uma toada de bumba meu boi considerada um hino da cultura maranhense, mesmo não sendo São João centenas de matracas surgem nas mãos da plateia. Ela agradece o carinho do público e sai do palco.

Nos bastidores. Uma menina negra aproxima-se. A menina perguntou, quase num sussurro:

— Dona Alcione... um dia eu posso cantar igual à senhora?

A Marrom sorriu daquele jeito que só quem conhece o peso da própria história consegue sorrir.

— Melhor.

A menina arregalou os olhos.

— Melhor?

— O Brasil já tem uma Alcione. O que ele ainda está esperando é conhecer você.

Talvez seja por isso que Alcione nunca tenha sido apenas uma cantora.

Há vozes que interpretam canções. A dela interpreta um povo.

Sempre que houver alguém tentando diminuir uma pessoa pela cor da pele, haverá uma nota de samba esperando para responder.

E quando essa nota subir aos céus, vestida de lantejoulas, de turbantes invisíveis e da dignidade herdada dos ancestrais, o preconceito descobrirá aquilo que a cultura brasileira já sabe há décadas:

Alcione não ocupa um palco. Ela ocupa um lugar na memória do Brasil.

Porque existem artistas que fazem sucesso. E existe Alcione.

A mulher que transformou a própria voz em quilombo, o samba em resistência e cada aplauso em uma pequena derrota do racismo. Quando ela canta Não Deixe o Samba Morrer, não é apenas o samba que continua vivo. É também a esperança de um país que ainda precisa aprender que nenhuma cor diminui um ser humano, mas toda forma de preconceito diminui quem a pratica. Afinal, a pele nunca foi medida de grandeza. A verdadeira grandeza sempre esteve na alma. E a de Alcione, como sua voz, nasceu sem caber em qualquer fronteira.

José Casanova

Professor, Jornalista, Escritor e Cronista

Membro da Academia Bacabalense de Letras

Academia Mundial de Letras da Humanidade


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