quinta-feira, 2 de julho de 2026

CRÔNICA DO DIA: A Morte do Boi Curupira



O silêncio que precedeu o derradeiro ato não foi a ausência de som, mas a contenção do fôlego de milhares de pessoas. O Boi Curupira de Bacabal, que horas antes ocupara o centro da arena com uma imponência que parecia desafiar a finitude, agora movia-se com uma lentidão carregada de fatalidade. O sotaque da orquestra, antes pujante e triunfante, descia a escala em um lamento contínuo, as notas dos metais soando como um soluço metálico que cortava a umidade da noite.

Todos ali do vaqueiro mais entusiasmado ao espectador mais distraído nas arquibancadas sabiam o que viria a seguir. Era o instante em que a brincadeira encontrava sua sombra, o momento em que a glória do animal colidia com a fragilidade de sua existência.

Augusto, o miolo, sentindo o peso do boi mais do que nunca, começou a fazer os movimentos circulares que indicavam o desfalecimento. Cada passo do animal era uma tentativa de se manter de pé contra a vontade de uma força invisível. Os vaqueiros campeadores, em um gesto de absoluta reverência, formaram um cerco ao redor do boi, as cabeças baixas, os rostos escondidos pelas sombras de seus chapéus de couro.

Eles não estavam ali para proteger a carga, mas para testemunhar o fim.

Quando o Curupira finalmente procurou o chão, não houve baque brusco. A queda foi um desmoronar lento, uma entrega do veludo e da madeira aos braços de terra que esperavam a divindade.

Houve um clamor coletivo que soou como um suspiro de dor. Catirina, aproximando-se do animal caído, soltou um grito que não era de encenação; era o lamento da própria comunidade pela perda do símbolo que encarnava suas esperanças. Pai Francisco, o causador da desgraça, agora parecia encolhido em sua malandragem, a capa colorida arrastando na poeira, transformado de herói picaresco em arrependido.

O público, em sua maioria, já não via mais um homem sob a armação; via o boi, via a vida se esvaindo naqueles olhos de vidro que, sob a luz dos refletores, pareciam perder o brilho. O "corte final" nunca foi apenas o fim de uma narrativa teatral; era o espelho para as perdas que cada um ali carregava em sua própria trajetória.

O Mestre da orquestra, mantendo um sinal único com o pandeirão, fez o ritmo diminuir até chegar a uma pulsação quase imperceptível, como um batimento cardíaco que insiste em se manter presente antes de silenciar. Foi nesse compasso de agonia que as toadas ganharam tom de oração. Não era mais tempo de festa; era tempo de vigília. O sincretismo explodiu em cada gesto: mulheres faziam o sinal da cruz, homens tocavam o chão como se pedissem licença aos ancestrais para que o boi pudesse seguir seu caminho. Naquele breve lapso de tempo, a arena deixou de ser palco e tornou-se um corredor entre o mundo dos vivos e o mistério que nos cerca.

A morte do boi é um paradoxo absoluto na cultura popular maranhense. Ela é o clímax da encenação, mas também é o momento em que o grupo mais se fortalece. Enquanto a carcaça jazia no chão, imóvel, silenciada pela coreografia da finitude, algo começou a mudar no semblante dos brincantes. O choro de Catirina e a súplica de Pai Francisco começavam a ser embalados por uma nova cadência.

Um dos tambores, discretamente, deu uma batida. Depois outro. E de repente, o lamento começou a se transformar em um chamado de ressurreição. A mesma comunidade que chorava a perda era a que já preparava o terreno para o renascimento.

Os vaqueiros levantaram o Curupira com uma agitação nova, mais rápida, como se o toque dos metais e das matracas pudesse, através de um passe de mágica rítmica, incutir novamente o sopro da vida naquelas peças de pano. E, quando o boi se levantou, não foi um levantamento comum. Ele ergueu-se de uma vez, girando freneticamente, com uma agilidade que, momentos antes, seria impossível naquele corpo cansado.

A arena explodiu em um clamor de regozijo. Não era apenas a volta do boi. Era a comunidade reencontrando a si mesma.

Ao verem o Curupira novamente em pé, girando com uma vivacidade que parecia zombar da própria finitude, os brincantes romperam em toadas de celebração. Onde havia desespero, agora havia o triunfo da teimosia. A morte simbólica havia sido vencida pelo ritmo, pela união do batalhão e pela capacidade daquelas mãos de insuflar vida no que parecia destruído.

As matracas marcavam o ritmo da ressurreição, ficou claro para quem olhava: o boi não morre porque ele é o coração de quem o carrega. E, na arena, sob o céu imenso e satisfeito de junho, a vida continuava, mais uma vez vitoriosa. Como se a promessa de que o Boi Curupira sempre voltaria fosse o contrato mais antigo e inviolável que aquela gente tinha com o tempo e com o próprio sentido das coisas.

José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e cronista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade

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