O mundo lá fora, com suas preocupações solares e seus relógios impiedosos, parece cessar de existir a partir do momento em que o ponteiro marca três da manhã no arraial da Maria Aragão. O calor diminui, a poeira baixa e até as conversas parecem falar mais baixo.
As luzes dos refletores ganham uma tonalidade mais quente, amarelada, como se o próprio tempo tivesse se cansado de correr e resolvido descansar sobre as telhas de zinco e a terra batida do terreiro. Naquela hora da madrugada, o intervalo sagrado onde o cansaço do corpo, em vez de exigir o repouso do sono, o corpo dói, mas ninguém pensa em ir embora.
O brincante que ainda está de pé naquele estágio de transbordamento não é mais o mesmo homem ou mulher que acordou às cinco da manhã para enfrentar a lida. Ele é puro espírito, pura cadência, pura entrega.
O boi, que nas primeiras horas da apresentação parecia um espetáculo externo, agora habita o interior de cada participante como uma segunda natureza. A armação já não pesa; as penas, que antes causavam um desconforto constante, são sentidas como uma extensão da própria pele. É como se a alma do folguedo houvesse finalmente invadido os corpos vacilantes dos brincantes.
Ninguém mais tropeça, ninguém mais se perde no compasso da matraca. A orquestra, ainda que seus integrantes sintam os lábios dormentes e as mãos calejadas pela fricção infinita, toca com uma precisão que beira o sobrenatural. A música continua como se ninguém estivesse cansado. Parece que quanto mais a noite avança, mais força ela encontra.
Nesta hora, o público que resta: os devotos, os apaixonados, os que se recusam a abandonar o encanto observam em um silêncio reverente. Não há mais aplausos estrondosos, nem os gritos de euforia do início da noite. O que se ouve é uma respiração comum. A fronteira entre o que é o "batalhão" e o que é "plateia" torna-se porosa, quase inexistente.
Em um canto, um velho brincante fecha os olhos e deixa o corpo balançar sozinho, seus pés desenhando círculos no chão como se ele estivesse se comunicando com os antepassados que, naquele momento de lucidez absoluta, parecem caminhar lado a lado com os vivos. Limpa o suor do rosto, fecha os olhos sorri sozinho e continua a dançar. Para ele, o tempo parou não porque o espetáculo acabou, mas porque a vida se revelou em sua forma mais pura: o movimento.
A alma do boi domina tudo. A força de Pai Francisco, a insistência de Catirina, a altivez do caboclo de pena, tudo é destilado em toadas que ganham tempos mais longos, mais profundos, quase meditativos. Não há pressa para terminar. A ideia de que o arraial deve se encerrar parece um absurdo, uma intrusão indesejada de uma realidade que não compreende o que se passa aqui dentro.
Naquele horário já não dava para separar o que era festa, fé ou costume. Tudo parecia a mesma coisa. Cada giro do boi é uma oração, cada batida na matraca é um sinal de que, naquele pedaço do Maranhão, a eternidade não é um conceito teórico, mas um compasso que se repete infinitamente pelas mãos incansáveis dos músicos.
O silêncio das ruas vizinhas, que já dormem em um sono profundo, faz com que o som do arraial pareça ainda mais potente, um farol de resistência cultural que brilha solitário na noite fria. Os brincantes, banhados pelo sereno que começa a baixar, sentem a pele arrepiar, não de frio, mas da vibração intensa das vozes que se juntam no refrão.
É o momento de maior transparência emocional. Sem o sol para julgá-los, sem as rotinas a cumprir no dia seguinte ou, pelo menos, esquecendo-se temporariamente da existência delas, eles se permitem ser o boi. O miolo, protegido pela escuridão do veludo, sente-se mais leve do que nunca. Os vaqueiros, antes tão preocupados com a proteção do boi, agora apenas deixam a música conduzir sua guarda.
Quando a aurora começa a desenhar as primeiras linhas de cor cinza no horizonte, revelando a silhueta das palmeiras e a austeridade dos telhados da cidade, o encanto não se quebra; ele apenas se transforma. É uma melancolia doce, o reconhecimento de que a perfeição é, por natureza, breve. Eles continuam resistindo ao raiar do dia.
Quando o dia finalmente clareia, ninguém sabe ao certo quando o cansaço vai voltar. Durante aquelas horas, ele simplesmente desapareceu. O boi continua rodando, as matracas seguem marcando o compasso e os últimos brincantes permanecem de pé. Quem vive aquela madrugada entende que ela não cabe no relógio. Ela pertence ao coração de quem aprendeu que, enquanto houver uma toada ecoando pelo terreiro, o boi nunca deixa de caminhar.
José Casanova







Parabéns pela belíssima crônica. Lendo-a tenho a impressão que estou participando da história. Bravo 👏. Neves Azevedo.
ResponderExcluir