sexta-feira, 31 de julho de 2026

CRÔNICA DO DIA: O Hábito e a Rua


O vento que sopra em Fortaleza, mesmo na calada da noite, nunca é frio o suficiente para abrandar o asfalto quente da Praia de Iracema. Irmã Helena ajustou o hábito, tentando disfarçar o desconforto com a rigidez do tecido diante da umidade salina que colava a veste ao corpo. O hábito branco, que deveria representar a pureza e a ordem, parecia, sob a luz alaranjada dos postes, uma bandeira de rendição em meio ao caos da madrugada.


Atrás da Catedral, onde as sombras são mais longas, ela encontrou Antônia. Ou o que restava de Antônia. A mulher estava encolhida sobre um pedaço de papelão, os joelhos encostados no peito, os dedos encardidos de fuligem segurando um frasco vazio de cola. Helena ajoelhou-se no chão, manchando a barra do hábito sem hesitar. Sua fé, que antes encontrava refúgio nas orações entoadas no silêncio da capela de Nossa Senhora da Penha, ali se tornava uma faca de dois gumes. Como falar de um plano divino para alguém que sequer tinha certeza de que sobreviveria à névoa da próxima hora?

— Antônia, filha, vamos lá para o abrigo. A noite está perigosa. — Disse Helena, a voz baixa para não despertar a desconfiança da mulher. Antônia levantou os olhos, dois círculos injetados de desamparo. Ela deu um riso seco, que logo se transformou em um acesso de tosse profunda, que parecia arrancar pedaços do seu pulmão.

— O seu Deus também esqueceu de mim aqui, irmã. Por que a senhora não vai lá rezar no seu altar de ouro e me deixa em paz? — A pergunta não tinha ódio, apenas a exaustão absoluta de quem já não esperava nada de ninguém.

Helena sentiu um abismo se abrir sob seus pés. Ela havia estudado teologia, passara anos em retiros silenciosos, mas o seminário não incluía manuais sobre como converter a fome em esperança. A dualidade a golpeava: de um lado, a crença absoluta de que cada vida era sagrada; do outro, a evidência brutal de que a sociedade havia decidido que Antônia era um custo, uma falha, um detalhe descartável na paisagem urbana.

— Eu não rezo por você porque a senhora está esquecida, Antônia. Eu rezo por mim, para que eu tenha forças para não virar as costas quando o seu nome for cuspido pelos outros. — Helena respondeu, estendendo a mão.

O dilema moral pesava mais que o terço no bolso.

Se ela levasse Antônia para o abrigo, teria que enfrentar as regras do convento, o controle rígido de horários, as críticas silenciosas de outras irmãs que viam na marginalidade uma mácula que não deveria cruzar os portões da instituição. A fé, que deveria ser um consolo, tornava-se ali uma arena de combate. Helena questionava se a caridade, quando limitada por muros e burocracias, ainda mantinha sua essência ou se tornava apenas mais uma forma de gestão da pobreza.

Antônia, com um esforço sobre-humano, colocou a mão sobre a de Helena. A pele era fina, quase transparente. Eram duas mulheres à margem: uma, pela escolha do celibato e da dedicação ascética; a outra, pelo completo descarte social. A freira sentiu o tremor daquela mão e o dilema se dissolveu em um único imperativo: o momento presente.

Elas caminharam em silêncio de volta. Passaram por grupos de jovens com roupas caras, por turistas que desviavam o olhar como se a visibilidade da miséria pudesse ser contagiosa. Helena guiava o passo daquela mulher com uma reverência que dedicaria a um círio pascal. Ao chegarem ao portão do abrigo, ela sentiu o peso dos olhares das outras irmãs que observavam da janela.

A fé, para Helena, deixou de ser um dogma a ser recitado e passou a ser o peso daquele corpo que ela ajudava a carregar. Ao colocá-la na cama limpa, enquanto Antônia tremia sob os cobertores, a freira percebeu que o hábito que vestia nada significava se não servisse para esconder as feridas de quem a sociedade preferia não ver. Ela fechou a porta, não para aprisionar Antônia, mas para proteger aquela pequena humanidade contra o mundo lá fora.

Naquela noite, a oração foi breve. Ela percebeu que, nas ruas de Fortaleza, a verdadeira liturgia não mora no altar, mas no ato perigoso e subversivo de se ajoelhar no chão frio para estender a mão a que já não tem mais nada para oferecer além da própria dor.

José Casanova

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