O cheiro na galeria feminina é uma mistura constante de
cloro, suor e uma umidade subterrânea que parece corroer as paredes de concreto
bruto. Em São Luís, quando o verão bate com força, o ar dentro da unidade
prisional feminina de Pedrinhas torna-se denso como uma manta pesada. Beatriz
estava sentada no beliche superior, o
espaço mais disputado pela ventilação que vinha de uma grade estreita, alta
demais para oferecer qualquer visão da ilha que não fosse o recorte de um céu
cinzento.
Ela ajustou o lençol, tentando esconder uma mancha de
umidade que insistia em brotar na parede. A cada sete dias, o tempo dilatava.
Beatriz contava os segundos, não pela liberdade que viria a longo prazo, mas
pelo instante em que o portão de ferro rangia, sinalizando a visita da manhã. A
dignidade, ali dentro, não se mede pelo que se tem, já que quase tudo é
confiscado na revista de entrada, mas pela capacidade de reconhecer a própria
voz em meio ao barulho dos guardas e aos gritos abafados de outras alas.
— Bia, o café hoje veio ralo de novo. — Disse Valéria, a
companheira de cela que passava os dias fazendo crochê com barbantes desfiados
de uniformes velhos. — Mas tem um pedaço de pão que sobrou. Quer?
Beatriz balançou a cabeça negativamente. A náusea matinal
era sua companheira fiel. Ela ajeitou o elástico do cabelo, sentindo os fios
rebeldes e secos pela água salobra do banho. O preconceito lá fora, das pessoas
que viam o crime como uma mancha irreversível, era sentido ali dentro como uma constante
reafirmação de que elas haviam perdido o direito ao nome próprio.
Eram números de matrícula
em arquivos mofados.
O momento mais difícil chegava com a entrega das cartas. A
escrita era o único fio condutor entre seu mundo entre paredes e a infância
que, teimosamente, ela tentava preservar
na mente dos filhos. Escrever para eles exigia um esforço exaustivo de
tradução: como explicar a ausência sem usar a palavra "prisão"? Como
falar de amor sem mencionar o cheiro do ferro?
Beatriz pegou o papel ofício amassado. A tinta da caneta
esferográfica azul parecia brilhar no ambiente fosco. “Querido Léo, a mamãe
está estudando muito aqui. Em breve, a gente vai se ver, e eu quero que você me
conte tudo sobre aquele
desenho
de dinossauro que você fez.” Ela parou por um instante, a mão tremendo quase imperceptivelmente.
A lágrima que ameaçava cair foi contida com um piscar rápido. Chorar na frente das
outras seria ceder terreno; ali, a fraqueza era uma moeda de troca perigosa.
Na hora do pátio, o sol de São Luís batia forte no pátio
cimentado. O contraste entre o céu azul aberto e as grades que cortavam a visão
era uma ferida visual. Beatriz caminhava em círculos, tentando manter a coluna
ereta. A dignidade, ela descobriu, era uma postura física. Encurtar os ombros
era aceitar a derrota.
— Eles perguntaram por você na escola? — Perguntou Valéria,
caminhando ao seu lado.
Beatriz olhou para os próprios pés calçados com chinelos
encardidos.
— A minha sogra diz que eu mudei de cidade para trabalhar.
Não aguento a ideia deles acharem que eu os abandonei. — Confessou Beatriz, a
voz mal saindo da garganta. — O abandono é uma marca. A prisão é só um erro. Se
eles me enxergarem como uma mulher que falhou, mas que ainda é mãe, isso é tudo
o que me mantém sã.
A contagem de presas,
o jantar servido às quatro da tarde sob o olhar indiferente dos agentes, as
revistas vexatórias que pareciam buscar apenas quebrar a última camada de privacidade
que restava. Beatriz observava as mulheres ao redor. Algumas haviam se
entregado, deixado o cabelo cair, o
olhar vidrado. Outras, como ela, forjavam pequenas resistências. Dividiam o sabonete,
repartiam a notícia da família, criavam uma rede de afeto que tornava a
sobrevivência algo minimamente suportável.
Naquele dia, a visita aconteceu. O calor aumentou a intensidade
dos corpos aglutinados no parlatório.
Quando viu a sogra entrar segurando a mão de Léo, Beatriz
sentiu seu coração acelerar. A criança parecia crescida, sua camisa azul estava
levemente suja de terra, sinal de que ele ainda corria e brincava. O vidro que
as separava parecia uma barreira intransponível, um espelho sujo que distorcia
a realidade do carinho.
— Oi, mamãe! — Gritou o menino, encostando a mão pequena no
vidro.
Beatriz não pôde abraçá-lo. Encostou a palma da mão no
mesmo lugar.
— Oi, meu amor. Você está lindo. A vovó disse que você está
aprendendo a ler?
Enquanto conversavam sobre dinossauros e a escola, Beatriz
percebeu o olhar da sogra, um misto de julgamento e pena, a sentença que ela carrega
diariamente. Ali, diante da inocência do filho, Beatriz teve a clareza
definitiva: o sistema podia confinar seu corpo, podia privá-la da luz solar
direta, podia tentar apagar sua identidade com um número de matrícula, mas não
tinha autorização para apagar o vínculo materno.
Aquela conexão era seu território inalienável. A criança ao
lado de fora era a prova de que ela continuava sendo uma mulher, uma mãe,
alguém que ainda se importava com as minúcias da vida cotidiana,
independentemente da cor da parede ou da rigidez do portão que a separava da
liberdade.
Quando a campainha soou indicando o fim da visita, ela não
se esgotou. Observou o menino sair, segurando a mão da avó, e guardou a imagem daquele
movimento com a precisão de quem armazena água no deserto. Ao voltar para a
cela, o som metálico das chaves e a batida das grades não soaram como uma
sentença de fim, mas como o compasso de uma espera. Beatriz sentou-se novamente
no beliche. Pegou o pedaço de pão que, poucas horas antes, ela se recusara a
comer. Desta vez, aceitou. Precisava de força.
Amanhã seria um novo dia, e ela teria novas palavras para
escrever para o Léo, mantendo, entre as grades e o concreto, a dignidade de
quem ainda tem um lugar reservado no mundo lá fora. Cada dia ali era um degrau
a menos para a sua reconstrução, um exercício de sobrevivência que exigia uma
mente intacta e um coração teimoso o suficiente para não deixar que a ferrugem
do sistema ganhasse a batalha final contra sua humanidade.
José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade






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