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quarta-feira, 26 de agosto de 2026

CRÔNICA DO DIA: Tinta de Sobrevivência

O café na mesa de Clarice já estava frio, uma mancha escura na porcelana, mas o manuscrito diante dela parecia pulsar com uma vida própria.

São Luís, do lado de fora da janela, insistia em ser a mesma de sempre: a chuva atingindo os azulejos, o trânsito barulhento das ruas ,o centro histórico transbordava memória e  cheiro de maresia que, para ela, sempre teve gosto de promessas não cumpridas. Clarice carregava na bolsa um calhamaço de páginas marcadas por anotações à margem, uma coleção de contos que ela chamava, em segredo, de "Tinta de Sobrevivência".

Eram histórias sobre mulheres que ela via cruzando os ladeirões da cidade, mulheres que ninguém notava ;a doméstica que sonhava com uma vida melhor, a estudante que desafiava a lógica corporativa, a vizinha que reconstruía a vida após um episódio de violência doméstica.

Ela passara os últimos dois anos batendo de porta em porta, ou melhor, de e-mail em e-mail, tentando  convencer editores de que aquelas vidas mereciam um livro. A resposta era quase sempre a mesma, polida até a transparência: "seu trabalho tem um estilo interessante, mas não é comercial", ou ainda, "o mercado literário está saturado de ficção regional". Era um eufemismo técnico para dizer que as histórias daquelas pessoas, contadas por ela, não atraíam o brilho necessário ao marketing editorial.

Naquela terça-feira, a reunião no pequeno escritório de uma editora independente no centro era sua última tentativa antes de se render ao auto-suporte, um caminho que a levaria meses de economias. O editor, um homem que parecia viver em um estado constante de tédio intelectual, folheou os papéis como se estivesse descartando contas vencidas.

O editor parou de folhear as páginas por um instante. Voltou algumas folhas, como quem procurava confirmar uma lembrança.

— Li aquele conto da empregada doméstica... a que atravessa a cidade de ônibus imaginando o mar antes de começar mais um dia de trabalho.

Clarice ergueu os olhos.  desde que entrara na sala,  só agora percebeu que ele realmente havia lido o manuscrito.

— Gostei muito.

O silêncio que se seguiu foi breve, mas pesado o suficiente para fazer nascer uma esperança. O editor apoiou as mãos sobre a mesa, respirou fundo e desviou o olhar para a janela.

— Justamente por isso eu sei que ele é bom. Mas... não consigo vender isso.

A frase caiu entre os dois como uma porta sendo fechada sem violência, porém definitivamente. Naquele instante, Clarice compreendeu que o problema nunca fora a qualidade das histórias. O problema era que elas insistiam em iluminar vidas que o mercado preferia manter na penumbra.

— Clarinha. — Recomeçou ele, usando o diminutivo que ela detestava.  —Entendo a sua paixão. Mas você entende que, hoje em dia, o leitor quer escapismo? Ele quer histórias que o transportem para longe do Maranhão. Essas suas personagens são... como posso dizer? São muito pesadas. Muito reais num sentido que cansa. Ninguém quer abrir um livro para encontrar a vizinha.

Clarice sentiu uma pontada na base do pescoço. O que ele chamava de "escapismo", ela via como a necessidade urgente de encarar o real. A literatura não era para fugir do mundo, era para dar ao mundo o contorno do que ele tentava esconder. Ela não queria apenas letras, queria um espelho capaz de mostrar as feridas de São Luís e, ao mesmo tempo, a beleza da poeira que dançava nas frestas das casas de fachada colonial.

— O meu público não é o leitor que quer esquecer o mundo. — Ela rebateu, a voz equilibrada, embora o coração batesse contra as costelas. — É o leitor que precisa ser lembrado de que ele existe. De que as lutas que ele trava todo dia, na fila do banco ou na reconstrução de uma casa, são literatura. Se eu não escrever sobre essas mulheres, o que vai restar delas? Apenas a estatística.

O editor suspirou, fechando a pasta com um gesto de encerramento. Ele não a odiava, e isso era talvez o mais humilhante: ele simplesmente não via valor.

Para ele, a literatura era cosmética; para ela, era a única maneira de não se perder em meio ao silenciamento crônica das vozes femininas que habitavam a periferia dos grandes centros ditos literários.

Ao empurrar a porta da editora, Clarice foi recebida por uma chuva grossa, dessas que transformam as ladeiras de São Luís em espelhos trêmulos. Ficou imóvel por um segundo, como se ainda pudesse voltar e ouvir uma resposta diferente. Não voltou.

Abriu a bolsa, retirou o manuscrito e, num gesto instintivo, apertou o maço de folhas contra o peito, escondendo-o debaixo da blusa. Depois desceu a calçada. A água escorria pelos cabelos, encharcava o vestido, pesava nos sapatos e desmanchava qualquer aparência de elegância. Ela caminhava sem pressa, deixando que a chuva lhe tomasse o corpo inteiro.

Quando alcançou a marquise de uma loja fechada, afastou cuidadosamente o manuscrito do peito. As páginas permaneciam secas. Se fosse preciso escolher, preferia que a chuva levasse dela qualquer coisa, menos aquelas histórias.

 Cada conto ali era um fragmento de identidade que ela havia arrancado do anonimato. A escrita, para Clarice, não era uma busca por fama ou prêmios; era o esforço de manter vivas as trajetórias que a história oficial preferia apagar. Se o mercado não queria a tinta da sobrevivência, que assim fosse. Ela não a escreveria para o mercado, nem para editores entediados, mas para aquelas que, ao abrir um livro, pudessem encontrar, finalmente, a sua própria voz ecoando nas páginas.

Sentada em um banco de madeira úmida pela chuva, ela tirou uma caneta do bolso e começou a escrever, ali mesmo, um novo conto. A descrença do editor tornara-se o prefácio não escrito de sua obra.

Antes de iniciar o novo conto, Clarice abriu cuidadosamente o manuscrito. Passou os dedos pelas primeiras folhas para verificar se a chuva havia vencido o cuidado com que as protegera. As páginas continuavam intactas.

Quando chegou à capa, porém, percebeu uma pequena ironia. A tinta do título escorrera com a umidade. Restava apenas um borrão escuro onde antes se lia o nome da coletânea.

Ela permaneceu alguns segundos olhando aquele vazio. Retirou a caneta do bolso, apoiou o manuscrito sobre os joelhos e escreveu novamente, com letras firmes:

Tinta de Sobrevivência.

Fechou as páginas, respirou o cheiro de papel úmido misturado à maresia e começou o conto seguinte.


José Casanova 
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista 
Membro da Academia Bacabalense de Letras 
Academia Mundial de Letras da Humanidade 

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

CRÔNICA DO DIA:O Vidro no Topo

O ar condicionado da sala de reuniões no vigésimo andar do edifício mais imponente de São Luís soprava um gelo artificial, perfeitamente alinhado com a frieza dos olhares que aguardavam a entrada de Helena. Ela ajustou o blazer de alfaiataria, a postura impecável e o passo firme, ciente de que, naquela mesa, a competência nunca seria o único critério de avaliação. Como CEO da maior empresa de logística da região, Helena estava acostumada a prever variáveis de mercado e a gerir crises, mas os cinco homens sentados ao redor da mesa oval representavam uma constante que as planilhas jamais conseguiam calibrar: a convicção absoluta deque ela era apenas um acidente de percurso no topo da hierarquia.

A reunião era sobre a expansão multimodal para o Porto do Itaqui. Era o projeto da vida de Helena, desenhado em cada pormenor, testado e validado.

Ao  abrir a pasta de couro e deslizar os gráficos pelo centro da mesa, o silêncio que se formou não foi de admiração, mas de uma espera calculada.

— Helena.  — A voz de Marcelo, um dos diretores mais antigos, soou com aquele tom de condescendência que ela aprendera a identificar como um alarme. — O plano está ambicioso. Contudo, precisamos considerar se a diretoria está pronta para um movimento tão... agressivo. Talvez devêssemos esperar o próximo trimestre e deixar que o board principal, em São Paulo, revise estes números.

Ele não a olhou nos olhos. Olhou para o lado, para o seu par, num gesto calculado de desautorização.

Helena sentiu o peso do vidro no topo; não era apenas a arquitetura do prédio, mas o teto de cristal invisível que ela batia todos os dias. A solidão do cargo não vinha apenas das decisões difíceis, vinha de ter que explicar o óbvio e de ver suas palavras serem esvaziadas de autoridade pelo simples fato de serem ditas por uma mulher.

— O board de São Paulo já aprovou o orçamento preliminar, Marcelo.  — Helena respondeu, a voz equilibrada, sem permitir que a indignação tremulasse o tom. — A expansão não é uma escolha agressiva, é uma necessidade operacional. Se esperarmos, perderemos o timing da concessão portuária. Onde exatamente o seu desconforto reside? Nos números ou na minha condução?

O silêncio ficou mais denso. As palavras pronunciadas em inglês demarcam território na empresa. Um dos diretores, mais jovem, tossiu, desconfortável com a franqueza da pergunta. O machismo, ali, não vestia o traje de uma ofensa explícita; ele se escondia atrás de "precauções" e "estratégias conservadoras" que nunca eram exigidas quando o CEO era um homem. Se ela falasse com firmeza, era mandona ou emocional. Se falasse com calma, era subestimada.

— Não leve para o pessoal. — Retrucou outro, o mais velho da mesa, com um sorriso de dentes brancos que não alcançava os olhos. — Estamos apenas olhando pelo bem da empresa. A senhora sabe como o setor de infraestrutura é um ambiente...peculiar. Talvez, para esta negociação específica, fosse melhor enviarmos uma comissão com mais experiência em campo.

Experiência. A palavra soou como um eco de todos os anos que Helena passou construindo aquela estrutura, acumulando certificações e enfrentando lobbies que eles nunca ousaram encarar. Ela sabia que, se cedesse à comissão, seu projeto seria desmantelado em pequenas partes até que ela perdesse o controle sobre a execução final. A solidão de Helena era feita de saber que, naquele ambiente, qualquer hesitação seria interpretada como fraqueza de gênero.

Ela fechou a pasta de couro com um movimento seco, um estalo que cortou a tensão da sala.

— Pois bem. Já que a minha "experiência" parece ser o foco da preocupação, vamos fazer o seguinte: a decisão final sobre a comissão será tomada pelo conselho amanhã, às nove da manhã. E, para que não haja dúvidas, levarei comigo o relatório técnico que prova que, nos últimos três anos, sob minha gestão, a margem de erro deste setor caiu vinte por cento, enquanto as comissões anteriores, compostas pelos senhores, tiveram perdas anuais na casa dos dois dígitos.

Ela se levantou, a postura inabalável. O impacto na sala foi imediato; o desconforto mudou de dono.

Eles não estavam acostumados a serem confrontados com fatos frios por uma mulher que não se desculpava pelo próprio sucesso. Marcelo a acompanhou com o olhar, uma mistura de irritação e, talvez, um vislumbre fugaz de respeito que ele não sabia como processar.

Helena saiu da sala e atravessou o saguão silencioso em direção ao seu gabinete. O vidro que separava seu escritório da vista panorâmica de São Luís parecia magnificar o tamanho do desafio.

Ao fechar a porta do gabinete, Helena permaneceu alguns segundos imóvel, como se o silêncio daquele espaço precisasse de tempo para acomodá-la. Caminhou até a mesa, pousou a pasta de couro com cuidado e soltou o ar que, durante toda a reunião, parecera preso entre os ombros.

Sentou-se devagar. Descalçou os sapatos de salto e apoiou os pés descalços sobre o tapete. Com movimentos discretos, massageou os tornozelos marcados pela pressão de um dia inteiro em pé, percorrendo com os dedos as pequenas marcas avermelhadas deixadas pelo couro. Não havia ninguém para testemunhar aquele instante de cansaço, e talvez fosse justamente por isso que ele lhe parecia tão verdadeiro.

O celular vibrou sobre a mesa. Ela o pegou esperando, por um breve impulso, encontrar alguma mensagem que não tratasse de planilhas, cronogramas ou contratos.

A tela se iluminou. Havia notificações sobre fornecedores, uma solicitação do conselho, dúvidas do setor financeiro, lembretes de reuniões e atualizações do projeto do Porto do Itaqui.

Helena percorreu todas elas com o polegar. Nenhuma dizia simplesmente:

"Como você está?"

Ela sorriu de leve, não por alegria, mas pelo reconhecimento silencioso de uma solidão que aprendera a administrar havia muito tempo. Respirou fundo, calçou novamente os sapatos e endireitou o blazer. Nesse instante, alguém bateu à porta. A CEO voltou a ocupar seu lugar antes mesmo de responder:

— Pode entrar.

Ela estava exausta. A jornada para chegar até ali não havia sido composta apenas de metas batidas, mas de uma luta constante para não ter a própria voz silenciada pela conveniência do patriarcado corporativo.

Ela sentou-se na cadeira giratória e olhou para a cidade lá embaixo, pequena e distante.

A solidão no topo não era algo que ela pudesse compartilhar com os diretores que ficaram na sala, nem com a família, que mal compreendia o nível de desgaste daquela linha de frente. Era uma solidão de quem precisa ser, permanentemente, dez vezes mais eficiente para ser considerada apenas "boa".

Mas, enquanto observava o pôr do sol tingir o rio Anil, ela percebeu que a sua autonomia valia aquele custo. Ela tinha o controle financeiro, o poder estratégico e a competência técnica. E, mais importante, tinha o privilégio de ter destruído o conforto de quem esperava que ela fosse apenas uma peça decorativa na engrenagem. Amanhã, às nove, ela não estaria apenas defendendo um projeto; estaria mantendo a porta aberta para que outras, ao ocuparem sua cadeira, encontrassem menos vidro e mais chão onde pisar.

José Casanova 
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista 
Membro da Academia Bacabalense de Letras 
Academia Mundial de Letras da Humanidade 

terça-feira, 28 de julho de 2026

CRÔNICA DO DIA: Entre Grades e Afetos

 

O cheiro na galeria feminina é uma mistura constante de cloro, suor e uma umidade subterrânea que parece corroer as paredes de concreto bruto. Em São Luís, quando o verão bate com força, o ar dentro da unidade prisional feminina de Pedrinhas torna-se denso como uma manta pesada. Beatriz estava  sentada no beliche superior, o espaço mais disputado pela ventilação que vinha de uma grade estreita, alta demais para oferecer qualquer visão da ilha que não fosse o recorte de um céu cinzento.

Ela ajustou o lençol, tentando esconder uma mancha de umidade que insistia em brotar na parede. A cada sete dias, o tempo dilatava. Beatriz contava os segundos, não pela liberdade que viria a longo prazo, mas pelo instante em que o portão de ferro rangia, sinalizando a visita da manhã. A dignidade, ali dentro, não se mede pelo que se tem, já que quase tudo é confiscado na revista de entrada, mas pela capacidade de reconhecer a própria voz em meio ao barulho dos guardas e aos gritos abafados de outras alas.

— Bia, o café hoje veio ralo de novo. — Disse Valéria, a companheira de cela que passava os dias fazendo crochê com barbantes desfiados de uniformes velhos. — Mas tem um pedaço de pão que sobrou. Quer?

Beatriz balançou a cabeça negativamente. A náusea matinal era sua companheira fiel. Ela ajeitou o elástico do cabelo, sentindo os fios rebeldes e secos pela água salobra do banho. O preconceito lá fora, das pessoas que viam o crime como uma mancha irreversível, era sentido ali dentro como uma constante reafirmação de que elas haviam perdido o direito ao nome próprio.

 Eram números de matrícula em arquivos mofados.

O momento mais difícil chegava com a entrega das cartas. A escrita era o único fio condutor entre seu mundo entre paredes e a infância que,  teimosamente, ela tentava preservar na mente dos filhos. Escrever para eles exigia um esforço exaustivo de tradução: como explicar a ausência sem usar a palavra "prisão"? Como falar de amor sem mencionar o cheiro do ferro?

Beatriz pegou o papel ofício amassado. A tinta da caneta esferográfica azul parecia brilhar no ambiente fosco. “Querido Léo, a mamãe está estudando muito aqui. Em breve, a gente vai se ver, e eu quero que você me conte tudo sobre aquele

desenho de dinossauro que você fez.” Ela parou por um instante, a mão tremendo quase imperceptivelmente. A lágrima que ameaçava cair foi contida com um piscar rápido. Chorar na frente das outras seria ceder terreno; ali, a fraqueza era uma moeda de troca perigosa.

Na hora do pátio, o sol de São Luís batia forte no pátio cimentado. O contraste entre o céu azul aberto e as grades que cortavam a visão era uma ferida visual. Beatriz caminhava em círculos, tentando manter a coluna ereta. A dignidade, ela descobriu, era uma postura física. Encurtar os ombros era aceitar a derrota.

— Eles perguntaram por você na escola? — Perguntou Valéria, caminhando ao seu lado.

Beatriz olhou para os próprios pés calçados com chinelos encardidos.

— A minha sogra diz que eu mudei de cidade para trabalhar. Não aguento a ideia deles acharem que eu os abandonei. — Confessou Beatriz, a voz mal saindo da garganta. — O abandono é uma marca. A prisão é só um erro. Se eles me enxergarem como uma mulher que falhou, mas que ainda é mãe, isso é tudo o que me mantém sã.

 A contagem de presas, o jantar servido às quatro da tarde sob o olhar indiferente dos agentes, as revistas vexatórias que pareciam buscar apenas quebrar a última camada de privacidade que restava. Beatriz observava as mulheres ao redor. Algumas haviam se entregado,  deixado o cabelo cair, o olhar vidrado. Outras, como ela, forjavam pequenas resistências. Dividiam o sabonete, repartiam a notícia da família, criavam uma rede de afeto que tornava a sobrevivência algo minimamente suportável.

Naquele dia, a visita aconteceu. O calor aumentou a intensidade dos corpos aglutinados no parlatório.

Quando viu a sogra entrar segurando a mão de Léo, Beatriz sentiu seu coração acelerar. A criança parecia crescida, sua camisa azul estava levemente suja de terra, sinal de que ele ainda corria e brincava. O vidro que as separava parecia uma barreira intransponível, um espelho sujo que distorcia a realidade do carinho.

— Oi, mamãe! — Gritou o menino, encostando a mão pequena no vidro.

Beatriz não pôde abraçá-lo. Encostou a palma da mão no mesmo lugar.

— Oi, meu amor. Você está lindo. A vovó disse que você está aprendendo a ler?

Enquanto conversavam sobre dinossauros e a escola, Beatriz percebeu o olhar da sogra, um misto de julgamento e pena, a sentença que ela carrega diariamente. Ali, diante da inocência do filho, Beatriz teve a clareza definitiva: o sistema podia confinar seu corpo, podia privá-la da luz solar direta, podia tentar apagar sua identidade com um número de matrícula, mas não tinha autorização para apagar o vínculo materno.

Aquela conexão era seu território inalienável. A criança ao lado de fora era a prova de que ela continuava sendo uma mulher, uma mãe, alguém que ainda se importava com as minúcias da vida cotidiana, independentemente da cor da parede ou da rigidez do portão que a separava da liberdade.

Quando a campainha soou indicando o fim da visita, ela não se esgotou. Observou o menino sair, segurando a mão da avó, e guardou a imagem daquele movimento com a precisão de quem armazena água no deserto. Ao voltar para a cela, o som metálico das chaves e a batida das grades não soaram como uma sentença de fim, mas como o compasso de uma espera. Beatriz sentou-se novamente no beliche. Pegou o pedaço de pão que, poucas horas antes, ela se recusara a comer. Desta vez, aceitou. Precisava de força.

Amanhã seria um novo dia, e ela teria novas palavras para escrever para o Léo, mantendo, entre as grades e o concreto, a dignidade de quem ainda tem um lugar reservado no mundo lá fora. Cada dia ali era um degrau a menos para a sua reconstrução, um exercício de sobrevivência que exigia uma mente intacta e um coração teimoso o suficiente para não deixar que a ferrugem do sistema ganhasse a batalha final contra sua humanidade.

José Casanova 

Professor, Jornalista, Escritor e Cronista 

Membro da Academia Bacabalense de Letras

Academia Mundial de Letras da Humanidade 

domingo, 21 de junho de 2026

CRÔNICA DO DIA: Matracas que Choram


Não existe música que se compare ao sotaque de matraca da Ilha de São Luís. Não se trata de uma melodia que se convida para ouvir, mas de uma força telúrica que se impõe sobre o peito. Quando as centenas de pares de madeira roxa começam a se encontrar, num choque seco, preciso, brutal, o ar se torna denso, físico. É um som que não entra apenas pelos ouvidos; ele caminha pelos poros, sobe pela coluna e encontra o ritmo cardíaco, forçando o sangue a correr na mesma cadência dos batalhões.

Para os moradores da Ilha, o som da matraca é o batimento do próprio coração da terra, o eco que nos une àqueles que, séculos atrás, descobriram que, na falta de metais ou materiais luxuosos, a madeira das matas e o couro dos tambores bastariam para entoar o lamento e a exaltação de um povo inteiro.

No centro da roda, Mestre Nonato no auge dos seus 59 anos, observava os seus com o rigor de um general. À sua volta, nada menos que duzentos brincantes, dispostos em fileiras perfeitas. Eles não eram apenas vizinhos; eram engrenagens de um relógio ancestral.

- Tio, me ajuda a tocar ? – Pediu uma criança de 12 anos com um par de matracas na mão.

Nonato interrompeu a missão e ensinou a criança o ritmo das matracas. O menino erra o compasso.

- Assim filho! – Exemplifica Nonato como um maestro que rege uma orquestra.

O menino retribui com um sorriso baixadeiro. Em poucos segundos o jovem brincante entrava no ritmo e se perdia na multidão.

Neste instante Nonato percebeu que seu primo Raimundo fazia caretas de dor, tentando esconder as bolhas nas mãos. Achou melhor levar Raimundo até as Mutucas para ajudá-lo.

Um copo de mingau ajudou a aliviar a fome antes de começar a cantoria.

Quando a voz do puxador de toadas rasgou o silêncio com o primeiro verso, a resposta não veio em notas musicais, mas no golpe coletivo e ensurdecedor das madeiras. Tá-tá. Tá-tá. Tá-tá. É um som que chora e celebra no mesmo instante, uma ferida aberta que se fecha na palma da mão de quem bate.

A força das matracas é medida pela resiliência. Depois de uma hora de toque ininterrupto, as mãos começam a formigar, o suor corre pelo cabo de madeira tornando a empunhadura escorregadia, e o esforço nos ombros se torna uma queimação persistente. Mas ninguém para.

O sotaque da Ilha exige esse sacrifício porque é, na base, uma memória de resistência. Cada pancada na madeira é um lembrete de que a tradição se mantém não pelo luxo, mas pela repetição exaustiva e sagrada de um gesto que não se permite esquecer. É o choro das matracas que entoa a epopeia de quem não nasceu em berço de ouro, mas que, na arena do Bumba-meu-boi, assume a majestade de reis e rainhas do próprio destino.

As vozes que completam o ritmo são milhares, uma massa sonora que se projeta para além dos telhados e das ruas de asfalto. Quando o batalhão canta em uníssono, o som da matraca serve como o pulsar que impede que a multidão se disperse.

O ritmo frenético cria um vácuo, um centro de gravidade para onde convergem todos os olhares, medos e alegrias daquela gente. É hipnótico. É impossível estar diante de um sotaque de matraca e permanecer indiferente; o corpo convida-se a balançar, a render-se ao compasso que não deixa espaço para o silêncio.

Muitos jovens que crescem nos bairros periféricos de São Luís têm a sua primeira lembrança de mundo ligada a esse som. Antes de aprenderem as primeiras letras na escola, aprendem a bater a matraca na cadência do mestre. É uma escola de vida, onde se aprende que o indivíduo é nada sem o batalhão, e o batalhão é nada sem o ritmo compartilhado.

A matraca ensina a disciplina que a vida nega. Ensina que, para o som sair perfeito, não basta bater forte; é preciso bater junto. No erro de um, desafina-se o todo. Nesse compromisso absoluto com o coletivo, a comunidade se fortalece, criando um laço indissolúvel que garante que, enquanto o som das matracas pairar sobre a Ilha, ninguém estará verdadeiramente sozinho.

À medida que a noite avançava, o som se intensificava em um crescendo épico. O suor de centenas de pessoas levantava do terreiro sob a forma de uma bruma fina que refletia os lampiões de luz fraca. As mãos dos brincantes, calejadas e firmes, pareciam prolongamentos naturais daqueles pedaços de madeira roxa.

Eram mãos que construíam casas, que pescavam nos mangues, que limpavam escritórios e que, durante as noites de junho, transformavam-se em instrumentos de percussão capazes de invocar os ancestrais. O choro da matraca era, na verdade, uma risada de felicidade; era a celebração da própria existência, o grito coletivo de quem sabe que, ao bater daquela forma, está reafirmando sua identidade diante de um mundo que, lá fora, tanto faz questão de ignorar.

Quando o toque final finalmente estalou no ar, um silêncio absoluto e pesado desabou sobre o terreiro. Foi um instante de suspensão, como se a própria Ilha prendesse a respiração em reverência ao que havia acabado de acontecer. Os brincantes, ofegantes, olhavam uns para os outros com a certeza de quem acabara de cumprir um dever sagrado.

Não eram apenas pessoas que haviam passado horas batendo madeira; eram testemunhas da força de um povo que, através de um instrumento tão simples quanto potente, conseguia desafiar o tempo e reafirmar, noite após noite, que o eco de sua história jamais seria silenciado enquanto houvesse alguém disposto a levantar as mãos e fazer a Ilha inteira vibrar sob o pulsar de suas matracas.

José Casanova
Professor, Jornalista, Escrittor e Crônista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade



segunda-feira, 18 de maio de 2026

CRÔNICA DO DIA: A Máscara de São Luís


O espelho do banheiro da repartição pública, no coração do Centro Histórico de São Luís, devolvia a Marina uma imagem que ela mal reconhecia. O rosto estava perfeitamente composto: um batom discreto, os cabelos cacheados domados por um prendedor elegante e um sorriso ensaiado que ela praticara no reflexo do elevador. Mas, por trás daquela vitrine de funcionalidade, Marina sentia que suas engrenagens internas estavam moendo areia.

Ela tinha trinta e seis anos e um diagnóstico recente de TDAH, acompanhado de uma bagagem pesada de ansiedade generalizada e episódios cíclicos de depressão. Em São Luís, uma cidade que transborda espontaneidade e barulho, a vida de Marina era uma coreografia de contenção.

— Você está ótima, Marina. O relatório está pronto, a reunião foi um sucesso — Sussurrou para si mesma, inspirando o ar úmido que subia do mar e se infiltrava pelas janelas coloniais do casarão onde funcionava seu setor.

O problema não era a competência. O problema era o masking. Para o mundo corporativo e social da Ilha, Marina era a profissional focada, a colega que nunca perdia um prazo. Ninguém via o esforço monumental que ela fazia para não se perder em devaneios durante as falas dos diretores, ou a exaustão física que sentia ao final do dia por ter passado oito horas controlando seus tiques nervosos e forçando um contato visual que lhe parecia invasivo e doloroso.

A máscara social era sua armadura, mas também sua cela.

Ao voltar para sua mesa, o som das conversas paralelas e o clique-clique incessante dos teclados começaram a perfurar sua paciência. A umidade de São Luís parecia pesar dez quilos sobre seus ombros. Marina sentia a ansiedade subindo como a maré da Baía de São Marcos: lenta, inevitável e sufocante.

— Marina, o pessoal vai tomar um sorvete ali na Rua do Giz depois do expediente. Você vem? — Perguntou Ricardo, um colega de trabalho sempre entusiasmado.

— Ah, Ricardo... hoje não vai dar. Tenho muita coisa para organizar em casa. — Mentiu ela, com a precisão de quem já domina a arte da evasão.

A verdade era que o reservatório de energia social de Marina estava abaixo da reserva. Ir ao sorvete significaria mais duas horas de máscara, mais duas horas de risadas calculadas e monitoramento constante da própria postura. Ela precisava do seu "casulo", o apartamento pequeno onde as luzes eram baixas e o silêncio era a única língua permitida.

Ao sair do trabalho, caminhou pelas ruas de paralelepípedos. O pôr do sol dourava os casarões, e o som de um saxofone vindo de uma galeria próxima tentava seduzi-la a ficar. São Luís é uma cidade que exige presença, que convida ao encontro. No entanto, para Marina, cada interação era um gasto de energia que ela não tinha. A depressão não se manifestava nela como uma tristeza profunda e melodramática, mas como uma apatia cinzenta, um descarregamento total da bateria da alma.

"Por que eu não posso simplesmente ser como eles?", pensava ela, observando um grupo de turistas rindo alto perto do Palácio dos Leões. "Por que para mim tudo é um cálculo? Por que o mundo parece ter o volume no máximo e eu não encontro o controle remoto?"

O peso da máscara começou a machucar o rosto invisível de sua mente. Adultos neurodivergentes, especialmente mulheres que passaram décadas sem diagnóstico, frequentemente desenvolvem quadros graves de ansiedade porque passaram a vida tentando se encaixar em moldes que não foram feitos para suas formas. Marina era o resultado dessa pressão interna. Ela era a excelência construída sobre os escombros da própria saúde mental.

Ao chegar em casa, a rotina de descompressão começou. Ela jogou as chaves na tigela, tirou os sapatos e sentou-se no chão da sala, no escuro. O choro veio sem aviso. Não era um choro de dor súbita, mas de alívio por poder, finalmente, soltar os músculos da face. Ali, ninguém exigia que ela fosse "normal". Ali, seus pensamentos podiam saltar de um lado para o outro sem precisar de uma conclusão lógica imediata.

A ansiedade, porém, ainda sussurrava em seu ouvido, enumerando as tarefas de amanhã, prevendo possíveis falhas, revisando conversas de hoje para ver se ela não tinha soado "estranha". A neurodivergência na vida adulta é um jogo de sombras. É lutar contra o preconceito dos outros e contra o próprio autojulgamento, a sombra que insiste em dizer que o cansaço é preguiça e a necessidade de isolamento é falta de afeto.

Marina levantou-se e foi até a janela. Lá fora, São Luís brilhava com as luzes dos postes e o reflexo da lua na água. Ela percebeu que a máscara era um recurso de sobrevivência, mas que não podia ser sua única pele. A inclusão real, que ela tanto lia nos portais de direitos das pessoas com deficiência e neurodivergentes, precisava começar dentro de si mesma.

— Amanhã. — Disse ela para a noite. — Eu vou levar meus fones de ouvido para o trabalho. Vou explicar que o barulho me atrapalha a concentrar.

Pode parecer um gesto pequeno, mas para quem viveu trinta e seis anos fingindo que o mundo não a machucava, admitir uma sensibilidade era um ato de coragem suprema. Era começar a tirar a máscara, peça por peça, e permitir que a Marina real, com seus silêncios, suas inquietações e sua criatividade fragmentada, pudesse respirar o ar úmido da Ilha sem sentir que estava se afogando.

A máscara de São Luís seria guardada na gaveta. Marina sabia que a depressão e a ansiedade não desapareceriam da noite para o dia, mas aceitar que seu cérebro tinha um ritmo diferente era o primeiro passo para que aquelas patologias deixassem de ser sua identidade. Ela era Marina. Ela era neurodivergente. E ela tinha o direito de habitar a cidade sem ter que representar um papel que não fora escrito para ela.

Naquela noite, o sono veio mais fácil. A ansiedade baixou como a maré, deixando na areia de sua mente as conchas de uma nova consciência. Ela não precisava ser normal; ela precisava ser apenas real. E a realidade, tal qual os casarões de sua cidade, podia ter rachaduras e azulejos faltando, mas ainda assim guardava uma beleza e uma dignidade que nenhum disfarce jamais conseguiria igualar.

Ela uma mulher que aprendera a respirar sem o peso de um sorriso forçado. E isso, por si só, já era uma vitória monumental contra o silêncio que o mundo insiste em impor aos que percebem a vida em outras frequências.


José Casanova 

Professor, Jornalista, Escritor e Cronista

Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade


domingo, 17 de maio de 2026

CRÔNICA DO DIA: A Assembleia dos Poetas de Ontem


   A noite em São Luís não é feita apenas de trevas; é tecida por fios invisíveis de maresia e história. Eu estava no sótão do casarão herdado de minha avó, na Rua do Sol, tentando terminar o terceiro capítulo do meu romance cyberpunk ambientado na Baixada Maranhense. A tela do laptop brilhava com uma luz azulada, fria, contrastando com o calor úmido que entrava pela janela ogival.

    Meus dedos voavam sobre o teclado, criando palavras que não existiam: "O neuroribamar conectou-se à rede manguezalica, fazendo o upload de sua consciência para a nuvem de babaçu."

    Sorri. "Neuroribamar". Achava genial. "Manguezalica". Uma fusão perfeita entre ecossistema e fibra ótica.

    De repente, a temperatura no sótão caiu. Não foi uma brisa. Foi um frio seco, de biblioteca antiga. O cheiro de maresia foi substituído por um odor forte de naftalina e rapé.

    Olhei para o canto escuro onde ficava uma estante de jacarandá. Ali, materializando-se a partir da poeira e das sombras, estavam três figuras translúcidas. O primeiro usava uma sobrecasaca puída e tinha olheiras profundas. O segundo, um monóculo e um bigode encerado. O terceiro, mais jovem, tinha o olhar febril dos tísicos românticos.

    — "Neuroribamar"? — A voz do primeiro ecoou como se viesse de dentro de um poço. Era Odorico Mendes. — Que aberração lexicológica é esta, jovem?

    Tentei fechar o laptop, mas minhas mãos estavam congeladas. Reconhecir o visitante de uma foto da Biblioteca Pública Benedito leite.

    — É... é um neologismo, Mestre Odorico. Uma atualização do arquétipo local para a era digital.

    — Neologismo? — O segundo fantasma, Aluísio Azevedo, aproximou-se, flutuando sobre o assoalho. Ele olhou para a tela com desprezo. — Isso não é neologismo. Isso é preguiça. "Manguezalica"? Por que não descrever a complexidade das raízes, o lodo fértil, a sinuosidade dos caranguejos? Você prefere inventar uma palavra oca a sujar as mãos na descrição da realidade?

    — Mas a realidade mudou! — Defendi-me, com a voz trêmula. — Hoje tudo é rápido. O leitor não tem paciência para o naturalismo detalhista.

    O terceiro fantasma, Gonçalves Dias, suspirou. O som foi como o vento nas palmeiras.

    — A paciência não é do leitor, meu filho. É da terra. — Ele apontou para a janela, para a escuridão onde se adivinhava a silhueta das palmeiras. — "Minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá." Simples. Direto. Eterno. Você escreve "nuvem de babaçu". O babaçu não é nuvem. É coco. É quebra. É óleo. É trabalho. Você transformou a substância da vida em um termo técnico sem alma.

    Senti vergonha. Aqueles homens, que ergueram a "Atenas Brasileira" com a força de seus versos e a precisão de sua prosa, estavam ali para julgar minha modernidade. Eles não eram contra o novo; eram contra o vazio.

    — Mas eu quero inovar... — murmurei.

    — Inovar não é mutilar a língua! — Rebateu Odorico, ajustando a gola da sobrecasaca. — Eu traduzi Homero e Virgílio. Tive que dobrar o português para caber no hexâmetro grego. Mas nunca desrespeitei a raiz da palavra. "Neuroribamar"... Isso é um insulto a São José de Ribamar, o padroeiro! É reduzir a fé e a tradição a um chip!

    Aluísio Azevedo sentou-se na beira da minha mesa, atravessando uma pilha de contas pagas.

    — Ainda bem que você pelo menos paga as contas. O problema, rapaz, é que vocês hoje acham que a tecnologia substitui a metáfora. Vocês criam palavras-valise, aglutinam substantivos com prefixos estrangeiros, e acham que fizeram literatura. Literatura é carne e sangue. É o cheiro do mulato, é o barulho do cortiço, é a ambição humana nua e crua. Onde está o sangue no seu "upload"?

    Gonçalves Dias colocou a mão fantasmagórica em meu ombro. Senti um frio que queimava. Tinha o cheiro de saudade.

    — Não estamos aqui para te proibir de escrever sobre o futuro. O Maranhão sempre olhou para além do mar. Mas não esqueça de onde você pisa. Se você quer que seu "neuroribamar" voe, ele precisa ter raízes no chão de São Luís. Ele precisa comer juçara antes de conectar o cabo. Ele precisa ter medo de careta de Cazumbá , antes de ter medo de vírus de computador.

    Os três se entreolharam. Pareciam cansados. A eternidade devia ser exaustiva, especialmente quando se passava o tempo corrigindo a gramática dos vivos.

    — Apague!!! — Ordenou Odorico. — Apague essa "nuvem de babaçu". Escreva que a informação flui como o Rio Anil na maré cheia: barrenta, perigosa e vital. Use o que é nosso. A tecnologia muda, a geografia da alma maranhense, não.

    Com um gesto solene, eles começaram a desvanecer sem dirarem os olhos de mim. O cheiro de naftalina diminuiu, dando lugar novamente à maresia. A temperatura subiu.

    Fiquei sozinho diante da tela. "Neuroribamar". A palavra agora parecia ridícula, um brinquedo de plástico no meio de uma sala de antiguidades valiosas.

    Selecionei o parágrafo. Deletei.

    Respirei fundo, sentindo o ar pesado da noite. Comecei a digitar novamente, mas desta vez, com respeito.

    "O homem, com a mente conectada a cabos que lembravam raízes de mangue, sentiu a informação subir por sua espinha como a maré de setembro. Não era uma nuvem; era um alagado de dados, denso e escuro, onde memórias nadavam como peixes cegos no lodo da história."

    Li em voz alta. Soava melhor. Soava como São Luís. 

    Lá fora, um sabiá cantou, ignorando a hora tardia. Pensei que fosse coisa de Gonçalves . Talvez fosse um sinal de aprovação. Ou talvez, apenas a natureza seguindo seu curso, indiferente às nossas tentativas desajeitadas de aprisioná-la em palavras, fossem elas arcaicas ou neológicas. O importante, aprendi naquela noite, não era inventar o futuro, mas garantir que o passado tivesse lugar nele. A tradição não é uma âncora que prende o barco; é o lastro que impede que ele vire na tempestade da modernidade. E meu barco, agora, navegava mais firme.


José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade