A UNEGRO APOIA O BLOG DIÁRIO DO MEARIM

PONHA AQUI A PROPAGANDA DE SUA EMPRESA

Roberto Costa é eleito presidente da FAMEM para o biênio 2025/2026

FAMEN coloca Bacabal e Roberto Costa em evidência

Flamengo pode ter mudança diante do Bangu em São Luís

Técnico Cléber do Santos pode apostar em trio de ataque nesta noite no Castelão.

Sessão Solene na Câmara Municipal de Bacabal Celebra o Dia Internacional da Mulher

Vereadoras Nathália Duda e Regilda Santos conduzem Sessão Solene

Mostrando postagens com marcador VIDRO. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador VIDRO. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

CRÔNICA DO DIA:O Vidro no Topo

O ar condicionado da sala de reuniões no vigésimo andar do edifício mais imponente de São Luís soprava um gelo artificial, perfeitamente alinhado com a frieza dos olhares que aguardavam a entrada de Helena. Ela ajustou o blazer de alfaiataria, a postura impecável e o passo firme, ciente de que, naquela mesa, a competência nunca seria o único critério de avaliação. Como CEO da maior empresa de logística da região, Helena estava acostumada a prever variáveis de mercado e a gerir crises, mas os cinco homens sentados ao redor da mesa oval representavam uma constante que as planilhas jamais conseguiam calibrar: a convicção absoluta deque ela era apenas um acidente de percurso no topo da hierarquia.

A reunião era sobre a expansão multimodal para o Porto do Itaqui. Era o projeto da vida de Helena, desenhado em cada pormenor, testado e validado.

Ao  abrir a pasta de couro e deslizar os gráficos pelo centro da mesa, o silêncio que se formou não foi de admiração, mas de uma espera calculada.

— Helena.  — A voz de Marcelo, um dos diretores mais antigos, soou com aquele tom de condescendência que ela aprendera a identificar como um alarme. — O plano está ambicioso. Contudo, precisamos considerar se a diretoria está pronta para um movimento tão... agressivo. Talvez devêssemos esperar o próximo trimestre e deixar que o board principal, em São Paulo, revise estes números.

Ele não a olhou nos olhos. Olhou para o lado, para o seu par, num gesto calculado de desautorização.

Helena sentiu o peso do vidro no topo; não era apenas a arquitetura do prédio, mas o teto de cristal invisível que ela batia todos os dias. A solidão do cargo não vinha apenas das decisões difíceis, vinha de ter que explicar o óbvio e de ver suas palavras serem esvaziadas de autoridade pelo simples fato de serem ditas por uma mulher.

— O board de São Paulo já aprovou o orçamento preliminar, Marcelo.  — Helena respondeu, a voz equilibrada, sem permitir que a indignação tremulasse o tom. — A expansão não é uma escolha agressiva, é uma necessidade operacional. Se esperarmos, perderemos o timing da concessão portuária. Onde exatamente o seu desconforto reside? Nos números ou na minha condução?

O silêncio ficou mais denso. As palavras pronunciadas em inglês demarcam território na empresa. Um dos diretores, mais jovem, tossiu, desconfortável com a franqueza da pergunta. O machismo, ali, não vestia o traje de uma ofensa explícita; ele se escondia atrás de "precauções" e "estratégias conservadoras" que nunca eram exigidas quando o CEO era um homem. Se ela falasse com firmeza, era mandona ou emocional. Se falasse com calma, era subestimada.

— Não leve para o pessoal. — Retrucou outro, o mais velho da mesa, com um sorriso de dentes brancos que não alcançava os olhos. — Estamos apenas olhando pelo bem da empresa. A senhora sabe como o setor de infraestrutura é um ambiente...peculiar. Talvez, para esta negociação específica, fosse melhor enviarmos uma comissão com mais experiência em campo.

Experiência. A palavra soou como um eco de todos os anos que Helena passou construindo aquela estrutura, acumulando certificações e enfrentando lobbies que eles nunca ousaram encarar. Ela sabia que, se cedesse à comissão, seu projeto seria desmantelado em pequenas partes até que ela perdesse o controle sobre a execução final. A solidão de Helena era feita de saber que, naquele ambiente, qualquer hesitação seria interpretada como fraqueza de gênero.

Ela fechou a pasta de couro com um movimento seco, um estalo que cortou a tensão da sala.

— Pois bem. Já que a minha "experiência" parece ser o foco da preocupação, vamos fazer o seguinte: a decisão final sobre a comissão será tomada pelo conselho amanhã, às nove da manhã. E, para que não haja dúvidas, levarei comigo o relatório técnico que prova que, nos últimos três anos, sob minha gestão, a margem de erro deste setor caiu vinte por cento, enquanto as comissões anteriores, compostas pelos senhores, tiveram perdas anuais na casa dos dois dígitos.

Ela se levantou, a postura inabalável. O impacto na sala foi imediato; o desconforto mudou de dono.

Eles não estavam acostumados a serem confrontados com fatos frios por uma mulher que não se desculpava pelo próprio sucesso. Marcelo a acompanhou com o olhar, uma mistura de irritação e, talvez, um vislumbre fugaz de respeito que ele não sabia como processar.

Helena saiu da sala e atravessou o saguão silencioso em direção ao seu gabinete. O vidro que separava seu escritório da vista panorâmica de São Luís parecia magnificar o tamanho do desafio.

Ao fechar a porta do gabinete, Helena permaneceu alguns segundos imóvel, como se o silêncio daquele espaço precisasse de tempo para acomodá-la. Caminhou até a mesa, pousou a pasta de couro com cuidado e soltou o ar que, durante toda a reunião, parecera preso entre os ombros.

Sentou-se devagar. Descalçou os sapatos de salto e apoiou os pés descalços sobre o tapete. Com movimentos discretos, massageou os tornozelos marcados pela pressão de um dia inteiro em pé, percorrendo com os dedos as pequenas marcas avermelhadas deixadas pelo couro. Não havia ninguém para testemunhar aquele instante de cansaço, e talvez fosse justamente por isso que ele lhe parecia tão verdadeiro.

O celular vibrou sobre a mesa. Ela o pegou esperando, por um breve impulso, encontrar alguma mensagem que não tratasse de planilhas, cronogramas ou contratos.

A tela se iluminou. Havia notificações sobre fornecedores, uma solicitação do conselho, dúvidas do setor financeiro, lembretes de reuniões e atualizações do projeto do Porto do Itaqui.

Helena percorreu todas elas com o polegar. Nenhuma dizia simplesmente:

"Como você está?"

Ela sorriu de leve, não por alegria, mas pelo reconhecimento silencioso de uma solidão que aprendera a administrar havia muito tempo. Respirou fundo, calçou novamente os sapatos e endireitou o blazer. Nesse instante, alguém bateu à porta. A CEO voltou a ocupar seu lugar antes mesmo de responder:

— Pode entrar.

Ela estava exausta. A jornada para chegar até ali não havia sido composta apenas de metas batidas, mas de uma luta constante para não ter a própria voz silenciada pela conveniência do patriarcado corporativo.

Ela sentou-se na cadeira giratória e olhou para a cidade lá embaixo, pequena e distante.

A solidão no topo não era algo que ela pudesse compartilhar com os diretores que ficaram na sala, nem com a família, que mal compreendia o nível de desgaste daquela linha de frente. Era uma solidão de quem precisa ser, permanentemente, dez vezes mais eficiente para ser considerada apenas "boa".

Mas, enquanto observava o pôr do sol tingir o rio Anil, ela percebeu que a sua autonomia valia aquele custo. Ela tinha o controle financeiro, o poder estratégico e a competência técnica. E, mais importante, tinha o privilégio de ter destruído o conforto de quem esperava que ela fosse apenas uma peça decorativa na engrenagem. Amanhã, às nove, ela não estaria apenas defendendo um projeto; estaria mantendo a porta aberta para que outras, ao ocuparem sua cadeira, encontrassem menos vidro e mais chão onde pisar.

José Casanova 
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista 
Membro da Academia Bacabalense de Letras 
Academia Mundial de Letras da Humanidade