O ar condicionado da sala de reuniões no vigésimo andar do
edifício mais imponente de São Luís soprava um gelo artificial, perfeitamente
alinhado com a frieza dos olhares que aguardavam a entrada de Helena. Ela
ajustou o blazer de alfaiataria, a postura impecável e o passo firme, ciente de
que, naquela mesa, a competência nunca seria o único critério de avaliação.
Como CEO da maior empresa de logística da região, Helena estava acostumada a prever
variáveis de mercado e a gerir crises, mas os cinco homens sentados ao redor da
mesa oval representavam uma constante que as planilhas jamais conseguiam
calibrar: a convicção absoluta deque ela era apenas um acidente de percurso no
topo da hierarquia.
A reunião era sobre a expansão multimodal para o Porto do
Itaqui. Era o projeto da vida de Helena, desenhado em cada pormenor, testado e
validado.
Ao abrir a pasta de
couro e deslizar os gráficos pelo centro da mesa, o silêncio que se formou não
foi de admiração, mas de uma espera calculada.
— Helena. — A voz de
Marcelo, um dos diretores mais antigos, soou com aquele tom de condescendência
que ela aprendera a identificar como um alarme. — O plano está ambicioso. Contudo,
precisamos considerar se a diretoria está pronta para um movimento tão...
agressivo. Talvez devêssemos esperar o próximo trimestre e deixar que o board
principal, em São Paulo, revise estes números.
Ele não a olhou nos olhos. Olhou para o lado, para o seu
par, num gesto calculado de desautorização.
Helena sentiu o peso do vidro no topo; não era apenas a
arquitetura do prédio, mas o teto de cristal invisível que ela batia todos os
dias. A solidão do cargo não vinha apenas das decisões difíceis, vinha de ter
que explicar o óbvio e de ver suas palavras serem esvaziadas de autoridade pelo
simples fato de serem ditas por uma mulher.
— O board de São Paulo já aprovou o orçamento preliminar,
Marcelo. — Helena respondeu, a voz equilibrada,
sem permitir que a indignação tremulasse o tom. — A expansão não é uma escolha agressiva,
é uma necessidade operacional. Se esperarmos, perderemos o timing da concessão portuária.
Onde exatamente o seu desconforto reside? Nos números ou na minha condução?
O silêncio ficou mais denso. As palavras pronunciadas em
inglês demarcam território na empresa. Um dos diretores, mais jovem, tossiu, desconfortável
com a franqueza da pergunta. O machismo, ali, não vestia o traje de uma ofensa
explícita; ele se escondia atrás de "precauções" e "estratégias
conservadoras" que nunca eram exigidas quando o CEO era um homem. Se ela
falasse com firmeza, era mandona ou emocional. Se falasse com calma, era
subestimada.
— Não leve para o pessoal. — Retrucou outro, o mais velho
da mesa, com um sorriso de dentes brancos que não alcançava os olhos. — Estamos
apenas olhando pelo bem da empresa. A senhora sabe como o setor de
infraestrutura é um ambiente...peculiar. Talvez, para esta negociação
específica, fosse melhor enviarmos uma comissão com mais experiência em campo.
Experiência. A palavra soou como um eco de todos os anos
que Helena passou construindo aquela estrutura, acumulando certificações e
enfrentando lobbies que eles nunca ousaram encarar. Ela sabia que, se cedesse à
comissão, seu projeto seria desmantelado em pequenas partes até que ela perdesse
o controle sobre a execução final. A solidão de Helena era feita de saber que,
naquele ambiente, qualquer hesitação seria interpretada como fraqueza de
gênero.
Ela fechou a pasta de couro com um movimento seco, um
estalo que cortou a tensão da sala.
— Pois bem. Já que a minha "experiência" parece
ser o foco da preocupação, vamos fazer o seguinte: a decisão final sobre a
comissão será tomada pelo conselho amanhã, às nove da manhã. E, para que não
haja dúvidas, levarei comigo o relatório técnico que prova que, nos últimos
três anos, sob minha gestão, a margem de erro deste setor caiu vinte por cento,
enquanto as comissões anteriores, compostas pelos senhores, tiveram perdas
anuais na casa dos dois dígitos.
Ela se levantou, a postura inabalável. O impacto na sala
foi imediato; o desconforto mudou de dono.
Eles não estavam acostumados a serem confrontados com fatos
frios por uma mulher que não se desculpava pelo próprio sucesso. Marcelo a acompanhou
com o olhar, uma mistura de irritação e, talvez, um vislumbre fugaz de respeito
que ele não sabia como processar.
Helena saiu da sala e atravessou o saguão silencioso em
direção ao seu gabinete. O vidro que separava seu escritório da vista
panorâmica de São Luís parecia magnificar o tamanho do desafio.
Ao fechar a
porta do gabinete, Helena permaneceu alguns segundos imóvel, como se o silêncio
daquele espaço precisasse de tempo para acomodá-la. Caminhou até a mesa, pousou
a pasta de couro com cuidado e soltou o ar que, durante toda a reunião,
parecera preso entre os ombros.
Sentou-se devagar. Descalçou os sapatos de
salto e apoiou os pés descalços sobre o tapete. Com movimentos discretos,
massageou os tornozelos marcados pela pressão de um dia inteiro em pé,
percorrendo com os dedos as pequenas marcas avermelhadas deixadas pelo couro.
Não havia ninguém para testemunhar aquele instante de cansaço, e talvez fosse
justamente por isso que ele lhe parecia tão verdadeiro.
O celular vibrou sobre a mesa. Ela o pegou
esperando, por um breve impulso, encontrar alguma mensagem que não tratasse de
planilhas, cronogramas ou contratos.
A tela se iluminou. Havia notificações sobre
fornecedores, uma solicitação do conselho, dúvidas do setor financeiro,
lembretes de reuniões e atualizações do projeto do Porto do Itaqui.
Helena percorreu todas elas com o polegar. Nenhuma
dizia simplesmente:
"Como você está?"
Ela sorriu de leve, não por alegria, mas pelo
reconhecimento silencioso de uma solidão que aprendera a administrar havia
muito tempo. Respirou fundo, calçou novamente os sapatos e endireitou o blazer.
Nesse instante, alguém bateu à porta. A CEO voltou a ocupar seu lugar antes
mesmo de responder:
— Pode entrar.
Ela estava exausta. A jornada para chegar até ali não havia
sido composta apenas de metas batidas, mas de uma luta constante para não ter a
própria voz silenciada pela conveniência do patriarcado corporativo.
Ela sentou-se na cadeira giratória e olhou para a cidade lá
embaixo, pequena e distante.
A solidão no topo não era algo que ela pudesse compartilhar
com os diretores que ficaram na sala, nem com a família, que mal compreendia o
nível de desgaste daquela linha de frente. Era uma solidão de quem precisa ser,
permanentemente, dez vezes mais eficiente para ser considerada apenas
"boa".
Mas, enquanto observava o pôr do sol tingir o rio Anil, ela
percebeu que a sua autonomia valia aquele custo. Ela tinha o controle
financeiro, o poder estratégico e a competência técnica. E, mais importante,
tinha o privilégio de ter destruído o conforto de quem esperava que ela fosse
apenas uma peça decorativa na engrenagem. Amanhã, às nove, ela não estaria
apenas defendendo um projeto; estaria mantendo a porta aberta para que outras,
ao ocuparem sua cadeira, encontrassem menos vidro e mais chão onde pisar.
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade









