A tela do monitor era a única janela de paz em um escritório
que insistia em ser barulhento, brilhante e caótico. Para Thainara, a linguagem
de programação não era um conjunto de instruções; era uma partitura, uma
estrutura lógica imutável que fazia sentido em um mundo frequentemente
desprovido de padrão. Ali, no centro da sala da empresa de logística em
Chapadinha, o ar condicionado emitia um zumbido de alta frequência que ela
sentia como um aguilhão nos dentes, mas o código fluía organizado, quase
geométrico, em tons de azul e cinza escuro.
— Thainara, você vai para o almoço com a gente? O pessoal
do comercial está indo naquele restaurante novo. — Perguntou Ricardo, um dos gerentes de projeto,
parando atrás da sua cadeira sem avisar.
Thainara sentiu o sobressalto no peito, uma descarga elétrica
que quase a fez derrubar a caneca de chá. O toque físico, ou a simples proximidade inesperada era uma invasão de território que desestabilizava
todo o seu processamento sensorial.
— Não posso. Tenho a sprint de infraestrutura para finalizar
até as duas. E o ruído daquele lugar me impede de processar informações. — Ela
respondeu, os olhos ainda fixos no cursor que piscava, pulsando como um
batimento cardíaco.
— Sabe, Thainara, você precisa ser mais flexível, mais social.
A empresa é um time. Se você se isola assim, as pessoas acham que você é...
bom, que não quer fazer parte. — Ele
insistiu, com aquele tom de quem tentava oferecer uma dica de ouro, embora o conselho
fosse, para ela, como tentar explicar a cor azul para quem nunca enxergou.
Thainara não respondeu mais. O "código do
sossego" que ela buscava não estava no software, mas na necessidade
desesperada de que o ambiente externo tivesse uma sintaxe compreensível. Para o
restante do escritório, o café com colegas era um momento de relaxamento; para
ela, era um campo minado de pistas sociais implícitas, metáforas ambíguas,
luzes fluorescentes irritantes e nuances de voz que ela não conseguia decifrar
em tempo real. O excesso de dados, o
perfume forte, o tilintar de garfos, o sarcasmo nas entrelinhas das conversas, sobrecarregava
seu processamento.
Ela voltou a digitar. Suas mãos moviam-se com uma precisão
que nenhum dos colegas que a julgavam "rígida" conseguia imitar. Enquanto
eles perdiam horas em reuniões improdutivas onde se falava muito e se decidia
quase nada, Thainara havia mapeado o
gargalo do sistema em trinta minutos.
Ela via os padrões do fluxo de dados com uma clareza que,
para ela, era a norma, mas que o ambiente corporativo rotulava como
excentricidade.
O preconceito não vinha de agressões óbvias, mas da
constante tentativa de "consertá-la". Queriam que ela fosse mais
sociável, que suportasse o volume das conversas, que fingisse interesse pelas piadas
de rodapé. Eram ordens para que ela abandonasse o seu modo de ser, que era, em
última análise, o que lhe conferia a excelência técnica.
Em um intervalo, quando todos haviam descido para a reunião
semanal no pátio descoberto, Thainara ficou só. Ela fechou os olhos e respirou
fundo, tentando apagar a reverberação dos estímulos.
Tirou o
celular do bolso. Abriu um aplicativo ainda sem nome. Na tela aparecia a planta
baixa do prédio da empresa, dividida por cores. Ela caminhou lentamente pelo
corredor. Parou ao lado da impressora. Encostou o telefone na parede.
Esperou alguns segundos. Na tela surgiu um
gráfico.82 decibéis.
Ela digitou:
"Ruído contínuo. Vibração perceptível.
Permanência máxima recomendada: dez minutos."
Seguiu até a copa. As lâmpadas de LED
refletiam diretamente no piso branco. Ela fotografou o ambiente e anotou:
"Luminosidade intensa. Reflexo excessivo
nas superfícies."
Depois entrou na sala de reuniões. Mesmo
vazia, o ar-condicionado produzia um zumbido constante. Ela fechou os olhos por
um instante. Registrou mais uma observação.
"Frequência aguda contínua. Pode causar
fadiga sensorial prolongada."
Salvou os dados. No canto da tela apareceu um
pequeno mapa colorido.
Verde.
Amarelo.
Vermelho.
Os ambientes começavam a ganhar contornos que
ninguém mais parecia perceber.. Talvez um dia aquele mapa ajudasse outra pessoa
a entrar em um prédio sem precisar travar uma batalha invisível contra sons,
luzes e estímulos que o restante do mundo chamava apenas de rotina.
Em seu computador, ela abriu uma pasta oculta: era um projeto
pessoal, um aplicativo que ela estava desenvolvendo para mapear acessibilidade sensorial
em prédios públicos da região. Não era apenas sobre si mesma; era sobre criar
um mundo onde a lógica pudesse coexistir com a diversidade.
Quando a porta se abriu e Ricardo retornou, encontrando-a
em silêncio absoluto diante da tela, ele suspirou, balançando a cabeça.
— Bia, sério... é só uma conversa. Não precisa ser tão
literal.
Ela virou a cadeira. Sua voz era calma, equilibrada, desprovida
de qualquer carga emocional que ele pudesse explorar futuramente contra ela.
— Eu não sou "literal" por escolha, Ricardo. Eu
sou precisa. E quando dizemos que a empresa valoriza resultados, mas pune quem
não se adequa à norma social, estamos, na verdade, dizendo que o único resultado
que importa é o conformismo. Eu não vendo conformismo. Eu resolvo problemas de sistemas.
Ricardo
permaneceu imóvel, desde que entrara na
sala, parecia procurar as palavras com o mesmo cuidado que Thainara escolhia
cada linha de código.
Passou a mão pela nuca. Desviou os olhos para
a janela. Depois voltou a encará-la.
— Eu... achei que estava ajudando.
A frase saiu baixa, sem a segurança habitual
de quem conduzia reuniões e distribuía tarefas. Thainara sustentou o olhar. Não
havia irritação. Nem triunfo. Apenas cansaço.
— Eu sei.
Ricardo franziu a testa.
Ela continuou:
— É justamente esse o problema. As pessoas acham que ajudam
quando tentam transformar alguém na versão delas mesmas. Mas acolher não é
corrigir. É entender que nem toda inteligência organiza o mundo do mesmo jeito.
Ricardo permaneceu em silêncio, não procurava
uma resposta. Procurava compreender uma pergunta que nunca havia feito.
O silêncio que seguiu foi denso. Ricardo parecia não saber
como reagir ao código lógico que ela acabara de apresentar. Thainara sabia que
seria vista como a "difícil", a "estranha do setor de TI",
a mulher que não entendia o jogo social.







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