sexta-feira, 7 de agosto de 2026

CRÔNICA DO DIA: O Código do Sossego

 

A tela do monitor era a única janela de paz em um escritório que insistia em ser barulhento, brilhante e caótico. Para Thainara, a linguagem de programação não era um conjunto de instruções; era uma partitura, uma estrutura lógica imutável que fazia sentido em um mundo frequentemente desprovido de padrão. Ali, no centro da sala da empresa de logística em Chapadinha, o ar condicionado emitia um zumbido de alta frequência que ela sentia como um aguilhão nos dentes, mas o código fluía organizado, quase geométrico, em tons de azul e cinza escuro.

— Thainara, você vai para o almoço com a gente? O pessoal do comercial está indo naquele restaurante novo.  — Perguntou Ricardo, um dos gerentes de projeto, parando atrás da sua cadeira sem avisar.

Thainara sentiu o sobressalto no peito, uma descarga elétrica que quase a fez derrubar a caneca de chá. O toque físico,  ou a simples proximidade inesperada  era uma invasão de território que desestabilizava todo o seu processamento sensorial.

— Não posso. Tenho a sprint de infraestrutura para finalizar até as duas. E o ruído daquele lugar me impede de processar informações. — Ela respondeu, os olhos ainda fixos no cursor que piscava, pulsando como um batimento cardíaco.

— Sabe, Thainara, você precisa ser mais flexível, mais social. A empresa é um time. Se você se isola assim, as pessoas acham que você é... bom, que não quer fazer parte.  — Ele insistiu, com aquele tom de quem tentava oferecer uma dica de ouro, embora o conselho fosse, para ela, como tentar explicar a cor azul para quem nunca enxergou.

Thainara não respondeu mais. O "código do sossego" que ela buscava não estava no software, mas na necessidade desesperada de que o ambiente externo tivesse uma sintaxe compreensível. Para o restante do escritório, o café com colegas era um momento de relaxamento; para ela, era um campo minado de pistas sociais implícitas, metáforas ambíguas, luzes fluorescentes irritantes e nuances de voz que ela não conseguia decifrar em tempo real. O excesso de dados,  o perfume forte, o tilintar de garfos, o sarcasmo nas entrelinhas das conversas, sobrecarregava seu processamento.

Ela voltou a digitar. Suas mãos moviam-se com uma precisão que nenhum dos colegas que a julgavam "rígida" conseguia imitar. Enquanto eles perdiam horas em reuniões improdutivas onde se falava muito e se decidia quase nada, Thainara  havia mapeado o gargalo do sistema em trinta minutos.

Ela via os padrões do fluxo de dados com uma clareza que, para ela, era a norma, mas que o ambiente corporativo rotulava como excentricidade.

O preconceito não vinha de agressões óbvias, mas da constante tentativa de "consertá-la". Queriam que ela fosse mais sociável, que suportasse o volume das conversas, que fingisse interesse pelas piadas de rodapé. Eram ordens para que ela abandonasse o seu modo de ser, que era, em última análise, o que lhe conferia a excelência técnica.

Em um intervalo, quando todos haviam descido para a reunião semanal no pátio descoberto, Thainara ficou só. Ela fechou os olhos e respirou fundo, tentando apagar a reverberação dos estímulos.

Tirou o celular do bolso. Abriu um aplicativo ainda sem nome. Na tela aparecia a planta baixa do prédio da empresa, dividida por cores. Ela caminhou lentamente pelo corredor. Parou ao lado da impressora. Encostou o telefone na parede.

Esperou alguns segundos. Na tela surgiu um gráfico.82 decibéis. Ela digitou:

"Ruído contínuo. Vibração perceptível. Permanência máxima recomendada: dez minutos."

Seguiu até a copa. As lâmpadas de LED refletiam diretamente no piso branco. Ela fotografou o ambiente e anotou:

"Luminosidade intensa. Reflexo excessivo nas superfícies."

Depois entrou na sala de reuniões. Mesmo vazia, o ar-condicionado produzia um zumbido constante. Ela fechou os olhos por um instante. Registrou mais uma observação.

"Frequência aguda contínua. Pode causar fadiga sensorial prolongada."

Salvou os dados. No canto da tela apareceu um pequeno mapa colorido.

Verde.

Amarelo.

Vermelho.

Os ambientes começavam a ganhar contornos que ninguém mais parecia perceber.. Talvez um dia aquele mapa ajudasse outra pessoa a entrar em um prédio sem precisar travar uma batalha invisível contra sons, luzes e estímulos que o restante do mundo chamava apenas de rotina.

Em seu computador, ela abriu uma pasta oculta: era um projeto pessoal, um aplicativo que ela estava desenvolvendo para mapear acessibilidade sensorial em prédios públicos da região. Não era apenas sobre si mesma; era sobre criar um mundo onde a lógica pudesse coexistir com a diversidade.

Quando a porta se abriu e Ricardo retornou, encontrando-a em silêncio absoluto diante da tela, ele suspirou, balançando a cabeça.

— Bia, sério... é só uma conversa. Não precisa ser tão literal.

Ela virou a cadeira. Sua voz era calma, equilibrada, desprovida de qualquer carga emocional que ele pudesse explorar futuramente contra ela.

— Eu não sou "literal" por escolha, Ricardo. Eu sou precisa. E quando dizemos que a empresa valoriza resultados, mas pune quem não se adequa à norma social, estamos, na verdade, dizendo que o único resultado que importa é o conformismo. Eu não vendo conformismo. Eu resolvo problemas de sistemas.

Ricardo permaneceu imóvel,  desde que entrara na sala, parecia procurar as palavras com o mesmo cuidado que Thainara escolhia cada linha de código.

Passou a mão pela nuca. Desviou os olhos para a janela. Depois voltou a encará-la.

Eu... achei que estava ajudando.

A frase saiu baixa, sem a segurança habitual de quem conduzia reuniões e distribuía tarefas. Thainara sustentou o olhar. Não havia irritação. Nem triunfo. Apenas cansaço.

Eu sei.

Ricardo franziu a testa.

Ela continuou:

É justamente esse o problema. As pessoas acham que ajudam quando tentam transformar alguém na versão delas mesmas. Mas acolher não é corrigir. É entender que nem toda inteligência organiza o mundo do mesmo jeito.

Ricardo permaneceu em silêncio, não procurava uma resposta. Procurava compreender uma pergunta que nunca havia feito.

O silêncio que seguiu foi denso. Ricardo parecia não saber como reagir ao código lógico que ela acabara de apresentar. Thainara sabia que seria vista como a "difícil", a "estranha do setor de TI", a mulher que não entendia o jogo social.

    Mas, enquanto voltava para as linhas de comando, sentindo a estabilidade matemática do software sob seus dedos, ela não se importou. O sossego que a empresa não lhe dava, ela reconstruía ali mesmo, linha por linha, provando para si mesma que a sua forma de ver o mundo, embora desafinada com a coreografia caótica do escritório, era a música mais coerente naquela caixa de concreto. Ela estava ali, em Chapadinha, entre as engrenagens de um sistema que a subestimava, construindo o seu próprio refúgio de funcionalidade e verdade imperturbável frente à expectativa de quem, em sua cegueira social, chamava de defeito o que, na verdade, era a sua mais pura e extraordinária forma de lucidez.

José Casanova 
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista 
Membro da Academia Bacabalense de Letras 
Academia Mundial de Letras da Humanidade 

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