terça-feira, 30 de junho de 2026

CRÔNICA DO DIA: O Duelo entre a Gramática e a Voz

 

Na praça central de Bacabal, o sol já tinha decretado trégua e a lua começava a subir por trás da torre da Igreja de Santa Teresinha. O povo se aglomerava em um círculo imperfeito, atraído não por milagres, mas por uma briga de palavras que prometia ser mais sangrenta que briga de faca. De um lado, ajustando o nó de uma gravata borboleta que parecia estrangular seu pescoço fino, estava o Professor Aderbal, gramático emérito, autor de três manuais de sintaxe e terror de gerações de alunos do Colégio Nossa Senhora dos Anjos. Do outro, com um chapéu de couro puído e uma viola que parecia extensão de seu braço, estava Chico Timbira, repentista cuja fama corria o Mearim mais rápido que notícia ruim.

O tema do duelo fora sorteado por uma menina da plateia: "A Língua do Povo".

Aderbal tomou a frente, pigarreando como se fosse iniciar uma aula magna. Ergueu o dedo indicador, rígido como uma régua.

Nobre auditório, peço vênia e atenção,

Para expor com clareza a correta dicção.

A língua é um templo, sagrado e formal,

Não se deve macular com gíria de quintal.

Sujeito e predicado em nupcial harmonia,

Seguindo a norma culta, a luz da sabedoria.

Quem fala 'nós vai' comete um pecado mortal,

Pois fere a concordância, o pilar gramatical!

Houve aplausos tímidos, vindos principalmente das professoras aposentadas que ocupavam os bancos da frente. Aderbal sorriu, satisfeito com sua defesa da pureza linguística.

Chico Timbira nem se mexeu. Apenas dedilhou a viola, tirando um acorde menor que soou como um lamento zombeteiro. Olhou para o professor com a paciência de quem ensina o caminho da roça a um doutor perdido.

Seu doutor fala bonito, com a boca cheia de dente,

Mas esquece que a língua é bicho vivo e quente.

O povo não pede licença pra dizer o que sente,

O 'nós vai' chega mais rápido, atropela o presente.

Sua gramática é cerca de arame farpado,

Prende o boi no pasto, deixa o verso amarrado.

Mas minha viola é vento, pulando o cercado,

E a fala do povo corre solta, sem pecado!

A plateia explodiu. Risos, assobios. Um homem gritou:

- Eita, que o violeiro deu um nó na gravata do professor!

Aderbal sentiu o rosto queimar. Aquilo era uma afronta à lógica. A língua não podia ser "bicho solto". Sem regras, haveria o caos. Sem a norma, como diferenciaríamos a barbárie da civilização?

Ele respirou fundo e contra-atacou, buscando refúgio nos clássicos.

Citas o vento, ó bardo de estrada e poeira,

Mas esqueces Camões, a nossa grande bandeira!

A língua de Lusa não é feita de asneira,

Exige estudo, suor e labuta inteira.

Seu verso é improviso, carece de estofo,

É como casa de taipa, de barro e de mofo.

A minha sintaxe é pedra, alicerce robusto,

E teu linguajar chulo me causa só susto!

Chico Timbira riu alto, um som que ecoou na praça.

Camões era caolho, mas enxergava longe,

Não ficava trancado rezando como monge.

Ele viveu no mar, na guerra, na confusão,

A língua dele tinha sal, sangue e paixão.

O senhor quer prender a palavra no dicionário,

Fazer dela museu, coisa de antiquário.

Mas a palavra quer rua, quer feira, quer bar,

Quer ser dita errada pra poder se misturar!

O povo vibrava. Aderbal percebeu que estava perdendo o terreno. Sua lógica cartesiana não tinha poder contra a força telúrica do repente. A gramática era uma ferramenta de exclusão; o repente era uma festa de inclusão.

Misturar é confundir! — gritou Aderbal, perdendo a métrica e a compostura. — É nivelar por baixo! É destruir o patrimônio!

Chico Timbira parou a viola. O silêncio caiu pesado. Ele se aproximou do professor, olhando-o nos olhos.

Doutor, patrimônio é o que o povo guarda no peito,

Não o que tá no livro, mofando no leito.

A língua só morre quando ninguém mais a usa,

E o senhor tá matando ela com esse nó na gravada.

Solta o nó da gravata, deixa o verbo correr,

Que a gramática serve pra gente se entender,

Mas na hora do aperto, do choro e do riso,

A gente fala como o coração pede, sem juízo.

Com um último acorde rasgado, Chico encerrou o duelo. A praça inteira aplaudiu, não apenas o vencedor, mas a verdade que ele cantara. Aderbal ficou ali, parado, sentindo o peso de seus manuais e a leveza insuportável da língua viva que o cercava.

- Seu Chico eu  tenho uma admiração secreta por vocês violeiros. – Admitiu o professor.

-E eu pelos professores, mas não tive oportunidade de estudar. – Respondeu chico.

- Quero te confessar uma coisa. – Afirmou Aderbal.

- Diga meu amigo letrado. -  . Pediu o violeiro.

- Meu avô falava igualzinho o senhor.

Silêncio.

- Então o senhor já conhecia essa língua desde menino.

 Ambos sorriram. Lentamente, Aderbal levou a mão ao pescoço e afrouxou o nó da gravata.



José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista

Membro da Academia Bacabalense de Letras


Academia Mundial de Letras da Humanidade

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