sábado, 27 de junho de 2026

CRÔNICA DO DIA: O Rufar de Guimarães


Em Guimarães, o pulsar da terra não vem do choque ritmado das matracas nem do brilho polido dos metais. Ele nasce de um trovão contido, um som de gravidade profunda que parece vir diretamente do solo revolvido pelo arado e da umidade das matas que circundam a região. É o rufar das grandes zabumbas. Quando o sotaque de zabumba se apresenta, o ouvinte não é apenas convidado a dançar; ele é solicitado a sentir a vibração das raízes rurais, aquela força primordial que sustenta o Maranhão. O som da zabumba é, acima de tudo, o som do coração de um homem sem artifícios, uma lembrança constante de que antes da cidade, antes do asfalto, havia apenas o homem, o couro e o tambor.

O brincante que carrega a zabumba em Guimarães não apenas a sustenta; ele a domina com o corpo inteiro. É uma arte de elegância rústica. O instrumento, grande e imponente, exige uma postura altiva. Enquanto o couro é esticado pelos aros, o músico entra em uma conexão imediata com o ritmo que dita o balanço dos vaqueiros.

Diferente da rapidez febril de outros sotaques, a zabumba de Guimarães impõe um andamento cadenciado, um "chão", como dizem os antigos, que exige que o dançarino coloque o pé no solo com convicção. Não há espaço para frivolidades coreográficas; cada passo deve ser sólido, reafirmando o pertencimento àquela terra que, por séculos, foi nutrida pela enxada e pela fé.

Há uma beleza crua na forma como as grandes zabumbas se entrelaçam com os tambores mais agudos, criando uma polifonia de frequências que parece narrar a própria história do campo. É um ritmo que fala da colheita, da espera pela chuva, da lida com o gado que se dispersa nos grandes pastos da região.

Nos arraiais de Guimarães, o som das zabumbas não apenas acompanha o boi; ele o fundamenta. Ele confere ao boi uma dignidade terrena. Quando a zabumba ruge, o boi não parece um objeto decorado, mas uma criatura viva que emerge das entranhas da mata, trazendo consigo o aroma da terra molhada e a sabedoria dos que vivem à margem das grandes metrópoles.
Os tocadores de zabumba em Guimarães são figuras quase míticas, homens de ombros largos que parecem ter absorvido a própria resistência do instrumento. Para eles, não há diferenciação entre o trabalho do dia e o toque da noite.

A força usada durante o trabalho da roça é a mesma que em algumas horas depois, se converte em compasso, marcando o tempo da toada com precisão cirúrgica. A elegância rústica desses músicos está na ausência de floreios desnecessários. Eles tocam com a sobriedade de quem sabe que o que é essencial não precisa de exageros para ser eterno. Naquele rufar constante, há um convite para que o público também se reencontre com suas origens simples, com a pureza do trato com os elementos.

Ao observar a dança que se forma ao redor das zabumbas em Guimarães, percebe-se um tipo diferente de transe. Não é o delírio elétrico, mas uma entrega contemplativa. Os casais de dançarinos, com seus trajes que equilibram a sobriedade rural com a beleza das fitas coloridas, giram em volta da orquestra de tambores como se estivessem orbitando um sol particular.

Há um respeito silencioso no ar; quando a zabumba sobe o tom, a roda se abre, os ombros se inclinam e o peito estufa em sinal de reverência. É o encontro do povo com o seu passado sem intermediários.

À medida que a madrugada avança nas praças guimaranence, o rufar das zabumbas torna-se o único som capaz de vencer o silêncio da noite rural. Ele ecoa pelos campos, alcança as copas das palmeiras e faz estremecer a alma dos que, do lado de fora, param para escutar a força daquela marcação.

É uma música que, apesar de antiga, permanece jovem pela força com que é executada por cada nova geração. Em Guimarães, a zabumba garante que ninguém se esqueça de onde veio. Enquanto aquele som profundo continuar a ditar a cadência da vida, a raiz rural do Maranhão permanecerá como uma árvore forte, cujos galhos podem até se curvar sob as intempéries do tempo, mas cujas raízes, alimentadas pelo rufar constante das zabumbas, encontrarão sempre o caminho de volta para a luz, para a terra e para a celebração da existência que, no final das contas, é o boi, a alma e a própria vida a pulsar em uníssono sob o céu de junho.

José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Crônista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade

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